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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

20.2.08

Sobre meu colega selvagem

Quando chegou por aqui, era um tanto quanto repugnante, o selvagem. Chegava da Selva com todos os traços característicos dos habitantes daquele local. Sua pele, por exemplo, era de uma cor jamais vista por essas bandas: não era negra como a dos alaios ou cinza como a dos carpos, não era sequer mostarda-escura como as dos índios e também não se parecia com o tipo-chocolate dos ímpios. Enfim, não se parecia também, absolutamente, com a cútis dos nösevoluídos. Sua epiderme apresentava uma tez que, embora ainda não soubéssemos antes, era a tez-padrão daqueles oriundos da Selva. De mais a mais, o selvagem apresentava também o físico daqueles que naquelas bandas vivem e que necessitam se exercitar todos os dias em meio à mata para conseguirem alimentos e todas essas coisas que bem sabemos serem ainda necessárias lá na parte baixa do mundo. Além disso, Cacauan apresentava um cabelo enorme que jamais penteava e que apresentava uma estranha forma de cabaça em caracóis. Estranhamente, o volume de sua área capilar ocupava cerca de metade do volume de sua cabeça, de maneiras que era fácil reconhecê-lo chegando; mesmo ao longe. O selvagem apresentava ainda boa parte do corpo desgostosamente coberto por pêlos, como de fato parece ser uma característica ancestral de nossa espécie e também levando em consideração que os baixos estão mais próximos dos outros primatas do que nösevoluídos. Fato é que o selvagem chegou aqui e chocou a todos com sua aparência peculiar, sendo que a maioria de nós o achou um tanto quanto repugnante. Como se não bastasse, chegara aqui sem falar nossa língua e, por não conseguir se expressar muito bem, não conseguiu também se inteirar de nossa gente e talvez tenha se sentido um pouco solitário. Por vezes o víamos a perambular para lá e para cá: como se ziguezaguear colocasse a cabeça em ordem. Costumes estranhos têm esse povo austral. De fato deve ser uma mudança e tanto subir o elevador mundial! Eu mesmo não tenho muito interesse de descer, embora Cacauan me tenha deixado com uma coceira de curiosidade por conhecer seu mundo.

Pois bem, mas havia também entre nós aqueles que apostavam na força de trabalho do selvagem. De fato, ele havia sido contratado para exercer uma atividade similar à que muitos de nós já exerciam e chegava para ocupar um posto até mais alto do que o de alguns de nossos amigos que eram brancos, fluentes, nösevoluídos. Ainda não se sabe muito bem porque escolheram o selvagem para tal, embora normalmente se acredite que exista o desejo, por parte de alguns (poucos) governantes, em ajudar aqueles que vêm da Selva -- como troco pelo que a eles fizemos durante tantos anos. É que, infelizmente é essa a verdade, há centenas de anos nossos bisavós e tataravós foram até a Selva e dizimaram grande parte da população que lá vivia. Sob a égide dos tempos modernos, nossos antepassados diretos ainda roubaram impunemente boa parte dos abundantes recursos naturais daquelas terras e, além disso, se mesclaram também aos selvagens ao executarem sumariamente os machos e estuprarem as mulheres incivilizadas. Ao menos, parece que foi isso que aconteceu, segundo nossos próprios relatos históricos. Sabemos que é feio, mas hoje já é fato inegável, embora tentemos sempre nos desviar das conversas quando elas seguem esse caminho. Enfim, mesmo Cacauan, tão logo a nós pôde expor um pouco de sua cultura, expressando-se em lengua-mundi, mostrou-nos evidências e dados fundamentados de que sua população de origem era uma mescla da população original de suas terras e, pasme!, era também uma mescla de nós: portanto, os selvagens eram também, ao menos em parte, nösevoluídos. "Eu sou vocês", dizia por vezes o selvagem quando se sentia excluído por alguma razão. Então, continuava ele, aquilo que ele tinha de parecido conosco, como diversos traços físicos e intelectuais -- embora eu tenha descrito aqui principalmente as diferenças, que foi o que notamos primeiramente, haviam também similaridades, é fato -- eram derivadas de nossos ancestrais comuns nösevoluídos que uma vez lá estiveram e que já sabemos o que fizeram com as muito atraentes selvagens. Ele mesmo era formado de algum tipo de mistura nösevoluído-alaio-índio e essa era a composição principal da população da Selva. Apesar disso, não tinha ele mesmo nenhum ódio de nós por termos feito o que fizemos com sua população original. Dizia-se feliz por ter nascido e que, fosse outra a história, não teria tido -- provavelmente -- o privilégio de estar vivo. Percebia-se que o valor da vida nos países inferiores era ainda maior do que hoje é aqui. De fato, o selvagem tinha mesmo uma certa afeição pelo mundo superior e dizia-se orgulhoso de sua ancestralidade nösevoluída, embora tivesse também orgulho de seus outros ancestrais e de sua origem biológica multigeográfica. Completava argumentando sempre em favor da diversidade biológica e cultural que parecia ser mesmo a marca dos países selvagens -- havia todo o tipo de gente, com todo o tipo de pensamento, a viver na Selva.

