Tonhão desculpa-se
Estavam todos lá, vários dos quais não se encontravam há anos. Alguns estavam casados, outros descasados. Uns já tinham bebês, alguns viviam nos estrangeiros enquanto outros haviam se mudado para lugares longínquos dentro da selva Amazônica. Alguns estavam ficando carecas, uns gordos, outros continuavam magros. Algumas estavam lindas e foram elogiadas por isso; outras estavam feias e, sobre isso, nada se comentou. O troféu do mais "como sempre" e do mais "tenho um novo estilo" foram entregues, metaforicamente, depois de voto democrático, embora em uma das categorias tenha havido empate técnico. Tonhão desculpou-se por não ter um troféu de verdade a oferecer. Houve música, cachaça e alegria. Lembrou-se dos velhos tempos e prognosticou-se o futuro de cada um dos convivas nos dias vindouros. Na próxima festa, imaginou-se, já haveriam crianças andando para cá e para lá, gritando e fazendo confusão. O anfitrião, então, se desculparia por não ter brinquedos suficientes para elas se divertirem. Alguém pegou o violão e logo formou-se uma roda de samba. Infelizmente, desculpou-se o chato do Tonhão, não havia nenhum outro instrumento de percussão para que se pudesse acompanhar o violeiro. Ele foi, entretanto, capaz de pegar um balde que virou de cabeça para baixo a imitar um tantan que tocou totalmente fora de ritmo mas que, incrivelmente, não pediu desculpas por isso. Parecia achar que tocava bem.
Outras pessoas chegavam e ficavam apenas um pouco, tinham outros compromissos. Fim de ano é sempre assim: festas atrás de festas. Comia-se e bebia-se sem parar, o mês inteiro. Engordava-se. Quando a esposa do Tonhão chegou, ele chegou até a pedir desculpas pelo tamanho da barriga dela aos que estavam ao lado. Dessa vez, a Aninha o cutucou explicitamente e disse que não precisava ficar pedindo desculpas de todas as coisas, que relaxasse e que tomasse cuidado para não ser alvo de uma greve de sexo por parte da senhora Tonhona. E que se fosse para falar essas coisas, que falasse baixinho. Ele concordou e desculpou-se por desculpar-se tanto, mostrando que nada entendera do que ela havia dito. Sua esposa chegava de outra festa e cumprimentara a todos, desculpando-se pelo atraso. Devia ser de família, a ânsia pela desculpação. Não havia problemas, estavam todos bem acomodados e sentindo-se em casa. Como de costume nos finais de ano e, apesar de não ter sido convidada, a chuva se apresentava e incomodava os participantes, que teriam ficado mais à vontade ao ar livre, caso um belo dia de sol iluminasse a quadra de esportes da casa do Tonhão, que quis também pedir desculpas por ter escolhido um dia chuvoso para a celebração. Mas àquela hora, já todos bêbados, ninguém dava mais ouvidos ao que ele falava.
A festa continuava, animada, a cerveja subia à cabeça e as pessoas conversavam alegremente. A noite caiu e o churrasco, há horas interrompido, foi reiniciado. Alguém cuidou de acender a churrasqueira novamente enquanto outros foram pegar o que ainda sobrara da carne. Havia pinga mas não havia limão e Antônio, que saco!, desculpou-se também por isso. Ninguém mais aguentava desculpas atrás de desculpas e cogitou-se expulsá-lo da própria casa sem que se pedisse, evidentemente, desculpas por isso. Mas logo mudaram de idéia. Dentro de meia hora, uma nova rodada de carnes saia e percebia-se que ninguém estava, de fato, com fome. Todo aquele esforço fora mesmo obra do conhecido pecado capital de quatro letras que não falo qual é, mas que sei que você sabe. Alguns, entretanto, pecaram sem dor na consciência, ingerindo pedaços macios de uma carne mal passada que lhes tentava o estômago já cheio. O cansaço já tomava conta de alguns, que resolveram estirar-se nos sofás por ali espalhados para descansar um pouco e melhorar da bebedeira antes de pegarem seus automóveis e voltarem para suas casas. Uma ou duas horas depois, todos já se iam, com a barriga cheia e a mente tranqüila. Havia sido uma festa agradável. À saída, como não poderia deixar de ser, Tonhão finalmente desculpou-se a todos por qualquer coisa: "desculpem aí por qualquer coisa", disse com ar inocente à porta de saída, abraçado à esposa e olhando para o chão. Irreverente, virou-se para ele o mais tosco dos amigos que ali estavam e mandou-o então "tomar no meio do seu cu". Afinal, Tonhão desculpou-se dizendo, exatamente com essas palavras, que isso "não estaria apto a realizar". Era formal, o anfitrião.
Gargalharam, portanto, os amigos. E como Antônio, desconsolado, não quis inventar mais desculpas para se encontrarem ao longo do ano, foi apenas no fim do ano seguinte que se encontraram novamente para mais um ininterrupto ciclo de cervejas, carnes e desculpações que se repetiria ano após ano até o fim das vidas de cada um deles.
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