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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

29.11.06

A evolução e o planeta cor de abóbora


Eis que finalmente os cientistas conseguiram encontrar vida em outro planeta. Aqueles que ficaram mais felizes com a notícia foram os profissionais conhecidos como exobiologistas, biólogos de animais extraterrenos, pois finalmente teriam um campo de estudo mais vasto do que vasculhar minúsculas bactérias em meteoritos que caem em nosso planeta a cada milhão de anos. O tal planeta, batizado de Bobrado, devido à sua cor de abóbora, ficava a uma distância não muito longe ou perto de nosso próprio planeta e podia ser alcançado através de naves e sondas modernas que, à época, não eram nem tão fáceis e nem tão difíceis de serem produzidas. E isso é tudo o que importa falar sobre ele.

Câmeras que haviam sido levadas até lá por sondas robóticas, mostraram grandes animais que se locomoviam daqui para ali e dali para aqui, dentre outras direções. Inclusive, resquícios de civilizações inteligentes podiam ser vistas no planeta devido à observação de enormes construções destruídas ou semi-destruídas. Algum dia houvera naquele planeta seres inteligentes que o haviam habitado e construído coisas que pareciam torres imensas, além de um conjunto de canais, como veias e artérias, que ligavam entre si diferentes regiões do planeta cor de abóbora.

Descobriram, os profissionais satisfeitos do parágrafo anterior, uma enorme abundância de vida naquele lugar e, assim, amostras dos mais diferentes organismos chegaram à Terra e foram colocadas em quarentena por algum tempo -- o seguro morreu de velho. Fizeram vários estudos taxonômicos, genéticos e moleculares, sendo que assim descobriram diversas características daquele planeta. Como talvez fosse esperado, os organismos ali eram compostos de biomoléculas tais quais aquelas que existiam na Terra: tinham DNA, RNA e proteínas, sendo que apenas algumas particularidades pouco significativas eram diferentes entre os organismos terráqueos e bobradáqueos. Dessa forma, os humanos foram capazes de utilizar a ciência já produzida e conhecida para estudar aqueles animais. Descobriram que a evolução por seleção natural também funcionava perfeitamente bem naquele planeta destruído, com uma ressalva: havia um instante do tempo onde parecia que a maior parte das espécies havia sido extinta e aquelas que sobreviveram haviam dado um grande salto evolutivo, alterando por demais suas características adaptativas com relação ao ambiente.

Assim, os cientistas começaram a acreditar que a evolução ocorria em Bobrado através da teoria saltacionista. Segundo esta teoria, ao invés das espécies evoluirem lentamente ao longo do tempo geológico e irem se adaptando lentamente às modificações ambientais, como pregava Darwin em seu gradualismo, as espécies naquele planeta pareciam ter se modificado rapidamente, em pouco tempo, devido a motivos obscuros. Estudos mais aprofundados levaram a crer que a mudança no ecossistema e no conjunto de espécies daquele lugar acontecera concomitantemente ao desenvolvimento da sociedade tecnológica que houvera surgido ali. Um efeito de gargalo de garrafa teria acontecido em toda a biodiversidade de Bobrado quando do surgimento da sociedade tecnológica. Os organismos que conquistaram aquele mundo foram incrivelmente capazes de gerar mudanças drásticas e irreversíveis em todo o processo evolutivo naquele planeta. Provou-se por a mais bê que esta espécie que ficou inteligente foi capaz de alterar todo o ambiente à sua volta, de forma que estivesse mais bem adaptada a este novo ambiente criado, num mecanismo que alguns teóricos chamaram de evolução desviada para o ambiente. É que desde tempos imemoriais, o ambiente vinha selecionando as espécies a serem de uma certa forma, sendo que o próprio ambiente sempre houvera vencido em sua luta balanceada com as espécies viventes. Antes da sociedade tecnológica em Bobrado, as mudanças ambientais é que alteravam o perfil genético das espécies. Com a evolução da tecnologia e da inteligência por uma única espécie naquele planeta, estes foram capazes então de alterar o ambiente para que eles mesmos se tornassem mais adaptados e melhor aconchegados ali. Esta espécie teria sido então moralmente anti-ética no sentido de ter alterado todo o ambiente a seu bel-prazer. E com esta alteração drástica no ambiente, produzida em pouco tempo, a tal espécie dita "inteligente", acabou por levar também à mudanças totais na seletividade de todas as outras espécies existentes à época, pois estas tiveram que se adaptar a um novo ambiente, o ambiente que era propício ao desenvolvimento da sociedade tecnológica.

