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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

25.8.07

In nocere


A cada dia que passava, sentia-se mais afastado dos outros seres humanos. Falo do personagem deste conto. Há tempos, agora já remotos, havia sido completamente adaptado ao mundo em que vivia e à sua contemporaneidade. Mas era este apenas um revés da juventude, alimentado pela ignorância. É que não se nasce sabendo, embora em certa altura do campeonato esta não seja mais uma desculpa aceitável. Não aceitou esta desculpa. Procurou sempre apreender conhecimento de uma forma crítica e utilizar este aprendizado para questionar os valores tidos como verdadeiros. Em sua opinião, era isso que deveria acontecer ao longo da vida do homem, transformar-se em um receptáculo de conhecimento e alcançar a figura de um sábio, tarde da vida. Acomodar-se seria para ele pior do que a morte. Olhava hoje para trás e via o quanto havia mudado. Estava incerto sobre a virtude de ser agora uma outra pessoa a olhar para trás e para os outros e vê-los assim tão ignóbeis, tão ligados aos instintos de guerra, tão ligados sobre futilidades de uns e de outros, todos tão despreocupados das razões sociais, ambientais, intelectuais. Eram todos a levar o mundo para o buraco: um buraco que ia se enchendo cada vez mais com a alma dos outros seres vivos, humanos inclusive, que ali eram jogados para que outros não menos parvos pudessem subir e subir. Por que subir era bom?, questionava. Não sabia haver onde chegar, num suposto cume de virtude máxima. Não se alcançaria ponto algum, apenas ter esta idéia de um lugar fixo a se alcançar já lhe dava náuseas. Esqueciam tudo à sua volta, aqueles seus contemporâneos, e continuavam subindo de forma arriscada, despreocupada, irresponsável e excessivamente veloz. Subindo para um lugar que estava na mesma altitude que todos os outros. O íngreme de suas montanhas era falso e platônico; só era mesmo íngreme se visto daquele ângulo obtuso que insistiam em enxergar. Em algum momento veriam eles que teriam ido longe demais, rápido demais, sem pensar nas conseqüências daquela pseudo-escalada. Mas só veriam isso quando tudo começasse a ruir; nesse instante eles então cairiam daquele cume que não alcançaram; espatifar-se-iam no chão e, deles, nada sobraria. Aqueles que morro acima se dirigiam sem qualquer precaução queriam apenas subir, de fato. Nada mais os preocupava, eram tão cegos quanto Smeagol para com o anel. Era a busca pelo poder. E então não se incomodavam em jogar pedras aos que vinham de baixo -- muitos faziam-no até propositadamente, dada uma ignorância moral estupenda -- e também não ligavam em destruir suas falsas-montanhas ao longo de sua escalada; até um cume vazio e supostamente precioso que jamais alcançariam. Subiam rápida e vorazmente, despreocupados de tudo, exceto de alcançar um lugar mais alto e mais alto: daquele ângulo. Sabiam que haviam outros seres em posições mais elevadas que eles próprios e fazia parte de seus objetivos pessoais alcançá-los e ultrapassá-los, tal qual estivessem em uma corrida para chegar a um cume do que lhes representava o poder. Mas sempre haveriam outros, disso se esqueciam, ainda em posições pseudo-superiores às suas, de forma que seriam sempre infelizes e frustrados ao tentar chegar aonde não poderiam. Subir a todo o custo, passando por pessoas e destruindo os obstáculos, era aquele o objetivo da modernidade.

