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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

20.8.09

A torradeira

A garota acordou cedo naquele dia. Era do tipo regrada, gente que não tem dessas coisas de dormir tarde ou chegar atrasado no trabalho. Levantou-se da cama e este seu levantar foi daqueles que deixa qualquer narrador sem fôlego. Vestia apenas calcinha e sutiã, e todos os seus movimentos pareciam regados por baldes de charme líquido. Tinha pele branca e olhos de um amarelo claro-e-cinzento como os do gato. Olhos que de tão claros pareciam torná-la de certa forma mística, misteriosa, mágica. Era um ser humano do tipo meio gente, meio gato. A felina ronronou ainda mais um pouco na cama, espreguiçou-se toda enquanto dava um bom bocejo e, assim, deu seu dia como iniciado. Seus movimentos, entretanto, naqueles instantes entre sono e vigília extasiavam o poeta invisível que a observava em toda sua delicadeza e graça. Virou o lençol, trazendo à luz suas pernas nuas e o tal do poeta não conseguiu pensar em mais nada durante o momento em que ela remexia seu corpo atraente e semi-nu até se levantar e, de pé, espreguiçar mais uma vez, terminando o movimento dos braços com um alongamento daqueles do yoga. Tirou-lhe uma foto mental, o poeta que não a observava, e esta foto guardou em seus arquivos mentais. Jamais lhe esqueceria.

Os momentos que se seguiram descrever-se-á sem detalhes, posto que tamanho lirismo não cabe em forma de palavras. Precisar-se-ia estar ali a observar sua graça em se despir e entrar no banho, toda cuidadosa que era com seu próprio e belo corpo. Ao se ensaboar, tocava-se de uma forma doce e charmosa, encantadora. Era mulher de bem com a vida e com seu corpo; era um único ímpeto de charme ligeiramente adocicado, exatamente na medida do gosto do poeta pelo açúcar feminino. Enrolou-se na toalha e assim mesmo dirigiu-se à cozinha de seu pequeno apartamento estudantil a preparar o café. Todos seus movimentos eram de uma tranquilidade e calma que só tem aquele que é oriundo das mais altas castas sociais. Fazia tudo sem nenhuma pressa e aproveitava cada momento e instante que vivia. Sua vida era toda prazer. E este pensamento embebia simplesmente toda a raiz de seu charme como mulher.

Água para ferver, vai agora ao quarto e veste um conjunto limpo de lingerie; conjunto clássico como clássica era a mulher. E então volta à cozinha posto que o café já ferveu. O pão. O pão coloca na torradeira. O pão. E quanto então coloca-o no local apropriado e abaixa o mecanismo de torrar lembra-se dele. Ah, o rapaz. Por um instante o rapaz é a torradeira e ela faz a mais charmosa das poses a apertar o botão: liga. Ela foi apaixonada por ele que agora se foi, que agora vai bem longe, oceanos de distância. Ele despertou-lhe um certo lirismo que ia perdido sem lugar dentro de si. Chegou a pensar em fugir com ele, em largar tudo e todos: estudo, trabalho, família, noivo. Se proposta lhe tivesse feito, proposta teria aceitado. E hoje não estaria mais ali tendo que acordar cedo para ir a um trabalho que, se por um lado não a desgostava, por outro não tinha jamais como lhe dar o prazer assim monstruoso que a presença dele a seu lado a trouxera. A paixão. A paixão é um ser complexo, completo. Um ser espiritual que preenche as pessoas e que entra dentro delas para mostrar-lhes tão claramente o que é o saber aproveitar da vida e do estar vivo. Essa paixão que tinha não era diretamente por ele, ali representado pela torradeira, porém era um sentimento que por ele era catalisado de forma inexplicável. Há seres, diriam talvez os místicos antigos, capazes de canalizar a energia do bem estar do mundo e trazê-la assim à tona, à todo instante, de toda a forma. Tais seres são veículos do amor e do bem estar e o mundo. De fato, le monde deveria ser feito inteiro deste tipo de gente.

Assustou-se quando o pão pulou, torrado. Tinha ido tão longe em sua lembrança daquele que doara para si o eletrodoméstico que foi apenas este susto que a tirou da pose-de-fotografia que ainda fazia ao lembrar-se dele e de sua graça. Comeu e vestiu-se. Com a roupa, era uma outra pessoa. Clássica porém moderna. Adaptada a este mundo do ter-que-fazer e ter-que-ser. Mundo sem liberdade, onde a liberdade é a liberdade que convém para os outros, não a liberdade que convém a si mesmo. Engoliu seco, o mundo. Sentiu um certo desconforto, mas manteve-se de pé. E quando atravessou o portão do lirismo, estava de novo inserida no mundo-cão. Agora era pensar no transporte, no problema, no chefe, no projeto, no mundo e no noivo. Por vezes durante o dia tinha náuseas, ânsia de vômito pela ação de outros, mesquinharia e hipocrisia. Pensava querer viver eternamente no mundo lírico. Mas para isso, precisaria encontrá-lo. Onde estaria? Quereria entrar com ela num mundo só deles? Ah, quereria. Sabia disso porque olhara certa vez em seus olhos e tudo isso lera lá dentro, bem no fundo. Mas seu mundo, sua criação, sua história, as coisas que esperavam dela. Não teria jamais a coragem de abandonar tudo aquilo. Ou teria? Ah, que vontade. Ah, que vontade!

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12.8.09

A verdadeira face do tempo

Não tinha cansaço nem tipo, ódio ou ranço, cegueira ou perfeição. Era um misto de tudo e de todos, cultura encarnada que se faz viver por maneira qualquer de seguir uma linha que lhe havia sido imposta. Linha esta que, de mais a mais, motivos não tinha para a interromper; nem mesmo vontade. A única interrupção possível, de fato, seria esconder-se de tudo e de todos nalgum interior longínquo e desabitado, onde poderia gritar conta tudo e todos e não ser afetado pela reação oriunda de sua ação; na física ideológica do mundo moderno. Para tomar tal atitude, entretanto, seria necessária extrema coragem e bastante desapego; características que lhe faltavam. Seguia porque seguir era o caminho: decisão única possível dadas as atuais conjecturas.

Duvidava antes de tudo. De certas coisas, porém, mais que de outras; e constantes dúvidas ideológicas deixavam-lhe sempre à beira de encruzilhadas. Em certos momentos seguia um caminho convicto, cabeça à frente, olho ao horizonte, pé-ante-pé; direto e preciso. Mas dava sempre de cara com portas cerradas, vigiadas por pontos de interrogação gigantescos que atacavam-lhe a alma com lanças e espadas das mais pontiagudas. Psicologicamente ferido e perdido, retornava até a última encruzilhada através do mais próximo atalho. E quando então dava por si percebia que o número de caminhos a seguir havia se multiplicado ainda mais. A grande interrogação o observava. Via como outros ao seu redor haviam seguido certos caminhos e que agora estavam bem consigo e com o mundo, isso lhe apontava ideais a seguir e assim supostas ideais a abraçar; até que encontrasse novamente com a porta cerrada e a tal da interrogação vestida em trajes de guerra. O caminho de cada um, realizara, era diferente. Continuava em busca do seu, indo e voltando, por vezes andando em círculos e sem jamais ter qualquer convicção. Sejamos precisos, nosso personagem estava perdido. Questionava-se não apenas sobre o mundo e sua essência, questionava-se não apenas sobre as idéias e suas direções, questionava-se não apenas sobre a existência, mistério cartesiano ainda não resolvido. Questionava apenas e as questões eram sua tanto sua arma quanto seu algoz neste mundo tão distante da Atenas pré-cristã. Este herdeiro de Sócrates duvidava mesmo de seu mestre e ao questionar suas questões acabava por ver-se num labirinto sem saída que só trazia ainda mais e mais dúvidas e faltas de sentidos. Em Sartre buscava somente conforto, jamais respostas. Lia os grandes e dividia com eles suas dúvida e pesar, mas sabia que não chegaria jamais em suas alturas. De fato, temia um dia conseguir poder e fama; escondia-se tanto quanto podia e dava tiros no pé ao longo de sua carreira profissional para manter-se escondido. O que queria mesmo era poder brincar e pular, queria era poder ser criança todo dia e toda hora. Era este seu desejo último, e em seu íntimo arrependia-se do dia em que decidira ser adulto. O tiquetaquear do relógio, porém, deste mundo subdesenvolvido; o avançar das horas e a força do capital corre-corre seguiam oprimindo-lhe e matando-lhe, sugavam-lhe alma e sangue, oprimiam sua luta pela vida e sua vontade de viver; aquela sua vontade de seguir e sorrir, sua vontade de amar e ser um só com seu amor. Sentia-se um prisioneiro da sociedade e seu sonho era ser um dia livre, tendo todas as vinte-e-quatro horas de seu dia para si.


