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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

29.5.08

Liberdade e equilíbrio, cidades e ciclismo

Lembro que tomei um mega-tombo de bicicleta quando, há dois anos atrás, tentei imitar minha amiga Juliana Jumps a pedalar sem as mãos em nosso passeio pelo interior da Inglaterra. Jamais havia sido capaz de fazer aquilo e tenho sempre uma sensação horrorosa de impotência quando vejo alguém do meu lado fazendo algo que, apesar de simples, eu não consigo fazer -- mas gostaria e sei que poderia. Passei toda minha temporada na Inglaterra dando umas tentadinhas, tirando as mãos do guidom por segundos ou mili-segundos, mas o medo sempre me vencia. "O medo leva ao lado negro", já dizia o grande jedi e sociólogo galáctico conhecido como mestre Yoda. Não devemos temer, bem sabemos. Mas é tão difícil...

Posteriormente, durante o ano e meio que passei no Brasil -- ora, foi só um ano e meio?, pareceu tanto tempo... --, estive morando em BH. E Belo Horizonte -- embora seja um dos lugares mais agradáveis do mundo! --, não é exatamente uma cidade própria para se fazer ciclismo. Imagino quando, faz pouco mais de cem anos, chegaram uns sujeitos ali naquele mesmo sítio e, olhando para aquela montanha toda desnivelada, eles pensaram: "façamos deste morro a capital de nosso estado". E fez-se então a capital das alterosas! Minas Gerais é um estado famoso por suas montanhas e assim provavelmente já era à época. O nome diz tudo: minas; gerais. A generalidade das montanhas, das minas de minério e da riqueza de nosso solo é o maior patrimônio de nosso estado. Não há nada melhor do que esquecer dos problemas durante o fim de semana e passear ou fazer hiking pelas montanhas que cercam BH, sempre repletas de deliciosas e puras nascentes, magníficas cachoeiras e uma mata ou cerrado naturais que encerram uma maravilhosa, enorme e rica biodiversidade; dessas que só se encontra mesmo num país tropical como o Brasil. Enfim, passei todo esse tempo praticamente sem andar de bicicleta. Apesar de tudo, vejo que isso foi uma bobagem, pois que tinha a bicicleta da francesa parada e morava perto da lagoa da Pampulha. Não teria sido nada mal alguns 17Km de pedalada num fim de semana ao redor daquele poço artificial idealizado por Oscar Niemeyer na década de 40, quando o prefeito da cidade era -- ao que tudo indica -- o megalomaníaco JK.

Início de 2008, então, e eis que estou de volta ao velho mundo, à vida simples e provinciana de uma cidade francesa na região da Alsácia. No Brasil, pensa-se em geral que o Europeu é cosmopolita e vive em uma onda fashion e tecnológica. A vida por aqui, entretanto, é muito mais simples e provinciana do aquela que temos nas abarrotadas e super-populosas mega-metrópoles brasileiras. Macaco velho do mundo europeu, eu já sabia que por aqui o melhor esquema de transporte é mesmo a bicicleta. Em minha primeira passagem pela Europa, quando morei na Inglaterra, demorei mesmo alguns meses até me ligar que o ciclismo poderia ser utilizado não só como esporte, mas até e, principalmente, como meio de transporte urbano. De fato, a forma como as cidades são montadas por aqui -- todas pequenas e próximas umas das outras, tendo um raio de extensão que se afasta na igreja central da localidade e que é característico de um crescimento lento e controlado; lado reverso do que ocorre nos países que se desenvolveram principalmente ao longo do século XX --, a satisfatória infraestrutura de ciclovias ao longo dos distritos, a planeza do terreno e o preço razoavelmente caro do transporte urbano -- eficiência tem preço! --, fazem com que todos os fatores se conjuntem e sugiram de soslaio ao cidadão: "compre uma bicicleta". Além do mais, é um exercício saudável e não poluímos o ambiente ao pedalarmos. A bicicleta é sem dúvida o melhor meio de transporte em praticamente todas as cidades européias de pequeno e médio porte. Fica-se abismado por vezes ao ver o número delas que se acumulam perto das estações de trens e metrôs. Cambridge tinha um enorme velo-park perto da estação de trem e bem sabe quem já esteve em Amsterdã a estranha beleza urbana composta pelas -- não exagero -- milhares de bicicletas que se amontoam ali ao lado da estação central, coração da maior e mais bela cidade-livre européia.

