Quase completamente
Quando soou seu celular naquela manhã, ela já sabia o que estaria para acontecer. Seria ele, falando que estaria na rodoviária e que a esperava para buscá-lo. Talvez pedisse apenas a confirmação do endereço para que pudesse pegar um táxi. De qualquer forma, haviam combinado. Era chegar e entrar em contato. Antes mesmo de ver a mensagem, foi ao quarto e colocou uma roupa que, se não era a melhor que tinha, era uma que realçava sua sensualidade e que fazia com que se sentissem bem e linda.
O caso era o seguinte: eram amigos há tantos anos e já haviam sim trocado juras e se beijado às escuras longe dos olhares gulosos daqueles que se preocupavam com as vidas dos outros. Mas isso fora há anos atrás. Recentemente, ela se mudara para aquele lugar paradisíaco, acima das montanhas, distante poucas centenas de quilômetros da capital na qual deixara toda sua história para trás. Capítulo extenso desta história houvera ocorrido dentro da universidade, onde o conhecera. Combinavam uma visita dele fazia algum tempo, mas fora exatamente agora onde se haviam juntado num mesmo instante fatores como: feriado prolongado, dinheiro sobrando e uma forte vontade de se re-encontrarem. Misture-se isso tudo e a viagem estava marcada. Ela mal se continha em sua ânsia de revê-lo e contar-lhe todas as histórias de sua vida ali, as pessoas à sua volta, a falta de intelectuais para discutir as mais profundas angústias da existência humana, o comportamento das pessoas, diferenças culturais, a música, a arte, a dança, filosofia. Era com ele que planejava passar horas descontraídas a beber um vinho e planejar futuros clubes de literatura semanais quando voltasse à viver na cidade. Sentia falta de pessoas interessantes, pessoas que tivessem, dela, a mesma raiz e soubessem conversar como nos velhos tempos. Sentia falta disso e ansiava por vê-lo.
Apesar disso, ora bolas, era uma mulher. E ele, um homem. Embora gostasse sim dele e achasse agradável -- agradabilíssima! -- sua companhia, deveria deixar claras as coisas desde o começo: não queria ficar com ele, não queria beijá-lo e não se amariam. Já havia preparado o roteiro desta conversa, que deveria acontecer tão logo ele aportasse em sua casa. Haja vista que era ela uma mulher um tanto quanto conservadora e não queria que ele a pensasse como uma devassa que chamaria um sujeito distante centenas de quilômetros apenas para que tivessem uma boa foda. Isso jamais! Não era de sua índole. Não passaria por uma devassa, uma puta. Isso jamais! Inclusive já havia deixado claro em mensagem eletrônica enviada dois dias antes que seria este o caso: ele que não pensasse estar indo para consumar algo que jamais existira. Se fosse esse o caso em sua cabeça, ele nem precisaria ir. Mantinha a pose de boa moça e havia sido correspondida: ele respondera dizendo que não, imagine!, iria para conhecer sua cidade e conversar sobre os velhos tempos. Seria isso e apenas isso. Agora, já pronta para sair de casa, eis que verifica a mensagem em seu aparelho celular: "Querida, infelizmente aconteceram alguns incovenientes por aqui que impediram minha visita. Peço desculpas e espero poder revê-la tão breve quando possível. Com carinho, (...)".
