Sobre meu colega selvagem
Quando chegou por aqui, era um tanto quanto repugnante, o selvagem. Chegava da Selva com todos os traços característicos dos habitantes daquele local. Sua pele, por exemplo, era de uma cor jamais vista por essas bandas: não era negra como a dos alaios ou cinza como a dos carpos, não era sequer mostarda-escura como as dos índios e também não se parecia com o tipo-chocolate dos ímpios. Enfim, não se parecia também, absolutamente, com a cútis dos nösevoluídos. Sua epiderme apresentava uma tez que, embora ainda não soubéssemos antes, era a tez-padrão daqueles oriundos da Selva. De mais a mais, o selvagem apresentava também o físico daqueles que naquelas bandas vivem e que necessitam se exercitar todos os dias em meio à mata para conseguirem alimentos e todas essas coisas que bem sabemos serem ainda necessárias lá na parte baixa do mundo. Além disso, Cacauan apresentava um cabelo enorme que jamais penteava e que apresentava uma estranha forma de cabaça em caracóis. Estranhamente, o volume de sua área capilar ocupava cerca de metade do volume de sua cabeça, de maneiras que era fácil reconhecê-lo chegando; mesmo ao longe. O selvagem apresentava ainda boa parte do corpo desgostosamente coberto por pêlos, como de fato parece ser uma característica ancestral de nossa espécie e também levando em consideração que os baixos estão mais próximos dos outros primatas do que nösevoluídos. Fato é que o selvagem chegou aqui e chocou a todos com sua aparência peculiar, sendo que a maioria de nós o achou um tanto quanto repugnante. Como se não bastasse, chegara aqui sem falar nossa língua e, por não conseguir se expressar muito bem, não conseguiu também se inteirar de nossa gente e talvez tenha se sentido um pouco solitário. Por vezes o víamos a perambular para lá e para cá: como se ziguezaguear colocasse a cabeça em ordem. Costumes estranhos têm esse povo austral. De fato deve ser uma mudança e tanto subir o elevador mundial! Eu mesmo não tenho muito interesse de descer, embora Cacauan me tenha deixado com uma coceira de curiosidade por conhecer seu mundo.
Pois bem, mas havia também entre nós aqueles que apostavam na força de trabalho do selvagem. De fato, ele havia sido contratado para exercer uma atividade similar à que muitos de nós já exerciam e chegava para ocupar um posto até mais alto do que o de alguns de nossos amigos que eram brancos, fluentes, nösevoluídos. Ainda não se sabe muito bem porque escolheram o selvagem para tal, embora normalmente se acredite que exista o desejo, por parte de alguns (poucos) governantes, em ajudar aqueles que vêm da Selva -- como troco pelo que a eles fizemos durante tantos anos. É que, infelizmente é essa a verdade, há centenas de anos nossos bisavós e tataravós foram até a Selva e dizimaram grande parte da população que lá vivia. Sob a égide dos tempos modernos, nossos antepassados diretos ainda roubaram impunemente boa parte dos abundantes recursos naturais daquelas terras e, além disso, se mesclaram também aos selvagens ao executarem sumariamente os machos e estuprarem as mulheres incivilizadas. Ao menos, parece que foi isso que aconteceu, segundo nossos próprios relatos históricos. Sabemos que é feio, mas hoje já é fato inegável, embora tentemos sempre nos desviar das conversas quando elas seguem esse caminho. Enfim, mesmo Cacauan, tão logo a nós pôde expor um pouco de sua cultura, expressando-se em lengua-mundi, mostrou-nos evidências e dados fundamentados de que sua população de origem era uma mescla da população original de suas terras e, pasme!, era também uma mescla de nós: portanto, os selvagens eram também, ao menos em parte, nösevoluídos. "Eu sou vocês", dizia por vezes o selvagem quando se sentia excluído por alguma razão. Então, continuava ele, aquilo que ele tinha de parecido conosco, como diversos traços físicos e intelectuais -- embora eu tenha descrito aqui principalmente as diferenças, que foi o que notamos primeiramente, haviam também similaridades, é fato -- eram derivadas de nossos ancestrais comuns nösevoluídos que uma vez lá estiveram e que já sabemos o que fizeram com as muito atraentes selvagens. Ele mesmo era formado de algum tipo de mistura nösevoluído-alaio-índio e essa era a composição principal da população da Selva. Apesar disso, não tinha ele mesmo nenhum ódio de nós por termos feito o que fizemos com sua população original. Dizia-se feliz por ter nascido e que, fosse outra a história, não teria tido -- provavelmente -- o privilégio de estar vivo. Percebia-se que o valor da vida nos países inferiores era ainda maior do que hoje é aqui. De fato, o selvagem tinha mesmo uma certa afeição pelo mundo superior e dizia-se orgulhoso de sua ancestralidade nösevoluída, embora tivesse também orgulho de seus outros ancestrais e de sua origem biológica multigeográfica. Completava argumentando sempre em favor da diversidade biológica e cultural que parecia ser mesmo a marca dos países selvagens -- havia todo o tipo de gente, com todo o tipo de pensamento, a viver na Selva.
