Liberdade e equilíbrio, cidades e ciclismo
Lembro que tomei um mega-tombo de bicicleta quando, há dois anos atrás, tentei imitar minha amiga Juliana Jumps a pedalar sem as mãos em nosso passeio pelo interior da Inglaterra. Jamais havia sido capaz de fazer aquilo e tenho sempre uma sensação horrorosa de impotência quando vejo alguém do meu lado fazendo algo que, apesar de simples, eu não consigo fazer -- mas gostaria e sei que poderia. Passei toda minha temporada na Inglaterra dando umas tentadinhas, tirando as mãos do guidom por segundos ou mili-segundos, mas o medo sempre me vencia. "O medo leva ao lado negro", já dizia o grande jedi e sociólogo galáctico conhecido como mestre Yoda. Não devemos temer, bem sabemos. Mas é tão difícil...
Posteriormente, durante o ano e meio que passei no Brasil -- ora, foi só um ano e meio?, pareceu tanto tempo... --, estive morando em BH. E Belo Horizonte -- embora seja um dos lugares mais agradáveis do mundo! --, não é exatamente uma cidade própria para se fazer ciclismo. Imagino quando, faz pouco mais de cem anos, chegaram uns sujeitos ali naquele mesmo sítio e, olhando para aquela montanha toda desnivelada, eles pensaram: "façamos deste morro a capital de nosso estado". E fez-se então a capital das alterosas! Minas Gerais é um estado famoso por suas montanhas e assim provavelmente já era à época. O nome diz tudo: minas; gerais. A generalidade das montanhas, das minas de minério e da riqueza de nosso solo é o maior patrimônio de nosso estado. Não há nada melhor do que esquecer dos problemas durante o fim de semana e passear ou fazer hiking pelas montanhas que cercam BH, sempre repletas de deliciosas e puras nascentes, magníficas cachoeiras e uma mata ou cerrado naturais que encerram uma maravilhosa, enorme e rica biodiversidade; dessas que só se encontra mesmo num país tropical como o Brasil. Enfim, passei todo esse tempo praticamente sem andar de bicicleta. Apesar de tudo, vejo que isso foi uma bobagem, pois que tinha a bicicleta da francesa parada e morava perto da lagoa da Pampulha. Não teria sido nada mal alguns 17Km de pedalada num fim de semana ao redor daquele poço artificial idealizado por Oscar Niemeyer na década de 40, quando o prefeito da cidade era -- ao que tudo indica -- o megalomaníaco JK.
Início de 2008, então, e eis que estou de volta ao velho mundo, à vida simples e provinciana de uma cidade francesa na região da Alsácia. No Brasil, pensa-se em geral que o Europeu é cosmopolita e vive em uma onda fashion e tecnológica. A vida por aqui, entretanto, é muito mais simples e provinciana do aquela que temos nas abarrotadas e super-populosas mega-metrópoles brasileiras. Macaco velho do mundo europeu, eu já sabia que por aqui o melhor esquema de transporte é mesmo a bicicleta. Em minha primeira passagem pela Europa, quando morei na Inglaterra, demorei mesmo alguns meses até me ligar que o ciclismo poderia ser utilizado não só como esporte, mas até e, principalmente, como meio de transporte urbano. De fato, a forma como as cidades são montadas por aqui -- todas pequenas e próximas umas das outras, tendo um raio de extensão que se afasta na igreja central da localidade e que é característico de um crescimento lento e controlado; lado reverso do que ocorre nos países que se desenvolveram principalmente ao longo do século XX --, a satisfatória infraestrutura de ciclovias ao longo dos distritos, a planeza do terreno e o preço razoavelmente caro do transporte urbano -- eficiência tem preço! --, fazem com que todos os fatores se conjuntem e sugiram de soslaio ao cidadão: "compre uma bicicleta". Além do mais, é um exercício saudável e não poluímos o ambiente ao pedalarmos. A bicicleta é sem dúvida o melhor meio de transporte em praticamente todas as cidades européias de pequeno e médio porte. Fica-se abismado por vezes ao ver o número delas que se acumulam perto das estações de trens e metrôs. Cambridge tinha um enorme velo-park perto da estação de trem e bem sabe quem já esteve em Amsterdã a estranha beleza urbana composta pelas -- não exagero -- milhares de bicicletas que se amontoam ali ao lado da estação central, coração da maior e mais bela cidade-livre européia.