Bem, esta era para ser apenas uma nota a dizer que finalmente aprendi a andar de bicicleta sem as mãos e agora percebo minha prolixidade. Há cerca de um mês, estive em um campeonato de futebol que rolou do outro lado da cidade, onde estive com alguns dos meus amigos brasileiros que moram por aqui: Vitão e Gustavo, dentre outros. E fiquei realmente impressionado como eles eram capazes de dirigir, pilotar ou guiar (escolha seu verbo predileto) a bicicleta sem nenhuma das mãos, inclusive fazendo exercícios com os braços -- para cima e para baixo --, acendendo cigarros e fazendo outras abobrinhas. Suas mãos apenas esporadicamente tocavam o guidom; até mesmo as curvas, meus amigos faziam-nas sob o equilíbrio do corpo. E então me veio novamente aquele sentimento de "se eles podem, por que não posso?" e, num lapso de memória veio-me o instante da queda e a lembrança do joelho ralado anos atrás, parágrafos atrás. Perguntei a eles qual seria o segredo do ciclismo sem mãos e a resposta foi: "você não pode ter medo de morrer". Não podemos ter medo, o medo leva ao lado negro. Preciso lembrar sempre disso. Enfim, dentre os medrosos não posso me gabar de ser grande, mas também não sou do tipo que coloca cabeça dentro de boca de leão para se fazer de bobo. O que importa é que, desde este dia tenho mais ou menos tentado realizar umas tiradas de mão do guidom e, eis que há não mais de três ou quatro jornadas, como se diz por aqui, tenho me pegado dirigindo por centenas de metros sem usar as mãos, fazendo também os tais exercícios e conseguindo, -- quem diria -- até fazer curvas! Rogo-lhe que não me pergunte o segredo, pois não saberei expressá-lo muito bem em palavras; vai mais de treino e técnica, embora seja certo que tudo isso tenha algo a ver com equilíbrio e também com um senso de aventura associado à capacidade de enfrentar de frente o medo de ir ao chão. Quando você tira as mãos, parece que vai mesmo cair, mas aí você joga o corpo pra lá e compensa o desequilíbrio do lado de cá, dá um ajeitadinha no corpo depois, mantém o tronco ereto e vai pedalando. A velocidade também ajuda. Não sei exatamente como, mas sei que funciona agora e posso mesmo passar por obstáculos no chão sem a necessidade de tocar o guidom, inclusive olhando para o lado ou dando uma alongada no corpo. É claro que uma hora ou outra, quando há alguma pequena descida, principalmente, é preciso segurar a onda e colocar a mão no guidom; nem que seja apenas para frear. Também não é preciso fingir que não temos mãos, isso já seria demais...

Para terminar, como se não bastasse, descobri finalmente o caminho que me leva deste instituto onde trabalho até minha casa por meio de uma pequena e bela floresta que existe aqui em Strasbourg. O lugar é extremamente agradável e se você anda por ali de bicicleta, sem as mãos, sentindo o vento e a temperatura gostosa que vem de um ambiente de mata -- ainda que tão fragmentado -- tem-se uma sensação incrível e deliciosa de liberdade. Dá até vontade de gritar: liberdade! Freedom! Liberté! Ainda não cheguei a expelir essas palavras em alto e bom som e, de qualquer forma, alguém passando por ali poderia me pensar louco ao ver esta cena tão sem propósito: um latino andando de bicicleta em meio da mata e gritando palavras de ordem. Há um batalhão do exército por aqui e já vi militares andando pela mata. Mas não ligarei, pensem eles o que quiserem. E quando essa fantasia de me pensar livre me atacar novamente em meio à floresta e à brisa deliciosa, sob a bicicleta guiada por minhas pernas e corpo, gritarei e pensar-me-ão louco. Pois que pensem, posto que também pensam que são livres e, assim, estarão duplamente enganados. Ou será que não?

