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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

29.9.07

História de um romântico ativo


Poderia sim vir aqui e contar-lhes sobre toda a vida romântica do Carvalho, pois que era uma vida intensa, cheia de altos e baixos, com uma porção de episódios memoráveis -- além de outros nem tão memoráveis assim --, todos eles passíveis de serem narrados com a mesma exuberância e paixão segundo a qual este senhor os vivera ao longo de mais de sessenta anos. Talvez um dia ainda me renda a contar-lhes sobre a arte dos encontros e desencontros que caracterizou a existência deste galante senhor que veste terno e gravata borboleta. Porém a correria do dia-a-dia e a necessidade que tenho em ter um emprego fixo para conseguir me sustentar nesta sociedade desigualitária só me permitem parar por um segundo a relatar-lhes um de seus casos românticos de final infeliz e que mal chegou a ser eterno, mesmo enquanto durou. O próprio Carvalho me contou esse caso há pouco tempo atrás, quando em uma festa de casamento de amigos em comum. Bebíamos, ele e eu, whisky e cerveja, respectivamente. Prefiro cerveja, espero que não se importem. Já meu amigo, no alto de seus sessenta anos, permanecia por ali a degustar o que Vinícius chamou de melhor amigo do homem; o cão engarrafado. Pois que estávamos ali a beber e conversar e passa-nos à frente uma loira deslumbrante. Devia ir pelos seus trinta e tinha um jeito moleque e charmoso. Para a surpresa dos meus olhos, que a ela seguiam, parou em nossa frente e cumprimentou meu amigo de forma entusiasmada. Brincou também comigo agradável e jovialmente ao mesmo tempo em que se apresentava: Maria. Não pude deixar de reparar o perfeito contorno de sua boca. Tinha uns lábios ligeiramente protuberantes que pareciam pedir um beijo longo e apaixonado. Ah, o que não daria por um beijo desses! Trocou meia dúzia de palavras conosco e logo chegou um brutamontes a segui-la. Era o marido. Será que as mulheres ainda se apaixonam por esses idiotas cheios de hormônios? Bem, também não quero me precipitar a julgar cabeça por físico; ou cara por coração. Mas logo que o sujeito chegou, o diálogo loira-Carvalho se dissipou. Parece que uma conversa entre velhos amigos, onde um deles esteja acompanhado do cônjuge recente, acaba não durando muito. Tal generalização ainda se somava, neste caso em especial, à dificuldade -- quase uma impossibilidade! -- em se entreter com a referida loira e sua boca sem desejá-la. E assim, logo se foram os dois, mãos dadas, para outros cantos do salão. A loira deixara uma atmosfera de encanto ao nosso redor que ainda custou algum tempo a passar.

