O destino dela
Enalteçamos àquele que não vê no caso, como o faz a massa do povo, uma divindade (...)
Epicuro, Carta a Meneceu
Era uma vez uma mulher. Não se poderia dizer que era uma mulher como as outras, não. Não era. Era uma mulher muito bem decidida e resolvida. Tinha carro e apartamento e bom emprego e era independente e bonita e ainda tinha gosto pela vida. Ora, era a mulher ideal, pensaríamos. E esta mulher tinha um único e grave defeito. Bem, talvez não único, mas certamente grave: ela acreditava demais. Acreditava, a mulher, que as oportunidades apareceriam em sua vida da melhor forma que estivesse previsto para acontecer. É que ela pensava que havia alguém a coordenar sua vida, em um nível superior e amplo, um deus, você poderia chamar se quisesse, ainda que ela própria não desse um nome específico a este fenômeno. Andava para frente, esta mulher. E como era alegre e linda e boa funcionária, conseguia cada vez mais sucesso onde quer que fosse. As oportunidades aos poucos apareciam. Mas o que era a oportunidade para ela? Uma boa oportunidade, para esta mulher, era uma necessidade. Ora, pensava ela, se a vida havia colocado em seu caminho uma ótima oportunidade é porque seu caminho já havia, de fato, sido traçado. Uma boa oportunidade era algo que jamais se perdia. E, assim, seguiu em frente. Mudou-se primeiro para aquela capital e depois uma outra oportunidade surgiu em terras mais longínquas. Aproveitou-se de todas. Fora do âmbito profissional -- e se estivemos intrinsecamente ligados a este assunto é porque a vida da mulher tivera sido principalmente por ele dirigida -- também pensava ela sobre as oportunidades que a vida colocara diante dela sobre outros aspectos. Depois da profissão, sua lista de prioridades tinha o amor. Infelizmente, entretanto, seu maior amor estava em sua cidade natal, de onde já saíra anos antes em busca da imperdível oportunidade profissional. Se a vida quis que ela dali saísse, a vida assim o fez. Num e noutro lugar dava prioridade às pessoas que conhecia pelo acaso, ao invés daquelas diretamente indicadas por amigos casamenteiros. Casou-se com um sujeito que a atropelara certa vez e levara-a ao hospital para que tivesse a perna engessada. Não a teria atropelado, o sujeito, caso as coisas já não estivessem predispostas para que aquilo acontecesse.
Um dia, entretanto, algo aconteceu em sua cabeça. Aquela mulher decidiu separar-se. E não por ter sido novamente atropelada, não foi o caso. Foi o dia em algum nova via neuronal ligou-se em sua cabeça e ela pensou: "ora, jamais tomei qualquer decisão na minha vida". E era verdade. Ela jamais escolhera nada e, quando no supermercado, pegava os produtos que atraiam mais sua visão. Se ela os olhara primeiro, algo deveriam ter de muito bom. Tudo era propósito, aleatoriedade e acaso eram palavras que não se encontrariam em seu dicionário. Mas isso havia sido antes daquele dia. A possível via neuronal que se formara naquele instante, talvez também por via de um propósito escondido -- como poderia pensar alguém que ainda não tenha entendido a moral do presente ensaio -- agora a fazia pensar diferente. Sentiu-se como uma folha ao vento, a mulher. Percebeu como havia ido daqui pra lá e alhures ao sabor de ventos que jamais teve o poder de controlar. Quando se deu conta de tudo isso, a mulher entrou para dentro de si mesma por algum tempo e ali ficou. Precisava agora de algum tipo de conforto interno, pois que todo o mundo no qual sempre acreditara encontrava-se, agora, em frangalhos. Quando de si finalmente despertou-se, estava agora mais auto-confiante, segura, firme. Mais alguns dias se passaram antes que ela decidisse, agora conscientemente e pela primeira vez, para onde deveria guinar sua vida. Não foi fácil esta decisão. Mas os dias que seguiram depois que um rumo consciente e racional havia sido finalmente decidido, serviram apenas para confirmar o quanto ansiava por mudar de rumos. Em pouco tempo largou emprego e marido, voltou para sua cidade natal, casou-se novamente com o velho amor e dizem que agora teve um filho. Nesta ocasião parou para pensar como sua filosofia antiga era inconsistente, dado que se fosse mesmo para acontecer o que devesse acontecer, ela jamais deveria ter tomado pílulas anticoncepcionais, algo que sempre houvera feito. Esqueceu-se dos velhos tempos e planejou o filho para nascer em agosto, como o pai. Pouco tempo depois, entretanto, a morte alcançou nossa protagonista sem que a mesma tivesse assim se decidido e, se a maior fatalidade a acometera ou não na hora certa, não faz o menor sentido discutirmos. É apenas uma pena não a termos mais por aqui, pois que era boa gente.
