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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

27.3.08

Em busca de luz

Chego em casa e acendo a luz. Será esta minha casa? O que um ambiente precisa ter para que o consideremos nossa casa, nosso lar? Tento transformar este lugar no meu lar, tento ligá-lo a um aconchego, descanso. Coloco meus livros na estante e a guitarra com o amplificador ao lado. Mas entro e não me sinto ali. Serei não eu? Ou será não o lugar? A luz resiste em atiçar os cones ou mesmo estes resistem em transmitir o sinal luminoso para o meu cérebro. Não vejo, não vejo apesar da luz. Será mesmo a luz, ou serão os olhos? Será o cérebro? O que será? Na parede, a memória; fotos espalhadas e desorganizadas. Organizá-las-ei algum dia? Preferirei a organização? Escreverei um ode à desorganização? A super-organização européia, descobri recentemente, não é chave do sucesso deles. Os americanos parecem desorganizados e ainda sim controlam o mundo. Controlam com o capital, o dinheiro, a abertura de mercado. Será esta a chave? A liberdade? Oh, isso eu já sabia. Mas se a liberdade de mercado torna um país desenvolvido, o que fará a liberdade de pensamento? A sociedade alternativa de Raul será um lugar melhor para viver. Seria. Quero tomar banho de chapéu e questionar a democracia. Ora, a democracia deve emergir e é possível que não devamos tentar encaixar um cubo no lugar reservado a uma esfera. Não só a evolução biológica é gradualista, a evolução social também o é. Grandes transformações não acontecem da noite pro dia e não é matando um ditador que se transformará um estado em uma democracia. A guerra já se estende há anos e centenas de milhares de vidas. Será que era isso que o povo realmente queria? A democracia prega isto, certo? É uma nova colonização. Chegam os colonizadores com armas e supostas idéias. Matam os machos e estupram as fêmeas. Roubam os bens e transferem, em volumosos jatos, seus memes. É a mesma velha colonização. Nova roupagem, talvez. Apenas talvez.

Não querem saber de nós, os xenofóbicos desenvolvidos do bloco ocidental. Querem suas terras para si. Somos uma praga, querem mais é que saiamos de lá. Ora, de quem é o mundo? O mundo não é de ninguém. O mundo não é deles e não é nosso também. Rousseau estava certo, o mal da sociedade começou quando alguém cercou um pedaço de terra dizendo que era seu e algum outro idiota aceitou isso. Conseguiríamos montar uma sociedade não baseada no direito de propriedade? Que tal se cada um tivesse um tamanho máximo de terra que pudesse ter e que as outras terras fossem simplesmente dividas entre toda a população? Ora, já nos basta brigar pelos nossos amores. É muito mais digno do que brigarmos por terra, nacos de chão que não dizem nada. Somos uma espécie territorialista, afinal. Ser territorialista com o lugar que vivemos até vá lá, mas ser territorialista com um pedaço de terra nos confins do Acre que visitamos uma vez a cada década é demais. Deixemos que tomem as terras, quem precisa. Prega-se contra a guerra, mas viaja-se de primeira classe. Faz sentido? O mundo faz sentido? A consciência faz sentido? O que faz sentido? É melhor parar de pensar, ser um bom selvagem, conseguir dois acres de terra e voltar à fazenda, uma vida comunitária, pequena família e o céu estrelado. Por que não farei isso? Quem disse que não farei?

O fantasma da morte ronda esses arredores. Ele ronda os arredores de todos que ainda têm a sorte de estarem vivos. A vida é efêmera, sabemos bem. Vivemos com este fantasma ao nosso lado e quando me perguntam o que farei dentro de seis meses, não tenho como responder. Peço que perguntem ao fantasma. Fosse mesmo esse hedonista que me proponho, não estaria aqui agora neste quarto de hotel. Estaria no Brasil, estaria com ela, noites de amor uma atrás da outra. Mas não sou hedonista, não sou morto, não sou capitalista nem materialista e muito menos espiritualista. Não sou nada. Não sou ninguém. Só não suporto pessoas de mau humor e aqueles que se acham melhores do que os outros. Isso aí não dá pra suportar. Não voltarei à Inglaterra. Noites de sono tenho perdido sem mais nem porquê. Perco e não encontro. Não sei o que fazer. Escrevo porque não tenho saco para assistir TV e porque o tempo se dilata neste lugar. Antes fazia poucas coisas e o dia já se acabava. Agora faço muitas e ainda há dia. Ora, explicaria Einstein essas coisas? E sobre a coragem de se dizer o que se pensa. Covardes são os humanos. Mesmo eu sou covarde, mas de coragem expressiva, passo bastante da média.

