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Crônicas soluárias

Ensaios, rascunhos, sonhos

6.2.10

Ramo magro será

A casa está uma bagunça, mas amanhã virá aqui a escrava para tudo colocar em seu devido lugar, Escrava, Sim, escrava, Não a paga, Pagar até pago, mas é tão pouco que podemos considerá-la irremunerada. Andavam então pela imundice do lar dando a não perceberem pelos pelos chãos as porcarias derramadas e não apanhadas ao longo dos ladrilhos da cozinha e tacos da sala de estar. E isso te incomoda, continuou o outro, O que, Pagar pouco à pobre mulher, Incomoda, Pois então simplesmente pague mais ou faça como eu e limpe você mesmo sua própria casa, Poderia sim fazê-lo, mas acontece que ambas opções propostas incomodar-me-iam ainda mais, Pois que então não reclame ou que engula suas próprias palavras e ideias, mesmo que indigestas, Tampouco isto consigo fazer, mas é fato que remunero a criada mais do que se faz por aí pelo mesmo serviço, horas de trabalho e condições gerais, embora não chegue a ser o bastante para saciar meu sentimento de injustiça para com o mundo, Colaboras com a injustiça, é claro, Colaboro e sei que colaboro, sou de fato um falso moralista a levantar bandeiras mais pesadas do que meu corpo é capaz de carregar, ainda que devamos nos lembrar que ela faz o serviço de certa forma porque quer fazẽ-lo, posto que poderia muito bem ficar em casa todo santo dia apenas com as penas para o ar, E a geladeira vazia, E a geladeira vazia, é isso.

Sentaram-se e serviu ao convidado uma cerveja, conversaram então de velhos amigos e amigas, viagens de outrora e condições disparatadas da sociedade moderna. Vangloriaram obras cinematográficas recentes ao mesmo tempo em que cagaram o pau e desceram a lenha noutras, de fato, na grande maioria. Concluíram que é a exceção que salva a humanidade. Trocaram entre si referências de boas leituras e outras intelectualidades da mídia eletrônica, dando graças à santa pirataria que permite aos seres humanos de bom coração educar-se nas mais finas artes da história, ciência, música e filosofia. Concordaram que grande parte das grandes obras da humanidade podem ser hoje acessadas no arcabouço irreal da sociedade digital, acessíveis em um clique de mause, mas não sem antes pisar e esmagar as ordens e os direitos dos autores e das grades companhias. Por que os artistas precisam ser assim milionários, pergunta o primeiro, Pois que não precisam, concorda o segundo em meio a novos cliques torrenciais e mais teletransferências de arquivos com obras clássicas e distintas da experiência humana, Ah, se todas essas obras estivessem ao alcance da população, solta um deles, quão melhor e mais educado não seriam todos os humanos, Idiotice sua, retoma o outro, quantas coisas não há nas televisões gratuitas de bom e delicioso para a alma enquanto os zumbis continuam assistindo globalidades e tendo seus cérebros lavados por comerciais, jogos estúpidos e outras amenidades deseducativas, e continuou enfático, não vê que o mundo está perdido, e repetiu ainda com amargura, não vê que o mundo está perdido, perdido, Será que está apenas hoje ou que sempre assim esteve, questiona-se o primeiro, estas guerras e artimanhas dos mais poderosos a iludir e ludibriar os mais simples sempre estiveram em alta e fazem parte da história da humanidade desde seus primórdios, nossos primórdios, portanto não se pode hoje dizer que os tempos mudaram, senão em alguns poucos aspectos, Poucos porém relevantes, ressalta o outro, veja a internet por exemplo quanto não fez em difundir e divulgar a informação, veja a wikipédia com seus verbetes gratuitos, livres e instrutivos, eis a nova versão Enciclopaedia de Diderot, hoje gratuita e ao alcance de todos os seres, em qualquer buraco deste mundo velho e sem porteiras, Esquece-se que apenas a versão em inglês é verdadeiramente completa e recheada de informações, esquece-se também que nossa população infelizmente ainda mal compreende a língua de Saramago, esquece-se da assim chamada exclusão digital, Eis mais uma verdade, quão desigual não é este mundo, exclama. Dentre goles esparsos de uma saborosa cerveja continuam os humanos a discutir sobre as inequalidades de sua época e de épocas passadas que almejarão resolver em vão até o fim de suas vidas mas que, nem por isso, desistirão. Outra das mais vagabundas ideias que tenho ouvido ultimamente é esta de que a natureza humana nos condiciona a isso ou àquilo, continua o primeiro, não acredito que haja de fato nenhuma natureza humana que senão aquela que eles mesmos criam para si, Espere, interrompe o outro, é claro que há, pois se somos indivíduos de uma mesma espécie biológica, símios que se ascenderam nas savanas africanas, se viemos de uma mesma e única população ancestral e se temos determinado conteúdo genético e de DNA como reza a ciência, temos sim uma natureza em comum, Ora, a natureza biológica temos sim em comum, tomo isso por certo, o que não gosto é que se diga que não podemos ou não poderíamos, não devemos ou não deveríamos ir contra esta tal natureza se quiséssemos ou quisermos construir melhores civilizações ou melhores gentes, Diz-se que este é o grande erro dos socialistas, acreditar que podemos ser o que não nos é feito a ser dada nossa constituição enquanto espécie, e é também o teu que o repete e que não compreende que a humanidade é feita de guerras e conflitos e grandes e pequenos, contenta-te talvez em ser grande e assim não precisar comer o pão amassado pelo capeta, como faz a que aqui te limpa a casa. Segundos de silêncio se fizeram e então veio a resposta daquele que era contrário ao chamado darwinismo social, Posto que o homem, eis o que penso, o homem tem sim, OK, sua natureza biológica e está também na base de nossa biologia o conflito, mas a cultura por vezes supera e sobrepuja a biologia, veja por exemplo o caso de um sujeito que nasce com o ouvido absoluto, capaz de distinguir perfeitamente nota por nota ao longo de seis ou sete oitavas, imagine que se toque um si e pergunte ao indivíduo que nota se tivera tocado e ele dirá Si sem titubear, imagine que este Mozart da nova geração, nascido hoje quiçá, jamais terá tido a possibilidade de tocar um mero instrumento musical, que nunca lhe se tenha dado a oportunidade de aprender a arte da regência e a escrita musical, suponha que tenha vivido como carpinteiro por falta de outro ofício e que, ainda por cima, tenha sido péssimo nesta profissão, parou assim um pouco e foi interpelo pelo outro, quente da discussão, E o que isso tem a ver, Acalme-se que ainda não cheguei lá, mas chegarei, pense agora aquele que de sangue tem fome e do conflito se alimenta, aquele que nasce com o calor da disputa e da guerra dentro de seu coração ou mente ou alma, chame como quiser, imagine que este facínora jamais seja capaz de empunhar uma arma, jamais leia ou saiba ou discuta ou compreenda a violência, imagine que não existam mais armas de fogo no mundo e que os exércitos não mais lutem com mísseis ou tanques, que não lutem em absoluto, que a própria ideia da guerra fosse abolida dos escritos humanos, os livros queimados, a história re-escrita, um duplipensar que viria para o bem, para libertar e salvar os humanos dos auto-lobo que são os próprios e continuam a ser ao longo das gerações, Imagino sim senhor e consigo até conceber tal ideal visionário de uma maneira assim utópica, mais ainda imaginária inclusive do que o socialismo que se deu em Marx e que se implodiu ideologicamente no regime estalinista, milhões de mortos contra o regime, acredite, não há saída para a guerra do humano para com o humano, Nego-me em crer nestas tuas palavras e quero continuar pensando que há saída e há jeito e há razão e há possibilidade de paz para o humano em todas as suas crenças e ideias e poesias do bem viver, É belo em teu pensar, mas inocente em teu viver e em teu argumentar, o mundo de verdade não pode ser teorizado em palavras idealistas como a dos filósofos alemães de outrora que embora virtuosas negaram o empirismo e a nossa observação do que efetivamente acontece aqui e ali, todo o lugar onde os humanos habitam e brigam e desentendem-se, Não há então lugar para mim neste mundo de guerras sem paz, de lutas e desrespeito e desinteligências mil, não há lugar para quem preze e ame o ser humano, há apenas lugar para aqueles que a tudo planejem destruir e subjugar, há apenas lugar para eles, para o Trocadilo, para os maus-caráteres e tudo o quanto houver de ruim neste mundo, Agora já também exagera em seu drama argumentativo, Exagerarei enquanto senti, posto que de exageros são os sentimentos humanos por vezes estropiados em mentes insanas que sequer são capazes de tecer argumentos depois de argumentos e então se perdem, perdendo então não só a si como a suas almas e ao bem comum que se espera do homem para o homem: este ramo magro do que jamais será.

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3.2.10

Mundo undo

Sei não como aqui cheguei, dia um apareceu gente que disse Vá, fui e cheguei e estou tentando tudo falar-saber sem misturar as coisas pra contar poder com eficácia o mundo a você. Mundo louco coisa essa que a gente entende, acha, depois melhor pensa e conclui entender é nada, se sabe bem. Mais que se nesse mundo aprende, mais que se não conhece nenhuma é coisa e quando tudo se acha perfeitim, isso num lugar, noutro aquilo, então aí é que o caos aparece e embaralha-se ali pra cá, aqui pra lá num sem lugar nem tempo ou mensagem que se entender possa ou que se de fato queira concepção ter fechada e única sobre esse sem porteira mundo velho que vivemos nós menos os zumbis. E as cosmologias das pessoas coisas são que devem estudadas ser pelos sábios universitários professores porque cada um único é e cada um mundo é e cada mundo diferente é e cada cosmos é assim tão diferente do outro nas mentes e assim se vive tão junto as pessoas que parece o impossível beirar a compreensão das gentes pelas gentes, como se conseguem falar e comunicar de maneira tal que entendam e entender façam uns aos outros e às outras. Quando mesmo eu falo e penso e digo e arrepenteio o meu palavrório a pregar sobre as que tenho ideias ao mundo natural sobre, tenho ideias que se então concatenam de lá pra lá e pr'acolá e que explicar tentam essas coisas que no mundo se dão e que pessoas muitas simplesmente passar deixam e escolhem apenas acreditar no escrito que está de certa pessoa em certa época há tanto tempo e bíblia e tao e talmud e ghita e árvore de sabedoria, árvore de conhecimento, árvore de moral, árvore de iluminação, árvore de planta mesmo e folha e raiz e caule, que nutriente pega do fundo da terra e que nutriente faz com a luz do sol e que de comer nem precisa porque já nasce com reserva e melhor do que bateria pega o calor do sol ou os elétrons do físico e passam de molécula a molécula bioquimicamente até fazer uma bomba celular que tira próton da mitocôndria e armazena energia num trenzinho que chamam de molécula e que se usa esse mesmo raio de molécula pra fazer material genético e replicar e reviver e então pensar num ser completo, metabolismo e função vital, ser que respira e anda e faz e sente e rege e pensa e vive e é porque ser é a principal função de vivo tudo que é, o ente é porque é, se não fosse não o seria, mas uma vez que o é então é de verdade e tem mesmo é que ser da forma melhor que conseguir porque nem todas as coisas ou pessoas ou moléculas sorte têm de poder ser e sentir e fazer e andar e respirar e encruzilhar com pessoas e sexos até que se possa então pensar e entender que se tem consciência de ser um indivíduo e de uma definida unidade, estanque e separada ainda que junta e reunida a toda a vida Gaia que está lá fora. É sim isso. A conexão se faz então entre pessoas e gentes e bichos e animais que são pessoas e pessoas que são animais e gente de bem e gente de mal e gente de gente que é da gente e que é dos outros por pensar diferente e ter essas complicadas cosmologias e lindas que terceiros têm e que ficam um querendo matar outros por ideias outras terem enquanto deveriam amar aos outros uns e então reunir as cosmológicas ideias e criar uma super-grande-hiper-mega-e-amplideia da inteira humanidade que todo o pensamento de todas as pessoas englobasse: da áfrica e da ásia e da américa e da oceania e até da europa mesmo porque se fazem muita coisa ruim, fazem, também coisas de lá boas saem; os colonizadores e a nossa relação com eles sempre assim vai ser: admiração e usurpação e o que temos mais que fazer é aproveitar de boas as coisas e botar de ruim fora o que tiver não deles somente como também de além-mar e além-continente e além-mundo, se existisse ou existir, sabe-se lá os tempos de hoje. Quando recupero então o sentir do viver sei sempre que há gentes e gentes das quais se pode ou não confiar e todos os segredos contar e tudo saber desde os detalhes ínfimos até que a gente tudo encontre e ame e seja porque se não formos nós mesmos essência bruta não seremos ninguém mais e nenhum pode ser a gente que não seja encarnação nossa e então a sociedade com maiúsculas letras nos diz que devemos ser assado ou assim e que é melhor se todos iguais forem e quiserem e então nos tentam colocar dentro de uma forminha de gelo onde emoldurados seremos psicologicamente a sermos não-livres mas presos dentro do espacinho nosso porque isso e porque aquilo sendo que nunca razão há para não sermos nós mesmos ou livres não sermos ou deixarmos de ser o que quisermos posto que a vida uma só é e depois da morte não existe porque só existe antes dela, ao menos pelo que hoje se sabe sobre a ideia do transcendental ou talvez sejamos incorporados à la Kubrick ou Clarke em uma mágica ultra-consciência e mística que ao mesmo tempo conterá todos os seres humanos já vivos ou mortos e animais outros e tudo mais o que houver no universo como se fosse do Big Bang o resto que ruído de fundo da via láctea seremos num dia ou 2001. Todo o sentido das voltas e dos arremessos que fazemos em busca da compreensão serão esforços vãos se não passarem pelo sentimento e arrebatarem o coração em uma rotina talvez piegas porém bastante inerente à maior característica de todo o ser vivo e que antes já foi ressaltada se a memória me falha não. Precisa quem de todo um aparato semântico rígido e bem construído para informação passar? Precisa quem ler e estudar e tudo saber para então tudo poder desconstruir e reconstruir num novo alçapão da cavidade e da mentalidade humana, uma nova era, um novo aeon. A paz e a democracia construídas precisam ser por aqueles que as pregam e que Consciência alcançam algum dia em pleno transe ou em vigília. Verdade e amor e respeito, peito próprio, precisam ser então um dia arraigados valores dos quais não capazes seremos de fazer ou perdoar, mas gira a roda noutra direção e o rebanho de lemingos dirige-se ao extermínio da própria raça que não valorizar soube próprias individualidades e quis inventar um ser social único e igual ao qual a revolução francesa levantou bandeiras de igualdade pra quê onde os humanos se desigualizam desde o nascimento até a morte. Sem que sejam iguais, deve uma política governar que baseada seja na compaixão e no amor contrária desta de bushinho e discípulos que sobem apenas em suas tamancas e gritam sapatarias como se fossem donos de algo que ninguém criou e que ninguém pode mesmo pensar que é seu ou dele ou de algum outro posto que não é de pessoa. Terras são coisas vivas e são coisas que são por si, por isso não precisam de alguém dizendo ser dele ou dela ou daquilo ou daquela, não! Não! As coisas são por si mesmas, quer humanos as percebam ou não e o problema e a possessividade da espécie que tudo quer e quer dominar e tem sede de poder. Esta palavra de letras ladaínicas então entra no coração das pessoas, no coração não, entra lá se saberá por onde, pelo cu das pessoas e então dentro delas explode e faz com que pensem que podem sobre os outros e que para si tem a liberdade de desmatar e matar quenquer que seja em nome de falsos interesses e mesquinhos que ninguém para o túmulo irá com eles, mancha-se ainda mais o nome de uma família já marcada por mesquinharias e o que se leva para o túmulo, nada, porra nenhuma, apenas uma de idiota fama, parabéns para eles se bonito acham isso, amaldiçoados serão pela humanidade do porvir e agora vivem pseudo-bem cercados por seguranças e mesmo assim tomando sapatadas incerteiras num ou noutro momento que mais tarde ou cedo o alvo acertarão posto que incentivar o ódio alheio não é apenas burro como é também como se paga no dos homens mundo. E na de um dia triste aurora, pensei neste mundo e chorei, mas não sei bem porque, o senhor que interprete e entenda se quiser ou não, apenas ficar em paz é o que quero sem pensar em todas essas caoticidades que vão pelo mundo afora de loucas gentes e piradas, insanos seres e desdomesticados que para si querem todo o mundo e que não vem que em sua barriga tudo não cabe e que em seu umbigo não se pode ser maior do que nada no universo, ou seja, o apenas amar segredo é e todas as relações em um amor único transformar e forte que venha de dentro e de si para qualquer outra coisa viva, posto que o amor é o ser e é o vivo e é o livre e, como disse a poetisa, isso não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

