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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

15.1.07

O ansioso

Crônicas de uma sociedade ideal

Faltavam dois dias para o grande teste. Luís estava excessivamente ansioso. Não sabia ao certo o que fazer. Sentia-se preparado, preparado até demais e, de fato, preferiria que o teste fosse mesmo naquele exato instante, para que ficasse livre logo daquela obrigação que tanto pesava em sua cabeça. Não tinha mais o que estudar, não queria mais estudar, estava convicto de seu conhecimento e de sua capacidade. Queria adiantar os dias. Foi Diogo, o doutor, que no dia anterior havia sugerido que ingerisse quantidades moderadas de algumas drogas, como a canonha e o SLT para que ficasse mais tranqüilo, inquiridor, pensasse sobre outras coisas e fizesse o tempo parecer passar mais rapidamente. Ele aceitou a sugestão, embora jamais tivesse feito uso de tais entorpecentes.

Saiu de casa e se dirigiu a uma drogaria recreativa. Jovem que era, aquela fora a primeira vez que entrava numa dessas lojas, talvez por não ter nenhum amigo próximo que utilizasse desses artifícios farmacológicos com objetivos de relaxamento ou de integração ao todo, como se dizia à época. Normalmente as pessoas começavam a ingerir drogas recreativas depois dos vinte anos, sabe-se lá porque. Seu pai, lembrava-se agora, certa vez o havia oferecido uma dose de canonha, quando mais novo. Mas Luís não se lembrava de ter sentido algum efeito, talvez não tivesse entendido muito bem como utilizar, talvez a concentração da droga ingerida fosse muito fraca para ele. Ao chegar na drogaria, os farmacêuticos fizeram-lhe um rápido exame, avaliando sua susceptibilidade a vários tipos de drogas. Retiraram na hora seu sangue, aplicaram-no em uma máquina e obtiveram um relatório dizendo quais seriam as quantidades mais adequadas para se tomar inicialmente. É claro que algumas pessoas preferiam ingerir altas doses das drogas, enquanto outras preferiam utilizar quantidades mínimas ou moderadas. O relatório mostrava apenas a quantidade média que deveria tomar para ter um efeito suave naquele organismo específico, a saber, o Luís. Quando da primeira vez que se ia à drogaria, cada pessoa era proibida de comprar mais do que a quantidade descrita naquele papel, e foi exatamente isso que fez o protagonista deste conto. E entre o SLT, vendido em gotas, ou a canonha, tentou primeiro fumar o cigarro.

Logo que chegou novamente à rua, decidiu acender a droga e elevar a mente. Aos primeiros tragos, tossiu. Gostava do cheiro que o fumo exalava, o farmacêutico havia sugerido uma variedade das mais cheirosas. Sentou-se num banco da praça mais próxima enquanto fumava e observava o movimento. Em pouco tempo sentiu uma tranqüilidade imensa invadir seu corpo, seus músculos se relaxaram completamente, os olhos fecharam-se um pouco e sua razão dispersou-se. Esqueceu do teste que deveria fazer por alguns instantes, motivo de extrema angústia nos últimos dias, e ficou apenas a reparar pessoas passando, na composição de materiais daquele banco em que estava assentado, em como o banco teria sido feito; reparou também nas tonalidades de verde das árvores que ali haviam sido plantadas. Ficou ali, sentado, pensando em vários eventos que aconteceram em sua vida. Depois de algum tempo que não soube precisar quanto, teve a impressão que acordava finalmente para as coisas mundanas ao seu redor. Lembrou-se do teste. Mas isso não o trouxe tanta ansiedade desta vez. Pensou que era importante fazê-lo bem feito, mostrar sua capacidade. Algumas coisas que havia estudado com mais intensidade também vieram à sua cabeça: fórmulas, teoremas, teorias; chegou a questionar alguns postulados que havia estudado, seriam realmente verdadeiros?

