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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

20.7.07

Sonhos de um macaco


Antes de tudo é preciso dizer que sou um fracassado. Tento disfarçar. Ando pelas ruas com aquela cara que têm os homens de respeito, aqueles que se prezam, sabem seu valor. Mas não passaria por um exame minucioso. É que sou um idealista forte e sei que aqueles que têm ideais voadores, acabam por se frustrar facilmente. Quando mais longe se deseja ir, mais difícil e tortuosa é a viagem e mais amargo é o gosto de não conseguir terminá-la. Sonha-se acordado, fala-se sobre planos, planeja-se de fato a ordem de acontecimentos que irão se seguindo entre uma coisinha e outra, ponto a ponto, até que se chegue ao "grand finale" almejado. O idealista tem uma estranha mania de pegar as dificuldades possíveis e escondê-las todas dentro de uma sacola opaca, para que se possa esquecê-las e -- mais ainda -- para que não se possa vê-las. E assim o sonho continua, ao menos na teoria.

A vida, entretanto, não consiste apenas de teoria. A vida, de fato, não consiste de teoria, absolutamente. A teoria está na cabeça do macaco que olha para a vida. A teoria é o ideal do macaco nu. A vida é o viver. A vida é o dia-a-dia. É o acordar, tomar o café, trabalhar, almoçar, trabalhar mais um pouco, voltar para a casa, fazer qualquer coisa e então dormir. A vida é o relacionar com as pessoas e não saber como elas reagirão, é dizer X e ser entendido como Y. A vida é o que segura as idéias do macaco. Houve um dia em que um certo macaco pensou que poderia voar e, ao saltar de um edifício e se espatifar no chão, a vida mostrou a este e a outros macacos que não era deles o controle sobre todas as coisas. Mas os macacos pensam que podem controlar tudo e que podem moldar a realidade para que esta se comporte da maneira que estes pensam que ela deveria se comportar. Os macacos são muito ingênuos.

Falava sobre sonhos, deixe-me retomar o assunto. É que tive um sonho lindo, maravilhoso. Éramos ela e eu apenas, no mundo. Não, não éramos só nós dois. Mas era como se fosse. A gente se acordava com beijinhos e então tomávamos banho juntos. E quanto não estávamos na correria deste mundo louco moderno, fazíamos amor antes de sairmos de casa. Então íamos trabalhar. E o trabalho era pra gente uma coisa metafísica, algo estranho, um mero espaço que nos separava no tempo e nos fazia sentir saudades um do outro. Então nos reencontrávamos com alegria e jantávamos. Conversávamos sobre o dia, sobre as coisas e as idéias. Voltávamos pra casa e cada um ia fazer uma coisinha sua, própria. Eu provavelmente viria escrever, ela escutaria música ou conversaria com os amigos pela internet, talvez lesse um livro. E então, quando fôssemos dormir, deitaríamos e ficaríamos conversando mais e mais, tão interessante ela era. Conversaríamos sobre nosso amor até que a conversa se transformasse em beijos e carícias e estes, por sua vez, se materializassem no nosso amor. Pois que o amor da teoria e o amor da prática precisam se confundir e um precisa ajudar o outro, num ciclo de retroalimentação positiva, onde amor gera mais amor e mais amor. Até o infinito. Até o casamento e a casa e as viagens e as conversas e o crescer e o construir junto e o imaginar e os filhos e a casa de campo e os churrascos e os amigos e a cumplicidade e a vida toda e também a morte, que desta também não escaparemos.

