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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

31.7.08

Não chega a ser vício, mas é como se fosse


Eu e a minha magrela. Ando de bike pela cidade. Sigo o caminho da casa dela. Seguimos este caminho tantas vezes juntos e tantas vezes segui sozinho, indo ou voltando. Quando indo, pedalando depressa para que o momento de vê-la chegasse logo. Quando voltando, tendo na lembrança os bons momentos que acabávamos de viver. Mas hoje vou para outro lugar. Ela se foi. O sentimento do caminho me alegra e me entristece ao mesmo tempo. Alegra-me quando esqueço para onde estou indo e ligo o automático: o automático diz que vou vê-la. E então as pernas ganham força extra e pedalam mais rápido. No rosto, o sorriso se instala. E no coração... ah, no coração. Já a tristeza vem quando caio na real e então lembro que ela se foi. Alegria misturada com tristeza. Isso é coisa que dá samba. E crônica também. E aí vou pedalando do outro lado da rua, lado que ela diz que é melhor pois cruzam menos sinais e avenidas grandes com carros por vezes nervosos. Da primeira vez que me levou por ali, eu nem reconheci. "Para onde você está me levando?", "Quê isso, gatinho, estamos só do outro lado da rua." É incrível, mas o outro lado da rua pode ser completamente diferente! Não reconheço o outro lado da rua, este não é o meu caminho. "É melhor por aqui!", ela diz. Ah, é melhor. Sem dúvida, é melhor. Dou o braço a torcer e hoje sigo pelo outro lado da rua lembrando dela e de suas peripécias. Já vou por ali também com o tal do automático ligado, nem penso em atravessar: acostumei. É realmente melhor, mais tranqüilo. A vida se baseia na busca da tranqüilidade e ela sempre sabe do que está falando. Ela sente muito as coisas. Sugiro-lhe também tentar o outro lado da rua por vezes.

Chego então em um lugar diferente, pessoas diferentes. Gosto de pessoas diferentes. Mas não estou muito ligando pra nada. Há um violão e o som me encanta. Notas e ritmos; cadências. Ritmos brasileiros: samba e forró. Então fico ali escutando e prestando atenção nos acordes, na harmonia. Canto junto, quando conheço a letra. Quando não conheço, faço parari, parapá; bato as pernas, faço barulhos com a boca. E então, eu sou a música. Escuto esta canção e penso que deveria fazer uma música para ela. Ela merece todas as músicas e também os sons do mundo. Penso em tons e acordes que com ela combinariam. Um acorde diminuto, algo que seja lindo porém não tão evidente. Ela nunca seria um acorde maior. Nem mesmo um menor. Com sétima e nona, talvez. Bem, será preciso um momento sozinho onde possa pensar e transformar este sentimento e esta representação em notas que se harmonizarão em consonante ao amor que sinto por ela e à sua presença em mim. Farei uma música doce, meio doida, sempre sincera. Ansiosa e bela como nenhuma outra. Trará uma sensação de bem estar, de se sentir pleno e completo. Ah, jamais conseguirei representá-la em sons... tivesse tal habilidade, faria a mais bela de todas canções! Mas não passo de um tolo: nada faço direito e um dia haverei de espantá-la. Pensar-me-á louco à demasia. Dirá que passo dos limites. Concluirá que sou por demais misturado das idéias. Logo ela, que em teste de normalidade não passaria com boa nota. Dirá que sou neurótico também, quiçá obsessivo-compulsivo. E talvez ela esteja mesmo certa: o que o amor não faz com a gente...

É dia, é noite e é tarde: penso nela. No trabalho, no banho e quando acordo. Durante o café, ao trocar de roupas, en mangent. Quando escovo os dentes e não vejo sua escova ao lado; quando pedalo e quando ouço músicas. Enfim, quando vivo. O que pensará ela de tudo isso? Certas vezes dá vontade de segurá-la. Se pudesse amarrá-la-ia ao pé da cama e prendê-la-ia ali. Não a deixaria sair jamais. Mas ela é como o pássaro encantado de Alves. Ela é muito mais linda livre! Livre, leve e solta. Ela é linda assim! Ela nasceu para ser livre e livre ela precisa ser. Não quero prendê-la, ao mesmo tempo tenho medo que ela se vá. Aí fico nessa dúvida, querendo que ela fique sem querer fazer com que o que há de mais lindo nela também se perca. E querendo estar próximo, fazer parte, viver e carpedinear ao seu lado.

Respiro fundo e tento me conter, é tão difícil. Quero dizer que meu mundo é agora outro, que meu mundo deu voltas sem se encontrar até parar em seu porto. E desde então ali ele está. Parado e sorrindo. É tão difícil encontrar um porto seguro... Tenho um certo medo de ser dali expulso a ponta-pés e sei que posso ser eu mesmo o arauto de minha expulsão: falo pelos cotovelos e dou bom dia ao cavalo. Mas também não consigo e nem quero me conter. Quero me expressar: quero ser eu mesmo e falar do que sinto. Quero deixá-la à par de minhas dúvidas e angústias, quero compartilhar o sentimento do mundo que tenho -- posto que meu sentimento do mundo sou eu. Quero também que ela me entenda, que veja as coisas através de minhas lentes. De alguma forma, quero ser ela e quero que ela seja eu. Quero que sejamos um só sendo, ao mesmo tempo, dois. Quero que sejamos o que somos e que sejamos sinceros; e que assim nos amemos. Pois que isto é o verdadeiro amor: é se expressar e se entregar; é receber também isso do outro. É compreender e ser compreendido. É não dissimular. É ser o que se é e receber o que é o outro. Sem máscaras, sem dissimulação, sem sequer pensar. É ser apenas. É esquecer do tempo nas manhãs de sábado e domingo. É ficar na cama o dia inteiro. É transformar o mundo em duas pessoas e uma cama. É não cuidar do mundo, um segundo sequer. Ah, é preciso sintonizar os rádios, precisamos navegar o mesmo mar, surfar a mesma onda... Mas ela está longe e tem um milhão de coisas para pensar, para fazer e para viver. Ela não se lembrará de mim. Ela é forte e concentrada. Ela é ligada no presente e esta é uma de suas inúmeras qualidades. Ela sabe que a vida é o agora. A vida não é o que foi ou o que será. A vida é o viver a cada instante. Ela é desinibida e ela é ela mesma, sempre. Ela, inclusive, não precisa de mim. Ela não precisa de ninguém. Ah, mas coitado deste poeta que é fraco e bobo; ele mal consegue agüentar esta vida tão igual, todo dia. Não suporta mais as pessoas tão caretas, idéias tão pequenas, tão quadradas. O poeta não é ninguém sem sua musa. Um poeta precisa de uma musa. Um ideal aesthetico máximo; a beleza sublime. Ela é meu ideal e o que sinto por ela é grande e forte. E embora saiba que isso só pode ser ilusão, auto-engano, coisa passageira, sinto-me vazio sem sua presença. Sinto-me inseguro e amedrontado. Não sei mais viver. Perco o rumo, questiono-me em todos os aspectos. Valerá a pena viver sem ela?