Agora faltava apenas um dia e meio para o teste. Havia gostado do efeito daquela droga, ela o havia deixado relaxado e com o pensamento leve, vago. Não se preocupava excessivamente com mais nada. Pensou que as leis eram erradas, que drogas como essa deveriam, de repente, ser obrigatórias aos indivíduos, era um absurdo que não o fossem. Quando pensou um pouco mais, concluiu que não, sua sociedade era correta, as imposições ao indivíduo deveriam mesmo ser mínimas, como eram ali, cada um que cuidasse de si e soubesse de sua própria vida. Nada deveria mesmo ser imposto aos cidadãos. Sua sociedade era justa. É claro que aos que matassem ou torturassem outros, um juri popular deveria decidir seu destino, às vezes até dando razão ao réu. Havia casos e mais casos, tudo poderia acontecer.

Decidiu então que no dia seguinte, logo após a prova, experimentaria o SLT para ver se aquela droga também o faria mais tranqüilo, relaxado e pensativo, como a canonha o havia deixado. Talvez viesse a usá-las com mais freqüência quando sua vida voltasse ao normal e o exame tivesse, enfim, terminado. Voltou então para casa, tentaria dormir um pouco e se desligar do mundo até que, finalmente, chegasse o tão esperado dia de amanhã.

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3.1.07

Amsterdã

Se Marcelo mesmo, que é o principal personagem da presente estória, não sabe ao certo o que acontecia enquanto andava sob efeito de moléculas alucinógenas pelas ruas alagadas de Amsterdã, não seremos nós mesmos capazes de situar melhor este conto.

Basta dizer que andava, andava, Marcelo andava, andava freneticamente, para cima e para baixo, maravilhado com as mulheres, o clima, o sol, as pessoas, as bicicletas, as mini-saias nas bicicletas, os córregos, as garçonetes, o bairro da luz vermelha, um sujeito estranho, carros passando, charretes, alguém parece gritar, um mendigo na calçada, um barc.., um mendigo na calçada, um mendigo na calçada fala alguma coisa, grita, berra, urra, o mendigo, o mendigo urra e Marcelo olha o mendigo que diz e grita e é o mendigo, o mendigo, o mendigo tem mais percepções do que as pessoas em geral, o mendigo, a droga, no mundo do mendigo há vários mendigos, vários mendigos, um mais poderoso que outro, eu entendo o mendigo, Marcelo entende o mendigo, o mendigo sabe tanto, ele sabe das idiotices que é o mundo, ele não aguentou, ele saiu da sociedade, ele deixou-a de lado, o mendigo é quem sabe, o mendigo é o verdadeiro corajoso, ele tem coragem de deixar toda essa estupidez de lado, o mendigo, o mendigo careca era mais forte que o de chapéu no mundo dos mendigos, mendigos que vivem em outro mundo, um mundo mais questionador, um mundo abstrato, de lado, um pária, um pária da sociedade que sabe mais do que quem aqui sabe mais, ele questiona, ele não aceita, não aceitou, não se enquadrou, não conseguiu, eu também não consigo, estou para desistir, estou prestes a cair no chão e virar mendigo, uma voz diz "não vá, Marcelo", que voz o quê, não é voz, é a natureza, a minha natureza, a natureza de Marcelo, não minha, a natureza que nos fez tão ligado a esse mundo social das coisas irreais, das coisas que não existem, deste papel que vira moeda e vira bens e vira poder e vira, vira, vira, vira, se fode! O mendigo! O mendigo é poderoso, ele é o rei, ele quem manda, ele está num outro plano, um outro mundo, o mundo do mendigo não é igual ao meu, meu?, não, não meu, não meu, não tenho nada a ver com isso, não sou culpado por isso, não sou, não, não, sou, sou sim, eu compro importados caros, eu fumo, eu compro das marcas famosas, eu sou um idiota, eu corroboro com a desigualdade, eu me odeio, eu sou um bosta mesmo, um bosta, eu sou, que bosta! Uma bicicleta, uma minisaia, uma loira, a ponte, finalmente a ponte, atravesso, atravesso, um bar, cerveja, olho, o bar, garçonete, pessoas, pessoas desinteressantes, ou interessantes?, que preconceito!, andar, andar mais, mais pra lá, não fui ainda, vou lá, vamos indo, anda, anda, anda, anda...

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