In nocere
A cada dia que passava, sentia-se mais afastado dos outros seres humanos. Falo do personagem deste conto. Há tempos, agora já remotos, havia sido completamente adaptado ao mundo em que vivia e à sua contemporaneidade. Mas era este apenas um revés da juventude, alimentado pela ignorância. É que não se nasce sabendo, embora em certa altura do campeonato esta não seja mais uma desculpa aceitável. Não aceitou esta desculpa. Procurou sempre apreender conhecimento de uma forma crítica e utilizar este aprendizado para questionar os valores tidos como verdadeiros. Em sua opinião, era isso que deveria acontecer ao longo da vida do homem, transformar-se em um receptáculo de conhecimento e alcançar a figura de um sábio, tarde da vida. Acomodar-se seria para ele pior do que a morte. Olhava hoje para trás e via o quanto havia mudado. Estava incerto sobre a virtude de ser agora uma outra pessoa a olhar para trás e para os outros e vê-los assim tão ignóbeis, tão ligados aos instintos de guerra, tão ligados sobre futilidades de uns e de outros, todos tão despreocupados das razões sociais, ambientais, intelectuais. Eram todos a levar o mundo para o buraco: um buraco que ia se enchendo cada vez mais com a alma dos outros seres vivos, humanos inclusive, que ali eram jogados para que outros não menos parvos pudessem subir e subir. Por que subir era bom?, questionava. Não sabia haver onde chegar, num suposto cume de virtude máxima. Não se alcançaria ponto algum, apenas ter esta idéia de um lugar fixo a se alcançar já lhe dava náuseas. Esqueciam tudo à sua volta, aqueles seus contemporâneos, e continuavam subindo de forma arriscada, despreocupada, irresponsável e excessivamente veloz. Subindo para um lugar que estava na mesma altitude que todos os outros. O íngreme de suas montanhas era falso e platônico; só era mesmo íngreme se visto daquele ângulo obtuso que insistiam em enxergar. Em algum momento veriam eles que teriam ido longe demais, rápido demais, sem pensar nas conseqüências daquela pseudo-escalada. Mas só veriam isso quando tudo começasse a ruir; nesse instante eles então cairiam daquele cume que não alcançaram; espatifar-se-iam no chão e, deles, nada sobraria. Aqueles que morro acima se dirigiam sem qualquer precaução queriam apenas subir, de fato. Nada mais os preocupava, eram tão cegos quanto Smeagol para com o anel. Era a busca pelo poder. E então não se incomodavam em jogar pedras aos que vinham de baixo -- muitos faziam-no até propositadamente, dada uma ignorância moral estupenda -- e também não ligavam em destruir suas falsas-montanhas ao longo de sua escalada; até um cume vazio e supostamente precioso que jamais alcançariam. Subiam rápida e vorazmente, despreocupados de tudo, exceto de alcançar um lugar mais alto e mais alto: daquele ângulo. Sabiam que haviam outros seres em posições mais elevadas que eles próprios e fazia parte de seus objetivos pessoais alcançá-los e ultrapassá-los, tal qual estivessem em uma corrida para chegar a um cume do que lhes representava o poder. Mas sempre haveriam outros, disso se esqueciam, ainda em posições pseudo-superiores às suas, de forma que seriam sempre infelizes e frustrados ao tentar chegar aonde não poderiam. Subir a todo o custo, passando por pessoas e destruindo os obstáculos, era aquele o objetivo da modernidade.
Nosso personagem vira em tudo isso, ainda que tardiamente, uma falta de inteligência e sensibilidade. Seu objetivo era apenas o de parar em algum andar daquela extensa e não muito recortada planície que achasse agradável e ali se manter. Às pessoas que à sua volta passassem, tentaria ajudá-las e à montanha, tentaria não destruir. Talvez algumas vezes se cansasse daquele lugar e tentassem seguir mais um pouco, posto que a inércia dos físicos não era para ele qualquer virtude. Apenas o fato de ajudar os que por ali se aventurassem e não destruir seu derredor já lhe dava sensação de bem-estar. Um bem-estar egoísta e também moral, lembrava-lhe Dawkins em sussurros; um bem-estar apenas, ponto final. Meditar e respirar o ar puro eram suas principais atividades. Aos que passavam, dizia-lhes que também assim tentassem se comportar e durante a prosa que se configurava, por vezes era capaz de perceber as pessoas que eram ou não como ele. Percebia o quanto tinham desse mesmo sentimento de indignação e crítica, de respeito pelos seus iguais e pela natureza. Os mais sensíveis e inteligentes, segundo seu próprio conceito, conseguiam sim entendê-lo. Com ele concordavam e passavam também aquele ideal para frente. Estes de maior sensibilidade por vezes se instalavam ali com ele de forma a trocar as mais diversas experiências em intermináveis palestras. Nosso herói descrever-se-ia como um receptáculo do conhecimento, pois que a tudo lhe interessava e tudo queria absorver de uma forma racional e crítica. Pudesse, teria vivido a vida de todos para entender o que com eles se passava e como interpretavam a magnífica absurdidade de estarem vivos. Queria conseguir entender porque alguns desrepeitavam outros, sendo que o mundo seria tão melhor se todos se respeitassem mutuamente. Era este um dos mistérios da vida e da humanidade. Não se dizia dos homens que possuíam a capacidade da razão? E então apreendia mais sobre a visão de mundo daqueles que com ele decidiam deixar-se estar por algum tempo. Mas então também eles passavam, posto que a vida de cada de um tinha um ritmo e uma direção próprias e que era mesmo muito difícil afinar esses pontos para que duas ou mais almas forrageassem em conjunto e em comunhão o ambiente Pensamentos também passavam, correntes filosóficas que às vezes compreendia e era pleno adepto, chegando a explicar com clareza racional o porquê de sua adesão; então noutro dia a meditar encontrava-lhe uma falha incorrigível; e passava para outra; até que desta também vislumbrasse seu o ponto fraco; às vezes, então, voltava à anterior; noutras ocasiões, passava a uma terceira e quarta e quinta; aumentava sua velocidade psíquica, acelerado era seu mundo 3 particular.
E permanecia por ali a vagar ao longo da planície a procurar cavernas, que são os lares dos humanos e dos sábios; repudiava os palácios tal qual a menina má àquele personagem. A vagar sem regra seguia, explorando cada vez novos lugares e passando tantos tempos nele até que os entendesse de uma forma que considerasse satisfatória. Nesses instantes, decidia mudar-se e zarpava mais uma vez em busca de aventura. Tinha também um lar mais fixo ao qual voltava esporadicamente e encontrava aquilo que poderia chamar da essência mais pura de seu ser. E então fazia as pazes com su'alma. Mas não gostava de ficar por muito tempo ali, posto que o aprendizado filosófico-social que buscava não se fazia tão grande quanto em outros lugares inóspitos. Em seu epicentro cultural, entendia bem as arbitrárias regras que regiam o ambiente e o estranho comportamento dos seres. Alhures, outras eram as regras e entender a contingência delas fazia com que, ao mundo, entendesse melhor. E então passou toda sua vida indo daqui pra lá e voltando para se encontrar. Entendeu muitas coisas e para um ainda maior número de eventos deixou de buscar explicações. Andou e andou, conheceu e conheceu, viveu e viveu. E viveu.
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