A história da maçã (versão moderna)
Deve-se dizer que os indivíduos daquele planeta viviam de uma forma estranha. Eis que todos privilegiavam em suas vidas adquirir a maior quantidade possível de maçãs que lhes fosse possível. É preciso dizer que, pela forma como eram natural e socialmente construídos, todos aqueles seres precisavam, de fato, de algumas maçãs para poderem sobreviver com tranqüilidade -- e isso era inegável. Estranho era observar que, mesmo tendo maçãs suficientes para serem divididas por todos e para que todos vivessem bem, ficavam aqueles seres querendo acumular cada vez mais maçãs em suas casas. Mais e mais maçãs, cada vez mais. Era evidente que ninguém precisava viver com milhares de maçãs por mês e se cada um colhesse uma única e simples maçã todos os dias, isso seria suficiente para que todos tivessem suas maçãs.
Mas como eram ignorantes e ambiciosos, aqueles seres lutavam incessantemente com seus pares pela aquisição destas frutas. Era um mundo de batalhas. Aqueles que eram capazes de conseguir o maior número de maçãs eram vistos como os mais bem sucedidos daquela sociedade. E como alguns colhiam milhares de maçãs por dia, outros acabavam ficando sem quaisquer maçãs para poderem sobreviver: não havia justiça! Assim, o luxo de alguns causava o perecer e a morte de outros. Todos sabiam disto, mas não havia ninguém que se dispusesse de suas maçãs tão preciosas em prol dos mais necessitados. É verdade que havia uma minoria dissidente a propor por ali uma divisão igualitária das maçãs para todos, de forma que ninguém tivesse mais ou menos maçãs do que necessitaria. Entretanto, aqueles que tinham um elevado número de maçãs eram os mesmos que governavam e controlavam todos os outros e, assim, estes não queriam abdicar de seus privilégios em prol da felicidade geral da nação. Talvez por ainda serem atrasados organismos biológicos, todos eram egoístas.
Acontecia também naquele planeta que aqueles que pertenciam à excluída classe dos sem-maçãs, realisticamente viam-se sem mais alternativas na vida e consideravam-se perdidos, já que alguém que não tivesse maçãs dificilmente poderia ser considerado como um indivíduo social. Estando portanto sem alternativas, alguns sem-maçãs resolveram por si mesmos que era justo retirar maçãs daqueles que as tinham em abundância. Ora, eles não estavam errados em querer sobreviver; ninguém está errado quando busca apenas sua própria sobrevivência! E como perceberam que os possuidores das maçãs não as entregariam voluntariamente para eles; ou, quando dariam, seriam apenas ínfimos pedaços que não matariam suas fomes, resolveram utilizar a força bruta para retirar as maçãs dos detentores delas. E então inventaram formas diversas de intimidação e coação para que pudessem retirar as maçãs daqueles que as tinham. De fato, não era incomum naquela sociedade o fato dos indivíduos chegarem ao absurdo ponto de tirarem as vidas uns dos outros -- oh, a vida, nosso maior bem -- apenas para obterem um maior número de maçãs. Ora, pensaria alguém, se aqueles que possuíam as maçãs doassem uma parte àquelas pessoas que delas necessitavam, os próprios doadores evitariam em ser agredidos violentamente para que lhes fossem usurpadas maçãs. Dessa forma, seria simples e óbvio a todos que os detentores das maçãs deveriam dividí-las com os sem-maçã, de forma que todos ficassem satisfeitos com sua cota frutífera mensal. Entretanto, ambiciosos que eram, os detentores das maçãs tomavam atitudes que iam exatamente na direção oposta àquela que leva o raciocínio lógico e o que faziam era justamente tirar ainda mais e com mais voracidade as maçãs daqueles que não as possuíam. E nesta completa desigualdade, o sistema avançava em direção a um colapso onde os sem-maçãs em breve começariam a atacar, cada vez com mais violência, aqueles que eram delas detentores. E então ficamos sem saber se eram mais dignos de pena aqueles que das maçãs necessitavam e que violentavam outros para conseguí-las ou aqueles que as tinham como seu mais precioso, intocável e estúpido bem.