Bem, esta era para ser apenas uma nota a dizer que finalmente aprendi a andar de bicicleta sem as mãos e agora percebo minha prolixidade. Há cerca de um mês, estive em um campeonato de futebol que rolou do outro lado da cidade, onde estive com alguns dos meus amigos brasileiros que moram por aqui: Vitão e Gustavo, dentre outros. E fiquei realmente impressionado como eles eram capazes de dirigir, pilotar ou guiar (escolha seu verbo predileto) a bicicleta sem nenhuma das mãos, inclusive fazendo exercícios com os braços -- para cima e para baixo --, acendendo cigarros e fazendo outras abobrinhas. Suas mãos apenas esporadicamente tocavam o guidom; até mesmo as curvas, meus amigos faziam-nas sob o equilíbrio do corpo. E então me veio novamente aquele sentimento de "se eles podem, por que não posso?" e, num lapso de memória veio-me o instante da queda e a lembrança do joelho ralado anos atrás, parágrafos atrás. Perguntei a eles qual seria o segredo do ciclismo sem mãos e a resposta foi: "você não pode ter medo de morrer". Não podemos ter medo, o medo leva ao lado negro. Preciso lembrar sempre disso. Enfim, dentre os medrosos não posso me gabar de ser grande, mas também não sou do tipo que coloca cabeça dentro de boca de leão para se fazer de bobo. O que importa é que, desde este dia tenho mais ou menos tentado realizar umas tiradas de mão do guidom e, eis que há não mais de três ou quatro jornadas, como se diz por aqui, tenho me pegado dirigindo por centenas de metros sem usar as mãos, fazendo também os tais exercícios e conseguindo, -- quem diria -- até fazer curvas! Rogo-lhe que não me pergunte o segredo, pois não saberei expressá-lo muito bem em palavras; vai mais de treino e técnica, embora seja certo que tudo isso tenha algo a ver com equilíbrio e também com um senso de aventura associado à capacidade de enfrentar de frente o medo de ir ao chão. Quando você tira as mãos, parece que vai mesmo cair, mas aí você joga o corpo pra lá e compensa o desequilíbrio do lado de cá, dá um ajeitadinha no corpo depois, mantém o tronco ereto e vai pedalando. A velocidade também ajuda. Não sei exatamente como, mas sei que funciona agora e posso mesmo passar por obstáculos no chão sem a necessidade de tocar o guidom, inclusive olhando para o lado ou dando uma alongada no corpo. É claro que uma hora ou outra, quando há alguma pequena descida, principalmente, é preciso segurar a onda e colocar a mão no guidom; nem que seja apenas para frear. Também não é preciso fingir que não temos mãos, isso já seria demais...
Para terminar, como se não bastasse, descobri finalmente o caminho que me leva deste instituto onde trabalho até minha casa por meio de uma pequena e bela floresta que existe aqui em Strasbourg. O lugar é extremamente agradável e se você anda por ali de bicicleta, sem as mãos, sentindo o vento e a temperatura gostosa que vem de um ambiente de mata -- ainda que tão fragmentado -- tem-se uma sensação incrível e deliciosa de liberdade. Dá até vontade de gritar: liberdade! Freedom! Liberté! Ainda não cheguei a expelir essas palavras em alto e bom som e, de qualquer forma, alguém passando por ali poderia me pensar louco ao ver esta cena tão sem propósito: um latino andando de bicicleta em meio da mata e gritando palavras de ordem. Há um batalhão do exército por aqui e já vi militares andando pela mata. Mas não ligarei, pensem eles o que quiserem. E quando essa fantasia de me pensar livre me atacar novamente em meio à floresta e à brisa deliciosa, sob a bicicleta guiada por minhas pernas e corpo, gritarei e pensar-me-ão louco. Pois que pensem, posto que também pensam que são livres e, assim, estarão duplamente enganados. Ou será que não?