À razão, nosso herói venerava tal qual deusa, mas sabia que não era onipotente ou onisciente. Sabia da artificialidade destes conceitos. Via assim suas limitações e falhas, mesmo assim não a abandonava, seguindo com ela pelas beiradas dos montes do saber, tomando sempre cuidado para não cair ou não afundar no excesso da verborragia científica e técnica; instrumentos dotados de enormes antolhos. Sabia que o mundo era mais do que isso que os humanos conseguiam compreender e, embora lhes desse enorme crédito por tudo o que haviam feito, descreditava-lhes sua arrogância dawkiniana em pensar que tudo fosse mesmo assim; e ponto final. Apenas na arte era capaz de explorar-se e explodir-se, embora fosse ainda limitado por todo esse ensinamento careta do mundo, todo esse representar e classificar foucaulniano, tão falso e tão falho, tão útil e tão inútil, tão certo e tão pequeno, simples, ignóbil e assimesmo: belo.

Da humanidade tinha pena e orgulho. Mais pena. Bastante orgulho. Sua herança ocidental e miscigenada era latente e seu sentimento de unidade para com o mundo era contínuo, forte, vigoroso. Via com certa clareza, talvez enganada, os benefícios e malefícios de uma cultura intelectual que se afastava a passos largos da simplicidade assim tão agradável da vida do animal humano. Somos nós os algozes de nossa própria preocupação capitalista, lobos de nós mesmos é o que somos, Mister Hobbes. Do que mais precisa o homem que alimentação e amor? Ainda assim, todo o construto social com suas falsas necessidades erigia um novo modelo de vida tão falso e estranho, superficial, inatural, absurdo e egoísta, fechado, bloqueado, cego, claustrofóbico, vigiado, trabalhófilo, irrecompensável e estúpido, dado que só se vive uma vez.

Seguia porque seguir era um verbo – ação! –; um rumo díspar. Vivia em meio a todas estas encruzilhadas e não estava certo de que seria um... andava em círculos que, se colocados ao longo da variável tempo poderiam ser vistos como espirais. Seguia rodando e rodando, sem rumo claro ou possibilidade de vitória. Via idiotas tornando-se grandes e passava a temê-los. Dê poder ao homem ignorante e sofrerás as conseqüências. Entendia melhor como a suposta "roda da fortuna" girava e, embora fosse plenamente capaz de pular dentro dela a fazê-la rodar com velocidade, preferia afastar-se temeroso e pregar em sua porta a maravilhosa palavra: simplicidade. Sabia o que estava perdendo, mas jamais se venderia. Não seria de todo impossível que um dia fugisse e fosse viver num mosteiro qualquer, em eterna reflexão e paz. Nuvens apareciam e se dissipavam, acreditava na educação ampla e queria ser educador, um verdadeiro e bom educador. Queria mostrar aos novos seres humanos, os únicos que podem ser ainda salvos, a amplitude do pensar e do saber; assim como suas inúmeras limitações. Tudo isso podia, era, ia, vinha e saia de sua mente enquanto divagava pelos montes desconhecidos do conhecimento humano. Não era direto porém metafísico, não era ocidental ou oriental e jamais se encaixou muito bem em qualquer conceito quadrado que o tentassem atachar. Era uma incógnita e um motivo, um poço sem fim, uma unidade conjunta do saber e da ignorância; era apenas mais um ser humano em eterna reflexão.

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9.8.09

Eu que


Eu que já andei por montes congelados, senti o frio em minha espinha, andei também por desertos dos mais quentes e cobri-me de mantas para afastar o calor, passei ainda por florestas temperadas de temperatura agradabilíssimas que se tornavam apavorantes ao cair da chuva tropical, onde o dia se transformava em noite. Eu que já vivi no novo e no velho mundo, convivi com pessoas de todas as raças e estirpes, gente com e sem educação, pessoas com muito amor ou rancor no coração. Eu que já pensei em tanta coisa, que não tive medo de dizer o que pensava, já passei tantas vezes por idiota, por gênio e ingênuo. Eu que já engoli tantas palavras sem necessidade e que ainda outras, muitas outras, numerosas outras, infinitas, cuspi sem precisão. Eu que nunca consegui ver a desigualdade e a injustiça sendo feitas sem reagir contra elas com um fervor e uma voracidade que jamais pensei encontrar em minha doce alma. Eu que por tantas vezes já amei e já fui amado...

Desta vida não espero nada, não tenho objetivos ou ambições; ou grandes vontades ou temores. Faço apenas o que parece certo e vivo um dia depois do outro num carpedinear cheio de constantes e imprevisíveis inconstâncias.

Eu que já errei tantas vezes e que cometi os maiores pecados. Eu que já não soube viver sem que me respeitassem e que já senti tantas vezes falta dos meus, falta de vocês que me lêem e que comigo se unem, transformando-se em parte de mim. Eu que já fui parte de tanta gente e que já ouvi os meus maiores sonhos da boca de outros, desde os gregos até os sambistas, todos virtuosos. Eu que já estou morto e que portanto não tenho porque temer a morte.

Sobrevôo neste instante a amazônia e tenho em minhas mãos este computador. Em casa, ainda não tenho sequer cama, não tenho mesa ou cadeiras. Assento-me no chão. Mudei tantas vezes com tantas coisas: apenas livros e idéias. Agora tenho medo do meu vizinho de assento e dos que passam aqui ao lado a surrupiarem o que escrevo indevidamente. Tenho mais vergonha dos meus textos não terminados do que de minha nudez, carapuça desolada.

Eu que já não soube tanta coisa e que tanta coisa já aprendi. Eu que um dia não soube sequer ler, e não falo de minha infância. Eu que já li tanto sem refletir, sem conseguir ou tentar interpretação. Hoje só leio com extrema atenção, leitura minuciosa sempre tentando encontrar nas entrelinhas o bem maior e o prazer da leitura, delírio interpretativo. Não gasto mais meu tempo com nada que não seja eterno e que não vá arranhar em mim fagulhas que durarão até o tempo do fim. Não existe mais televisão no meu mundo e todo meu entretenimento é educativo, meu ócio, criativo. Perco sempre meu tempo a refletir e a descançar. A meditação ilumina e lança luz sobre os aspectos mais gerais de minha vida pessoal e profissional. Não tenho objetivos porém responsabilidades, sou ferramenta hedonista para mim mesmo e igualitária para esta sociedade decadente, herdeiros de uma tradição cristã moribunda, suja e desigual.