Enfim, o tempo foi passando e fomos cada vez mais nos acostumando com os jeitos e trejeitos do selvagem. Comunicávamo-nos basicamente em lengua-mundi e, embora as vezes ele tentasse se expressar em nosso idioma; mesmo quando tentava nos entender, era claramente perceptível sua dificuldade para tanto. Era fato, entretanto, que o selvagem poderia ser tudo, menos um estúpido. Estava sempre atento sobre o que acontecia e sobre o que conversávamos e mesmo quando as vezes falávamos bobagens pensando que não nos entendia, ele jogava então uma frase com errada concordância verbal mas certo senso de humor, mostrando que entendia e era capaz de participar -- ainda de maneira ligeira e súbita -- de nosso pequeno mundo de um convívio social nösevoluído. Por vezes, o selvagem contava-nos histórias de como as coisas funcionavam lá embaixo, mas também por vezes nos cansava com esses papos de isso-não-funciona-assim-no-meu-mundo; nem sempre estávamos suficientemente dispostos a lhe dar ouvidos. Aos poucos fomos nos acostumando com seu estilo de vida e com suas idéias aleatórias e sempre excessivamente libertárias sobre o mundo. Profissionalmente falando, ainda que fosse razoavelmente lento em seu trabalho, percebia-se que o selvagem era mesmo apaixonado pelo que fazia e sempre fazia exposições toscamente elegantes e bem argumentadas sobre os resultados obtidos em seus estudos. Sentíamos um sentimento por vezes vil de paixão em todas as atitudes do selvagem e, embora alguns o pensassem fraco e emocionalmente frágil por tudo isso, aqueles que com ele compartilhavam um pouco dessa paixão acabam tendo-o em alta consideração.

À medida que nos acostumávamos com o selvagem, também ele conosco se acostumava. Em questão de poucos meses, passou a usar a barba como um nösevoluído e quando finalmente acertou seu cabelo como um de nós, talvez pudesse até se passar por um nösevoluido, mesmo porque sua cor desbotara dada a ausência de sol e sua proficiência em nosso idioma aumentara consideravelmente. Passara a nós também um pouco de sua forte cultura, impregnada que estava àquela mente estranha e tão diferente, porém lúcida e vívida. Mostrou-nos, o selvagem, que não eram assim tão idiotas os que vinham de baixo, como era de praxe se pensar por aqui. Mostramos-lhe também que as maravilhas tecnológicas nösevoluídas não eram a solução para todo tipo de problema e percebeu que aqui temos também dificuldades diversas e graves. Particularmente Cacauan achava difícil interagir socialmente conosco e deixava isso bem claro. Mas é fato que mesmo entre nós acontecem os mais diferentes problemas de sociabilidade e eu mesmo quando passei a morar aqui vindo de minha cidade natal tive, sim, problemas do mesmo tipo descrito por meu amigo. De fato, parece que as relações pessoais lá na Selva são mais simples e íntimas, embora eu necessite visitar o lugar para conferir todas essas coisas antes de sair falando qualquer besteira.