Então, o teórico macaco monta os planos em sua cabeça e a vida chega para tomar lugar. E o macaco não entende quando os planos começam a dar errado, ele não entende porque as brigas e as discussões e um amor que não se entende na prática. O macaco é ingênuo, já havíamos chegado a esta conclusão. O macaco achou que fosse dar tudo certo, mas não deu tudo certo. O ciclo de retroalimentação tinha um furo e a ordem das coisas se invertia, o macaco ia ficando cada vez mais frustrado. Tentava não se abalar com as pedras que o mundo colocava no meio de seu caminho, mas eis que precisava desviar-se delas. E assim, o macaco ia se desviando de pedra por pedra, mantinha seu sonho enquanto cada vez mais pedras se acumulavam ao longo de seu caminho em busca do tal infinito a dois. O macaco então tomava conhecimento que os sonhos mais bonitos eram aqueles que sobreviviam a despeito do despertador que tentava acordá-lo. E o macaco seguia em direção a seu sonho, desviava das pedras e ignorava o despertador. Mas o macaco, que pena!, tinha seus limites.

É triste perceber quando se chega no limite, quando o sonho acaba. É difícil aceitar. O sonho, entretanto, não acaba de um dia para o outro. O sonho vai acabando aos poucos, lentamente. A cada dia há uma pedra nova que a gente se esforça para ultrapassar e seguir adiante. As pedras antigas também insistem em se colocar de novo em nosso caminho e talvez sejam mesmo estas as mais difíceis de serem ultrapassadas. Parece que as velhas pedras, quando voltam a interromper nosso caminho, voltam maiores, mais difíceis de serem transpostas. Em uma certa ocasião, o sonho do infinito a dois passa a ser comparado com outro sonho, um infinito mais particular e
individualista. Um infinito próprio. Então começa-se a comparar o sonho pedregoso com o infinito particular, desconhecido e utópico. Uma balança indesejável passa a ocupar o pensamento e quando se sente bem na ausência do outro e mal em sua presença, o problema vai se tornando mais concreto e um novo sonho vem concorrer com o antigo. O novo sonho chega viril, forte; ele ainda não encontrou suas pedras. Para ele é razoavelmente fácil competir com um sonho antigo já desgastado e não alimentado com o devido cuidado, desnutrido de fato.

Então o macaco, quanta ingenuidade!, rende-se ao novo sonho. E quando as novas pedras forem se acumulando, a indesejável balança voltará a ocupar seus pensamentos. Nesse momento, ele provavelmente desejará voltar a um sonho antigo e tentar ultrapassar, de uma vez por todas, mesmo as enormes pedras que já voltaram várias vezes durante a trajetória daquele sonho. (Mas haverá aquele medo de que essas pedras sempre voltem, cada vez maiores. E o medo do retorno da pedra estranhamente ajuda a fazer com que elas voltem mesmo. Seria preciso deixar de temer as pedras.) Assim, naquele momento em que o novo sonho se esgota, virá a balança onde o macaco novamente analisará seus vários sonhos simiescos, com tantas pedras. O macaco pensará então que deseja voltar a um sonho antigo em particular. Mas aí, muito provavelmente, já será tarde demais... e o macaco idealista será obrigado a voltar ao seu início, a mais uma vez se reconstruir, num eterno retorno, onde novamente irá se enganar ao pensar que a vida poderia ser um sonho. Poderá a vida ser um sonho?, perguntar-se-á, finalmente, aquele ingênuo macaco, condenado a uma vida de frustrações.

