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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

28.12.06

Tonhão desculpa-se

Era festa de natal, época de reencontrar antigos amigos para confraternizações regadas a banquetes fartos e fortes drinques alcoólicos. Dizem haver algo de religioso nessas cerimônias, mas disso ninguém se lembrava muito bem. Chegaram à casa do Antônio, vulgo Tonhão, local sempre combinado para esse tipo de bebecomemoração. Bateram a campainha e como naquela piada do cachorro à porta da igreja, foram logo entrando, pois a porta estava aberta. De longe, já avistaram o anfitrião chegando para recebê-los. Abraçou um, beijou outra. Na dúvida entre dois ou três beijos, cumprimento Clarisse com dois e ficou no vácuo do terceiro. Podia ter feito que não vira, mas preferiu desculpar-se pela gafe. Acompanhou-os para dentro, desculpando-se também pela bagunça antes mesmo de perguntar como ia a vida deles. Pois que o pedido para não reparar acabara gerando, evidentemente, a observação sobre a organização da casa, que estava impecavelmente limpa, decorada e arrumada. Por que então desculpar-se, já que a casa estava arrumada? Não entenderam. Foram levados então à área da churrasqueira, onde Tonhão mais uma vez se desculpou pela fumaça que se fazia ali. Oras, era um churrasco, esperava-se que tivesse o quê? Desculpou-se ainda pela falta de cadeiras para todos, pelo castanheiro que escondia o sol e pelo cão pidão que a todos incomodava com seus latidos e artimanhas interesseiras atrás de um pedaço de carne.

Estavam todos lá, vários dos quais não se encontravam há anos. Alguns estavam casados, outros descasados. Uns já tinham bebês, alguns viviam nos estrangeiros enquanto outros haviam se mudado para lugares longínquos dentro da selva Amazônica. Alguns estavam ficando carecas, uns gordos, outros continuavam magros. Algumas estavam lindas e foram elogiadas por isso; outras estavam feias e, sobre isso, nada se comentou. O troféu do mais "como sempre" e do mais "tenho um novo estilo" foram entregues, metaforicamente, depois de voto democrático, embora em uma das categorias tenha havido empate técnico. Tonhão desculpou-se por não ter um troféu de verdade a oferecer. Houve música, cachaça e alegria. Lembrou-se dos velhos tempos e prognosticou-se o futuro de cada um dos convivas nos dias vindouros. Na próxima festa, imaginou-se, já haveriam crianças andando para cá e para lá, gritando e fazendo confusão. O anfitrião, então, se desculparia por não ter brinquedos suficientes para elas se divertirem. Alguém pegou o violão e logo formou-se uma roda de samba. Infelizmente, desculpou-se o chato do Tonhão, não havia nenhum outro instrumento de percussão para que se pudesse acompanhar o violeiro. Ele foi, entretanto, capaz de pegar um balde que virou de cabeça para baixo a imitar um tantan que tocou totalmente fora de ritmo mas que, incrivelmente, não pediu desculpas por isso. Parecia achar que tocava bem.

Outras pessoas chegavam e ficavam apenas um pouco, tinham outros compromissos. Fim de ano é sempre assim: festas atrás de festas. Comia-se e bebia-se sem parar, o mês inteiro. Engordava-se. Quando a esposa do Tonhão chegou, ele chegou até a pedir desculpas pelo tamanho da barriga dela aos que estavam ao lado. Dessa vez, a Aninha o cutucou explicitamente e disse que não precisava ficar pedindo desculpas de todas as coisas, que relaxasse e que tomasse cuidado para não ser alvo de uma greve de sexo por parte da senhora Tonhona. E que se fosse para falar essas coisas, que falasse baixinho. Ele concordou e desculpou-se por desculpar-se tanto, mostrando que nada entendera do que ela havia dito. Sua esposa chegava de outra festa e cumprimentara a todos, desculpando-se pelo atraso. Devia ser de família, a ânsia pela desculpação. Não havia problemas, estavam todos bem acomodados e sentindo-se em casa. Como de costume nos finais de ano e, apesar de não ter sido convidada, a chuva se apresentava e incomodava os participantes, que teriam ficado mais à vontade ao ar livre, caso um belo dia de sol iluminasse a quadra de esportes da casa do Tonhão, que quis também pedir desculpas por ter escolhido um dia chuvoso para a celebração. Mas àquela hora, já todos bêbados, ninguém dava mais ouvidos ao que ele falava.