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28.5.08

Sonho que é sonho não

Nesta última noite tive um sonho um tanto quanto inusitado. Sonhei que não dormia, que não conseguia dormir. Entretanto eu sabia muito bem que estava sonhando e que tudo aquilo não era real. Ora, mas como se pode sonhar que não se consegue dormir quando o sonho apenas acontece quando se está dormindo? Naquela epifania, fiquei fritando meu cérebro com este paradoxo idiota: se estava dormindo e sonhando, não poderia estar sofrendo de insônia. Enfim, isso não vem ao caso por ora. O que importa é que aquele meu não-dormir acontecia de maneira um tanto quanto estranha, permita-me explicar: eis que não conseguia dormir porque tinha uma vida por demais ativa e porque queria sempre ficar lendo e tocando e saindo e trabalhando e fazendo ciência e pensando e navegando na internet e escutando músicas e assistindo documentários e namorando e bebendo cerveja e fumando e pensando novamente e tocando mais um pouco. E então, quando terminava o ciclo, queria apenas recomeçá-lo em outra ordem aleatória qualquer. Ainda que eu saiba e soubesse ali também no sonho das informações fornecidas pelos neurologistas: "o processo de dormir ajuda na fixação de memórias", ainda assim minha ansiedade em fazer coisas divertidas não abria lugar para o sono dentre os prazeres de minha preferência. Sua necessidade, entretanto, me levava para cama certa hora, tarde da noite. E então eu me recolhia à cama, cansado de toda a aventura intelectual do dia e bastava que eu me deitasse e apenas fechasse os olhos por um ínfimo instante de tempo para que o despertador tocasse e me acordasse dizendo que era uma hora que, definitivamente, eu sabia que não era! O despertador estava a me enganar! Dormia por cinco minutos e ele dizia que eu havia dormido por três a cinco horas. Veja bem, o despertador me pregava peças! As horas não se passavam, mas ele dizia que sim. Ora, sei muito bem que mesmo dormindo consigo ter uma noção -- ainda que razoavelmente imprecisa -- das horas se passando e quando acordo tenho uma certa idéia de quanto tempo passei dormindo. Consigo ao menos diferenciar minutos de horas. E devido a esse medidor de tempo que funciona fora de meu período de vigília e que sempre me fora intrínseco, ficava certo da deslavada mentira pregada pelo despertador. Levantava então um caco para mais uma aventura intelectual diária, posto que infelizmente haviam obrigações de labor e essas obrigações do dia era preciso seguir: trabalho, sustento, pão de todo dia. Senão, o que fazer ao fim do mês? Durante o sonho, passou pela minha cabeça desistir de toda essa labuta e cheguei a calcular quanto tempo conseguiria viver com as economias que tinha. Mas dado o número pequeno de meses tido como resposta, preocupei-me com outras coisas. E então, incrivelmente, ao longo do dia o cansaço ia se esvaindo. Já que não podia descansar à noite devido ao despertador engraçadinho, descansava então ao longo do dia de trabalho, auxiliado por cigarros e cafés; para que os olhos não caíssem. E então voltava pra casa ao fim da tarde pedalando aquela bicicleta que quase caia aos pedaços e pensava se deveria ir direto para a cama ou não. Mas nem tentava ir, pois que sabia que não conseguiria e, além do mais, havia tanta coisa pra fazer: livros e filmes e música e documentários e pessoas do outro lado do oceano a contactar e cerveja e ela e os amigos... E então me enveredava por todas essas deliciosas amenidades até certa hora em que o cansaço já me batesse à porta e então eu deitava novamente à cama e olhava -- com muito cuidado -- o horário marcado pelo despertador. Acertava perfeitamente a hora de acordar para não perder o trabalho no dia seguinte e verificava por dois ou três minutos se o despertador realmente passava o tempo na medida correta. Conferida a correção da passagem do tempo no relógio, ao menos durante minha vigília, eu então me deitava e era só pregar os olhos para a merda começar a tocar e me dizer que já era novamente hora de levantar. Ora, impossível! Não era a hora, eu sabia que não era. Mas essas bostas dessas obrigações da vida exigiam que eu me levantasse. E então era banho e café e zarpar para o trabalho. E assim os dias se transcorriam neste sonho que não acabava e que continuava dia após dia. Tentei por vezes adicionar um novo despertador ao lado; pois sabia que aquele ali estava estragado. Mas havia algum tipo de transferência pelo ar, que fazia com que o novo também se estragasse. No sonho, exigia diariamente do meu cérebro muito mais do que ele era capaz de se refazer durante a pequena noite que parecia durar apenas minutos, às vezes segundos; bastava que eu fechasse os olhos para o dia amanhecer. Em certo instante, comecei a me questionar: seria sonho isso mesmo? Ou seria a realidade? Ando mesmo cansado e faço tantas coisas ao-mesmo-tempo-agora enquanto o programa roda na outra janela e outras 30 abas do navegador estão sempre abertas em diferentes sítios e repositórios de informação, muitos na wikipedia, sempre a wikipedia -- em inglês, por favor. E penso também agora que deveria começar a escrever em inglês já que é esta mesmo a língua do mundo e já me sinto bem fluente nela, exceto quando vou aos Estados Unidos ou à Inglaterra e vejo que ainda tenho certa deficiência. Não falarei como um nativo, provavelmente nunca. Enfim, assisto todos os dias algum documentário