Ando para dentro da casa e a luz começa a se dissipar. O foco é fosco mas permite a distinção dos objetos. Precisarei da visão? Precisarei de quê para viver? Entro no quarto e a luz de fora nada ilumina, a cortina está fechada. Estará mesmo fechada, a cortina? A luz de dentro faz que vai mas não vai. Como assim? Nem eu entendo. De contos e crônicas loucas e sem sentido, o mundo está cheio. Para quê tudo isso? Não sei, gosto de coisas sem explicação, gosto de não ser previsível, gosto de sair da regra e do inusitado tenho afeição. Aquela lá não aguentou. Queria o padrão, default, standard. Não pôde aguentar. Uma pena, mas apenas para mim. Infelizmente. Chego no cinema sem nada saber e só posso me surpreender, pois nada ouvi sobre nada. É bom ser surpreendido positivamente. Já se o caso anda na casa dos números negativos, daí é normal porque todo mundo sabe: o mundo é uma merda mesmo. Talvez por isso essas drogas legais sejam usadas com tanto vigor pela população: religião e televisão. Haverá uma sociedade que as proibirá? Talvez a sociedade de Raul, talvez nem ela. Não sei de mais nada. Ainda está escuro, onde encontrarei a luz que procuro?

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4.3.08

Corpo e morte e vida e sonhos

Acordou ressabiado. Sonhara. Com o que sonhara? Pelejou para lembrar. Algo com sua avó, já morta, imitando outra pessoa, talvez uma tia, também morta. E outras pessoas viam e pensavam que a tia baixava na avó, como naquelas fábulas espíritas. Pode-se um morto baixar noutro morto? Mas não, a avó não estava morta. Não no sonho. Ali estava viva, a avó. Mas ela morrera. Morrera há pouco tempo e tinha-se a impressão de que estava viva. Demora-se para se acostumar com a morte de alguém que sempre fora tão viva. Estaria viva ou morta, a avó? Acordou como se estivesse viva e apenas vários minutos depois que lembrou que morrera de fato. Sentiu um pouco como se tivesse, ela, morrido naquele exato instante e a tristeza melancólica que se tem quando da morte de ente querido atingiu-o em profundo outra vez. Lembrou-se então dos paramédicos tratando-a, viva, como se já estivesse morta. Morta ou viva, afinal? Lembrou de sua boca roxa e da enfermeira colocando toscamente algo qualquer -- seria um lençol? -- em cima do corpo da velha como se não fosse ela sua avó, uma pessoa, um ser vivo. Sonho ou realidade? Pela falta de cuidado da enfermeira para com aquele pedaço de carne, ou seja, sua avó, sentiu algo entre raiva e pena da mulher que, dada sua profissão, talvez já não mais soubesse a diferença entre vida e morte, sonho e delírio; talvez. Por um instante, quis xingar à moça que tratava gente como coisa. Em seguida chegou perto da moribunda e disse-lhe coisas agradáveis ao ouvido. Alguém lhe bateu nas costas, "ela não ouve". Ele sabia, mas queria falar-lhe mesmo assim. Falava para ele mesmo, não para ela; apenas falava. Enfim, havia a esperança. Empurrou o outro com a mão: "Dê licença pois quero ter esperança. Não me incomode, deixe-me com minha esperança, saia!" Se ainda ardesse uma suave e simples brisa do outrora vigoroso sopro vital que uma vez habitara aquele pedaço de carne -- ora, se não passamos todos de meros pedaços de carne -- talvez ela ainda pudesse brotar, renascer, voltar a andar e respirar e dizer porcarias, torcer para o Atlético, fazer palavras cruzadas, assistir Sílvio Santos à toda altura, que os ouvidos não mais funcionavam bem. "Dê licença, não incomode, continuarei falando. Estamos aqui, não desanime, vai dar certo, tem um monte de gente torcendo. Até rezando, mas não que eu acredite nisso." Foi novamente puxado. Olhou para o vivo, para o corpo, olhou para si. Lembrou da enfermeira. Tinha feito sua parte, sentia-se satisfeito. Triste, mas feliz. Não acontecera nada no carro, enquanto íamos para o hospital. Apenas médicos e ambulância e pessoas que tratavam alguém com quem se tinha tanto carinho como coisa. "Não, gente, não façam isso. Tomem cuidado, é minha avó, respeitem!". Respeitavam, mas não era deles, a avó. Era uma velha, moribunda, talvez sem chance para eles, que não levavam consigo a força da esperança parental, paternal, avosal, netal. Ele tinha esperança. Correu lá em cima para buscar a carteira. Ora, não era hora de esquecer