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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

27.12.08

Antes do pequeno almoço


Quando andei, não sei por onde, eis que não me senti perdido. Perde-se quando se deseja saber onde está e onde se vai. Como não tinha tais pretensões, apenas andava sem ligar para coordenadas físicas ou espaciais de latitude ou longitude. Com o GPS desligado, apenas seguia para onde o nariz apontava. Passei por aqui e por ali, falhei na missão de encontrar um boteco aberto onde pudesse tomar uma branquinha. Mas nem isso me desanimou, posto que não tinha mesmo rumo e seguia andando sem me preocupar com coisa que não fosse o respirar do ar puro que há no meu país. Nem assim tão puro, é verdade. Pensei no verde, na poluição e na falta de preocupação com o ambientalismo nos tempos modernos, mas não quis me enveredar nestes assuntos nem comigo mesmo e decidi apenas seguir livremente sem mais nem porquê; eu estava leve. E assim encontrei um grupo de pessoas. Havia uma velha, uma garota linda, um sujeito e outra pessoa inidentificável. Foi com esta última que comecei um diálogo, O que é você, perguntei, Eu sou eu. Certamente era, dei-me conta. E satisfeito com a resposta, levantei-me da cama antes do alvorecer de um novo dia. Hesitei em respirar por cerca de doze segundos e meio, mas sentindo um incômodo em prender o fôlego, rapidamente deixei-me ao natural e senti o ar entrando em meus pulmões e movendo meu diafragma. Permaneci com os olhos fechados mais um instante e lembrei do que meu pai havia me dito dias antes, Se você deseja lembrar dos seus sonhos, tente fazê-lo antes de abrir os olhos, posto que a imagem é forte em nosso sistema cognitivo e a mínima distração quando do estado de vigília pode tirar toda sua atenção interior. Fato é que tive o reflexo de abrir os olhos e, ao pensar tudo isso, fechei-os instantaneamente. O tempo deste piscar foi como o tempo de um flash fotográfico e, de olhos abertos, vi algumas pessoas que me observavam. Quem me observaria aqui no meu quarto, uma hora dessas. Não sei quem. O que importa é que antes de pensar isso eu deveria tentar lembrar do que havia passado horas antes, em meu estado onírico. Desliguei então das pessoas e entrei dentro de mim mesmo, voltei ao sonho e descobri que pesadelo era. Eu andava sem rumo ou direção, encontrando até pessoas indescritíveis. A pessoa indescritível deveria ser alguém posto que não há pessoas assim tão vagas e quando se encontra qualquer um, mesmo que durante o sono, pode-se provavelmente saber se esta pessoa é magra ou gorda, baixa ou alta, loira ou morena. Esforcei-me e nada. Pensei nos outros personagens e reparei que eram também de mim desconhecidos. A velha não era assim tão idosa de fato; hoje em dia sessenta ou setenta anos são como a flor da idade para o que lá chegam sem que sejam mortos por alguma causa idiota como atravessar o sinal na hora errada e dar com um caminhão sem freios. De cabelos brancos, estava sentada em uma cadeira. Todos estavam à sua volta e não se sabia ao certo se a escutavam ou se a temiam. Tinha olhos profundos de um preto avermelhado, parecia de índole maléfica, tinha sofrido toda a vida e agora se vingaria de todos nós. A garota era linda e charmosa. Era morena, cabelo encaracolado e curvas das mais perfeitas. Nem mesmo os melhores circuitos do campeonato de F1 tinham curvas assim tão bem acabadas. O seu S-do-Senna era de uma beleza inenarrável. Olhava para mim com uma cara ligeiramente sensual, levemente infantil; conquistou-me instantaneamente. Já o sujeito era destes que evidentemente são só casca. Vestia roupas modernas e tinha um estilo quadrado porém elegante. Ele era a representação de toda a sociedade, era um imã com o polo norte estragado, ou sul. Não tinha opinião ou desejo, não sorria nem chorava, falava com ansiedade e sempre sobre si mesmo. Jamais quis escutar o que diziam, o que dizíamos. Era o senhor de si e a todo momento realizava comportamento de display sexual para a fêmea ao seu lado. Exibia provas de seu estatus social e tentava também conquistá-la ao valorizar partes de seu corpo físico que eram aquém daquilo que arrotava. Falava clichês e, em seguida, repetia lugares comuns. Estou me lembrando, como é bom. A estratégia paterna funciona. Mas ainda há o desconhecido, homem ou mulher, seria outro animal quiçá. Concentrei-me nele ou nela. Fiz que tinha voltado ao sonho e perguntei-lhe quem era, mas tal estratégia não funcionou posto que o sonho já havia terminado e o que eu remontava agora era uma outra coisa diferente. Além disso, teria novamente respondido, Eu sou eu. Mesmo se agora eu o identificasse, não mais saberia se o teria identificado com