em inglês e sempre penso que entendo tudo ou quase tudo, embora nunca tenha paciência de voltar quando não entendi algum detalhe, sempre detalhes, o mundo avança, o tempo passa, não me aterei aos detalhes, quero algo amplo e maior. Vinte e quatro horas são pouco tempo para quem tem fome de saber, conhecimento, aprendizado e prazer, principalmente. Os ponteiros do relógio não param e não param; e a gente continua porque a vida é continuar e continuar é a vida. O sonho que não é sonho, é realidade (!), me faz ficar cansado e ansioso por um novo dia de descanso. O que é o descanso? Trabalho o dia todo e passeio e viajo e almoço e fumo e bebo e toco e escrevo prosa e poesia e ando e pedalo e nado e beijo e durmo e não faço mais nada e a bosta do dia já acabou. Faço pouca coisa e as merdas das vinte e quatro horas já se passaram, ora bolas. Ora, ora. Ora, bolas. Não tenho tempo nem pra varrer o chão da casa que se suja em questão de horas, fim de semana é hora de arrumação e é esse o tempo mais perdido da vida, ficar arrumando as coisas, elas deveriam ser auto-organizáveis e as empregadas domésticas são uma dádiva que não temos na Europa, graças a uma maravilhosa filosofia igualitária. Varro e lavo louça e roupa reclamando mas feliz por viver em uma sociedade igualitária; é sério. É uma bosta, mas eu não me sentiria bem explorando outra pessoa e pagando uma mixaria para ela cuidar dos meus descuidos. A menos que eu pagasse uma hora normal de trabalho para a referida pessoa; aí estaria bom, geraria emprego, faria o ciclo da economia rodar e rodar. Não sei se é bom girar a economia, entrar nesse ciclo do capitalismo, mas sei que desemprego é ruim e sei também que se alguém quer fazer isso e alguém quer pagar por isso, tudo é justo; ou quase tudo, não sei ao certo. O cansaço me persegue e o sono não o repara. Acordo e trabalho e durmo enquanto o tempo passa de forma veloz e o relógio tiquetaqueia de modo estanho e inconstante, principalmente durante à noite -- que passa num piscar de olhos. Sonho com esses sonhos que não durmo e não durmo por estar acordado também durante a maior parte da noite. Há muita informação nessa sociedade, neste mundo. Vamos ficar loucos um dia, talvez agora, talvez ainda demore, nunca saberemos. O louco saberá quando está louco? Ou são os outros que o dizem? Se não se faz mal à sociedade e tem-se uma loucura introspectiva, nunca um louco será considerado louco. A questão é ser capaz de fazer o que se precisa pra continuar vivendo, forrageando na selva urbana, sociedade tecnológica. Quem não é diagnosticado louco é aquele que consegue fazer seu acordar, tomar banho, trabalhar, comer e dormir de novo, ainda que mal, ainda que por pouco tempo. Quem cumpre suas pseudo-responsabilidades do dia e coopera em seu contrato social com os outros à sua volta não é louco. A mente não está relacionada com a loucura, a loucura dos médicos se relaciona a um problema com outros, com a sociedade, não um problema intrínseco da mente daquele que não raciocina muito bem -- ou raciocina bem demais, será? O sonho e a realidade se misturam, dizem, quando se está louco. Estarei sonhando ou será tudo isso mesmo real, essa desigualdade, essas pessoas que querem guerra e que querem matar aqueles que pensam diferente. Isso é real? Bato na minha cabeça e fico na dúvida. Talvez eu esteja sonhando quando vejo que alguém matou outra pessoa por causa de nada. Tudo é nada quando o assunto é a vida de alguém, não há bem maior do que o bem de estar vivo. E também a pena de morte não trás ninguém de volta, só leva mais outro: não faz sentido. Só podem ser todos um bando de loucos, só pode ser tudo um sonho, não sei mais se sonho em meio à realidade e esta realidade pode ser apenas parcialmente da forma que acho que é, jamais saberei; você tampouco. Talvez eu esteja já em algum hospício e apenas pense que viva em minha casa, neste escritório, encontre amigos. Fantasio a mim mesmo e não sei o que esperar do futuro, não sei mesmo o que é o futuro e o que será de mim, de você, de nós, deles, delas, de toda essa galera que se amontoa por aí. Existirão todos fora deste mundo solipsista ou será tudo uma verdadeira enganação? A italiana me disse que queria viver apenas um a cada dois dias e então eu pedi pra ela o dia extra que ela vai deixar pra trás pra que eu possa vivê-lo, ela disse que me dá sim e eu agradeci, embora não saiba ao certo como será feita essa transferência. Parece que vou ter que trabalhar também no lugar dela nesses dias, mas pelo menos terei outras dezessseis horas a mais para tocar e estudar e ler e escrever e pensar e amar e pedalar e nadar e andar e produzir alguma coisa de boa pra essa sociedade que é uma merda, se for mesmo real. Não vou dormir quando utilizar as horas dela, espero que ela entenda. Talvez eu tente dormir mais horas na próxima noite para ver se passa toda essa loucura e a ansiedade da vida e das coisas que me cercam e de tudo que me atinge por vezes como uma faca sem ponta a me cortar a ligação com essa realidade que nem mesmo sei se existe. Terá sido o sonho, um sonho apenas? Terá sido apenas realidade, esta realidade? O sonho talvez não tenha mesmo sido um sonho, estado onírico com movimento rápido dos olhos. Esquisita é esta realidade social e também a ansiedade que tenho por tudo e pelo mundo. Um dia engolirei esse mundo inteirinho; e muito provavelmente morrerei de indigestão.