Assim, alterando drástica e rapidamente todo o meio ambiente, estes seres acabaram levando à extinção de várias espécies e à rápida seleção de um número mínimo de espécies que, por coincidência, também se mostraram mais aptas àquele novo ambiente. Explicou-se, então, nessa época, o efeito do saltacionismo que na verdade havia sido produzido por mudanças ambientais muito drásticas num espaço de tempo muito pequeno evolutivamente. Infelizmente os estudiosos perceberam que tais mudanças extremas em Bobrado rapidamente tirou o planeta da estabilidade que existia em toda a cadeia ecológica vital, sendo que os organismos haviam desde sempre funcionado como colaboradores, não como competidores. O equilíbrio da biosfera de Bobrado com relação a diversos fatores, incluindo a proporção de gases atmosféricos, proteções ambientais contra raios espaciais cancerígenos e a termoregulação de todo planeta foi totalmente descalibrada por aquela sociedade tecnológica que modificou o planeta a seu bel-prazer, esquecendo-se que não era a única espécie que funcionava naquele sistema homeostático. Aquela espécie pseudo-inteligente foi como uma doença para Bobrado, pois alterou todo o metabolismo planetário que estava em homeostase antes de seu surgimento. O planeta, como um sistema fechado em equilíbrio, sempre havia sobrevivido com pequenas mudanças sendo compensadas por outras pequenas mudanças. Mas uma grande mudança, como esta realizada pela espécie tecnológica não foi possível de ser compensada por nenhum tipo de mecanismo homeostático planetário, se é que tais mecanismos realmente existiam, o que era questionado por alguns.

De qualquer forma, mudanças drásticas no ambiente de Bobrado, geradas pelo surgimento da sociedade tecnológica e pela rápida modificação do ambiente feito por ela, tentando adaptar a si o ambiente, geraram mudanças muito grandes em toda a vida existente por ali. Tais mudanças foram poucas, no início, mas graves em estágios mais avançados, à medida que tal sociedade se desenvolvia. Chegou um ponto de colapso, entretanto. Parece que a gota d'água foram mesmo as modificações nas quantidades dos gases atmosféricos que impediram que a vida daquela sociedade tivesse continuado a se desenvolver e esta acabou colapsando-se. É claro que os habitantes de amplo conhecimento tecnológico poderiam ter produzido cápsulas gasosas dentro das quais se trancafiariam e poderiam continuar a viver, mas de alguma forma, parece que não foram capazes de tanto. Ou talvez esse não tenha sido o ponto crítico que levou ao colapso daquela sociedade. Verdade é que nenhum organismo daquela espécie parecia ainda sobreviver em Bobrado.

Pesquisas complementares ainda mostraram que durante muito tempo depois da grande extinção, o planeta foi habitado por uma quantidade pequena de espécies, quando comparada à grande biodiversidade existente atualmente ali, biodiversidade essa que era muito maior que a da Terra naquele instante. Teorias diziam que os danos gerados pela sociedade tecnológica naquele planeta ainda demoraram muito tempo a ser revertidos para que o ambiente pudesse se tornar novamente propício ao aparecimento e à manutenção da vida, como parece hoje acontecer no planeta cor de abóbora.

Verdade é que os dados colhidos pelos exobiologistas em Bobrado criaram uma situação de alarme na Terra, sendo que muitos pesquisadores pensaram que o mesmo poderia vir a ocorrer aqui. Outros pesquisadores argumentavam que a evolução dos planetas não estava necessariamente ligada e que o caso da Terra poderia ser diferentes e que não se deveria conter o avanço tecnológico, muito pelo contrário, que se deveria incentivá-lo em busca de novas condições para o caso de um dia tudo começar a ruir. Discussões foram realizadas, tratados criados, passeatas foram organizadas pelo greenpeace, filósofos criaram sistemas de teorias e evolucionistas repensaram a evolução e a relação do ambiente com as espécies. Tudo, entretanto, continuou igual. Até o dia em que o planeta Terra também entrou em colapso. E não houve tecnologia suficiente para salvá-lo.