Guardadas as devidas proporções, ela não deixa de ser como o leite da manhã, a maçã das dez horas, o cigarro depois do almoço e a cerveja no fim do dia. Eu até agüentaria viver sem, mas seria bem melhor viver com. Ah, como seria...

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Teu erro


Dr. José PhD/MD/MSc diz:
> olha, você está trabalhando no arquivo errado, por isso que você fez
> toda essa *bagunça*. Segue anexa a versão CORRETA do arquivo.

(Raiva.)
(Raiva.)
(Muita raiva.)
(Responder educadamente. Responder educadamente. Responder educadamente.)

Prezado Dr. José,

Veja bem, você está enganado. Eu não posso de maneira alguma ter confundido os arquivos, posto que recebi apenas uma mensagem -- de sua própria autoria -- enviando-me o projeto. Da primeira vez, você havia mandado a mensagem sem o anexo e você *certamente* se lembra de que foi isso que aconteceu. Assim, posso até ter feito uma bagunça no projeto, mas isso é conseqüência direta de um erro seu. É preciso que as pessoas assumam os próprios erros. Primeiro, para que possam ser mais sinceras umas com as outras. Ninguém deve almejar ser um super-homem, um ser supremo que esteja além dos baixos e estúpidos erros cometidos pelo reles humano. Ora, como se não fossem todos seres humanos também. Errar é uma coisa normal. Errar é viver. Viver é errar. Mas errar é também tentar fazer do jeito certo, um certo qualquer que nos pareça razoável -- de preferência alguma coisa humanista e secular, faça-me o favor. Somos seres humanos, não somos máquinas. Absolutamente, não somos máquinas. Erramos e erramos. Eu mesmo sou o maior errão da paróquia, cometo erros em tudo o que faço, derramo todas as coisas no chão -- o que já me rendeu o apelido de "homem da gota" --, não presto atenção nas coisas quando deveria prestar, sou teimoso, desrespeito às vezes sem mesmo me dar conta, falo o que não devia; pior(!): faço o que não devia, escrevo o que não devia. Eu erro toda hora. Mas veja, meu caro, isso é coisa do homem, e disso não nos livraremos. Quando pararmos de errar, pararemos de viver. O homem é o erro. Mas um erro muito bem intencionado, um erro que tenta ser acerto. Às vezes também se trasveste de um acerto dogmático e aí as pessoas ficam achando que o erro é o acerto perfeito. Mas essas pessoas se iludem. O erro é o erro. E nunca será o acerto. Tudo é tentativa. Todas as coisas são tentativas. Não seremos os melhores nem os piores. Seremos nós mesmos e nossas chances de acertarmos em cada diferente aspecto que se leve em consideração. Você certamente será melhor do que eu em alguma coisa e eu melhor do que você noutra. E isso vai depender tanto do quesito quanto do avaliador. Enfim, embora para a grande maioria dos assuntos a questão entre o certo e o errado seja completamente abstrata, isso não pode ser dito para a falha de um envio de anexo do e-mail. Este é um caso bem particular e de fácil solução. Não se pode confundir dois arquivos quando se tem apenas um. Considerando que foi você mesmo que me fez a remessa, não há dúvidas de que -- ao menos desta vez: salve, salve! -- eu não estava errado. De mais a mais, como não existem outras pessoas envolvidas no caso e alguém deve assumir a culpa: só me resta concluir por A + B, que você é culpado. Tenho mesmo um quê de Sherlock Holmes no sangue, não acha?

Saudações.

28.7.08

Porque gosto mais de xadrez (ou a infinita imensidão do conhecimento humano)