Odeio o capitalismo tanto quanto gosto de coca-cola. Odeio a tecnologia e os avanços impensados do conhecimento técnico que correm apenas para chegarem aos bolsos de alguns, tão poucos. Amo a busca pelo conhecimento, a ciência e o saber altamente desenvolvido e limitado que temos. Mais que da ciência gosto da filosofia posto que ela está mais frequentemente afastada deste fazer e acontecer no qual gira a roda do mundo do capital que tanto me amargura.

Quero crescer moral e intelectualmente. Quero sempre aprender e estar vivo, respirar o mundo e encher meus pulmões com esta benção tóxica que é o ar e o oxigênio. Quero ser saudável pero no mucho. Quero viver cada momento e morrer em qualquer momento com a certeza da vida vivida e do meu despreocupar de todas as irrelevâncias. Não gasto absolutamente nenhum segundo de meu processamento cerebral com irrelevâncias, e tudo no mundo são irrelevâncias, por isso com nada me preocupo. Tento me livrar de todo pensamento moralista que consigo e se observo as coisas é para me satisfazer e conhecê-las, jamais para julgá-las; ou ao menos tento, com empenho, não fazê-lo. Ando com pessoas porque as amo; e amo todas dentre as que não conheço. Das que conheço, são poucas aquelas que me decepcionaram ao ponto do desgosto; essas simplesmente ignoro e passo ao lado. Não as odeio, apenas evito-as; prefiro viver longe delas.

Tenho um impulso criativo que as vezes se aflora e as vezes se enconde, incontrolável que é. Tenho amor e ódio pela humanidade e pela história podre e fedorenta das civilizações, que nos trouxe até onde agora estamos. Nunca gostei de ciência aplicada e não sei se a ciência de fato melhora ou piora a vida do ser humano. Não sou nenhum fã exagerado de novas tecnologias, nem mesmo na área de saúde e não estou certo de que fazer os humanos viverem mais -- eu incluído -- seja uma boa idéia. Sou um cientista já fracassado em ideologia e não sei onde chegarei, se é que chegarei a algum lugar. Talvez um dia faça uma longa viagem filosófica e psicológica, talvez vire um tipo de monge, do tipo do que pratique sexo e, de preferência, com alguma mulher linda e interessante.

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6.8.09

Têvê

Quando disse à vendedora de móveis usados que não gostava de televisões, foi interpretado como louco. Não buscou, porém, explicar-se. Deixou que ela mesma talvez refletisse sobre como era enorme seu vício no decodificador de ondas eletromagnéticas e transmissor dos pensamentos das elites. De fato, para ela, o aparelho seria apenas algum tipo inócuo de amigo a ajudar passar as horas de tédio com um pouco de entretenimento a fazê-la sorrir ou informar-se, a fazê-la crescer. Alguém assim, que não gostasse de hipnotizar-se à frente de tal eletrodoméstico essencial, só poderia ser um bruto, um chato e um ignorante.

Esquecia-se a tal da moça que a liberdade da informação está, de fato, é na internet. Somente ali pode-se encontrar toda a informação que se deseja de forma não absurdamente enviesada, uma vez –- é claro -– que se conheça onde navegar. O que a televisão e os telejornais faziam, de fato, era mostrar ao telespectador -- que consiste em todos os brasileiros da nação --, apenas aquilo que as elites querem que o povo saiba, ou seja, quase nada. Qual a liberdade tem o telespectador em escolher a matéria a ser apresentada nos jornais? Nenhuma.

Não quero dizer aqui que os telejornais mostram notícias falsas ou forjadas e que enganem ou iludam a população ao inventarem ou fantasiarem eventos que de fato jamais ocorreram. A forma de dominação acontece de forma mais inteligente e sutil. Ela acontece, de fato, na escolha das matérias a serem apresentadas, no tempo em que são passadas e na forma parcial como são tratadas. Assim, ao invés de apresentarem os claros lobbies e intimidações que acontecem por trás das políticas governamentais e que defendem os grandes interesses do capital, os noticiários apresentam reportagens inócuas sobre a morte de determinado astro pop, sobre supostas epidemias inventadas e não controladas, sobre curiosidades estúpidas da vida dos cidadãos comuns. Ao invés de relatarem as grandes tramóias que acometem a vida de milhões, apresentam apenas pequenos furtos diários que, relevantes para a vida de meia dúzia de pessoas, tomam proporções desastrosas e desproporcionais nas telas da TV. Enquanto isso, os governantes continuam roubando o dinheiro do povo e Brasília inteira conhece bem o nome dos safados. As redes de televisão também conhecem, mas evitam dizer posto que estes são os mesmos que as financiam, direta ou indiretamente.

Por vezes, entretanto, algum tipo de justiça é feita. É preciso que apareçam corajosos como Protógenes a desmascarar enormes fundações Dantescas que há anos corroboram com a corrupção em nosso país. O que acontece, entretanto, num Brasil de ignorantes manipulados é que a corja então reverte o argumento e assim -- nas telas da TV -- os acusadores passam a parecer culpados. Não se pode, agora, misturar dados da agência de inteligência com a polícia federal, dizem as televisões. Isso é crime. E enquanto nossos fiéis delegados e agentes da inteligência desmascaram grandes fraudes e gastos de dinheiro público em prol do enriquecimento de alguns poucos, a televisão vem nos dizer que não se pode também grampear políticos para descobrir suas faucatruas. É como se dissessem: “deixemo-nos ser enganados”. Não se pode grampear telefones de políticos ou misturar dados da polícia federal com dados da agência de inteligência (ABIN), mesmo que isso seja usado para desmascarar crimes hediondos que utilizam o dinheiro dos contribuintes para aumentar a riqueza de poucos salafrários. Este é o Brasil que passa na televisão. E isso tudo acontece porque são estes ladrões que financiam as redes de TV. E quando aparecem finalmente alguns corajosos para mostrar, expor e desmascarar fraudes, eles são caçados e tidos como vilões pela televisão e pela opinião pública. A distorção dos fatos realizada pelos manipuladores é tal que os heróis vão para a prisão e os vilões andam soltos entre nós. Os juízes que mandam tirar os vilões da cadeia recebem o aval e o reconhecimento por parte dos outros juízes e da população. O juiz que prende novamente o vilão tem suas credenciais postas em dúvida e corre o risco de ser caçado. Eis o Brasil.

Não preciso de televisão nenhuma para me dar informações enviesadas sobre o que acontece no meu país. Sei observar os dados e sei tirar minhas próprias conclusões. A internet é uma ferramenta de recuperação de informações bastante mais democrática e a diversidade de opiniões observadas ali apenas enriquece as discussões e permite que possamos formar uma opinião mais rica e ampla, ao invés de recebermos enlatadas fórmulas de informação corrupta através dos telejornais. Simplesmente o que passa na televisão é apenas a informação que interessa à elite do país, e esta informação aliena o indivíduo que, de fato, não vê qualquer conexão lógica entre os telejornais e sua vida cotidiana.

Lula foi reeleito porque cuidou do povo e porque o povo acreditou na vida real a despeito do que aparecia nos telejornais. Infelizmente não é sempre que esse tipo de comportamento pode ser visto. Lula também foi manipulado e gritou por décadas apenas para chegar lá em cima e fazer o mesmo que faziam aqueles os quais antes criticava. O PT no poder é a repetição, se ligeiramente atenuada, da cultura do capital. O conselho de ética salvou Sarney e o Brasil, ah o Brasil... talvez não tenha mesmo salvação.