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20.5.08

Auto de parabéns

Completo hoje minha vigésima nona volta ao redor do Sol. Como de praxe nessas ocasiões, é hora de refletir. O que sou eu? O que fui? O que serei? Sou um biólogo? Um geneticista? Um bioinformata? É um homem sua profissão? Ou é ele o que pensa? Serei então um filósofo? Ou será o homem representado por sua arte? Serei músico ou escritor ou poeta? Suas idéias o representarão? Pacifista, ambientalista, racionalista, secularista? Sou só mais um macaco em meio a tantos outros. Sei tanta coisa ao mesmo tempo que também sei da máxima socrática: não sei porra nenhuma. A fé que tenho no conhecimento humano critica a si mesma. Mas num mundo que ninguém sabe absolutamente nada, saber um pouco faz diferença. Não sei se tenho mais pena dos ignorantes ou daqueles que estão certos do quanto "sabem". O conhecimento não existe: a aparência não é a coisa em si, tudo é interpretação. A coisa em si é inalcançável, diria Kant. Olho ao espelho e retiro um cabelo branco sem temor, com orgulho até. Viver é aprender. Melhoro a cada dia ao mesmo tempo que continuo sendo um bosta; apenas um bosta ligeiramente diferente, metamorfose ambulante. Tenho saudades, tantas saudades. Amo tanta gente lá no Brasil e o vazio assim me preenche; mas sigo em frente. Mesmo na França já amo muita gente. Gosto de todos que me tratam bem, amo minha família e meus amigos, mesmo os novos. Também ela penso que já amo. Estou pronto para morrer, estou sempre pronto. Quem vive sua vida plenamente não tem medo da morte pois que ainda que se queira sempre (?) continuar vivendo, sabe-se muito bem que tudo se fez para ter a melhor das vidas possíveis e, assim, anda-se sem medo. O carpe diem do epicurista levo ao pé da letra. Onde chegarei? Não tenho mais o vigor de outrora, sou menos ansioso. Tenho menos ambição e mais respeito. Sinto uma responsabilidade para com aqueles que amo e também para com o mundo. Outros andam e seguem com facilidade as tradições, não usam o ponto de interrogação, acreditam simplesmente no que dizem os que viveram antes deles. Eu não consigo: o mundo é muito errado. Já aprendi com Nietzsche que o certo e o errado não existem, se falarmos de maneira absoluta, mas não consigo ver o rico explorar o pobre e achar normal. Sou humano. Tenho uma moral, ética, sou humanista sem ter -- absolutamente -- nenhuma religião; longe disso. Forrageio pela vida em busca de não-sei-o-quê. Aqueles objetivos que tinha se dissiparam como a névoa ao amanhecer; agora sigo apenas carpedianamente. Gosto mesmo é de fazer ciência e música e poesia e filosofia, não necessariamente nesta ordem. A prosa tem me saído com mais esforço, suo para vomitar essas palavras, não escrevo mais por escrever. Escrevo apenas quando algo explode dentro de mim, na maior parte das vezes. Sou um perfeccionista, na verdade. Nunca estou satisfeito com o que faço e sou o arauto de minha própria derrota. E então me elogiam, dizem que foi bom. Fico feliz, mas não sei se acredito. Sei que muitas coisas faço melhor do que outros, mas quero me superar, ainda tenho um pouco de medo de cair no poço daquela mediocridade que tanto critico em outros. Da vida, não quero nada demais. Para ser realmente completo só me falta poder viver de arte: filosofia e música e literatura e ciência, cada uma na hora que eu quiser, na hora que brotarem impulsivamente de mim. Esse é o ideal que busco e que sei que não vou alcançar, mas que também sei que não vou desistir de tentar. Queria acordar um dia sem saber o que fazer e