Atmosfera razoavelmente desfeita, ainda ligeiramente enebriados os dois, olhei para o Carvalho com olhos que revelavam claramente meu encanto. Ele não demorou mais do que alguns instantes para contar-me sua história com aquela mulher. E não é que tinham estado juntos?! Ora, esse Carvalho... Olhando hoje, ninguém diria o quanto fora o pegador de outrora -- apesar disso, ele ainda mantinha um charme meio galanteador, intelectual e hedonista que lhe fazia provavelmente interessante às vistas das mulheres. Acho que elas teriam dito isso. Sinceramente: eu o admirava. Se ainda hoje, sessenta anos nas costas, atraia de uma forma misteriosa as mulheres... quiçá em sua juventude! Carvalho relatou-me que seu caso com Maria havia sido, para ele, um dos mais estranhos em toda sua vida. É que em no seu caminhar ao longo do tempo, dizia, sempre fora considerado um garanhão, pegador mesmo; teve muitas mulheres. Meu amigo falava isso sem qualquer modéstia, porém sem qualquer convencimento também. Falava de seu sucesso com as mulheres com o mesmo ar de quem diria "Está calor hoje!" ou qualquer outra frase mundana jogada ao longo de uma conversa informal. E tendo sido o Don Ruan por décadas a fio, relatava, fora aprendendo ao longo dos anos a arte refinada de entender as mulheres e saber tratá-las com delicadeza, respeito e amor. E eis que depois de todas essas décadas, havia um dia encontrado uma moça -- muito bonita, é verdade -- mas que não lhe havia interessado muito, posto que saíra de outra relação complicada logo antes. Em sua vida havia fases, ele continuava, em que era só fogo ardente e buscava insaciavelmente novas paixões, novas aventuras; nessas épocas sentia seu sangue ferver, era vivo como nunca. Noutras feitas, entretanto, como naquela em que a moça lhe aparecera, era ele apenas um poço vazio da água do amor e fazia apenas continuar vivendo e esperando o dia que o calor da paixão lhe fizesse renascer das cinzas como aquela ave mitológica. Mas eis que a tal da moça -- é claro, era Maria -- aparecera como de pronto em sua vida e desde então passaram a conviver e se encontrar freqüentemente às terças-feiras, dia do samba na casa do Arnaldinho. E as semanas foram se passando e eles foram se conhecendo melhor. Mas não estava, jurou meu amigo, interessado na garota. Passava pela fase do poço vazio e não via nela, sabe-se lá porquê, estímulo suficiente para retornar ao maravilhoso mundo do romantismo, mundo este onde costumava ser rei de um reino bastante isolado, onde o tempo lhe era alheio e que era habitado apenas por duas pessoas: amantes incondicionais que viviam apenas para manter a ordem e graça de tal reino. Enfim, a loira era quase trinta anos mais moça que ele e Carvalho, à época, ainda curtia uma solidão convicta quando se beijaram pela primeira vez. Fiquei a imaginar meu amigo beijando aquela boca em cujo formato se lia o imperativo desejoso "beija-me", seguido de exclamação. Uma pontada de inveja e uma porção de orgulho fraternal encheram-me o peito ao ouvir o relato de meu amigo. O referido ósculo acontecera ao voltarem da casa do Arnaldinho certa vez, quando ela acabou pegando uma carona com ele e, à porta de sua casa, ainda dentro do carro, a loira começara a lhe fazer galanteios. Ora essa! Carvalho era um dos maiores mestres galanteadores de toda Belo Horizonte à época, segundo seu próprio e imodesto relato. Talvez fosse o melhor galanteador de todas as Minas Gerais e, diriam alguns, de todo o Brasil e quiçá do mundo. Peço desculpas se exagero, mas consigo imaginar muito bem a cara de galanteador do Carvalho quando jovem. Visse o leitor, talvez concordasse. E aqueles galanteios que então recebia de uma jovem trinta anos mais nova eram tão rudes, mal lapidados e insensíveis. Sentiu-se mal, disse-me Carvalho. Julgou-se como uma mulher que passa na frente da obra e gritam-lhe que é gostosa. Estava sendo ali tosca e diretamente seduzido. Logo ele, o mais classudo dos cavalheiros. Era inegável que gostava de mulheres e que gostava de estar com elas e amar-lhes. Aquele belo exemplar de loira ali ao seu lado, atiçava seus ânimos. Mas somando-se sua convicta solidão e a desabilidade galanteadora da mulher, ficara Carvalho ali um tanto quanto perdido, sem saber o que fazer. Nada parecido acontecera consigo antes. É verdade que já levara cantadas de outras mulheres, mas jamais de um pedaço de mau caminho como aquele. Sentiu-se como uma mulher sendo conquistada. Estava do outro lado, isso o incomodava, deixava-o sem jeito. Não sabia o que fazer, não sabia onde colocar as mãos, não sabia o que dizer, não sabia como proceder, não sabia sequer o que pensar; não sabia e não sabia. Confuso estava ao volante enquanto a mulher se aproximava, encostava-se nele com sua pele lisa e lhe dizia galhofas pseudo-sedutoras tão pouco criativas. Acabou beijando-a, linda que era, sem muita empolgação. E aquilo ficou em sua cabeça, incomodou-o. Era ele quem deveria ser o personagem ativo em uma conquista. Antes daquele dia jamais havia se sentido objeto do desejo ativo de uma mulher. Ah, os tempos eram outros! E a verdade, confessava-me, é que nunca conseguira se acostumar. Chegaram a sair mais algumas vezes, começaram de fato um relacionamento. Carvalho conseguira encontrar nela vários dos elementos que compunham seu ideal feminino platônico. Disse ter chegado a admirá-la e, de mais a mais, um amor que não compensava era melhor que a solidão. Saíram juntos várias vezes e conversaram sobre intelectualidades -- e também sobre bobagens quaisquer. Riram juntos, comeram japonês, foram ao cinema e passearam na praça do Papa num domingo. Mas a relação foi sempre aquela. Era ele quem era o conquistado, era ele quem se sentia o objeto da cobiça sexual e romântica do outro. E jamais conseguira se entregar verdadeiramente ao relacionamento, justamente por causa deste, deste... custou a completar: deste preconceito. E então acabaram se afastando, desinteressou-se dela. Negou encontrar-se com ela em festas, negou o clube, desistiu da viagem para a Serra do Cipó e chegou até mesmo a esquipar o samba por um certo tempo. Não gostara de ser o galanteado, de estar do outro lado, de ter a outra pessoa na mão. Não gostou de uma certa segurança que sentiu, não gostou de ser ele a escolher o que queriam, não gostou, não se sentiu à vontade e até hoje diz que não entende muito bem o que aconteceu. E foi isso, meu amigo, disse ele: "perdi uma mulher linda por conta de um tipo de orgulho machista". E completou mais ou menos assim: "(...) acho que foi isso que me impediu de apaixonar-me por ela, dado que ela apresenta toda a graça, simpatia e companheirismo que se espera de uma mulher para um relacionamento duradouro. Tivesse se deixado seduzir ao invés de aplicado ativamente as técnicas de corte, eu teria me apaixonado perdidamente (...)"