A festa continuava, animada, a cerveja subia à cabeça e as pessoas conversavam alegremente. A noite caiu e o churrasco, há horas interrompido, foi reiniciado. Alguém cuidou de acender a churrasqueira novamente enquanto outros foram pegar o que ainda sobrara da carne. Havia pinga mas não havia limão e Antônio, que saco!, desculpou-se também por isso. Ninguém mais aguentava desculpas atrás de desculpas e cogitou-se expulsá-lo da própria casa sem que se pedisse, evidentemente, desculpas por isso. Mas logo mudaram de idéia. Dentro de meia hora, uma nova rodada de carnes saia e percebia-se que ninguém estava, de fato, com fome. Todo aquele esforço fora mesmo obra do conhecido pecado capital de quatro letras que não falo qual é, mas que sei que você sabe. Alguns, entretanto, pecaram sem dor na consciência, ingerindo pedaços macios de uma carne mal passada que lhes tentava o estômago já cheio. O cansaço já tomava conta de alguns, que resolveram estirar-se nos sofás por ali espalhados para descansar um pouco e melhorar da bebedeira antes de pegarem seus automóveis e voltarem para suas casas. Uma ou duas horas depois, todos já se iam, com a barriga cheia e a mente tranqüila. Havia sido uma festa agradável. À saída, como não poderia deixar de ser, Tonhão finalmente desculpou-se a todos por qualquer coisa: "desculpem aí por qualquer coisa", disse com ar inocente à porta de saída, abraçado à esposa e olhando para o chão. Irreverente, virou-se para ele o mais tosco dos amigos que ali estavam e mandou-o então "tomar no meio do seu cu". Afinal, Tonhão desculpou-se dizendo, exatamente com essas palavras, que isso "não estaria apto a realizar". Era formal, o anfitrião.

Gargalharam, portanto, os amigos. E como Antônio, desconsolado, não quis inventar mais desculpas para se encontrarem ao longo do ano, foi apenas no fim do ano seguinte que se encontraram novamente para mais um ininterrupto ciclo de cervejas, carnes e desculpações que se repetiria ano após ano até o fim das vidas de cada um deles.

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24.12.06

Natal, religião e amizade


Começo esta crônica lembrando-me de natais agora passados, onde cheguei a enviar a vários amigos mensagens eletrônicas de felicitações, votos de boas festas e esperanças de um futuro melhor. Não estou para isso este ano. Ainda que os tempos capitalistas da atualidade tenham transformado esta festa religiosa em uma festa do consumismo, ainda assim uma certa conotação religiosa se faz presente. E devido ao meu irrestrito desprezo pelas religiões, não tenho nenhuma vontade de enviar mensagem qualquer para pessoa alguma. Os amigos que me desculpem. Ficamos cada um em seu próprio mundinho, você no seu e eu no meu. É claro também que nessa época do ano há algum tipo de corrente maior de paz, carinho e solidariedade, um sentimento mais forte de ajuda ao próximo; e mesmo nos sinais de trânsito vejo as pessoas nos carros a ceder trocados com mais freqüência aos garotos que se arriscam fazendo malabarismos mal executados. Precisariam do malabarismo, essas crianças? E, assim, ao mesmo tempo em que penso "que bom que todos estão mais solidários nesta época", não consigo deixar de pensar que em todo o resto do ano esses motoristas não fazem é coisa alguma e ainda respondem com buzinadas furiosas, mau humor e uma extrema falta de educação para com aqueles que tiveram uma chance pior na vida, coitados. Não que "dar dinheiro no sinal" vá resolver o problema do mundo e nem que eles estejam corretos em segurar o trânsito em troca de trocados. O mundo não é perfeito e, na realidade, está bem longe disso... e talvez caminhe na direção errada. Você pode me chamar de pessimista, se quiser.