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1.2.10

O iluminado

A esposa acordou assustada, provavelmente foi desperta por caoticidades do mundo onírico que preferiria não se lembrar por motivos quiçá freudianos. Revelada agora e insegura, como a mulher de uma espécie cuja evolução se deu grande parte na savana africana, procura à sua volta com as mãos a presença do macho que escolhera para proteger-lhe casa e vida. Tateia em silêncio ao redor de sua moderna cama tecnológica, longe que está da vida na selva, e duas braçadas àtrás de si não são suficientes para tocar o corpo do marido. Caso tivesse assim encostado um corpo nem assim tão másculo mas cujo porte, sisudez e compostura fariam sentir-se protegida, suas mãos não teriam assim tremido e nem teria sido necessário avançar mais um passo em direção à vigília, no que teria apenas sentido no sentimento do tato a segurança e então adormecido mais uma vez em tranquilidade. Mas eis que o homem ia do outro lado da cama e foi-lhe necessário desvencilhar-se dos braços de Morfeu para agora então tatear com cuidado e premeditação sua própria cama tamanho-real à procura do amado, que jazia indesperto nas outras redondezas do leito nupcial. Encontrando-o, fez aproximar-se tal moça carente, recostar-se completamente todo seu corpo ao dele e abraçar-lhe de alma ao sentir-lhe a profusão de macho em cheiro e forma, para que se então sentisse aliviada. Algo a afligia em seu íntimo e sabia que tal sentimento vinha agora de um desinteresse que o tal macho vinha causando em si desde algum tempo. Um desinteresse comedido, uma falta de vitalidade, um descaso para com a beleza da vida e a mesmice de um cotidiano que era senão enfadonho, ao menos repetitivo em excesso. Nos dias de semana, trabalho e janta; nos fins, clube e poker. As fantasias que tivera sobre a renovação do amor e da paixão quando nos tempos de adolescente e a ideia de um amor eterno e duradouro agora vinham quebradiças e rebuliças dentro de sua mente, embora ainda não conseguisse de fato admitir a suntuosa falha de um pensamento irreal que já vinha ultrapassado pra lá de dois mil anos e que não obstante muitos humanos insistiam em reproduzir e passar à frente posto que achavam ideias virtuosas e mantenedoras de uma situação social estável, à despeito de qualquer drama psicológico de fácil resolução. E pegava-se pensando, a esposa: terão todos os casais sido assim infelizes desde a instituições do sagrado matrimônio? Não conseguia imaginar que não ou cogitar que sim. E assim ideias de um suposto anarquismo sentimental ou sobre a liberalização do amor começavam a se construir em seu ser através da experiência, enquanto toda sua racionalização sobre o real vinha de escritos e pregações às quais agora começava a olhar com a régua da dúvida. Embora sentisse o calor do chamado sexual em seu corpo, não mais conseguia ter prazer com o marido e suas noites agora passavam em angústia até o próximo conflito sexual, posto que era isso que havia se tornado suas noites de amor: apenas uma relação conflituosa onde um ou outro pareciam ser tomados de qualquer prazer, sendo que o ato não parecia senão uma obrigação mensal ao qual se firmara contrato tempos atrás e que a aliança nos dedos simbolizava e reluzia. De diária, a obrigação, passara rapidamente a semanal e daí a bi-semanal e agora mensal e quase bimestral. Nestas ocasiões agora marcadas com antecipação não conseguia alcançar nenhum êxtase e não via o marido assim empenhado em fornecer-lhe o prazer que urgia em atingir como mulher e ente. Faltava-lhe ser pega com vigor e ser feita a fêmea que era, faltava-lhe o sentimento de um homem viril a tratá-la impiedosamente e ao mesmo tempo com doçura e paixão, faltava-lhe um macho que sentisse atração por si e quisesse levá-la ao êxtase máximo da existência humana feminina, a saber, os orgasmos múltiplos. O marido que agora apenas roncava com a barriga de lado já havia dado-lhe tais prazeres noutras épocas em que não se falava ainda em casamento e quando tudo era incerto e ele parecia querer atar-lhe de todas as formas possíveis e imagináveis no laço do bendito matrimônio. E assim o que vai agora deitado, virado para o lado de lá e apático já soube da maravilha do entretenimento sexual como forma de integração com o todo e o real, dando e fazendo explodir de prazer a mulher amada. Do lado de cá do leito e agora em lágrimas a pingar de seu rosto, a esposa perguntava onde tudo aquilo houvera se perdido, onde. Dormiu quente, chorosa, decepcionada e mulher, na convicção de que não era aquilo que jamais houvera esperado de um casamento. Quando de fato se levantou no dia seguinte, esteve feliz em verificar que aquele sujeitinho pra lá de nojento já havia saído a trabalhar e que agora ela poderia ficar a sós e curtir sua casa até que fosse sua hora de ir à labuta, de horário parcial ao longo do dia. E então ansiosa por esbanjar sua feminilidade naquela jornada, escolhe um vestido com decote maior do que aquele que o marido teria pensado conveniente. Satisfaz-se ao ver-se assim sensual, solta os cabelos, realça o batom, manda beijo invisível. O espelho lhe diz que não há mulher mais bela do que si e sente-se então grande, linda, lispectoriana mulher com sede de vida e do viver; solta, livre, deslumbrante, viva. E os galanteios que agora recebe do novo e belo funcionário vindo da capital a fazem desabrochar em si mesma, e não resiste a papear alegremente com ele desviando-se de assuntos de trabalho apenas para ter o prazer de vê-lo buscar um detalhe em seu decote ou sussurrar confissões em seus ouvidos. Também o rapaz parece agora hipnotizado pela beleza voraz de uma esposa mal-amada e em sua moral carpedineana, esquece-se do ditado de que onde ganha o pão não se come a carne e, galanteador in natura, nem mesmo se lembra ou quer lembrar-se do que já sabe muito bem: o compromisso da mulher com outro. Ora, seu próprio compromisso de solteiro é consigo mesmo e aquela mulher que agora vai perfumada e linda a ensejar-lhe os desejos merece ser amada por um indivíduo digno de perfazer e permitir a liberação de todo esse desejo sexual que lhe anda reprimido, percebe-se, faz algum tempo. Funcionará apenas como catalisador da experiência amorosa da mulher e isso não se poderia caracterizar como traição, isso jamais. E se quando um não quer, dois não brigam; quando dois querem, eles se amam. Só isso basta e mais nada: que ambos queiram e estejam assim dispostos à unir-se em comunhão com sonho e fantasia. Da conversa profissional, o assunto se desvia para outros ramos mais líricos da experiência humana e daí seguem por caminhos tortuosos encontrando questões de desejo e de satisfação física, mental e -- finalmente -- sexual. Entregaram-se tanto às discussões que não viram o tempo passar e seguiram juntos e embriagados em si mesmos até que o expediente estivesse sido dado por encerrado, e a cerveja no bar da esquina tivesse também sido dada por encerrada e o gozo dos dois tivesse sido repetido e contínuo em um motel sabe-se lá onde, provavelmente o primeiro que tivera assaltado o caminho do casal que ia numa completa sintonia mental e sensual, cruzada e perfeita. Sexo, cigarro e sono. A esposa, digo, a amante então acordou assustada, onde estava, o que estivera fazendo, estaria sonhando? E então num único golpe de mão encontrou o corpo do rapaz que a houvera dado tanto prazer a lembrá-la de ter sido um dia mulher e amante. Um dia este, hoje, como novamente depois de anos. Apertou o corpo do rapaz contra o seu e sentiu-o também o apertar-lhe no contínuo de ação-reação já predito por teorias físicas e agora confirmado por teorias líricas e amorosas. Este pequeno movimento de aperto e reconhecimento do terreno rapidamente transforma-se em carícias leves e agradáveis, mão de um em corpo de outro e mão de outro em corpo de um, passando daí a beijos por aqui e por ali, pegadas e masturbações e mais uma vez uma total entrega à realidade e energia sexuais: dois animais em comunhão com a fabricação de um terceiro que deveria ser sempre feito desta forma, neste amor maior e contínuo, simples e natural, que mais uma vez se irrompe em gozos múltiplos aqui e ali.

O nascer do sol trás consigo a necessidade do partir. E quando chega em casa, casa?, que casa?, aquele lugar apenas lhe dá um enjoo, uma fadiga, um mal estar. Satisfaz-se entretanto ao perceber que o marido não está lá, não está em nenhum canto da casa e nem mesmo tirou sua própria vida com um tiro à orelha deitado na banheira ao constatar-se corno. O vazio de seu apartamento vai como o vazio de su'alma em últimos tempos. Mas não, assenta-se ao preparar um café e respira tão fundo que o oxigênio entra em determinados brônquios que há tempos pareciam fechados, colabados. Hoje está viva e feliz e completa e mulher e satisfeita, sem saber, querer, pensar ou planejar o dia de amanhã. E por semanas o gozo daquela noite ainda satisfaria sua alma e a manter-la-ia alegre ao lembrar-se de tudo e de todo e do homem que havia jorrado em si as sementes de um novo indíviduo. Estaria grávida de um filho bastardo e seria mãe solteira posto que não precisava nem queria mais aquela prisão matrimonial e sabia que o baixinho para sempre lhe lembraria esta noite em que fora feliz e livre como nunca, noite de não se arrepender, noite de guardar e ser e iluminar, materializando-se na imagem e na vida: mágico é o amor que se transforma em um novo ser. E desde aquele instante soube que seu filho seria um indivíduo mágico e gracioso, a irradiar para sempre a energia com qual houvera sido feito: energia de liberdade, força, brilho, paixão, desejo, máximo. E assim se deu.

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28.1.10

Divagacinhas

[Excusa] E foi-se embora sem se despedir. Não era todo dia que uma sobrecarga emocional aflorava-lhe os ânimos e nessas situações nem mesmo a cortesia de outrora era capaz de recordar ou utilizar.

[O que se diz pelo olhar] O homem atravessa a rua com seu cão enquanto a mulher, do outro lado, fita-o e julga-o louco a arriscar a vida do animal e própria, não necessariamente nesta ordem, em meio a assassinos condutores.

[Santo é o engano] Na cama, a mulher ardia em brasas. Há tempos não era amada daquela forma e não explodira em gozo assim tão forte, durador, emancipador. Pensou que jamais haveria de amar alguém assim tão intensamente. Ela estava errada.

[Acordar é preciso] O pássaro que fugiu da arapuca andou ao redor dela como que descrente que algum indivíduo pudesse ter um dia construído uma ferramenta assim tão sofisticada para prender e assassinar seus compatriotas animais. Era o despertar de sua inocência.

[Apatia] Nos meses de agosto, à umidade da chuva fina que não se dá, exceto em efemeridades atemporais do seco sertão, nada acontece. Ravia continua a tecer e Sebastião continua a caçar. O mundo roda, o tempo passa e a sociedade continua a mesma porcaria. E em Brasília, vinte e uma horas.

[Falsa dicotomia] O ambientalista em auto-análise classificou seu pensamento como urgente. O desenvolvimentista em auto-análise pensou o mesmo. Depois de 10 anos, o desenvolvimentista estava correto. O ambientalista, depois de 100. O egoísta e o altruísta. Há um caminho do meio que Gore defende, mas ninguém vê. É preciso ouvir os nobelistas, mas apenas alguns.

[O uno] Era um ser inexplicável e mágico, no qual as ondas da razão penetravam e se purificavam, saindo dele límpidas como cristalina água. Filtro da razão, mescla de coração. Do universo banhava-se, comungando experiências com toda a humanidade e melhorando-a através do celebrar da vida, carpedineanamente.

[Utopia] Quando olhava para trás tinha mil ou dois mil, nem sempre setecentos, mas quando quinhentos foram ouvidos, trezentos foram tidos como flagrantes e -- daqueles que sobraram -- a humanidade ressurgiu. Viveram sem líderes, em comunhão com a natureza e consigo mesmos. Eram livres e respeitavam-se.

[Anti monarca] Bom dia sempre dizia, a todos. Bom dia, respondiam, achando-o polido porém bobo. Aquele que reina precisa pisar na cabeça dos pobres de espírito. Ele nunca seria um rei e abominava todos os que haviam sido. Seria bobo então.

[Astúcia evolutiva] Suas roupas lembrava seda, mas não a pura: aquela das aranhas, quiçá mais pura, tecida no emaranhar das fiandeiras em polímeros protéicos. A arte da costura não foi senão redescoberta pelo ser humano, arte que tais artrópodos são mestres há milhões de anos.