E a sina dos planetas, meu amigo, parece ter sido sempre a mesma.

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25.11.06

A mulher que me conquista (sendo ela mesma)


A mulher que me conquista sendo ela mesma é justamente assim: não faz nada (...) e já me conquista. Ou até faz: aquelas mesmas coisas que costuma fazer no dia a dia -- sem tirar nem por -- e mais uma vez me leva à lona, atordoado. Essa mulher não precisa de rótulos, não tem preconceitos, não engole o que a sociedade a apresenta, não quer ter raça, cor, carros, nem privilégios; ela quer apenas ser feliz! Quanto mais convivo com a mulher que me conquista sendo quem ela é, mais ela me conquista -- e talvez mais ela seja ela mesma, embora ela possa argumentar que tem sido aquilo que é desde sempre.

Divagações à parte, a mulher que me conquista, conquista-me todos os dias, sem fazer esforço algum. Ela fala e já está me conquistando. Não que ela fale aquelas coisas que os amantes falam entre si para diretamente conquistarem uns aos outros. Pois que me conquista ainda mais, esta mulher, quando fala suas opiniões claras, serenas e bem argumentadas sobre vários aspectos, filosóficos ou não, dessa nossa efêmera oportunidade de apreciarmos o mundo ao qual chamamos de vida. Sem saber e sendo ela mesma, a mulher que me conquista fala somente coisas coerentes, interessantes e criativas. É que a mulher que me conquista, conquistou-me também pelo cérebro, donde se leva a crer que a paixão de um pensador expande as barreiras genéticas daquela vontade que é apenas física e que deve ser demonstrada testosteronicamente. É claro que tais vontades precisam e devem estar presentes, pois que não somos apenas seres sociais nem intelectuais, temos nosso instinto, essa nossa raiz biológica forte a nos comandar e reger a orquestra desorganizada que somos cada um de nós. Mas a mulher deve ter qualquer coisa além da beleza, como já disse Vinícius, e esse qualquer coisa, além de estar representado por seu drama pessoal, como continua o poetinha em seu poema ou canção, está também inevitavelmente ligado às histórias interessantes que ela conta Xerazadicamente e às opiniões que tem sobre tudo e sobre todos, associada àquela forma sutil que tem de nos mostrar um outro argumento e levar abaixo todo aquele castelo de cartas que havíamos previamente construído com conceitos errôneos ou simplesmente desviados daquilo que nossa tribo resolveu chamar de sensatez. E se no mundo moderno nossas tribos sociais estão agora globalizadas, a mulher que me conquista sendo quem ela é vem de longe e trás pensamentos que de alguma forma se encaixam com estes que trago, complementando-os e melhorando-os de uma tal forma que me parece excessivamente interessante.

Não se poderia deixar de dizer que a mulher que me conquista sendo quem é, além de espirituosa é também linda de morrer. Tem uma pose de uma bailarina que talvez já fora quando criança, não estou muito certo, mas que de qualquer forma é excepcionalmente elegante e atraente. A falta de um estilo dá a ela um estilo próprio que me conquista sem qualquer objetivo de fazê-lo. Sendo quem é, conquista-me ao me dizer que gosta de mim e que me quer só para ela, num egoísmo desculpável e recíproco. Pois se eu a quero e ela me quer, nossas vontades então se encontram e assim podemos ao menos almejar que nos queiramos utópica e reciprocamente até o fim de nossos dias. E nem pense, o leitor, em questionar a frase anterior ou vir a dizer que essas coisas de amor eterno são meras ilusões. É claro que o questionamento de todas as coisas -- as sentimentais, inclusive -- é um procedimento saudável e recomendável: qual ser de bom-senso discordaria disto? Mas a ilusão platônica de um romance eterno nos faz bem, muito bem, muito muito bem. Fará algo tão bem quanto isso?, chego a me perguntar. E de qualquer forma, a ilusão pode não ser tão ilusória assim, já que há evidências de casais onde este sonho do eterno romance, ao contrário desta frase, jamais encontrou um ponto final. E por mais que tais casais sejam exceções, eles existem! E assim nos permitem continuar sonhando.

