História de um romântico ativo
Poderia sim vir aqui e contar-lhes sobre toda a vida romântica do Carvalho, pois que era uma vida intensa, cheia de altos e baixos, com uma porção de episódios memoráveis -- além de outros nem tão memoráveis assim --, todos eles passíveis de serem narrados com a mesma exuberância e paixão segundo a qual este senhor os vivera ao longo de mais de sessenta anos. Talvez um dia ainda me renda a contar-lhes sobre a arte dos encontros e desencontros que caracterizou a existência deste galante senhor que veste terno e gravata borboleta. Porém a correria do dia-a-dia e a necessidade que tenho em ter um emprego fixo para conseguir me sustentar nesta sociedade desigualitária só me permitem parar por um segundo a relatar-lhes um de seus casos românticos de final infeliz e que mal chegou a ser eterno, mesmo enquanto durou. O próprio Carvalho me contou esse caso há pouco tempo atrás, quando em uma festa de casamento de amigos em comum. Bebíamos, ele e eu, whisky e cerveja, respectivamente. Prefiro cerveja, espero que não se importem. Já meu amigo, no alto de seus sessenta anos, permanecia por ali a degustar o que Vinícius chamou de melhor amigo do homem; o cão engarrafado. Pois que estávamos ali a beber e conversar e passa-nos à frente uma loira deslumbrante. Devia ir pelos seus trinta e tinha um jeito moleque e charmoso. Para a surpresa dos meus olhos, que a ela seguiam, parou em nossa frente e cumprimentou meu amigo de forma entusiasmada. Brincou também comigo agradável e jovialmente ao mesmo tempo em que se apresentava: Maria. Não pude deixar de reparar o perfeito contorno de sua boca. Tinha uns lábios ligeiramente protuberantes que pareciam pedir um beijo longo e apaixonado. Ah, o que não daria por um beijo desses! Trocou meia dúzia de palavras conosco e logo chegou um brutamontes a segui-la. Era o marido. Será que as mulheres ainda se apaixonam por esses idiotas cheios de hormônios? Bem, também não quero me precipitar a julgar cabeça por físico; ou cara por coração. Mas logo que o sujeito chegou, o diálogo loira-Carvalho se dissipou. Parece que uma conversa entre velhos amigos, onde um deles esteja acompanhado do cônjuge recente, acaba não durando muito. Tal generalização ainda se somava, neste caso em especial, à dificuldade -- quase uma impossibilidade! -- em se entreter com a referida loira e sua boca sem desejá-la. E assim, logo se foram os dois, mãos dadas, para outros cantos do salão. A loira deixara uma atmosfera de encanto ao nosso redor que ainda custou algum tempo a passar.
Atmosfera razoavelmente desfeita, ainda ligeiramente enebriados os dois, olhei para o Carvalho com olhos que revelavam claramente meu encanto. Ele não demorou mais do que alguns instantes para contar-me sua história com aquela mulher. E não é que tinham estado juntos?! Ora, esse Carvalho... Olhando hoje, ninguém diria o quanto fora o pegador de outrora -- apesar disso, ele ainda mantinha um charme meio galanteador, intelectual e hedonista que lhe fazia provavelmente interessante às vistas das mulheres. Acho que elas teriam dito isso. Sinceramente: eu o admirava. Se ainda hoje, sessenta anos nas costas, atraia de uma forma misteriosa as mulheres... quiçá em sua juventude! Carvalho relatou-me que seu caso com Maria havia sido, para ele, um dos mais estranhos em toda sua vida. É que em no seu caminhar ao longo do tempo, dizia, sempre fora considerado um garanhão, pegador mesmo; teve muitas mulheres. Meu amigo falava isso sem qualquer modéstia, porém sem qualquer convencimento também. Falava de seu sucesso com as mulheres com o mesmo ar de quem diria "Está calor hoje!" ou qualquer outra frase mundana jogada ao longo de uma conversa informal. E