sem ter qualquer obrigação. Mas não ficaria na cama, no ócio dos idiotas. Criativo seria meu ócio e faria música ou então poesia ou ciência ou filosofia, dependendo do humor. Quando viajo, levo pelo menos cinco livros diferentes; desta vez trouxe seis. Não leio nenhum de cabo a rabo. Leio um e canso, daí pego outro. Volto pra um, volto pra outro. Às vezes termino, às vezes não. Passo anos lendo um mesmo livro e suas histórias ou idéias acompanham-me no dia-a-dia. Há livros que não me sinto maduro para ler e aí os deixo. Por vezes tento de novo e aí vai. Ou não; e daí deixo-o mais uma vez de lado. Não leio mais histórias idiotas, gasto meu tempo apenas com aquilo que me fará crescer. Há tanta coisa boa para ler, a herança cultural da humanidade é tão rica... Não preciso dos "best sellers". Tem-me sido também difícil escutar uma música sem pensar em como tocá-la, como fazer aquele solo, qual nota é mais grave ou mais aguda ao longo da melodia, onde estarão estes sons no braço do violão. Amei o violão muito tempo e agora sinto que o traio um pouco, pois amo também a guitarra. E o baixo também estou prestes a amar, mas ele ainda me olha com estranheza. Sinto que já falo francês razoavelmente, o inglês vai bem obrigado, já morei em quatro países diferentes e visitei outros tantos. Entendo mais sobre o mundo e acho uma pena que ainda exista ditadura e repressão em vários daqueles que não visitei, roubalheira pra lá e pra cá na nossa esquina. Ah, esses seres humanos... só uma educação filosófica resolveria o problema, um compromisso de cada um com a sociedade, à la Tarde. A Europa é um lugar melhor, neste ponto de vista. O cidadão médio tem mais cultura que um suposto intelectual brasileiro; quase sempre me sinto ignorante ao conversar com eles. Mas a Europa, dizem, está para morrer. Ganha esta estúpida guerra pela sobrevivência os que fodem os outros sem piedade. Quem sou eu? Não sou mais brasileiro, não sou estrangeiro, como o Titã sou de lugar nenhum, sou de nenhum lugar. Perdi parte daquele rótulo que me identificava como brasileiro, também não sou daqui ou de lá, sou uma mistura genética e memética de tantos povos e culturas; minha diversidade é minha força. Queria por vezes poder entrar no corpo de outrem para poder me encontrar, olhar para mim e conversar comigo mesmo como se eu fosse outra pessoa. Talvez assim eu pudesse saber melhor quem sou. Mas, ora, que hipótese absurda! Não conheço a mim mesmo, dona esfinge. Devo ser mesmo um louco. Vinte e nove não é trinta. Já vivi tanto e a expectativa de vida ainda diz que viverei muito tempo. Parece bom. Viverei mesmo? Não sei. Quererei viver? Acho que sim. Não sei de nada, aprendi tanta coisa pra saber que muito mais coisas ainda jamais vou saber; minha ignorância será sempre maior que meu conhecimento. Como se não bastasse mesmo aquilo que sei já não tenho mais tanta certeza. Conhecimento é crença fundamentada, sim, mas quão fundamentada? Amo a ciência e amo o conhecimento, mas as vezes me pego a pensar: existirão a gravidade e o DNA? Existirão dessa forma que imaginamos que são mesmo? As vezes vou mais longe: existirá esse computador, esta mesa, esta lâmpada? Pregar-me-ão uma peça, meus olhos e minha mente? Existirei eu-mesmo? Se penso, logo existo. Esses franceses... sempre a nos colocar pulgas atrás da orelha. Ora, e se é que existo, se é que a Terra existe e o Sol, se é que Copérnico estava certo e também se acreditamos nesta extrapolação que chamamos de calendário, então faço anos e mereço os parabéns. Ou quem sabe, sei lá, talvez nem mereça...