Esta mulher que me conquista dia após dia e cada dia mais do que no dia anterior, anda despreocupada com a mão no bolso de sua calça jeans e está segura de si, pois sabe que eu a quero e que esse querer dá-se em um nível deveras elevado. A mulher que me conquista sendo ela mesma anda em um outro mundo, tão diverso deste aqui, mas quando ela anda leva consigo um pouco de mim, tanto quanto eu, aqui, trago comigo um pouco dela. Verdade é que não sei ao certo se sou eu quem escreve essas frases ou se é ela. Por vezes tenho a impressão que nossas personalidades se mesclam, nossos pensamentos unem-se como elos de uma corrente longa e resistente. Estamos em completa sintonia, vibramos em harmonia, ela e eu, juntos, somamos mais do que duas pessoas, pois nessa conta sentimental, o amor que sentimos um pelo outro ultrapassa nossos corpos e expande um pensamento positivo em toda a sociedade. As pessoas nos olham e então pensam: vamos fazer como eles! Vamos nos amar, galera! Vamos nos amar! E então as pessoas tomam nosso exemplo e seguem se amando, ela e eu vamos também nos amando e o conceito metafísico do que é o amor extravasa poeticamente corpos, idéias e palavras, levando à humanidade um forte sentimento de que viver, mesmo num mundo estranho como esse, ainda vale muito a pena!

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18.11.06

Um dia (em uma sociedade tecnológica)


Naquela sociedade tecnológica, acordou Josias vestindo uma roupa feita de um algodão plantado oito e colhido sete anos antes, no interior do Mato Grosso do Sul. Levantou-se e colocou um chinelo cujo plástico fora manufaturado em São José dos Campos e colocou seus óculos que já estiveram em uma mina de alumínio há tempos atrás. Foi ao banheiro e tomou um banho com um pouco da água que um dia correu nos rios da Serra da Mantiqueira e que já foi tratada e clorada naqueles grande sistemas de armazenamento de água e que atravessou centenas de quilômetros de canos até chegar em seu chuveiro. O leite que tomou deveria ter sido a alimentação dos bezerros que irá comer em alguns anos, quando estiver em um restaurante e o cereal que comeu foi obtido do milho plantado e colhido por agricultores gaúchos.

Quanto saiu de casa e entrou no seu carro, utilizou como combustível partes de dinossauros que andaram pelo planeta no período Jurássico, ou ainda antes. E quando pisou pedal do acelerador, produziu a queima dos restos de dinossauro que faziam algo nas válvulas do motor e girava o eixo que movia as rodas, as mesmas inventadas milhares de anos antes por algum Homo sapiens mais esperto. Quando chegou no serviço, sentou-se em sua poltrona confortável cuja madeira havia sido extraída de uma árvore que, vinte anos antes, ainda fazia parte da Mata Atlântica. A caneta com a qual assinou memorandos e atas e outras burocracias tinha tanta tecnologia que ele ficou a olhar para ela sem saber do que era feita: metal, borracha, plástico e de todo o caminho que aqueles materiais haviam percorrido desde sua forma natural até aquela forma artificial que se prestava ao seu serviço. Pensou então na diferença entre o que é natural e o que é artificial e achou, naquele instante, que não havia qualquer diferença. Esqueceu-se disso quando, no meio do dia, tomou um chá produzido em uma monocultura do estado de Minas Gerais e comeu um mel de abelha africana que residia em São Paulo. Do seu computador, não sabia de onde vinham as peças, mas alguns metais que o formavam haviam saído dali de perto dele, daquelas montanhas super-devastadas pelas mineradoras, ido até a China de navio, depois passado por dois ou três estados americanos e retornado então ao Brasil para que ele pudesse comprar na loja por um preço centenas de vezes mais caro do que quando saíra dali, anos antes. Pensou que as peças do seu computador, na verdade, conheciam mais do mundo do que ele mesmo. Achou bom o fato de que os humanos fazem as coisas em grandes quantidades e que se os custos fossem unitários, todas as coisas custariam fortunas: abençoou Henry Ford e a linha de produção. Pensou em quão tecnológica era sua sociedade e almoçou uma massa que havia sido feita do outro lado do Atlântico, lá na Itália. Bebeu um vinho que já fora uva na França há mais de quinze anos atrás, quando o Joãozinho, seu filho, sequer era vivo. As uvas nasceram e morreram sem conhecer o Joãozinho, pensava enquanto tomava e transformava em si mesmo, as tais frutas mortas. À noite, saiu do serviço e foi até a casa do Tonhão tomar uma pinga fermentada e destilada na fazenda do próprio, no interior de Goiás. A pequena cabaça com a qual tomou a pinga, lembrou que ele mesmo plantara com o amigo no ano em que este comprara o sítio e sentiu-se bem por estar usando algo que ele mesmo tivesse plantado e colhido, e não algo que já tivera viajado mais do que ele. Sentiu-se melhor que a cabaça. Comeu então um salame e uma lingüiça de um porco que, quando vivo, havia tido bicheira e não ficou feliz por não ter sido ele o responsável por matar o animal antes de comer, nisto sequer pensou. Lingüiça era uma coisa, porco outra, a ligação óbvia e direta entre tais elementos não passou por sua cabeça enquanto um pedaço bem temperado passava por sua epiglote. Depois de bêbado e com o estado de sua mente ligeiramente alterado, preferiu não apertar demais aquele pedal que aumenta a entrada de ar no carburador e foi tranqüilo até sua casa, onde subiu a escada cujos tijolos haviam sido produzido no sul da Bahia, escorando-se na parede cuja tinta que a recobria havia sido gerada por processos químicos complexos, em uma fábrica altamente tecnológica no interior de Sampa. Abriu a porta que já fora árvore um dia e deitou-se no sofá de material quase totalmente sintético. Cochilou assistindo um programa de TV gravado anos antes em uma cidade situada milhares de quilômetros distante da sua.