tendo sido o Don Ruan por décadas a fio, relatava, fora aprendendo ao longo dos anos a arte refinada de entender as mulheres e saber tratá-las com delicadeza, respeito e amor. E eis que depois de todas essas décadas, havia um dia encontrado uma moça -- muito bonita, é verdade -- mas que não lhe havia interessado muito, posto que saíra de outra relação complicada logo antes. Em sua vida havia fases, ele continuava, em que era só fogo ardente e buscava insaciavelmente novas paixões, novas aventuras; nessas épocas sentia seu sangue ferver, era vivo como nunca. Noutras feitas, entretanto, como naquela em que a moça lhe aparecera, era ele apenas um poço vazio da água do amor e fazia apenas continuar vivendo e esperando o dia que o calor da paixão lhe fizesse renascer das cinzas como aquela ave mitológica. Mas eis que a tal da moça -- é claro, era Maria -- aparecera como de pronto em sua vida e desde então passaram a conviver e se encontrar freqüentemente às terças-feiras, dia do samba na casa do Arnaldinho. E as semanas foram se passando e eles foram se conhecendo melhor. Mas não estava, jurou meu amigo, interessado na garota. Passava pela fase do poço vazio e não via nela, sabe-se lá porquê, estímulo suficiente para retornar ao maravilhoso mundo do romantismo, mundo este onde costumava ser rei de um reino bastante isolado, onde o tempo lhe era alheio e que era habitado apenas por duas pessoas: amantes incondicionais que viviam apenas para manter a ordem e graça de tal reino. Enfim, a loira era quase trinta anos mais moça que ele e Carvalho, à época, ainda curtia uma solidão convicta quando se beijaram pela primeira vez. Fiquei a imaginar meu amigo beijando aquela boca em cujo formato se lia o imperativo desejoso "beija-me", seguido de exclamação. Uma pontada de inveja e uma porção de orgulho fraternal encheram-me o peito ao ouvir o relato de meu amigo. O referido ósculo acontecera ao voltarem da casa do Arnaldinho certa vez, quando ela acabou pegando uma carona com ele e, à porta de sua casa, ainda dentro do carro, a loira começara a lhe fazer galanteios. Ora essa! Carvalho era um dos maiores mestres galanteadores de toda Belo Horizonte à época, segundo seu próprio e imodesto relato. Talvez fosse o melhor galanteador de todas as Minas Gerais e, diriam alguns, de todo o Brasil e quiçá do mundo. Peço desculpas se exagero, mas consigo imaginar muito bem a cara de galanteador do Carvalho quando jovem. Visse o leitor, talvez concordasse. E aqueles galanteios que então recebia de uma jovem trinta anos mais nova eram tão rudes, mal lapidados e insensíveis. Sentiu-se mal, disse-me Carvalho. Julgou-se como uma mulher que passa na frente da obra e gritam-lhe que é gostosa. Estava sendo ali tosca e diretamente seduzido. Logo ele, o mais classudo dos cavalheiros. Era inegável que gostava de mulheres e que gostava de estar com elas e amar-lhes. Aquele belo exemplar de loira ali ao seu lado, atiçava seus ânimos. Mas somando-se sua convicta solidão e a desabilidade galanteadora da mulher, ficara Carvalho ali um tanto quanto perdido, sem saber o que fazer. Nada parecido acontecera consigo antes. É verdade que já levara cantadas de outras mulheres, mas jamais de um pedaço de mau caminho como aquele. Sentiu-se como uma mulher sendo conquistada. Estava do outro lado, isso o incomodava, deixava-o sem jeito. Não sabia o que fazer, não sabia onde colocar as mãos, não sabia o que dizer, não sabia como proceder, não sabia sequer o que pensar; não sabia e não sabia. Confuso estava ao volante enquanto a mulher se aproximava, encostava-se nele com sua pele lisa e lhe dizia galhofas pseudo-sedutoras tão pouco criativas. Acabou beijando-a, linda que era, sem muita