[Liberdade emocional] A moça esperava reencontrar seu amor pela internet, chates e blogues, e estava assim tão certa de um sentimento forte e mágico a uni-los. Quando leu entretanto estas palavras, passou então a duvidar. Estava liberta. A palavra a houvera libertado. Era novamente uma mulher no mundo, não um objeto que outro possuía.

[Infeitiço] A incansável bruxa negra continua com suas magias querendo a todos controlar. Percebendo sua iminente sua derrota, lança sua última cartada: apresenta ao príncipe, seu amado, a mais bela das princesas. Ao vê-los juntos tem ânsia de vômito e quase colapsa de desgosto, desaparece. Mas agora sabe que o amor deles sempre passará por ela, que os atou entre as despossibilidades do universo. Ela está errada e morrerá desgostosa enquanto o casal se amará em comunhão com o universo.

[Infelizmente] O oficial do exército retira sua farda, vai até seu comandante e bate continência. Está com a credencial e a arma em punhos. Olha nos olhos do chefe e diz corajosamente que está fora, não há de coadunar com aquele genocídio. É a Ana Lúcia perdida sob um avatar na mente de Cameron, não é a realidade.

[Sem limites] Sempre que pensava sobre si e sobre o que poderia fazer, em todo e qualquer aspecto, via-se diante de uma grande barreira, construção enorme, linha instransponível que limitava seu ser a um determinado máximo alcançável. Quase desistiu de caminhar até lá, posto que estava tão longe e era tão maciça, indestrutível barreira. Seguiu porém corajosamente. Quando deu por si a barreira já estava para trás e sabe-se lá como, ela havia transpassado-a e alcançava agora virtuoses que jamais pensaria caberem dentro de si. Como prêmio por sua ousadia, a criatividade do mundo incorporava agora em seu ser, sem limites; e naturalmente. Brilhou.

[O salvador] Tentou insuflar ânimo em seu próprio peito, mas não foi capaz. Estava morta, porém respirava. Não era capaz de incorporar em seu íntimo a inspiração vinda das artes, da ciência, daquilo que é humano, da natureza ou do universo; lógica, razão e sentimento. Com tudo era apática, presa em um labirinto existencial sem sequer um só minotauro. Teseu tentou salvá-la e quase se perde também. Safou-se, mas não conseguiu trazê-la de volta. Outro herói há de inventar estratégias mais efetivas para libertar a pré-fênix. (Teme-se que outro herói não exista.)

[Mitologia geral] O mito da humanidade é também o mito de vida de cada homem ou mulher. Não há vida se não há história, se não nos incluímos num contexto maior como atores principais ou coadjuvantes. A psicologia é mitológica, a ciência é mitológica; a compreensão é mitológica. Também as sociedades são mitológicas e guerreiam entre si pela aceitação de seus mitos, pensando seus valores melhores que outros. E a moça de burca não mais anda no país de Napoleão. Estará livre?

[Susto] Passo de carro e na rua vejo a garota. Será mesmo ela? Era. Paro, espero, respiro, cumprimento. Fala oi constrangida, parece ter medo de ser vista. Recusa palavras e agita a hora da despedida. Chega quase a ser desagradável, mas isso não consegue. Tem bo'alma.

[Fim de era] A mulher pensa no último amante. Último e único. Goza na lembrança, arde. E então paga a penitência, ajoelhada no milho. Para Jaguer, salve-salve, todos os pecadores são santos. Em 69, entretanto, evita dizer que os policiais são criminosos, o clima já era de extrema tensão. Malditos anjos do inferno que assassinaram a psicodelia dos anos 60, além de alguns seres humanos. Herói ou vilão, o líder das pedras que rolam marcou e fez a história de uma geração. O woodstock do oeste foi um anti-movimento.

[Chegar ao céu] É preciso traduzir o rock para o português, o samba para o inglês e francês. É preciso multiculturalizar nossas experiências sensíveis; poesia e arte, literatura, música. A torre de Babel é abençoada, pois permite que o mundo seja novamente criativo mesmo quando ele já o tenha sido. A pluralidade de interpretações é a força de toda cultura. Grande é a cultura do homem.

[Viver em paz] Gênios todos somos, cada um à nossa maneira. Oportunista é o que se aproveita da sociedade para afamar-se, elevando-se além de outros tão bons quanto si. Quem disso precisa, não merece. E quem não precisa também não merece. Torçamos para que nos deixem apenas em paz.

[Astros e mitos] Se a lua passasse por cima de nós, um dia sentir-nos-íamos abençoados. Mas como são as estrelas que o fazem, sentimo-nos ligados, cintilantes. Se fosse o sol, saberíamos. Em júpiter um novo mundo e mercúrio nos inundará com o fervor de nossa alma. Não acreditamos em astrologia, porém em mitologia.

[Em si] O que foi amaldiçoado não se abalou e viveu com nobreza até o dia em que lhe contaram sobre a mesma. A magia não existe, mas a psicologia é real. A maldição de cada um vai dentro de si. Assim como a benção.

[Em Nietzsche] Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Olho por olho, dente por dente, guerra por guerra. Compaixão e perdão num tempo de perdição, dois mil anos de uma civilização. O homem se superará, auto-super-homenizar-se-á? Ou será para sempre o mesmo estúpido? Temo e espero.

[Bichos] A mosca pousou em minha pele e ali ficou. Andou por aqui e ali entre os pelos do meu peito. Satisfez-se de nada ou alguma coisa. E então voou.

[Nada] Direita, esquerda e direita. Respira. Esquerda, direita e esquerda. Respira. O barco que é meu corpo balança nas águas de uma piscina cujo sonho é ser rio.

[Saigon] Poucas palavras, nenhuma palavra ou palavrório. Não há regra ou decisão. O delicioso caos das relações humanas.

[Belos limites] Escreve-se qualquer coisa, toca-se qualquer coisa, pensa-se qualquer coisa. Um qualquer coisa bastante limitado. Quão pobre é nossa experiência sensível, nossa capacidade de conceitualizar, nossa compreensão sobre as regularidades do universo. E, ainda sim, quão rica não é.

[Pela universalização de todo afeto] Só o que vale é o contato e o amor que se jorra no mundo e que dele se recebe. Não há relação que não seja de amor. Se ele não está lá, nada mais virtuoso pode estar. A hierarquia existe para suplantar o amor e transformar ensinamentos em ordens inquestionáveis. O exército não é uma instituição humana. É preciso humanizar qualquer tipo de relação hierárquica e encontrar, na diferença de postos e títulos, um respeito pacífico e a responsabilidade da educação. Não odeia teu superior, ama-o e retira dele tudo que puder aprender. Suga seu conhecimento com devoção. Não odeia também teu subalterno, ama-o e ensina-o como puder, aprenda também com ele. As relações humanas que vão do desafeto para o afeto aumentam a quantidade de amor no mundo: ama!

[Dois polos] O fato de um mensageiro ou messias ter vindo ou não, ser físico ou não, ter um nome ou outro, pode gerar guerras e preconceitos mil. Quanta bobagem ainda seria, mesmo que uns ou outros tivessem razão. A formalização da mitologia e a dicotomização como simplificação do pensar são as causadoras das querelas. Está tudo no cérebro do homem. Haverá outra forma lógica do pensar? Como fazer com que o humano deixe de levar a sério pendengas estúpidas e milenares e passe apenas a pensar no bem comum? É preciso acabar com as fronteiras dos países e é preciso fazer com que todos sintam-se apenas como um humano, demasiano humano.

[Da musa onipresente] Se fizer bom tempo amanhã, eu vou. E indo, espero encontrá-la, quenquer que você seja. Em qualquer corpo encarnada, serás sempre a mesma metade de mim à qual procuro, imagem-de-captura lírica de minh'alma. Mudarás de forma e trejeitos, mas serás sempre o mesmo anti-ego encerrada no tempo daquele instante, yang. Depois serás novamente a outra e a mesma. Materizar-te-á em uma única nalgum momento? Ou vagarás para sempre por corpos, mentes e vulvas?

[Anjo] A força da mulher que canta o mesmo estribilho é homenageada com nome de túnel na capital do caos e da beleza. Poucos sabem da história e até hoje o governo sustenta assassinos. Quando no Brasil ver-nos-emos livres dos coronéis de outrora?

[Before you accuse him] O louco manda embora os usurpadores, donos de todo o mundo. Eles o pintam então com o mais feio dos quadros, a pior das tintas. Mas não existiria tinta assim tão vagabunda para pintarem a si mesmos. Antes chaves, depois o lucro. Muito depois.

[A era de aquário] A farsa da igualdade. A farsa da liberdade. Presos e desiguais. Trancafiados e o grande banco dos desprovidos. As palavras não nos salvarão. O que nos salvará?

[Ontem, hoje e amanhã] O homem que vendeu nosso país e nossas empresas para quem não se importa com nosso povo fora apenas manipulado por bandidos ou terá também agido de má-fé? Até jovens estudantes da arte e da ciência de Durkheim e Tarde sabem que não deveria ter sido assim. Um vale valioso é doado aos inimigos do povo. Doutor, terror, pavor. E do centro do olho do furacão do povo, surge nosso salvador. E os mesmos bandidos dantes vêm agora confundir a todos com pseudo-informações. O desprovido de pelos sabe que não é sua hora, teme vencer, teme a crítica, não saberá como se comportar como ator principal do palco-brasil. O concorrente está só e duvida da ideologia dos seus. Aproveitemos de sua fra(n)queza. Precisamos feminilizar nossa sociedade e toda a rede de relações que opera em nosso povo, precisamos de mais doçura e compaixão com os oprimidos, igualdade, precisamos atiçar a responsabilidade do indivíduo com a sociedade, do filho com a família, precisamos expulsar usurpadores e alcançar finalmente nossa soberania. Precisamos ainda levantar caneco: bola pra frente, madame 2010.

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17.1.10

Mono tribal

A dança era assim selvagem. A moça ficava meio sentada meio de pé e andava e falava sem parar, hipnotizando tanto o público quanto o narrador desta história. Era perna pra lá e bunda pra cá, um ir e vir frenético que atiçava a vontade sexual dos que participavam daquela comunhão. Tal inspiração sensual, entretanto, não necessitaria ser consumada somente com a sacerdotisa da seita, esta que dançava e pulava e simulando posições e efeitos, a todos estimulava. A mitologia daquela atração cultural entretanto exigia que ao menos em dias de luas azuis tal sacerdotisa fosse penetrada pelo grande tigre, macho que se aceito por ela para a cópula guardaria o estatos adquirido até a data do próximo evento e que assim seria capaz de copular com outras sacerdotisas de menor grau e assim espalhar seus blocos constituintes a contribuir para a próxima geração dos seus.

A sacerdotisa era linda e baixinha; era magra e tinha olhos escuros. Perfeita nos detalhes, tinha cabelos da cor da graúna que com os olhos faziam um par mágico e iluminador. Em seu rosto, a expressão sentimental falava aos espectadores. Sabia-se sempre o que sentia e sentia-se ao mesmo tempo que ela, sendo esta talvez sua maior habilidade ou capacidade. Na dança, tinha uma flexibilidade, agilidade e um vigor físico que tiravam o fôlego dos que ali se reuniam a tentar acompanhá-la em singelos movimentos. E quando era chegada a hora do ponto mais alto do espetáculo, a mulher girava e se retorcia de uma forma inexplicável que atiçava o instinto sexual de todos. A vontade que se tinha era de pegar a sacerdotisa e esmagar-lhe em uma intensa doçura sexual. Este era o momento em que, nas feitas da lua azul, algum macho da tribo ali se adentrava e poderia ser aceito ou negado por ela. A negação era a vergonha máxima para o indivíduo, enquanto sua aceitação consistiria em seu ponto de apogeu como ente. O risco era de quem tentasse.

Ao resto da tribo, o chamado sexual também se fazia e aqueles que não arriscavam seu cunhão sexual ao tentar suprir a sacerdotisa com a voracidade de sua libido, encarnavam o rito sexual com aqueles que ali estavam ao redor e toda a tribo explodia num sexo monogâmico e grupal. Era monogâmico porque o sexo era feito entre casais, mas todos transavam à vista de todos os outros -- eis aí a grupalidade -- e o ritual sempre terminava com grande parte da tribo ardendo-se em coito ou gozo ao redor da grande dançarina e da grande fogueira.

A moça ao lado sentira o chamado dos genes em rumo à reprodução e olhara agora fixamente para o rapaz. E então seus olhos encontraram-se e eles deixaram que naturalmente a energia sexual fluísse de ambos, atracando-se alucinadamente na frente de toda a tribo. Ali nada era feito sem essa fluência automática e inexplicável que acontece entre dois corpos -- e alguns que não haviam conseguido incorporar essa energia psíquica que por ali reinava apenas paravam e olhavam o sexo de seus irmãos como se obra de arte. Alguns chegavam a se ajoelhar no chão em reverência ao tentar sugar as boas energias dali oriundas ou a abençoar a liberdade amorosa que só se sabia presente em sua tribo. Alguns destes conseguiam então incorporar a energia sexual do casal e, assim estimulados, rapidamente dispersavam-se na esperança de encontrarem alguém com a energia também latejando, de forma a se atracarem intensa e deliciosamente.

Fato é que um ou outro dos atracamentos sexuais que se via por ali eram falsos e forjados, feitos por gentes que pensavam terem adquirido a energia sexual mas que faziam de fato forçar a barra num júbilo sexual que invariavelmente não incorria em gozo psíquico de nenhuma das partes. O verdadeiro amor e o sexo verdadeiramente livre ao qual veneravam por aquelas bandas sempre incorria em gozo repetido e eterno daqueles que se atracavam quando dos ritos tribais. Segundo suas lendas, o amor verdadeiro liberado nestes momentos de completa liberdade psicológica e sexual, quando era verdadeiramente energético, criava uma estrela no céu. E todas as estrelas eram resultado do amor mágico entre indivíduos. A diferença da sacerdotisa para todas as outras mulheres era que ela deveria ter nascido de uma cópula indubitavelmente mágica e de que ela jamais aceitaria se envolver em qualquer cópula onde uma estrela não fosse criada na abóbada celeste.

