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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

25.1.08

Epilepsia

É noite. Chove. Preciso fumar um cigarro. Na França não se pode mais fumar em locais fechados, é contra a lei. Estou em casa e a casa, embora não seja minha, é minha, pois que estou nela, pago o aluguel e não devo nada a ninguém. Além do mais, nenhum idiota vai vir bater na minha porta e me incomodar apenas porque fumo um cigarro dentro da minha própria e suposta casa. Mas é contra a lei. Não ligo para a lei. Quem tem sua própria moral e sua própria boa-índole não precisa seguir as leis dos outros. Ah, essas idéias iluministas. Como uma mesma lei pode servir para todas as pessoas? Os humanos são diferentes, se você não sabe. Sou um romântico e sou livre para seguir minha própria lei. Assim posso fumar aqui se eu bem entender e Rousseau nenhum vai me impedir disso. De qualquer maneira, o corredor fede fumaça de cigarro. Mas vou sair. Vou sair porque eu quero sair, não porque alguns idiotas resolveram que não se pode fumar dentro de casa. Coloco uma meia -- apenas para não molhar os pés com a chuva -- e desço até o térreo de chinelo mesmo. Saio pela porta e acendo o cigarro enquanto a água que cai dos céus irriga meu contínuo corpo-mente, aquilo que Damasio chamou com propriedade do "erro de Descartes".

Acendo o cigarro e olho ao longe. Tenho vontade de andar um pouco. Andarei um pouco? Lembro então dos estudos do meu amigo Gabriel. Os ratos epilépticos, quando colocados em um campo aberto, preferem ficar sempre num mesmo local, restritos a um canto ao invés de explorarem todo o ambiente experimental: apenas uma caixa sem graça. Os ratos normais às vezes saem do local onde são colocados para explorarem o ambiente e verificarem o que anda acontecendo do outro lado da caixa. Não sou um rato epiléptico, absolutamente. Para começar não sou um rato e, finalmente, não sou epiléptico: quero explorar o ambiente! Mas chove. Chove e eu, além de não ser epiléptico -- será que não sou mesmo? --, não sou de açúcar. Ando um pouco e vejo o que há ao redor. Prédios e frio e chuva. Não há ninguém na rua. Serão todos epilépticos? Alguém passa correndo, parece um indiano. Talvez seja um indiano de açúcar, talvez derreta quando a água cai do céu em cima de si. Duvido que derreta, embora talvez pense assim. Somos água, se você não sabe. Cerca de um décimo do nosso corpo é sangue e além do mais, há o citoplasma coloidal de nossa células. Não somos sólidos, somos líquidos: vida é agua; água é vida. Fico na chuva e me sinto feliz por não estar em casa com epilepsia ou doce ou numa solidez só. Algumas bicicletas estão ali e seus bancos são molhados pela chuva. A minha bicicleta, embora não seja de açúcar, está guardada no abrigo e amanhã não precisarei cobrir seu banco com um plástico ou coisa que o valha antes de pedalar até algum lugar qualquer. Não precisarei sequer secar seu banco, pois que ela estará seca. A bicicleta não é vida, não é água. Se estiver chovendo, no entanto, irei de metrô. Não que eu seja de açúcar ou seja sólido, mas acontece que ficar trinta minutos debaixo de chuva a uma dezena de quilômetros por hora irá me fazer chegar encharcado e pessoas encharcadas não são muito bem tratadas pelas outras pessoas: é um problema social. Não obstante, é um tanto quanto desconfortável estar encharcado e ficar o dia todo molhado, mesmo que sejamos de fato líquidos, em última análise. Além disso, estar encharcado de alguma forma debilita o sistema imune e facilita a infecção por vírus, que parecem não serem vivos nem líquidos, ao menos antes de nos infectarem. Enfim, esperemos até amanhã para saber o que irá acontecer. Amanhã vai ser outro dia e esse papo de chuva e açúcar já cansou.