empolgação. E aquilo ficou em sua cabeça, incomodou-o. Era ele quem deveria ser o personagem ativo em uma conquista. Antes daquele dia jamais havia se sentido objeto do desejo ativo de uma mulher. Ah, os tempos eram outros! E a verdade, confessava-me, é que nunca conseguira se acostumar. Chegaram a sair mais algumas vezes, começaram de fato um relacionamento. Carvalho conseguira encontrar nela vários dos elementos que compunham seu ideal feminino platônico. Disse ter chegado a admirá-la e, de mais a mais, um amor que não compensava era melhor que a solidão. Saíram juntos várias vezes e conversaram sobre intelectualidades -- e também sobre bobagens quaisquer. Riram juntos, comeram japonês, foram ao cinema e passearam na praça do Papa num domingo. Mas a relação foi sempre aquela. Era ele quem era o conquistado, era ele quem se sentia o objeto da cobiça sexual e romântica do outro. E jamais conseguira se entregar verdadeiramente ao relacionamento, justamente por causa deste, deste... custou a completar: deste preconceito. E então acabaram se afastando, desinteressou-se dela. Negou encontrar-se com ela em festas, negou o clube, desistiu da viagem para a Serra do Cipó e chegou até mesmo a esquipar o samba por um certo tempo. Não gostara de ser o galanteado, de estar do outro lado, de ter a outra pessoa na mão. Não gostou de uma certa segurança que sentiu, não gostou de ser ele a escolher o que queriam, não gostou, não se sentiu à vontade e até hoje diz que não entende muito bem o que aconteceu. E foi isso, meu amigo, disse ele: "perdi uma mulher linda por conta de um tipo de orgulho machista". E completou mais ou menos assim: "(...) acho que foi isso que me impediu de apaixonar-me por ela, dado que ela apresenta toda a graça, simpatia e companheirismo que se espera de uma mulher para um relacionamento duradouro. Tivesse se deixado seduzir ao invés de aplicado ativamente as técnicas de corte, eu teria me apaixonado perdidamente (...)"
Essas últimas reticências duraram alguns minutos. Enquanto isso, Carvalho tomava mais um gole de whisky e ficava olhando para o alto, absorto a meditar sobre seu preconceito, sua incapacidade de ser o objeto de desejo. Era ele quem deveria desejar e galantear e conquistar, dia após dia, suas mulheres através gestos nobres e tiradas inteligentes e perspicazes. Era essa, a sua natureza. Repetia a palavra para si: preconceito, preconceito. Retornando pouco depois ao assunto, chegou a chamar-se de idiota, disse ter perdido uma boa oportunidade. Perdera Maria. Perdera... Talvez nenhuma outra tivesse gostado tanto dele, posto que linda e cheia de pretendentes, ficara meses a fio atrás de si e mesmo quando decidira deixar de se encontrar com ela, ainda havia demorado algum tempo até que a garota parasse de procurá-lo e decidisse tocar sua vida para outro rumo.
E ainda filosofava sobre Maria, quando passa-nos à frente uma morena ma-ra-vi-lho-sa, metro e oitenta, pele queimada de sol. Cumprimentou meu amigo então com um beijo que lhe passou tão perto da boca que chegou a assustá-lo, algo que disfarçou com discrição. Cumprimentou-me também por educação, perguntou a Carvalho como andava o samba. Mal esperou a resposta "Anda ótimo!" para continuar seu caminho até a mesa de doces. Enquanto isso, acompanhamos seu rebolar: direita, esquerda, direita, esquerda. Olhei para Carvalho e ele, cruzando as pernas e tomando mais um gole do whisky, questionou-me com uma piscadela: "quer escutar outra história?"
E como poderia eu fugir de outra das histórias românticas de meu amigo galanteador? Escutei sim, mas essa vou deixar para contar quando sobrar aquele tempo para escrever o livro.
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