Mas se o natal consiste apenas neste tipo de festa ridícula feita para alegrar mães e avós pseudo-católicas de pensamento há muito ultrapassado, ao menos existimos nós: filhos que se importam com as mães e que voltam à velha casa, num eterno retorno, e viemos novamente à boa e velha Belo Horizonte para visitá-las e ter o prazer de rever a família, mais do que para celebrar nascimento de um menino qualquer que pode até ter sido grande homem, mas cujas palavras e ações foram extremamente deturpadas em prol de um empreendimento muitíssimo questionável, para dizer um mínimo. E então, de uma certa forma, acaba que esta ridícula religião acaba servindo para alguma coisa, que é unir as pessoas que não se encontram a tanto tempo. É que cada um faz a sua vida: muitos vão em busca de seus sonhos, muitos vendem seus sonhos e vão embora mesmo assim, em busca de dinheiro; alguns ficam também. Ficar é bom, mas não um ficar eterno. Tenho Belo Horizonte como minha base, é aqui que me sinto bem, é aqui que olho para as pessoas e vejo nelas um pouco de mim, é aqui que escuto as gírias dos desconhecidos e elas são as mesmas que uso, é aqui que sou eu mesmo, é este o meu lugar. Mas se uma verdade como essa se faz presente, é também muita mediocridade, vá me desculpar o leitor, permanecer no mesmo lugar onde se nasceu por toda a vida, ou mesmo por muitos anos e anos e anos. Pois que uma vez que se vai e que se conhece o que é o mundo real, onde se conhece outra realidade, tem-se mais curiosidade, uma tipo estranho de sede cultural, uma vontade ir mais longe e ver mais, saber até onde vai essa loucura do ser humano. E, para isso, só morando longe. Ainda hei de morar longe, muito longe, conhecer mais sobre o mundo, sobre o ser humano e sobre mim mesmo, pois que as mudanças para lugares longínquos são também fortes trabalhos de auto-conhecimento; ah, como são.

E eis que estamos todos aqui, nesta mesa de bar, por conta de um sujeito que acredita-se ter nascido há dois mil e seis anos, envolto em tanta mitologia e tendo sua história sido alterada tão drasticamente de lá até hoje. Mas estamos aqui, estão todos aqui: o Flávio está aqui, o Hamilton, o Rodrigo, o João, as Alices, o Maurição, a Jumps, a Dani e muitos outros dos meus grandes e bons amigos. Estamos todos aqui hoje reunidos porque Jesus Cristo um dia nasceu e porque milhares de idiotas montaram uma instituição ridícula e irracional chamada igreja católica -- ou cristandade, cristianismo, chame como quiser. Estamos aqui também com nossa pele branca e nossos DNAs mesclados de estúpidos machos europeus e inocentes índias que foram estupradas fisica e culturalmente por estes e outros colonizadores sem qualquer escrúpulo. A humanidade é mesmo muito idiota!

Enfim, é natal, e se podemos tirar disso algo de bom, lembremos que ao menos em determinada época do ano conseguimos viver um mundo mais solidário, com maior compaixão, espírito humanista e ajuda ao próximo. Afinal, ainda resta algo de bom escondido no fundo do coração das pessoas e que, ao menos em algum momento, com o estímulo correto, é capaz de se aflorar. Pessoalmente, encontramos os amigos, reunimos em torno de uma mesa de bar pessoas que não se encontravam há dois, três, talvez cinco anos. E nada há de melhor do que reencontrar os velhos amigos, continuar os papos há muito interrompidos, saber como vai a vida, o casamento, as gandaias, o trabalho; discutir filosofia, religião, cerveja, drogas, mulheres, aborto, ciência; falar de tudo um pouco. Brindemos, portanto, à esta festa religiosa que é o natal e também à grande benção que é ter bons e velhos amigos: tim-tim!