Essas últimas reticências duraram alguns minutos. Enquanto isso, Carvalho tomava mais um gole de whisky e ficava olhando para o alto, absorto a meditar sobre seu preconceito, sua incapacidade de ser o objeto de desejo. Era ele quem deveria desejar e galantear e conquistar, dia após dia, suas mulheres através gestos nobres e tiradas inteligentes e perspicazes. Era essa, a sua natureza. Repetia a palavra para si: preconceito, preconceito. Retornando pouco depois ao assunto, chegou a chamar-se de idiota, disse ter perdido uma boa oportunidade. Perdera Maria. Perdera... Talvez nenhuma outra tivesse gostado tanto dele, posto que linda e cheia de pretendentes, ficara meses a fio atrás de si e mesmo quando decidira deixar de se encontrar com ela, ainda havia demorado algum tempo até que a garota parasse de procurá-lo e decidisse tocar sua vida para outro rumo.

E ainda filosofava sobre Maria, quando passa-nos à frente uma morena ma-ra-vi-lho-sa, metro e oitenta, pele queimada de sol. Cumprimentou meu amigo então com um beijo que lhe passou tão perto da boca que chegou a assustá-lo, algo que disfarçou com discrição. Cumprimentou-me também por educação, perguntou a Carvalho como andava o samba. Mal esperou a resposta "Anda ótimo!" para continuar seu caminho até a mesa de doces. Enquanto isso, acompanhamos seu rebolar: direita, esquerda, direita, esquerda. Olhei para Carvalho e ele, cruzando as pernas e tomando mais um gole do whisky, questionou-me com uma piscadela: "quer escutar outra história?"

E como poderia eu fugir de outra das histórias românticas de meu amigo galanteador? Escutei sim, mas essa vou deixar para contar quando sobrar aquele tempo para escrever o livro.

