Sonhos de um macaco
Antes de tudo é preciso dizer que sou um fracassado. Tento disfarçar. Ando pelas ruas com aquela cara que têm os homens de respeito, aqueles que se prezam, sabem seu valor. Mas não passaria por um exame minucioso. É que sou um idealista forte e sei que aqueles que têm ideais voadores, acabam por se frustrar facilmente. Quando mais longe se deseja ir, mais difícil e tortuosa é a viagem e mais amargo é o gosto de não conseguir terminá-la. Sonha-se acordado, fala-se sobre planos, planeja-se de fato a ordem de acontecimentos que irão se seguindo entre uma coisinha e outra, ponto a ponto, até que se chegue ao "grand finale" almejado. O idealista tem uma estranha mania de pegar as dificuldades possíveis e escondê-las todas dentro de uma sacola opaca, para que se possa esquecê-las e -- mais ainda -- para que não se possa vê-las. E assim o sonho continua, ao menos na teoria.
A vida, entretanto, não consiste apenas de teoria. A vida, de fato, não consiste de teoria, absolutamente. A teoria está na cabeça do macaco que olha para a vida. A teoria é o ideal do macaco nu. A vida é o viver. A vida é o dia-a-dia. É o acordar, tomar o café, trabalhar, almoçar, trabalhar mais um pouco, voltar para a casa, fazer qualquer coisa e então dormir. A vida é o relacionar com as pessoas e não saber como elas reagirão, é dizer X e ser entendido como Y. A vida é o que segura as idéias do macaco. Houve um dia em que um certo macaco pensou que poderia voar e, ao saltar de um edifício e se espatifar no chão, a vida mostrou a este e a outros macacos que não era deles o controle sobre todas as coisas. Mas os macacos pensam que podem controlar tudo e que podem moldar a realidade para que esta se comporte da maneira que estes pensam que ela deveria se comportar. Os macacos são muito ingênuos.
Falava sobre sonhos, deixe-me retomar o assunto. É que tive um sonho lindo, maravilhoso. Éramos ela e eu apenas, no mundo. Não, não éramos só nós dois. Mas era como se fosse. A gente se acordava com beijinhos e então tomávamos banho juntos. E quanto não estávamos na correria deste mundo louco moderno, fazíamos amor antes de sairmos de casa. Então íamos trabalhar. E o trabalho era pra gente uma coisa metafísica, algo estranho, um mero espaço que nos separava no tempo e nos fazia sentir saudades um do outro. Então nos reencontrávamos com alegria e jantávamos. Conversávamos sobre o dia, sobre as coisas e as idéias. Voltávamos pra casa e cada um ia fazer uma coisinha sua, própria. Eu provavelmente viria escrever, ela escutaria música ou conversaria com os amigos pela internet, talvez lesse um livro. E então, quando fôssemos dormir, deitaríamos e ficaríamos conversando mais e mais, tão interessante ela era. Conversaríamos sobre nosso amor até que a conversa se transformasse em beijos e carícias e estes, por sua vez, se materializassem no nosso amor. Pois que o amor da teoria e o amor da prática precisam se confundir e um precisa ajudar o outro, num ciclo de retroalimentação positiva, onde amor gera mais amor e mais amor. Até o infinito. Até o casamento e a casa e as viagens e as conversas e o crescer e o construir junto e o imaginar e os filhos e a casa de campo e os churrascos e os amigos e a cumplicidade e a vida toda e também a morte, que desta também não escaparemos.
Então, o teórico macaco monta os planos em sua cabeça e a vida chega para tomar lugar. E o macaco não entende quando os planos começam a dar errado, ele não entende porque as brigas e as discussões e um amor que não se entende na prática. O macaco é ingênuo, já havíamos chegado a esta conclusão. O macaco achou que fosse dar tudo certo, mas não deu tudo certo. O ciclo de retroalimentação tinha um furo e a ordem das coisas se invertia, o macaco ia ficando cada vez mais frustrado. Tentava não se abalar com as pedras que o mundo colocava no meio de seu caminho, mas eis que precisava desviar-se delas. E assim, o macaco ia se desviando de pedra por pedra, mantinha seu sonho enquanto cada vez mais pedras se acumulavam ao longo de seu caminho em busca do tal infinito a dois. O macaco então tomava conhecimento que os sonhos mais bonitos eram aqueles que sobreviviam a despeito do despertador que tentava acordá-lo. E o macaco seguia em direção a seu sonho, desviava das pedras e ignorava o despertador. Mas o macaco, que pena!, tinha seus limites.
É triste perceber quando se chega no limite, quando o sonho acaba. É difícil aceitar. O sonho, entretanto, não acaba de um dia para o outro. O sonho vai acabando aos poucos, lentamente. A cada dia há uma pedra nova que a gente se esforça para ultrapassar e seguir adiante. As pedras antigas também insistem em se colocar de novo em nosso caminho e talvez sejam mesmo estas as mais difíceis de serem ultrapassadas. Parece que as velhas pedras, quando voltam a interromper nosso caminho, voltam maiores, mais difíceis de serem transpostas. Em uma certa ocasião, o sonho do infinito a dois passa a ser comparado com outro sonho, um infinito mais particular e
individualista. Um infinito próprio. Então começa-se a comparar o sonho pedregoso com o infinito particular, desconhecido e utópico. Uma balança indesejável passa a ocupar o pensamento e quando se sente bem na ausência do outro e mal em sua presença, o problema vai se tornando mais concreto e um novo sonho vem concorrer com o antigo. O novo sonho chega viril, forte; ele ainda não encontrou suas pedras. Para ele é razoavelmente fácil competir com um sonho antigo já desgastado e não alimentado com o devido cuidado, desnutrido de fato.
Então o macaco, quanta ingenuidade!, rende-se ao novo sonho. E quando as novas pedras forem se acumulando, a indesejável balança voltará a ocupar seus pensamentos. Nesse momento, ele provavelmente desejará voltar a um sonho antigo e tentar ultrapassar, de uma vez por todas, mesmo as enormes pedras que já voltaram várias vezes durante a trajetória daquele sonho. (Mas haverá aquele medo de que essas pedras sempre voltem, cada vez maiores. E o medo do retorno da pedra estranhamente ajuda a fazer com que elas voltem mesmo. Seria preciso deixar de temer as pedras.) Assim, naquele momento em que o novo sonho se esgota, virá a balança onde o macaco novamente analisará seus vários sonhos simiescos, com tantas pedras. O macaco pensará então que deseja voltar a um sonho antigo em particular. Mas aí, muito provavelmente, já será tarde demais... e o macaco idealista será obrigado a voltar ao seu início, a mais uma vez se reconstruir, num eterno retorno, onde novamente irá se enganar ao pensar que a vida poderia ser um sonho. Poderá a vida ser um sonho?, perguntar-se-á, finalmente, aquele ingênuo macaco, condenado a uma vida de frustrações.
