Ramo magro será
Sentaram-se e serviu ao convidado uma cerveja, conversaram então de velhos amigos e amigas, viagens de outrora e condições disparatadas da sociedade moderna. Vangloriaram obras cinematográficas recentes ao mesmo tempo em que cagaram o pau e desceram a lenha noutras, de fato, na grande maioria. Concluíram que é a exceção que salva a humanidade. Trocaram entre si referências de boas leituras e outras intelectualidades da mídia eletrônica, dando graças à santa pirataria que permite aos seres humanos de bom coração educar-se nas mais finas artes da história, ciência, música e filosofia. Concordaram que grande parte das grandes obras da humanidade podem ser hoje acessadas no arcabouço irreal da sociedade digital, acessíveis em um clique de mause, mas não sem antes pisar e esmagar as ordens e os direitos dos autores e das grades companhias. Por que os artistas precisam ser assim milionários, pergunta o primeiro, Pois que não precisam, concorda o segundo em meio a novos cliques torrenciais e mais teletransferências de arquivos com obras clássicas e distintas da experiência humana, Ah, se todas essas obras estivessem ao alcance da população, solta um deles, quão melhor e mais educado não seriam todos os humanos, Idiotice sua, retoma o outro, quantas coisas não há nas televisões gratuitas de bom e delicioso para a alma enquanto os zumbis continuam assistindo globalidades e tendo seus cérebros lavados por comerciais, jogos estúpidos e outras amenidades deseducativas, e continuou enfático, não vê que o mundo está perdido, e repetiu ainda com amargura, não vê que o mundo está perdido, perdido, Será que está apenas hoje ou que sempre assim esteve, questiona-se o primeiro, estas guerras e artimanhas dos mais poderosos a iludir e ludibriar os mais simples sempre estiveram em alta e fazem parte da história da humanidade desde seus primórdios, nossos primórdios, portanto não se pode hoje dizer que os tempos mudaram, senão em alguns poucos aspectos, Poucos porém relevantes, ressalta o outro, veja a internet por exemplo quanto não fez em difundir e divulgar a informação, veja a wikipédia com seus verbetes gratuitos, livres e instrutivos, eis a nova versão Enciclopaedia de Diderot, hoje gratuita e ao alcance de todos os seres, em qualquer buraco deste mundo velho e sem porteiras, Esquece-se que apenas a versão em inglês é verdadeiramente completa e recheada de informações, esquece-se também que nossa população infelizmente ainda mal compreende a língua de Saramago, esquece-se da assim chamada exclusão digital, Eis mais uma verdade, quão desigual não é este mundo, exclama. Dentre goles esparsos de uma saborosa cerveja continuam os humanos a discutir sobre as inequalidades de sua época e de épocas passadas que almejarão resolver em vão até o fim de suas vidas mas que, nem por isso, desistirão. Outra das mais vagabundas ideias que tenho ouvido ultimamente é esta de que a natureza humana nos condiciona a isso ou àquilo, continua o primeiro, não acredito que haja de fato nenhuma natureza humana que senão aquela que eles mesmos criam para si, Espere, interrompe o outro, é claro que há, pois se somos indivíduos de uma mesma espécie biológica, símios que se ascenderam nas savanas africanas, se viemos de uma mesma e única população ancestral e se temos determinado conteúdo genético e de DNA como reza a ciência, temos sim uma natureza em comum, Ora, a natureza biológica temos sim em comum, tomo isso por certo, o que não gosto é que se diga que não podemos ou não poderíamos, não devemos ou não deveríamos ir contra esta tal natureza se quiséssemos ou quisermos construir melhores civilizações ou melhores gentes, Diz-se que este é o grande erro dos socialistas, acreditar que podemos ser o que não nos é feito a ser dada nossa constituição enquanto espécie, e é também o teu que o repete e que não compreende que a humanidade é feita de guerras e conflitos e grandes e pequenos, contenta-te talvez em ser grande e assim não precisar comer o pão amassado pelo capeta, como faz a que aqui te limpa a casa. Segundos de silêncio se fizeram e então veio a resposta daquele que era contrário ao chamado darwinismo social, Posto que o homem, eis o que penso, o homem tem sim, OK, sua natureza biológica e está também na base de nossa biologia o conflito, mas a cultura por vezes supera e sobrepuja a biologia, veja por exemplo o caso de um sujeito que nasce com o ouvido absoluto, capaz de distinguir perfeitamente nota por nota ao longo de seis ou sete oitavas, imagine que se toque um si e pergunte ao indivíduo que nota se tivera tocado e ele dirá Si sem titubear, imagine que este Mozart da nova geração, nascido hoje quiçá, jamais terá tido a possibilidade de tocar um mero instrumento musical, que nunca lhe se tenha dado a oportunidade de aprender a arte da regência e a escrita musical, suponha que tenha vivido como carpinteiro por falta de outro ofício e que, ainda por cima, tenha sido péssimo nesta profissão, parou assim um pouco e foi interpelo pelo outro, quente da discussão, E o que isso tem a ver, Acalme-se que ainda não cheguei lá, mas chegarei, pense agora aquele que de sangue tem fome e do conflito se alimenta, aquele que nasce com o calor da disputa e da guerra dentro de seu coração ou mente ou alma, chame como quiser, imagine que este facínora jamais seja capaz de empunhar uma arma, jamais leia ou saiba ou discuta ou compreenda a violência, imagine que não existam mais armas de fogo no mundo e que os exércitos não mais lutem com mísseis ou tanques, que não lutem em absoluto, que a própria ideia da guerra fosse abolida dos escritos humanos, os livros queimados, a história re-escrita, um duplipensar que viria para o bem, para libertar e salvar os humanos dos auto-lobo que são os próprios e continuam a ser ao longo das gerações, Imagino sim senhor e consigo até conceber tal ideal visionário de uma maneira assim utópica, mais ainda imaginária inclusive do que o socialismo que se deu em Marx e que se implodiu ideologicamente no regime estalinista, milhões de mortos contra o regime, acredite, não há saída para a guerra do humano para com o humano, Nego-me em crer nestas tuas palavras e quero continuar pensando que há saída e há jeito e há razão e há possibilidade de paz para o humano em todas as suas crenças e ideias e poesias do bem viver, É belo em teu pensar, mas inocente em teu viver e em teu argumentar, o mundo de verdade não pode ser teorizado em palavras idealistas como a dos filósofos alemães de outrora que embora virtuosas negaram o empirismo e a nossa observação do que efetivamente acontece aqui e ali, todo o lugar onde os humanos habitam e brigam e desentendem-se, Não há então lugar para mim neste mundo de guerras sem paz, de lutas e desrespeito e desinteligências mil, não há lugar para quem preze e ame o ser humano, há apenas lugar para aqueles que a tudo planejem destruir e subjugar, há apenas lugar para eles, para o Trocadilo, para os maus-caráteres e tudo o quanto houver de ruim neste mundo, Agora já também exagera em seu drama argumentativo, Exagerarei enquanto senti, posto que de exageros são os sentimentos humanos por vezes estropiados em mentes insanas que sequer são capazes de tecer argumentos depois de argumentos e então se perdem, perdendo então não só a si como a suas almas e ao bem comum que se espera do homem para o homem: este ramo magro do que jamais será.
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