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26.7.09

Não sou fêmea de uma noite só

Não que eu tenha querido de certa forma magoá-la ou simplesmente deixá-la na posição em que não quisesse estar por efeito de uma maldade, abuso de poder ou vingança com relação ao dano que seus antepassados fizeram em meu povo. Apenas esta frase título que me dizia continuou retumbando em minha cabeça até que eu tivesse chegado finalmente à conclusão extrema de que eu não poderia estar interessado em alguma garota que realmente se importasse assim com tanto zelo em ser ou não ser fêmea de uma só noite. Simplesmente essa preocupação extrema com a preservação de um ideal moribundo de puritanismo tirou de mim qualquer vontade ou desejo que eu tivesse posteriormente em revê-la; incluindo o formato avantajado e maravilhoso de suas ancas. De fato, nossa diferença cultural havia deixado passar batida sua vulgaridade. Micro-saias que não apenas evidenciam sua alma sexual excessivamente reprimida, como mostravam, pelas ocasiões quando utilizava, certo mau-gosto. Tudo isso atiçou em mim um nojo extremo por aquela mulher que, desde então, decidi por melhor evitar. Viajaria em menos de uma semana e planejara que eu a visitasse assim tão longe no fim de semana seguinte. "Mas já?", retruquei. Queria mudar de vida e estava assim tão certa de que eu a acompanharia; tal qual a um cachorrinho domado. Ah, quão errada não esteve. "Um brasileiro certamente não negaria a companhia ou um provável relacionamento de longa-duração com uma francesa da minha estirpe", deveria ter pensado. E não que eu não tivesse inicialmente me apaixonado, de certa forma, por ela. Era linda e parecia interessante, era de certa forma despojada no visual em meio àquele antro de seguidores da moral e dos bons costumes. Só no último de nossos encontros é que de fato pude vê-la como a moralista tradicional que verdadeiramente era.

De fato, conversas-pré naquele mesmo dia, já haviam evidenciado o quanto um ligeiro pensamento estereotípico que eu pensei que tivesse sobre meu povo mostrara-de de fato enormemente estereotípico, incorreto e -- arrisco-me -- ignorante. Como uma garota viajada e já tendo morado assim em tantos países, pensei que tivesse a mente aberta e um conhecimento antropológico absorvido na pele que fosse suficiente para questionar certos padrões sociais e visões moldadas de determinados sítios do globo. Mas provavelmente vivera numa bolha, onde quer que estivesse. De fato, a noite toda se desenrolou de uma forma em que minha vontade por ela foi diminuindo com o passar das horas e, se chegamos à cama em algum momento e ali tentamos enganar nossos genes egoístas, tal evento se deu apenas em consideração ao tempo já gasto na empreitada e em suas proeminentes, bem delineadas e já comentadas: ancas. Mas a decepção intelectual já estava irremediavelmente instalada.

Pior ainda foi quando descobrimos, evento terminado, que o aparelho emborrachado anti-concepcional havia estourado tal qual a força e a vontade de sua extrema repressão sexual. Revelando ainda que estava em dia fértil, demonstrou total desconforto com a sugestão da utilização da pílula do dia seguinte e chegou mesmo a repetir ideais claramente cristãos com relação ao pecado do aborto. Revelei-lhe então, pisando em ovos, de que não estava certo de que gostaria de ficar com ela em longo-prazo e que nossa relação era por demais incipiente para arriscarmos tanto. Mas foi só quando lhe disse que eu poderia voltar a qualquer momento para meu país -- e assim, abandoná-la -- que começou a mudar de idéia sobre nosso suposta -- e naquele momento tão real -- prole. Primeiro disse que tomaria a pílula do dia seguinte no dia seguinte, quando acordasse e fosse à farmácia, mas não confiei um segundo em suas moles palavras. Só depois de dezenas de minutos de argumentação é que consegui convencê-la a irmos juntos a uma farmácia, às 4 da manhã de um domingo francês, para comprarmos a bendita. Pegamos meu carro e seguimos até uma das únicas farmácias abertas da cidade. Fez questão ainda de ler a bula completa do medicamento antes de ingerí-lo e chegou a argumentar que não a agradaria tomar aquilo, posto que assim encheria seu corpo de hormônios artificialmente produzidos. Dada minha atitude de jogador de pôquer, colocou a pílula então na boca e não duvido que não a tenha engolido. Mas fez que sim, trocou mais duas idéias pedindo que a encontrasse no dia seguinte e então partiu.

Desde então desliguei por completo minha ligação com a garota. Foi-se em viagem e deletei-a das ferramentas de bate-papo. Jamais atendi novamente seus telefonemas e respondi apenas o primeiro e-mail que enviou, dizendo que um relacionamento de longa-duração não era coisa que se decidisse assim de um dia para o outro. Disse-lhe que era preciso amar e que ela, como mulher, deveria saber disso ainda antes de mim. O amor não acontece num simples clique, porém é algo que se constrói com delícia e tempo de convívio. E disse que eu achava que não gostava dela o suficiente para ficarmos juntos. Mas ela já havia dado seu corpo a mim (e vice-versa) e aquilo parecia ter um peso imenso para ela, de maneira que talvez contasse nos dedos de uma só mão os homens a quem houvera assim se dado. Em princípio ainda cogitou fortemente que eu viajasse a encontrá-la. Um mês depois, tentou novamente marcar um encontro que ficava duvidoso se seria a sós ou não; depois disse que o referido rendez-vous teria outros amigos e que nos relacionaríamos apenas como bons amigos. "Como poderia ser outra coisa?", repliquei. Dada minha total falta de resposta a quase todas suas tentativas de aproximação, parece ter finalmente cansado da investida e me deixado em paz. Meses passados, relatos de alguns amigos em comum parecem evidenciar que não sou pai de nenhum garoto francês. O que fiz apenas foi utilizar e ser utilizado por uma francesa, com consentimento mútuo, numa noite de sexo. Fêmea de uma só noite... de um sexo que poderia ser sido mágico, se não fosse para ela uma reprimida e libertina realização de um grande pecado.

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Ainda não consigo entender o que passa pela cabeça de um indivíduo de cultural ocidental que pensa o casamento como um simples contrato entre pessoas solitárias para dividirem a estupidez de suas vidas. O amor e o carinho que se constrói de tais relacionamentos não me parecem jamais naturais e a indiferença com a qual o casal se trata é digna de pena, para dizer um mínimo. Se há algo que não desejo nem mesmo ao meu pior inimigo é ter um tipo desses casamentos-contratos, onde não se conhece o significado da palavra amor, embora se conheça a palavra confiança ou um tipo de companheirismo individualista. A mulher era simplesmente uma solitária balzaquiana vinda de um contrato malfadado de casamento onde faltava-lhe, notoriamente, o bom sexo; dentre outras sentimentalidades. Só um verdadeiro poeta e amante, doador completo e descompromissado de todo seu tempo-livre ao mundo do lirismo, é que pode amar de forma plena e eterna, uma mulher. O que disso se afasta, encontrará cedo ou tarde a perdição e o simples fim.

Mulher, que no francês é femme e que se traduz mais lírica e biologicamente como fêmea. A frase original: "Je ne suis pas une femme d'une seule nuit." Porém foi este seu malfadado destino; assim como o meu, que estou sempre esperançoso, em busca de um algo-mais.

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25.6.09

Thomson

Quando aquele som curvo chegou aos meus ouvidos, não mais cintilei e a estrela que um dia houvera sido agora brilhava suas luzes de maneira diferente, absurda, inovadora. Não se sabe como, mas fato é que as forças psicológicas e físicas juntaram-se de uma maneira jamais vista e acenderam o fogo da luminosidade de uma forma criativa e poderosa.