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16.12.06

O homem que entrou dentro de si mesmo


Roberto finalmente encontrara a solução de seus problemas: entraria dentro de si mesmo. É que estava cansado, o Roberto. Muito cansado. Cansara-se dessa vida na sociedade, da tolice dos homens, desse chove não molha que é a vida de todo dia. Cansara-se desse acordar e trabalhar e dormir e acordar de novo. Nem mesmo os fins de semana traziam-lhe felicidade, traziam-lhe era mais dor. A dor de ter a obrigação de se divertir: isso dói. Aos poucos, fora Roberto se afastando dessa estúpida sociedade dos homens. Nunca fora aceito de forma completa por esta sociedade, nunca pertencera totalmente a ela, nunca se adaptara bem. Já houve o tempo em que tentara se adaptar: ah, se tentara. Tentara bravamente. Houve o tempo em que até se poderia dizer que conseguira se adaptar, houve o tempo em que tinha riquezas, jóias, poder, mulheres. Mas este fora um tempo curto e logo se vira perdido novamente, o Roberto. Via as pessoas, contemplava suas atitudes, tentava entender o comportamento delas, mas somente interrogações vinham à sua cabeça. Às vezes pensava entender as pessoas, o mundo, a relação de um com o outro ao qual chamam de sociedade. Mas se entendia, pensava as pessoas burras e a sociedade estúpida; se não entendia, aí simplesmente não entendia, e pronto. Não entendia nada. Na maior parte das vezes, preferia não entender.

Roberto tentou várias estratégias para se adaptar, achava que a resposta estava na educação e, assim, estudou antropologia, biologia, psicologia e humanologia. Mas quanto mais entendia, menos entendia. Seu aprendizado funcionava ao contrário, estava desaprendendo. Até um dia em que tomou uma decisão drástica: afastaria-se do perverso mundo dos homens. Neste dia, saiu cedo de casa e foi andando, andando. Andou sem rumo por algum tempo, mas mal conseguiu afastar-se de sua casa. Desistiu. Pegou um ônibus e voltou. No dia seguinte, saiu pela manhã em seu carro, dirigiu até alguma estrada e resolveu seguir a direção norte; tinha algum dinheiro. Se perderia em meio a seu país até que se encontrasse. Dizem que é preciso perder-se para encontrar-se. Era essa, agora, sua máxima. Conseguiria sobreviver fazendo alguma coisa, em algum lugar; sabe-se lá o que, sabe-se lá aonde. Largou seu emprego, a família, a casa. Largou sem dar notícias. Não levou seu celular, não levou nada que o fizesse lembrar quem um dia houvera sido: perdeu-se por completo. Mas onde quer que chegasse, Roberto sempre se sentia fora; fora de tudo. Viajou e vagou por meses e anos, chegou a conhecer pessoas diferentes que no fundo eram sempre iguais, variações cansativas do mesmo tema do viver e sobreviver, sempre humanos acéfalos. Não foi capaz de entender as pessoas, mesmo as mais distantes, mesmo aquelas que, assim como ele, não se adaptavam. Existem várias diferentes formas de desadaptação e apenas uma forma de adaptação, concluiu ao fim de uma década. Quis sempre fazer o bem, Roberto. Um dia, entretanto, duvidando dos conceitos do bem e do mal que a nós são impostos tanto como animais quanto como seres sociais, e não encontrando felicidade no bem, também tentou fazer o mal, nosso protagonista, sem que isso também o levasse ao paraíso encantado psicológico ao qual chamamos de felicidade. Continuava a viajar sem rumo, sem nome, sem trégua, sem direção; levava apenas sua solidão e sua desilusão.