Posteriormente, durante o ano e meio que passei no Brasil -- ora, foi só um ano e meio?, pareceu tanto tempo... --, estive morando em BH. E Belo Horizonte -- embora seja um dos lugares mais agradáveis do mundo! --, não é exatamente uma cidade própria para se fazer ciclismo. Imagino quando, faz pouco mais de cem anos, chegaram uns sujeitos ali naquele mesmo sítio e, olhando para aquela montanha toda desnivelada, eles pensaram: "façamos deste morro a capital de nosso estado". E fez-se então a capital das alterosas! Minas Gerais é um estado famoso por suas montanhas e assim provavelmente já era à época. O nome diz tudo: minas; gerais. A generalidade das montanhas, das minas de minério e da riqueza de nosso solo é o maior patrimônio de nosso estado. Não há nada melhor do que esquecer dos problemas durante o fim de semana e passear ou fazer hiking pelas montanhas que cercam BH, sempre repletas de deliciosas e puras nascentes, magníficas cachoeiras e uma mata ou cerrado naturais que encerram uma maravilhosa, enorme e rica biodiversidade; dessas que só se encontra mesmo num país tropical como o Brasil. Enfim, passei todo esse tempo praticamente sem andar de bicicleta. Apesar de tudo, vejo que isso foi uma bobagem, pois que tinha a bicicleta da francesa parada e morava perto da lagoa da Pampulha. Não teria sido nada mal alguns 17Km de pedalada num fim de semana ao redor daquele poço artificial idealizado por Oscar Niemeyer na década de 40, quando o prefeito da cidade era -- ao que tudo indica -- o megalomaníaco JK.
Início de 2008, então, e eis que estou de volta ao velho mundo, à vida simples e provinciana de uma cidade francesa na região da Alsácia. No Brasil, pensa-se em geral que o Europeu é cosmopolita e vive em uma onda fashion e tecnológica. A vida por aqui, entretanto, é muito mais simples e provinciana do aquela que temos nas abarrotadas e super-populosas mega-metrópoles brasileiras. Macaco velho do mundo europeu, eu já sabia que por aqui o melhor esquema de transporte é mesmo a bicicleta. Em minha primeira passagem pela Europa, quando morei na Inglaterra, demorei mesmo alguns meses até me ligar que o ciclismo poderia ser utilizado não só como esporte, mas até e, principalmente, como meio de transporte urbano. De fato, a forma como as cidades são montadas por aqui -- todas pequenas e próximas umas das outras, tendo um raio de extensão que se afasta na igreja central da localidade e que é característico de um crescimento lento e controlado; lado reverso do que ocorre nos países que se desenvolveram principalmente ao longo do século XX --, a satisfatória infraestrutura de ciclovias ao longo dos distritos, a planeza do terreno e o preço razoavelmente caro do transporte urbano -- eficiência tem preço! --, fazem com que todos os fatores se conjuntem e sugiram de soslaio ao cidadão: "compre uma bicicleta". Além do mais, é um exercício saudável e não poluímos o ambiente ao pedalarmos. A bicicleta é sem dúvida o melhor meio de transporte em praticamente todas as cidades européias de pequeno e médio porte. Fica-se abismado por vezes ao ver o número delas que se acumulam perto das estações de trens e metrôs. Cambridge tinha um enorme velo-park perto da estação de trem e bem sabe quem já esteve em Amsterdã a estranha beleza urbana composta pelas -- não exagero -- milhares de bicicletas que se amontoam ali ao lado da estação central, coração da maior e mais bela cidade-livre européia.