Naquele dia, enquanto dançava no centro da roda, meus olhos fixavam-na com toda a paixão e ardor e desejo que um indivíduo pode guardar dentro de si. Quando olhava para mim, raios partiam de seus olhos a atingirem os meus e cada vez eu me sentia mais hipnotizado por ela: a pele macia, o balançar de seus lindos e lisos cabelos, sua expressão de vontade e seus movimentos perfeitos. Durante toda a dança eu sentira que a sacerdotisa seduzia-me e eu entrava num estado de excitação que não era de todo racionalizado. Só agora depois de tudo acontecido consigo de fato descrever o evento, uma vez que no momento eu era apenas sentimento, admiração, devoção e vontade. Foi quando olhei para a lua e vi que seus raios apontavam diretamente para Ália. A lua servira apenas para iluminar minha sacerdotisa que agora clamava por minha presença. Tudo então desapareceu e o mundo passou a ser apenas elaeeu. Meu corpo e minha consciência não eram comandados que senão por forças universais das quais ainda hoje não compreendo. Sei apenas que tudo se iluminou e do universo tive o maior sentimento que se possa ter, indescritível do início ao fim; mágico, essente, absurdo, completo, amplo, total, absorto, total, uno. Fomos apenas um com o universo naquele momento e tudo se colapsou em nós ante um flexe de luz e sombras e penumbras e formas e sabores, conteúdos, amores, sensações.

Uma nova estrela então, surgiu no céu. E também eu tornei-me um sacerdote.

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7.1.10

O parafuso

Um ensaio sobre moral, razão, corrupção, liberdade e insanidade.

Houvera mudança, agora percebia. Desde os últimos meses e depois de tudo acontecido, enxergava diferente. Se por um lado não vivia mais num conto de fadas onde energias inimagináveis forneciam a razão para todas as coisas e todo o destino, agora vivia um romance explosivo onde fazia o papel da esposa abandonada. Romance almodovariano de personagens fortes e decididos, sempre insanos. A desculpa que dava a si mesma para a sua loucura era que amava demais e, de fato, precisamos concordar, não haverá motivo mais nobre. Já tendo sido motivo para a guerra entre grandes estados desde tempos imemoriais, agora o mesmo sentimento era motivo para retirar um parafuso da cabeça e deixar-lhe ali mesmo, do lado de fora. Seu amor valia mais do que o parafuso e então deixou-se enlouquecer convicta de sua realização. Ora, é exatamente esta falta de auto-controle que caracteriza o que poderíamos chamar de loucura.

Moralmente falando e de acordo com todos os princípios que nos foram incutidos à cabeça enquanto jovens e desde que se comeu metaforicamente o fruto da árvore bíblica, fazemos todos uma distinção entre mal e bem, entre aquilo que consideramos como coisas boas ou ruins, daquilo que nos pode tornar melhor ou pior. Tais julgamentos morais fazemos antes sequer de pensarmos sobre tudo que se dá. Achamos bonito ou feio antes que possamos racionalizar nosso julgamento. O homem é um animal moral, como nos diz Robert Wright em excelente relato de cunho evolucionista. Por vezes, entretanto, julgamos algo como horroroso até que apareça algum desses indivíduos mais sensato que nós -- existem sempre por aí -- a nos mostrem a beleza por trás de qualquer ação ou objeto que outrora desprezávamos. Então podemos mudar de idéias ao percebermos a virtude num novo caminho pensamental ou podemos escolher continuarmos defendendo nossa própria visão do assunto com ardor dada uma contra-argumentação que inflaremos de nosso âmago. Neste caso será a vez de nosso debatedor refletir. Onde a razão puder ser encontrada haverá consenso sobre rodarmos ao redor do sol ou sobre o fato de que animais transformam-se ao longo do tempo. Essas parecem ser verdades indiscartáveis. Mas não haverá consenso sobre se a melhor cor é a azul ou a verde; ou se o melhor sentimento é o amor ou a compaixão. No entanto, quando somos assaltados por questões imediatas, tais cores ou sentimentos podem muitas vezes ser afirmadas: gosto do azul; e do amor. Teremos assim uma opinião sobre a pena de morte com argumentos já previamente refletidos ou então construídos no momento do questionamento. Talvez concluamos A quando defendíamos B ao raciocinarmos pela primeira vez sobre determinado assunto e passarmos a idéia pelos labirintos da argumentação lógica e racional. Somos excepcionalmente influenciados pelo que nos é dito enquanto jovens e estou certo de que a capacidade de questionar verdades anteriormente irrefletidas seja um tipo de ferramenta que vamos aprendendo a utilizar melhor ao longo da vida. É claro que para alguns não importa estar certo ou errado e outros excêntricos têm a sua moral irracional, dura e pronto. Mas mesmo estes dirão se preferem as loiras ou as morenas. Terão ao menos uma ligeira preferência num determinado momento de suas vidas, quando confrontados às perguntas ou ideologias. É possível que posteriores experiências, inclusive, levem-nos mudar de idéia. Mas então saber-se-á porque o fez e quais eventos teriam sido os responsáveis por tal mudança de atitude. De qualquer forma, a educação da população sobre a crítica racional aumentaria a chance de que uma verdadeira razão fosse garantida em nível democrático. A usurpação da razão comum em prol de razões individuais tem sido infelizmente a história de nosso país; e continua sendo. Quantas as putarias que se faz ou se fez por aí, genocidas do povo brasileiro? Escolheu-se deixar o parafuso do lado de fora, escolheu-se assassinar sua população trocando por bem próprio, escolheu-se. Sabiam que ultrapassam a lei da moral e da razão. Mas não quiseram aceitar, concertar, lutar. Transformou-se o que é de todos para si, levando consigo a alta carga tributária que pagamos para o bem pessoal e mal social. O louco e grande corja da política brasileira. Nem todos, de nenhuma das duas classes. Mas alguns sim. E não há desculpas para aqueles que decididamente enfrentaram esta barreira e deixaram-se enlouquecer; eles irão destruir tantas vidas. E vidas são para serem vividas, não destruídas. Eles devem pagar por isso, os genocidas de nosso povo que há décadas estão no poder. E do mundo da impunidade já há os que clamam por justiça. Quiçá eles tomem força!

Aquele mundo que rodava em torno de si precisava controlar, mas não sabia como. Embora outros já tivessem demonstrado suas liberdades e suas necessidades ou anseios em se verem livres de sua dominação, não tinha qualquer compaixão e abundava em egoísmo. Sabemos que escolhera deixar o parafuso do lado de fora. Não estava interessada na liberdade das pessoas, não queria amá-las da forma como eram ao deixá-las soltas para que seguissem seus livres-arbítrios e vagassem a esmo de acordo com seus bel-prazeres: a herdeira de Maquiavel queria controlá-las. Somente aqueles indivíduos em que via a forte ação de seu poder controlador é que sentia como seus: suas preciosidades a girarem em torno de si. Via-se como o sol de um sistema solar falso, corrupto e preso a uma moral que já ia moribunda há dois milhares de anos. Não ouvira falar do amor-livre e sua idéia romântica passava por trancafiar seus amores em jaulas onde pudesse controlá-los ou soubesse como movimentá-los tal qual fantoches ou peças de um jogo cujas regras ditava. Mas um planeta rebelde agora se esquivava da atração gravitacional imposta pelo sol de sua consciência; uma peça do jogo andava dois quadrados do tabuleiro onde as leis diziam que só um deveria ser andado por rodado. A peça, o planeta, o mundo criava novas regras. A criatividade da vida e do universo expandiam as leis dos homens e criavam novas possibilidades.

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2.1.10

Positividades para uma nova década

Um sentimento de otimismo o invadira. Tivera um insight, uma grande idéia. Descobrira agora onde apostar suas fichas, o que dizer, o que teorizar, como andar para frente. O mundo, bem se sabe, consiste em condições caóticas que se apresentam sem ordens claras que se possam compreender muito bem. O homem vagou assim durante anos entre o caos, subindo e descendo nas ondas em que a sociedade e seu mundo encontravam-se. Com a melhoria apesar-de-tudo das condições de vida, aquele era um momento de crescimento para si e para os seus. Assim apostava na renovação e na continuação, ao invés de tentar a mudança. Não se mexe em time que se ganha.

Ou melhor, mexe-se: não estava satisfeito e queria chegar ainda mais longe, alcançando e sonhando e realizando. Sua grande idéia partiu de uma reflexão sincera sobre seu otimismo versus seu pessimismo. Havia pensado várias vezes em escrever um tratado filosófico em dois volumes, onde apresentaria suas idéias e visões para o bem da humanidade no primeiro volume e seus medos e apreensões com relação ao futuro em um segundo número. Como todo ser humano, tinha uma facilidade maior em criticar o status quo do que teria em propor novas e melhores condições a substituir o pensamento ou a políticas efetivamente vigentes. Nenhum trabalho é perfeito e até mesmo a busca teórica pelo conhecimento merece críticas atentas. De fato, quando bem feita, a crítica é sempre positiva. Difícil, vamos e venhamos, é sugerir metodologias ou teorias ou idéias melhores a substituir as idéias do momento por outras supostamente mais virtuosas. E este é o grande desafio do crítico. Pisar em trabalhos ou realizações alheias nada vale se não existe um ponto específico onde se possa apoiar e sugerir modificação para "melhor", segundo conceito do próprio crítico. É muito simples dizer que o governo é uma bosta, que existe corrupção ou que a ciência não funciona muito bem. Tudo isso é verdade, mas tais verdades são simplesmente vazias se -- dentro de tais críticas -- não vêm acompanhadas de uma idéia ou sugestão sobre como transformar os empreendimentos criticados em mais virtuosos. É um absurdo que as pessoas não percebam ainda os níveis de qualidade de idéias ou planos governamentais. Ainda que todos sejam ruins, há níveis claros que se pode medir ao definir até mesmo o que se considere como "o menos pior". Mas parece que nos tempos modernos há muitos que estão excessivamente desencantados com tudo e que, cegados por uma mídia ou tradição que agem em causas próprias, pensam que tudo é igual quando é certamente possível classificar em níveis de qualidade quaisquer duas idéias concorrentes e definir uma que mais lhe agrade. O desencantado é, de fato, um preguiçoso e não deseja avaliar com empenho projetos que influenciarão sua vida cotidiana mais do que podem imaginar. Ele merece que os ignorantes decidam por si. O pessimismo deve ser sempre um fantasma a nos rondar, mas no otimismo que devemos apostar nossas fichas e atacar para motivar as pessoas e alcançarmos ideais mais virtuosos para o mundo; em busca de liberdade, igualdade e fraternidade, com ordem e progresso moral.

E foi este seu iluminamento: deveria focar no otimismo, deveria motivar as pessoas e incentivá-las a ir à frente, sempre buscando seu máximo, sua superação, a força dentro delas. Mesmo o mais estúpido dos seres humanos tem uma poesia ou magia guardadas e deveria ser tarefa de todos estimular seus irmãos, posto que o brilho da genialidade pode aparecer e sempre apareceu onde menos se esperava; num bar de negros americanos ou num escritório de patentes alemão: o rock e a relatividade. Esta é a saída ao existencialismo ateu, cruel e vazio, do qual Sartre nos colocou, salvando-nos e amaldiçoando-nos. As decisões são todas nossas e somos sim responsáveis por todas as que fazemos; não há lei ou deus ou destino algum e estamos totalmente à mercê de forças que não compreendemos e que sabemos injustas em maior ou menor grau. Mas não devemos nos abalar com nada disso, devemos seguir nosso mais profundo sentimento do que gostamos, sabemos e desejamos fazer. Devemos seguir otimisticamente em busca de fazermos o que quer que nos traga prazer e que, ao mesmo tempo, possa ajudar e somar à sociedade dos homens. Precisamos de poetas e artesãos, precisamos de mais trabalhadores estimulados com as maravilhas das novas tecnologias e desejosos em fazer bom uso delas. Precisamos dar a estas pessoas tempo para realizarem verdadeiras obras magnas e precisamos dar a elas meios de se especializarem em suas artes, técnicas ou ciências. Precisamos de mais cursos e mais professores. Mas não precisamos deste ensinar quadrado e ultrapassado que a banda inglesa Pink Floyd já criticava na década de 70, num dos albuns mais vendidos da década de 70. Em frente ao muro gritavam Waters, Gilmour e seus comparsas que "We don't need no education": não precisamos de educação. A crítica não é, evidentemente, à educação em geral; porém a uma educação dura e repressiva, onde o professor é visto como autoridade máxima e reduto último do conhecimento. Na sociedade do século XXI, qualquer aluno conectado à internet pode aprender algum detalhe de uma disciplina em minutos, deixando o professor sapiente sem resposta. É preciso uma reforma educacional, é preciso que todas as aulas sejam construtivistas e que as universidades transformem-se em centros de aprendizagem não apenas para os alunos, mas também para os professores. Um novo paradigma educacional será criado nas próximas décadas e toda a sociedade só tem a ganhar com tudo isso. A revolução da informação tem sido subestimada, mas agora qualquer um em qualquer lugar do mundo pode saber o que são os direitos humanos e pode tentar reinvidicá-los com honra, certeza e plenitude. Não há mais espaço para tiranias usurpadoras num mundo de super-tecnologia e super-informação.

O pessimismo é o fantasma que deve ser visto com cautela e talvez pintado apenas em metáforas literárias tais quais fizeram Orwell e Huxley. Ele não deve assustar ou amedrontar-nos. O ser humano parece ter sido capaz de utilizar os novos avanços tecnológicos para superar-se e esta superação é que devemos buscar incansavelmente. Pedras houveram, hão e haverão no caminho e devem ser vistas antes como instrumentos de estímulo e superação a freios incômodos e desanimadores. A mentalidade buarquiana do aventureiro em busca de superação deve guiar nossa população em busca de patamares mais virtuosos. Devemos apostar e criar formas de expandir nosso otimismo, devemos criar artifícios sociais e morais para nos estimularem -- ao invés de nos matarem de raiva ao focarmos nossa atenção nos enormes problemas da sociedade. Precisamos de jornais que nos estimulem e precisamos de uma justiça real, que puna os culpados sem trégua. Os jornais manipularão a opinião pública neste ano eleitoral ao focar demasiadamente nos contras ou nos prós que vemos em nossa sociedade. Ficaremos alertas à manipulação, mas não deixaremos que ela nos vença ou nos torne amargos. Devemos chutar o pessimismo e olhar para a frente, almejando um futuro glorioso para nós e para os nossos. Não há limites do que podemos alcançar ou onde podemos chegar. Devemos seguir uma ética humanista e estudarmos muito, produzindo realizações tanto quanto pudermos, de forma que possamos buscar novos patamares e irmos além de onde sequer imaginamos que poderíamos chegar. Tudo depende de uma força interior de superação que devemos buscar onde quer que esteja e não podemos deixar que eventualidades nos abalem. Devemos seguir em frente e levar conosco aqueles que estão ao nosso entorno, elogiando-os em suas grandezas e elevando-os sem nenhum egoísmo ou inveja, que apenas nos fazem mal ao estômago. Elevemo-nos todos e cresçamos em conjunto. Eu, você, nossos amigos e toda a sociedade. Esta é a mensagem positiva que trago nesta virada de ano e que espero poder contar com você para levar para frente. E termino citando o homem rasta, Bob Marley: "positive vibration, yeah / positive"!