E estava tranqüilo com sua solidão, Roberto. De uma certa forma, era feliz. Uma felicidade morna, quase fria, temperada por pequenas paixões e fortes desapontamentos. Então descobriu-se finalmente, descobriu o que o faria mais calmo, menos ansioso, mais pessoa, mais homem, mais ele mesmo. Ao meditar no cume de um morro, antes de encontrar o sol poente, uma revelação o assaltou: seria realizado ao entrar dentro de si mesmo. Era esta a resposta que procurava! Só assim juntaria coisas que certamente se ligavam de uma maneira coerente, a saber: ele e ele mesmo. Foi neste exato dia que começou os procedimentos de auto-absorção, mas também esta não foi uma tarefa simples ou rápida. Demorou mais de dois decênios até que pudesse ser totalmente fagocitado por si mesmo. Às partes físicas, conseguiu assimilá-las facilmente, mas era a psicologia que prendia daqui, sobrava dali. Descobriu Roberto que se encaixar dentro de si mesmo era obra difícil, pois que havia apenas o espaço de uma única pessoa dentro de cada pessoa e era preciso sobrepor todas as peças com cuidado, dedicação e precisão. À sua angústia, teve muita dificuldade de sorvê-la, pois que era enorme e desajeitada. Levou anos para conseguir colocá-la em seu devido lugar, dentro de sua psiquê. Mas quando finalmente foi capaz desta tarefa realizar, chegou a um estado em que jamais havia contemplado: finalmente parecia que encontrara a paz. Já era velho, Roberto, quando esse evento então aconteceu e, naquele instante, percebeu que nada mais precisaria fazer, que tudo que precisa ser feito, já o havia sido. Era somente a paz interior que estivera sempre buscando e, tendo-a alcançado, desistiu então de lutar contra um mundo que desde criança insistira em maltratá-lo e repudiá-lo. Entregou-se, neste dia, Roberto, à paz. E até hoje, onde quer que esteja, ele está em paz. E um dia, espera-se, também nós a encontraremos.

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9.12.06

A mulher que queria dar o melhor para seus filhos


Era uma vez uma mulher que tinha sido uma menina pobre. Por ter sido mais pobre que grande parte de seus colegas de escola, ela sempre sofrera uma grande discriminação por parte desses. O ser humano, mesmo quando criança -- ou ainda mais quando nesta fase prioritariamente instintiva -- mostra uma natureza competitiva e um tanto quanto malvada: coitada desta mulherzinha! E esta mulher que tinha sido uma menina pobre ficara eternamente traumatizada por não ter podido ter uma roupa da última moda, um tênis novo e caro, bijuterias valiosas e todos os outros bens que seus coleguinhas tinham e que ela não podia ter por ser pobrezinha. Esse trauma a fez jurar que sua vida não terminaria assim. Tanto se preocupava com isso, que a mulher trabalhou e trabalhou e trabalhou, fez de tudo que podia e também o que não podia para conseguir ser bem sucedida na vida e ganhar muito dinheiro, muito mesmo. Tanto fez e tanto se importou com isso, que a mulher que tinha sido uma menina pobre ficou rica, cheia do dinheiro. Como se não bastasse, esta mulher casou-se ainda com um multi-mega-super-ultra-hiper-milionário poderoso e agora estaria, para sempre, curada de seu trauma de criança pobre e de não ter o que os outros tinham: que bom!

Quando seus filhos nasceram, ela gastou muito dinheiro para colocá-los em uma escola muito boa, a melhor e mais chique que encontrou. Além disso, ao invés de ajudar os necessitados com seu excedente, gastou ainda rios de dinheiro para garantir que seus filhos tivessem tudo do bom e do melhor, de modo que seus coleguinhas jamais pudessem discriminá-los por serem pobrezinhos como ela houvera sido um dia, num passado que preferiria esquecer mas que carregaria para sempre consigo. Seus filhos, portanto, jamais foram pobrezinhos, muito pelo contrário, eram muito ricos e esnobes! E, assim, eles jamais sentiram em sua pele aquilo que ela mesma tinha sentido, um dia, quando criança: aquela humilhação por não ter podido ter aquilo que os outros tinham, num círculo vicioso onde o verbo "ter" era supremo e absoluto. Seus filhos, ao contrário, eram aqueles que ditavam moda. Estavam sempre por cima e todos os outros eram aqueles que seguiam os padrões de novidade aristocrática que estes impunham com suas posses. Jamais tiveram trauma discriminatório econômico algum, os filhos desta mulher. E, assim, como mãe, esta mulher sentiu-se realizada por poder ter dado aos seus filhos aquilo que ela nunca pode ter para si mesma. Isso a fazia feliz, muito feliz.