Não que antes eu não gostasse, não é isso. Gostava, mas não tanto. Falo do xadrez, está no título. Tem gente que nem título lê. Pois bem, não tenho muita paciência pra ficar horas viajando naquela jogada da torre ou do peão ou do cavalo (adoro o cavalo!) e fazê-la da melhor forma possível. É que descobri que o xadrez é uma metáfora epistemológica interessante. Não é à toa que em várias ocasiões, o homem foi capaz de derrotar a máquina mais eficiente do mundo. O xadrez não é um jogo onde o que conta é apenas um conhecimento técnico, onde existe o certo e o errado bem divididos. O xadrez é uma enorme e infinita miríade de possibilidades. O bom enxadrista pensa no que fazer sabendo aproximadamente o que o seu rival faria em retorno, dado que o rival seja tão bom enxadrista quanto ele. Mas nesse ping-pong pensamental não se consegue ir muito longe assim, pois há tantas possibilidades de movimentos a se pensar e a se fazer... Então o jogo exige que se tenha tanto um tipo de técnica na forma de pensar, quanto uma criatividade de fazer jogadas improváveis para confundir o adversário em momentos estratégicos. Embora jamais tivesse pensado nisso, esse tipo de jogada me pareceu óbvia hoje. De fato, consegui lembrar de algumas que tive o reflexo de "mudar o jogo de lado" sem que tivesse me dado conta exatamente do que estava fazendo. A questão é que há tantas possibilidades num jogo de xadrez que não há como a máquina prever todas eles. Isso me traz à cabeça um programa que desenvolvi quando ainda era garoto: programei um jogo da velha. É idiota, você vai dizer. Mas achei mesmo uma experiência muito interessante. Só que para a infelicidade do jogador que contra ele se dispunha a passar seu tempo... meu malévolo programa jamais perdia! No mínimo dava velha e, se você bobeasse, ele te ganhava. O programa tinha inclusive boas estratégias de jogo e foi mesmo um prazer desenvolvê-lo para um trabalho escolar. Recomendo aos professores de computação.

Enfim, o jogo da velha representa um espaço de busca que é finito, que é possível vencer sem muito esforço. Um garoto de quatorze ou quinze anos consegue compreender todas as possibilidades e criar regras para jamais perder. Já o xadrez não, com sua complexidade de tabuleiro, quantidade de peças, multiplicidade de movimentos, é um jogo cujo espaço de busca é praticamente infinito. Para cada jogada, há dezenas de outras que podem ser feitas e assim por diante. Jamais haverá um computador que consiga prever todos os movimentos de um jogo de xadrez; gastar-se-ia todo o tempo do universo para que isso fosse calculado. A propósito, permita continuar em intelectualidades do moderno estilo geek -- o nerd chique e intelectual. Isso me lembra também um conceito muito interessante em computação: o conceito de "complexidade de algoritmo". Há seqüências de passos (todo programa é uma seqüência de passos, seqüências estas chamadas de algoritmos) que envolvem cálculos tão complexos para produzirem uma determinada saída, que não se pode obter uma solução ótima para elas. Assim é o xadrez. Tais casos são os que nos permitem navegar pelos mundos da programação conhecida como heurística. Nesses casos, produz-se uma outra seqüência de passos algorítmicos que resolve um determinado problema desejado de maneira aproximada -- mais aproximada da solução ótima possível, levando em consideração o tempo de execução. Em seu conceito computacional, a heurística consiste simplesmente em uma forma de se resolver um problema através de um algoritmo que não produz o resultado ótimo, mas que é mais rápido que ele. Inclusive existem problemas onde se conhece a solução ótima e mesmo assim prefere-se utilizar a solução não ótima porque ela é muito mais rápida*. Para outro problemas, entretanto, a solução ótima não é possível e é preciso abusar de regras heurísticas de aproximação. É por isso, pode-se dizer, que o computador às vezes: "dá pau". Se todos os processos fossem completamente determinísticos e previsíveis, isso jamais aconteceria. Mas um sistema operacional de janelas é algo muito complexo e, portanto, nem todas as alternativas já foram testadas. Recentemente percebe-se que certos problemas têm diminuído -- às custas de outros que aparecem. Mas a tarefa de toda a tecnologia é produzir mecanismos heurísticos cada vez mais sofisticados e próximos do comportamento ótimo possível. Há, de fato, um enorme ramo de trabalho no desenvolvimento de novas heurísticas, para um grande número de problemas complexos que você puder imaginar na esfera do conhecimento humano e das tecnologias, de maneira geral.

Portanto um sistema operacional pode ser comparado a um jogo de xadrez. Tanto que o Deep Blue também evolui e cada vez mais os computadores serão melhores enxadristas. Mas assim também é para o ser humano. Técnicas vão sendo descobertas com a experiência, há estudos sérios do jogo de xadrez. Além disso, os mestres estão sempre a jogar e observar atentamente as jogadas dos adversários, visando reproduzí-las no futuro. No confronto da máquina contra o humano, imagino que o humano saia ganhando porque ele vai perceber, cedo ou tarde, algum padrão que emerge daquela máquina em especial para o jogo. Afinal, ela é uma máquina, ela é programada segundo padrões determinísticos. Opa, peraí... mas o humano também segue determinados padrões considerando tudo que já aprendeu e que já pensou. Também o ser humano tem um certo cacoete de jogo e vai tender a fazer determinado movimento em determinada situação. A diferença é que máquina não recebe informação de fora, ou, se o faz, é de forma muito indireta ou direta demais. Então a máquina não aprende exatamente como vencer determinado enxadrista, mesmo que ela jogue com ele dezenas de partidas. Não, não é por aí... Com as novas tecnologias de inteligência artificial, a máquina pode muito bem aprender sim. Tão bem quanto o humano. Mas não pensará: ah, é isso. A máquina não pensará sobre o jogo em momentos outros da vida que não ali no sentar e jogar. A máquina é igualzinho um ser humano que só senta e joga. Alguém que não tem uma vida fora de uma atividade específica. Alguém que só viva para o trabalho, por exemplo. Olha que existem humanos assim...

Enfim, chega. Acho que já exagero. Gosto hoje mais do xadrez do que ontem, porque vejo que o jogo é uma metáfora para o conhecimento humano. Ainda não somos capazes de conceber essa imensidão, esse universo de possíveis partidas existentes no xadrez, que é maior do que o número (bem mal) estimado de átomos do universo; a imensidão do conhecimento humano. Mas, adiciono, talvez um dia, em um futuro distante -- se não nos destruirmos antes disto -- talvez neste dia consigamos conceber o número de jogadas em uma partida de xadrez...

