Epilepsia
É noite. Chove. Preciso fumar um cigarro. Na França não se pode mais fumar em locais fechados, é contra a lei. Estou em casa e a casa, embora não seja minha, é minha, pois que estou nela, pago o aluguel e não devo nada a ninguém. Além do mais, nenhum idiota vai vir bater na minha porta e me incomodar apenas porque fumo um cigarro dentro da minha própria e suposta casa. Mas é contra a lei. Não ligo para a lei. Quem tem sua própria moral e sua própria boa-índole não precisa seguir as leis dos outros. Ah, essas idéias iluministas. Como uma mesma lei pode servir para todas as pessoas? Os humanos são diferentes, se você não sabe. Sou um romântico e sou livre para seguir minha própria lei. Assim posso fumar aqui se eu bem entender e Rousseau nenhum vai me impedir disso. De qualquer maneira, o corredor fede fumaça de cigarro. Mas vou sair. Vou sair porque eu quero sair, não porque alguns idiotas resolveram que não se pode fumar dentro de casa. Coloco uma meia -- apenas para não molhar os pés com a chuva -- e desço até o térreo de chinelo mesmo. Saio pela porta e acendo o cigarro enquanto a água que cai dos céus irriga meu contínuo corpo-mente, aquilo que Damasio chamou com propriedade do "erro de Descartes".
Acendo o cigarro e olho ao longe. Tenho vontade de andar um pouco. Andarei um pouco? Lembro então dos estudos do meu amigo Gabriel. Os ratos epilépticos, quando colocados em um campo aberto, preferem ficar sempre num mesmo local, restritos a um canto ao invés de explorarem todo o ambiente experimental: apenas uma caixa sem graça. Os ratos normais às vezes saem do local onde são colocados para explorarem o ambiente e verificarem o que anda acontecendo do outro lado da caixa. Não sou um rato epiléptico, absolutamente. Para começar não sou um rato e, finalmente, não sou epiléptico: quero explorar o ambiente! Mas chove. Chove e eu, além de não ser epiléptico -- será que não sou mesmo? --, não sou de açúcar. Ando um pouco e vejo o que há ao redor. Prédios e frio e chuva. Não há ninguém na rua. Serão todos epilépticos? Alguém passa correndo, parece um indiano. Talvez seja um indiano de açúcar, talvez derreta quando a água cai do céu em cima de si. Duvido que derreta, embora talvez pense assim. Somos água, se você não sabe. Cerca de um décimo do nosso corpo é sangue e além do mais, há o citoplasma coloidal de nossa células. Não somos sólidos, somos líquidos: vida é agua; água é vida. Fico na chuva e me sinto feliz por não estar em casa com epilepsia ou doce ou numa solidez só. Algumas bicicletas estão ali e seus bancos são molhados pela chuva. A minha bicicleta, embora não seja de açúcar, está guardada no abrigo e amanhã não precisarei cobrir seu banco com um plástico ou coisa que o valha antes de pedalar até algum lugar qualquer. Não precisarei sequer secar seu banco, pois que ela estará seca. A bicicleta não é vida, não é água. Se estiver chovendo, no entanto, irei de metrô. Não que eu seja de açúcar ou seja sólido, mas acontece que ficar trinta minutos debaixo de chuva a uma dezena de quilômetros por hora irá me fazer chegar encharcado e pessoas encharcadas não são muito bem tratadas pelas outras pessoas: é um problema social. Não obstante, é um tanto quanto desconfortável estar encharcado e ficar o dia todo molhado, mesmo que sejamos de fato líquidos, em última análise. Além disso, estar encharcado de alguma forma debilita o sistema imune e facilita a infecção por vírus, que parecem não serem vivos nem líquidos, ao menos antes de nos infectarem. Enfim, esperemos até amanhã para saber o que irá acontecer. Amanhã vai ser outro dia e esse papo de chuva e açúcar já cansou.