Tenho sorte de estar em meio a pessoas abertas e que, como eu, também gostam de ciência. Ontem viajei com os chefes e o dia inteiro discutimos ciência, evolução, origem da vida, metodologias genômicas para entender como a vida, maravilhosa!, espalha-se por aí. Entender. A vida. Não sou biólogo à toa, gosto mesmo de entender a vida. Gosto de fazer ciência, pensar, imaginar, filosofar, descobrir. A aventura humana também me interessa e poderia ser um profissional do entendimento do homem. Poderia ser tantas coisas... Poderia ser um acomodado, poderia estar dentro de casa tendo ataques epilépticos -- ou quase isso. Não, acho que isso aí eu não poderia ser, vai contra minha índole, minha ideologia. Prefiro sair e explorar, como o roedor do experimento do Gabriel. Um camundongo, um rato, um humano. Em ciência trabalha-se com um camundongo e diz-se: com o homem acontece parecido. Pode ser estranho, mas garanto que faz bastante sentido. Primatas e roedores dividiram sua história evolutiva durante muito tempo. É como se duas pessoas saíssem de BH e fossem pro Nordeste, mas uma fosse para Recife e outra para João Pessoa. Elas dividiriam boa parte do caminho, assim como os primatas e os roedores dividiram boa parte do caminho evolutivo desde que surgiu a vida. Eles caminharam juntos na trilha da vida até um certo ponto a estrada de uns seguiu para Recife e de outros para João Pessoa, não necessariamente nesta ordem.

Toquei música a noite inteira. Vejo agora meu violão de forma diferente, depois de ter conhecido o Xavier, meu amigo francês que mora na Alemanha. Não sei onde ele está agora e talvez esteja com sua esposa falando sobre seu amigo brasileiro, assim como eu estou com meu... computador. O professor X tem mais sorte que o Wolverine com as mulheres, nos quadrinhos não era assim. Xavier constrói violões e me ensinou algumas coisas sobre a arte de produzir um instrumento musical. Contou-me sobre detalhes mais sórdidos da arte, disse-me sobre como moldar a ponte -- uma das partes mais interessantes, onde as cordas encaixam na caixa acústica. Mostrou-me também as principais peças da madeira e como elas se encaixam ou são coladas, depende da técnica. Disse-me sobre o Sandrel -- não lembro se era este mesmo o nome, em inglês --, que pode ser de osso ou de plástico e que deve ficar preso firmemente na madeira, a parte de baixo sendo chata e polida de forma suficiente para encaixar firmemente na ponte. Ensinou-me a melhor maneira de trocar as cordas e prendê-las de um lado e de outro, falou-me sobre a qualidade da madeira e atestou a qualidade da que é feita meu violão, o violão do meu pai, nosso violão. Não se acha mais dessa madeira para comprar, não é comercialmente viável, demora para crescer. É uma pena mas é uma sorte: tanta gente no mundo, precisamos de um desenvolvimento sustentável. Parece que é um tipo de cedro, ele diz o nome em inglês mas não sei se consigo uma boa tradução: é uma madeira tipicamente brasileira, excelente qualidade! Bateu aqui e ali na caixa acústica e simulou uma percussão fazendo sons ora mais graves, ora mais agudos, mais próximos ou distantes da abertura por onde ecoa o som. Xavier também não é um rato epiléptico, é um cientista que sonha em trabalhar produzindo violões. Ciência e música, temos vários interesses em comum, diz ele depois de tocar, sem olhar para as cordas, uma música de Bach que ia e vinha no braço do violão. Lia a tablatura no computador e tocava com desenvoltura, as vezes parava para passar a página com o mouse. Fiquei impressionado. Ele encontrou alguns defeitos também no meu violão e combinamos que, muito em breve -- eu marcaria este "breve" em número de anos, menos de uma dezena -- eu mandaria meu violão para ele reformar em seu estúdio. Ele sonhava em estar num estúdio repleto de instrumentos à sua volta. Seu irmão era músico e era o que ganhava mais dinheiro da família. "Depois dizem que música não dá dinheiro", completou. Tinha um amigo, o irmão. O amigo tinha uma loja e precisavam de alguém que montasse violões por lá, a vaga era sua, só precisava terminar o PhD e ver mais algumas coisas. Tinha que terminar logo. Ele disse que reformaria com prazer meu violão, eu disse que pagaria com prazer, espero que ele não cobre muito caro. Mostrou-me o livro de tecnicalidades violonísticas que descrevia exatamente como o sandrel deveria ser encaixado na ponte: 2/3 dentro da madeira, um terço fora.