Peço desculpas ao leitor por não conseguir ao certo descrever qual fora o exato sentimento que nossa protagonista sentira ao ler aquela mensagem: espanto, indignação, tristeza, raiva, descrença, raiva, agonia, raiva, raiva, ira. Jogou o celular no chão e os pedaços voaram para um lado e para o outro. Sentou-se no sofá, desmilingüida. Estava sozinha. Estava sozinha mais uma vez. Sozinha, como há tanto tempo. Agarrou seus joelhos em volta das mãos e chorou um pouco. Levantou-se nervosa e gritou: "filho da puta!". Repetiu o elogio mais algumas vezes. Forçou a garganta tanto quanto podia. Foi à janela como fazendo questão que os vizinhos a escutassem. Realmente, foi o caso. Sabe-se lá o que pensaram disso. Deitou-se mais uma vez e pensou agora nele. Lembrou de sua presença, de sua forma, seu cabelo, seu nariz e sua boca bem contornada. Ora, o que estava fazendo? O que tinha feito? Só agora percebia sua burrice: ela o amava. Ela o amava muito. Ela sentia sua falta, queria sua presença perto, queria sentir aquela confiança, aquele desejo, queria sonhar. Queria sonhar com véu e grinalda e filhos e... "Filho da puta!", gritou mais uma vez. Mas era burra também, pensou. Porque se fizera de difícil?, porque não dissera mais vezes que queria vê-lo?, porque não assumia seu amor?, sua paixão?, seus anseios?, por que não os havia admitido nem para si mesmo? Leu de novo a mensagem e enquanto chorava pensava que porra de incovenientes teriam sido aqueles que teriam feito seu amado deixar de ir vê-la. A porra do incoveniente, respondeu-se, teria sido mesmo, muito provavelmente, sua mensagem que tirava dele todas as chances de tentar algo. Por que teria mandado aquela mensagem? Por que? Por quê? Porquê? Ainda chorava no sofá quando a campainha tocou, decerto algum vizinho incomodado com a gritaria ou querendo saber se ela precisava de ajuda. Mas não queria ver ninguém. Calou-se. Fingiu-se de morta. A campainha tocou outra vez. Pensou em gritar que não estava, mas preferiu novamente fazer-se de ausente. Respirava devagar, agora. Não notariam que havia alguém dentro da casa e, rapidamente, iriam embora. Realmente parece ter sido este o caso. Por uns dois minutos, nada mais se escutou. Ela então levantou-se e foi ao banheiro lavar o rosto. Foi de lá mesmo que escutou a campainha tocar mais uma vez e alguém gritar seu nome. Espere aí?! Seria esta a voz dele? Aquietou-se por um segundo. Ficou imóvel. Ouviu de novo a campainha e o grito: "Você está em casa?". Sem dúvida, era a voz dele mesmo! Era ele, era ele, era e-le! Filho da puta! Desgraçado!
Correu para a porta e abriu com velocidade, assustando o rapaz. Nervosa que estava, deu-lhe um abraço rápido e o empurrou para dentro. Fechada a porta, o rapaz tinha um sorriso no rosto e flores nas mãos. Ainda tomada pela surpresa, deu-lhe, a garota, um tapa na cara! Isso não se faz, gritou dando-lhe de dedo. Isso não se faz, seu... seu engraçadinho de merda! Você não sabe o furor sentimental que me deixou com essa sua mensagem falsa, seu desgraçado! Como você pôde fazer isso comigo? Está louco, está louco? Sentou-se no sofá e respirou fundo. Precisava se controlar, era ela quem passava por louca. Respirava profunda e lentamente, fechava os olhos. Era hora de se controlar. Sentiu que ele se sentava a seu lado. Percebeu em sua expressão, seu assombro. Pediu-lhe desculpas, ele não sabia que ela iria se descontrolar, queria apenas divertí-la. Tinha agido mal, muito mal. O rapaz também desculpou-se, disse que queria apenas fazer-lhe uma surpresa, entregar-lhe inesperadas flores, queria seu bem, sua felicidade. Desculpou-se outra vez. Disse que fizera boa viagem e que achara a cidade agradável, tanto quanto havia podido conhecer da rodoviária até ali, não era muito. Havia trazido um presente também, um livro. Ela abriu os olhos, acalmava-se. Recebeu o presente, um Saramago, segundo ele, o melhor dos que havia lido. Lado B, mas muito bom. Ela finalmente sorriu. Acalmara-se. Deu-lhe um abraço, um beijo, pediu também desculpas, estava muito estressada esses tempos, mas era bom revê-lo. Era bom que tivesse feito boa viagem, era ótimo que estivesse ali. Gostava muito dele, sim, mas não era para ele pensar que só por estar ali e tal, que havia alguma coisa entre eles. Eram amigos e iriam apenas passar tempos juntos. Eram quase irmãos, era como se fossem do mesmo sexo. Conheciam-se há tanto tempo e não seria agora que aquilo que se passara em sua juventude iria aflorar novamente. Não seria agora. Não seria, ok? Ele concordou, parecia insatisfeito. Disse que tudo bem, entendia o ponto.
Conversaram, escutaram músicas, discutiram literatura e filosofia, lembraram os velhos tempos e falaram dos amigos em comum. Passaram quatro dias de completo júbilo e quando ele entrou no ônibus para partir, ela sentiu novamente que o amava. Mas foi apenas quando o ônibus já ia longe na rua e quando suas mãos pareciam tão pequenas dada a distância, foi aí que ela gritou que o amava. Gritou alto, encheu os pulmões, disse que nunca houvera sido tão feliz quanto naqueles dias. Voltou então para casa, refeita, a pensar em casamento e lua-de-mel e filhos. Talvez falasse com ele sobre isso nos dias seguintes. Combinariam enxoval, casa nova e todas essas coisas. Ela o amava e estava quase completamente certa disso.
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