Tenho sorte de estar em meio a pessoas abertas e que, como eu, também gostam de ciência. Ontem viajei com os chefes e o dia inteiro discutimos ciência, evolução, origem da vida, metodologias genômicas para entender como a vida, maravilhosa!, espalha-se por aí. Entender. A vida. Não sou biólogo à toa, gosto mesmo de entender a vida. Gosto de fazer ciência, pensar, imaginar, filosofar, descobrir. A aventura humana também me interessa e poderia ser um profissional do entendimento do homem. Poderia ser tantas coisas... Poderia ser um acomodado, poderia estar dentro de casa tendo ataques epilépticos -- ou quase isso. Não, acho que isso aí eu não poderia ser, vai contra minha índole, minha ideologia. Prefiro sair e explorar, como o roedor do experimento do Gabriel. Um camundongo, um rato, um humano. Em ciência trabalha-se com um camundongo e diz-se: com o homem acontece parecido. Pode ser estranho, mas garanto que faz bastante sentido. Primatas e roedores dividiram sua história evolutiva durante muito tempo. É como se duas pessoas saíssem de BH e fossem pro Nordeste, mas uma fosse para Recife e outra para João Pessoa. Elas dividiriam boa parte do caminho, assim como os primatas e os roedores dividiram boa parte do caminho evolutivo desde que surgiu a vida. Eles caminharam juntos na trilha da vida até um certo ponto a estrada de uns seguiu para Recife e de outros para João Pessoa, não necessariamente nesta ordem.
Toquei música a noite inteira. Vejo agora meu violão de forma diferente, depois de ter conhecido o Xavier, meu amigo francês que mora na Alemanha. Não sei onde ele está agora e talvez esteja com sua esposa falando sobre seu amigo brasileiro, assim como eu estou com meu... computador. O professor X tem mais sorte que o Wolverine com as mulheres, nos quadrinhos não era assim. Xavier constrói violões e me ensinou algumas coisas sobre a arte de produzir um instrumento musical. Contou-me sobre detalhes mais sórdidos da arte, disse-me sobre como moldar a ponte -- uma das partes mais interessantes, onde as cordas encaixam na caixa acústica. Mostrou-me também as principais peças da madeira e como elas se encaixam ou são coladas, depende da técnica. Disse-me sobre o Sandrel -- não lembro se era este mesmo o nome, em inglês --, que pode ser de osso ou de plástico e que deve ficar preso firmemente na madeira, a parte de baixo sendo chata e polida de forma suficiente para encaixar firmemente na ponte. Ensinou-me a melhor maneira de trocar as cordas e prendê-las de um lado e de outro, falou-me sobre a qualidade da madeira e atestou a qualidade da que é feita meu violão, o violão do meu pai, nosso violão. Não se acha mais dessa madeira para comprar, não é comercialmente viável, demora para crescer. É uma pena mas é uma sorte: tanta gente no mundo, precisamos de um desenvolvimento sustentável. Parece que é um tipo de cedro, ele diz o nome em inglês mas não sei se consigo uma boa tradução: é uma madeira tipicamente brasileira, excelente qualidade! Bateu aqui e ali na caixa acústica e simulou uma percussão fazendo sons ora mais graves, ora mais agudos, mais próximos ou distantes da abertura por onde ecoa o som. Xavier também não é um rato epiléptico, é um cientista que sonha em trabalhar produzindo violões. Ciência e música, temos vários interesses em comum, diz ele depois de tocar, sem olhar para as cordas, uma música de Bach que ia e vinha no braço do violão. Lia a tablatura no computador e tocava com desenvoltura, as vezes parava para passar a página com o mouse. Fiquei impressionado. Ele encontrou alguns defeitos também no meu violão e combinamos que, muito em breve -- eu marcaria este "breve" em número de anos, menos de uma dezena -- eu mandaria meu violão para ele reformar em seu estúdio. Ele sonhava em estar num estúdio repleto de instrumentos à sua volta. Seu irmão era músico e era o que ganhava mais dinheiro da família. "Depois dizem que música não dá dinheiro", completou. Tinha um amigo, o irmão. O amigo tinha uma loja e precisavam de alguém que montasse violões por lá, a vaga era sua, só precisava terminar o PhD e ver mais algumas coisas. Tinha que terminar logo. Ele disse que reformaria com prazer meu violão, eu disse que pagaria com prazer, espero que ele não cobre muito caro. Mostrou-me o livro de tecnicalidades violonísticas que descrevia exatamente como o sandrel deveria ser encaixado na ponte: 2/3 dentro da madeira, um terço fora.