Combinamos de nos encontramos da próxima vez que ele vier aqui, tocaremos mais violão. Neste dia não estava chovendo, como hoje. Saímos para fumar e eu ainda não tinha a bicicleta. Discutimos sobre ciência e música. Andamos um pouco, posto que não somos ratos nem epilépticos: somos cientistas e aspirantes a músicos. Aspirantes a cientistas, eu também diria. Aspirantes à vida, de fato. Espero ser sempre um aspirante, se você quer saber. De fato, sou um cara bem incompleto e não quero me completar. Uma pessoa completa, deveria ter dito isso a ela, é uma pessoa que se engana. A vida é o ensaio dela mesma, dizia Kundera. Ninguém é completo, embora muitos pensem ser; pobres coitados. Creio que temos mais é que sermos incompletos mesmo, embora um certo grau de completude -- ou auto-satisfação -- seja bom em alguns pontos específicos de nossa vida, sentimental. Talvez eu pudesse completá-la, não sei ao certo. Tenho receio e esperança: muito e pouco, respectivamente. Ainda chove e pela janela vejo que não há viv'alma na rua: são todos loucos e/ou epilépticos ou feitos de açúcar. Eu que também estou aqui, conversando com um computador, devo ter algum tipo bem documentado de epilepsia, vá saber...

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17.1.08

Careta

Acordou um tanto quanto zonzo naquela noite. A lua brilhava insólita abaixo das montanhas. Era, ora, de tomar decisões. Levantou-se com a mão esquerda -- bom sinal! -- e partiu para casa. Seria aquele um dia tranqüilo, engoliu uma pilha das grandes, andou ao telefone e saiu, apressado, deixando as janelas de casa abertas: parecia que ia chover. Enquanto dirigia, esquecia-se do que acontecera no dia anterior e também nos dias posteriores. De fato, entendia que seu dinheiro não seria suficiente para doar o lixo. Quando chegou a seu destino, acendeu um sapato e retirou seu cigarro. Bebeu a água do recinto e perguntou ao empregado que dia era aquele. Dada a resposta: "ontem", decidiu andar de sexta marcha, mas foi interrompido por uma parede que jamais houvera visto antes, mesmo quando tinha ouvidos nas costas. Retirou a camisa e verificou seu contra-cheque, realmente seu sétimo sentido havia desaparecido. Aguçou então sua audição e sentiu, contra seu corpo, uma torrente de sons quentes e frios. Na pele, intensos e agudos, graves e rítmicos, pululavam seus sentimentos. Finalmente entendia o que estava acontecendo.

Sentou num sofá na varanda para descansar e ligou um jornal. Verificou as notícias do dia seguinte e decidiu não participar dele, selecionou 2 no mostrador de seu temporizador de pulso e clicou em desativar. Era cedo da noite novamente. Esperto, escolheu desta vez o pé direito para iniciar o dia, talvez desse mais azar. Coincidência. Pulou da cama para o travesseiro e esqueceu a cintura no repousador. Só se deu conta disso horas depois, quando a égua o observava com cara de desejo e ele não tinha consigo todos seus órgãos. Tanto melhor, não se curvaria aos ensejos de seus genes altruístas. Andou de mãos para cima até chegar lá. Não encontrou o lugar. Perguntou a alguém de tronco curvo e trejeito monástico. Observou a responta: "lá é lá", enquanto escutava-o apontar para algum ponto e rodar. O médico, então, observou-o e verificou que sua garganta ia repleta de cátions e ânions de gases com título de nobreza. Estava insaudável. Pulou de para-quedas e gritou aquele filme do Hitchcock inteirinho, começando pelo final e seguindo sem cortes de martelo. Não tinha bugalhos nem cebolas. Finalmente entendia o que estava acontecendo.

Clicou no botão aleatorizar novamente. As lâmpadas soltavam rugidos estranhos, telefonou para si mesmo e perguntou-se o que estava acontecendo. Explicou-se, mas não se entendeu. Ah, como era diferente de si mesmo. Alguém tocava a campainha, leu um livro do mineiro Rubião, escrito em árabe, e então bebeu dois copos de maças com bananas, em barra. Estava melhor. Sentia um cansaço no estômago, seus desejos latejavam. Andou como um saci até lá, encontrara então o lugar. Telepatizou com ela, com ele, com elas e com eles, e também com outras pessoas do subjuntivo. Viu duas caixas ao fundo e, curioso, foi-se embora. Pisou em marshmellow e comeu bolas de gude, sua sede estava saciada. Em Marte, perguntou sobre Alfa-centauro e descobriu que era assim mesmo, tanto pior. Pediu dinheiro à rua e, tendo sido contemplado, sentiu-se desfeliz durante o resto daquela jornada: tinha feito uma boa atenção. Caiu para cima e, à queda, quebrou a língua. Queimou os sapatos e agradeceu, cumprimentando-se com dois beijinhos, para que se casasse sem dor. O espelho escutou-se nele e fez uma careta que ele não imitou. Era isso, finalmente entendia o que estava acontecendo.