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1.1.10

Metaescrito

Em crise de criatividade e na ânsia de produzir algum tipo de escrito ao qual pudesse posteriormente apreciar e julgar quanto da beleza ou feiúra, o escritor propôs-se o seguinte plano: adiantar-se-ia ao computador, sentaria confortavelmente em sua cadeira e por-se-ia a digitar símbolos alfabéticos, um atrás do outro. Estava convicto de que não queria pensar em nada, queria apenas sentar-se na cadeira e conectar-se ao mundo de uma forma lírica e poética. Assim serviria como um tipo de atravessador ao transcrever a poesia do mundo em símbolos ordenados de acordo com o padrão da língua portuguesa. Não tinha qualquer amor particular à língua portuguesa, esta consistia simplesmente na forma mais adequada e natural do mesmo expressar seus sentimentos e delírios para outros seres humanos. De certa forma tinha uma angústia em ser compreendido pelos seus irmãos e mostrar a todos algum calejo qualquer universal ou da condição humana que por aqueles tivesse passado desapercebido. Não tinha absolutamente a intenção de ser original e não se importava se outros já tivessem pensado sobre aquilo antes. Se o tivessem feito, tanto melhor. Poderia até citá-los se de fato os conhecesse. Mas não: queria apenas passar um sentimento ou agitação para outro indivíduo posto que tais sentimentos assim o sufocavam e sabia que a escrita era o vômito angustiado do poeta a despejar sentimentalidades ao seio do leitor. Ferreira Gullar certamente saberia citar quem houvera dito isto; talvez Joyce ou Proust.

Mas quanta mentira. Não era um escritor ou tipo algum de psicógrafo do lirismo universal; além de tudo, amava a língua portuguesa de tal maneira que se sentia sempre em enorme desassossego quando não podia utilizá-la como meio maior de expressão. Justamente pelo fato dela assim o permitir expressar seus sentimentos até seu estado mais forte, denso e completo; e se assim o leitor não se sentia depois de ler as palavras escritas, poderia assim admitir como seus os erros na transmissão do estado emocional; sublimação simbólica. Mas é claro, sabia também das limitações de toda e qualquer linguagem. A expressão da natureza humana estará sempre além de sua representação por símbolos ou mesmo através da fabulosa sétima arte.

Experimentou, o escritor. Dirigiu-se até o recinto e sentou-se. Meditou por dois segundos a tentar algum tipo de conexão cósmica que abriria sua percepção de alguma maneira curiosa, interessante ou lírica; sempre bela. Mas por ali ficou mais do que trinta vezes o tempo inicialmente pensado e não conseguiu conectar-se de forma alguma a este tipo de magia assim incompreensível do universo. Abriu e fechou os olhos e nada passou por sua cabeça. Era um vazio em si mesmo. Olhou suas mãos, e a tela do computador. Tentou pensar em alguma das amadas, mas não tendo sido capaz de escolher em qual delas focar seu lirismo, foi seduzido pela magia da informação e quando se deu conta já estava a assistir concertos musicais através da internet. Santo é o youtube e santo o acesso à informação dos tempos modernos. Rabiscou-se, não era isso que teria vindo fazer. Queria escrever assim textos líricos de magnitude poética ou extrema clareza lógica, filosófica. Mas a conexão lírica insistia em não se fazer. O escritor sabia que não poderia simplesmente começar o digitar de teclas assim sem que uma conexão verdadeiramente aberta com a maravilha do universo estivesse estabelecida. Uma apreciação sincera do absoluto, infinito e absurdo da vida e do universo. Uma compreensão cética sobre a falta de lógica, senso, explicação, puro maravilhamento. Sem isso jamais seria capaz de escrever qualquer coisa que prestasse ou que tivesse vontade de assinar, verificando como sua tal obra. Tinha um zelo por seus escritos e uma enorme responsabilidade para com eles. Não escrevia e não escreveria qualquer coisa. Causava-lhe pânico o fato de dizerem que tais palavras grossas ou insensatas tivessem vindo de sua boca ou mãos ou cérebro, corpomente. Sentia-se responsável pela forma como influenciava o mundo e as outras pessoas. E sem a conexão lírica quiçá onírica, não arriscaria seu nome ou reputação. Num átimo de insanidade e desligamento pensou ter conseguido conectar-se ao seu eu-escritor porém em meio do digitar de algumas palavras, seu esquizofrênico mundo onírico apagara-se e vira-se novamente fora de tudo. Era apenas uma macaco em frente a uma máquina.

a) Cansado e frustrado, desistiu de tudo. Amaldiçoou sua crise criativa e falou grandes palavras que, se pouco educadas aos ouvidos das damas, ao menos davam-lhe um certo conforto momentâneo. Desligou o computador e foi cuidar de suas hemorróidas.

b) Escreveu então estas palavras que duvida porém espera que causem qualquer tipo de vibração positiva na mente dos leitores. Seu prazer era o de estimular e incentivar a humanidade e seu sonho era espalhar uma alegria existencialista e secular pelo mundo, fazendo com que todos renascessem dentro de si mesmos sempre através de uma explosão criativa de auto-superação -- à qual Joseph Campbell -- chamou de pick experience. Segundo o autor tal experiência de auto-superação acontece quando estamos fazendo algo com tanto empenho que por um momento esquecemos de tudo o mais à nossa volta e estamos plena e absolutamente concentrados na tarefa de escrever, ler, trabalhar, amar e ser só aquela tarefa. Campbell diz que esportistas normalmente têm este tipo de experiência de superação e precisam dela para se concentrarem e darem o melhor de si. Esporte é psicologia. Ciência e literatura, Mr. Campbell, certamente exigem que seus praticantes passem por tais momentos sublimes em frente a um teclado e um computador.

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29.12.09

Reconstrói-te

Não mais suporto esta tua falsa dependência, como se tivéssemos nascidos grudados ou coisa assim. Não nascemos e somos livres. Desate-se. Você não depende de mim ou de qualquer outra pessoa. Mate-me, estrangule-me, enforque este eu que existe dentro de ti e ao qual pensas possuir e controlar como um boneco voodoo. Não tenho absolutamente nenhuma obrigação em responder estas estúpidas cartas que me envias contando sobre as idiotices de teu doentio e neurótico cotidiano. Não quero saber se alguém vai morrer ou deixou de morrer, não quero saber sobre teu supermercado, sobre o que comeste ou deixaste de comer. Importo-me com idéias e ideais apenas. Tuas estúpidas mensagens deixam-me estarrecido ante teu egoísmo, estupidez e alienação. Não sabes de nada e parece que todo teu objetivo na vida consiste em cercar-se das pessoas que ama, mas saiba: eu não te amo. Talvez já tenha amado noutros tempos onde via-te com a inteligência, audácia e perseverança que fazia parte de teu caráter. Hoje você é apenas uma balzaquiana como outra qualquer, ansiosa por resolver falsos problemas supostamente amorosos: verdadeira inquietação -- do social ao teu ego -- em juntar-se a uma pessoa para todo o sempre, eternamente e amém. Mas não, eu não sou como outros reles que andam por aí e que acreditam neste pseudo-amor das novelas, este contrato social que se faz com pessoas para afastar o monstro que é a carência interna e o reconhecimento pelos pares. Não acredito também neste ideal já morto e enterrado da instituição Família e do felizes para sempre. Acredito e confio em Vinícius e em Epicuro, no carpe diem e na renovação do amor -- seja ele o mesmo ou outro. Humanos são seres instáveis e que por vezes precisam da solidão, liberdade ou promiscuidade para se sentirem completos. Não estou disposto a sacrificar minha vida, meus momentos e meus ideais para satisfazer a carência afetiva de nenhuma balzaquiana de pensamento antiquado como o que tens. Mate-me dentro de ti: assassine-me sem dó ou piedade. Só assim haverá a possibilidade nietzscheniana do eterno retorno, o renascimento de nosso amor fênix que poderá, este sim, avassalar estados, nações, pessoas, crenças e ideologias quaisquer. Este eu que está dentro de ti não se assemelha em absoluto ao meu eu real, este quem escreve tais duras e sinceras palavras. Se isto te fere, saiba que me fere ainda mais receber todas estas tuas parcas composições cotidianas, alienantes do início ao fim, carentes de um afeto falso e ansioso. Não sabes o que é o amor, teoria ou prática.

De nossos tempos juntos, mal me aguça a vontade de lembrar do que ocorreu ou -- ainda mais -- do que poderia ter ocorrido, vã despossibilidade agora perdida em nenhum lugar do universo que não sejam nossas próprias mentes; moribundas lembranças. Tuas mensagens quase diárias fazem apenas sufocar-me e matar, tal qual veneno letal, minha dubitosa vontade de ti. Consomem meu ego como fogo psicológico: fátuo e perseverante, insistente e sombrio. Sugas minhas energias vitais com tais ignóbeis e malfadadas palavras. Se gostas mesmo de mim como berra irresponsável a todo universo, respeite-me e suma, desapareça, não fales mais comigo e atinjas com bala de prata este falso-eu, horroroso e derretido, que guardas em tuas memórias. Não sou desta forma, não posso ser controlado e não desejo espantar minha carência afetiva ao fechar minhas portas para o mundo. Sou livre e estarei sempre aberto a novas oportunidades. Tu egoistastes todo teu viver, transformando o mundo numa suposta bola que roda em torno de ti e dos teus. Imigrastes para a beirada do mundo e esquecestes das desigualdades, das injustiças, das marchas-a-ré de nossa sociedade. Mataste-te ao pensar-te egocentricamente no centro do mundo e podes até convencer outros ignorantes de tuas falsas-verdades, fazendo-os comer em tuas mãos podres. Mas isto não farás comigo, posto que sou forte e independente, não tenho carência alguma deste teu afeto egoísta, falso e controlador. Não lhe tenho ódio porém temo esta tua insanidade e fuga da realidade com o objetivo impensado em formar um teatrinho onde colocas teus personagens da vida real e manipula-os da forma como desejas. No passado tentaste prender-me em teu mundo fantasioso e negramente mágico. E então finalmente realizaste que sou livre como um pássaro encantado. Mas não conseguiste perceber o que a garota do conto foi capaz. De fato, não chegas aos pés dela. Aquela que prendera o pássaro e percebera que o mesmo perdera todo seu encanto enquanto engaiolado. Tu segues querendo prender-me, mas não tenho afeição a tais gaiolas da psiquê e sei que o pouco encanto que eu quiçá possa ter também perecerá caso ceda a teus anseios egoístas de menina teimosa. Deixe-me em paz, suma da minha vida, desapareça, afaste-se.

Mas já sei que não vais compreender nada do que te digo, posto que és burra e falsa. Teu egoísmo é muito maior do que teu amor, supera-o com folgas; e de muito longe. Não amas as pessoas, tens apenas o amargo desejo de possuí-las e esgotar delas as energias que são oriundas de suas liberdades. Liberdade e auto-respeito são a energia de todo ser humano; energia esta que queres prender nos que "ama" neste mundo. Mas sou livre, e peço não me ames. Por favor, não me ames. Odeie-me apenas; assim será melhor. Mas tu, de fato, não me amas; amas apenas a ti mesmo e a teu doce poder de controlar personalidades. Controla-as com um falso afeto, falsas palavras, falsa relação. Tu és perversa por dentro, dir-te-á fraca, mas é má. Tua índole é maléfica. Não confio mais ti. Deixe-me.

Não construas este falso mundo, conto de fadas onde vives e escolhes um papel para todos à sua volta. Há o rei e a rainha. Tu és a rainha, obviamente. Há súditos e servos. Controlas todos com a amável força de tuas palavras. Mas jamais falas sinceridades; falas porém o que outros quererão ouvir para considerar-te tão bem quanto possível. Inteligente que és, transveste-se no corpo dos outros e coloca-te num falso papel do melhor interlocutor. Mas não te respeitas nem respeita os outros. Nem todos conseguem prever e há aqueles que percebem assim tão claramente tuas mentiras. Seduzes as pessoas com esta enorme falsidade, mas saibas que algum momento esta falsidade tornar-se-á contra você. Decairás em tua ignorância e crueldade. Ninguém então virá dizer-te o quanto te odeia -- terão aprendido a trocar tuas falsidades por falsidades. Guerra se paga com guerra. Violência gera violência. A ação é seguida de reação. Perceberão teus golpes sujos psicológicos e arderão contra tua pessoa como faço agora. Reflita, liberte-te, cuide-te.

Eu não sou nenhum tipo de escolhido, não sou um príncipe encantado e não sou melhor do que nenhuma das pessoas que me cercam. Todos são entes, vivos, com suas belezas e magias ímpares: ninguém é melhor que ninguém. A própria conceitualização do "melhor" muda e camufla-se na pessoa que julga. Não haverá consenso jamais. Desmistifique-se. Percebas que o que constrói é um mundo esquizofrênico e falso, onde energias das mais absurdas e inexplicáveis vagueiam entre indivíduos. Consegues supostamente "sentir" o que vai acontecer, influencia todos a participarem de teu jogo vital; jogo real. Podre que és. Veja que piada tornaste-te. Fazem troça de ti. É quase inacreditável pensar que acreditas em tudo aquilo que diz e em todas as asneiras energéticas que vão e vêm. Teu problema pode ser mental e hereditário; deverias procurar um spa de si mesma. A magia que fazias e fazes, teu pensamento positivo ou negativo, tua inveja ou admiração: tudo isto fica contigo e nada me atinge, posto que para que uma "magia" atinja alguém é preciso que esta pessoa se sinta atingida e eu sei que nada disso funciona. Farsas e galinhas na encruzilhada e velas e banhos e mandingas. Nada disso atingir-me-á enquanto eu tiver minha força atéia a desacreditar todas estas babaquices em que continuas cercada em que nelas te afundas. Aceite a verdade: somos apenas dois pedaços de carne ambulantes, macacos cegamente produzidos depois de milhões de anos de evolução biológicas sob condições físicas inexplicáveis; mas nem por isso "místicas". Não há nada além de nós, não há absolutamente nada, não há explicação ou providência ou destino ou ter de ser. Nada vem pronto e a criatividade imprevisível do universo é o que escreve o futuro, que não existe e que não existirá até que se torne presente. Não há e não haverá nenhum desígnio oculto como pensas, haverão apenas os esforços de alguns em produzir melhores dias e o desesforço de outros a passarem suas vidas a olharem para seus umbigos, permitindo silenciosos que os outros seres humanos simplesmente se fodam. Volte a ser a idealista que foste um dia, largue mão das idiotices pregadas pelo segundo grupo. Penses em qual dos grupos as grandes personalidades da humanidade estavam. Reflita. Ou volte para teu umbigo e de mim te afaste definitivamente.

