A evolução e o planeta cor de abóbora
Eis que finalmente os cientistas conseguiram encontrar vida em outro planeta. Aqueles que ficaram mais felizes com a notícia foram os profissionais conhecidos como exobiologistas, biólogos de animais extraterrenos, pois finalmente teriam um campo de estudo mais vasto do que vasculhar minúsculas bactérias em meteoritos que caem em nosso planeta a cada milhão de anos. O tal planeta, batizado de Bobrado, devido à sua cor de abóbora, ficava a uma distância não muito longe ou perto de nosso próprio planeta e podia ser alcançado através de naves e sondas modernas que, à época, não eram nem tão fáceis e nem tão difíceis de serem produzidas. E isso é tudo o que importa falar sobre ele.
Câmeras que haviam sido levadas até lá por sondas robóticas, mostraram grandes animais que se locomoviam daqui para ali e dali para aqui, dentre outras direções. Inclusive, resquícios de civilizações inteligentes podiam ser vistas no planeta devido à observação de enormes construções destruídas ou semi-destruídas. Algum dia houvera naquele planeta seres inteligentes que o haviam habitado e construído coisas que pareciam torres imensas, além de um conjunto de canais, como veias e artérias, que ligavam entre si diferentes regiões do planeta cor de abóbora.
Descobriram, os profissionais satisfeitos do parágrafo anterior, uma enorme abundância de vida naquele lugar e, assim, amostras dos mais diferentes organismos chegaram à Terra e foram colocadas em quarentena por algum tempo -- o seguro morreu de velho. Fizeram vários estudos taxonômicos, genéticos e moleculares, sendo que assim descobriram diversas características daquele planeta. Como talvez fosse esperado, os organismos ali eram compostos de biomoléculas tais quais aquelas que existiam na Terra: tinham DNA, RNA e proteínas, sendo que apenas algumas particularidades pouco significativas eram diferentes entre os organismos terráqueos e bobradáqueos. Dessa forma, os humanos foram capazes de utilizar a ciência já produzida e conhecida para estudar aqueles animais. Descobriram que a evolução por seleção natural também funcionava perfeitamente bem naquele planeta destruído, com uma ressalva: havia um instante do tempo onde parecia que a maior parte das espécies havia sido extinta e aquelas que sobreviveram haviam dado um grande salto evolutivo, alterando por demais suas características adaptativas com relação ao ambiente.
Assim, os cientistas começaram a acreditar que a evolução ocorria em Bobrado através da teoria saltacionista. Segundo esta teoria, ao invés das espécies evoluirem lentamente ao longo do tempo geológico e irem se adaptando lentamente às modificações ambientais, como pregava Darwin em seu gradualismo, as espécies naquele planeta pareciam ter se modificado rapidamente, em pouco tempo, devido a motivos obscuros. Estudos mais aprofundados levaram a crer que a mudança no ecossistema e no conjunto de espécies daquele lugar acontecera concomitantemente ao desenvolvimento da sociedade tecnológica que houvera surgido ali. Um efeito de gargalo de garrafa teria acontecido em toda a biodiversidade de Bobrado quando do surgimento da sociedade tecnológica. Os organismos que conquistaram aquele mundo foram incrivelmente capazes de gerar mudanças drásticas e irreversíveis em todo o processo evolutivo naquele planeta. Provou-se por a mais bê que esta espécie que ficou inteligente foi capaz de alterar todo o ambiente à sua volta, de forma que estivesse mais bem adaptada a este novo ambiente criado, num mecanismo que alguns teóricos chamaram de evolução desviada para o ambiente. É que desde tempos imemoriais, o ambiente vinha selecionando as espécies a serem de uma certa forma, sendo que o próprio ambiente sempre houvera vencido em sua luta balanceada com as espécies viventes. Antes da sociedade tecnológica em Bobrado, as mudanças ambientais é que alteravam o perfil genético das espécies. Com a evolução da tecnologia e da inteligência por uma única espécie naquele planeta, estes foram capazes então de alterar o ambiente para que eles mesmos se tornassem mais adaptados e melhor aconchegados ali. Esta espécie teria sido então moralmente anti-ética no sentido de ter alterado todo o ambiente a seu bel-prazer. E com esta alteração drástica no ambiente, produzida em pouco tempo, a tal espécie dita "inteligente", acabou por levar também à mudanças totais na seletividade de todas as outras espécies existentes à época, pois estas tiveram que se adaptar a um novo ambiente, o ambiente que era propício ao desenvolvimento da sociedade tecnológica.