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22.9.07

As viagens de João


Para Belo Horizonte mudara-se João há não muito tempo. Desde então, fazia aquela dupla viagem mental -- digo, mensal -- indo e vindo a trabalhar e visitar os parentes em sua terra natal. E na falta de companheiros que não buscava João para levá-los consigo, fosse de favor ou rachando a gasolina; e na falta também de um som que o fizesse concentrar-se em um ritmo melódico qualquer, uma vez o antigo havia sido furtado e que assim o fizera perder a vontade de ter aquele objeto de cobiça de larápios mal fadados pelas desigualdades sociais; assim viajava sozinho, nosso personagem. Viajava ao longo da estrada, ao longo de seus pensamentos, ao longo de sua vida. Às vezes corria, de forma a transformar mais rapidamente o futuro em presente e assim poder viver mais. Às vezes andava lentamente, alheio à profusão de veículos que iam e vinham como alternativas pouco eficientes ao teletransporte, único meio realmente eficaz de locomoção. E nessa viagem João às vezes se desligava da realidade. Acostumado que estava à tarefa de dirigir, era capaz de manter-se ali um tanto quanto concentrado na direção mas ainda mais absorto em si próprio, em passar a limpo suas atitudes e os conhecimentos que adquirira. Enquanto comia quilômetros, filosofava sobre todas as coisas e tentava traçar um mapa conceitual que inter-relacionasse com mais precisão tudo aquilo que estava entre os céus e a terra. Em certas viagens, pensava entender com perfeição todo o mundo, as atitudes das pessoas, o comportamento da natureza. Nessas ocasiões, seria ele capaz de explicar utilizando círculos conceituais bem embasados e derivações racionais destes, qualquer evento que lhes questionassem. Mas como interlocutor algum havia ali para lhe propor as mais escabrunhadas questões, ele mesmo fazia jogos mentais de perguntas e respostas, esquizofrenicamente se dividindo em dois e considerando a maior parte de si dentro daquele que responde, sendo o que pergunta apenas uma faceta menos intelectualizada e pobre de sua própria natureza. Viajemos com João.

Porém aquela viagem em particular que agora descrevo não se caracterizou por esta segurança epistemológica com relação ao mundo e a capacidade de João em descrever seus conhecimentos com precisão conceitual e segurança racional. Naquela feita, perdia-se no dilema de Sócrates ao contemplar o conhecimento de sua ignorância e questionava seus sistemas sensoriais tal qual Descartes. Pensava, logo existia. Esta era a verdade inquestionável, alcançava João ao fim da curva. E então, seguindo o argumento, chegou à falta da necessidade de seu corpo. Sentiu-se João como apenas uma mente que dirigia uma máquina que dirigia uma máquina. Por um segundo, ao ter-se considerado apenas mente e não corpo, perdeu todas as sensações. Com sua propriocepção momentaneamente deixada de lado, era João, naquele instante, apenas um minúsculo anão mental a controlar os movimentos de braços e pernas e cabeça através de alavancas abstratas invisíveis. Testava o controle dos braços, pernas, tronco, olhos, pescoço. Todas alavancas funcionavam bem e assim dominava a máquina biológica que dominava a máquina mecânica, ambas entregues e submissas ao bel-prazer de sua vontade. Vontade esta que estava dentro de uma mente e que, viajava João, não estava agora dentro daquele carro. Sua mente estava em uma cuba, noutro lugar, talvez em um futuro, talvez uma outra realidade. Brincava de século XXI, aprendia mais sobre as espécies biológicas, sobre o homem. Através de simulações de vidas inteiras, os seres de sua época haviam criado mecanismos de aumento da longevidade. Talvez pudesse, da próxima vez que brincasse de simulação de século XXI, tentar ser uma águia; ou um gambá. A águia, o gambá. Voltando agora a reflexões mais mundanas e soubessem os legisladores sobre estes eventos que acontecessem na mente dos humanos quando em viagens solitárias, exigir-se-ia ao menos duas pessoas a circularem nos carros quando em rodovias interestaduais. Pois que João desviara sua atenção da pista e dera de cara com um buraco tão grande que por pouco não o fizera furar o pneu e rodar e até passar pela outra pista, onde seria possivelmente atropelado por uma carreta velha e poluidora, com freios em péssimos estados de conservação e que acabara de passar por ele, zunindo. Foi esse susto que o fez recuperar sua propriocepção e considerar-se novamente -- sejamos francos, com mais propriedade -- apenas um organismo biológico de capacidades cognitivas um tanto quanto avançadas que calhou de surgir neste planeta em meio a algo tão inexplicável quanto o universo. Pensava agora João que era muito fácil imaginar outras possibilidades de mundos, era fácil imaginar uma verdadeira infinidade de verdades que poderia acreditar e ter para si como representantes fiéis do mundo. Difícil era duvidar e saber exatamente o que descartar dos milhares de mundos possíveis para formar a visão deste mundo real que vivia. O que era o mundo real? O que era, de fato, real? Existiria um real? Foi pensando nisso que parou em um bar para tomar uma coca-cola, fumar um cigarro e talvez conseguir prosa interessante com moça bonita que o fizesse pensar em coisas mais pé-no-chão. Enfim: já viajara demais, estava cansado.