Aquele som, contínuo e estridente, acabei percebendo depois que viera de apenas um único animal, entidade estanque e indivisível. Indivíduo, indivisível. O indivíduo é também um átomo que opera num nível de grandeza apenas razoavelmente maior, comparativamente maior. Apesar de não haver antes meditado sobre o assunto, teria dito que as ondas sonoras que chegavam aos meus ouvidos seriam provenientes de uma grande quantidade de animais; medi-los-ia em dezenas. Mas eis que a sinfonia natural que me invadia o corpo concomitante à música urbana fez-se, de repente, ausente. E o incômodo produzido pela repentina parada daquele som que nostalgicamente lembrava-me os campos e suas calmarias características levou-me ao seguinte questionamento: como seria que dezenas de animais que cantam ou que roçam suas asas entre si poderiam coordenar uma parada simultânea e abrupta, cronometrada, todos ao mesmo tempo, como se houvesse um maestro a controlá-los e acusar o fim da melodia?

Tal parada coordenada era impossível. Assim, meu cérebro negou veementemente a hipótese do maestro grilo ou da maestra cigarra e concluiu apressadamente que aquele som que antes escutara proviera de um único animal que, sabe-se lá por qual razão, resolvera parar de emitir som daquele instante em diante. Uma questão de estados discretos: som e não-som. Mudança de estados que não poderia se operar de maneira orquestrada para as dezenas de indivíduos que dantes eu pensara estarem a emitir tal sinfonia. Portanto, concluí convicto: era um só o instrumentista da melodia natural.

E não pense que parei minha meditação por aí. Explorei ainda além.

A teoria atômica do indivíduo faz-me questionar e pensar sobre outras formas de organização no universo. As células agrupam-se umas às outras baseadas na forma como respondem a estímulos e como tais estímulos as incentivam a produzir determinas substâncias -- principalmente RNAs ou proteínas -- que de outra forma irão remodelar a própria célula e fazê-la responder às mudanças ambientais. A homeostase do indivíduo depende dessa resposta coordenada. Células ligam-se normalmente a células similares e, assim, formam tecidos. Indivíduos humanos fazem o mesmo: conversamos com pessoas e delas temos apreço ou repulsa. Com aquelas que temos apreço, reunimo-nos e celebramos a vida na forma de festas, reuniões, bailes ou o que quer que seja. Com as que temos repulsa, afastamo-nos. Um suposto Físico, ordens de grandeza maior do que nós, olharia para essas pequenas da relação humana a teorizar sobre nosso comportamento buscando uma ordem ali encerrada. Talvez chamasse tal apreço de positivo e à repulsa poderia dar o nome de negativo. Assim Ele criaria uma teoria elétrica-psicológica que seria capaz de prever razoavelmente o comportamento de seres humanos indo para cá e para lá, atraindo-se e repelindo-se dado a similaridades simbológicas, intelectuais e sociais. Talvez criasse uma teoria segundo a qual pudesse prever o comportamento de populações inteiras de seres humanos ao observar as características de uns que preferiam ir para cá ou para lá, juntar-se ou afastar-se de afetos e desafetos. Dividiriam certas características em comum, como o gosto pela música, a ciência ou a literatura. Tomaria-nos como entidades e faria conosco experimentos, colocar-nos-ia junto de pessoas que teorizasse que gostaríamos ou não e assim veriam, confirmariam, anotariam nosso comportamento e preveriam o que faríamos dado este ou aquele fator. Afinidades psicológicas não passavam de outras regras de atração e repulsão do espaço físico, dentro do qual indivíduos humanos seriam entidades atômicas e indivisíveis.

Já vejo entretanto alguns vindo argumentar sobre nosso livre-arbítrio e dizendo que este tal Mega-Físico quiçá divino talvez nada pudesse sobre nós conhecer posto que fazemos o que bem entendemos. Isso não é lá muito bem a verdade, posto que teorias estatísticas nossas mesmo conseguem fazer-nos prever fenômenos que mudam de ano para outro em nossa própria população e, de fato, este é o objetivo de todas as políticas públicas dos governos por todo o mundo. Supõe-se um problema e uma solução, aplica-se dinheiro e espera-se o resultado que, embora frequentemente mais modesto que o esperado, é capaz de modificar a sociedade na direção desejada. E se nós mesmos conseguimos prever-nos, quiçá o suposto mega-físico que talvez seja ordens de grandeza maior do que nós: física e cognitivamente.

De forma contrária e agora dirigindo-nos pelo caminho inverso, não há qualquer tipo de evidência de que o átomo não possa ter ele próprio algum tipo de livre-arbítrio. É fato conhecido que os cientistas não são jamais capazes de predizer o comportamento de um único átomo ou molécula. Predizem o comportamento de populações deles. Eis onde estão as regras da ciência: no comportamento geral de entidades, sejam elas átomos, moléculas, células, tecidos, organismos, populações, ecossistemas, planetas, sistemas, galáxias. Dizer que um átomo não obedece necessariamente as regras que ele deveria obedecer -- dada a afamada e agraciada teoria física que temos -- talvez seja o mesmo que dizer que o átomo, de certa forma, possui livre-arbítrio. Dirão aqui que exagero e que o fato da complexidade do universo ser maior do que a que podemos medir não implica necessariamente em uma suposta vontade-atômica. É claro que não. Mas também, por outro lado, não desimplica. Pode ser que ela exista e, de fato, acredito que sim. Posto que se considerarmos que o átomo tenha um comportamento completamente mecanicista, também nós o teríamos. E isto me parece uma conclusão lógica direta. Se o demônio de Laplace [1] realmente existir, logo nem o átomo nem os indivíduos dele formados, incluindo você e eu, não terão vontades ou desejos quaisquer -- e o universo não passará de um sistema completamente sem-graça e puramente determinístico, basicamente um modelo mecanicista supremo possuindo pequenos bloquinhos regidos por leis estritas e imutáveis que modificam a posição de tais blocos entre instantes ínfimos de tempo. Eis o pensamento careta do deus-mecânico que não possui dados: completa falta de criatividade. De fato, provavelmente jamais saberemos se a incerteza de nossas medidas se dá por um comportamento mais complexo do que o que podemos medir ou por um indeterminismo estatístico intrínseco, seja das propriedades da matéria ou de nossa compreensão cognitiva das mesmas. Prefiro pensar que o universo é criativo, que o átomo tem seu livre-arbítrio de átomo e que também eu tenho meu livre-arbítrio de ser humano, assim como nosso mega-físico que prevê nosso comportamento terá seu livre arbítrio em escala possivelmente aumentada. Supomos normalmente sermos nós a forma maior, mais organizada e consciente de matéria que existe, mas esta pode não ser uma verdade. Gaia talvez seja consciente e saiba do câncer que sofre, saiba da proliferação de agentes infecciosos humanos talvez não a matá-la, mas a transformá-la drasticamente de dentro para fora. Talvez ela saiba e tente conscientemente modificar algo. Talvez não, talvez goste. Eu, por exemplo, fumo e sei que me mata. Nem por isso paro. Serão os humanos um vício de Gaia? E o que será a consciência, de fato? Possuiremos -- gaia, nós ou um átomo -- tal consciência? Quão enviesado será nosso próprio conceito de consciência? Gaia, o super-indivíduo. Atomização, pedaços separados, entidades estanques que têm comportamentos pré-definidos. Talvez tenham livre-arbítrio, talvez não.

O animal volta a cantar e as ondas sonoras que produz alcançam meu receptor sensorial e causa provavelmente liberação de serotonina em meu cérebro. Escuto e, mais um pouco, medito...