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13.1.08

Auto-psicologia num frio domingo europeu


Hoje é domingo, pede cachimbo. Sempre tive falta de paciência com essas brincadeiras infantis idiotas. Talvez um dia, quando tiver filhos, vou inventar rimas tão ridículas como esta e vou gostar de vê-los sorrindo ao repetí-las. Ainda não é o caso, embora cada vez mais a idéia de ter filhos se torne, para mim, normal e quase necessária para transformar essa absurdidade que é a vida da gente em algo gracioso e que valha a pena. Por falar nisso, nada me comove mais do que educar. O poeta que me desculpe, mas nem o amor me comove tanto. Ver as pessoas repetirem aquilo que de mais bonito já se disse e saber que foi você que implantou aquela bela idéia na cabeça dessas pessoas é algo muito comovente, pelo menos para mim. Educar bem uma pessoa é transformar o mundo num lugar melhor.

Bem, é domingo e estou aqui sozinho e distante. Fiquei o dia todo em casa, fazendo essas coisas que se costuma fazer num domingo, ou seja, porra nenhuma. Acordei, li e escrevi e-mails -- pelo menos tenho internet --, conversei com alguns amigos em ferramentas de chat. Escrevi uma poesia e toquei violão. Tentei tocar baixinho, que era para não incomodar os vizinhos. Aqui na Europa as pessoas são um tanto quanto neuróticas com esse negócio de não incomodar os outros. Não quero ficar assim. Se elas se sentirem incomodadas, estou certo que não hesitarão um segundo em bater na porta do quarto e pedir que eu pare com minha sinfonia sambística. Toquei então mais alto, cantei também, li na partitura o solo de algumas músicas e fiquei no pom-pom-pom-pim-pom. O tempo passou lentamente, li umas coisas na internet e tal, minha mãe me ligou. Está frio, há neblina do lado de fora. Sairei ou não sairei?, eis a questão. É meio idiota passar um domingo inteiro dentro de um quarto de cerca de 20 metros quadrados. Foda-se o frio: vou sair.

Cirola, calça, meia, blusa, pullover, casaco, luva, gorro, cachecol. Finalmente, estou do lado de fora. Ando escutando uma música francesa no meu mp3 player. Tento entender a letra, mas só consigo perceber palavras perdidas, ainda não sou muito proficiente no idioma de Voltaire. Marcho até chegar ao ponto do trem, que eles aqui chamam de tram. Talvez chamem coisa de coise, para compensar. Chego e me assento. O mostrador indica: 3 minutos para o próximo chegar. Quero fumar um cigarro e três minutos não são suficientes: sei porque já tentei. As árvores estão sem folhas. O tempo é frio e úmido. Há pessoas que chegam e se vão, são poucas, ninguém anima de tomar frio gratuitamente nas fuças. Já está escuro e nem são cinco da tarde. Há um fast-food podrão americanóide do outro lado da rua, talvez uma coca-cola acompanhe bem o cigarro, o outro trem chegará em 18 minutos, segundo o mostrador. Dezoito minutos dá pra fumar um cigarro, mas cigarro a seco eu não gosto. Em vez da coca, escolho um café, combina melhor com a temperatura; e também com o cigarro. Não entendo o que o sujeito do caixa diz, não tento entender direito, não quero dizer que não falo francês e ter que explicar toda minha história. Finjo que é isso mesmo: oui, oui. Ele me dá um mini-café, cobra um euro e diz "au revoir". É isso mesmo! Pego o café e volto ao ponto. Ainda faltam dez minutos. Nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três. Passa o tram pro outro lado, pessoas descem, o cigarro termina junto com o café. Dois, um, proche, arrive, subo, sobem outras pessoas, o trem parte.