Nosso personagem vira em tudo isso, ainda que tardiamente, uma falta de inteligência e sensibilidade. Seu objetivo era apenas o de parar em algum andar daquela extensa e não muito recortada planície que achasse agradável e ali se manter. Às pessoas que à sua volta passassem, tentaria ajudá-las e à montanha, tentaria não destruir. Talvez algumas vezes se cansasse daquele lugar e tentassem seguir mais um pouco, posto que a inércia dos físicos não era para ele qualquer virtude. Apenas o fato de ajudar os que por ali se aventurassem e não destruir seu derredor já lhe dava sensação de bem-estar. Um bem-estar egoísta e também moral, lembrava-lhe Dawkins em sussurros; um bem-estar apenas, ponto final. Meditar e respirar o ar puro eram suas principais atividades. Aos que passavam, dizia-lhes que também assim tentassem se comportar e durante a prosa que se configurava, por vezes era capaz de perceber as pessoas que eram ou não como ele. Percebia o quanto tinham desse mesmo sentimento de indignação e crítica, de respeito pelos seus iguais e pela natureza. Os mais sensíveis e inteligentes, segundo seu próprio conceito, conseguiam sim entendê-lo. Com ele concordavam e passavam também aquele ideal para frente. Estes de maior sensibilidade por vezes se instalavam ali com ele de forma a trocar as mais diversas experiências em intermináveis palestras. Nosso herói descrever-se-ia como um receptáculo do conhecimento, pois que a tudo lhe interessava e tudo queria absorver de uma forma racional e crítica. Pudesse, teria vivido a vida de todos para entender o que com eles se passava e como interpretavam a magnífica absurdidade de estarem vivos. Queria conseguir entender porque alguns desrepeitavam outros, sendo que o mundo seria tão melhor se todos se respeitassem mutuamente. Era este um dos mistérios da vida e da humanidade. Não se dizia dos homens que possuíam a capacidade da razão? E então apreendia mais sobre a visão de mundo daqueles que com ele decidiam deixar-se estar por algum tempo. Mas então também eles passavam, posto que a vida de cada de um tinha um ritmo e uma direção próprias e que era mesmo muito difícil afinar esses pontos para que duas ou mais almas forrageassem em conjunto e em comunhão o ambiente Pensamentos também passavam, correntes filosóficas que às vezes compreendia e era pleno adepto, chegando a explicar com clareza racional o porquê de sua adesão; então noutro dia a meditar encontrava-lhe uma falha incorrigível; e passava para outra; até que desta também vislumbrasse seu o ponto fraco; às vezes, então, voltava à anterior; noutras ocasiões, passava a uma terceira e quarta e quinta; aumentava sua velocidade psíquica, acelerado era seu mundo 3 particular.

E permanecia por ali a vagar ao longo da planície a procurar cavernas, que são os lares dos humanos e dos sábios; repudiava os palácios tal qual a menina má àquele personagem. A vagar sem regra seguia, explorando cada vez novos lugares e passando tantos tempos nele até que os entendesse de uma forma que considerasse satisfatória. Nesses instantes, decidia mudar-se e zarpava mais uma vez em busca de aventura. Tinha também um lar mais fixo ao qual voltava esporadicamente e encontrava aquilo que poderia chamar da essência mais pura de seu ser. E então fazia as pazes com su'alma. Mas não gostava de ficar por muito tempo ali, posto que o aprendizado filosófico-social que buscava não se fazia tão grande quanto em outros lugares inóspitos. Em seu epicentro cultural, entendia bem as arbitrárias regras que regiam o ambiente e o estranho comportamento dos seres. Alhures, outras eram as regras e entender a contingência delas fazia com que, ao mundo, entendesse melhor. E então passou toda sua vida indo daqui pra lá e voltando para se encontrar. Entendeu muitas coisas e para um ainda maior número de eventos deixou de buscar explicações. Andou e andou, conheceu e conheceu, viveu e viveu. E viveu.

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21.8.07

A mulher que cansou da beleza


Marina era uma mulher que sempre fora linda, maravilhosa.

Um dia cansou de sua beleza, da falsidade dos homens para consigo, cansou de olhar para o espelho e ver apenas uma luz radiante, brilho de esplendor. Ela descobriu-se mais do que a carne, mais do que forma: era também uma pessoa. Ora, mas que pessoa era ela? Nem mesmo se conhecia, afora a casca. Quanto ela se auto-estimava? Quanto o mundo girava em torno de si mesmo devido ao seu deslumbre? Quanto do que tinha era seu mérito como pessoa e quanto era o mérito daquela crosta de beleza que a envolvia? Pensou-se uma qualquer e a sua estupenda graça física passou a incomodá-la constante e vigorosamente, tal qual uma contínua dor de cabeça, uma dor na cabeça; forte e eterna. Não mais sabia qual era a sua essência, seu verdadeiro eu, sua natureza íntima. Exterior e substância. Quem era ela?

Revoltou-se, Marina. Depois de algum tempo convivendo com tenaz repulsa de si mesmo, decidiu-se por realizar uma plástica: aumentou o nariz e diminuiu, excessivamente, os seios. Reverteu seus valores.