Esqueceu-se ela, entretanto, que também na mesma classe de seus filhos, havia uma mulherzinha que era também pobrezinha. Não era a mais pobrezinha de todas, pois que também estudava no colégio rico, mas era a mais pobrezinha das riquinhas e que, portanto, era discriminada naquele meio por não poder ter a melhor roupa, o melhor sapato e os melhores materiais escolares; dentre outros símbolos de poder. Esta nova mulherzinha, que era a correspondente atual da mãe realizada, também sentiu na pele a tal da discriminação econômica. Apesar de realizada como mãe, a velha mulher não percebia que agora era o arauto do trauma alheio e que, ao resolver seu próprio problema, gerava noutros a mesma angústia que um dia sentira. Quão insensível pode ser uma mãe realizada...

A nova mulherzinha, entretanto, não era dessa mesma laia. É claro que ela poderia também fazer de tudo para subir na vida economicamente e um dia poder proporcionar a seus filhos, o "melhor" que eles pudessem ter quando comparados aos seus coleguinhas, para que não fossem discriminados por eles. Mas esta mulherzinha da nova geração não era tão boboca quanto a mãe dos meninos esnobes e pôde perceber que, caso desse tudo do bom e do melhor aos seus filhos, segundo conceito vigente, estaria apenas semeando a sociedade com esse podre vírus do poder. Não fosse ela a tentar quebrar o ciclo vicioso do "se é aquilo que se pode ter", as gerações de seres humanos passariam e passariam, da mesma forma que têm passado, nessa competição idiota por aquele que tem mais, onde se vale não pelo que se é como pessoa e sim pelo que se tem como bem. Quanta idiotice há no coração dos homens!

Pois que esta mulherzinha da nova geração percebeu que ter muito para não ser discriminado só gera mais "ter muito para não ser discriminado" e que valia mais sair desse ciclo horroroso do que traumatizar mais uma geração de garotinhas e garotinhos que não poderiam ter tanto quanto aqueles mais abastados. Então, a nova mulherzinha, ao contrário de morrer de trabalhar para poder dar aos seus filhos tudo "do bom e do melhor", agiu na direção contrária. Trabalhou com afinco, mas sem almejar dinheiro e mais dinheiro. De fato, ela se decidiu por afastar-se deste mundo podre da possessividade e criou novos valores para si e para sua família. Matriculou seus filhos em colégios públicos, para que eles pudessem conviver com todo o tipo de gente e para que não tivessem preconceito algum com o que as pessoas vestiam ou usavam ou possuíam. Além disso, incentivou neles, essa boa mamãezinha, um sentimento de ajuda ao próximo onde, ao invés de esnobar os mais pobres devido a seus problemas financeiros, seus filhos se reunissem aos que tinham menos de forma a ajudá-los a melhorar de vida sem, no entanto, tirar-lhes o orgulho.

Os filhos dessa segunda mulher se tornaram, no fundo, pessoas muito melhores do que os esnobes filhos da primeira, preocuparam-se menos com banalidades monetárias e não ligavam muito para formalidades estúpidas de sua sociedade e para festas de gente metida e rica. Por mais que chegassem também a ganhar muito dinheiro -- alguns o fizeram, mesmo sem objetivar isso -- jamais quiseram ou sequer pensaram em esnobar qualquer pessoa, mesmo os mais pobres, a ostentar suas posses como a dizer "sou melhor do que você". Do contrário, não se preocupavam muito com esse papel-poder que se convencionou chamar de dinheiro, nem mediam as pessoas pelo tanto deste estúpido papel que tinham; na verdade estavam dispostos a dividir seus excedentes com os mais necessitados, coisa que fizeram sem prejudicar de forma alguma suas próprias vidas e tendo levado uma vida simples e prazerosa, muito mais do que os filhos da primeira mulher, que tinham sempre que algo a se preocupar para se mostrarem mais dignos e aristocratas do que os outros humanos estúpidos que os cercavam.