Este mesmo povo chegou ainda a separar uma grande parte de território daquele planeta e a chamarem aquele terreno de "a grande nação das maçãs". Ali se concentrava, se produzia e se espalhava a todos os cantos a absurda idéia de que ter muitas maçãs era bom. Tudo era medido por maçãs e todos ali tinham muitas maçãs; todos estavam fortemente contaminados pela idéia de que ter maçãs era o grande ideal a ser alcançado. A capital daquele enorme estado era conhecida como "a grande maçã" e representava o mais perfeito espelho de toda aquela estranha sociedade e da dominação que uns exerciam sobre os outros dentro dela. Tanto era assim que foi ela a primeira a ser atacada quando os sem-maçãs começaram de fato a revoltar-se contra toda aquela enorme desigualdade.
Sei que é difícil acreditar que algo assim acontecia naquele planeta, mas a eterna luta entre os detentores das maçãs e os excluídos não era a única parte passível de crítica sobre a história daquele povo. Pior ainda era observar que eles se consideravam entre si através da quantidade de maçãs que possuíam e, devido a isto, podíamos ver pregado ao peito de cada um deles, um contador de maçãs. Este contador tinha como função apresentar e mostrar aos outros membros da sociedade, o número de maçãs que cada indivíduo gostaria de passar como possuidor. Assim, toda a vez que saia de casa, cada sujeito setava um número em seu mostrador que quisesse representar e mostrar aos outros sobre quantas maçãs possuía. Vale notar que este número de maçãs mostrado não precisava, necessariamente, estar diretamente relacionado ao que ele realmente possuía armazenado em seu quintal. Entretanto as pessoas se especializavam em distinguir se um indivíduo ostentava um número muito maior de maçãs do que aquele que ele realmente tinha e todos estavam sempre a tentar medir o quanto de maçãs as outras pessoas de fato possuíam. Atentava-se a todos os comportamentos alheios em busca de verificar o número real de maçãs que os outros indivíduos eram proprietários. Tudo passava por ter ou não maçãs suficientes. E baseadas nestes índices mostrados e possuídos, sempre associando um número alto de maçãs a uma pessoa melhor, aqueles seres escolhiam relacionamentos, amizades, ídolos. Parece desnecessário dizer que o número de maçãs estava totalmente desvinculado das boas características que temos como virtuosas em indivíduos do nosso mundo, como a solidariedade, carinho, amizade, inteligência, companheirismo, sabedoria, confiança, amor e respeito. De fato, a única característica tida com extremo virtuosismo naquela sociedade era mesmo a quantidade de maçãs que cada um possuía.
E como o maior valor social daqueles seres era o número de maçãs, eles costumavam associar a felicidade ao maior número delas que pudessem ter. Faziam contas e diziam: "quando chegar a ter tantas maçãs, serei feliz". Mas então chegavam a ter este número delas e continuavam a buscar ainda mais outras e outras, incessante e freneticamente. Estavam corrompidos pelo sistema e a busca pelas maçãs era o que movia aquela estranha sociedade. Jovens exuberantes e cheios de vida vendiam seus mais preciosos sonhos em troca de uma boa quantidade mensal de maçãs; algo que para nós seria visto com extrema tristeza. Via-se com bastante freqüência pessoas habilidosas, alegres e inteligentes deixarem de realizar as funções que lhes dariam mais prazer para fazer algo que lhes traria mais maçãs. Maçãs e mais maçãs, era o que a enorme maioria deles buscava. E se até os mais caros sonhos desses indivíduos podiam ser vendidos, o que dizer da ética e da moral que ali se acreditava existir? É claro que elas de nada valiam, pois que toda ética tinha como pano de fundo uma relação com as maçãs. Assim, a moral que valia era aquela que levaria a mais maçãs por parte dos governantes. Destruíam-se uns aos outros, estes estranhos seres; apenas para que uns pudessem ter mais maçãs que outros. E como sempre havia retaliação, a guerra jamais terminava.
Desculpo-me por estar aqui a reportar comportamentos tão infantis e estúpidos por parte desses seres, mas espero com este relatório ter cumprido uma parte do meu dever de relatar o comportamento deste povo. E ainda mais importante do que pelo puro -- e também interessante -- caráter descritivo sobre o conhecimento de uma nova sociedade, penso que o exemplo observado no planeta das maçãs de como a ambição por um tipo de bem pode destruir e contaminar uma sociedade deva ser observado com cautela e apreensão por todos nós. Não podemos deixar jamais que algo semelhante nos aconteça, pois está claro que todos ali são indivíduos problemáticos e neuróticos, sofrem aqueles que não teriam por que conhecer a infelicidade e a prisão social. É realmente triste. Justiça era palavra que mal se ouvia por ali e não havia qualquer preocupação em renovar o ambiente que utilizavam, caminhavam para um fim próximo. Tinham moral e ética completamente deturpadas pelo desejo de maçãs dos governantes e não havia qualquer tipo de solidariedade institucionalizada, de fato as pessoas pareciam desconhecer este conceito, pelo menos para alguém que tenha como padrão a nossa própria sociedade. Tudo o que valia naquele planeta eram só maçãs; e mais maçãs. Ora, para quê tantas maçãs? Para quê? Particularmente intrigantes, esse seres. Particularmente intrigantes...