Entrou no bar e a televisão estava ligada. A televisão tinha esse poder de transformar um mundo completamente interpretativo num mundo supostamente real, onde os idiotas olhavam para lá e se reconheciam e podiam pisar com uma firmeza falsa sobre a areia movediça que constitui o saber humano. Tentou olhar para a imagem que saia do tubo e cuja informação estava sempre a rodeá-lo, tal qual informações mais interessantes vindas dos confins do espaço há tempos remotos, quando o universo ainda estava em formação. O interpretador de ondas eletromagnéticas não conseguiu entretê-lo e João foi ao balcão tentar verificar o que acontecia com o mundo. Olhou para a atendente, uma loira balzaquiana quase charmosa e de olhar preguiçoso. Por um segundo, ainda imerso em sua viagem, supôs João que ela não entenderia uma palavra que ele dissesse. "Uma coca-cola, por favor", foi o que falou. E tal foi a demora na resposta da loira que já estava quase a repetir a frase, talvez em outro idioma, quando ela lentamente moveu-se de seu assento e caminhou em direção a um freezer que ele era capaz de ver de relance. Antes mesmo de olhar para o conteúdo do freezer, disse-lhe que não havia o tal refrigerante. Freezer aberto, entretanto, João foi capaz de ver uma lata de coca-cola no canto esquerdo e ficou na dúvida se dizia ou não dizia que contemplara a prova cabal de sua mentira, imaginando que talvez a própria funcionária tivesse guardado aquela lata ali para ela mesma beber posteriormente. Outro que ali estivesse talvez se pensasse, na situação de cliente de um estabelecimento comercial, como tendo preferência com relação ao último refrigerante em detrimento do funcionário, que agia de má fé ao esconder para si a última das latas. Sujeito como esse não hesitaria em dizer, como disse João: "Ei, mas eu estou vendo uma lata de coca ali no canto esquerdo." Acontece que João falou mais por inocência mesmo, quase um reflexo proporcionado pela interpretação dos comprimentos de onda da luz na faixa do vermelho refletida pelo metal que funcionava como recipiente ao líquido negro refrescante. A lenta balzaquiana, entretanto, confirmou, agora com mais veemência que não havia mesmo coca-cola alguma. A luz vermelha ainda refletia em seus olhos, freezer aberto. Focou então sua atenção com mais vigor para o local onde putativamente escondia-se o refrigerante. E foi só agora, uma vez tendo cogitado que aquela reflexão poderia não estar relacionada a uma lata de coca-cola, é que João pôde desfazer os laços mentais que o levavam a uma confusão sensorial. Era uma lata vermelha, de fato. Mas não era de coca-cola, percebia agora pelos detalhes. Não foi capaz de reconhecer, entretanto, o que era. Pediu então um guaraná e bebeu satisfeito o produto nacional em detrimento ao líquido negro que simbolizava o capitalismo americano. Passou mais uma vez pela TV e as pessoas sentadas em sua volta olhavam para ela concentradas, rindo de piadas estúpidas. O humor, pensava João, era muitas vezes prejudicial ao ser preferido com relação ao conhecimento pela massa ignorante. Não quis se misturar àqueles que viviam como se a vida fosse um problema resolvido. Sabia que não era. Foi-se embora, João. Sentou-se em seu carro, pisou no acelerador e viu o mundo exterior passar a mais de 100Km/h. E todos os meses, uma vez num sentido, outra no outro, assim fazia João: viajava e viajava.

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9.9.07

A (própria) moda de uma mulher pós-moderna


Todo dia ela fazia mesmo tudo igual: acordava, tomava seu banho, enxugava seu corpinho de violão e ficava ali, nua, a contemplar seu guarda-roupa por vários instantes. Houvesse um maridão na cama, ainda sonolento, talvez fosse este o momento em que mais teria gostado de ver Marcela, com as mãos na cintura, da forma como veio ao mundo, a pensar sobre o estilo de vestimenta que escolheria para utilizar naquele dia. Mas maridão não havia, ainda não. Enquanto isso, nossa personagem passava esse seu tempo de graça sem ser observada, embora não tenha conseguido fugir deste narrador. A moça conhecia todas suas roupas de cor e salteadas, sabia aquelas que gostava e as que não gostava tanto assim, usava regras explícitas para combinar blusa, sutiã, saia, calça e sandália. Para estas blusas, estes sutiãs. Para esta saia, aquela sandália. Por vezes fugia de suas estritas regras para tentar variar um pouco. Nesses dias, entretanto, olhava-se repetidamente ao espelho achando-se esquisita e acabava trocando-se de forma a voltar à combinação de sua monotonia cotidiana. E então, quando mais uma vez olhava-se ao espelho depois de trocada e destrocada, sentia-se muito igual e, se assim saísse de casa: igual, achar-se-ia a mais covarde das mulheres. Enfim, tinha então que escolher entre esquisita ou covarde: às vezes saia de casa assim, outras vezes assado. Não havia boa resolução para este dilema.