Antes de dormir, Josias ainda pensou o quanto nossa avançada sociedade tecnológica era atrasada psicológica e socialmente. Teve pena do ser humano e sonhou com um mundo melhor e mais justo, enquanto dormia vestindo uma roupa feita de um algodão plantado oito e colhido sete anos antes, no interior do Mato Grosso do Sul.

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13.11.06

Psicologia sexual

Crônicas de uma sociedade ideal

Diogo acordou assustado, quase saltou da cama. No entanto não conseguiu saber ao certo o que o tinha acordado: seria um sonho ruim?, sons do lado de fora? Levantou-se e olhou pela janela, nada diferente acontecia. O relógio marcava cinco da manhã e sua esposa ainda não havia chegado do trabalho. Ficou um pouco preocupado, já era hora de ter chegado. Esperaria mais uma hora e, caso ela não chegasse mesmo, ligaria para saber o que estava acontecendo. Não gostava de ligar para a esposa para não atrapalhar seu serviço. Imaginava-se no lugar do sujeito que teria contratado uma prostituta e que, no meio do sexo, o telefone da mesma começasse a tocar; para alguém talvez fosse motivo para não mais contratar aquela mulher. E ela precisava do emprego, eles precisavam.

Menos de vinte minutos depois, entretanto, ouviu o barulho da porta se abrindo. Como de costume, levantou-se e foi beijá-la. Perguntou se a noite tinha sido dura e ela apenas disse que não. Atrasara-se desta vez pois um cliente conversou mais do que devia sobre seu casamento enquanto ela o analisava antes e depois do sexo. Não eram muitas as prostitutas formadas em psicologia e aquela era uma profissão valorizada à época, tanto que recebia frequentemente um extra dos clientes quando tinha boas atitudes, fosse no sexo em si ou na análise. Hoje havia sido um desses dias. Por vezes, Cíntia atendia como prostituta apenas, ou somente como psicóloga. Mas interessada que era na relação entre o sexo e a psiquê, encontrou nesta profissão a realização de sua vida e era muito feliz assim, ainda que, várias vezes, fosse obrigada a trocar o dia pela noite. Isso também não a incomodava em excesso.

Ela então tomou seu banho, como de costume, escovou os dentes e foi deitar-se. Antes do marido levantar, entretanto, fizeram o sexo tradicional que gostavam de fazer os dois; um sexo sem muita algazarra, com carinho e amor, coisa que dificilmente tinha de seus clientes. Amava Diogo e não o trocaria por homem algum. Uma ou outra vez havia tido problemas em métodos de se evitar doenças venéreas ao fazer sexo com seus clientes e, em todas essas vezes, voltava para casa e relatava o fato ao marido. Então eles passavam meses transando com proteção até que se pudesse fazer um exame provando que ela estava limpa. A partir daí voltavam então ao método tradicional e animal.

