Não chega a ser vício, mas é como se fosse
Eu e a minha magrela. Ando de bike pela cidade. Sigo o caminho da casa dela. Seguimos este caminho tantas vezes juntos e tantas vezes segui sozinho, indo ou voltando. Quando indo, pedalando depressa para que o momento de vê-la chegasse logo. Quando voltando, tendo na lembrança os bons momentos que acabávamos de viver. Mas hoje vou para outro lugar. Ela se foi. O sentimento do caminho me alegra e me entristece ao mesmo tempo. Alegra-me quando esqueço para onde estou indo e ligo o automático: o automático diz que vou vê-la. E então as pernas ganham força extra e pedalam mais rápido. No rosto, o sorriso se instala. E no coração... ah, no coração. Já a tristeza vem quando caio na real e então lembro que ela se foi. Alegria misturada com tristeza. Isso é coisa que dá samba. E crônica também. E aí vou pedalando do outro lado da rua, lado que ela diz que é melhor pois cruzam menos sinais e avenidas grandes com carros por vezes nervosos. Da primeira vez que me levou por ali, eu nem reconheci. "Para onde você está me levando?", "Quê isso, gatinho, estamos só do outro lado da rua." É incrível, mas o outro lado da rua pode ser completamente diferente! Não reconheço o outro lado da rua, este não é o meu caminho. "É melhor por aqui!", ela diz. Ah, é melhor. Sem dúvida, é melhor. Dou o braço a torcer e hoje sigo pelo outro lado da rua lembrando dela e de suas peripécias. Já vou por ali também com o tal do automático ligado, nem penso em atravessar: acostumei. É realmente melhor, mais tranqüilo. A vida se baseia na busca da tranqüilidade e ela sempre sabe do que está falando. Ela sente muito as coisas. Sugiro-lhe também tentar o outro lado da rua por vezes.
Chego então em um lugar diferente, pessoas diferentes. Gosto de pessoas diferentes. Mas não estou muito ligando pra nada. Há um violão e o som me encanta. Notas e ritmos; cadências. Ritmos brasileiros: samba e forró. Então fico ali escutando e prestando atenção nos acordes, na harmonia. Canto junto, quando conheço a letra. Quando não conheço, faço parari, parapá; bato as pernas, faço barulhos com a boca. E então, eu sou a música. Escuto esta canção e penso que deveria fazer uma música para ela. Ela merece todas as músicas e também os sons do mundo. Penso em tons e acordes que com ela combinariam. Um acorde diminuto, algo que seja lindo porém não tão evidente. Ela nunca seria um acorde maior. Nem mesmo um menor. Com sétima e nona, talvez. Bem, será preciso um momento sozinho onde possa pensar e transformar este sentimento e esta representação em notas que se harmonizarão em consonante ao amor que sinto por ela e à sua presença em mim. Farei uma música doce, meio doida, sempre sincera. Ansiosa e bela como nenhuma outra. Trará uma sensação de bem estar, de se sentir pleno e completo. Ah, jamais conseguirei representá-la em sons... tivesse tal habilidade, faria a mais bela de todas canções! Mas não passo de um tolo: nada faço direito e um dia haverei de espantá-la. Pensar-me-á louco à demasia. Dirá que passo dos limites. Concluirá que sou por demais misturado das idéias. Logo ela, que em teste de normalidade não passaria com boa nota. Dirá que sou neurótico também, quiçá obsessivo-compulsivo. E talvez ela esteja mesmo certa: o que o amor não faz com a gente...
É dia, é noite e é tarde: penso nela. No trabalho, no banho e quando acordo. Durante o café, ao trocar de roupas, en mangent. Quando escovo os dentes e não vejo sua escova ao lado; quando pedalo e quando ouço músicas. Enfim, quando vivo. O que pensará ela de tudo isso? Certas vezes dá vontade de segurá-la. Se pudesse amarrá-la-ia ao pé da cama e prendê-la-ia ali. Não a deixaria sair jamais. Mas ela é como o pássaro encantado de Alves. Ela é muito mais linda livre! Livre, leve e solta. Ela é linda assim! Ela nasceu para ser livre e livre ela precisa ser. Não quero prendê-la, ao mesmo tempo tenho medo que ela se vá. Aí fico nessa dúvida, querendo que ela fique sem querer fazer com que o que há de mais lindo nela também se perca. E querendo estar próximo, fazer parte, viver e carpedinear ao seu lado.
Respiro fundo e tento me conter, é tão difícil. Quero dizer que meu mundo é agora outro, que meu mundo deu voltas sem se encontrar até parar em seu porto. E desde então ali ele está. Parado e sorrindo. É tão difícil encontrar um porto seguro... Tenho um certo medo de ser dali expulso a ponta-pés e sei que posso ser eu mesmo o arauto de minha expulsão: falo pelos cotovelos e dou bom dia ao cavalo. Mas também não consigo e nem quero me conter. Quero me expressar: quero ser eu mesmo e falar do que sinto. Quero deixá-la à par de minhas dúvidas e angústias, quero compartilhar o sentimento do mundo que tenho -- posto que meu sentimento do mundo sou eu. Quero também que ela me entenda, que veja as coisas através de minhas lentes. De alguma forma, quero ser ela e quero que ela seja eu. Quero que sejamos um só sendo, ao mesmo tempo, dois. Quero que sejamos o que somos e que sejamos sinceros; e que assim nos amemos. Pois que isto é o verdadeiro amor: é se expressar e se entregar; é receber também isso do outro. É compreender e ser compreendido. É não dissimular. É ser o que se é e receber o que é o outro. Sem máscaras, sem dissimulação, sem sequer pensar. É ser apenas. É esquecer do tempo nas manhãs de sábado e domingo. É ficar na cama o dia inteiro. É transformar o mundo em duas pessoas e uma cama. É não cuidar do mundo, um segundo sequer. Ah, é preciso sintonizar os rádios, precisamos navegar o mesmo mar, surfar a mesma onda... Mas ela está longe e tem um milhão de coisas para pensar, para fazer e para viver. Ela não se lembrará de mim. Ela é forte e concentrada. Ela é ligada no presente e esta é uma de suas inúmeras qualidades. Ela sabe que a vida é o agora. A vida não é o que foi ou o que será. A vida é o viver a cada instante. Ela é desinibida e ela é ela mesma, sempre. Ela, inclusive, não precisa de mim. Ela não precisa de ninguém. Ah, mas coitado deste poeta que é fraco e bobo; ele mal consegue agüentar esta vida tão igual, todo dia. Não suporta mais as pessoas tão caretas, idéias tão pequenas, tão quadradas. O poeta não é ninguém sem sua musa. Um poeta precisa de uma musa. Um ideal aesthetico máximo; a beleza sublime. Ela é meu ideal e o que sinto por ela é grande e forte. E embora saiba que isso só pode ser ilusão, auto-engano, coisa passageira, sinto-me vazio sem sua presença. Sinto-me inseguro e amedrontado. Não sei mais viver. Perco o rumo, questiono-me em todos os aspectos. Valerá a pena viver sem ela?
Guardadas as devidas proporções, ela não deixa de ser como o leite da manhã, a maçã das dez horas, o cigarro depois do almoço e a cerveja no fim do dia. Eu até agüentaria viver sem, mas seria bem melhor viver com. Ah, como seria...