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[1] Sobre o demônio de Laplace: Laplace foi um matemático, físico e astrônomo francês da era napoleônica, tendo vivido entre a metade dos séculos XVIII e XIX. Ele é conhecido por formular a existência de um demônio que representa uma visão ultra-determinista sobre o universo. Normalmente quando se fala do paradigma de Laplace ou do demônio de Laplace refere-se a um suposto ser fictício que conheça a posição de todos as partículas fundamentais da matéria num tal momento e todas as regras que regem a mudança de posição de tais partículas de um instante a outro. Tal demônio contendo tais informações teria, de pronto, todo o passado, presente e futuro revelados a seus olhos. O paradigma laplaciano não abre espaço para qualquer incerteza ou aleatoriedade no mundo ou no universo e uma adoção desta perspectiva implica, necessariamente, na completa ausência de livre-arbítrio. Desta forma, todas as nossas atitudes estariam pré-determinadas através de movimentos de moléculas em nosso cérebro que poderiam ser previstas pelo demônio em questão. Tal perspectiva também está relacionada ao fato de que o destino é inexorável e imutável, já estando de certa forma escrito pelas condições iniciais do universo e pelas regras fixas nele presentes.

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24.6.09

Com açucar, com afeto

Lembro da garota que hoje me atendeu e algo em meu cérebro aponta: eu já a conhecia antes. Não sei mais se posso confiar nesta ferramenta falha que é o cérebro humano e o mecanismo de memória. É claro que já a conhecia antes, coisa de semanas. Da primeira vez que a vi não lembro de ter tido essa impressão de conhecência desde longos idos. Talvez neurologicamente possa-se explicar o caso da seguinte forma: é possível que hoje eu tenha reparado em alguma característica especial da garota que é também compartilhada por alguma amiga de longa data. Esta característica específica misturou-se entre as conexões cerebrais novas e velhas de meu cérebro e fez com que, ao perceber tal idiossincrasia da garota, meu cérebro tenha ativado redes e circuitos neuronais já bastante utilizados (noutra pessoa), fazendo com que pensasse que já a conhecia de longa data. Algum neurobiologista poderia dizer se a hipótese faz sentido.

Estou impressionado sobre como as pessoas nesse país são doces. Vindo de ano e meio na Europa, onde havia desligado completamente meu senso de brasilidade devido a questões de sobrevivência e adaptação, chego aqui e entro quase num êxtase com relação a esses pequenos relacionamentos interpessoais que temos com desconhecidos ao longo do dia. Elisa me sorri um sorriso assim tão simpático e carinhoso que dá vontade de pegá-la no colo e enchê-la de beijos. Isso porque, a menos que meu cérebro me pregue peças, eu não a conhecia anteriormente. Também a mulher do banco, uma loira linda que iria casar-se no fim da semana passada e que, hora dessas, curte sua lua de mel em algum paraíso natural desses que só Brasil tem. Ela fala comigo assim tão despojada e tranqüilamente, como se fôssemos amigos há anos. Viva o Brasil! Na França existe essa distância -- cá entre nós: ridícula -- entre as pessoas que não se conhecem e que ficam pseudo-respeitando-se ao se tratarem de vous ao invés de tu. Um tipo de pseudo-cortesia que incita à distância e medo entre os indivíduos. As pessoas não se amam na Europa. Elas apenas se suportam. Foi mesmo Sartre que disse que o inferno são os outros. No Brasil, os outros são o céu.

A garota da Moldávia, de lábios carnudos e deliciosos de se beijar, disse-me que eu era doce. Foi a primeira vez que alguma garota classificou-me com tal adjetivo. Ao fim da minha adolescência, chamavam-me de grosso ou tosco. Diziam isso porque sempre fui mais sincero do que deveria ser ao invés de seguir o caminho padrão da hipocrisia. Mas eles estavam enganados: sinceridade e grosseria não são a mesma coisa. O alemão que o diga. E a bela moldaviana é que realmente conseguiu entender-me, ela que também está entre as pessoas mais delicadas e belas que já encontrei neste meu caminho em direção à morte. O problema dessa garota era seu entrave de viver. Fato comum naqueles que não conheceram jamais os escritos ou canções de Vinícius de Morais. Há muitos assim também por todo o mundo, pessoas com medo de revelarem-se e divertirem-se. Certamente isso é herdado de uma filosofia cristã que tenta nos dizer que tudo é pecado e reprime-nos de fazermos o que bem desejamos. Daí ficamos assim reprimidos de nos soltarmos, liberar-mo-nos, mesmo quando isso é a coisa que mais queremos fazer. Esquecemo-nos que só vivemos uma vez e que nada faz sentido, exceto o prazer. E assim, restou-me apenas uma promessa de amor, no futuro. Além da vontade, de ambos. Ora, queria saber quem foi que inventou a palavra pecado.

A outra garota da recepção é até mais gostosa: tem peitos salientes que saltam à vista no decote de país tropical. Salve o Brasil! Mas não tem aquele charme adocicado que a moreninha esbanja. Qual o quê? Nem por um instante trocaria este bem-moldado par de tetas pelo jeito meigo e o sorriso natural da moça que de alguma forma conheço há tanto tempo, há tão pouco tempo. É o teu qualquer coisa além da beleza, Vinícius. O alguma coisa no jeito que ela se move e que atrai Harrison mais do que às outras. Ah, a música como expressão do lirismo que há no mundo. Definitivamente: não é doce nenhum que faz homem parar em casa.

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23.6.09

Toda certeza será castigada

Quando aquela idéia fixa dispersou-se de minha mente, senti-me livre. Não mais estava comprometido àquilo; àquela coisa que batia constantemente em meu cérebro e apontava-me um caminho supostamente correto e indubitável a seguir. Só agora me dei conta: seria mesma tão correta assim, a mensagem? Finalmente conseguia olhar para o lado e tentar perceber outras nuances e possibilidades que senão aquela estrita, única e perfeita da qual meu cérebro anteriormente havia levado-me em direção. Havia outras, muitas outras possibilidades das quais eu havia passado assim batido por simplesmente não considerá-las seriamente, uma vez que estive assim enebriado pela ofuscante decisão.

Agora liberto do sopro violento da luz fundamentalista que me vinha à mente, pude analisá-la com melhor ponderação. De fato, considero que a idéia parasita-mental não era de todo incorreta ou falsa. Caso a tomasse realmente como Verdade e dela fosse em busca, talvez fosse feliz. A falha em alcançá-la, entretanto, poderia ter me levado ao botom do mais profundo poço. De fato, era bom sentir-me novamente livre e dono de minhas ações. Humanos nem percebem o quanto são parasitados por estes memes tão fortes que nos fazem simplesmente torcer o rumo de nossas vidas a troco da defesa e reprodução deles. É preciso estarmos sereno para sermos capazes de separar nossa vida biológica, a única existente, de uma vida ideológica fantasiosa e falsa -- principalmente quando dirigida a um rumo específico e inquestionado. Naquele instante em que relativizei tal pensamento assim tão direcionado e positivista, vi que as vias a seguir para alcançar um objetivo agora mais amplo poderiam se dar através de atalhos ofuscados pela luz fundamentalista ou mesmo por direções contrárias àquelas que anteriormente pensei corretas; sem mesmo questionar.

Não é de todo impossível que um dia eu venha a retomar esta que foi a mais forte das idéias e tome-a decisivamente de forma a acompanhar-me nesta caminhada rumo à morte, objetivo final de todo que vive. Tal aliança porém jamais se dará novamente de forma assim tão cega como quando eu a jamais houvera questionado. As grandes idéias que são verdadeiramente falsas consistem nestas que nos parasitam a mente sem deixarem espaços para idéias concorrentes a tomarem seus lugares. "Não sejas estrito", deveria ser um dos mandamentos. Nada em excesso, diz-se no Tao. É preciso perceber que quaisquer fundamentalismos simplesmente fecham-nos as portas laterais que por vezes funcionam como atalhos, fazendo-nos seguir apenas para frente e para cima, escala superior e pseudo-direta, em um mundo onde qualquer escala pode ser vista de ponta-cabeça depois de novos momentos e condições. Tema qualquer idéia perfeita, ser humano. As verdadeiras grandes idéias não são absolutamente corretas e precisarão ser sempre melhor podadas aqui e ali; não se confiará nelas em todos os casos. Retas são enganadoras num espaço-tempo ideológico que é ainda mais curvo do que o espaço-tempo material, einsteiniano.