Como pude por tanto tempo desconhecer-te? Tu que sentes como a maior das poetisas não és capaz sequer de perceber evidências assim tão claras de nossa vida cotidiana, esta falta evidente de um sentido, eterna construção do dia seguinte. Acuse-me se quiseres de abraçar o existencialismo sartreano como a última realidade; é mesmo isto que faço. Concluo que tua razão é falha e deverias ler mais os filósofos racionalistas ao invés de afundar-te literariamente nos sentimentalismos que já são de tua própria índole. Este é teu dom, mature-o sim, mas não te esqueças de buscar também novos horizontes quando de tuas fraquezas. Cresça, aumente, expande-te, supere-te, renove-te, renasça maior e mais sublime a cada novo amanhecer. Admiro teu sentimento e tua captação das ocorrências ao teu redor, mas é ao analisá-las dentro de teu corpomente que te afundas. Invertes os sentimentos, relacionas mal as evidências, concluis incorretamente. Falta-te lógica, precisão, rigor conceitual. Diferencias-te de Clarice intelectualmente, jamais pelo lado sentimental. Clarice era, simplesmente, muito mais inteligente e culta que ti; mas talvez sentisse da mesma forma. Talvez sentisse menos. Talvez.

Não me escutes também como se eu falasse realmente com qualquer tipo de razão. Não falo, não falarei. Não aceites críticas falsas ou análises incorretas sobre tua personalidade. Defenda-te quanto puderes, ou ignore-me. Relato aqui apenas o que sinto e não tenho porque esconder nada do que penso apenas com o intuito de não ferí-la. Talvez um ferimento agora seja melhor do que uma vida inteira de desinteligências e estupidezas. Um passo àtras para antever dois à frente. Talvez isto te faça crescer. Talvez. Talvez de derrube ainda mais. Talvez eu mesmo esteja trocando todas as bolas -- como é meu costume fazer -- e assim será teu fardo agora tentar me convencer de tua virtude que hoje chamo de falsa. Desejarás fazê-lo ou cagarás e andarás para mim? Convencer-me-á quiçá de tua inteligentsia, de tua responsabilidade com a humanidade, de teu amor-livre? Ou engolirá estas palavras tais como agulhas? Pobre do garoto assim atacado. Faze como quiseres, mas jamais me escute como se eu fosse qualquer tipo de entidade dotada de extrema sapiência. Jamais escute qualquer um assim. Seres humanos nasceram falíveis e ligá-los a qualquer tipo de virtude suprema, honrosa e inquestionável tem sido o maior erro deste próprio e maravilhoso ser; humano. O antropocentrismo vira egoísmo em tua mente e na mente de tantos outros que se pensam melhores ou escolhidos de certa forma. Todos em suas idiotias, à sombra do altíssimo.

Vejo que é forte teu instinto materno e quando então associado à visão falsa e cristã de uma família feliz, vens seduzir-me a requisitar herdeiros; sangue e genoma mistos. Mas minha prole não virá com pressão, virá apenas com amor e liberdade. Ela não virá hoje ou amanhã, mas no momento em que eu me sentir à vontade para tal. Não sinto ainda qualquer tipo de obrigação em popular ainda mais este planeta já repleto desta horrorosa praga que são os seres humanos. Reproduzir-me-ei caso sinta amor por uma mulher e esteja queiroso e à vontade para misturar-me com ela em rumo ao futuro; infinito existencial. Não me importo com tua suposta velhice balzaquiana. As mulheres podem hoje ter filhos até os quarenta e ainda além; tua insegurança e ansiedade são minas em que pisas e que te explodirão em qualquer momento. Não confia na tradição ocidental, não confia no cristianismo, não confia em tua família ou em tuas amigas secretas e caretas de cérebro despedaçado, moldado por dois milênios de falsidades. Urge o momento de uma revolução intelectual e psicológica nestes seres: já passa da hora das pessoas respeitarem-se e esquecerem de toda essa estupidez moribunda do crescei-vos e multiplicai-vos, da instituição familial. A humanidade é nossa família; somos todos irmãos. És inteligente o suficiente para transpor esta barreira social e tens a semente sentimental para buscar teu auto-respeito e alcançar o nirvana em que consiste o carpedinear despreocupado do verdadeiro savante. Entregue-te a ti mesma, respeita-te. Segue apenas teu coração. Desafoga toda esta tua angústia, vomita-te por inteiro, liberta-te. Lembra-te que nada é absoluto e nada é urgente. Reflete com paciência. O mundo continuará a rodar, o que quer que aconteça. Não pararemos o sol ou o luar. Não pararemos os astros ou as estrelas-do-mar. Aquieta tu'alma. Respira, reflete, reconstrói-te, pacifica-te, respeita-te. E então somente neste momento, pensa novamente em procurar-me. E se isso jamais acontecer, tendes paciência. A vida tem muitos caminhos e muitos deles levam à virtude. Talvez eu não te compreenda e teu caminho seja virtuoso de uma forma a mim incognoscível. Sei que tens um forte instinto materno e talvez realizar-te-á na maternidade, sublimando tudo mais que importe ou deixe de importar neste mundo. Revira-se, some, anda, fala, pensa, seja. E volte para mim algum dia, se as conjunções caóticas deste mundo louco assim mais uma vez nos permitir. Sem destino, sem sonho, sem meta, sem certezas. Apenas para viver, forragear num carpedinear despreocupado, amando e tranformando a nós e a todos os seres do mundo, em todo instante, neste fabuloso sentimento que é o amor.

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12.12.09

Fêmea e paz

Hoje vejo que ela era aquele tipo de mulher que sente falta de uma mão mais firme, de uma autoridade paterna ou sabe-se lá o quê. E eu no alto de minha juventude arrogante e deseducada servia-lhe bem ao propósito. É fato que existem pessoas que requerem e que sentem uma determinada falta de um autoritarismo excessivo. A submissão é também característica do ser humano e polariza com a força autoritária de uns, criando uma sociedade pseudo-harmônica. Digo pseudo porque me parece que há autoritários demais, de forma que há uma guerra pela governança de qualquer grupo social que se possa imaginar. E não parece possível, psicologicamente falando, a presença de vários líderes que sejam todos autoritários entre si. Uns solaparão os outros em guerras e conflitos em que morrerão quase que somente indivíduos inocentes.


Paz


Eu possuía, entretanto, também uma doçura escondida nos meandros de meu autoritarismo agora já ultrapassado. A doçura quando então descoberta transformava-me no pior dos mortais, fraco quando visto deste ângulo, ou então poderia ser entendida -- e o era, muitas vezes -- como um ponto de equilíbrio e um senso de justiça que então catapultavam-me positivamente na avaliação alheia de meus quesitos éticos e morais enquanto ser humano. Apesar de certa agressividade latente, teria encontrado o fiel da balança. O autoritarismo, talvez seja verdade, está ligado ao que se esperaria de uma posição masculina de poder; o poder do macho, do pai, a aceitação daquilo que devemos ser capazes de engolir e que talvez já tenhamos chegado programados para engolir, biologiculturalmente. Há questões que estão além da compreensão e não há herdabilidade ou tábula rasa que explique.

Não sei exatamente quando foi que percebi a idiotia do tratamento do macho, mas creio que foi exatamente com o abuso desta posição por alguns chefes que tive ao longo da vida. Tenho para mim que nossa personalidade é fundamentalmente formada por dois tipos de pessoas: aquelas que queremos ser como elas; e aquelas das quais percebemos que nos devemos afastar. Nossos ídolos e nossos desafetos, céu e inferno. Toda nossa conceitualização do mundo parte de uma dicotomização. Ao seguirmos aqueles que consideramos dignos de nossa admiração por pactuarem com atitudes e morais das quais já concordamos previamente, somos capazes de moldar melhor nossa própria moral; o que ajuda-nos a encontrar um rumo e um caminho a seguir. Nossos mestres da vida podem estar entre a roda de amigos, na música que escutamos, no filme que assistimos, no livro que lemos, ou pode ser o líder de nosso estado a quem elegemos como esperança. Doutro lado, aquelas pessoas podres: os maus exemplos nos reforçam de forma que compreendamos de quais atitudes queremos nos afastar, quais exatamente as coisas que discordamos e desgostamos. O universo é simplesmente muito complexo e a vida de um ser humano consiste num caminho ininterrupto e extremamente sinuoso. É importante encontrarmos tanto a luz que nos indica para onde ir quanto percebermos a escuridão doutro lado, de onde nos devemos afastar. Quando se está perdido, inclusive, normalmente ajuda mais descobrir do que se afastar do que exatamente compreender para onde ir: eis a vida. Também a evolução orgânica se dá mais pelo descarte das formas mais inaptas do que pela efetiva seleção positiva das formas aptas. A evolução do conhecimento e da vida não são apenas metaforicamente semelhantes, elas são semelhantes no seu nível mais básico de desenvolvimento e modificação; o darwinismo é um sistema universal que explica mais coisas do que poderia imaginar qualquer inglês de época vitoriana. Seu gênio não era simplesmente tão grande quanto se pensou; era ainda maior e a revolução darwiniana ainda não alcançou seu ápice enquanto modelo explicativo do universo. Mas chegaremos lá.


Cogumelo atômico de Nagasaki. Vá seu século XX beligerante, vá e não volte jamais.


E talvez tenha sido quando encontrei outro super-macho a tentar tudo controlar e pisar, mostrando sua força, batendo no peito e dizendo palavras de ordem que consegui finalmente perceber esta atitude hostil e estúpida em mim mesmo -- muitas vezes precisamos ver nos outros nossa própria atitude para sabermos melhor criticá-la. Foi nesse momento que encontrei o super-homem gilbertogilneano e fui capaz de encontrar feminilidade dentro de mim. De fato, depois de me rebuscar e me reconstruir encontrei uma admiração e uma adoração apaixonadas por tudo que tange e que está ligado à idéia do feminino. O sociólogo italiano Domenico de Masi teoriza, inclusive, que toda a sociedade humana esteja se feminilizando ao longo das últimas décadas e que esta atitude seja boa para a humanidade como um todo. De Masi diz que culturas machistas como as culturas americanas e árabes estão com seus dias contados e sugere que uma humanidade que preze menos valores autoritários e que tenha mais compaixão está prestes a surgir. O modelo latino do carpe-diem e de um ideal feminista de ajuda e acompanhamento do mais fraco tem uma boa chance de ser a ideologia predominante num século XXI já cansado e ressaquado da força estúpida e beligerante do século XX. Lula está aí. Obama está aí. Os Estados Unidos tropeçam depois de Bush e Obama ainda não tem sido capaz de feminilizar o estado. E o prêmio Nobel da paz do ano, manda dezenas de milhares para a guerra. O tropeço do extremo autoritarismo de Bush e a ascenção de Obama pareciam bons demais para ser verdade. Os EUA flertam com a Colômbia e Honduras, mais tropas para o Afeganistão; o modelo machista do século XX ainda não está morto. O Brasil flerta com a França que, apesar de tudo, ainda é La France -- ainda é fêmea.

O jogo da política internacional é o mesmo jogo da vida das pessoas, ela reflete tal qual uma lente de aumento o que acontece em geral ao longo daquela sociedade; de cima a baixo. O espelho é democrático e o problema do país é um problema também de mentalidade de seu povo; de anti-ideais ultrapassados que continuam sendo repetidos pelos mantenedores do status quo. Os grandes machos do século XX não guardarão seus grandes e horrorosos pênis dentro de suas calças de um momento para o outro. Eles tentarão, machos que são, controlar a situação e abusarão de suas autoridades para manter-se por cima de falos eretos. Isso acontece em toda a extensão da sociedade com seguranças e policiais abusando de suas autoridades a todo instante. Mas há os dissidentes, aqueles que sabem das restrições do que fazem, a feminilização alcançar-lhes-á cedo ou tarde e De Masi estará certo; espero e acredito com convicção. O século passou, a Terra rodou, o mundo se renovou. Novos ares entram em nós, pioneiros da era de Aquário. Um novo tempo há de surgir, nova ordem, novos ideais de paz, compaixão, amor e proteção. O século XX mostrou para todos que a beligerância só trás mais beligerância e ódio e terror. É tempo de refrescar, é tempo de ensinar, é tempo de aprender; ajudar e ser ajudado. Os exércitos do século XXI serão exércitos da paz e da educação social; exércitos ideológicos que lutaram guerras meméticas. Árabes e americanos talvez continuem tentando explodir-se mutuamente, mas creio que também eles serão engolidos pelo zeitgeist: uma nova feminilidade é o que desejo para o mundo neste década que surgirá a reforçar e moldar os ideais do terceiro milênio. E espero não estar sendo demasiadamente otimista...

Viva a mulher em todas suas curvas e ideais! Viva o instinto materno!

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29.11.09

Longe se vai, sonhando demais

Só agora percebo que passei os últimos seis meses tentando me reencontrar. E mais: percebo que ainda não me encontrei e que, portanto, devo continuar em minha própria trilha. "Conhece-te a ti mesmo", diziam as inscrições no oráculo de Apolo, em Delfos, desde a Grécia antiga. Fato é que não me contenho em admiração pelos gregos; boa parte de toda a filosofia ocidental pode ser vista em Platão e Aristóteles, com uma tal clareza e lógica na composição de idéias que deixa a invejar qualquer intelectual destes tempos. Não é à toa que sobreviveram tanto tempo; os escritos. Fato é que falam muita bobagem também, bobagem daquele tipo que à época não poderia ter sido reconhecida; e a avaliação das formas como os gregos, tanto quanto os grandes filósofos, constroem sua argumentação tomando como certitudes algumas dúvidas claras -- e outras dúvidas claras como certitudes -- permite-nos verificar como nosso próprio pensamento também deve estar sujeito aos mesmo viéses; invisíveis para nós que estamos presos neste tempo e cultura.

Quando se está no exterior, quando se é estrangeiro... não consigo sequer colocar em palavras o que sinto; mas sei que não sou como quando estou aqui. Sou uma outra pessoa que é melhor em determinados aspectos e pior em outros. Mas não tenho um sentimento de propriosepção tão forte quando estou em país; aqui pareço ser mais eu mesmo. E então aqui me sinto mais seguro com relação à minha posição como cientista, professor, profissional, humanista e, principalmente, como filho, primo, irmão, sobrinho, amante. Assim, confio mais em mim, nas minhas idéias e na minha maneira de tocar a vida. Lá fora estou sempre muito carente de amigos e pessoas queridas e o pior é que, paradoxalmente, quando volto fico carente das que lá deixei. Não há mais saída existencial para alguém que já morou em diversos lugares do mundo e encarou essa experiência com intensidade e coragem. É que pode-se sempre levar seu mundinho para lá e viver dentro dele, de uma bolha auto-protetora. Muitos fazem isso. Porém quando se abre e deseja-se conhecer e aprender e amar e viver intensamente neste lugar -- Meca é aqui!, como diria Joseph Campbell -- então vive-se na intensidade rotatória do dia-a-dia e interage-se, reconstrói-se, modifica-se, engrandece-se. Perde-se; encontra-se. E mais uma vez perde-se.