nada. Ora, era chegada a hora. O fim do tempo de existência. Mas a velha roncava, respirava. "Estão vendo," pensava em triunfo, "está viva!". Ficava ali e corria ao mesmo tempo, enquanto fumava um cigarro e esperava e fumava outro cigarro e ia e voltava e olhava para ela que ainda estava ali sem estar, estando sem ser. Não mais. Ou seria ainda? Não escutar bem ainda ia, mas ficava impressionado como ainda enxergava uma vez que seus olhos já haviam perdido o brilho há anos, eram seus olhos como aqueles dos defuntos das aulas de anatomia: córnea, íris, cristalino, esclerótica, coróide, retina, fóvea central, humores. Mas o cérebro, este funcionava bem, à maneira das antigas, humores dos velhos tempos, uma mentalidade já desconectada do mundo moderno a falar de Deus e da religião e do respeito exacerbado quando o melhor é falta de respeito que caracteriza a amizade. Um velho, pensava absorto, jamais entenderia que a amizade consistia em poder mandar alguém tomar no cu sem pensar duas vezes. Liberdade de pensamento, liberdade de expressão. Serão estes conceitos novos?, conceitos amadurecidos no século XX? A velha não entenderia e não entendeu quando ele a mandou àquele lugar. Ainda não sabia se se arrependia ou, talvez arrependera ou, não houvera sido de extrema necessidade, o xingamento. Mas era isso, que fosse. Justamente a grande palavra mostrava o quanto se sentia próximo da velha, amiga-camarada, e o quanto, também, ela o incomodara com aquele assunto tirado das profundezas mais absurdas do nada, apenas um farfanar de velho que pensa em instâncias mentais vagamundas por não ter mais em quê pensar e fazia assim com seus pensamentos como bois com o pasto: ru(im )minavam. Talvez, enfim, estivesse certa, a velha. Talvez fosse ele quem não quisesse verdadeiramente admitir que sempre estava errado. Sempre. Estava errado. Não sabia mais. Quando vivia com ela, dava-lhe beijos de boa noite à beira de sua cama e sentia que ela gostava, queria dar-lhe mais beijos de boa noite, mas era ela às vezes arisca, comportamento talvez também herdado por ele nos cerca de 25% dos genes que dividia com a velha. Dividia mesmo? Dividia, segundo as leis mendelianas da hereditariedade. Ele era um quarto da velha, um quarto novo da velha. A nova velha era ele, ele era a velha que era ele em cerca de um quarto, sala ou banheiro. Talvez o banheiro, a privada. Talvez a pintura da parede da sala, garbosa. Ficava a ver as fotos dos velhos escritores e filósofos nas contra-capas dos livros clássicos ou nos sítios internéticos durante o tempo em que pensava que deveriam publicar fotos deles enquanto novos, ao invés de velhos, seriam mais bonitos, talvez. Enfim, não importa posto que é a experiência e a sabedoria são características dos velhos e as gentes só percebiam mesmo isso quando também envelheciam. Um novo, sujeito, não poderia ter assim tanta coisa interessante para falar. Quem vive pouco, fala pouco, diz pouco, pouco faz, desinteresse, talvez nem pense. Quão estúpida não era a juventude, a sua própria juventude e também a juventude dos outros, todas aquelas gírias e a criação de neologismos que nada dizem ao mesmo tempo que a tudo servem como curingas de uma conversação que jamais alguém entenderia. Era jovem e não sabia o que fazia, escutava algo que batia e voltava em sua mente quando estava prestes a se arrepender de algo que não fosse muito bem o fato de ter xingado uma vez uma velha, talvez despropositadamente. Deveria ter pedido desculpas, mas agora não adiantava. Enfim, de certo modo era ele a velha e assim, desculpava-se ao mesmo tempo que mantinha em si mesmo certa reação de desconsolo por ter agido precipitadamente. As desculpas não fazem o tempo voltar. O jovem, o aprendizado, a impulsividade. A enfermeira já a tratava como se não fosse gente. E também os médicos. Seria essa uma estratégia profissional para afastar logo dos parentes, a esperança? Seria esta estratégia deliberada para um tratamento paulatino de forma a acostumar aqueles que ainda não cruzaram a inescapável barreira de que o outro, o corpo, mente, ser, ente, pessoa do qual se tratava, já ia por se acabar? Seria uma estratégia para o desviculamento emocional? Não! Não poderia ser assim posto que isso não dava pra