A ironia deste destino que agora relato veio do fato de que foi exatamente quando pisei no acelerador ideológico que evidenciei o erro daquela visão de mundo. Acelerei e fui pego no posto policial ideológico: paguei a multa de excesso de velocidade sentimental, intelectual. Mas há males que vêm para o bem.

Não confie em idéias claras e perfeitas, posto que elas não existem. Toda paixão é um engano, toda certeza é falsa, toda clareza intelectual é ingênua. Não nos deixemos embriagar pelas falsas idéias que nos parasitam a mente como fim e objetivo final de nossos chegares. Nada é tudo. Não existem respostas enlatadas para nenhum problema real da existência humana. Nada é o fim e a resposta última. Panacéias somente. A complexidade do universo e das relações humanas está além de nossa capacidade de compreensão. Todas as respostas estão fadadas a serem incompletas e temporal, socialmente dependentes.

E entre as idéias incompletas há certamente algumas que são ainda mais incompletas do que outras. Aceite-se sempre a que lhe parecer menos incompleta, sem deixar de duvidar jamais de sua certeza ou de sua plena adequação a qualquer caso. Matemos toda e qualquer panacéia, os vírus ideológicos. Sejamos livres.

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22.6.09

Fita amarela

(um teste inicial para o movimento semanticista)

Dia outro, encontrei eu ela com. Festa estávamos, rua na. Linda, linda e no cabelo laço tinha amarelo. Perguntei vinha donde e "Colômbia" respondeu. Pequena era, música cantava. Sexismo esbanjava e grande era brinco dourado seu, pérolas de. Dizia a música coisa alguma sobre quem era ou estava ou vinha ou ia. Tudo entendi quase. Ela falei a sobre palavras, meu problema com. Sei não repetir tudo de acordo com gramaticais regras. Mas creio não em panacéias, eu. Regras coisas são que tentam reunir irreuníveis entidades. Nelas acredito não. Da anarquia linguística parte faço, também das todas anarquias que pensar posso agora. Prova tenho porque muita gente já falei com. Entendeu-me não quantidade pequena as gentes. Dacolá e daqui, de parte a toda. Maioria idéias troco com a normal mais desenvoltura. Idiotices sintáticas respeitar preciso não-é. Sentido e semântica importa é o que. Nada mais, dúvida tenho não. Professor meu recomenda-me ler e ler para tudo aprender e decorar posições de sujeitos e verbos e pronomes e objetos das palavras frases adentro. Tentei já e consigo não, preciso não, ligo não. Importo-me mais nas pessoas com os olhos, eles são os principais da fala órgãos. Olhei já pra muita gente e as entendi mais que escutei quando. Os olhos com é possível saber demais gente sobre. Juro. Símbolos humanos fazem, cultura fazem, penso isso que é. Utilizando-os, pra perceber é possível até aqueles que s'enganam ao não se fielmente representarem ou aos que compreendem-se não. De tudo há neste mundo e muito bem sei que as compreensões assim sempre incompletas se fazem. Nada há que mundo todo a mesma coisa pense, concorde. Nadinha. Visão própria um tem cada sobre. Mosaico sociedade é opiniões de. Cada pensando um diferente. Atento fique você, d'accord? A Colômbia da moça falando me veio em inglês ou francês, respondi eu nas línguas parelhas. Várias falo e tudo acho bastante fácil, palavras decorar, regras entender. Usar não gosto, linguagem própria tenho e nem aí estou para quem problemas isso tem com. Problema decidi que não é isso, peculiaridade até charme. Gente tem muita que gosta, duvide não. Música em inglês cantou a Colombiana, sexy algo sobre, entendi creio na hora. Agora lembrança minha peça me prega. Sexy música, sexy garota. Brasileira amiga tinha e bom foi porque conversamos português também em. Colombiana sexy aprender português queria e sotaque falava com muito, mas tomar no cu mandar sabia. Ensina as grandes palavras antes para as pessoas, as gentes. Poesia sabia evidentemente não. Foderem-se as pessoas também de falar era capaz. Sotaque com falava forte, mas estranhamente percebia eu não o hispânico acento. Nem perceber que não percebia, percebia eu. Espanhol falar comecei com ela brincar para, mudar as coisas, atrás da orelha me tinha pulga também. A perceber começava. Respondia inglês em ela, português sotacado até, também francês, mas espanhol não. Segredo que teria garota esta? Em tempo pouco, convencido fiquei que falava não espanhol e inglês falava que vi bem. Mal nada seu francês também era. Donde reperguntei era ela. Colômbia de novo repetiu. Ela a então contei que ir havia já ao país seu e Bogotá bem conhecia. Donde era? Respondia nada e aleatoriedades então conversava a amiga com. Do assunto completamente saia e dispersa mostrava-se, o álcool quantidade em desculpa era. Segredo escondia algum, saber não pude qual. Saber poderia, ainda? Tentar deveria, encore? Desconfiou ela de mim a perceber algo, o fora deu quando. Só pensei depois portanto como bobo era eu. Vez uma que linda era, de tonto deveria ter-me feito. Não conquistar as mulheres, sei bem muito. Fato de, sei não o me que deu, vontade talvez de capacidade investigativa demonstrar, inteligência sabe quem. Como problema tenho, diferente sou, inteligente mostrar me preciso, senão bem se sabe, montam em cima de nossas cabeças as pessoas. Neste mundo compaixão não há. Fazem o que é apenas foder ao outro, um. Ah, o humano ser, ente. Nos fracos piedade sem nenhuma pisam, pisam. Mundo é este em que vivemos. Triste é isso constatar. Assim sempre mostrar-me tenho inteligente, senão dão-me estupidezes fazer para, ignoram louco a me pensar. Fita moça da vai longe agora. Burro para as mulheres é preciso se mostrar. Amam não inteligência tão assim grande, raiva. Acho eu que assim é, depende cada uma de entretanto, bem certo. Noite termino eu sozinho, crônica também. Haverá dia um que nada mostrar a ninguém precisar vou. Dia este serei ser apenas e comunicar-me-ei jeito qualquer de que entendam os outros. Preciso não é aos outros agradar e a comunicação facilitar. Bom é fazer com que atenção prestem em si quando se fala, senão por ouvido entra e por outro sai o que se diz, processamento feito nenhum é. Cada um falasse de diferente maneira, atenção mais fariam e compreender iriam melhor, errado estar posso também. Ignorante sou que sei. Se param entender-te para porém, assim melhor é. Advirto lêem aos que me: se não por inteligentes passem, vez uma que bela garota na cabeça fita podem perder. Sorte boa todos para. Comunicação dois vivas para, três. Viva, viva, viva, viva.