Marina deixou de se arrumar tanto e tornou-se um tanto quanto malamanhada, segundo os padrões estéticos da classe com a qual convivia e da qual houvera sido rainha. Ora, que bobagem, que reinado era aquele? De forma que era outra, agora. Mal era reconhecida pelos seus antigos amigos e, quando o era, muitos fingiam não conhecê-la mais. E desde então passou a ter como amigos apenas aqueles que de fato a consideravam como uma pessoa interessante, não como uma casca de beleza resplandescente; valor transitório que nada dizia sobre o que dela era realmente belo: o íntimo.

Mudara por fora mas, à exceção de alguns valores que já vinha trocando ao longo do tempo, era essencialmente a mesma por dentro. Em sua nova vida de plebéia teve surpresas pelos dois lados: por um, pessoas que achava que teriam com ela preconceito, dada sua nova forma, trataram-na bem e com preocupação -- afinal, haviam pessoas interessantes no mundo. Por outro, caso mais comum, pessoas que ela acreditava que a tinham em alta consideração, inclusive algumas de suas melhores amigas com as quais já havia trocado as mais profundas confidências, tratavam-na agora com desdém. Ruiram ali suas falsas amizades, mostrando que a consideração que lhe tinham provinha de cunho apenas estético.

Enfim, seu auto-experimento, embora alguns pudessem achar radical, foi bem sucedido. Era esta sua conclusão. Conheceu melhor as pessoas que a consideravam e, de uma certa forma, interessou-se também mais pelos aspectos psicológicos da vida dos outros. Ultrapassava agora, e com freqüência, aquela linha imaginária que representa o que se pode perguntar sobre outras pessoas em círculos sociais; conheceu com mais profundidade o drama do ser humano e daqueles que viviam à sua volta. Integrou-se mais profundamente à mentalidade social de sua época. Fez mais amigos daqueles de verdade e menos daqueles de fantasia. E dos sociopatas da estética passou a ter um profundo asco, que jamais a deixou.

Era mais feliz em seu novo corpo, Marina. Não deixou de ter seus dramas, entretanto. E às vezes, deitada em sua cama à noite, pensava que houvesse talvez exagerado. Nesses momentos ela acordava e, com aquela angústia característica da pós-modernidade, ligava para seus amigos mesmo no meio da noite; e depois de uma boa conversa com alguém que sabia lhe ter no coração, dormia como um anjo.



Considerações finais do autor (depois de alguns dias): finalmente, achei esse texto um tanto quanto de mau gosto, cheguei a despublicá-lo e publiquei-o novamente. Vou deixá-lo aí. Entretanto, se o escrevesse novamente -- coisa que não faz muito sentido -- teria feito a mulher rica (ao invés de bela) e tendo doado todo o seu dinheiro (ao invés da plástica de feiura). Pois que a estética da riqueza e daqueles que vivem num meio de superficialidade aristocrática das relações humanas, ou seja, daqueles que convivem com pessoas não pelo que são, mas por atributos facilmente quantificáveis, é do mesmo tipo que a estética pura, da beleza. Além do mais, seria sido mais adequado perder o dinheiro do que estragar deliberadamente o próprio corpo. Entretanto, isso dá um ar de absurdidade ao conto que me agrada, embora às vezes me dê um certo asco. Bem, acho que é isso mesmo.

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17.8.07

Sobre o que restou daquela carta


Certa vez escrevi-lhe uma carta. Não! Não era uma carta. Era, de fato, uma proposta redigida. Que fique sendo então uma carta-proposta. O nome que se dê àquilo não é mesmo importante. Convidava-lhe no tal documento escrito por meus próprios punhos -- coisa que jamais faço, dado a facilidade e agilidade com que meus dedos se desenham no teclado dessas máquinas -- que saíssemos do tempo, que esquecêssemos o mundo, as pessoas, as histórias, toda aquela cadeia de eventos casuais que foram acontecendo ao longo de nossas vidas e que tornaram nosso amor impossível. Sugeria a ela uma pequena viagem, onde iríamos para viver apenas o presente, para sermos um do outro, para nos entregarmos com força àquele sentimento recíproco que sabíamos existente e que nos jogava mutuamente para direção onde o outro se encontrava, tal qual uma força física dessas que se mede com aparelhos e que se calcula na ponta dos lápis ou com o auxílio de desenvolvidos programas de computador. Ela estava para viajar para tão longe e por tanto tempo que nossa relação, de qualquer forma, jamais seria a mesma. E, considerando que sua viagem era inevitável e que também inevitável era a nossa separação, que pelo menos vivêssemos por alguns míseros dias, horas, minutos -- o que quer que ela quisesse e se dispusesse -- aquilo que deveríamos ter vivido por uma vida toda.