Epicuro, Carta a Meneceu
Era uma vez uma mulher. Não se poderia dizer que era uma mulher como as outras, não. Não era. Era uma mulher muito bem decidida e resolvida. Tinha carro e apartamento e bom emprego e era independente e bonita e ainda tinha gosto pela vida. Ora, era a mulher ideal, pensaríamos. E esta mulher tinha um único e grave defeito. Bem, talvez não único, mas certamente grave: ela acreditava demais. Acreditava, a mulher, que as oportunidades apareceriam em sua vida da melhor forma que estivesse previsto para acontecer. É que ela pensava que havia alguém a coordenar sua vida, em um nível superior e amplo, um deus, você poderia chamar se quisesse, ainda que ela própria não desse um nome específico a este fenômeno. Andava para frente, esta mulher. E como era alegre e linda e boa funcionária, conseguia cada vez mais sucesso onde quer que fosse. As oportunidades aos poucos apareciam. Mas o que era a oportunidade para ela? Uma boa oportunidade, para esta mulher, era uma necessidade. Ora, pensava ela, se a vida havia colocado em seu caminho uma ótima oportunidade é porque seu caminho já havia, de fato, sido traçado. Uma boa oportunidade era algo que jamais se perdia. E, assim, seguiu em frente. Mudou-se primeiro para aquela capital e depois uma outra oportunidade surgiu em terras mais longínquas. Aproveitou-se de todas. Fora do âmbito profissional -- e se estivemos intrinsecamente ligados a este assunto é porque a vida da mulher tivera sido principalmente por ele dirigida -- também pensava ela sobre as oportunidades que a vida colocara diante dela sobre outros aspectos. Depois da profissão, sua lista de prioridades tinha o amor. Infelizmente, entretanto, seu maior amor estava em sua cidade natal, de onde já saíra anos antes em busca da imperdível oportunidade profissional. Se a vida quis que ela dali saísse, a vida assim o fez. Num e noutro lugar dava prioridade às pessoas que conhecia pelo acaso, ao invés daquelas diretamente indicadas por amigos casamenteiros. Casou-se com um sujeito que a atropelara certa vez e levara-a ao hospital para que tivesse a perna engessada. Não a teria atropelado, o sujeito, caso as coisas já não estivessem predispostas para que aquilo acontecesse.
Um dia, entretanto, algo aconteceu em sua cabeça. Aquela mulher decidiu separar-se. E não por ter sido novamente atropelada, não foi o caso. Foi o dia em algum nova via neuronal ligou-se em sua cabeça e ela pensou: "ora, jamais tomei qualquer decisão na minha vida". E era verdade. Ela jamais escolhera nada e, quando no supermercado, pegava os produtos que atraiam mais sua visão. Se ela os olhara primeiro, algo deveriam ter de muito bom. Tudo era propósito, aleatoriedade e acaso eram palavras que não se encontrariam em seu dicionário. Mas isso havia sido antes daquele dia. A possível via neuronal que se formara naquele instante, talvez também por via de um propósito escondido -- como poderia pensar alguém que ainda não tenha entendido a moral do presente ensaio -- agora a fazia pensar diferente. Sentiu-se como uma folha ao vento, a mulher. Percebeu como havia ido daqui pra lá e alhures ao sabor de ventos que jamais teve o poder de controlar. Quando se deu conta de tudo isso, a mulher entrou para dentro de si mesma por algum tempo e ali ficou. Precisava agora de algum tipo de conforto interno, pois que todo o mundo no qual sempre acreditara encontrava-se, agora, em frangalhos. Quando de si finalmente despertou-se, estava agora mais auto-confiante, segura, firme. Mais alguns dias se passaram antes que ela decidisse, agora conscientemente e pela primeira vez, para onde deveria guinar sua vida. Não foi fácil esta decisão. Mas os dias que seguiram depois que um rumo consciente e racional havia sido finalmente decidido, serviram apenas para confirmar o quanto ansiava por mudar de rumos. Em pouco tempo largou emprego e marido, voltou para sua cidade natal, casou-se novamente com o velho amor e dizem que agora teve um filho. Nesta ocasião parou para pensar como sua filosofia antiga era inconsistente, dado que se fosse mesmo para acontecer o que devesse acontecer, ela jamais deveria ter tomado pílulas anticoncepcionais, algo que sempre houvera feito. Esqueceu-se dos velhos tempos e planejou o filho para nascer em agosto, como o pai. Pouco tempo depois, entretanto, a morte alcançou nossa protagonista sem que a mesma tivesse assim se decidido e, se a maior fatalidade a acometera ou não na hora certa, não faz o menor sentido discutirmos. É apenas uma pena não a termos mais por aqui, pois que era boa gente.