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18.7.07

Despaixão

Nietzsche e Sartre numa casca de noz

O sujeito sem paixão chegou ali, olhou para as pessoas e fez seu discurso. Foi um discurso um tanto monótono, basicamente descritivo, pouco interpretativo. Falou sobre assuntos interessantes, cumpriu sua obrigação e respondeu as questões de uma maneira que se não teria sido a melhor, diriam alguns, tampouco havia sido a pior, diriam outros. Ele era apenas mais um, um número para o governo, uma insignificante parte das estatísticas do IBGE que saiam a cada ano, ano após ano. É que tantos já haviam feito aquilo e ele era apenas mais um a prover mais informações sobre toda esse irrelevância, ele diria, que é o conhecimento humano. Não só o conhecimento humano, como também a vida, a modernidade, as pessoas, essa sociedade, as guerras; nada fazia sentido. Mesmo o suicídio, pensara certa vez, não fazia nenhum sentido -- seria como trocar um nada por outro nada. Era isto para ele, a vida: um intervalo entre dois nadas, um vazio sem qualquer moral, sem juízos de valor, sem prós ou contras, sem positivo ou negativo. Ele era o próprio arauto nietzscheniano e os intelectuais diziam pelos corredores que provavelmente alguém como ele teria servido de inspiração para o filósofo alemão. Nietzsche teria se questionado sobre os valores da sociedade ao ter alguém como o Desapaixonado à sua volta. Ele seria um tipo de Sócrates pragmático, alguém que demonstrasse sua filosofia ao agir, não ao falar. O Desapaixonado seria o Sócrates para um Nietzsche que seria como Platão, acompanhando-o e observando-o. Ao contrário de Platão, entretanto, um Nietzsche surdo, porém observador, teria sido capaz de embasar suas filosofias em um suposto Desapaixonado que vivesse no século XIX e que demonstrasse através de ações seus contundentes questionamentos sobre aquelas coisas que as pessoas comuns costumavam associar ao conceito de "bom". Ao destruir os valores de sua platéia e também os valores imbuídos em seu próprio discurso, o Desapaixonado antiteticamente colocava em cheque todos os conceitos morais de um grupo social que deveria ser, supostamente, seu próprio grupo.

Em seu discurso, aquele que era transparente ao sentimento falava lenta e pausadamente, não demonstrando sequer gotas minúsculas de uma emoção talvez contida. Preferiu ser categórico, clássico, sequer colocou seus pontos de vistas e opiniões acerca do assunto de seu interesse, digo, desinteresse. Ali, durante sua exposição, o homem desapaixonado deixou transbordar para a platéia seu desapontamento, sua melancolia e sua indiferença com relação à tudo aquilo. Estava num estado letárgico onde as palavras saiam de si como num gravador de som monótono e cadência marcada, de uma forma que levasse seus ouvintes a um estágio alfa; era difícil concentrar em sua voz. Falava um português de tantos decibéis quanto os necessários: nem mesmo um a mais foi ouvido. Sua atitude nos levava para dentro de nós mesmos e acabávamos filosofando e deixando de lado todos aqueles gráficos e dados e resultados e figuras. A palestra do Desapaixonado trazia em nós também uma despaixão, uma letargia e um desgosto amoral quase inexplicável. Nada fazia sentido. Nada daquilo era interessante. Era tudo uma questão de continuar vivo, servir de alguma forma para a sociedade e também não se desesperar com o vazio da finitude e o despropósito de todas as coisas. Não se sentia nada. Não era para se sentir. Era apenas um impulso no sentido de continuar e ir levando a vida sem se estressar, sem pensar demais ou demenos, sem se preocupar ou despreocupar. Não sei exatamente sobre o quê o Desapaixonado falou, não entendi. Suas palavras não atingiram meus ouvidos daquela forma tradicional segundo a qual as palavras saem do interlocutor e alcançam o ouvido da platéia, gerando uma profusão de conexões entre conceitos que -- de uma forma impressionante -- permite que nos entendamos uns aos outros. As palavras ali, que me desculpe o linguista, não diziam muita coisa. A atitude era tudo, para o delírio dos pragmáticos. Uma atitude de desprezo, uma falta de conexão com o mundo, um autismo tão autêntico que chegava a dar um certo medo. O Desapaixonado vivia num mundo diferente das outras pessoas: estava, definitivamente, fora.