Outro dia encontrei, perdida em meio a outros velhos papéis, a tal da carta. Reli-a como quem lê pela primeira vez um texto. Mal lembrava de tê-la escrito, reminiscências daquilo que jamais aconteceu entre nós vieram à minha mente: despossibilidades. Era uma carta tão densa sentimentalmente, tão romântica de um certo ponto de vista e cafajeste de outro, que não soube bem o que pensar. Expunha de tal forma explícita as sentimentalidades de duas almas que os conservadores que atuam ali pela zaga certamente teriam-na taxado de imoral quando, na verdade, imoral mesmo teria sido não tê-la escrito e ter impedido de jorrar aquela profusão de sentimentos que me incendiava à espera de sua partida. Ao mesmo tempo, entretanto, era uma carta assim tão verdadeira e sincera, tão bonita e utópica, tão característica de um mundo ideal no qual não vivemos, tão despida dessa moral católica do casamento para sempre, do "vamos ter apenas um parceiro na vida", tão viva, tão bem argumentada, tão inteligente, esperançosa, gostosa, lírica, objetiva. Naquele momento em que tinha às mãos a carta e a relia, entendia-me melhor, conseguia enxergar minha própria moral, o desprezo por aquilo que dizem certo, o sonho que tenho de que todos vivam o que tiverem que viver, que deixem das amarras sociais, que sigam seus mais puros instintos. Enfim, que se joguem pelo mundo.

Auto-compreensão foi a primeira coisa que me veio. Logo a seguir senti que aquele pequeno documento expressava de forma tão bem aquilo que eu era e resumia de forma tão explícita meu ser, que tive vergonha de mostrá-la a qualquer pessoa. Quenquer que lesse aquela carta estaria vendo-me mais do que despido, veria as profundezas psicológicas de minh'alma. E de súbito, senti então uma vergonha. Agora penso: estúpida vergonha (!), qual seria o problema se me vissem despido sentimentalmente? Pois se é assim que sou, é assim que devo ser. A expressão mais pura de um ser humano estava ali apontada. É isso o que penso agora. Naquele instante, entretanto, ter-me visto pelado dos sentimentos causou-me vergonha e num átimo não-racionalizado terminei por rasgar em pedaços substantivos e emoções e verbos e sentimentos e preposições e esperanças e adjetivos e tudo o mais que tinha ali para ser despedaçado. Ao destruir aquela carta, vejo agora que morri um pouco.

(...)

Ela nunca me deu a oportunidade de entregar-lhe aquelas palavras, de dizer-lhe o que gostaria de tê-la dito, de desafogar da garganta aquele sentimento preso; quase a explodir. Ela é muito complicada. As mulheres são muito complicadas. Morais e valores tão arraigados, presos. Posso estar generalizando indevidamente também, culpa do tal método indutivo que usamos a torto e a direito. Peço desculpas àquelas que não são assim. No caso dela, entretanto, creio que jamais teria aceitado a proposta. Talvez achasse que eu queria apenas fodê-la, essas coisas idiotas que as mulheres pensam dos homens neste nosso mundo machista e apoético. O mundo é simples, meus amigos. A vida é simples. Eu queria apenas amá-la e, se não havíamos dado certo no mundo real, sugeria um mundo fictício, articialmente criado para tal, onde seríamos apenas nós dois. Dois amantes. Nós dois e só. Fora do mundo, do tempo, da sociedade. Apenas amor. Apenas amar...