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-- Pequena análise do presente texto

Com este texto pretendo iniciar um movimento literário que batizo de semanticismo. O semanticismo pretende transverter todas as regras gramaticais produzidas para toda e qualquer língua. Ele é focado apenas no sentido. Se um texto pode ser compreendido por um leitor e se ele faz sentido, isso basta. Não se deseja sequer definir um sentido único para um texto e mais rico ele será, inclusive, caso permita a diferentes leitores tirarem diferentes mensagens do texto. É claro que o texto não deve consistir simplesmente de palavras soltas e neste ensaio teste de abertura do movimento fica claro que há uma estória a ser compreendida. Não se deve querer simplesmente transformar a literatura em algo completamente aleatório com palavras sendo colocadas uma após as outras sem qualquer ordem ou sentido maior, como o sentido do texto completo. No que me condiz como escritor, acredito que o semanticismo seja algo a ser visto como estando do lado completamente oposto do classicismo, onde o escritor procurava as mais precisas regras da língua culta e que quanto melhor as utilizava, mais virtouso seria seu texto. Não, o semanticismo é exatamente uma revolta a esse tipo de literatura, que consideramos quadrada e antiquada e presa dentro de padrões estéticos definidos de maneira estrita pelos gramáticos, supostos detentores do saber linguístico. O semanticismo é também uma guerra conta o gramaticismo, contra aqueles que pensam que mudando detalhes mundanos das regras de produção das línguas poder-se-á segurar sua evolução. A nova gramática do português que agora sai e que vem a ser adotada pelos governos lusófonos da Europa, América do Sul e África em livros didáticos é por este movimento questionada e até ridicularizada. As línguas podem ser encaradas como entidades vivas que co-evoluem com o ser humano em qualquer parte que ele esteja. E embora seja necessário que falantes da mesma língua se entendam, não será a produção de regras excessivamente rígidas -- ao limite do ridículo, como deixar de acentuar certos ditongos -- que irá homogeneizar nossa língua ou qualquer outra. A gramática é a prisão onde estão encarcerados todos os poetas e escritores. O sentido é muito mais importante do que qualquer regra e, de fato, mesmo quando se utiliza o mais estrito conjunto de regras possível, um texto tem muito mais interpretações que seu autor pode supor quando da escritura. Vide Barthes, Eco ou Derrida. É claro que concordamos que para quesitos práticos da vida social, é sim necessária a existência de uma língua culta com a qual a maioria dos faltantes concordarão sobre sua adequação a determinado sentido explícito de cunho político, autoritário, regulamentar. A literatura e o literato, entretanto, devem ser livres para produzir o sentido da forma como bem lhes convier. O semanticismo visa também propiciar uma ligação mais forte entre a língua e as culturas regionais, sendo que a expressão da linguagem popular por meio das regras gramaticais limitado em demasiada a expressão cultural. É preciso que abramos o leque e as correias da gramática para que possamos melhor compreender o ser humano em todas as suas expressões. A linguagem deve ser livre para evoluir e o escritor deve ser livre para se expressar de uma forma que melhor lhe convier, da forma que ele sentir mais natural e original. A derrubada das leis gramaticais em prol apenas e somente da produção de sentido -- único ou leitor-depende -- abre a porteira para uma quantidade sem número de possibilidades literárias. Ao misturar em uma frase de maneira medida ou quiçá aleatória sujeitos, pronomes, objetos, verbos, um escritor pode criar uma marca de sua literatura e pode abrir novos e maravilhosos campos de compreensão a serem explorados. Não há outra questão da linguagem que senão a busca da compreensão. E se a compreensão pode ser alcançada sem que respeitemos regras explícitas de gramática, por que então utilizá-las?

A pergunta filosófica por trás do semanticismo é: como é gerada a compreensão? Que características deve ter um texto para que alguém o leia e diga que o entendeu ou saiba interpretá-lo de uma forma adequada?

E ainda, com Eco: quais os limites da interpretação?

Também em linguística creio que o semanticismo ajuda a compressão. Eu, por exemplo, entendo muito bem o inglês e consigo normalmente ser bem compreendido por qualquer pessoa com a qual eu tente dialogar. Ainda que certas palavras ou expressões não me sejam conhecidas, não me lembro de alguma vez na qual eu não tenha conseguido me comunicar na língua de Shakespeare. É claro que um texto semanticista não será um lugar para se aprender as formalidades retrógradas necessárias à descrição de um idioma formal qualquer. As regras formais são importantes para o aprendizado de um novo idioma. Entretanto, creio que textos baseados no semanticismo serão mais fáceis de serem lidos por aqueles que não compreendem determinada língua, uma vez que será necessário apenas ter um bom vocabulário para entender o sentido do que está escrito. No semanticismo, as palavras são dispostas numa frase sem uma regra explícita. A disposição das palavras na frase podem, portanto, (1) seguir a regra formal dada para a língua, (2) subverter propositadamente esta ordem ou, simplesmente, (3) ignorar tanto quanto possível as regras formais e apresentar uma disposição pseudo-aleatória. Fica claro, entretanto, que as regras de pontuação num texto semanticista devem ser aplicadas com zelo e cautela. Sem qualquer regra, é claro. Mas uma vez que a observação de regras para a definição de todo e qualquer elementos sintático das frases tenham sido subvertidos, a pontuação passa a ter um papel ainda mais importante na formação semântica de uma frase.

Outras reflexões haverão de surgir a partir de um contexto semanticista na literatura, linguística e nos estudos culturais.
(18/03/09)

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18.6.09

Esquenta

Apenas a intuição vale na literatura. Prosa e verso são leituras do homem, dele próprio. Auto-leituras sinceras. Quando mais sinceras, melhor. A falsidade e a negação da própria alma é o que matam a literatura. Aquele que se escuta, aquele que se escreve, aquele que se abre e se mostra.

Nada foi feito ou deixou de existir, e mesmo assim eu te amo. Eu acho. Não tenho porque saber de coisas como essas que vão e vem ao longo do dia. Olho nos seus olhos e vejo que você me ama. É de manhã. À tarde leio indiferença, preguiça ou dúvida. Por um lado entendo a dúvida sobre o que ainda não aconteceu, mas de outro não posso acreditar que ela exista, posto que nossos olhos assim já se encontraram e já brilharam uns para os outros. Amores serão sempre amáveis. E então à noite, depois de me amar e ignorar, você me odeia. Afasta-se e evita-me. Nega-me olhares, carícias e toques, rejeita minhas maiores idéias e argumenta contra qualquer mosca oriunda de meus ventres amargos. No dia seguinte ama-me à tarde e odeia-me pela manhã, ignorando-me à noite. E assim nosso cotidiano se segue. Tal é o mistério inconstante escondido em tua alma super-feminina e este instinto, esta briga e esta exigência de respostas diferentes de mim-a-ti faz-me amá-la com ainda maior intensidade.

A festa foi boa, assim como a outra. Nossos momentos no bar, no lar, no altar. Se exagero na construção simbólica e neste futuro que não sei se teremos, acredite: não se trata de desejo profundo qualquer, é apenas questão de rima. Jamais digo uma verdade e é neste paradoxo que te prenderei para que sejas minha e ao mesmo tempo tenhas a liberdade. Posto que se o amor é um labirinto sem saída, ele ao menos é grande e inevitavelmente fará com que Teseu encontre, em algum momento, o minotauro.

E quando a lua deste céu estrelado esteve escondida pela sombra da Terra, o céu gotejou de estrelas e foi neste dia que te vi pela primeira vez. O choque dos teus olhos nos meus foi mesmo lancinante e daquele momento em diante sabíamos que estávamos de certa forma ligados. Pena que ainda não descobrimos como, mas o futuro irá certamente nos dizer, não nos preocupemos.

Não sei porque me arrefeço, porque faço, porque deixo, porque não te olho nos olhos e dou-te aquele beijo que temo e desejo. Você também não demonstra emoção ou sentimento desses que transbordam pela pele de humanos ou sapos. Repousa numa paz serena de quem já teve o quis ou do que vive apenas para ver o sol e a lua passarem e repassarem sem deles absorver o sentimento do que nos faz viver a plenitude. A maravilha do estar vivo se confunde com a monotonia do estar saudável e apenas somos realmente vivos quando estamos nos recuperando de uma enxaqueca que seja, um braço quebrado, um algo inusitado, ou apenas no amor. Dar-te-á meu amor a emoção que agora te falta e que se percebe neste teu suspirar quase cansado embora jovem? Espero que sim... temo que não.

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