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5.5.08

I Amsterdam*

Amsterdã estava ainda lá. As mesmas ruas, os mesmos trens, o mesmo camping. Os mesmos coffeshops, mulheres que se vendem da mesma forma, mesmos bairros e esquinas e guetos. Finalmente, o mesmo eu. O mesmo eu ou um eu diferente? O mesmo e o outro, lembrei de Borges. Estou mais maduro, é fato. Não quero da vida o mesmo que queria e provavelmente não quererei o mesmo que quero agora, anos avante. Como Seixas, prefiro ser aquela metamorfose ambulante e não quero ter a mesma opinião formada sobre tudo. As vielas da cidade alagada estendem-se ao longo dos turistas, são tantos, são tantas. Estamos quatro metros abaixo do nível do mar. Para que lado é a estação central mesmo? Anda-se perdido pelas ruelas idênticas com cafés e mulheres e turistas e bares e restaurantes chineses com taxas benefício/custo altas. São as melhores opções também em Nova York, os chineses, e embora a ditadura lá seja um enorme problema, verdadeira vergonha para a humanidade em pleno século XXI, a comida é muito saborosa; mesmo a que é exportada para a Europa e as Américas do Norte e do Sul. Estranho é o senso de humor do humano.

O taxista que nos leva de volta tarde da noite é mesmo de Amsterdã e diz que a cidade não tem nada de mais. E não tem mesmo, é só mais uma cidade como tantas outras em que um motorista de taxi fica entendiado ao falar com turistas idiotas. Sei que o taxista nos acha estúpidos e acha também estupidez o fato de se olhar mulheres lindas se vendendo nas vitrines e achar tudo isso bacana. Bizarro zoológico humano, bizarra é a fantasia sexual de uns, bizarro somos nós também com nossos enquadrados moralismos e antiquados conceitos. Particularmente acho linda a liberdade das mulheres de serem prostitutas profissionais e viverem disso, se isso lhes agradar. Diz-se da vida fácil, será mesmo fácil? Talvez seja sim, mas qual o problema? Quem não quer uma vida fácil? Gasta-se cinqüenta euros para se transar com uma gostosa. Ganha-se cinqüenta euros para se transar com um qualquer, sendo uma gostosa. Cinqüenta euros é uma grana boa, dá pra viver bem um dia. Uma trepada por dia e voilá. Vive-se bem e ainda se dá umazinha quase garantida todo dia. Se há quem pague e há quem ganhe, eis um acordo, eis a liberdade, qual o problema? Melhor fazer às claras do que proibir algo que é intrínseco à natureza humana; o sexo. Haverá prostituição mesmo no mais católico e ortodoxo dos países. As mulheres se vendem, os homens as compram. "Como é que eu vivo sem sexo?", canta a banda de rock paulista nos anos oitenta. O holandês não quer ser taxado de falso-moralista, ele não prega a estúpida moral cristã, o que é a moral?, qual o limite do moralismo?, quem é capaz dizer o que se pode e o que não se pode fazer? O holandês sabe disso intrinsecamente, mesmo sem se dar conta. O holandês aceita com normalidade todas essas coisas e é fato consumado: Amsterdã não tem absolutamente nada de especial.

Quanto às mulheres, deixem que se vendam se quiserem! É absurdo alguém querer dizer o que devemos fazer com nossos próprios corpos: nosso mais precioso bem. Nossos corpos somos nós, diz Damásio ao apresentar-nos o erro de Descartes. René Descartes pensava e, logo, existia. O pensador francês separava mente e corpo, facetas dúbias e distintas de nosso self, lá pelo início do século XVII. E embora a resposta da neurologia de Damásio seja questionável, estou com ele: a mente é o corpo e o corpo é a mente. Penso que sou meu corpo e quando este se acabar, também eu me acabarei. É preciso aproveitar a vida. A mente não vive sem o corpo e embora os memes derivados desta mente possam ser eternos como os diamantes, a mente em si naufraga no mesmo navio do corpo -- elas formam, de fato, a mesma embarcação. Nossas mentes são maravilhosas propriedades emergentes deste caos que é nosso cérebro complexo, evolutivamente moldado para resolver problemas que fizeram nossos ancestrais reproduzirem mais e continuarem vivos. A mente faz parte do corpo e não existe sem ele. Quiçá existisse... Mas não aceito respostas fáceis e aconchegantes. Sou um realista. Prostituição, uso de drogas, aborto, eutanásia. Tudo isso tem a ver com meu próprio corpo, que sou eu. Que governo deveria poder impedir isso? Impedir que eu faça o que bem entender com meu próprio corpo que é meu e que sou eu, em última análise? Isso é absurdo, o mundo é absurdo, Amsterdã é normal. Essa liberdade das prostitutas e da legalização da venda de drogas em Amsterdã deixa-me sempre feliz por estar ali. A Holanda é, de fato, um país mais livre e mais avançado em termos de não se apegar à certas tradições e ao preconceito do que seus vizinhos europeus, mesmo aqueles que também têm a prostituição profissionalizada. O museu da maconha mostra dados: a droga foi proibida nos Estados Unidos, década de 30, porque eram os mexicanos que a usavam em demasia. E os americanos queriam vetar os direitos dos mexicanos, expulsá-los e mandá-los de volta para onde vieram. E se eles gostam de maconha, então vamos proibí-la. A ""brilhante"" idéia pegou e todo o mundo resolveu criminalizar a planta que poderia revolucionar a industria têxtil. Onde está o capitalismo quando dele precisamos? Não era o capitalismo que a tudo devorava? Mesmo nos States, tempos antes, George Washington incentivava a produção de maconha devido a razões comerciais. Holandeses, enfim, orgulham-se da liberdade de seu país nesses aspectos. E é assim mesmo que se deve ser, devem mesmo se orgulhar. É muito bonita uma terra com esse tipo de liberdade. A Holanda é especial, Amsterdã é lugar extremamente mágico. E não é um lugar qualquer, lugar normal: definitivamente.