correção ou não. Chamarei-o de múmia. A múmia conversava com a velha como se ela não tivesse nela a malignidade da qual antes nos referimos, saltava aos olhos. Quanta a inocência daquele ente que tratava a velha como amiga. Há uma mitologia do mal e do bem na natureza humana, a velha e a múmia. A múmia simplesmente ignorava o rapaz padrão e por vezes dava atenção à garota, como que a reparar nela qualquer tipo de senso estético desenvolvido. Não é para menos, posto que era assim tão bela em formas e trejeitos. Escutava a velha má com atenção, ignorava o mancebo normal e apreciava a estética do feminino. Cheguei mais perto e finalmente reconheci quem era a múmia. A múmia era eu mesmo e percebi que, nas andanças que fazia, meus olhos eram como uma câmera que filmava os acontecimentos de fora. Assim eu via o que acontecia como um observador externo. Não conseguia me identificar posto que jamais me vira pelo exterior. Agora, tu, Uma vez tendo deduzido que o ser inidentificável se tratava de mim mesmo, conseguia finalmente definir-lhe o rosto e reparei em certos ângulos de mim mesmo que jamais notara. Entendi também, finalmente, seu comportamento. Não era ingenuidade que tinha com relação à velha, eu-o-personagem, era sim curiosidade pelo ser humano. Ele-eu queríamos entender o que teria acontecido na vida de alguém para que esta luz vermelho-negra do olhar assim se apresentasse. As informações obtidas eram passadas por um filtro psicológico da malignidade, tentando atravessar até o verdadeiro significado. Queria aprender para saber como fugir daquilo, eu não poderia jamais ser como a velha. Escutei e ela disse tantas coisas que não me lembro, mas tive a nítida sensação de saber o que eu não deveria fazer para manter meus olhos sempre brilhando positivamente este azul-esverdeado. A garota uma vez me disse que meus olhos brilhavam e que isso se dava porque eu amava a vida. Os olhos da múmia que era eu também brilhavam. Estava interessado sexualmente na garota, mas não estava para disputas com o rapaz que, depois de observado pela musa com um olhar lancinante que tudo dizia sem qualquer palavra ou fonema, simplesmente fez o favor de desaparecer por completo. Não deixou vestígios. Tendo então percebido a minha oportunidade dada a falta de competidores, atentei-me para a garota. Palavras saiam de sua boca como agradável música aos meus ouvidos e o prazer de escutá-la e de estar perto dela era tão amplo e repleto que todo o cenário em volta de repente desapareceu. Nada de velha ou banco ou cadeira ou céu ou chão ou marcha estradeira, passarinho na mão, pedra de atiradeira. Nada nada. Só nós dois agora existíamos e assim olhamo-nos nos olhos por um tempo imensurável e dentro deste olhar havia os dizeres como o "eu te amo", só que muito mais fortes e vigorosos. Foi quando cheguei para tocá-la que tudo então desapareceu e vi pessoas que me enxergavam fora do estado onírico. Os sonhos são as vezes como a realidade, quando tudo parece que vai dar certo, de repente algo acontece e acaba com tudo. A realidade é inimiga dos seres humanos tanto quanto dos poetas. E dado que havia passado ao estado de vigília, suspirei profundamente por não ter conseguido consumar meu amor com aquela a quem amava e cujo sentimento eu sabia ser recíproco. Algo nos impedia e este algo era a realidade. E por não ser consumado, nosso amor acabou ficando maior ainda e englobou todo o mundo, segundo pude constar. Olhos então abertos, mundo material, sonho finito. Ninguém me observava. Estava no quarto sozinho, sempre sozinho. Levantei-me para tomar café.

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1 Comments:

Anonymous thebanshees said...

Acho que eu gostava mais da mumia quando ela era o ser-inidentificavel-de-identidade-recem-descoberta, mas que ainda nao tinha descoberto o amor. Nao sei porque... vc mesmo me diz que eu sou uma doida, vai ver tem razao e eh por isso que eu vivo dizendo besteiras...

Observar-se a si mesmo, ver-se a si do lado de fora. E nao se reconhecer. Gosto disso. Qual o tamanho da pretensao que todos nos temos ao pensarmos que - disparate - conhecemo-nos a nos mesmos? Um dia desses estava a ver um video que fizeram de mim enquanto eu nao estava percebendo ser filmada, e pensei sobre isso. Ver-se (nao sob a forma de um personagem, como acontece com os atores) a interpretar-se a si proprio, que surpreendene que eh. Devo confessar que havia em meu sorriso alguma coisa irritante, alguma coisa pouco natural, que me deixou um tanto surpresa. Eu nao sorrio assim quando olho pro espelho. Sera que eh porque, quando olho pro espelho, interpreto-me diante dos meus olhos?

11:53 AM  

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