No trem, continuo escutando música e balançando os pés no ritmo. As pessoas olham para mim com um ar estranho, não se pode demonstrar felicidade aqui, ao que parece. Nem felicidade, nem tristeza, nem nada. As pessoas no trem têm cara de zero. Não estão felizes nem tristes. A Europa está realmente na pós-modernidade e todos têm esse ar de melancolia, de que nada vale nada e de que todo o dinheiro e bem estar social do mundo não servem pra coisa alguma quando o quesito em questão é ser feliz. Os inocentes achavam que explorando os pobres -- ou seja, nós -- eles viveriam melhor, mas esse melhor é uma questão um tanto quanto relativa. No Brasil as pessoas são mais pobres, mas muitas são felizes assim mesmo. A dona Carminha sempre limpa o chão do ICB sorrindo e trocando idéias com a galera. Ela é mais feliz do que 99% dos europeus, estou certo. É mais feliz que muitos brasileiros também, há de se convir. Engana-se redondamente quem acha que felicidade é questão de dinheiro. Aqui as pessoas ficam afastadas, conversam baixo (quando conversam) e o sujeito que entrou no alojamento onde estou morando outro dia, passou olhando para baixo como a dizer: "não me incomode". Respeitei-o e nem quis conversar com ele, mas confesso que o achei idiota. As pessoas na Europa são, em geral, muito individualistas, andam olhando para seus umbigos.

Cheguei no centro e desci, dei umas voltas e tentei me localizar. Os becos são todos parecidos nessas cidades, as esquinas, tudo igual. Encontro o cinema que fui ontem com meus novos amigos brasileiros, mas não achei a catedral, mesmo com sua torre super-alta e que, segundo a wikipedia, era a maior construção humana em 1493, quando terminou de ser construída: maior até que a pirâmide de Gizé. A internet e suas inutilidades... Mas também não quero ver catedral nenhuma, quero passear aleatoriamente: flanar, como dizem por aqui. Não quero prestar atenção, não quero nada, só quero passar o tempo deste domingo, pede cachimbo, cachimbo de ouro. É isso mesmo? Ando, ando e ando. Fico perdido e depois me encontro. Ainda não entendo a cidade e desisto de procurar a casa dos meus amigos, está frio e minhas mãos já estão congelando. A orelha também. Tudo está fechado, tudo está fechado, domingo é sempre sim, pra quem não está acostumado, bem como já dizia o titã. Só não tem Sílvio Santos por aqui. Entro de novo no trem para voltar, tarefa cumprida: não fiquei o domingo inteiro em casa.

Subo no último vagão, nunca tinha viajado ali e percebo que este em que agora estamos é o vagão dos párias da sociedade. Há sujeitos esquisitos, fedorentos e banguelas por aqui, credo! Mas não, de repente entra um senhor e uma mulher e uma criança e um sujeito de bicicleta, é preciso tomar cuidado com as generalizações baseadas em um ene pequeno. É preciso convocar os estatísticos. Uma menina está encostada no canto e tem uma mala. Ela é linda mas parece estar com medo. Como está logo ao lado do visor que mostra qual será a próxima estação, tenho uma boa desculpa para observá-la. Ela tem uma franja que chega aos olhos e um queixo dividido ao meio. Tenho a impressão de que não é francesa, está com medo. Por que estaria com medo, se fosse francesa? Por que quando a gente está num lugar que não é o nosso, temos a mania de achar que as outras pessoas também não são daquele lugar? Olho para ela e ela percebe que a percebo. Tento fazer uma cara boa, cara de brasileiro, cara de gente-boa, cara feliz, que é pra ver se ela fica mais à vontade. Finjo que canto e estalo os dedos ao som da música que vai aos meus ouvidos. Ela olha para mim e desvia, não quer mostrar que me olha. Eu continuo fitando-a, ela abre um pouco a cara, mas é só para em seguida fechar de novo, talvez tenha agora medo de mim. Por que as pessoas têm medo umas das outras? Ela parece ter medo de tudo. Olha para todos os lados, ansiosa, amedrontada. Bem, penso que talvez a cara dela não seja de medo e que a cara de medo do francês pode ser diferente da cara de medo do brasileiro. Talvez eu é que esteja interpretando mal sua expressão. Mas então lembro do livro do Darwin, onde ele apresenta argumentos de que até os animais, creio que se baseia principalmente em cães e gatos para evidenciar sua tese, apresentam as mesmas expressões dos humanos para demonstrar sentimentos. Confio em Darwin e concluo que o que ela sente é medo mesmo; e ponto final. Então tenho pena dela e me dá vontade de afagar-lhe os cabelos e dizer que tudo está bem, que não há o que temer. Mas já é hora de descer e, de qualquer forma, não faria isso. Sou um bosta. Passo a seu lado sem olhá-la diretamente. Desço e ela fica, a porta fecha e, do lado de fora, com o trem já em movimento, ela me olha; dou um tchauzinho. Ela ainda tem medo, não responde, não se mexe, quase não respira: não foi dessa vez que consegui fazer alguém ficar mais tranqüilo com o mundo. Quem sabe da próxima?