Já para o possível alcance do conhecimento humano, acho que jamais encontraremos um limite.


* Isto é exatamente o que acontece com o programa BLAST, que alinha seqüências de bases nitrogenadas do DNA de maneira heurística, apesar da existência do algoritmo Smith-Waterman que resolve o mesmo problema de maneira ótima, porém mais lenta. O BLAST é um dos algoritmos mais utilizados em biologia molecular e é um dos trabalhos científicos mais citados de todos os tempos. O BLAST faz parte do dia-a-dia do bioinformata, é o algoritmo mestre de toda uma área de pesquisa. Existem implementações do Smith-Waterman bastante velozes, entretanto toda a comunidade gosta, entende e confia nos resultados de BLAST. Salve BLAST, salve-salve.

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Carta a um amigo viado


Fala, velho. Porra, ouvi falar aqui outro dia que você é viado? Puta, não acreditei, bicho. Quer dizer, até acreditei porque utilizaram argumentos convincentes e provas de longa data. Enfim, pô... nada a ver, né? Problema nenhum ser viado. Tudo bem. Cada um faz o que quer, liberdade e tal. Ô, não pense que eu sou um careta, hein. Já diria o poeta Rauzito: faça o que tu queres pois é tudo da lei. Só que sei é que a gente já foi em tanta balada junto e a gente sempre olhava as gatinhas e trocava idéia sobre elas: essa é mais gostosa, essa é mais bunduda, essa é mais charmosinha, essas coisas. E quer dizer que você olhava também pros caras e pensava essas paradas? Gente (!), é muito estranho pra mim pensar isso. Porra, de repente você podia ter falado: "olha ali que cara isso, olha que cara aquilo". Normal, hein. Pô, eu num ia apreciar tanto e tal, nem ia querer reparar direito. Sei lá, cara, eu num gosto de homem. Não gosto mesmo. Eu gosto é de mulhé. Olha só: você vê um homem e sempre pensa que o cara é meio porco, sei lá. Mas se é então da classe dos cheirosinhos... ixe, tanto pior. Daí você pensa que o cara é cheio de pelo e que ele vai lá e chapa, fica doidão, mija na tampa do vaso e, sei lá, é toscão; um porco; um ogro. Não, mil vezes não! Eu quero uma mulher-mulher. Eu gosto da mulher: mulher-mulher. Olha, peraí: pensa na mulher. A mulher tem a maior poesia do mundo, a mulher é linda em todos os jeitinhos, tem um charme em tudo que faz, um charme que é bem pessoal e que é bem de cada uma. Isso é muito bonito, isso é muito foda! Sei lá. É, pensando do seu lado: você pode até dizer que pro homem é a mesma coisa... é, pode-se dizer... mas isso aí eu acho que não vou ser convencido não. Acho que homem não tem lá tanta poesia. Sei não, acho que não. Bom, vai saber. As vezes um dia eu viro viado também. Sei lá. Se virar, tudo bem. Mas é que hoje não vejo mesmo poesia em homem e gosto bem de uma mulherzinha: bunda, peitinho, pererequinha... É isso aí, meu amigo: é disso que eu gosto! Ah, pensei uma coisa... de repente era isso, veja só: naquela época lá que a gente saia e trocava idéia das mulhé, você nem sabia que era viado, né? Coisa esquisita deve ser isso de descobrir que é viado. Ó, sei lá se isso acontece. Tem uns estudos aí... Bom, sei que aquele nosso bróder das antigas falou que é viado desde criancinha. Que teve um impulso homossexual desde jovem. Mas ele assume, né? Sempre assumiu. Agora, vou te falar outra coisa. Meio mudando de assunto mas continuando no mesmo tema, só porque lembrei de uma coisa, segura essa: eu tenho certeza que você não é viado! Porra, você vai me desculpar, mas eu tenho certeza. Não, velho... eu sei que você não é. Eu lembro quando a gente saia e você as vezes apontava a garota que era realmente "a charmosa da noite", e que tinha em demasiado aquele charme mulheril de que estou falando que gosto e que sei muito bem que você também aprecia. Atenção! Enfim, acho que foi por isso que fiquei um pouco espantado de saber que você era viado. Na verdade, é por que no fundo eu sei que você não é. Não só! Sei que você também aprecia a mulher, imagino mesmo que você deva ser bi -- se é que é viado mesmo, né? -- e espero não estar me metendo demais em sua vida sexual. Enfim, vida sexual é coisa pra se meter dentro mesmo, hahaha. Bem, foi mal... desculpe, tamos trocando idéia, hein. De boa. É um monólogo, né... mas ça va, espero que você não responda esta carta mesmo. Nem sei o que seria de uma resposta para esta mensagem. Enfim, voltando à vaca fria: talvez hoje você veja mais graça em homem e tal do que naquela época, mas que eu sei, eu sei: você já foi tocado pela maravilha que é perceber o charme de certas mulheres. E, assim, sei que você ama a mulher também; pelo menos