Embora seu guarda-roupa e a palma de sua mão lhe fossem familiares com igual proporção, ainda assim gostava de parar a mexer em suas roupas antes de vestí-las, dia após dia. Então, parada ali a contemplar suas vestimentas, pensaria Marcela em seu dia. Passaria, em sua cabeça, manhã, tarde e noite. Passaria também o Noel, a Rosa, a reunião do quinto andar, o Dr. Reinaldo, o almoço com os colegas do antigo emprego, Tertuliano, Antônio, Katinha e, se tudo desse certo, encontrar-se-ia também com o Serginho. Ah, o Serginho. Tivesse este narrador na cabeça de alguma dama como está Serginho na de Marcela, de nada mais precisaria neste mundo que não aquela tão charmosa moreninha. Certo era, sejamos agora francos, que a chance de que se encontrasse com Serginho naquele dia era quase nula ou, se estivermos de muito boa vontade, poderemos dizer que a chance seria mínima. Trabalhavam em lugares diferentes, almoçavam em lugares diferentes, moravam em lugares diferentes. Mas a casa de Serginho era próxima ao caminho onde a moça passaria para almoçar e já o havia encontrado por ali certa vez. É mesmo curioso, tal é a improbabilidade de se encontrar com o rapaz, a influência que ele exerce na garota naquele exato momento em que ela está li de pé, nua e linda, a decidir entre a blusa branca ou a vermelha.

E ainda está de pé Marcela com sua nudez a pensar que, caso transformasse todo seu guarda-roupa em saias de um escuro pálido e blusas brancas, estaria sempre vestida de uma forma que lhe agradava e não perderia todo esse tempo a ficar meditando e analisando tim-tim por tim-tim seu dia antes de escolher o que vestir. Mas esse pensamento logo passa ignorado, quando outro chega a lhe dizer que seria muito idiota ter apenas repetições das mesmas coisas: não vivia nem queria viver em nenhum tipo de obrigação, confinamento. Ter apenas roupas iguais a obrigaria a vestir-se sempre igual, como se usasse farda. Quanta idiotas são os uniformes, pensou. Era mulher livre e decidida. E a liberdade, se não sabe o leitor, também pode ser expressa na forma de um livre-arbítrio com relação à escolha de um traje diário, diferente a cada dia.

Hoje gasta Marcela mais tempo ali do que em dias corriqueiros. Não fez hoje tudo igual. Já se disse que era livre, a graciosa moreninha. Acaba de perceber que vem gastando mais tempo em frente ao guarda-roupa a cada dia que passa e hoje percebeu o porquê: é que está cansada de suas roupas! As roupas, ora, medita ela em frente ao espelho enquanto faz pose para um fotógrafo inexistente, as roupas deveriam evoluir junto com a pessoa. Ah, deveriam, seu pensamento corre solto. À medida que o tempo passa, passa também a moda, passa a vontade de seguir a moda, passa do que se pensava antes para um lugar mais novo e novos espaços se abrem nas mentes das pessoas para que pensamentos estilísticos inovadores possam ali se ocupar. Somos todos organismos dinâmicos e usamos certas roupas em umas épocas e outras roupas noutras. O armário, esta era sua teoria, deveria evoluir junto com a pessoa, ao longo do tempo. Acontecesse isso, seu armário seria hoje bem diferente. É que não gostava de comprar roupas, Marcela. Não era lá uma mulher muito tradicional e se o leitor ainda disso não tivesse se apercebido, deixo aqui explicitamente este recado. Tinha lá um senso ecológico que dizia que não deveria jogar nada fora e gerar o mínimo de lixo que conseguisse na vida para deixar um mundo melhor para a próxima geração de seres humanos que o fossem ocupar -- e esse seu senso refletia-se também ali, em seu guarda-roupas. Como não jogava as roupas fora, estava ali toda uma vida que ia se acumulando: a blusa que usara no dia do churrasco de aniversário do Lucas, a saia que estreiara no dia do jantar da Lívia, a blusinha que ganhara de presente de aniversário da Tia Júnia, a sandália que comprara naquela viagem para Angra: estava tudo ali. Havia uma relação um para muitos com relação às suas roupas e histórias: para cada roupa, uma ou mais histórias; para cada história, um conjunto de roupas.