Vou andando de volta pra casa e o frio é intenso. Penso em correr e depois desisto. O frio é psicológico, tento me convencer. Nem está tão frio assim. É preciso controlar as sensações, o máximo que pode me acontecer é eu ficar congelado aqui até sair o próximo solzinho daqui a alguns meses. Ao longo de meus passos, o alojamento se aproxima. Quanto mais próximo o alojamento, mais forte é a sensação de frio. É psicológico, eu sei. A mesma coisa acontece quando estamos com vontade de ir ao banheiro. Quanto mais próximo o banheiro, maior a vontade. É psicológico, nem está tão frio. (Acho que preciso ir ao banheiro também, por que fui lembrar disso?) Vou repetindo que não está frio até chegar à porta. Giro a chave, entro e... agora sim, não está mesmo tão frio. O frio é só mais ou menos psicológico, concluo. E a calefação, essa sim, é bem real.

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11.1.08

Relatório de Viagem 1, data estelar 09012008


Finalmente encontrei um transmissor para enviar-lhes este relatório. Cheguei na data prevista e, embora tenha tido problemas, cheguei bem e estou vivo, não se preocupem. A propósito, a viagem estelar foi tão tranqüila quanto ela poderia ser. Embora tenha havido alguns problemas burocráticos e que tenha sido necessária a troca da espaçonave no último instante, tudo correu bem posteriormente, melhor do que eu esperava. Está aí a vantagem de ser um pessimista: quando as coisas vão bem e você não espera, fica-se feliz. Na espaçonave, fui esperto e dei sorte de pedir um lugar preferencial durante o trajeto; nem mesmo a gravidade zero, os problemas de pressão e de super-velocidade foram-me incômodos. Espero que a tranqüilidade da minha viagem estimule vocês a virem para cá também. Durante o trajeto vim pensando que essas espaçonaves são o que há de mais belo em termos de desenvolvimento tecnológico e de engenharia. É incrível como conseguimos desenvolvê-las: viajam rápido, são estáveis, seguras e quase agradáveis; quase.

Sobre os habitantes deste lugar, apesar de serem um tanto quanto esquisitos, eles têm sido bastante simpáticos comigo. E eu com eles, é claro. O pintor, inclusive, disse que queria ter uma costeleta como a minha, caso fosse mais jovem. Mas ele não era jovem mais, era gordo e tinha um bigodinho estranho. Também não estou bem certo que foi isso que ele disse, mas agradeci enquanto ele continuava a pintar o teto do hangar; não, não era nenhum Picasso. Há toda a sorte de esquisitos aqui na estação espacial onde tenho trabalhado, inclusive um sujeito que tem o sobrenome Adams; grande, careca e esquisito, ele trabalha com os olhos grudados no monitor. De qualquer forma, este é um planeta muito mais universalizado do que o nosso e, assim, os habitantes estão acostumados com a presença de estranhos seres oriundos doutros pontos da galáxia -- eu incluído. Por isso talvez não me acham assim tão esquisito, embora minhas características biológicas atestem fortemente para o fato de que não venho daqui.

Até o dia de ontem, eu havia estado apenas dentro da estação espacial na qual irei trabalhar e não tinha, portanto, podido conhecer muito bem os arredores. Hoje, entretanto, utilizando a desculpa de que precisava comprar um aquecedor dérmico -- acessório que todos os seres utilizam por aqui, dadas as baixas temperaturas -- pude ir ao centro desta vila estelar e fui dispensado do trabalho. De fato, estava ansioso para conhecer melhor este lugar e, bem, minha pele também já ia congelando. É preciso unir o útil ao agradável, mesmo noutros lugares do cosmos. Fui então informado por (aqueles que pensam ser) meus superiores sobre os procedimentos corretos para se chegar ao centro da vila e fiquei impressionado com a modernidade dos equipamentos de transporte que eles dispõem por aqui. Uma moderna aeronave elétrica faz o transporte dos francesáqueos daqui para ali, embora as palavras aqui e ali sejam, aqui, a mesma palavra. Minto. De fato, há duas palavras para significar aqui e ali, mas usa-se uma e outra em qualquer caso. Assim, o fracesáqueo nunca sabe onde está.

