A angústia é a cara de nossa década
"'Este é agora o meu caminho; onde está o vosso? ' Era o que eu respondia aos que me perguntavam 'o caminho'. Que o caminho... o caminho não existe.
Assim falou Zaratustra."
Nietzsche, Assim falou Zaratustra
Ontem fui assistir, antes do pôr-do-sol, a um filme exatamente com esse nome. Era a estória de um casal que havia se encontrado durante uma viagem e se amado ardentemente numa única noite. Mas o sujeito era americano e a garota francesa, e precisaram viajar de volta a seus respectivos países no dia seguinte, no que marcaram um encontro na mesma cidade seis meses depois. Devido à morte de sua avó, a garota não pode ir ao encontro marcado – algo que me lembra Sabino – e os dois nunca mais se encontraram. Mas como nunca é normalmente um tempo incerto, na verdade eles se encontraram sim, nove anos depois. O americano havia escrito um livro contando exatamente esta estória e estava em Paris, fazendo publicidade do mesmo e dando entrevistas a alguns jornalistas. Antes de encerrá-la, entretanto, o sujeito vê a francesa que era a protagonista de seu livro e, ao fim daquele procedimento burocrático de marketing literário, chama-a para tomar um café. E, antes que você fique zangado, digo-lhe até agora contei apenas os cinco minutos iniciais do filme que, daí por diante, desenrola-se apenas num diálogo entre essas duas pessoas inteligentes, sensíveis e, principalmente, angustiadas.
E fico pensando se será este o paradigma da atualidade ou se todos sempre foram assim, desde os primórdios de nossa sociedade. Tanto o rapaz quanto a garota têm cerca de trinta anos e estão angustiados com suas vidas, com sua profissão, com seus medos, com seus amores e desamores. Assim como outro filme que assisti recentemente, Sideways, este parece vangloriar os angustiados, os fracassados, aqueles que não conseguem ficar bem consigo mesmo ou aqueles que simplesmente não conseguem e ponto. Penso nos anos oitenta, lembro dos Rocky, do Rambo, do Braddock; dos heróis que todos gostaríamos de ser, dos heróis fortes, inteligentes, ágeis. Parece que hoje isso não vende tanto quanto há duas décadas atrás. Talvez passemos por uma era mais reflexiva, psicológica. Vejo meus amigos, vejo as ruas, vejo as pessoas. Todos estão angustiados, ninguém sabe ao certo o que quer para o seu futuro, todas as convicções foram por água abaixo, diluídas por uma atmosfera de modernidade, uma modernidade mais inteligente, mais humanista, mais social e excessivamente pouco convicta. É possível que isso seja um reflexo do afundamento do sentimento religioso que talvez, e apenas talvez, tenha se tornado tão absurdo que nenhuma pessoa sensata é capaz de acreditar mais nas balelas ditas nos templos, reuniões ou igrejas. As pessoas parecem cada vez estar sentindo o mundo como ele é, desistindo de serem enganadas pelas mentiras propagadas há milênios, aceitando que talvez não haja vida após a morte, que temos é que viver bem nesse único mundo que sabemos certo, que precisamos ser felizes – o que quer que isso signifique. E é bom que não nos enganemos, que possamos abusar de nossa felicidade neste mundo, que saibamos discernir verdades de mentiras, que aproveitemos o dia. Mas isso tudo gera uma profusão incontrolável de angústias nos seres viventes neste início de século e milênio. Estamos todos angustiados sobre que rumo tomarmos em nossa vida, sobre o que fazermos. Estamos insatisfeitos com o status quo, queremos fazer coisas agradáveis, as únicas que fazem sentido. Queremos mais é viajar, conhecer o mundo, novas culturas e novas pessoas; queremos é ir às cachoeiras, às praias, às montanhas; queremos é viver ardentemente nossas paixões. No campo profissional também só faz sentido trabalhar com o que nos dá gosto, com o que nos faz sentir vivos. E na maioria das vezes não conseguimos fazer isso, o que nos torna ainda mais angustiados e deprimidos. Não temos mais convicções, ninguém parece tê-las e os que as têm estão quase convictos de que são falsas. E num mundo onde ninguém sabe nada, onde ninguém sabe o quer ou aonde quer chegar, a angústia é generalizada. Parece que percebemos que a vida é algo sem sentido e, ao invés de tentarmos inventar algum sentido para ela, vivemos como num barco sem remos ou velas, onde as ondas nos levam para cá e para lá, ao sabor incontrolável das decisões eólicas. E quando enfim conseguimos encontrar um rumo para onde levar nossa embarcação psicológica, quando nos acertamos sobre alguma coisa, seguimos um curso por apenas algumas dezenas de metros, quando então nos questionamos se fizemos a coisa certa realmente. Talvez tivesse sido melhor virar para o outro lado. E, nesse momento, temos que decidir se voltamos ou se seguimos, apesar das pedras e corais que se encontram neste caminho e que podem nos fazer naufragar. Sem termos qualquer certeza, nessa época onde todas as convicções ficaram com Platão, optamos por uma coisa ou outra. E, assim, a angústia impera, soberana.
O pior mesmo é que não parece haver saída para esse labirinto da vida e, assim, parece que necessitamos apenas aprender a andar pelos seus cantos, corredor por corredor, convictos de que a saída é impossível. Devemos aprender a viver dentro deste suntuoso labirinto ao invés de ficarmos tentando a todo custo encontrar uma saída, decidir sobre quem realmente amamos ou o escolher o que queremos para nosso futuro profissional. As respostas estão na saída do labirinto e, como não há saída, não há também respostas. E se não podemos vencer ao sentimento angustiante da modernidade, recomendo que se junte à sua angústia e encare-a como algo mágico, como algo belo e intrinsecamente humano. Seja amigo de sua própria angústia e chame-a para tomar uma cerveja no boteco da esquina.
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