Enfim, o tempo foi passando e fomos cada vez mais nos acostumando com os jeitos e trejeitos do selvagem. Comunicávamo-nos basicamente em lengua-mundi e, embora as vezes ele tentasse se expressar em nosso idioma; mesmo quando tentava nos entender, era claramente perceptível sua dificuldade para tanto. Era fato, entretanto, que o selvagem poderia ser tudo, menos um estúpido. Estava sempre atento sobre o que acontecia e sobre o que conversávamos e mesmo quando as vezes falávamos bobagens pensando que não nos entendia, ele jogava então uma frase com errada concordância verbal mas certo senso de humor, mostrando que entendia e era capaz de participar -- ainda de maneira ligeira e súbita -- de nosso pequeno mundo de um convívio social nösevoluído. Por vezes, o selvagem contava-nos histórias de como as coisas funcionavam lá embaixo, mas também por vezes nos cansava com esses papos de isso-não-funciona-assim-no-meu-mundo; nem sempre estávamos suficientemente dispostos a lhe dar ouvidos. Aos poucos fomos nos acostumando com seu estilo de vida e com suas idéias aleatórias e sempre excessivamente libertárias sobre o mundo. Profissionalmente falando, ainda que fosse razoavelmente lento em seu trabalho, percebia-se que o selvagem era mesmo apaixonado pelo que fazia e sempre fazia exposições toscamente elegantes e bem argumentadas sobre os resultados obtidos em seus estudos. Sentíamos um sentimento por vezes vil de paixão em todas as atitudes do selvagem e, embora alguns o pensassem fraco e emocionalmente frágil por tudo isso, aqueles que com ele compartilhavam um pouco dessa paixão acabam tendo-o em alta consideração.
À medida que nos acostumávamos com o selvagem, também ele conosco se acostumava. Em questão de poucos meses, passou a usar a barba como um nösevoluído e quando finalmente acertou seu cabelo como um de nós, talvez pudesse até se passar por um nösevoluido, mesmo porque sua cor desbotara dada a ausência de sol e sua proficiência em nosso idioma aumentara consideravelmente. Passara a nós também um pouco de sua forte cultura, impregnada que estava àquela mente estranha e tão diferente, porém lúcida e vívida. Mostrou-nos, o selvagem, que não eram assim tão idiotas os que vinham de baixo, como era de praxe se pensar por aqui. Mostramos-lhe também que as maravilhas tecnológicas nösevoluídas não eram a solução para todo tipo de problema e percebeu que aqui temos também dificuldades diversas e graves. Particularmente Cacauan achava difícil interagir socialmente conosco e deixava isso bem claro. Mas é fato que mesmo entre nós acontecem os mais diferentes problemas de sociabilidade e eu mesmo quando passei a morar aqui vindo de minha cidade natal tive, sim, problemas do mesmo tipo descrito por meu amigo. De fato, parece que as relações pessoais lá na Selva são mais simples e íntimas, embora eu necessite visitar o lugar para conferir todas essas coisas antes de sair falando qualquer besteira.