isso: pelo menos "também". Olha, sei lá porque mando esta mensagem, apenas porque acho que me senti meio como o marido corno que é o último a saber da história. E como a gente não vai se encontrar tão cedo, imagino, preferi utilizar a mídia eletrônica. Achei até engraçado que todo mundo já sabia, mas não sei porque essa informação tinha sido bloqueada de chegar até mim. Pela primeira vez, até, duvidei de nossa amizade. Nunca tinha duvidado dela. Sei lá, acho que se você me considerasse seu amigo mesmo, teria me contado. Ou não? Sei lá, falado que se interessava por caras, que os reparava. Bom, nem sei... as vezes isso é normal. Eu reparo também, só que sem desejo. Confesso que sou influenciado pela sociedade e que talvez as coisas não fossem assim caso eu tivesse nascido em uma sociedade onde o homossexualismo fosse comum. Será que algum dia o homossexualismo vai ser uma coisa comum? Sei lá, a gente é moldado pela seleção natural pra se reproduzir, né? Na verdade o gostar de homens é meio uma falha do sistema que jamais influenciou significativamente a reprodução diferencial das espécies. Ao que tudo indica, ao menos. Posso sempre estar errado. Enfim, qual será a parcela dos homossexuais que será bissexual também? Provavelmente a maioria. Tem aquelas teorias evolutivas que dizem também que nas tribos humanas de caçadores-coletores, o tio viado por vezes preferia tomar conta do sobrinho do que de um suposto filho seu. Isso se daria posto que o sobrinho era filho de sua irmã com certeza -- ele acompanhara a barriga crescer --, enquanto seu filho poderia ser filho de outro, caso a mulher não fosse lá muito confiável. Então ele teria mais certeza da presença de seus genes no sobrinho do que no filho que poderia não ser filho. Olha, sei que pareço machista falando essas coisas, mas isso é ciência, psicologia evolucionista que se chama, o campo de pesquisa. Um campo vasto, vai lá procurar saber. É sério mesmo. Só vou falar mais alguma coisa sobre isso, antes que esse papo fique chato: tudo começa com a "teoria do investimento parental". A teoria é a seguinte: calma, é a última coisa chata que eu vou falar, mas isso te abre a cabeça um monte depois que você entende e joga os reflexos disso na sociedade. Prest'enção: o investimento mínimo na prole, de um macho, é uma noitada de sexo. Se ele se perder depois da mulher, foda-se. Foda-se não: tanto melhor. Falo de um ser que é todo instintos. O cara quer só o sexo, esse é seu instinto primeiro. Beleza? Beleza! Agora pense na mulher: o investimento mínimo que ela faz na prole é de nove meses! Depois o filho vai nascer e ela vai ter provavelmente que cuidar do menino, adicione-se aí doze anos, pra pegar uma estimativa bem baixa. Conclusão: o investimento mínimo na prole do homem, é uma rodada de sexo em uma noite; o investimento mínimo de uma mulher são 13 anos. Ora, é por isso que a mulher só vai querer transar com o cara que tem um bom estatus, que ela sabe que não vai largá-la e que vai ajudá-la a criar o menino até ele ficar grande e forte. E o homem quer meter em qualquer uma, one night stand. É claro que no fundo todo mundo sabe disso, tem uma impressão dessas coisas sem qualquer teoria por trás, mas acho que a teoria ajuda a clarear as idéias. Sou cientista, afinal, você sabe. Enfim, já me excedo nas intelectualidades. O que importa é que conclui que as pessoas realmente guardam para si o que sabem da vida sexual das outras. Acho que sim, senão eu saberia de você. Afinal, acho que a gente é bem próximo e tem vários amigos em comum. Vários mesmo. Enfim, não sei se foi também um pedido deliberado seu para tal: para que as pessoas escondessem das outras o fato. Mas se realmente foi isso, sugiro que desencane. A galera tem preconceito sim, mas as pessoas que têm preconceito não vão ser aquelas que você vai querer viver com elas. Então: é isso! Vai ser melhor pra você nem se misturar com elas. A idéia é montar uma sociedade paralela dentro desta sociedade escrota que tenha apenas a galerinha gente-boa e cabeça aberta. C'est ça! Mas sei lá também, se você vai na boite gay uma vez por mês ou sei-lá com que freqüência, de repente não precisa de contar isso pra todo mundo também, eu entendo. Só que eu achei que fosse seu amigo suficientemente. Enfim, chega né. Tô meio bolado mas já passa, sem ressentimentos. Tá bem, já falei demais. Na verdade nem precisa responder esse e-mail se não quiser, hein. Eu é que tô aqui sem fazer nada e resolvi trocar uma idéia com o amigo. Por falar nisso, como é que vão as coisas por aí? Gostando e tal, estudando (...)?