Hoje é o dia de sua despedida. O selvagem diz que sente muita saudade de seu povo, sua família, seus amigos; mesmo dos ritos cotidiano-sociais dos austrais. Eles parecem ser muito apegados a esses conceitos de uma sociedade patriarcal, como parece ter mesmo acontecido também por aqui, em tempos agora já idos. Segundo tais conceitos primitivos, poderíamos ser hoje vistos como sendo bastante independentes: cada um é por si e todos são pela sociedade. Parece haver mais daquele velho sentimento tribal (de grupo) na Selva e, talvez por isso, Cacauan agora nos deixe. Sei que sentirei sua falta, eram boas nossas conversas sobre o mundo e suas reflexões lúcidas sobre igualdades e desigualdades. Entretanto, fico também feliz por ele estar indo de encontro ao que certamente será melhor para ele, é fato inegável que meu amigo jamais se adaptou ou realmente quis se adaptar ao estilo de vida nösevoluído. Era um selvagem orgulhoso de sua natureza; e não mudaria suas mais profundas convicções mesmo que aqui vivesse por décadas. E não que isso fosse uma fraqueza, Cacauan sabia avaliar e decidir, segundo critérios tais, por a mais bê, porque não gostaria de se comportar como um de nós: há de se entender. Enfim, agora que tenho um contato no mundo inferior, talvez tire umas férias a visitá-lo dentro de uns cinco anos... talvez metade de umas férias, veremos. Minha vontade de descansar ainda é maior do que minha curiosidade cultural e, de mais a mais, não é barato e parece perigoso ir até a selva e se sujeitar a todas as dificuldades sócio-econômicas que acontecem por lá. Não gostaria de ser roubado, seqüestrado ou assassinado. Prefiro a tranqüilidade estável do estilo de vida nösevoluído. Desejei-lhe tudo de bom para sua vida e apertei-lhe a mão com gosto quando nos despedimos. Espero que possamos contatarmo-nos, eventualmente, através de comunicadores.

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3.2.08

Domingo de carnaval

Hoje foi um dia bom. Foi não, é. Está sendo. A previsão do tempo dizia: neve. Preparei para acordar com frio, mas não foi o caso. De fato, o sol brilha no inverno europeu. A ciência usa métodos, calcula variáveis -- tantas -- e suas inter-relações. Leva-se isso e aquilo em consideração. A ciência ainda é o que temos de melhor para prever o futuro. Mas a ciência é uma tarefa dos homens. E os homens sempre erram. Para minha felicidade, erraram desta vez. O que farei, então?, há sol lá fora. Costumo fazer planos para o dia e agora que não há neve, meus planos devem mudar. Por alguns instantes fico meio perdido, sem saber o que fazer até a hora em que for dormir de novo, quando farei então planos para o dia seguinte. Olho o mapa da cidade que está pregado na parede e vejo que a piscina pública nem é tão longe assim, embora eu não saiba ao certo onde é. É domingo de carnaval e são nove horas da manhã. Mas que carnaval? Não será sequer feriado na França. Vou nadar. Olho o mapa, vejo a direção aproximada e monto na bike. Se não achar, pelo menos vou ter passeado um pouco, feito ciclismo. Devo seguir o caminho do tram até a estação Emile Mathis e aí virar, direita, esquerda, direita e depois... veremos. Vai ser por ali. Era mesmo. Pior é que achei e nadei. Tanta gente na piscina no inverno. Mas não se engane, a piscina é aquecida e está num ginásio. Neste dia de sol os termômetros marcam pouco mais de dez graus, creio eu. A garota que nada ao lado tem uma touca com a bandeira do Brasil. Quando ela para, comento: "já pulei muito carnaval, mas nadar é a primeira vez". Ela olha com um certo espanto. Não é brasileira, é portuguesa, a touca foi uma prenda. Prenda, então. Por aqui às vezes se vêm aulas de brasileiro e pensa-se que é uma língua sem relação com o português, é preciso explicar às pessoas. Tudo bem que nossos portugueses são diferentes, mas não sei se é preciso dizer brasileiro e português. De fato, acaba virando uma questão terminológica sem muito propósito. A portuguesa da prenda fica por ali mais um pouco, outras palavras trocamos. Mora aqui, mas não está aqui para estudar, já terminou os estudos. O que é terminar os estudos? Eu não terminei até hoje: graduação, especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Ainda estudo e quero continuar estudando ainda por muito tempo, mas não digo isso a ela. Ela pára o cronômetro, diz mais alguma coisa, mas não é muito receptiva para conversas. É uma européia, afinal. Coloca novamente os óculos e, para bom entendedor, meio gesto basta: "vamos nadar?", pergunto. Vamos! Ela pergunta se quero ir antes, mas deixo-a passar na frente. Enquanto ela nada, penso que deveria ter dito sobre o pós-doutorado, as pessoas na Europa têm um certo preconceito com os brasileiros, mas isso é só até a palavra "pós-doutorado" ter sido colocada em jogo. É ridículo isso, ainda bem que não falei, não vou entrar nesse jogo. Com outras pessoas, o preconceito é inverso. Diz-se pós-doutorado e pensa-se que é esnobe e chato e que está tirando onda. Só me faltava essa, agora vou precisar esconder o que faço da vida. No Brasil, alguém já havia me aconselhado a dizer que eu trabalhava com vendas, pode ser mesmo melhor...