saber; poder-se-ia ter uma idéia nem assim tão vaga de que a vida dali já se esvaia, mas saber mesmo sabido não dava, pois que nem Deus, se existisse, saberia. Ou talvez só ele, sem maiúsculo porque nosso personagem que não lhe dava o respeito: o que não existia não precisava ser respeitado, era a regra que tinha para si e não respeitaria elefantes róseos voadores mesmo que alguém lhe dissesse que controlavam o universo ou coisa que o valesse. Ou se existissem, deuses ou elefantes, eis que teria errado mais uma vez, e este seria apenas outro dos erros que tanto já cometera e que ainda haveria de cometer enquanto soprasse nele ainda o élan dos antigos. Daquela feita, entretanto, não estaria errado e a morte seria para ele apenas um nada, nem bom nem ruim nem amargo nem doce nem salgado nem feliz nem triste nem doloroso nem saboroso ou desgostoso nem chão nem céu nem paraíso nem inferno nem deus nem o diabo; um nada apenas. Não havia porque sofrer por um sentimento de vazio, considerando que mesmo se fosse uma beleza de trem bom a doidado estar vivo, às vezes também a tal da beleza virava uma luta danada difícil e amarga e, assim, não estar vivo não seria pena nem despena, não seria coisa alguma. Nada. Absolutamente nada. Doeria para os que ficariam vivos e para aqueles que amavam o morto. Há sempre alguém que ame a gente e o amor talvez seja mesmo a vida. Vida==amor, amor==vida. Mas para o próprio morto não há somas nem sinais matemáticos de igualdade ou, eis nosso problema, desigualdade. Para o morto, só um número: zero. E na verdade era esse seu melhor argumento para jamais se suicidar. O suicídio seria o maior dos egoísmos pois que enquanto um nada para onde esvairia o desassossegado, ele talvez, outro qualquer, era isso exatamente um arraso para os que ficariam, cruz a se carregar pelos outros -- amigos, familiares, conhecidos em geral. O nada era melhor do que ter com eles, dizer isso era suicidar-se. Não importunaria ou ofenderia assim as outras pessoas que amava, mesmo se à vida não desse tanto valor, às pessoas o valor associava. Vida!=amor? Imaginava o que seria ter um filho ou um pai ou um parente até longínquo que fosse e que tivesse se suicidado. As pessoas ficariam meio estranhas, envergonhadas. Não envergonharia ninguém, mesmo porque, enfim, gostava até da vida; ah, gostava; gostava de aprender e de amar, mesmo que tivesse consigo que o amor fosse balança bem calibrada e que fizesse sofrer tanto quanto amar, na mesma medida. E morria de medo, às vezes, dos momentos de felicidade. Seriam recompensados com melancolias futuras de tristeza tão grande, talvez, caso fosse certa a teoria da balança. Perdera sim um pouco da vida de outrora, da agitação, fervor, juventude mesmo é a palavra. Estava mais calmo, tranqüilo, não se empolgava tão fácil; tinha uma pedra eu seu peito, exigia respeito. Mas era ainda um sonhador. Sonhava consigo e com ela, futuro incerto tão certo tão perto, um céu claro com sol encoberto. Mas não sonhava insólitas viagens e mundos e fronteiras e festas e churrascos e algazarras. Sonhava apenas com ela a seu lado, acordando e dormindo. Espreguiçando-se semi-nua a torcer o pescoço e vê-lo também no mesmo estado, recebendo o sorriso que representava o que sobrara da antiga paixão, o lastro-amor. Sonhava com eles se amando e sonhava com um quarto que fosse tão grande quanto o mundo inteiro, cama do tamanho do navio. Sonhava com essas viagens que faziam de porto a porto sem saírem do lugar e sonhava que com ela viajaria todos os mares, a despeito das ondas, fortes ondas a atrapalharem a navegação. Não mais se afobaria, porque nada era pra já e tudo seria a todo instante, agora. Enfim, sonhava que entre esses acordares e dormires, sua comunhão se consumasse e sonhava também com teorias e folhas e fotos e crianças e jovens e adultos e outros adultos e outras crianças e o ar puro, o mar, a erva, o dia e a lua, as folhas secas em praias desertas e o vento e os dois juntos e para sempre até alcançar, finalmente, a calma tranqüilidade de um vazio que, dos descansos, parecia o melhor e, antes de tudo, o mais real, mais parcimonioso. Não tinha porquê se enganar. Sonharia, sonharia e sonharia... até que

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