A despeito do irrelevante tema sobre o qual discursava, penso que o filósofo do agir deu, a todos que o assistiam, uma visão muito clara sobre como vivemos em um mundo fantasioso e irreal. Questionando aqueles valores, o Desapaixonado me fez lembrar o personagem sábio de Niezsche. Zaratustra dizia: "Quando vim para o lado dos homens, achei-os fortificados numa estranha presunção: todos julgavam saber há muito tempo o que é bem e mal para o homem". E quando mal havíamos digerido Nietzsche, o Desapaixonado nos alimentava com Sartre. Em sua exposição, ficava evidente como valorizamos uma determinada coisa apenas para que possamos viver bem, para que consigamos fugir da angústia de um mundo que não tem qualquer sentido. Ele evidenciou com muita eficácia como todo aquele circo idiota era apenas uma fuga sartreana e como nós -- aqueles que davam à qualidade do discurso um valor intrinsecamente ligado ao virtuosismo -- estávamos de fato nos enganando. A vida, ele parecia dizer ao descrever seus dados, não tem essa de bom ou ruim. Nada importa -- continuava falando através de preguiçosas ações --, toda moral é arbitrária, contingente, desvinculada de padrões platônicos ideais. Vocês estão todos se enganando, vocês são todos filhos de uma época, de uma corrente de pensamento que valoriza a produção, o acúmulo de conhecimento. Vocês são herdeiros de um ideal modernista que eu não corroboro, não acredito, que não diz nada para mim. Era esta a bomba filosófica que ressoava de sua voz monótona e de seus gestos tão lentos e calmos.

E eu que me pensava crítico desta sociedade, senti-me totalmente vinculado a esse padrão de qualidade do que é ser moderno, percebi como todos meus valores estavam de acordo com o que se vendia pelas ruas, nos cartazes capitalistas, neste estúpido ideal progressista e desenvolvimentista. Senti-me moralmente culpado pela doença de Gaia, percebi que aquilo a que eu sempre dera valor não deveria ter valor algum e que não tinha nenhum valor a mais do que qualquer outro tipo de filosofia que se quisesse seguir. Fui atingido com vigor pelo raio insípido da amoralidade, da incomensurabilidade entre formas alternativas de se viver. Ao ver a atitude do Desapaixonado entendi, mais claro do que nunca dantes, como eu deliberadamente adicionava qualidades morais positivas àquilo que me fazia mais feliz, corroborando o existencialismo sartreano com minha própria experiência de vida. E o Desapaixonado ali continuava, ali continuou e ali continua, dentro de minha memória. Falava, falou e fala algo que está muito além das palavras, realizando um discurso filosófico pragmático e ativo; não argumentativo. Um discurso tão forte que impressiona!, que nos causa aquele incômodo psicológico e filosófico. Algo que se fazia sentir na pele, um desprezo autista por todos aqueles valores sociais apresentados. Em sua exposição, o Desapaixonado desapaixonou alguns que sequer entenderam sua crítica e foi tachado de idiota por outros que não conseguiram questionar seus próprios valores. Penso que poucos ali tenham entendido, de fato, a mensagem que nem estou certo se o filósofo da ação comunicativa quis mesmo passar, mas que passou com total clareza às almas questionadoras.

E eu, que tenho problemas para ingerir comprimidos, fui obrigado a engolir duas enormes pílulas. Jamais tive uma melhor exposição de uma parte significativa das filosofias de Friedrich Nietzsche e Jean-Paul Sartre, filosofias essas que estavam totalmente incorporadas àquilo que o Desapaixonado chamava de viver. Continuo em processo de digestão desses pensamentos...

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9.7.07

Haverá alguma saída?

Um ensaio filosófico.

Nem sei mais sobre o que falo. Sei que as vezes me dá uma angustia por escrever. Aí venho aqui e escrevo. Escrevo e não mais leio. Antes eu me lia mais, hoje não. Chego, escrevo, publico ou não publico e depois vou cuidar da vida. Se me perguntarem no dia seguinte, nem saberei mais dizer sobre o que escrevi. Isso no caso destas crônicas, que terminam por se identificarem como completos desabafos morais, sociais, pessoais. Tenho menos apego e cuidado pelo que escrevo e, se por um lado isso torna estas palavras mais originais, por outro me desviam de qualquer linha argumentativa ou literária que antes eu devesse seguir. Olho para trás e vejo como uma preocupação idiota o fato de querer escrever algumas vezes crônicas, outras contos. Preocupava-me diretamente com isso e ao sentar-me para escrever um determinado assunto, planejava especificamente tratá-lo como uma crônica ou um conto. Quanta irrelevância! Fases de muitas crônicas pediam contos, fases de muitos contos pediam crônicas, de forma a manter estável o fiel de uma balança que, de uma certa forma, reprimia a expressão do meu self literário. Ando mais filosófico.