Tudo acontece no tempo e grande partes das mudanças que o mundo já viu ou ainda irá ver não são mudanças do tipo de zero para um; porém mudanças graduais que vão se operando ao longo dos dias, meses, anos e décadas. Ao mesmo tempo, os grandes eventos do passado deixaram marcadas suas tatuagens na pele de nossa cultura. E elas demoram tempo para apagarem, para passarem. Nenhum povo ou cultura muda de um momento para o outro ou, se tais mudanças catastróficas acontecem, elas são antes exceções do que regras para um modelo geral de evolução social. O modelo téorico sobre evolução da sociedade é gradualista tal qual a evolução dos organismos (darwiniana) o é. Eventos vão e vem como ondas meméticas que andam lentamente e vão afetando cada vez mais pessoas até chegarem num ápice; há evidentemente diferentes níveis de fitness máximo de memeplexos com relação ao cárater "efeito na totalidade da população". Há idéias que monopolizam o quarteirão e outras que chegam a todo o Estado. Mas elas vão e vêm como ondas que atingem o conjunto memético de uma dada sociedade em um determinado tempo. Elas podem ter sido originadas em seu próprio meio social ou podem ter sido trazidas por outros grandes memeplexos culturais que representam a face de um determinado país na política internacional. Imagine a face do memeplexo norte-americano? Deve dar muito medo.

E agora vejo quantos trabalhos científicos interessantes e inacabados que deixei por aqui antes de partir para o exterior, faz dois anos. Preciso poli-los agora com perfeição e retomá-los, posto que são muito promissores. Por outro lado, não se tem mais o tempo livre de outrora. Além disso, os pensadores estão sempre mais inclinados a pensar do que a realmente colocar em prática qualquer uma de suas idéias. Sinto esta inclinação e prefiro gastar mais tempo em adquirir cultura variada nova do que deitar com mais especificidade sobre o que realmente se deve fazer para tornar uma idéia realmente viável. Numa sociedade com ideal divisão de trabalho, haveriam todos os níveis de pessoas: desde as que mais gostam de pensar até as que mais gostam de realizar um trabalho mecânico ignóbil. E aí toda a linha de produção de novas idéias estará montada. De fato, as máquinas podem substituir o último, mas ainda não o primeiro. Será que um dia alcançarão esta capacidade? Assusta-me neste momento de minha vida o fato de que agora parei de ser um estudante e sou um profissional; um professor. E então agora vejo todas as críticas que sempre fiz sobre o processo educacional, sobre a ciência e sobre a forma como são conduzidas as políticas reais; vejo todas apontadas contra a minha própria cabeça. Meu eu de uma sociedade ideal que criei e que não me conformo de não estarmos nela e, por isso, luto para que a alcancemos algum dia. Mas percebo que nenhuma idéia pode ser tão boa na prática quanto na teoria. Na teoria não há falhas, tudo é consequência lógica de um conjunto pré-determinado e conhecido de fatores que seguem uma ordem precisa e cartesiana, analiticamente gerando conclusões necessárias segundo lógica kantiana. Na práticas as medições são falhas, os humanos cometem erros e mais erros. Não há como fazer a sociedade ideal quando esta é constituída por estes malditos seres humanos. Raça quiçá sem salvação. Poderemos sonhar com algum tipo de sociedade utópica altamente intelectualizada enquanto vemos ignorantes a todo instante gabando-se de seus poderes dentre os governos dos estados mundiais? Uma compaixão falsa e hipócrita com os mais oprimidos. Os estados do século XX serão um dia vistos como provavelmente os mais tiranos da história da humanidade; e o neocolonialismo econômico escondido atrás da farsa da social democracia que não tem e nem nunca teve absolutamente nada de social; não na prática. De fato não sei o que aconteceu para o capitalismo neoamericanóide ruir, mas provavelmente deve ter sido mesmo alguma idiotice dos próprios donos do poder; provavelmente aqueles mais gananciosos que sempre souberam que a coisa iria explodir e continuavam enchendo seus bolsos de grana mesmo assim. Esses serão talvez os seres mais egoístas de toda a humanidade; não saberia diferencia-los de genocidas.

Estou de volta e agora refaço as trilhas que me trouxeram até aqui. Preciso segui-las posto que são ricas e elegantes. Campbell também ensinou-me a seguir meu instinto: "Follow your Bliss", ele dizia. Estou aqui cienciando, tocando, escrevendo. Tenho lido pouco e ultimamente aprendi a adquirir conhecimento através da mídia em vídeo. A televisão, agora entendo, não deve ser vista como um equipamento maléfico per se; apenas um equipamento extremamente mal utilizado ou utilizado de uma forma a pressupor a ignorância da população e sua vontade de ser dominada. Ando por aí e sei que as pessoas não são ignorantes -- vejo em muitas a fome pelo conhecimento -- mas a televisão idiotizada transforma a população em um bando de zumbis. Parece que estratégias para uma programação televisiva com conteúdo mais educativo estão crescendo; há luz no fim do túnel. Há a TV Brasil: pública e gratuita. O vídeo é uma forma bastante eficiente de passar informação e conteúdo sobre as questões que realmente importam nos dias de hoje. Mas só vemos bundas e jogos idiotas, além de caricaturas horrorosas desta sociedade no horário nobre, censura livre? Censura livre? Parece piada.

E é entre otimismo e pessimismo que sigo caçando-me.

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9.11.09

Ismos da capital

Não é apenas pela pitoresca história do surgimento e do crescimento desta cidade que estou apaixonado. Estou também apaixonado por seus habitantes: inteligentes, audaciosos, pensantes, modernos. Brasília é uma cidade que respira cultura. Muitos dos que estão aqui são filhos de grandes intelectuais da geração passada e são, sem sombra de dúvida, os novos intelectuais desta geração. Diz-se que aqui temos a maior quantidade de doutores por habitante; e não falo de médicos, falo de pensadores. As pessoas aqui convivem e conviveram de perto com a estupidez do poder, com a corrupção dos governantes e com esta piada que chamamos de Brasil. Este Brasil que se vende para fora, um Brasil pra inglês ver. O brasiliense é normalmente um sujeito antenado politicamente, ele convive de braços dados com o poder público. Ele o ama e ele o odeia. Restam neles esperanças ao mesmo tempo em que o sentimento de deteriorização de todo o porvir se degenera. Aqui a dicotomia entre as pessoas honestas e as desonestas é muito forte. A dicotomia entre os idealistas e os realistas, entre aqueles que querem algo melhor para si ou para todos os seus. A cidade é um campo de batalha ideológico e talvez eu mesmo já tenha sido reconhecido como um elemento forte para a articulação de um destes lados. E sobre a falsidade de toda dicotomia.

Subo eixinho, desço o eixo de cima e faço a tesourinha. Ando perdido para aqui e para ali entre números que variam entre centenas e unidades, um a dezesseis. Perco-me daqui até ali e encontro blocos que não se conectam internamente. Tenho a impressão de que aqui todos os lugares são o mesmo lugar. A W3 é a avenida Avenida Amazonas da cidade, ou talvez seja a Antônio Carlos, ainda não estou bem certo. De fato, Amazonas e Antônio Carlos têm uma certa similaridade temática por serem vias essencialmente de comércio, indústria, pobreza e talvez encerrem em si o que de pior possa se sentir quando se escuta a palavra “urbano”. É claro que por serem antros da exploração econômica e do pequeno comércio que jamais tornar-se-á grande devido aos grandes lobbistas e outros capitalistas do gênero, elas também têm o povo mais belo. A beleza do urbanóide está nessa sua capacidade de acordar todo dia e continuar acreditando que sua vida vale a pena, que seu comércio vai para frente, que as coisas vão melhorar. A esperança está assim tão embutida no trabalhador que acorda cedo e trabalha até tarde. Como não pode comprar muita matéria prima, compra-a a preços exorbitantes e, como seus técnicos não têm excelente formação, produzem o produto final com qualidade pior e preço maior. Eis a realidade do capitalismo, eis os grandes tornando-se maiores e os pequenos; menores. Podre é o sistema econômico no qual vivemos.

Amanhã acordarei com uma boa ressaca e não terei os beijos que esperei com ansiedade, mas provavelmente estarei vivo e poderei beber e aguardar ainda mais minhas próximas decepções. Viver é decepcionar-se. (E também maravilhar-se, mas estou de mau-humor esta noite.)

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30.10.09

A próxima decepção (parte I)

A mulher que eu amo e que também me ama está no quarto ao lado e diz que não quer dormir ao meu lado. No fundo, ela sabe que quer mas tem medo do que tudo isso pode se tornar. Amanhã pela manhã eu deveria acordar e tocar para ela aquela música do Vinícius. Mas sei que acordaremos como se nada tivesse acontecido e ela pedir-me-á para levá-la até a universidade, onde tem um encontro marcado com outra professora.

Jamais nos beijamos, mas desde o primeiro instante em que nossos olhos se cruzaram naqueles corredores, sabíamos que algo mágico havia acontecido. Eu soube e sei que ela também. Enfim, não sou nenhum tipo de ser onipotente e posso simplesmente ter pensado que vi algo que não vi. Mas os dias que se seguiram só serviram para confirmar aquela certa simpatia que tivemos um pelo outro desde o primeiro instante. Logo no dia seguinte tentei sincronizar minha saída com a dela, talvez eu pedisse uma carona e ela me desse a belíssima oportunidade de passar alguns minutos a seu lado. Resolvi ficar no meu escritório até o instante em que visse que ela estaria para sair. Fiquei e fiquei. Até depois de todo o tédio do mundo. E então quando dela desisti e comecei a arrumar minhas coisas, eis que também ela se ajeitava para sair. Teria sido uma mera coincidência?

Ela fechou as coisas rapidamente e desceu sem se despedir, entretida que parecia estar em seguir seu próprio rumo ao invés de dar idéia para um estranho que por ali recentemente aparecera. Desci logo em seguida mas, agrura do destino, fui obrigado a parar para devolver a chave da sala, coisa que a fez avançar em demasiado e adentrar seu carro antes que pudéssemos trocar quaisquer palavras. Devolvida a chave, dirigi-me para a saída e eis que ela havia também demorado em seu carro. Passou por mim, de carro e fez que me viu de soslaio, dando um “ciao” que não era exatamente um sinal claro, porém algo como “estou te vendo”. Não pedi a carona e segui andando até o fim do estacionamento onde viraria para pegar o ônibus. Enquanto me arrependia de não ter pedido a carona à minha mais recente musa, vi que havia um carro parado do lado de lá da rua. Não podia ser, mas era ela sim. Olhava para mim e gritava algo. Oferecia carona. Respirei fundo e adentrei seu carro.

No dia seguinte atreveu-se a convidar o tal desconhecido para uma festa em sua casa, que ocorreria dentro de dois dias. O estranho compareceu sem conhecer uma só alma que não fosse a de sua musa e sentiu-se tão à vontade naquele ambiente que ao fim da noite já havia conquistado o coração de outra dama e, quiçá, outros corações. Mas com isso o estranho não se importava, posto que seu coração já havia sido tomado de um lirismo ardoroso e direcionado.

Mais um dia e outra festa, esta com luz e dança e pessoas e álcool e drogas. O estranho já não era assim completamente desconhecido e assim pôde se sentir mais à vontade com vários de seus amigos-da-noite-anterior ali presentes. A musa ora parecia derreter-se e ora parecia conter-se. Levou-o para a janela de forma que respirassem melhor. Respiraram e viram a lua, nada além disso. Mas ela era do tipo teoricamente excessivamente comportada e teve que sair mais cedo, havia compromissos no dia seguinte. Foi custoso deixarem-na sair, todos sentiam que algo que estava para acontecer deveria acontecer. Depois de muito custo deixaram com que a caixa metálica partisse com ela dentro e, com ela, sabiam todos, iria parte do enorme lirismo que nos contagiava naquele recinto. Recuperados do susto de sua partida, a conversa custou a engrenar e foi então interrompida quando a caixa mágica abre-se novamente com a musa dentro. Esquecera qualquer coisa e culpara este estranho por não a ter lembrado. Desta vez os pedidos de permanência foram mais vãos e sabidamente inúteis. Foi-se mais uma vez pela caixa mágica, fugiu de seu destino e negou Vinícius de Morais.

A inquietude ainda me assalta quando estou a seu lado. Sinto um misto de vontade, amor, paixão e plenitude que seguem temperadas com um forte desejo de atracamento físico imediato. Sei que estou apaixonado simplesmente pelo fato de que nenhum programa mais tem graça sem que ela esteja por perto com seu maravilhoso charme que vai mesclado a um interesse por tudo e uma certa chatice herdada de muitos anos vividos na Europa. Ela é como o europeu que precisa testar as pessoas antes de confiar nelas. Estou na minha fase de teste e ainda não fui aprovado.