Gastei alguns minutos para entender como se comprava o ticket para adentrar a aeronave e, uma vez dentro dela, cheguei rapidamente ao centro comercial. A vila estelar é bem maior do que eu pensava e há milhões de habitantes flanando para lá e para cá em seu centro. Flanei também eu, enquanto observava as construções, os alienígenas, o rio, o céu, tous les choses. Percebo os habitantes daqui e todos estão com vestimentas de cores escuras, sou o único em trajes claros e, com esta costeleta e esta tez, não poderia mesmo passar por um francesáqueo. Bem, não quero me passar por um, mas como irei viver aqui por algum tempo analisando-os e enviando estes relatórios a vocês, quero ao menos tentar passar o mais desapercebido possível de forma a não alterar excessivamente o comportamento deles e poder analisá-los em seu estado selvagem.

O lugar onde vivo é pequeno, porém agradável e, como já toquei um ou dois sambas e espalhei meus livros em todo canto, já me sinto quase em casa. O som reverbera bem neste mundo, mas concentra-se dificilmente na leitura, embora o sono seja extremamente repousante. Tenho dormido muito e bem, parece que há uma certa magia nas camas deste planeta. Pode ser também um resultado das baixas temperaturas, onde meu organismo tenha acionado o modo de hibernação. Ontem mesmo havia sido convidado para jantar com (aqueles que pensam ser) meus chefes e eles foram obrigados a me acordar para sair. Acordei e fui de cara amassada mesmo. Discutimos algumas coisas e ainda não sei bem o que devo fazer -- nem eles: tanto melhor. Hoje também fui acordado por alguém que dizia que minha bagagem -- extraviada -- havia finalmente chegado. Busquei-a amassado e nem pude arrumar direito as coisas, já era hora de trabalhar. Almocei, fui ao supermercado, tirei outro cochilo à tarde. Dada a magia do sono, quase não acordei para visitar o centro da vila -- digo, para comprar o aquecedor dérmico --, mas finalmente fui capaz de vencer o feitiço do sono e, o resultado, você já sabe. Peço desculpas por não enviar mais mensagens, mas tem sido difícil encontrar transmissores. Agora estou em meus aposentos e já sinto mais uma vez a magia sonífera, não resistirei mais tempo. Enviar-lhes-ei outras mensagens em breve e, como se diz por aqui: até o rever!

4.1.08

Crônica de quem deixa o lar


Estou em casa. Sozinho. Daqui a três dias estarei pegando o avião e deixando para trás este meu lar. Mudei para cá faz pouco mais de um ano, mas sinto que faz uma vida inteira. Será um ano uma vida inteira? Subo na cadeira pela última vez para ver melhor o céu, acima do muro, a abóbada celeste inteira abre-se à minha visão e a luz saída daquela estrela há bilhões de anos atiça minha retina. Desta varanda, desde um ano atrás, vi bilhões de anos. Juntei, desjuntei. Morri e nasci. Estou jovem, saudável. Agora vou embora. Por que mesmo vou embora? Difícil responder. A experiência profissional vai contar muito, preciso dela pra voltar e garantir o pão de cada dia. Ainda tenho que me preocupar com isso. Até quando? Provavelmente até o fim. Experiência pessoal também: outra língua, outro país, outra mentalidade, outra cultura. Tudo isso enriquece a gente e acho que é no que mais penso ao tentar secar as lágrimas que rolam perdidas em meio a caixas e embalagens e malas e burocracias.

Ali na varanda fizemos churrascos e festas. Neste quarto fumamos, trocamos idéias. Foi aqui também que entendi como funcionava o baixo em uma música. Foi aqui que escrevi boa parte daquele artigo que gosto. Aqui tive várias idéias e aqui escrevo estas palavras. É estranho a relação que temos com o espaço e, principalmente, com espaço em que vivemos. Sentimos mesmo uma relação de posse. A mesma relação que Rousseau diz ter corrompido o homem. Esta relação de nosso ser biológico com um lugar que seja "nosso" pode ter sido mesmo a idéia que está por trás do capitalismo por meio da instituição da propriedade privada. Que direito tem alguém de impedir outroguém de ir onde ele bem entender? Que direito tem um país de não me aceitar ali? Quem deu àqueles o direito de decidir onde eu posso ou não posso ficar? A liberdade é uma ilusão e eu definitivamente não gostaria de encontrar estranhos na minha casa. Haverá solução?