Hoje é o dia de sua despedida. O selvagem diz que sente muita saudade de seu povo, sua família, seus amigos; mesmo dos ritos cotidiano-sociais dos austrais. Eles parecem ser muito apegados a esses conceitos de uma sociedade patriarcal, como parece ter mesmo acontecido também por aqui, em tempos agora já idos. Segundo tais conceitos primitivos, poderíamos ser hoje vistos como sendo bastante independentes: cada um é por si e todos são pela sociedade. Parece haver mais daquele velho sentimento tribal (de grupo) na Selva e, talvez por isso, Cacauan agora nos deixe. Sei que sentirei sua falta, eram boas nossas conversas sobre o mundo e suas reflexões lúcidas sobre igualdades e desigualdades. Entretanto, fico também feliz por ele estar indo de encontro ao que certamente será melhor para ele, é fato inegável que meu amigo jamais se adaptou ou realmente quis se adaptar ao estilo de vida nösevoluído. Era um selvagem orgulhoso de sua natureza; e não mudaria suas mais profundas convicções mesmo que aqui vivesse por décadas. E não que isso fosse uma fraqueza, Cacauan sabia avaliar e decidir, segundo critérios tais, por a mais bê, porque não gostaria de se comportar como um de nós: há de se entender. Enfim, agora que tenho um contato no mundo inferior, talvez tire umas férias a visitá-lo dentro de uns cinco anos... talvez metade de umas férias, veremos. Minha vontade de descansar ainda é maior do que minha curiosidade cultural e, de mais a mais, não é barato e parece perigoso ir até a selva e se sujeitar a todas as dificuldades sócio-econômicas que acontecem por lá. Não gostaria de ser roubado, seqüestrado ou assassinado. Prefiro a tranqüilidade estável do estilo de vida nösevoluído. Desejei-lhe tudo de bom para sua vida e apertei-lhe a mão com gosto quando nos despedimos. Espero que possamos contatarmo-nos, eventualmente, através de comunicadores.
Pois bem, mas havia também entre nós aqueles que apostavam na força de trabalho do selvagem. De fato, ele havia sido contratado para exercer uma atividade similar à que muitos de nós já exerciam e chegava para ocupar um posto até mais alto do que o de alguns de nossos amigos que eram brancos, fluentes, nösevoluídos. Ainda não se sabe muito bem porque escolheram o selvagem para tal, embora normalmente se acredite que exista o desejo, por parte de alguns (poucos) governantes, em ajudar aqueles que vêm da Selva -- como troco pelo que a eles fizemos durante tantos anos. É que, infelizmente é essa a verdade, há centenas de anos nossos bisavós e tataravós foram até a Selva e dizimaram grande parte da população que lá vivia. Sob a égide dos tempos modernos, nossos antepassados diretos ainda roubaram impunemente boa parte dos abundantes recursos naturais daquelas terras e, além disso, se mesclaram também aos selvagens ao executarem sumariamente os machos e estuprarem as mulheres incivilizadas. Ao menos, parece que foi isso que aconteceu, segundo nossos próprios relatos históricos. Sabemos que é feio, mas hoje já é fato inegável, embora tentemos sempre nos desviar das conversas quando elas seguem esse caminho. Enfim, mesmo Cacauan, tão logo a nós pôde expor um pouco de sua cultura, expressando-se em lengua-mundi, mostrou-nos evidências e dados fundamentados de que sua população de origem era uma mescla da população original de suas terras e, pasme!, era também uma mescla de nós: portanto, os selvagens eram também, ao menos em parte, nösevoluídos. "Eu sou vocês", dizia por vezes o selvagem quando se sentia excluído por alguma razão. Então, continuava ele, aquilo que ele tinha de parecido conosco, como diversos traços físicos e intelectuais -- embora eu tenha descrito aqui principalmente as diferenças, que foi o que notamos primeiramente, haviam também similaridades, é fato -- eram derivadas de nossos ancestrais comuns nösevoluídos que uma vez lá estiveram e que já sabemos o que fizeram com as muito atraentes selvagens. Ele mesmo era formado de algum tipo de mistura nösevoluído-alaio-índio e essa era a composição principal da população da Selva. Apesar disso, não tinha ele mesmo nenhum ódio de nós por termos feito o que fizemos com sua população original. Dizia-se feliz por ter nascido e que, fosse outra a história, não teria tido -- provavelmente -- o privilégio de estar vivo. Percebia-se que o valor da vida nos países inferiores era ainda maior do que hoje é aqui. De fato, o selvagem tinha mesmo uma certa afeição pelo mundo superior e dizia-se orgulhoso de sua ancestralidade nösevoluída, embora tivesse também orgulho de seus outros ancestrais e de sua origem biológica multigeográfica. Completava argumentando sempre em favor da diversidade biológica e cultural que parecia ser mesmo a marca dos países selvagens -- havia todo o tipo de gente, com todo o tipo de pensamento, a viver na Selva.
