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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

25.2.07

O destino dela

Enalteçamos àquele que não vê no caso, como o faz a massa do povo, uma divindade (...)
Epicuro, Carta a Meneceu

Era uma vez uma mulher. Não se poderia dizer que era uma mulher como as outras, não. Não era. Era uma mulher muito bem decidida e resolvida. Tinha carro e apartamento e bom emprego e era independente e bonita e ainda tinha gosto pela vida. Ora, era a mulher ideal, pensaríamos. E esta mulher tinha um único e grave defeito. Bem, talvez não único, mas certamente grave: ela acreditava demais. Acreditava, a mulher, que as oportunidades apareceriam em sua vida da melhor forma que estivesse previsto para acontecer. É que ela pensava que havia alguém a coordenar sua vida, em um nível superior e amplo, um deus, você poderia chamar se quisesse, ainda que ela própria não desse um nome específico a este fenômeno. Andava para frente, esta mulher. E como era alegre e linda e boa funcionária, conseguia cada vez mais sucesso onde quer que fosse. As oportunidades aos poucos apareciam. Mas o que era a oportunidade para ela? Uma boa oportunidade, para esta mulher, era uma necessidade. Ora, pensava ela, se a vida havia colocado em seu caminho uma ótima oportunidade é porque seu caminho já havia, de fato, sido traçado. Uma boa oportunidade era algo que jamais se perdia. E, assim, seguiu em frente. Mudou-se primeiro para aquela capital e depois uma outra oportunidade surgiu em terras mais longínquas. Aproveitou-se de todas. Fora do âmbito profissional -- e se estivemos intrinsecamente ligados a este assunto é porque a vida da mulher tivera sido principalmente por ele dirigida -- também pensava ela sobre as oportunidades que a vida colocara diante dela sobre outros aspectos. Depois da profissão, sua lista de prioridades tinha o amor. Infelizmente, entretanto, seu maior amor estava em sua cidade natal, de onde já saíra anos antes em busca da imperdível oportunidade profissional. Se a vida quis que ela dali saísse, a vida assim o fez. Num e noutro lugar dava prioridade às pessoas que conhecia pelo acaso, ao invés daquelas diretamente indicadas por amigos casamenteiros. Casou-se com um sujeito que a atropelara certa vez e levara-a ao hospital para que tivesse a perna engessada. Não a teria atropelado, o sujeito, caso as coisas já não estivessem predispostas para que aquilo acontecesse.

Um dia, entretanto, algo aconteceu em sua cabeça. Aquela mulher decidiu separar-se. E não por ter sido novamente atropelada, não foi o caso. Foi o dia em algum nova via neuronal ligou-se em sua cabeça e ela pensou: "ora, jamais tomei qualquer decisão na minha vida". E era verdade. Ela jamais escolhera nada e, quando no supermercado, pegava os produtos que atraiam mais sua visão. Se ela os olhara primeiro, algo deveriam ter de muito bom. Tudo era propósito, aleatoriedade e acaso eram palavras que não se encontrariam em seu dicionário. Mas isso havia sido antes daquele dia. A possível via neuronal que se formara naquele instante, talvez também por via de um propósito escondido -- como poderia pensar alguém que ainda não tenha entendido a moral do presente ensaio -- agora a fazia pensar diferente. Sentiu-se como uma folha ao vento, a mulher. Percebeu como havia ido daqui pra lá e alhures ao sabor de ventos que jamais teve o poder de controlar. Quando se deu conta de tudo isso, a mulher entrou para dentro de si mesma por algum tempo e ali ficou. Precisava agora de algum tipo de conforto interno, pois que todo o mundo no qual sempre acreditara encontrava-se, agora, em frangalhos. Quando de si finalmente despertou-se, estava agora mais auto-confiante, segura, firme. Mais alguns dias se passaram antes que ela decidisse, agora conscientemente e pela primeira vez, para onde deveria guinar sua vida. Não foi fácil esta decisão. Mas os dias que seguiram depois que um rumo consciente e racional havia sido finalmente decidido, serviram apenas para confirmar o quanto ansiava por mudar de rumos. Em pouco tempo largou emprego e marido, voltou para sua cidade natal, casou-se novamente com o velho amor e dizem que agora teve um filho. Nesta ocasião parou para pensar como sua filosofia antiga era inconsistente, dado que se fosse mesmo para acontecer o que devesse acontecer, ela jamais deveria ter tomado pílulas anticoncepcionais, algo que sempre houvera feito. Esqueceu-se dos velhos tempos e planejou o filho para nascer em agosto, como o pai. Pouco tempo depois, entretanto, a morte alcançou nossa protagonista sem que a mesma tivesse assim se decidido e, se a maior fatalidade a acometera ou não na hora certa, não faz o menor sentido discutirmos. É apenas uma pena não a termos mais por aqui, pois que era boa gente.