Bem, esta era para ser apenas uma nota a dizer que finalmente aprendi a andar de bicicleta sem as mãos e agora percebo minha prolixidade. Há cerca de um mês, estive em um campeonato de futebol que rolou do outro lado da cidade, onde estive com alguns dos meus amigos brasileiros que moram por aqui: Vitão e Gustavo, dentre outros. E fiquei realmente impressionado como eles eram capazes de dirigir, pilotar ou guiar (escolha seu verbo predileto) a bicicleta sem nenhuma das mãos, inclusive fazendo exercícios com os braços -- para cima e para baixo --, acendendo cigarros e fazendo outras abobrinhas. Suas mãos apenas esporadicamente tocavam o guidom; até mesmo as curvas, meus amigos faziam-nas sob o equilíbrio do corpo. E então me veio novamente aquele sentimento de "se eles podem, por que não posso?" e, num lapso de memória veio-me o instante da queda e a lembrança do joelho ralado anos atrás, parágrafos atrás. Perguntei a eles qual seria o segredo do ciclismo sem mãos e a resposta foi: "você não pode ter medo de morrer". Não podemos ter medo, o medo leva ao lado negro. Preciso lembrar sempre disso. Enfim, dentre os medrosos não posso me gabar de ser grande, mas também não sou do tipo que coloca cabeça dentro de boca de leão para se fazer de bobo. O que importa é que, desde este dia tenho mais ou menos tentado realizar umas tiradas de mão do guidom e, eis que há não mais de três ou quatro jornadas, como se diz por aqui, tenho me pegado dirigindo por centenas de metros sem usar as mãos, fazendo também os tais exercícios e conseguindo, -- quem diria -- até fazer curvas! Rogo-lhe que não me pergunte o segredo, pois não saberei expressá-lo muito bem em palavras; vai mais de treino e técnica, embora seja certo que tudo isso tenha algo a ver com equilíbrio e também com um senso de aventura associado à capacidade de enfrentar de frente o medo de ir ao chão. Quando você tira as mãos, parece que vai mesmo cair, mas aí você joga o corpo pra lá e compensa o desequilíbrio do lado de cá, dá um ajeitadinha no corpo depois, mantém o tronco ereto e vai pedalando. A velocidade também ajuda. Não sei exatamente como, mas sei que funciona agora e posso mesmo passar por obstáculos no chão sem a necessidade de tocar o guidom, inclusive olhando para o lado ou dando uma alongada no corpo. É claro que uma hora ou outra, quando há alguma pequena descida, principalmente, é preciso segurar a onda e colocar a mão no guidom; nem que seja apenas para frear. Também não é preciso fingir que não temos mãos, isso já seria demais...
Para terminar, como se não bastasse, descobri finalmente o caminho que me leva deste instituto onde trabalho até minha casa por meio de uma pequena e bela floresta que existe aqui em Strasbourg. O lugar é extremamente agradável e se você anda por ali de bicicleta, sem as mãos, sentindo o vento e a temperatura gostosa que vem de um ambiente de mata -- ainda que tão fragmentado -- tem-se uma sensação incrível e deliciosa de liberdade. Dá até vontade de gritar: liberdade! Freedom! Liberté! Ainda não cheguei a expelir essas palavras em alto e bom som e, de qualquer forma, alguém passando por ali poderia me pensar louco ao ver esta cena tão sem propósito: um latino andando de bicicleta em meio da mata e gritando palavras de ordem. Há um batalhão do exército por aqui e já vi militares andando pela mata. Mas não ligarei, pensem eles o que quiserem. E quando essa fantasia de me pensar livre me atacar novamente em meio à floresta e à brisa deliciosa, sob a bicicleta guiada por minhas pernas e corpo, gritarei e pensar-me-ão louco. Pois que pensem, posto que também pensam que são livres e, assim, estarão duplamente enganados. Ou será que não?
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