De alguns tempos pra cá, desde que compreendi a argumentação de muitos dos filósofos antigos ou contemporâneos, deparei-me com um tipo inusitado de abismo. Não estou certo se o que me refiro é mesmo um abismo, deixe-me explicar melhor: quando mais jovem, eu acreditava narcisiticamente que tinha filosofias super-idealistas para produzir uma sociedade ótima, justa, bem educada, quase perfeita. E esse meu ideal de promover meu próprio ideal me alavancava e me jogava cada vez mais para frente, eu sentia mesmo um tipo de dever sobre escrever minhas idéias para o bem da sociedade, de uma sociedade futura que seria uma sociedade que beiraria a perfeição. Eu era, simplesmente, um otimista ingênuo. E então comecei, finalmente, a ler e entender os filósofos. É que ler um filósofo é uma coisa, entendê-lo, é outra. Penso em quantas pessoas leêm e leêm sem nada entenderem, leêm e leêm sem nada entenderem, leêm e leêm sem nada entenderem. Eu mesmo já fiz isso muito. Mas a partir de uma certa hora, passa-se a entender. E entende-se, acredito, quando decide-se entender, quando não se aceita passar de uma página, um parágrafo, uma frase sequer, sem que esta tenha sido completamente compreendida. Certas obras de certos filósofos são quase impossíveis de serem entendidas à primeira leitura ou por uma leitura ligeiramente desatenta. Já fiquei por mais de uma hora tentando apreender uma única página de uma obra filosófica; já fiquei mais tempo ainda filosofando sobre algo que tenha lido imediatamente antes. O segredo do conhecimento é não se permitir não-entender. Todos os humanos são racionais, todos os humanos têm uma mente preparada para reagir a certos estímulos, todos os os humanos de uma certa época têm determinados valores em comum, conceitos, formas de transformar o mundo em palavras. Não se pode aceitar que outra pessoa diga algo que não entendamos. É preciso que entendamos e o entendimento gera entendimento, num ciclo virtuoso de aumento compreensivo. Não aceitar não entender e perder horas em uma única página é saudável e, uma vez entendido um argumento, ele está entendido para sempre -- ou até que outro contra-argumento ou visão concorrente chegue para impor seu próprio lugar, egoisticamente. Memes também são egoístas. Talvez eu exagere ao dizer que devemos entender tudo; realmente parece que os sistemas cognitivos e conceituais que formamos podem ser diferentes dos sistemas cognitivos e consensuais do escritor, nossas gramáticas podem ser particularmente diferentes em determinados conceitos; mas jamais serão incoerentes em uma grande parcela -- ao menos entre os humanos --, e assim, sempre seremos capazes de entender algo que utilize conceitos que já incorporamos ao nosso sistema linguístico, incorporando aí tanto nossa capacidade biológica e cognitiva, quanto toda a história das idéias dos homens.