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15.2.07

Considerações sobre um fumante

Eis que, ao longe, um indivíduo acendia, sozinho, seu cigarro.

Um estudante de classe alta pensou que era desperdício de pulmão fumar sem que houvesse nenhuma beldade observando. Uma beldade excessivamente preocupada com sua saúde e beleza pensou que era um absurdo se contaminar daquela forma estúpida, com ou sem alguém a quem se mostrar. Um velho que nunca havia se interessado por experimentar um cigarro teve vontade de fumar, uma vez que a morte já lhe batia à porta de qualquer forma. Um estudante imaginou a fumaça sendo absorvida pelas células pulmonares do sujeito e produzindo radicais livres que poderiam produzir alguma mutação no DNA de suas células. Um hedonista invejoso olhou-o com vontade de transferir para si o prazer daquele cigarro. Um homem de meia idade pensou que seu estoque de cigarros já se acabava e que era hora de comprar mais. Uma mulher que havia anteriormente achado o fumante muito bonito mudou de idéia e passou a achá-lo feio, pois tinha preconceito contra o tabagismo. Uma outra mulher balzaquiana que também achara atraente o fumante, esta sem o já referido preconceito, pensou em se aproveitar da situação para chegar até ele, pedir um isqueiro emprestado e começar uma conversação que talvez terminasse em casamento, tão logo quanto fosse possível. Uma menina achou divertida a forma como o sujeito soltava a fumaça no ar e um hipocondríaco tossiu ao ver o cigarro sendo fumado, ainda que de muito longe, e imaginou que morreria de câncer por ter sido um fumante passivo durante tanto tempo. Já Alberto, quando passou por ali, nem se deu conta que havia alguém a fumar pelas redondezas, sendo que ficou muito mais atento à cintura da morena que andava um pouco mais à frente. Um devoto de uma dessas igrejas evangélicas olhou para o fumante e teve a impressão de ver, na verdade, alguém que manifestasse uma parte do poder do diabo. Um estudante de ciências exatas que olhava para o fumante viu números, já um estatístico viu probabilidades, enquanto um biólogo relembrava as aulas de patologia. Um médico pensou no prognóstico de um de seus pacientes que tinha câncer e Ana pensou em sua mãe, que se recusava a parar de fumar apesar da idade. A um cubano que passava, um bom charuto veio à cabeça; e o jamaicano lembrou de um baseado e teve vontade de ouvir Bob Marley. O economista imaginou quanto o governo perdia de dinheiro tratando, posteriormente, da saúde dos fumantes e sua mulher percebeu que devia ser alta a quantia que certas pessoas gastavam por mês para sustentar seus vícios; apesar de que a seus próprios vícios, ela os teria chamado de hábitos. O publicitário que passava por ali teve uma idéia ótima sobre uma frase de efeito para uma campanha anti-tabagismo que ele jamais seria contratado para fazer e o sujeito que passava ao lado pensou que poderia dar um cinzeiro estilizado ao amigo que aniversariava no dia seguinte. Outras pessoas passaram e continuaram passando enquanto aquele sujeito fumava tranquila e prazerosamente seu cigarro. À cada pessoa que passou, um pensamento diferente ocorreu, sendo que muitos deles foram pensamentos morais, associando o que viam ao que pensavam ser bom ou ruim. À você que leu este texto, provavelmente pensamentos similares passaram pela cabeça, assim como a mim que a ele escreveu após ter fumado um cigarro em um lugar público.