Ontem me auto-sabotei, segundo termo técnico da psicologia e considerando que meu conhecimento na área é um tanto quanto medíocre. Um amigo saiu com duas francesas e me chamou. O circo estava armado: era chegar lá e empatar o jogo em 2x2. Há uma pressão social quando se tem por volta de trinta anos. Todos perguntam sobre as mulheres: "já encontrou alguma?", "quais as perspectivas?", "espero que você consiga", essas coisas. Os velhos querem netos e todos, em geral, ficam querendo se intrometer na vida conjugal da gente. Mas estou bem sozinho e, embora eu esteja, sim, sempre querendo alguém para esquentar meus pés nesses dias tão frios, não estou assim no desespero. Longe disso. Almejo sim dividir a vida com alguém, mas não me afobo porque nada é pra já, como diria o Chico. Escolher viver com uma pessoa não é algo fácil, não se toma decisões para a vida toda num piscar de olhos e então: vamos nos casar. Não aceito qualquer uma, definitivamente. Já não tenho mesmo meus vinte anos. Preciso de alguém que tenha alguma coisa a ver. Precisa ter o espírito, um jeito, um charme, um tipo de química que mistura físico com psicológico, cultural, intelectual, social e, é claro, sexual. Não dá pra explicar com palavras, é preciso sentir. Não estava disposto a sair ontem, estava cansado. Fiz a mudança da minha chefa, junto com mais dez outros trabalhadores voluntários do laboratório: estava um caco. Além disso não falo francês e o centro da cidade é longe. Enfim, não preciso inventar desculpas para mim mesmo. Não estava a fim e decidi não comparecer. Chame de auto-sabotagem, se quiser. É uma pena, fosse outro dia eu teria ao menos me divertido e trocado idéias com as ninfetas européias. Teria sido bom. Mas o ontem já não mais me interessa e não há remédio para o leite que já derramou. É preciso confiar em nossas decisões.

Meus dias em deliberada solidão têm sido preenchidos com ciência e música. Ciência como profissão, música como diversão. Talvez um dia essa ordem se inverta, talvez não. Andei vendo uns anúncios de guitarra, provavelmente comprarei uma em breve. Já ando brincando de guitarra no meu violão, mas não é a mesma coisa. É engraçado que em português "violão" e "guitarra" sejam duas palavras tão distintas, morfologicamente falando. Para mim, talvez por isso, os dois instrumentos sempre foram um tanto quanto diferentes. Para os ingleses e franceses, não há tanta distinção, ambos são guitarras: acústica e elétrica. Brincar de guitarra no violão é fazer umas escalas, tentar tirar algum tipo de solo. Escuto músicas no meu computador e presto atenção na guitarra, imito no violão, mas o som não é a mesma coisa. Em breve terei uma guitarra.

Na internet, revejo meus parentes e amigos e ex-futuros-amores, quem sabe? A conversa nos aproxima e a distância faz parecer que estamos mais próximos -- em certos casos -- e mais distantes, noutros. É estranho, mas tenho conversado mais com meus amigos que habitam a Europa depois que vim para cá. A gente se sente mais próximo, mesmo que eles estejam de fato espalhados pelo velho continente. Converso mais com eles do que quando estava no Brasil, mesmo que a distância entre eles e outros seja de apenas um clique do mouse.

Enfim, é carnaval mais uma vez e estou distante, mais outra vez. Há dois anos, na Inglaterra, escrevi uma crônica carnavalesca de mais teor sentimental que esta. Devo estar desaprendendo... Finalmente percebi que gosto das crônicas que dão um sentimento de vazio na gente, uma certa angústia sobre estarmos num beco sem saída, labirinto do qual estaremos para sempre presos e que é, em suma, o viver de um ser humano. Lá no nosso Brasil, as mulatas devem estar agora sambando semi-nuas, balançando os seus enormes peitos -- se compraram, são delas -- para as câmeras. Em Recife, o galo da madrugada deve estar saindo ou chegando junto a centenas de milhares de pessoas. O carnaval pra pular deve estar acabando e o monobloco talvez esteja atravessando as ruas cariocas. Meus amigos devem estar altos e bêbados. Ivete Sangalo deve estar cantando com Daniela Mercury e talvez até nosso ministro da cultura esteja também lá na Bahia de todos os santos. Na Marquês de Sapucaí, o luxo e a luxúria estarão desfilando à despeito daqueles que, nas favelas, já perderam as esperanças. Mas na verdade, Vinícius é que já dizia que a felicidade do pobre é que parece a grande ilusão do carnaval. Talvez seja isso mesmo e espero que estejam todos eles curtindo muito. Eu estou aqui, com frio nos pés e uma dose de melancolia nos dedos.

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