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O tempo de enrolar um cigarro


Estava aqui sem fazer nada e resolvi enrolar um cigarrinho. Coisa boa é estar sem fazer nada. Verão na Europa, camiseta, solzinho, bike pra ir trabalhar. É como se diz lá em Minas: trem bão é coisa boa! Gosto deste lugar. Tive um pouco de medo antes de vir e tal, essas mudanças bruscas deixam a gente meio louco. Mas tava a fim de enfrentar o velho mundo de novo. Sabia que este podia ser um lugar melhor, mas minha primeira experiência havia me deixado meio traumatizado. Ah, os ingleses. Bem, foi azar, não posso generalizar. A experiência na Alemanha, apesar de curta, foi boa. Nada disso importa mais. Estou aqui e o que importa é que desta vez dei sorte. O pessoal me respeita no trabalho, o chefe troca idéia de boa, os caras já elogiaram algumas coisas que fiz. Então a gente fica mais tranqüilo e tal. Bem, vou enrolar o tal cigarro.

É isso, vou enrolando o companheiro e me vem à cabeça, como acontece de tempos em tempos, o amor dos meus quinze anos. Quinze que nada. Dos quinze aos vinte e tantos. Faz pouco tempo que desisti e tal, achei que não tinha nada a ver mesmo. Sonho de menino de quinze anos, sei lá. A gente muda e nem vê. Mas... aí penso: o que terá sido esse rompimento pra ela? A gente ver que não dava certo mesmo, que não valia a pena. Ah, num deve ter sido nada, na verdade. Isso porque ela não gostava de mim, talvez não gostasse de ninguém. É isso, ela nunca gostou de ninguém. A poesia jamais a atingiu. O que ela gostava verdadeiramente era de um estatus que eu poderia lhe proporcionar numa estúpida sociedade burguesa que finge prezar os valores intelectuais. Grandes coisas, ser um doutor, ser cientista. Isso não vale nada se você não tem um verdadeiro amor pelo conhecimento, um respeito pelo ser humano, um querer fazer justiça -- um pouco, pelo menos -- nesse mundo de tantas injustiças. E isso ela não via, isso nem importava pra ela. Era tudo balela. Foi isso, dentre outras pequenas coisas, que me fez realmente desistir de mais de dez anos de investimento mulheril esporádico. As vezes penso ainda: onde estará ela? O que estará fazendo? Mas aí acho melhor pensar noutras coisas, não quero correr o risco de ficar com ela. Isso porque um suposto casamento nosso teria um ar falso, como se acordo de cavalheiros que trocam moedas de estatus social. Imagino que isso aconteça a torto e a direito na grande escala desta estúpida alta sociedade burguesa, de reles ignorantes que só querem poder, reconhecimento pelos pares, regalias e -- sobretudo -- dinheiro. Para quê, isso? Uma vida simples é muito mais rica que uma regada de luxos idiotas. E então seria assim nosso contrato de casamento: eu ficaria com ela, que é linda; e ela ficaria comigo, que sou -- supostamente -- inteligente. Moedas trocadas, todos satisfeitos. Ora, isso não é casamento. Isso é ridículo! Eu nunca entraria numa dessas. Cadê o amor, minha gente? Onde está a poesia deste mundo que não nas pessoas? Invada as pessoas, Poesia! Invada-as!

Enfim, o cigarro está pronto. Olho para ele e pergunto: "devo te acender, meu camarada?" Ele não diz nada. Só me olha com aquela cara de cigarro europeu. Cara meio arrumadinha e tal, uma piteira bem arranjada, um estilo próprio. E neste retruque do olhar cigarral, lembro-me então da célebre frase de meu amigo Chico Lobo, que sempre diz: "na dúvida, taca fogo!" Sempre lembro dessa frase. Onde está mesmo, o fogo?

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27.7.08

Tábula não-rasa (ou pensamento cartesiano de fundo)


Acorda com um susto. Sonho? Pesadelo? Não se lembra. Apenas acorda assustado, o coração disparado, a respiração ofegante. Fica assim parado à cama, meio deitado meio sentado até que seu metabolismo se normalize. O que acontecera? Fecha os olhos e tenta lembrar do sonho. Nada lhe vem à cabeça. Sua mente está vazia. Não há nada. Demanda a si mesmo perguntas que não sabe responder. Abre os olhos. Está ali, sozinho. Não sabe o que faz ali. Não reconhece o local. É um quarto suficiente grande para caber uma cama e uma mesa de cabeceira, nada mais. O que faz ali? Como chegara ali? Qual é mesmo seu nome? Sua mente está vazia, é uma tábula rasa. Não, não é uma tábula rasa. Ele consegue pensar racionalmente, sabe conceitos e palavras. Consegue articulá-los e colocá-los em uma ordem lógica. Em que língua pensa? Qual é o idioma segundo o qual associa objetos a conceitos? Não sabe sequer em que língua pensa. Sabe muito bem, entretanto, o que é a linguagem. Conhece o dicionário e o significado de grande partes das palavras contidas em um. Sabe evidentemente o que é uma cama e o que é um quarto, por exemplo. Sabe que acordar sozinho em um quarto e não saber quem se é ou o que se faz ali é um caso grave. Sabe que aquilo ali não é sua vida e que tem uma vida fora dali com provavelmente algum tipo de trabalho e de amores e pessoas à volta. Sabe o conceito de todas as coisas e sabe que deveria estar vivendo, nalgum lugar, uma vida real. Mas não se lembra de nada. É atingido por uma angústia forte.

Levanta-se. Está vestido com um calça de algodão. A calça é branca e confortável. É um tipo de calça de pijama, sem dúvida. Está sem camisa. A calça é de algodão e sua brancura contrasta com a negritude de sua pele. Ah, ele é negro. Repara em si mesmo. Reconhece-se. É razoavelmente alto e tem uma constituição física atlética. A calça é branca e é de algodão. Parece algodão, pelo menos. Não é lá muito especialista em tecidos. Encosta em seu corpo para sentir se está mesmo vivo. Terá morrido? Será isto a morte? Um acordar num quarto sem nada se lembrar? Não será isso. Precisa descobrir o que está acontecendo. E se tudo aquilo for mentira? Seus sentidos lhe pregarão peças? Estará dentro de algum simulador computacional de realidade onde tenha escolhido a opção "não se lembrar de nada"? Questiona-se. A única coisa que sabe é que está ali, vivo e pensando. Lembra de Descartes: se pensa, existe. A cama não pensa, mas existe mesmo assim. Não é pensar que faz algo existir. Mas ao mesmo tempo não se poderá pensar sem existir. Ou poder-se-á? A cama está forrada com um lençol todo negro, parece novo, certamente nunca foi lavado. E o pretume do tecido excede em muito o de sua pele. Há um travesseiro cinza. Onde estarão as cores? Olha ao redor e não vê absolutamente nada que não seja preto ou branco. Terá perdido o sentido das cores junto com a memória? Seus cones funcionarão perfeitamente? Ou será um problema cerebral. Talvez não haja mesmo cores ali. Não sabe. A mesa de cabeceira que vai ao lado da cama é branca com listras pretas que vão de cima a baixo. Ela é um pouco mais alta que a cama; seus pretos e brancos são bem pretos e bem brancos, respectivamente. Um monocromatismo bem vivo, se é que se pode dizer isso. De fato, repara: não é bem uma mesa de cabeceira. É apenas um bloco maciço de preto com branco. Não há gavetas, não há pés; não há nada também em cima. Não é uma mesa de cabeceira, percebe agora. É apenas um bloco. Chega perto e o carrega. Não é pesado, nem assim tão leve. Parece ser de um tipo de plástico resistente, forrado com um tecido macio e agradável ao tato. Onde estará?

