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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

28.10.08

Conexão


Veja: é dia. Você está aqui. Não gosto dosol, porém gosto dalua. Você é a dalua, você vai e vem. Você as vezes está cheia e as vezes está também apagada; às vezes crescente e às vezes minguante. Você tem ciclos e gosto quando você está assim nos dias bons. A gente fica empolgado, não é? Gosto de te pegar e te fazer do seu jeito e depois do meu jeito e depois daquele jeito que é o nosso: mistura gostosa dos dois com um certo padrão emergente e inexplicável. Vire-se: olhe nos meus olhos. Escute: gosto de você! Por que você não fica por aqui e a gente não esquece que existe um mundo lá fora? Por que a gente não se perde aqui mesmo e esquece tudo e todas as coisas. Não quero mais viver que longe de você. Mentira! Nem gosto de você e fico tentando me enganar. Mentira! Gosto de você e fico tentando me enganar. Mentira! Nem sei o que penso e tenho as emoções todas confusas quando o dia nasce e você está aqui ao lado. Você me deixa louco e excitado. É dia, preciso trabalhar. Ora, que idiotice este trabalho, não quero ser escravo deste aparelho que faz barulhos matutinos e me tira dos meus mais belos anseios líricos para deixar-me face-a-face com a realidade das pessoas normais. Precisamos contribuir para a sociedade, afinal. Do contrário, seremos indigentes. Queria ser isso mesmo, índio e gente com você. Como se índio não fosse gente. Até nos vocábulos existe o preconceito: as palavras contam as histórias das civilizações, você bem sabe. Quiçá os homens soubessem mesmo estudar a si e toda sua história. Eles não sabem de nada. Tudo o que está escrito e todos esses estudos só servem para colocar mais dinheiro no bolso de alguns. Essa merda que é o dinheiro, você sabe. Só idiotas gostam disso. O mundo está repleto deles e temos que viver às custas destes manés que mandam nas leis e em tudo mais que diz respeito à nossa vida e liberdade. Eis a verdadeira tragédia do homem, a verdadeira tragédia do poeta. Essa bosta deste capital. Ter que viver no mundo deles. Está provado por estudos: dê poder ao homem e ele se tornará mau. Mas nós não estamos nem aí. Capital que nada, capetal. O diabo que o carregue; e com ele todos os males que este causou. O diabo talvez o quererá mesmo posto que é ganancioso e mesquinho. Homens são diabos, só você é a deusa dalua. Gosto de você porque você não é como as outras. Ou talvez até seja, mas esconde muito bem e me engana. Que mal há em sermos enganados quando este engano é sincero? Difícil é agüentar a decepção que vem depois. Mas depois é depois e o futuro não importa. Você está aqui e está em dia bom, estamos felizes e fizemos mesmo o que deveríamos ter feito. Não haveremos de nos arrepender e também: o que está feito, está feito. Não há destino, mas há probabilidade. Pequena mas real. Quem sabe? Alguns pensariam que seria o fim, mas será o começo. Senão para nós ao menos para ele ou para ela. Espero que tenha seus olhos e não minha barriga. Fique aí, preciso ir. Não se vá também. Queria fazer deste momento mesmo infinito e acabar o meu dia como o começo. Mas o ser humano precisa de liberdade. Vá-se embora e não volte! Não quero mais te ver. Não reapareça, não volte, não pense em mim. Suma daqui! Eu te amo e te odeio, nada mais normal. Não me venha com estas dúvidas, não me venha dizer que não pensa mais em mim, que não quer me ver apenas para ficar dando voltas e carpedineando por aí. Não quero mais saber disto, não quero te ver, não quero saber deste corpo e nem desta mente. Guardarei você em uma caixa, trancada nos confins do meu cérebro e você pode mesmo desaparecer e nunca mais me ligar ou me falar ou me aparecer por essas bandas. Sei que você não volta. Sei que você não fica, sei que você não vai também. Tente, mas não se esforce muito. Não vale a pena. Nem tente, se assim achar melhor. Faça o que tu queres. Seja minha e seja dele e seja de mais algum outro, se assim lhe convier. Seja de todos, suma e reapareça. Ou apenas suma. Esconda-se bem ao longe em algum lugar que jamais te encontrarei. Não preciso de você, apenas te quero -- de médio pra muito. Não preciso de coisa alguma senão do viver. Não preciso de mim mesmo, não preciso dos meus sentimentos, posso muito bem ser uma máquina de fazer sexo, como querem as jovens garotas que andam por aí à procura da luxúria. Posso muito bem ocupar este papel e sair contando para todos que ando comendo não sei quantas mulheres que na realidade nem mulheres são, são apenas pedaços de carne nos quais penetro sem muita vontade ou com vontade até demais; e só isso. Não sou eu que vou nessas mulheres, quem vai é um outro sujeito que comigo não se parece. Talvez elas se sintam melhores com tudo isso. Mas há também aquelas em que a sintonia se encaixa e que conseguimos ser o todo por uma única noite. Depois desaparecem também. Ou não. Algumas ficam, como você que agora se vai. Você é apenas uma daquelas, você não é especial. Há outras como você, há outras bem melhores. Uh-la-la! Depende é do grau de magia que se alcança quando da presença do outro e quando as carícias ficam mais pesadas e as roupas de repente já se encontram jogadas nos cantos. Não há melhores, eu minto para não me achar dependente. A melhor é você, que está aqui comigo agora nesta cama. Tempo e espaço, estamos juntos mais uma vez. Era apenas isso que eu queria, iluminar-me neste teu brilho dalua. E se você tem medo de alguma coisa ou de tudo, então afaste-se. Medrosa! Covarde! Não tema, tire este pé aí detrás, entregue-se. Banhe-me com sua poesia e deixe-me sentir esta plenitude que tenho ao seu lado, nesta cama que dilata o tempo e voa no espaço para sabe-se lá aonde, instantes-sítios onde vocêeu conectoamos com todo o universo de uma forma assim tão íntima. Íntima forma. Íntima.

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