Conto ou crônica, não importa. A reflexão que está anterior ao formato de sua exposição é, de fato, o ponto chave da questão. Lembro agora de um livro de Rubem Alves, um livro de crônicas, pequeno, que não vou agora me lembrar o nome e nem mesmo me dar ao trabalho de procurá-lo. Basta dizer que é um livro que contém cerca de dez textos, todos escritos com uma enorme sensibilidade e um fino trato: todos sobre o mesmo assunto, tratado de forma ligeiramente diferente. Imagino agora que talvez Alves já tivesse se apercebido disso, da maior importância do conteúdo sobre a forma, ou mesmo sobre o fato de que um mesmo conteúdo pode agradar mais pessoas do que uma mesma forma. Assim, mascara-se com a forma uma determinada temática exultante, de forma que se possa fazer compreendido por todos; e certamente haverão aqueles que gostarão mais de um ou outro ensaio, todos iguais em um sentido mais amplo. Quando eu tiver algo realmente interessante para contar, talvez tente dar multiplicidade às formas de um pensamento para me fazer entender -- ou sentir, como é o caso da crônica poética alvesiana -- com maior precisão.

Filósofos deveriam fazer isso, uma vez que seus textos, por vezes muito densos, poderiam ser melhor explicados caso se falasse a mesma coisa, de outras formas. Tenho a impressão, entretanto, que mal sabem os filósofos do que falam, quando falam. A filosofia é um tipo de escrita racional mal acabada. Por explorar caminhos nunca dantes seguidos, a boa filosofia é frequentemente mal polida, um extrato bruto intelectual que é entendida apenas parcialmente, mesmo pelo seu próprio escritor e artífice; e Kuhn sugere que os Principia de Newton tenha um quê de inocente naquilo que ele refere como uma "aventura inicial" sobre um novo terreno filosófico. Filosofar é isso, filosofar é escrever idéias boas que precisem ser ainda melhor lapidadas, escritas de outras formas, por outras pessoas, incorporadas bem lentamente ao enorme conjunto do saber humano. Filosofar é questionar sempre o conhecimento alheio -- de qualquer um --, é tentar entender o que não se entende, é criar novos (ou destruir antigos) mecanismos conceituais para ligar pontos antes distantes no mapa de interações entre as palavras que todos temos em nossas cabeças e o mundo exterior -- real ou irreal. Aprende-se, então, a filosofar. E filosofar é uma coisa maravilhosa, fascinante, perfeita. Mas a filosofia só nos permitirá resolver o problema do mundo futuro, não o presente.

Quando entendi, portanto, os filósofos, tornei-me pessimista. Eles já haviam dito tudo que seria para se dizer. Já haviam falado sobre igualdade, liberdade e fraternidade, já falavam sobre justiça, sobre conhecimento, sobre como transformar esta estúpida sociedade em um lugar melhor. Espantei-me ao saber que todos já sabiam -- ao lerem os filósofos -- onde mexer na estrutura social para gerar um bem estar geral para todos. Na teoria, poderíamos viver no melhor dos mundos que conseguíssemos conceber. A questão então emerge de seu leito filosófico e transcende para nossa vida cotidiana: o que fazer, de fato -- ação, meu amigo --, para melhor o mundo? A filosofia sem o pragmatismo, sem ser colocada para valer, não pode valer muita coisa. Ou melhor, a utilização dos melhores conceitos filosóficos para mudarmos o mundo pode engrandecer enormemente a motivação do filósofo e a função social da filosofia. Mas qual filosofia, seria a questão, utilizaríamos como guia para nossa tomada de decisão com relação ao mundo? Filosofaremos supostamente com Cristo, como tem sido feito nos últimos dois mil anos? Parece que não tem dado muito certo, mesmo o otimista não diria que o mundo anda bem das pernas e -- ainda pior -- o prognóstico sobre a saúde de Gaia não é dos melhores.

Infelizmente ainda não sou capaz de propor uma saída filosófica triunfal que nos permita passar da ideologia para a sociologia e desta para um mundo melhor. Provavelmente não serei capaz, jamais, de prover qualquer tipo de resposta com relação a todos estes problemas que assolam nossa sociedade. Mas também não desistirei de procurar a resposta dentro dos arquivos secretos de minha mente. O modernismo provavelmente chegou ao seu ápice, o desenvolvimentismo está por nos destruir, Malthus tinha razão e, como se não bastasse, o monetarismo tem a espada no pescoço do humanismo. Haverá alguma saída?

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