Assim, alterando drástica e rapidamente todo o meio ambiente, estes seres acabaram levando à extinção de várias espécies e à rápida seleção de um número mínimo de espécies que, por coincidência, também se mostraram mais aptas àquele novo ambiente. Explicou-se, então, nessa época, o efeito do saltacionismo que na verdade havia sido produzido por mudanças ambientais muito drásticas num espaço de tempo muito pequeno evolutivamente. Infelizmente os estudiosos perceberam que tais mudanças extremas em Bobrado rapidamente tirou o planeta da estabilidade que existia em toda a cadeia ecológica vital, sendo que os organismos haviam desde sempre funcionado como colaboradores, não como competidores. O equilíbrio da biosfera de Bobrado com relação a diversos fatores, incluindo a proporção de gases atmosféricos, proteções ambientais contra raios espaciais cancerígenos e a termoregulação de todo planeta foi totalmente descalibrada por aquela sociedade tecnológica que modificou o planeta a seu bel-prazer, esquecendo-se que não era a única espécie que funcionava naquele sistema homeostático. Aquela espécie pseudo-inteligente foi como uma doença para Bobrado, pois alterou todo o metabolismo planetário que estava em homeostase antes de seu surgimento. O planeta, como um sistema fechado em equilíbrio, sempre havia sobrevivido com pequenas mudanças sendo compensadas por outras pequenas mudanças. Mas uma grande mudança, como esta realizada pela espécie tecnológica não foi possível de ser compensada por nenhum tipo de mecanismo homeostático planetário, se é que tais mecanismos realmente existiam, o que era questionado por alguns.
De qualquer forma, mudanças drásticas no ambiente de Bobrado, geradas pelo surgimento da sociedade tecnológica e pela rápida modificação do ambiente feito por ela, tentando adaptar a si o ambiente, geraram mudanças muito grandes em toda a vida existente por ali. Tais mudanças foram poucas, no início, mas graves em estágios mais avançados, à medida que tal sociedade se desenvolvia. Chegou um ponto de colapso, entretanto. Parece que a gota d'água foram mesmo as modificações nas quantidades dos gases atmosféricos que impediram que a vida daquela sociedade tivesse continuado a se desenvolver e esta acabou colapsando-se. É claro que os habitantes de amplo conhecimento tecnológico poderiam ter produzido cápsulas gasosas dentro das quais se trancafiariam e poderiam continuar a viver, mas de alguma forma, parece que não foram capazes de tanto. Ou talvez esse não tenha sido o ponto crítico que levou ao colapso daquela sociedade. Verdade é que nenhum organismo daquela espécie parecia ainda sobreviver em Bobrado.
Pesquisas complementares ainda mostraram que durante muito tempo depois da grande extinção, o planeta foi habitado por uma quantidade pequena de espécies, quando comparada à grande biodiversidade existente atualmente ali, biodiversidade essa que era muito maior que a da Terra naquele instante. Teorias diziam que os danos gerados pela sociedade tecnológica naquele planeta ainda demoraram muito tempo a ser revertidos para que o ambiente pudesse se tornar novamente propício ao aparecimento e à manutenção da vida, como parece hoje acontecer no planeta cor de abóbora.
Verdade é que os dados colhidos pelos exobiologistas em Bobrado criaram uma situação de alarme na Terra, sendo que muitos pesquisadores pensaram que o mesmo poderia vir a ocorrer aqui. Outros pesquisadores argumentavam que a evolução dos planetas não estava necessariamente ligada e que o caso da Terra poderia ser diferentes e que não se deveria conter o avanço tecnológico, muito pelo contrário, que se deveria incentivá-lo em busca de novas condições para o caso de um dia tudo começar a ruir. Discussões foram realizadas, tratados criados, passeatas foram organizadas pelo greenpeace, filósofos criaram sistemas de teorias e evolucionistas repensaram a evolução e a relação do ambiente com as espécies. Tudo, entretanto, continuou igual. Até o dia em que o planeta Terra também entrou em colapso. E não houve tecnologia suficiente para salvá-lo.
E a sina dos planetas, meu amigo, parece ter sido sempre a mesma.
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