Hoje saímos para um choro e depois fomos na casa de um amigo comum. Saímos direto do trabalho e fomos num só carro que era tanto para economizarmos gasolina quanto para um fazer companhia para o outro; somos um pouco como unha-e-carne. Entretanto, quando voltamos ao prédio para buscarmos seu carro, aconteceu dele estar preso dentro do mesmo; que ia fechado essas horas da madrugada. Embora pudéssemos ter tentado insistir para que algum vigia tivesse aparecido na porta, a mera possibilidade de que terminássemos a noite juntos levou-me a insistir com ela para que deixássemos seu carro lá e fôssemos embora. Fato é que ela foi convencida sem muito esforço argumentativo e decidimos que eu deixá-la-ia em sua casa e apenas no dia seguinte voltaríamos para pegar sua viatura. No caminho até lá, entretanto, notou que sua chave de casa estava dentro do veículo; ao invés de estar dentro da bolsa. Não estou bem convencido de que esta fosse uma completa verdade e pensei que talvez tivesse perdido a chave de propósito. Havia agora duas novas opções: dormiríamos juntos no meu apartamento ou voltaríamos até a universidade para tentar pegar sua chave. Também a decisão de irmos juntos para o apartamento onde eu habitava não foi nem por um segundo dolorosa. Comentei que a roda do destino nos unia e que era nossa sina terminar a noite juntos. Pisquei o olho direito; ou teria sido o esquerdo? Continuamos seguindo o eixo de baixo – ou seria o de cima? – em direção à minha habitação. Seu olhar não era agora receptivo, talvez tenha pensado que eu teria pensado que ela armara todo esse joguinho só para terminar a noite comigo. É claro que não havia pensado isso senão de forma intuitiva. Estava evidente que tudo não passara de mera coincidência(?) De fato, ao sairmos havíamos perguntado ao porteiro até que horas poderíamos pegar o carro e o mesmo respondera que os portões ficariam abertos 24hs, o que na prática terminou configurando uma inverdade. É claro que tudo era um misto de agruras do destino com um pouco de azar (ou sorte) e eu nunca pensaria que ela tivesse tramado tudo desde o início. Mas... e se fosse mesmo? Não nos queríamos? Qual seria o problema de uma noite de amor? Ela, entretanto, titubeava mais do que o necessário, talvez pensando nessas coisas que a sociedade coloca na cabeça das mulheres dizendo o que elas devam ou não fazer; ao invés de seguirem, simplesmente, seus instintos mais arraigados. Não tendo outra opção, entretanto, topou dormir comigo em meu apartamento. Tal decisão, entretanto, havia sido feita já com o pensamento de que ela aceitaria dormir ali, mas não aceitaria nada além disso. A meu ver, uma decisão incorreta. Ora, por que não? Nosso diplomata compositor teria repreendido-a se ali estivesse. Mesmo sentindo o abismo que ela agora criava entre nós, minha esperança de passar a noite em meio a beijos, abraços e carícias, para dizer o mínimo, ainda era forte e vigorosa. Quando adentramos o apartamento, no entanto, mostrou-se fugidia e dispersa. É fato que tem medo de amar; talvez queira só uma companhia sentimental para a vida; não amor. Percebia nela aquele medo infligido pela sociedade em parecer qualquer tipo de mulher atirada que seduz o homem e força situações para terminar a noite com o mesmo. O ato falho que permeou toda nossa noite termina agora desta forma: eu nesta sala morrendo de amores e paixão, sem com nada me importar que senão este forte sentimento que guardo dentro de mim; e ela, no outro quarto, na verdadeira cama, dormindo ou quiçá se revirando em estripulias mentais forçadas por um sentimento de pudor social, um machismo do qual não conseguiu se ver livre. Não sei exatamente no que pensa, mas sei que não é daquelas que rasgam o coração. Neste momento ela já é e sei que será ainda, em breve e ainda mais fortemente, minha próxima decepção amorosa.

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20.10.09

Canto de natal

Quando encontro meus amigos, sinto-me sempre bem. Dá aquele aconchego psicológico de estar ali em meio de gente que nos entenda e nos ame, conhecedores que são de nossas maiores qualidades e defeitos. Sabe como é, não é? Grandes amizades que já comemoram décadas de existência. Difícil é a hora de partir. Dá um aperto no coração e quem não sabe o que já vivemos juntos com estes amigos pensa que é sentimentalismo barato. Pobres das pessoas que nunca tiveram tais amizades...

Bom mesmo é voltar à atividade: física, mental, intelectual. Corpomente se acelerando e se retro-ativando. O futuro trás esperanças de mais ciência e trabalho e reconhecimento e diversão. Diversão sim, é solução pra mim. Domenico estava certo: não há criatividade sem lazer, sem apreciação estética. Enfim, acho que estava certo; minha vida poderia ser um de seus experimentos, quiçá. Sou adepto de carteirinha do chamado ócio criativo; confundo minhas horas de diversão, trabalho e lazer. Toda hora é hora.

Às vezes entro no album de fotos dela. Essas coisas que só a internet faz por você. E então fico a procurar alguma nova foto sua que me ligue direta e fielmente ao seu enorme charme. Sinto então seu lirismo e inundo-me dele. Penso nela e penso como eu faria bem a ela; e ela a mim. Penso em como cresceríamos juntos e em quanto não nos amaríamos. Mas, quer saber, nunca tem nada. Zero fotos. Acho que ela se afastou dessas sociedades virtuais; repositórios públicos para a fofoca alheia. Twitter, nem pensar. Fato: ela tem razão de fazê-lo, também eu não dou mais bola pra essas coisas. São apenas espanta-carências. Melhor é ter a vida e conseguir vivê-la no real, dia-a-dia, quenquer que apareça ou desapareça: c'est la vie. A vida é pra ser vivida e é uma só. Certo, Vinícius? Pois é, nem se existisse o tal do sujeito pra fazer a famosa Assinatura, confirmada no cartório do céu.

De outra, às vezes vejo fotos. Não se pode acompanhar uma só mulher na vida virtual. Há tantas a nos despertar o lirismo... Esta tem sempre uma cara de felicidade e mostra fotos com sorrisos e biquinis sem qualquer pudor; sempre com o namorado à tira-colo. Ela é linda e seu sorriso passa-me uma boa sensação. E peço desculpas ao amigo poeta, mas sua bunda também me passa sensação agradável. E a cinturinha? Também a cinturinha. Só algo me incomoda: aquele sujeito ali do lado não combina com ela. Não combina de jeito nenhum, sabe? Não combina o cabelo ou o sorriso. Não combina a pose nas fotos. Não combina os símbolos que carrega. Não combina nada. Sinceramente creio que alguém mais ou menos da minha altura ou porte físico, despojamento ou charme, estilo ou convicção política ficaria melhor ao seu lado. É claro, tenho uma visão enviesada da situação e não sei o que acontece ao certo. Mas sempre tenho essa sensação. Um dia contarei tudo isso a ela. E neste dia argumentarei tão bem sobre nossa sintonia e compatibilidade que só poderei ganhar um beijo; ou um tapa.

Um fantasma me persegue. Vejo-o vir, chuto-o. Mas ele não se cansa, neurótico, jovem, ansioso, louco. Ele quer me consumir e, como um vampiro, retira de mim energias sentimentais que precisa, carente que é do amor alheio. Poderoso, suga minhas energias de uma forma moderna, através da rede de computadores, enviando-me sempre questões existenciais de sua vida pessoal que, sinceramente, não me interessam. Entope minha caixa postal com seus falsos-problemas e tem aquele tipo de amizade, dos piores, que fazem exigir dos amigos posições e atitudes que eles não estejam preparados para tomar. Juventude, ansiedade, loucura, fantasia. Problemas falsos, criados, auto-infligidos. Não sei nem se um psicólogo ajudaria, tão convicto é o fantasma de que faz a coisa certa. E assim minhas energias se esvão. Mas de certa forma tenho sobre controle sobre a situação e ele sabe que não o deixarei acabar comigo neste seu ímpeto de afeto egoísta. No passado, muito já perdi e ganhei por fastasmear. Hoje, perco mais.

Doutra forma, não se termina o que não começou. Não começado ou terminado são palavras sinonímias. Serão mesmo necessárias palavras para se dizer o que está óbvio? Não serão. Palavras vão e vêm. Intimidades se criam ou fazem ou desfazem como a luz do candeeiro. Guardar e respeitar é uma coisa; amar é outra. E sem amor...

Recife bastante me agradou; Porto de Galinhas. Dizem que tem esse nome porque alguns sujeitos fugiram da guerra pra fundar esse vilarejo. Eles que estavam certos: ir pra guerra? É claro que não, pensaram; vamos fazer uma praia aqui onde a gente fique só curtindo a vida. Parabéns a eles, aos galinhas. Também a palestra que dei tão inseguro; sou um poço de insegurança. Mas acabei ficando à vontade no decorrer do tempo; e foram várias, as perguntas. Saiu melhor do que a encomenda. Todos brilhamos e fomos congratulados no congresso recifense, foi um momento de vitória profissional e pessoal. Refrescamos os ânimos em Porto. Ao tentar acompanhar a cachaça do Pablito, dormi para aguentar o tranco da noite e perdi o show do Arnaldo Antunes -- um cara que acha que já fomos chimpanzés e que, ele, é quem deveria ter visto minha palestra. Enfim... Assisti um teatro de bonecos excelente e não tive tempo sequer de passar pela feira do livro, uma pena. E o blues no Recife antigo?, genial! Pablo e eu deliramos. O Dide não animou.

Vida. Idéias pingadas e textos jogados, no fundo do poço de um ventilador que não roda; ou que, se roda, está sem as pás. Pena que coisas tão meras, mas belas que feras nos deixam iguais. Sempre, iguais. Sempre e diferentes. Tenho pra mim que só faço o que tenho dos outros a aprovação. Mero que espero, sei bem também o que confio em mim. Mas nem tanto. E falo pra todos, e grito "Camponhos!, escutem este bom coração". Com toda lógica e razão, tim-tim por tim-tim, nos mínimos detalhes. Sem falaciar. Sem titubear. Sem dúvida ou sem razão. Uma imagem do inteiro e do todo, o eterno retorno. Sou eu e somos nós; pessoas e mulheres e vida. Sigo sem direção. Alcançarei algo, mas não sei o que ou como ou quando, sempre e nunca. Continuo soluariamente e até volto aqui por vezes para me ver ou reconhecer, gritar e chorar, ler-me como a esfinge de mim mesmo. Gosto e desgosto. Deliro e aprecio, critico. E ando porque não paro. Continuo, aprendo, vivo e sou.

E no início de novembro, dado o capital, cantam já os sinos de natal. Grande é a solidariedade humana no mês de dezembro. Noite feliz de cu é rola.

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20.8.09

A torradeira

A garota acordou cedo naquele dia. Era do tipo regrada, gente que não tem dessas coisas de dormir tarde ou chegar atrasado no trabalho. Levantou-se da cama e este seu levantar foi daqueles que deixa qualquer narrador sem fôlego. Vestia apenas calcinha e sutiã, e todos os seus movimentos pareciam regados por baldes de charme líquido. Tinha pele branca e olhos de um amarelo claro-e-cinzento como os do gato. Olhos que de tão claros pareciam torná-la de certa forma mística, misteriosa, mágica. Era um ser humano do tipo meio gente, meio gato. A felina ronronou ainda mais um pouco na cama, espreguiçou-se toda enquanto dava um bom bocejo e, assim, deu seu dia como iniciado. Seus movimentos, entretanto, naqueles instantes entre sono e vigília extasiavam o poeta invisível que a observava em toda sua delicadeza e graça. Virou o lençol, trazendo à luz suas pernas nuas e o tal do poeta não conseguiu pensar em mais nada durante o momento em que ela remexia seu corpo atraente e semi-nu até se levantar e, de pé, espreguiçar mais uma vez, terminando o movimento dos braços com um alongamento daqueles do yoga. Tirou-lhe uma foto mental, o poeta que não a observava, e esta foto guardou em seus arquivos mentais. Jamais lhe esqueceria.

Os momentos que se seguiram descrever-se-á sem detalhes, posto que tamanho lirismo não cabe em forma de palavras. Precisar-se-ia estar ali a observar sua graça em se despir e entrar no banho, toda cuidadosa que era com seu próprio e belo corpo. Ao se ensaboar, tocava-se de uma forma doce e charmosa, encantadora. Era mulher de bem com a vida e com seu corpo; era um único ímpeto de charme ligeiramente adocicado, exatamente na medida do gosto do poeta pelo açúcar feminino. Enrolou-se na toalha e assim mesmo dirigiu-se à cozinha de seu pequeno apartamento estudantil a preparar o café. Todos seus movimentos eram de uma tranquilidade e calma que só tem aquele que é oriundo das mais altas castas sociais. Fazia tudo sem nenhuma pressa e aproveitava cada momento e instante que vivia. Sua vida era toda prazer. E este pensamento embebia simplesmente toda a raiz de seu charme como mulher.

Água para ferver, vai agora ao quarto e veste um conjunto limpo de lingerie; conjunto clássico como clássica era a mulher. E então volta à cozinha posto que o café já ferveu. O pão. O pão coloca na torradeira. O pão. E quanto então coloca-o no local apropriado e abaixa o mecanismo de torrar lembra-se dele. Ah, o rapaz. Por um instante o rapaz é a torradeira e ela faz a mais charmosa das poses a apertar o botão: liga. Ela foi apaixonada por ele que agora se foi, que agora vai bem longe, oceanos de distância. Ele despertou-lhe um certo lirismo que ia perdido sem lugar dentro de si. Chegou a pensar em fugir com ele, em largar tudo e todos: estudo, trabalho, família, noivo. Se proposta lhe tivesse feito, proposta teria aceitado. E hoje não estaria mais ali tendo que acordar cedo para ir a um trabalho que, se por um lado não a desgostava, por outro não tinha jamais como lhe dar o prazer assim monstruoso que a presença dele a seu lado a trouxera. A paixão. A paixão é um ser complexo, completo. Um ser espiritual que preenche as pessoas e que entra dentro delas para mostrar-lhes tão claramente o que é o saber aproveitar da vida e do estar vivo. Essa paixão que tinha não era diretamente por ele, ali representado pela torradeira, porém era um sentimento que por ele era catalisado de forma inexplicável. Há seres, diriam talvez os místicos antigos, capazes de canalizar a energia do bem estar do mundo e trazê-la assim à tona, à todo instante, de toda a forma. Tais seres são veículos do amor e do bem estar e o mundo. De fato, le monde deveria ser feito inteiro deste tipo de gente.

Assustou-se quando o pão pulou, torrado. Tinha ido tão longe em sua lembrança daquele que doara para si o eletrodoméstico que foi apenas este susto que a tirou da pose-de-fotografia que ainda fazia ao lembrar-se dele e de sua graça. Comeu e vestiu-se. Com a roupa, era uma outra pessoa. Clássica porém moderna. Adaptada a este mundo do ter-que-fazer e ter-que-ser. Mundo sem liberdade, onde a liberdade é a liberdade que convém para os outros, não a liberdade que convém a si mesmo. Engoliu seco, o mundo. Sentiu um certo desconforto, mas manteve-se de pé. E quando atravessou o portão do lirismo, estava de novo inserida no mundo-cão. Agora era pensar no transporte, no problema, no chefe, no projeto, no mundo e no noivo. Por vezes durante o dia tinha náuseas, ânsia de vômito pela ação de outros, mesquinharia e hipocrisia. Pensava querer viver eternamente no mundo lírico. Mas para isso, precisaria encontrá-lo. Onde estaria? Quereria entrar com ela num mundo só deles? Ah, quereria. Sabia disso porque olhara certa vez em seus olhos e tudo isso lera lá dentro, bem no fundo. Mas seu mundo, sua criação, sua história, as coisas que esperavam dela. Não teria jamais a coragem de abandonar tudo aquilo. Ou teria? Ah, que vontade. Ah, que vontade!

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