E então quis se reconhecer em seu guarda-roupa naquele dia, a Marcela, e não conseguiu. Já havia evoluido mentalmente mais do que armariamente. Essa frustração, somada à sua filosofia ecológica não desenvolvimentista, fê-la aguçar seus instintos criativos. Dado que não queria jogar roupas foras nem mesmo comprar novas -- acabaria tendo que comprar, disso ela sabia, mas que comprasse a menor quantidade possível --, Marcela resolveu reformar seu guarda-roupa. Não o guarda-roupa em si, peço desculpas se me fiz entender mal ao leitor que leva as coisas excessivamente ao pé-da-letra. Evidentemente não era o móvel que queria Marcela reformar, mas as roupas que o preenchiam. E foi assim que, uma a uma, nossa personagem selecionou as roupas que não usava muito, sendo que depois de muito pensar, considerou como "muito" as roupas que não havia usado no último par de meses. Olhou para tais vestimentas e taxou-as com o selo: "não gosto" ou "não gosto muito". Dada a presença deste selo imaterial, pouca diferença fazia se a reforma destruisse as roupas e as fizessem inutilizáveis como vestimentas. Precisava mesmo de alguns panos de limpeza e estava com a criatividade aguçada. Pegou tesoura, linha e agulha. Não era lá muito boa de coser. Tinha, entretanto, boas idéias e um bom gosto, ainda que alguns pudessem disso duvidar. E foi então que cortou e cortou e testou e coseu e criou e não deu certo e consertou e tentou e quis fazer de novo e fez de novo e não deu certo de novo e consertou de novo e coseu e testou e cortou e cortou. No fim, estragara algumas e produzira outras. Experimentou e gostou. Virou e olhou-se de costas. Gostou. Ficou bom. Iria com este mesmo hoje, que era pra estrear. Talvez encontrasse com Serginho naquele dia; e ele ficaria estupefato com seu estilo moderno e ousado. As outras roupas novas que produziu, guardou direitinho. Aquelas que estragou, levou para a área de serviços e os retalhos esteve para jogar fora, mas preferiu guardar aqueles que tinha um tamanho maior do que um tamanho xis, que achou justo guardar para possivelmente utilizar em outras desses delírios modísticos.

Naquele dia, chegou atrasada no serviço mas não isso não foi notado. Encontrou com pessoas que não imaginava se encontrar e outras não encontrou, que imaginaria se encontrar. Alguns comentaram sobre seu estilo, outros não notaram e terceiros notaram porém não comentaram. Nem sinal do Serginho, como era de se esperar, mas nem disso se lembrou Marcela quando chegou em casa, cansada do dia de trabalho para deitar-se e continuar a leitura daquele livro. Antes de tirar sua nova roupa, olhou-se mais uma vez ao espelho e deu uma ajeitada aqui e ali para ficar mais bonita. O fotógrafo inexistente mais uma vez a espreitava. Retirou sua roupa e logo vestiu algo mais à vontade, dando apenas por mais um instante a nós leitores, o singelo prazer de imaginá-la nua, em sua sublime beleza. Passaram-se ainda uns meses antes que Marcela olhasse mais uma vez para seu guarda-roupas cansada de seu conteúdo. Havia sido bem sucedida em reanimá-lo naquela manhã. Dormiu como um anjo, Marcela. E acordou no dia seguinte preparada para fazer tudo igual: levantar, tomar seu banho, enxugar seu corpinho de violão e ficar ali, nua, a contemplar seu guarda-roupa por vários instantes. Ah, que inveja tenho deste guarda-roupa...

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