Depois de fazerem amor, foi a vez de Diogo se levantar e ir tomar banho para que pudesse trabalhar. Saiu do banho, vestiu sua roupa branca e pensou na cirurgia que deveria fazer naquele dia, tinha um certo medo pelo paciente, ele poderia sucumbir, estava fraco. Teria que abrir realmente a cabeça do indivíduo naquele dia pois os métodos não invasivos não haviam, infelizmente, sido capazes de resolver o problema do doente. Estava um pouco nervoso, mas sabia de sua responsabilidade, era experiente e tinha confiança em si mesmo. Deu um beijo na mulher antes de pegar a pasta e então saiu, lembrando de um livro que lera na noite anterior e que questionava se sua sociedade era mesmo liberal ou não.

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9.11.06

Porque odeio as novelas


Venho, por meio deste, explicar ao leitor porque não gosto das novelas da televisão brasileira. Apresentarei um argumento social mostrando quão canalhas são aqueles que as fazem e que as colocam no ar. Tentarei mostrar quão insensíveis, ignorantes, insensatos e, principalmente, irresponsáveis são tais pessoas. Mas começarei falando sobre o homem-aranha...

Verdade é que desde a minha infância e adolescência, quando tais pensamentos sociais ainda não passavam pela minha cabeça, eu já não tinha muita afinidade às novelas. Assistia vez por outra, cheguei a acompanhar meia dúzia delas quando ainda criança, cheguei até mesmo a gostar de algumas, tendo aquele vício de querer chegar em casa na hora para assistí-las. Mas aquilo que eu realmente gostava eram das histórias em quadrinhos. Dentre várias das que lia, sempre fui mais aficcionado pelo homem-aranha e foi justamente este herói que me veio hoje à cabeça quando pensei em escrever sobre este tema: meu asco pelas novelas.

A história do homem-aranha é interessante: ele era apenas mais era um aluno tímido e idiota de sua classe que, um certo dia, foi picado por uma aranha radioativa e de alguma forma que não interessa -- nem a nós, nem ao Stan Lee -- entrar em detalhes, ele começou a adquirir poderes aracnídeos. Conseguia, principalmente, subir nas paredes e tinha um incrível sexto-sentido, além de extremas agilidade e força. Logo que se viu com esses poderes, Peter Parker viu a possibilidade de utilizá-los para o bem, tentando ajudar as pessoas e prender os bandidos. Até que um dia, cansado de bancar o herói, deixou um bandido escapar ileso após um assalto. Será que ele realmente precisava ficar ajudando as outras pessoas?, perguntou-se. Por um momento, pensou que não; não precisava. Acontece que algumas semanas depois, ele foi penalizado por este seu deslize. O mesmo assaltante que ele deixara de prender um dia, acabou por assaltar seu tio e matá-lo. O homem-aranha teve sua primeira crise heróica de consciência. Ele pensou em si, nos poderes que tinha e viu que não poderia deixar de ajudar a sociedade, considerando que tinha poderes para tal. Peter Parker, apenas mais um aluno idiota do segundo grau, ao ver seu tio morrer por uma falta sua, teve consciência que tinha uma obrigação moral em ajudar o mundo. Depois disso, ele percebeu sua importância e então criou o que chamo de máxima aracnídea no momento em que percebeu que "grandes poderes trazem grandes responsabilidades".

Voltemos então ao argumento que desejo defender: televisão é poder. Ser responsável por um canal de televisão é ter poder, muito poder, talvez a maior parcela de poder que algum ser humano pode ter em nossa sociedade. A televisão é o veículo de transmissão em massa mais eficiente para levar informação (ou desinformação, como tem acontecido) às pessoas em nossa sociedade. Visita-se a mais pobre das casas de uma favela e não se encontra geladeira, mas encontra-se televisão. A TV chega onde nenhum outro meio de comunicação é capaz de alcançar. Ela é onipresente, está em todos os lugares; ela penetra fundo na alma das pessoas, ela influencia as pessoas de uma maneira forte, voraz e importante.