De maneira geral, infelizmente, no mundo ainda existiam mais filhos da primeira mulher que filhos da segunda. Uma divisão de classes, quase castas, podia ser vista na sociedade que ainda tinha muita gente querendo apenas ser esnobe e mostrar-se melhor do que os outros; enquanto, uma outra parte, importava-se apenas em viver bem e tentar ajudar o próximo. Uns acabavam com o mundo, outros tentavam reconstruí-lo das cinzas. Outras gerações de seres humanos se passaram e nada se alterou, pois era assim que caminhava a humanidade...

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3.12.06

Dos propulsores da sociedade

Uma divagação pessoal, social, científica, ecológica e tecnológica sobre os limites de nós mesmos e de nossa sociedade. (Originalmente publicado como um trago de filosofia)

Um dos maiores propulsores a empurrar para frente nossa sociedade é, sem dúvida, a ambição. Este sentimento parece ser natural ao ser humano, animal com um forte instinto competitivo e que quer sempre estar na frente de seus pares, mostrando-se melhor, mais competente, inteligente, belo, especial -- o macho alfa. Nossa sociedade está repleta de símbolos que ilustram a ambição que temos: na ciência, há o prêmio Nobel; no esporte, as olimpíadas e os campeonatos nacionais e internacionais; para todas as outras áreas de conhecimento, existem prêmios a exaltar uns em detrimento de outros. Só vence aquele que tem a vontade de ser o melhor, pois não é nada fácil ser o melhor e a luta é diária para aquele que tem uma grande ambição.

Creio ser capaz, entretanto, de imaginar uma sociedade sem prêmios; ou onde estes seriam apenas uma consequência de um trabalho bem feito, não a causa, não algo a ser buscado com unhas e dentes, como acontece freqüentemente em nosso mundo real. Um trabalho feito com um objetivo de ganhar um prêmio, por melhor que seja, parece-me pobre; pelo menos de espírito. Uma sociedade sem tanta ambição andaria mais devagar, mas talvez produzisse produtos culturais mais interessantes e até mais bem desenvolvidos que os atuais. Tudo isso sem qualquer pressa ou desejo de ser melhor, apenas com a intenção de retratar o mundo com seus problemas e sua beleza, ou de buscar um novo paradigma social, intelectual ou técnico.

Houve um tempo em que existia em mim uma forte ambição, mas esta agora está morta, perdida em alguma das vielas estreitas de minha psiquê mutante. A plasticidade neuronal de nosso cérebro é muito provavelmente seu ponto forte, seu trunfo. Talvez algum dia esta ambição que um dia aqui esteve, volte com força a ocupar um lugar entre os sentimentos mais vigorosos que expresso, o que me leva a uma questão intrigante que poderia transformar a psicologia em uma ciência natural: seria possível de alguma forma de medir a expressão das emoções nos cérebros de seres humanos? Será que seríamos capazes de mapear certas emoções em espaços limitados do cérebro e, através do consumo de oxigênio nessas áreas -- ou através de outra metodologia qualquer --, identificar se esses sentimentos são fortes ou fracos em cada indivíduo? Será que este dado estaria clara e fortemente ligado ao sentimento em questão e poderia ser observado empiricamente e previsto ao se observar pessoas mais (ou menos) ambiciosas, que tenham mais (ou menos) compaixão, amor, ódio ou revolta? Será possível transformar a psicologia em uma ciência natural onde se possam fazer experimentos bem controlados? É engraçado pensar que Freud buscava uma psicologia científica: atirou em seu próprio pé.