O quarto é pequeno, tem uma janela num canto e uma porta fechada noutro. Da janela entra uma luz tênue, característica de um dia cinzento ou de um anoitecer que chega ou de um dia de inverno. Ele está à beira da cama e tem dúvidas se tenta a porta ou a janela. Um sentimento de estar preso o invade subitamente. Ele não gosta de estar preso dentro desta caixa que é o quarto. Sente ânsia de sair. Sufoca-se. Não gosta de estar fechado ali. A janela está fechada e o ar parece preso ali dentro há muito tempo, ele precisa de ar novo! Ele precisa de ar novo rápido, ar novo, corre até a janela e não consegue abrí-la, ela tem um mecanismo que parece complexo, aperta daqui e dali, sem paciência, tenta forçar, usa toda a força que tem e percebe que é mesmo forte, mas não consegue abrir, não consegue, não consegue, não, não. Seu coração bate apressado. Percebe sua situação de angústia e tentar raciocinar. Fecha os olhos. Respira fundo e conta até dez bem devagar. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez. Respira fundo mais uma vez. Acalma-se um pouco. Pensa que precisa de respirar um ar novo, aquele ar ali dentro está viciado. Talvez estejam drogando-o pelo ar e talvez seja por isso que não consegue se lembrar de nada. Deve ser isso. A janela, o dia, a falta de ar. Ele corre então até a porta que também não se abre. A porta é um grande bloco de madeira. A dobradiça está para o outro lado. Ele não tem o que fazer. A maçaneta gira em falso. Ele também é falso, doutro modo. Sente-se falso, sente que não é, não está. Por um instante, perde seus sentidos. Sua cabeça cai sobre o pescoço e esse movimento o faz recuperar novamente os sentidos. O ar, ele percebe que aquilo que respira está impregnado d'alguma substância que faz mal, muito mal. Respira com atenção uma, duas vezes. Agora ele percebe nitidamente, há um cheiro, um odor estranho. Não reconhece de quê seja o cheiro. É um cheiro de droga e pronto. Há alguma droga sendo lhe aplicada pelo ar, 100% de certeza. A porta não abre. Ele chuta. A janela. A porta. Não há saída, não há saída. Respira, respira. A janela é de vidro. Ele chega diante dela e percebe que o vidro é duplo, resistente. Fato: ele está preso, foi deliberadamente colocado ali por algum agente sinistro, pessoa mal intencionada que quer seu mal. Quem será ele? Por que alguém quererá fazer isso consigo? Sente que é pacífico, não entende. Quem o terá prendido? A troco de quê? Como obterá respostas?

O ar, o ar está contaminado. Não há entradas ou saídas de ar no quarto. Cedo ou tarde morrerá ali de falta de oxigênio. Isso se não for acometido por qualquer coisa pior antes. Sabe que pode morrer a qualquer instante e que essa é a sina de se estar vivo. Vai até a porta e percebe: há uma fresta entre a porta e o chão! Há um ar que entra por ali. Não morrerá sem oxigênio. Agacha-se apressadamente. Mete ali o nariz e percebe que há um ar novo e fresco do lado de fora. Certifica-se da hipótese da droga, está sendo drogado, isso é 110% certo agora. O ar ali não tem o cheiro do remédio -- este ar que entra por seu nariz enquanto agora deitado ali no chão, próximo à porta, é um ar renovador. Este ar lhe dá uma nova vitalidade. Respira fundo. Agora ele pode pensar mais calmamente, mais claramente. Seu desespero passa por alguns instantes. Sempre que se desesperar, agora já sabe: respirará o ar debaixo da porta. Isso o conforta.

Melhor refeito, resolve organizar então, seu raciocínio. Algo há de fazer sentido. O que ele sabe? Como o filósofo grego, a única coisa que realmente sabe é que não sabe de nada. Tentará reconstituir os fatos: investigação. Ele é um preto que acordou num quarto sozinho. Veste uma calça branca de algodão. O quarto é todo preto e branco. As paredes são brancas mas não são brancas de um branco verdadeiramente claro, cor de neve. São meio cinzas, mas têm um aspecto um tanto quanto belo e moderno. De fato, tudo neste quarto é novo. Tudo cheira novo, todas as cores são vivas. Este é um lugar que foi recentemente construído e talvez jamais tenha sido utilizado. A cama é absolutamente nova, as paredes são bem pintadas, a porta é larga e especialmente desenhada. Parece uma porta de hospital, onde é preciso passar com macas. A porta tem uma maçaneta de um tipo moderno que gira em falso sem que um cartão apropriado seja colocado no devido lugar. Ele conhece essas maçanetas de hotéis, mas não se lembra de nenhum evento quando ele as tenha utilizado. Ele conhece coisas como se as coisas simplesmente se apresentassem em sua mente, ele tem um conhecimento teórico de tudo talvez, mas não tem nenhuma experiência. Sabe sem jamais ter feito. Jamais fez qualquer coisa. Sim, é isso! Ele tem uma chave para decifrar o enigma.

Pois bem, a única resposta satisfatória para um negro num quarto sem saber nada sobre si é: ele faz parte de um experimento científico! Sempre fazem esses experimentos com minorias étnicas: negros, judeus, ratos de laboratório. Ele está dentro de um experimento científico, agora sabe. Ele é um experimento, ele é uma cobaia. Será este seu propósito? Não! Ele não tem propósito, ele é um ser, um ente, é um fim em si mesmo. Pensamentos ainda o invadem: terá nascido naquele exato instante em que acordou? Nascido já adulto? Terá vivido já alguma vez fora daquele quarto? Talvez os cientistas estejam agora criando novas pessoas inteiras de carne e osso e talvez eles sejam mesmo capazes de embutir nelas determinados conhecimentos que elas apreendem sem que jamais tenham vivido qualquer situação. E, por mais absurda que esta hipótese seja, o negro está um tanto convencido de sua veracidade. Ou pelo menos ele a adotará como verdade para si até que consiga imaginar hipótese mais plausível para o que vem lhe acontecendo desde que acordou assustado ao início deste conto.