Infelizmente, entretanto, aqueles que fazem a TV, as novelas, as séries, parecem-me completamente irresponsáveis. Isso me revolta e agora me explico porquê. É que ao assistir a poucos minutos de uma novela, percebe-se claramente que os valores que são passados de dentro daquela caixa receptora aos indivíduos do sofá durante este programa, são exatamente os valores correntes em nossa sociedade tão desigual. Na TV, as patroas tratam mal suas empregadas domésticas, os homossexuais são descriminados, os drogados são tidos como pessoas estúpidas, a gravidez na adolescência é vista como algo assustador. Onde está a responsabilidade social dos autores das novelas? É claro que alguém poderia dizer que o objetivo das novelas é retratar a nossa sociedade como ela é. Mas será mesmo? Será que não podemos tentar mudar isso?, será que não podemos tentar transformar a sociedade?, será que não podemos passar valores mais honrosos no horário nobre? Apenas imagine você, amigo leitor, uma novela onde os preconceitos não existissem, onde pretos e brancos fossem tratados apenas como pessoas; imagine uma novela onde o homossexualismo fosse visto como tem que ser visto, como algo normal, natural; imagine uma novela onde as patroas decidissem pagar mais às suas empregadas, onde elas tratassem empregadas como pessoas, não como escravas; onde os personagens ricos criassem uma ONG para ajudar os mais necessitados. Imagine como isso beneficiaria positivamente a sociedade, influenciando as pessoas normais a aceitarem novos valores, a prezarem pelo social, a ajudarem o país a andar pra frente! Quanto poder esses diretores de novela têm nas mãos!

As novelas, entretanto, são péssimas. Mantêm na sociedade valores ultrapassados, mostram a desigualdade como ela é (ou pior) e mesmo quando tratam de assuntos polêmicos, mostram o preconceito e, assim, mantém o pensamento da sociedade como ele está. Onde está a responsabilidade desses autores de novelas? Onde está a responsabilidade do diretor? Onde está a responsabilidade social, meu amigos, para onde ela foi?

Quero viver num mundo diferente, quero viver num mundo onde as pessoas se preocupem com a mudança da sociedade de modo a produzir valores mais justos. Quero um autor de novelas que apresente vários personagens polêmicos, tratados como as pessoas que são, não como anormalidades. Quero ver um drogado bem sucedido, quero ver um ateu humanista, quero ver uma prostituta fazendo faculdade, quero ver um artista homossexual, quero ver uma patroa aumentando o salário de sua empregada devido à sua consciência social, quero ver um pobre melhorando de vida e quero ver a elite carioca montando ONGs para ajudar o desenvolvimento do norte do país.

Grandes poderes trazem grandes responsabilidades, já lembrava aquele amigo da vizinhança. Os canais de televisão têm a faca e o queijo na mão caso queiram mudar a sociedade. Eles precisam ter consciência disso, precisam ajudar. Ao invés de guerrear por pontos no ibope, por audiências a programas estúpidos, deveriam apresentar também mais educação, mais cultura, mais pensamento social. Tudo isso poderia ser embutido nos mesmos programas de entretenimento hoje existentes, caso houvesse desejo para tal. Não proponho a transformação de todos os canais em programas educativos, longe disso. Quero mudanças puntuais, pequenas alterações nas relações pessoais dentro das novelas já seriam dignas de nota. Ao invés de apresentar caricaturas dos problemas sociais, as novelas deveriam tratar assuntos polêmicos naturalmente, de uma forma madura e racional, objetivando a melhora da sociedade e da igualdade social, um dos principais problemas em nosso país. A irresponsabilidade aracnídea desses diretores televisivos é enorme! Eles precisam enxergar o poder que têm e, ao invés de retrarem quão podre é nossa sociedade, como têm feito há anos, deveriam tentar apresentar um modelo de sociedade mais igualitária e com uma maior aceitação das minorias. Nosso pensamento evolui, nossa sociedade evolui, não podemos corroborar com a desigualdade, com o preconceito, com o abuso de poder. Quero uma nova televisão, quero um sociólogo responsável por cada novela, quero um idealista e um intelectual tomando conta dos assuntos a serem tratados. Quero uma nova ordem, um amadurecer social pelos diretores das televisões, quero mais responsabilidade e quero, também, elogiar aquele herói aracnídeo.

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