Tocamos foi muita música ali do lado de fora, comendo um churrasquinho. Vou dizer que os vizinhos reclamaram até muito pouco de toda nossa euforia. E se fossem calcular quantos quilômetros andei ali fora, à luz da lua, de um lado para o outro pensando sobre as mais diversas coisas... Gosto de pensar ao ar livre, às vezes pitando um cigarrinho, tomando um vinho ou uma coca-cola mesmo, light ou zero. Um ano parece pouco, mas acontece é muita coisa enquanto esse nosso planetinha dá uma única voltinha em torno do Sol. Beagá vai me dar saudades. As pessoas, as ruas, os bares, esta casa, a universidade. Tudo será diferente quando eu voltar, o Brasil se desenvolve. Estou aqui e às vezes me espanto com a velocidade da mudança. Acho que a gente vai pra frente, agora que os miseráveis estão desaparecendo. Mas ainda é muita desigualdade, estamos longe de chegarmos lá. Temo o próximo governo.

Pensei em sair hoje, últimos dias meus na cidade. Entretanto estou aqui tranqüilo: lendo, assistindo palestras na internet, fazendo downloads. Mudar dá muita mão de obra, ainda mais pra outro país, principalmente quando você tem um apartamento montado. Não recomendo pra ninguém, nem pra desafeto. Sentirei saudades e sempre lembrarei com carinho deste lugar. Acumular casas é acumular vida, que é acumular saudade. Viver é ter cada vez mais saudade e o velho é um poço das mais belas saudades. Quiçá pudessem todos escrever suas saudades para que este quem vos escreve pudesse apreciar toda a graça da tragicomédia humana. Enfim, interesso-me também pelos humanos e seus desejos, mas não me estereotipe como um cientista analítico. Não me estereotipe de forma alguma, por favor.

Um ano e já me vou. Quanto tempo ficarei? O que farei? Gostarei? Deslumbrarei? O que não falta na Europa são brasileiros deslumbrados com o monótono estilo de vida europeu. Encontra-se brasileiros deslumbrados há anos com as maravilhas do primeiro mundo. Ora, que maravilhas... Falta-lhes o doce à boca. E o sal também. Falta-lhes também uma pitada de tempero extra. Falta-lhes o samba e, mais especificamente, falta-lhes a saudade. Eu diria que falta o desejo também -- e talvez um pouco da libido. Olha que já estou estereotipando e estereotipar, a gente já sabe, é feio. (Ah, precisamos mesmo da moral.) Retiro, então, o que disse. E peço desculpas por ter sido assim tão imprudente na descrição, mas também não poderia despejar aqui insinceras palavras: isso jamais.

Ai de ti, crônica do meu lar, já passaste da física estelar à desigualdade brasileira, dentre questionamentos pessoais e má filosofia literária. Aqui estive por ano, aqui fui feliz e infeliz, aqui me diverti, cansei e descansei, lavei roupa e chão e varanda e banheiro, pratos e coisas podres na geladeira. Arrumei e desarrumei milhões de vezes, nesta guerra em que a desarrumação normalmente vence com facilidade. Culpa lá de Newton e sua segunda lei. Coitado, ele não tem nada a ver com a absurdidade deste universo que sequer beiramos o conhecimento. Ninguém sabe nada, embora muita gente saiba muita coisa. Parece paradoxo, mas não é. De qualquer forma, não sabemos o que poderíamos saber -- não temos acesso ao que Kant chamou de "coisas em si" -- e, logo, esta se torna uma discussão infrutífera, ad eternum. Vou pra cama, dormir uma de minhas últimas noites naquele colchão que está péssimo e inclusive me dá dor na coluna, espero que lá na França tenha um melhor. Mesmo com o colchão é bom dormir aqui no meu cantinho. Olha, Rousseau, não ia ter jeito não. A gente tem esse instinto territorialista mesmo, temos que conviver com isso. "A menina dos olhos de ouro" me espera e não posso deixá-la para trás. Desfrutarei dela hoje, até o fim.

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