Já no Brasil, entretanto, a prostituição não tem esse mesmo ideal libertário da prostituição holandesa, da prostituição européia em geral. No Brasil as mulheres se prostituem por não conseguirem empregos, não terem condições de sobrevivência, não poderem fazer o que bem querem: é um problema de cunho claramente social. Mesmo em Amsterdã, a gente as vezes olha pra cara de algumas putas e vê, lá no fundo dos olhos delas, que elas não queriam estar ali. Mas na Holanda, essas não são maioria. Percebe-se claramente que a maior parte delas está mesmo ali trabalhando como profissional do sexo e está razoavelmente satisfeita pelo tanto que ganha e pelo trabalho que faz. Enfim, você está satisfeito com o que ganha e com o que faz? Talvez elas estejam melhores do que você. Penso que essas razoavelmente-satisfeitas sejam a maioria das que ali se mostram, atrás das portas de vidro do distrito da luz vermelha.

Mas, enfim, concordo com o taxista em certo aspecto: Amsterdã não é nada demais. (Veja bem: não entro em contradição e sim concordo e discordo dependendo do aspecto que se considere.) As putas e as drogas não fazem da cidade nada de muito especial e o cotidiano do cidadão comum não é particularmente abalado por esses vandalismos e absurdismos pensados pela estúpida ortodoxia cristã. Amsterdã é só mais uma cidade cheia de pessoas que vivem e acordam e trabalham e têm suas vidas, seus afazeres, seus medos e dramas. Todo o mundo e os seres humanos, vida em sociedade, tudo é assim. (Diferenças são exacerbadas por aqueles que não conhecem lugar algum e criam estereótipos toscos e mal concebidos: as brasileiras são todas putas, diz-se por aí.) Em um sentido mais amplo podemos dizer que todos os lugares são, de fato, o mesmo lugar. Mas há certas diferenças, nuances que nos fazem amar certos sítios (ou pessoas) que não existem noutros locais (ou seres). São apenas detalhes. Ah, os detalhes... O jeito como se sorri, como se balança a cabeça ao falar, como se mexe a mão ao andar, como se pedala a bicicleta, como se abaixa para pegar algo no chão. São detalhes que nos fazem apaixonar. E de uma certa forma como Belo Horizonte, Amsterdã tem uma certa magia charmosa em não ser nada demais e ser linda, maravilhosa e até mágica nesses detalhes. Bares, boêmia, pessoas com idéias tão simples na cabeça que sequer conseguem entender o rigor estúpido das proibições noutros sítios. Acho que poderia passar incontáveis semanas naquela rotina de acordar, fumar, passear pelas vielas, ver os turistas, fumar mais um pouco, entrar então em algum museu, tomar uma breja discutindo sobre as obras e as relações das mesmas com o autor e a atmosfera da época enquanto enrola-se mais um e fuma-se novamente. Toma-se aquela cerveja antes do almoço para se pensar melhor e outras durante o dia para clarear ainda mais a visão. Questiona-se conceitos, cria-se novos. Chega-se a uma conclusão e depois muda-se de idéia. O mundo é louco. Idéias fixas são falsas. Amsterdã é o lugar (eu acho). Fim do dia, volta-se para casa com o sol ainda a pino, à noite, na primavera européia, hemisfério norte, raios solares incidindo enviesados de acordo com aqueles que têm o Brasil como referência. Estamos cansados mas ainda há tempo para uma conversa, uma roda de violão, um blues, uma bossa, o último fino; começaremos tudo de novo amanhã.


"I Amsterdam" é o slogan turístico da cidade, vendem-se camisas com tais dizeres e sente-se, por vezes, uma mescla de nosso próprio ser com a vida da cidade. É mágico mas é normal, é natural; difícil explicar, fácil sentir.

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