Mas como eram ignorantes e ambiciosos, aqueles seres lutavam incessantemente com seus pares pela aquisição destas frutas. Era um mundo de batalhas. Aqueles que eram capazes de conseguir o maior número de maçãs eram vistos como os mais bem sucedidos daquela sociedade. E como alguns colhiam milhares de maçãs por dia, outros acabavam ficando sem quaisquer maçãs para poderem sobreviver: não havia justiça! Assim, o luxo de alguns causava o perecer e a morte de outros. Todos sabiam disto, mas não havia ninguém que se dispusesse de suas maçãs tão preciosas em prol dos mais necessitados. É verdade que havia uma minoria dissidente a propor por ali uma divisão igualitária das maçãs para todos, de forma que ninguém tivesse mais ou menos maçãs do que necessitaria. Entretanto, aqueles que tinham um elevado número de maçãs eram os mesmos que governavam e controlavam todos os outros e, assim, estes não queriam abdicar de seus privilégios em prol da felicidade geral da nação. Talvez por ainda serem atrasados organismos biológicos, todos eram egoístas.
Acontecia também naquele planeta que aqueles que pertenciam à excluída classe dos sem-maçãs, realisticamente viam-se sem mais alternativas na vida e consideravam-se perdidos, já que alguém que não tivesse maçãs dificilmente poderia ser considerado como um indivíduo social. Estando portanto sem alternativas, alguns sem-maçãs resolveram por si mesmos que era justo retirar maçãs daqueles que as tinham em abundância. Ora, eles não estavam errados em querer sobreviver; ninguém está errado quando busca apenas sua própria sobrevivência! E como perceberam que os possuidores das maçãs não as entregariam voluntariamente para eles; ou, quando dariam, seriam apenas ínfimos pedaços que não matariam suas fomes, resolveram utilizar a força bruta para retirar as maçãs dos detentores delas. E então inventaram formas diversas de intimidação e coação para que pudessem retirar as maçãs daqueles que as tinham. De fato, não era incomum naquela sociedade o fato dos indivíduos chegarem ao absurdo ponto de tirarem as vidas uns dos outros -- oh, a vida, nosso maior bem -- apenas para obterem um maior número de maçãs. Ora, pensaria alguém, se aqueles que possuíam as maçãs doassem uma parte àquelas pessoas que delas necessitavam, os próprios doadores evitariam em ser agredidos violentamente para que lhes fossem usurpadas maçãs. Dessa forma, seria simples e óbvio a todos que os detentores das maçãs deveriam dividí-las com os sem-maçã, de forma que todos ficassem satisfeitos com sua cota frutífera mensal. Entretanto, ambiciosos que eram, os detentores das maçãs tomavam atitudes que iam exatamente na direção oposta àquela que leva o raciocínio lógico e o que faziam era justamente tirar ainda mais e com mais voracidade as maçãs daqueles que não as possuíam. E nesta completa desigualdade, o sistema avançava em direção a um colapso onde os sem-maçãs em breve começariam a atacar, cada vez com mais violência, aqueles que eram delas detentores. E então ficamos sem saber se eram mais dignos de pena aqueles que das maçãs necessitavam e que violentavam outros para conseguí-las ou aqueles que as tinham como seu mais precioso, intocável e estúpido bem.
Este mesmo povo chegou ainda a separar uma grande parte de território daquele planeta e a chamarem aquele terreno de "a grande nação das maçãs". Ali se concentrava, se produzia e se espalhava a todos os cantos a absurda idéia de que ter muitas maçãs era bom. Tudo era medido por maçãs e todos ali tinham muitas maçãs; todos estavam fortemente contaminados pela idéia de que ter maçãs era o grande ideal a ser alcançado. A capital daquele enorme estado era conhecida como "a grande maçã" e representava o mais perfeito espelho de toda aquela estranha sociedade e da dominação que uns exerciam sobre os outros dentro dela. Tanto era assim que foi ela a primeira a ser atacada quando os sem-maçãs começaram de fato a revoltar-se contra toda aquela enorme desigualdade.