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1.8.07

Inquietude

Sou do tipo inquieto. E se dizem alguns que é preciso ter mesmo uma tal inquietação para que se evite cair naquele canto inerte onde se alojam os medíocres, o constante formigamento mental é algo que enche o inquieto -- aqui falo genericamente -- de uma angústia regada de insatisfação. Ora, para quê isso? Fico me perguntando e perguntando. Não encontrei resposta alguma, entretanto. Assim, tenho uma inquietude quadrática, posto que é uma inquietude pela inquietude. O medo que às vezes me aflige é o de acumular outras potências matemáticas deste incômodo sentimento e um dia ser me auto-diagnosticar louco. Pois que problemas psicológicos e/ou mentais todos têm e estes só se tornam mesmo incômodos quando tomamos consciência deles e os rotulamos em nós mesmos com uma fita reluzente que diz: há aqui algo de errado. Prega-se a tal da fita em si mesmo. Tanto é esta uma verdade que nenhuma pessoa em sã consciência já pensou em algum tipo de psicologia profilática e tal procedimento seria, de fato, um completo contra-senso. Mas devemos lembrar que os psicólogos estão por aí desempregados -- não só eles, é preciso lembrar -- e almejam ganhar dinheiro, posto que é apenas isto que vale para os idiotas desta sociedade, sejam eles psicólogos ou não, desempregados ou não. E então o psicólogo na sarjeta irá sugerir a tal profilaxia mental. Mas repito: é um contra-senso.

Àqueles que não acreditam na eficácia da psicanálise e de metodologias aparentadas, sugere-se a opção farmacológica. Depressores do sistema nervoso, dizem os farmacologistas, resolvem este tipo de problema e atuam como um tipo de inseticida mental. É mesmo assim, falo por experiência própria. O formigamento característico da inquietude ameniza-se no decorrer do dia-a-dia quando se adota a solução destes químicos que estudam a vida. Ao longo do tempo, entretanto, vai-se acumulando um resíduo mísero da tal inquietude e chegará uma hora em que a galinha encherá, grão depois de grão, seu papo. E então o papo tem a chance de explodir, mas aí já não sou capaz de dar testemunhos, posto que não conheço muitos exemplos deste tipo e o papo da minha, embora venha se acumulando, ainda não chegou ao ponto culminante que se diz ser "a gota d'água". Água ou grão, a metáfora é irrelevante. Há de se encher o papo ou o balde; ou há mesmo de se conseguir outros recipientes onde alojar grãos ou pingos de água. Tento uma saída como esta última. Continuo tentando.

Tenho uma boa vida, afinal. Não tenho horários quaisquer. Acordo quando quero e durmo também quando quero; normalmente, quando tenho sono, no último caso; e quando não mais tenho, no primeiro. Tenho meu carro e um apartamento alugado. Carro e liberdade são conceitos muito próximos em uma cidade de mais de dois milhões de habitantes cujo sistema de transporte é, para dizermos pouco, ineficiente. E se meu salário não me permite ter o computador ou a poltrona que queria -- era para trabalhar, juro! --, ao menos posso me dar ao luxo de me atolar de livros e cervejas e cigarros e forrós. Não parece tão mal.

Meu problema, de fato, foi ter saído daqui. Agora percebo. Quando se sai de um lugar, fica-se sem lugar. Perde-se aquele de onde se saiu e não se ganha aquele para onde se foi. Ganha-se muito, mas também muito se perde. Fica-se dividido. A menos que não se vá, de fato, ou que não se volte -- há os dois casos! --, o que acontece é que a identidade do viajante estará para sempre em algum lugar intermediário. Assim a identidade daquele que se move fica perdida, às vezes, entre dois continente, nalgum lugar em meio ao oceano; irrecuperável. Explicar-lhe-ei: tem-se um lugar próprio, onde se gosta de viver. Mas lá fundinho está aquela inquietude. Aí se sai do lugar e percebe-se que a vida boa mesmo é lá de onde se veio. Então, decide-se voltar. Então, volta-se. Então, chega-se de volta e se vê que... bem, não era exatamente assim. É a tal da inquietude atacando de novo. Aí dá vontade de sair de novo. E aí, onde quer que se esteja, vem a insatisfação e o pensamento: poderia estar noutro lugar, é tão bom estar em outro lugar! E aí não se tem mais um lar, não se identifica mais com estes ou aqueles; não se identifica mais, absolutamente. Perde-se a identidade própria, um self cultural. Adquire-se um self-cultural único e distinto de todos à volta. Fica-se sozinho. Passa-se a desentender mais do que a entender. Desentende-se até consigo mesmo. Vive-se numa eterna esquizofrenia cultural. É que viver e viajar e conhecer e descobrir e entender e ser e estar e procurar e perder e encontrar e desentender e saber e errar e acertar são coisas que enriquecem a vida. Então sente-se meio medíocre por estar estático nalgum lugar, nalgum ambiente, nalguma vidinha insossa.

Acho que vai ser sempre assim; sou mesmo do tipo inquieto.

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