Enfim, o tempo foi passando e fomos cada vez mais nos acostumando com os jeitos e trejeitos do selvagem. Comunicávamo-nos basicamente em lengua-mundi e, embora as vezes ele tentasse se expressar em nosso idioma; mesmo quando tentava nos entender, era claramente perceptível sua dificuldade para tanto. Era fato, entretanto, que o selvagem poderia ser tudo, menos um estúpido. Estava sempre atento sobre o que acontecia e sobre o que conversávamos e mesmo quando as vezes falávamos bobagens pensando que não nos entendia, ele jogava então uma frase com errada concordância verbal mas certo senso de humor, mostrando que entendia e era capaz de participar -- ainda de maneira ligeira e súbita -- de nosso pequeno mundo de um convívio social nösevoluído. Por vezes, o selvagem contava-nos histórias de como as coisas funcionavam lá embaixo, mas também por vezes nos cansava com esses papos de isso-não-funciona-assim-no-meu-mundo; nem sempre estávamos suficientemente dispostos a lhe dar ouvidos. Aos poucos fomos nos acostumando com seu estilo de vida e com suas idéias aleatórias e sempre excessivamente libertárias sobre o mundo. Profissionalmente falando, ainda que fosse razoavelmente lento em seu trabalho, percebia-se que o selvagem era mesmo apaixonado pelo que fazia e sempre fazia exposições toscamente elegantes e bem argumentadas sobre os resultados obtidos em seus estudos. Sentíamos um sentimento por vezes vil de paixão em todas as atitudes do selvagem e, embora alguns o pensassem fraco e emocionalmente frágil por tudo isso, aqueles que com ele compartilhavam um pouco dessa paixão acabam tendo-o em alta consideração.
À medida que nos acostumávamos com o selvagem, também ele conosco se acostumava. Em questão de poucos meses, passou a usar a barba como um nösevoluído e quando finalmente acertou seu cabelo como um de nós, talvez pudesse até se passar por um nösevoluido, mesmo porque sua cor desbotara dada a ausência de sol e sua proficiência em nosso idioma aumentara consideravelmente. Passara a nós também um pouco de sua forte cultura, impregnada que estava àquela mente estranha e tão diferente, porém lúcida e vívida. Mostrou-nos, o selvagem, que não eram assim tão idiotas os que vinham de baixo, como era de praxe se pensar por aqui. Mostramos-lhe também que as maravilhas tecnológicas nösevoluídas não eram a solução para todo tipo de problema e percebeu que aqui temos também dificuldades diversas e graves. Particularmente Cacauan achava difícil interagir socialmente conosco e deixava isso bem claro. Mas é fato que mesmo entre nós acontecem os mais diferentes problemas de sociabilidade e eu mesmo quando passei a morar aqui vindo de minha cidade natal tive, sim, problemas do mesmo tipo descrito por meu amigo. De fato, parece que as relações pessoais lá na Selva são mais simples e íntimas, embora eu necessite visitar o lugar para conferir todas essas coisas antes de sair falando qualquer besteira.
Hoje é o dia de sua despedida. O selvagem diz que sente muita saudade de seu povo, sua família, seus amigos; mesmo dos ritos cotidiano-sociais dos austrais. Eles parecem ser muito apegados a esses conceitos de uma sociedade patriarcal, como parece ter mesmo acontecido também por aqui, em tempos agora já idos. Segundo tais conceitos primitivos, poderíamos ser hoje vistos como sendo bastante independentes: cada um é por si e todos são pela sociedade. Parece haver mais daquele velho sentimento tribal (de grupo) na Selva e, talvez por isso, Cacauan agora nos deixe. Sei que sentirei sua falta, eram boas nossas conversas sobre o mundo e suas reflexões lúcidas sobre igualdades e desigualdades. Entretanto, fico também feliz por ele estar indo de encontro ao que certamente será melhor para ele, é fato inegável que meu amigo jamais se adaptou ou realmente quis se adaptar ao estilo de vida nösevoluído. Era um selvagem orgulhoso de sua natureza; e não mudaria suas mais profundas convicções mesmo que aqui vivesse por décadas. E não que isso fosse uma fraqueza, Cacauan sabia avaliar e decidir, segundo critérios tais, por a mais bê, porque não gostaria de se comportar como um de nós: há de se entender. Enfim, agora que tenho um contato no mundo inferior, talvez tire umas férias a visitá-lo dentro de uns cinco anos... talvez metade de umas férias, veremos. Minha vontade de descansar ainda é maior do que minha curiosidade cultural e, de mais a mais, não é barato e parece perigoso ir até a selva e se sujeitar a todas as dificuldades sócio-econômicas que acontecem por lá. Não gostaria de ser roubado, seqüestrado ou assassinado. Prefiro a tranqüilidade estável do estilo de vida nösevoluído. Desejei-lhe tudo de bom para sua vida e apertei-lhe a mão com gosto quando nos despedimos. Espero que possamos contatarmo-nos, eventualmente, através de comunicadores.
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