Combinamos de nos encontramos da próxima vez que ele vier aqui, tocaremos mais violão. Neste dia não estava chovendo, como hoje. Saímos para fumar e eu ainda não tinha a bicicleta. Discutimos sobre ciência e música. Andamos um pouco, posto que não somos ratos nem epilépticos: somos cientistas e aspirantes a músicos. Aspirantes a cientistas, eu também diria. Aspirantes à vida, de fato. Espero ser sempre um aspirante, se você quer saber. De fato, sou um cara bem incompleto e não quero me completar. Uma pessoa completa, deveria ter dito isso a ela, é uma pessoa que se engana. A vida é o ensaio dela mesma, dizia Kundera. Ninguém é completo, embora muitos pensem ser; pobres coitados. Creio que temos mais é que sermos incompletos mesmo, embora um certo grau de completude -- ou auto-satisfação -- seja bom em alguns pontos específicos de nossa vida, sentimental. Talvez eu pudesse completá-la, não sei ao certo. Tenho receio e esperança: muito e pouco, respectivamente. Ainda chove e pela janela vejo que não há viv'alma na rua: são todos loucos e/ou epilépticos ou feitos de açúcar. Eu que também estou aqui, conversando com um computador, devo ter algum tipo bem documentado de epilepsia, vá saber...
Acendo o cigarro e olho ao longe. Tenho vontade de andar um pouco. Andarei um pouco? Lembro então dos estudos do meu amigo Gabriel. Os ratos epilépticos, quando colocados em um campo aberto, preferem ficar sempre num mesmo local, restritos a um canto ao invés de explorarem todo o ambiente experimental: apenas uma caixa sem graça. Os ratos normais às vezes saem do local onde são colocados para explorarem o ambiente e verificarem o que anda acontecendo do outro lado da caixa. Não sou um rato epiléptico, absolutamente. Para começar não sou um rato e, finalmente, não sou epiléptico: quero explorar o ambiente! Mas chove. Chove e eu, além de não ser epiléptico -- será que não sou mesmo? --, não sou de açúcar. Ando um pouco e vejo o que há ao redor. Prédios e frio e chuva. Não há ninguém na rua. Serão todos epilépticos? Alguém passa correndo, parece um indiano. Talvez seja um indiano de açúcar, talvez derreta quando a água cai do céu em cima de si. Duvido que derreta, embora talvez pense assim. Somos água, se você não sabe. Cerca de um décimo do nosso corpo é sangue e além do mais, há o citoplasma coloidal de nossa células. Não somos sólidos, somos líquidos: vida é agua; água é vida. Fico na chuva e me sinto feliz por não estar em casa com epilepsia ou doce ou numa solidez só. Algumas bicicletas estão ali e seus bancos são molhados pela chuva. A minha bicicleta, embora não seja de açúcar, está guardada no abrigo e amanhã não precisarei cobrir seu banco com um plástico ou coisa que o valha antes de pedalar até algum lugar qualquer. Não precisarei sequer secar seu banco, pois que ela estará seca. A bicicleta não é vida, não é água. Se estiver chovendo, no entanto, irei de metrô. Não que eu seja de açúcar ou seja sólido, mas acontece que ficar trinta minutos debaixo de chuva a uma dezena de quilômetros por hora irá me fazer chegar encharcado e pessoas encharcadas não são muito bem tratadas pelas outras pessoas: é um problema social. Não obstante, é um tanto quanto desconfortável estar encharcado e ficar o dia todo molhado, mesmo que sejamos de fato líquidos, em última análise. Além disso, estar encharcado de alguma forma debilita o sistema imune e facilita a infecção por vírus, que parecem não serem vivos nem líquidos, ao menos antes de nos infectarem. Enfim, esperemos até amanhã para saber o que irá acontecer. Amanhã vai ser outro dia e esse papo de chuva e açúcar já cansou.
Tenho sorte de estar em meio a pessoas abertas e que, como eu, também gostam de ciência. Ontem viajei com os chefes e o dia inteiro discutimos ciência, evolução, origem da vida, metodologias genômicas para entender como a vida, maravilhosa!, espalha-se por aí. Entender. A vida. Não sou biólogo à toa, gosto mesmo de entender a vida. Gosto de fazer ciência, pensar, imaginar, filosofar, descobrir. A aventura humana também me interessa e poderia ser um profissional do entendimento do homem. Poderia ser tantas coisas... Poderia ser um acomodado, poderia estar dentro de casa tendo ataques epilépticos -- ou quase isso. Não, acho que isso aí eu não poderia ser, vai contra minha índole, minha ideologia. Prefiro sair e explorar, como o roedor do experimento do Gabriel. Um camundongo, um rato, um humano. Em ciência trabalha-se com um camundongo e diz-se: com o homem acontece parecido. Pode ser estranho, mas garanto que faz bastante sentido. Primatas e roedores dividiram sua história evolutiva durante muito tempo. É como se duas pessoas saíssem de BH e fossem pro Nordeste, mas uma fosse para Recife e outra para João Pessoa. Elas dividiriam boa parte do caminho, assim como os primatas e os roedores dividiram boa parte do caminho evolutivo desde que surgiu a vida. Eles caminharam juntos na trilha da vida até um certo ponto a estrada de uns seguiu para Recife e de outros para João Pessoa, não necessariamente nesta ordem.