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1.2.07

Independência e roupas limpas

Tendo uma vez acostumado-me com o escrever crônicas, considerando que consigo datar minha própria vida pelos meus escritos e sabendo que não escrevo nada de muito pessoal há algum tempo, dei-me ao direito de parar todos os outros afazeres para me concentrar na elaboração de algo mais mundano e despropositado, algo que desse aos leitores o que procuram e ao escritor, a saber, eu mesmo, o que tem lhe faltado desde que desviou seus escritos para veias mais filosóficas e argumentativas, ao invés de perceber diretamente os encantos do cotidiano; esses componentes mágicos que compõe uma crônica. Sobre o cotidiano, vale dizer que tem chovido muito -- há mais de um mês: dezembro, janeiro e ainda agora em fevereiro ainda chove com bastante freqüência -- e que este chover ininterrupto tem se tornado para mim ainda mais perceptível sendo que finalmente resolvi tomar vergonha na cara e comprar uma máquina de lavar roupas ao invés de ficar lavando-as aqui ou ali; ou mesmo, devo confessar, levá-las por vezes para serem lavadas na casa dos meus pais, onde há quem seja pago -- absurdamente mal pago, como todos desse setor -- para realizar os serviços domésticos. Poderia também eu contratar pessoa de nível social inferior, coisa que não falta no Brasil, para tomar conta dos meus afazeres domésticos que acabam por acumular-se devido à minha preguiça ou, ainda mais, devido às minhas prioridades que se desviam antes para a realização de idiotices intelectualóides do que para a arrumação ou limpeza do lar. Somente quando as coisas já se encontram em estado de calamidade é que tomo por bem cuidar delas ao invés de ficar escrevendo sobre aleatoriedades, lendo capítulos esparsos de textos filosóficos que se encontram em minha biblioteca real ou virtual ou produzindo trabalhos científicos que exigem grande dose de criatividade, disciplina e conhecimento. De fato, sou extremamente organizado com minhas coisas, todavia a sujeira do ambiente ao meu redor realmente é coisa da qual sou capaz de aturar sem sérios problemas e, além do mais, sou filosoficamente contra a escravidão social e apenas contraria alguém para limpar minha casa caso pudesse pagar bem esta pessoa, o que não é o caso ou torna o custo de contratá-la muito maior do que o benefício de ter o ambiente limpo. Eis, portanto, minha vida atual.

Pois que quando voltei do estrangeiro, fui obrigado a passar uma temporada na casa dos meus pais, o que provocou uma série de restrições de liberdade e de problemática sobre as funções familiares de cada um. Explico-me. Se chego hoje à minha própria casa, onde sou o único morador, e não há pão para comer ou leite para beber, estou plenamente ciente de que a falta desses ou de outros itens domésticos básicos, alimentícios ou não, deve-se total e exclusivamente a um esquecimento ou falta de vontade minha em ter parado para comprá-los quando, na verdade, sei que deveria ter feito isso. Então, sendo eu mesmo o próprio culpado de minha agrura e fome, culpo-me e perdôo-me ao mesmo tempo por não ter realizado o que eu deveria realizar no momento apropriado e decido comer/beber/fazer alguma outra coisa qualquer no lugar daquilo que eu realmente gostaria de ter feito mas me vi privado pela ausência de material para tanto; algo que é culpa minha e só minha. Acontece que, quando estamos em lugar onde não somos os responsáveis pela compra dos mantimentos e nos vemos privados de algo que alguém seria responsável por comprar, temos a vontade intrínseca de nos dirigirmos até o suposto responsável pela compra dos mesmos e dizermos, raivosos, qual teria sido o motivo que teria feito esta pessoa não realizar seu suposto serviço quando era esperado que o houvesse feito. E se, quando da pergunta, ouve-se como resposta que a pessoa havia se esquecido ou não tivera vontade de realizar as compras, coisa que é tida como normal se você mesmo é essa pessoa, dá-se uma vontade de penalizar e se revoltar contra ela por não ter feito como esperaríamos que fizesse. É que, pensa-se nesse momento, se soubéssemos que o responsável não teria feito aquilo, teríamos nós mesmos feito. Todavia, uma vez que já não fizemos e que necessitamos do bem não existente, tendemos a culpabilizar o pretenso responsável por aquela falta. Ora, mas a verdade é: se realmente quiséssemos determinado bem, deveríamos ter insistido, verificado e lembrado, tantas vezes quantas fossem necessárias, ao responsável, que deveria ter comprado aquilo.

Sem mais me prolongar nestas palavras, o que quero concluir é que é muito bom poder viver sozinho e é muito bom se ver privado de certas coisas por sua própria deficiência. É muito bom não ter pão para comer por ter tido preguiça de comprá-lo no momento apropriado, é muito bom ter o chão da cozinha engordurado por não querer limpá-lo, é muito bom ter roupas sujas por não ter reservado tempo para lavá-las, é muito bom não assistir a televisão por falta de vontade de sintonizá-la corretamente e é muito bom ficar com cara de vergonha para com os vizinhos por ainda não ter pagado o condomínio (desde que se tenha dinheiro para tanto). Enfim, sermos os completos responsáveis pelos eventos que acontecem em nossa vida é extremamente satisfatório e, creio eu, é algo que caracteriza o indivíduo adulto; desde que ele também seja o responsável pelo seu sustento através dos frutos de seu próprio trabalho. A independência e a responsabilidade por todos os seus atos é um sentimento muito bom e estou feliz de voltar a este estado.

No mais, a chuva lá fora ainda cai. E as roupas insistem em não secar.

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