Reunião na selva
Era uma vez uma floresta que tinha vários animais. E era ano novo na floresta, época de mudanças, de remanejamentos, época de por as coisas em ordem, cada uma em seu devido lugar. Foi por isso que o Leão resolveu então chamar alguns animais e reunir com eles para saber como andavam as coisas em seus departamentos de controle e operação. Em uma dessas reuniões eu estive presente, fui o último a chegar, em cima da hora. Tive um pouco de vergonha deste ligeiro atraso, mas cheguei antes de tudo começar, então não houve qualquer problema. O Leão abriu então a discussão rugindo a comentar sobre os novos projetos da floresta, sobre a derrubada de algumas árvores, sobre as novas tocas de alguns animais, sobre isso e aquilo. Quando terminou disse então que queria saber como as coisas iam no departamento de cada um dos animais que ali estava. E então os animais olharam entre si sem saber quem começaria falando e, percebendo isso e sabendo de seu senso de liderança, o rei dos animais sugeriu que se fizesse uma roda e fossem relatando suas coisas um por vez. Como havia chegado por último, não pude escolher minha posição e acabei ficando do lado do Leão que, por sorte, preferiu começar as entrevistas pelo outro lado, no que seria, portanto, o último a falar.
Quem começou foi a princesa. Ah, como era linda aquela princesinha! E como falava bem! A princesa contou sobre os projetos sociais do reino, os quais ficavam a seu cargo. O Leão lhe era todo ouvidos, parecia também apaixonado pela princesa. No fundo creio que todos os animais da selva eram também apaixonados pela princesa. Ela falou, falou e falou. Só no final percebi o quanto havia me perdido eu seus gestos, sua boca, seu jeitinho e o quanto havia perdido de sua argumentação. Não importava, somente o Leão é que deveria de fato prestar plena atenção no que todos falavam, a mim bastava que falasse de mim e desse algum palpite nos departamentos que ao meu eram similares; tanto que fui obrigado a acordar do transe em que a princesa havia me deixado, pois a próxima a falar era a tartaruga. Ela falava de uma forma engraçada, tinha a cabeça bem redonda, fala com um certo receio. Dizia alguma coisa e se escondia dentro do casco, parecia ter medo de dizer alguma bobagem. Como meu departamento era próximo ao dela, acabei acrescentando algumas coisas ao que ela dizia e comentando alguns de seus pontos. A princípio fiquei também um pouco receoso de que o presidente da seção e rei dos animais se incomodasse enquanto eu dizia algo fora da minha vez. Mas não parecia e acabei também contando boa parte das coisas do meu departamento enquanto ainda era a vez do referido quelônio. A tartaruga até o fim de seu discurso continuou falando e escondendo, escondendo e falando. Depois foi vez da cobra, que sibilou em sons incompreensíveis para um ouvido como o meu, mas ao menos o Leão parecia compreender. E então foi a vez do cavalo que, elegante, fino e ligeiramente arrogante, comentava também sobre campos de pastagens, bons locais para trotes e outras informações sobre assuntos que a ele concerniam. O galo propôs uma discussão sobre a relação entre as aves e os répteis, discussão essa que a princesa quis participar e que, portanto, me perdi novamente no assunto e fiquei apenas a observar sua graça e beleza. Por um instante pensei que a princesa poderia na verdade ser uma bruxa disfarçada pois se encantasse aos outros tanto quanto fazia à mim, certamente poderia dizer qualquer coisa que todos concordariam. A princesa era tão linda! O galo então falou sobre outros projetos de uma alimentação mais saudável para os animais, falou sobre educação, bem estar, novas alternativas energéticas. Falou muito bem e nas semanas que seguiram fiquei com uma ótima impressão sobre as aves, que pareciam estar fazendo apenas coisas bastante relevantes ao bem estar de toda a floresta. Foi então a vez do tatu e ele lembrava um pouco a atuação da tartaruga, mas o tatu não tinha medo do que dizia, pelo contrário, contava sobre suas tarefas e seu departamento underground com um orgulho de quem tem feito as coisas bem feitas, mas com uma certa falsa modéstia mascarada por boas doses de uma possível timidez. Falou baixo e embolado, mas falou bem, o rei gostou, outros animais se interessaram, mas eu sequer pude entender o que ele dizia. Nunca compreendi muito bem o tatuês. Quando terminou, deu a impressão de que, tendo cumprido seu dever, perguntaria ao Leão se este o permitiria voltar à sua toca, mas perdeu aquele exato instante que se tem para tomar determinada atitude e foi interrompido então pelo sapo, que já falava sobre o nível das águas e sobre a situação dos rios e dos brejos da floresta. O Leão a princípio pareceu não ir com a cara do sapo, não olhava em seus olhos quando este falava, parecia com sua atitude querer dizer que os sapos eram organismos inferiores e que a eles não seria concedido o privilégio de sua monárquica atenção. Mas o sapo também coaxou bem, contou coisas interessantes, falou de seus projetos e de suas dúvidas no setor brejal. O rei então falava com ele, mas falava de uma forma muito dispersa e se perdia toda vez que o galo, o cavalo ou a princesa, -- ah, a princesa! --, comentavam sobre assuntos não relacionados ou apenas ligeiramente relacionados ao ministério dos anfíbios. Quando o sapo terminou, era finalmente a minha vez de dizer alguma coisa e, apesar de já ter falado boa parte do que me era relativo quando da atuação da tartaruga, ainda assim o rei dos animais perguntou-me se havia algo a acrescentar. Assim adicionei mais um pequeno comentário sobre nosso departamento e então, com um rugido breve, o Leão deu-se a reunião como encerrada.
E assim o tatu foi correndo para sua toca, o Leão voltou ao reino e a tartaruga se dirigiu ao rio. Tentei acompanhar a princesa apenas para poder passar mais alguns agradáveis segundos ao seu lado, mas ela já ia resoluta na direção do castelo. O cavalo, a cobra e o sapo ficaram discutindo algo em torno do galo, que era certamente algum tipo de líder secundário, depois do Leão. E então fui também cuidar do meu departamento.
Escrito originalmente em 11 de janeiro de 2006, tendo como pano de fundo uma reunião do laboratório em que trabalhava na Inglaterra.