Toquei música a noite inteira. Vejo agora meu violão de forma diferente, depois de ter conhecido o Xavier, meu amigo francês que mora na Alemanha. Não sei onde ele está agora e talvez esteja com sua esposa falando sobre seu amigo brasileiro, assim como eu estou com meu... computador. O professor X tem mais sorte que o Wolverine com as mulheres, nos quadrinhos não era assim. Xavier constrói violões e me ensinou algumas coisas sobre a arte de produzir um instrumento musical. Contou-me sobre detalhes mais sórdidos da arte, disse-me sobre como moldar a ponte -- uma das partes mais interessantes, onde as cordas encaixam na caixa acústica. Mostrou-me também as principais peças da madeira e como elas se encaixam ou são coladas, depende da técnica. Disse-me sobre o Sandrel -- não lembro se era este mesmo o nome, em inglês --, que pode ser de osso ou de plástico e que deve ficar preso firmemente na madeira, a parte de baixo sendo chata e polida de forma suficiente para encaixar firmemente na ponte. Ensinou-me a melhor maneira de trocar as cordas e prendê-las de um lado e de outro, falou-me sobre a qualidade da madeira e atestou a qualidade da que é feita meu violão, o violão do meu pai, nosso violão. Não se acha mais dessa madeira para comprar, não é comercialmente viável, demora para crescer. É uma pena mas é uma sorte: tanta gente no mundo, precisamos de um desenvolvimento sustentável. Parece que é um tipo de cedro, ele diz o nome em inglês mas não sei se consigo uma boa tradução: é uma madeira tipicamente brasileira, excelente qualidade! Bateu aqui e ali na caixa acústica e simulou uma percussão fazendo sons ora mais graves, ora mais agudos, mais próximos ou distantes da abertura por onde ecoa o som. Xavier também não é um rato epiléptico, é um cientista que sonha em trabalhar produzindo violões. Ciência e música, temos vários interesses em comum, diz ele depois de tocar, sem olhar para as cordas, uma música de Bach que ia e vinha no braço do violão. Lia a tablatura no computador e tocava com desenvoltura, as vezes parava para passar a página com o mouse. Fiquei impressionado. Ele encontrou alguns defeitos também no meu violão e combinamos que, muito em breve -- eu marcaria este "breve" em número de anos, menos de uma dezena -- eu mandaria meu violão para ele reformar em seu estúdio. Ele sonhava em estar num estúdio repleto de instrumentos à sua volta. Seu irmão era músico e era o que ganhava mais dinheiro da família. "Depois dizem que música não dá dinheiro", completou. Tinha um amigo, o irmão. O amigo tinha uma loja e precisavam de alguém que montasse violões por lá, a vaga era sua, só precisava terminar o PhD e ver mais algumas coisas. Tinha que terminar logo. Ele disse que reformaria com prazer meu violão, eu disse que pagaria com prazer, espero que ele não cobre muito caro. Mostrou-me o livro de tecnicalidades violonísticas que descrevia exatamente como o sandrel deveria ser encaixado na ponte: 2/3 dentro da madeira, um terço fora.
Combinamos de nos encontramos da próxima vez que ele vier aqui, tocaremos mais violão. Neste dia não estava chovendo, como hoje. Saímos para fumar e eu ainda não tinha a bicicleta. Discutimos sobre ciência e música. Andamos um pouco, posto que não somos ratos nem epilépticos: somos cientistas e aspirantes a músicos. Aspirantes a cientistas, eu também diria. Aspirantes à vida, de fato. Espero ser sempre um aspirante, se você quer saber. De fato, sou um cara bem incompleto e não quero me completar. Uma pessoa completa, deveria ter dito isso a ela, é uma pessoa que se engana. A vida é o ensaio dela mesma, dizia Kundera. Ninguém é completo, embora muitos pensem ser; pobres coitados. Creio que temos mais é que sermos incompletos mesmo, embora um certo grau de completude -- ou auto-satisfação -- seja bom em alguns pontos específicos de nossa vida, sentimental. Talvez eu pudesse completá-la, não sei ao certo. Tenho receio e esperança: muito e pouco, respectivamente. Ainda chove e pela janela vejo que não há viv'alma na rua: são todos loucos e/ou epilépticos ou feitos de açúcar. Eu que também estou aqui, conversando com um computador, devo ter algum tipo bem documentado de epilepsia, vá saber...