Sei que é difícil acreditar que algo assim acontecia naquele planeta, mas a eterna luta entre os detentores das maçãs e os excluídos não era a única parte passível de crítica sobre a história daquele povo. Pior ainda era observar que eles se consideravam entre si através da quantidade de maçãs que possuíam e, devido a isto, podíamos ver pregado ao peito de cada um deles, um contador de maçãs. Este contador tinha como função apresentar e mostrar aos outros membros da sociedade, o número de maçãs que cada indivíduo gostaria de passar como possuidor. Assim, toda a vez que saia de casa, cada sujeito setava um número em seu mostrador que quisesse representar e mostrar aos outros sobre quantas maçãs possuía. Vale notar que este número de maçãs mostrado não precisava, necessariamente, estar diretamente relacionado ao que ele realmente possuía armazenado em seu quintal. Entretanto as pessoas se especializavam em distinguir se um indivíduo ostentava um número muito maior de maçãs do que aquele que ele realmente tinha e todos estavam sempre a tentar medir o quanto de maçãs as outras pessoas de fato possuíam. Atentava-se a todos os comportamentos alheios em busca de verificar o número real de maçãs que os outros indivíduos eram proprietários. Tudo passava por ter ou não maçãs suficientes. E baseadas nestes índices mostrados e possuídos, sempre associando um número alto de maçãs a uma pessoa melhor, aqueles seres escolhiam relacionamentos, amizades, ídolos. Parece desnecessário dizer que o número de maçãs estava totalmente desvinculado das boas características que temos como virtuosas em indivíduos do nosso mundo, como a solidariedade, carinho, amizade, inteligência, companheirismo, sabedoria, confiança, amor e respeito. De fato, a única característica tida com extremo virtuosismo naquela sociedade era mesmo a quantidade de maçãs que cada um possuía.
E como o maior valor social daqueles seres era o número de maçãs, eles costumavam associar a felicidade ao maior número delas que pudessem ter. Faziam contas e diziam: "quando chegar a ter tantas maçãs, serei feliz". Mas então chegavam a ter este número delas e continuavam a buscar ainda mais outras e outras, incessante e freneticamente. Estavam corrompidos pelo sistema e a busca pelas maçãs era o que movia aquela estranha sociedade. Jovens exuberantes e cheios de vida vendiam seus mais preciosos sonhos em troca de uma boa quantidade mensal de maçãs; algo que para nós seria visto com extrema tristeza. Via-se com bastante freqüência pessoas habilidosas, alegres e inteligentes deixarem de realizar as funções que lhes dariam mais prazer para fazer algo que lhes traria mais maçãs. Maçãs e mais maçãs, era o que a enorme maioria deles buscava. E se até os mais caros sonhos desses indivíduos podiam ser vendidos, o que dizer da ética e da moral que ali se acreditava existir? É claro que elas de nada valiam, pois que toda ética tinha como pano de fundo uma relação com as maçãs. Assim, a moral que valia era aquela que levaria a mais maçãs por parte dos governantes. Destruíam-se uns aos outros, estes estranhos seres; apenas para que uns pudessem ter mais maçãs que outros. E como sempre havia retaliação, a guerra jamais terminava.
Desculpo-me por estar aqui a reportar comportamentos tão infantis e estúpidos por parte desses seres, mas espero com este relatório ter cumprido uma parte do meu dever de relatar o comportamento deste povo. E ainda mais importante do que pelo puro -- e também interessante -- caráter descritivo sobre o conhecimento de uma nova sociedade, penso que o exemplo observado no planeta das maçãs de como a ambição por um tipo de bem pode destruir e contaminar uma sociedade deva ser observado com cautela e apreensão por todos nós. Não podemos deixar jamais que algo semelhante nos aconteça, pois está claro que todos ali são indivíduos problemáticos e neuróticos, sofrem aqueles que não teriam por que conhecer a infelicidade e a prisão social. É realmente triste. Justiça era palavra que mal se ouvia por ali e não havia qualquer preocupação em renovar o ambiente que utilizavam, caminhavam para um fim próximo. Tinham moral e ética completamente deturpadas pelo desejo de maçãs dos governantes e não havia qualquer tipo de solidariedade institucionalizada, de fato as pessoas pareciam desconhecer este conceito, pelo menos para alguém que tenha como padrão a nossa própria sociedade. Tudo o que valia naquele planeta eram só maçãs; e mais maçãs. Ora, para quê tantas maçãs? Para quê? Particularmente intrigantes, esse seres. Particularmente intrigantes...
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