Voltando à ambição: se hoje não é mais este sentimento que me empurra pra frente, o que é? Em uma generalização da presente auto-análise, percebo então que o inconformismo e a indignação são também fortes impulsionadores da sociedade. Hoje vejo esta sociedade que criamos e tenho um misto de raiva e medo, a injustiça e a desigualdade causam-me asco e os ricos me parecem simplesmente idiotas alienados que não percebem o quanto poderiam ajudar os outros de forma a melhorar suas próprias vidas -- são tão ignorantes que nem egoístas conseguem ser. Espanto-me também com a artificialidade dos conceitos, com a estupidez de certas regras socias, com leis irracionais, incoerentes e burras. O desejo da mudança no status quo também move o mundo, dando a nós forças em querer lutar por algo melhor para nós e para nossos pares. Vivo para (ser feliz e para) tentar mudar o mundo, mas sei que provavelmente morrerei sem conseguir fazê-lo. A sociedade dos homens vem se locomomendo em sua sinuosa tragetória e apresenta um movimento inercial que é difícil de ser interrompido ou alterado sem que uma grande força atue, força esta que é maior do que todos nós individualmente. O apego às antigas tradições ainda atua fortemente e segura o desenvolvimento do novo. Nossa sociedade é grande, há tantas pessoas e tantos povos, já andamos muito para o lado errado e agora fica difícil de voltar ao eixo do que seria "o mais correto" ou "o mais justo", o que quer que isso signifique -- mas que certamente está longe do modelo que temos. Provavelmente viverei falando para convertidos, a elite que comanda o mundo não deseja mudá-lo. A elite está em cima e quer continuar em seu posto, a humanidade sempre foi assim, alguns poucos privilegiados sempre exploraram uma grande quantidade de pobres-coitados. É este o estigma da desigualdade. No Brasil, essa exploração do mais fraco ainda é muito forte e violenta, mesmo no início do século XXI. Já na Europa, todos vivem com mais dignidade. Tenderemos para um modelo europeu no que concerne à igualdade social? Ou tenderemos -- ai de nós -- a um modelo pseudo-meritocrático americano que exacerba a desigualdade e deixa de levar em consideração milhares de relevantes fatores políticos e sociais? Rogo pelo primeiro, temo o segundo e confesso ser pessimista.

A ambição e a indignação, portanto, parecem-me dois grandes propulsores da sociedade em uma análise rápida e inconclusiva. "Como tornar mais sólida uma análise como esta?" ou "Como estudar com precisão quais serão os verdadeiros fatores que propulsionam a sociedade?" são as perguntas que ficam no ar. Numa sociedade utópica, talvez fosse interessante o surgimento de alguma forma de inibição de propulsores de forma a promover um progresso lento, porém sólido desta sociedade. Tenho a impressão que o ritmo desenfreado como este em que nossa sociedade tecnológica evolui, em algum momento haverá de exterminá-la. Produzimos mais conhecimento do que somos capazes de analisar, nossa capacidade de produção científica anda centenas de vezes mais rápida do que as discussões éticas e morais em nossa sociedade -- para dizer o mínimo. Os cientistas têm uma obrigação moral em tomar partido das discussões filosóficas sobre as implicações sociais e ambientais de seus trabalhos. Hoje já temos capacidades de alterar drasticamente nosso meio-ambiente e o fazemos de forma totalmente descontrolada devido à esta excessiva e atropelante evolução tecnológica gerada devido, talvez principalmente, à ambição pessoal de cada um em se tornar o macho alfa -- ou a fêmea alfa, um novo conceito biologicamente intrigante e passível de estudos sociobiológicos extensos.

Tenho a impressão que, devido ao fato de não analisarmos muito bem as conseqüências dos nossos trabalhos e de nossa tecnologia, em breve alteraremos de forma irreversível o meio em que vivemos e chegaremos à auto-destruição. Há, entretanto, a possibilidade de que este mesmo monstro que é o avanço desenfreado de nossa tecnologia, seja nosso herói capaz de conter, artificial e questionavelmente, os estragos que já fizemos e que ainda faremos em nosso ambiente. Transformar Gaia em um ciborgue, talvez seja nossa única saída. E para isso, precisamos mesmo correr, pois Gaia está moribunda.

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