Pensa noutra coisa: se isso for realmente um experimento, alguém o observará e estará anotando suas ações. Haverá uma câmera em algum lugar que o filmará. Câmera, onde. Olha ao redor por instantes e detém-se num ponto: voilà, só pode ser a janela. As coisas se encaixam. Ele se aproxima da janela. Do outro lado há apenas um céu cinza, como se todo o quarto estivesse imerso em uma névoa. De fato, como se o quarto flutuasse mesmo numa névoa. Nada mais pode ser visto. Mas de alguma forma ele sabe que do lado de lá há pessoas que o observam. Ele sente isso agora e olha fixamente para o vidro tentando distinguir certos contornos na névoa. Sim, sim. Talvez possa até perceber o contorno do rosto de um filho da puta de um cientista que tem um guarda-pó branco e que o observa com ar de curiosidade. Filho da puta, pensa! Diz: "Filho da puta!". Repete algumas vezes o xingamento, grita, bate com a mão no vidro. Ele não é apenas um experimento, ele é um ser humano. "Me tirem daqui, seus filhos-da-puta! Eu sou um humano, não sou um rato de laboratório! Me tirem daqui, me tirem daqui!" Ele bate repetidas vezes no vidro, bate, bate e bate. Água mole em pedra dura. Sua mão começa a sangrar, mas o vidro também parece começar a ceder. E então, um som, como se um pneu a se esvaziar: tsssss. Um som... O som, ele percebe, vem da pequena fresta embaixo da porta. Há um gás entrando. Estão dopando-o. Cambada de filhos da puta! Olha com ódio para a janela e dá um grito. Mas ele escapará. Cedo ou tarde sairá dali, sabe disso. Enquanto o quarto vai sendo preenchido pelo gás, o negro não desiste. Continua a socar o vidro, que finalmente começa a rachar. Grita alto: "Me tirem daqui, eu quero viver, eu quero viveeeer!" Mas finalmente o gás o alcança e a inalação do mesmo lhe trás uma sensação de tranqüilidade, muita leveza, sono, bastante sono, calmaria. Seus músculos relaxam. Não consegue mais socar o vidro. Ele está prestes a cair no chão. Ainda consegue alcançar a cama e então cai sobre ela e apaga.


[Continua... (?)]

15.7.08

Dentro da caneta, dança


O poeta estava imerso em um sonho estranho: dançavam dentro da caneta. Dançava com seu amor como daquelas tantas vezes em que ela o havia proposto e quando então se abraçavam e fechavam os olhos. Magicamente tornavam-se dois animais líricos que se moviam harmoniosamente enquanto guiados por ondas sonoras ritmicamente espaçadas. Eram lindos assim, quase perfeitos; e só desta forma era verdadeiramente completa a expressão de cada um deles como ser vivo. Em sua dança, dependiam um do outro para se sentirem plenos ao mesmo tempo em que era completa a liberdade de cada um. Mas um estranho estrondo vindo de fora da tal caneta desligou a conexão cósmica entre eles e o poeta então acordou.

Oh, ela não mais estava ao seu lado. Sentiu uma sensação estranha. Acostumara-se em ter aquele corpo quente e bem moldado a acompanhá-lo durante as noites, mas agora havia apenas um vazio. O vazio da cama só não era maior que seu vazio interior. Naquele dia não acordou com beijinhos ou abraços. Não teve aqueles olhos expressivos à fitá-lo e não pôde fazer cafuné ou dizer palavras doces enquanto sentia seus químicos agradáveis atingirem-no sensorialmente. Ao rádio-relógio, finalmente reconhecia agora o estrondo que o fizera despertar: The Beatles. Paul McCartney cantava sobre seu futuro, agora já passado: "Will you still need me? Will you still feed me, when I'm 64?" Ora, o futuro. O que seria de seu futuro? Do futuro dela? Teriam um futuro juntos? Ela não estava mais a seu lado, ao menos fisicamente. Estaria psicologicamente? Ora, que consideração dolorosa! Como pensar em si sem pensar, ao mesmo tempo, no casal? Conseguiria suportar a dor daqueles dias tão iguais sem sua presença? Doía. Doía muito. Doía ou fingia? Seria mesmo o poeta um fingidor que fingia a dor que deveras sentia? Questionou-se posto que não era apenas poeta, era também filósofo. Ela partira em busca de si mesma. Tinha dúvidas de que ela o encontraria em seu íntimo. Se o encontrasse, seriam juntos de novo. Se não... Seria o fim. A despossibilidade corroía-o internamente.

Pela casa, roupas jogadas por todos os lados. Bagunça em sua escrivaninha. Na pia, a louça para lavar e na mesa, confusões aleatórias. Quando se ama intensamente, não se tem muito tempo a gastar com essas insignificâncias. De uma certa forma, amava também a desordem, a falta de um oito e de um oitenta, gostava daquele misto de ser-estar-to-be-être desnorteado e ligeiramente confuso. A ordem leva ao autoritarismo. A ordem é careta, a ordem é egoísta, a ordem é cega, surda e muda quando não está aliada tanto à liberdade quanto a uma certa desordem. O yin-yang, o preto e o branco, a lei física da ação e reação, o norte e o sul dos imãs. Dicotomias semi-reais. Mesclas e representações falsas de uma realidade onde tudo a tudo permeia -- e vice-versa. Mais cedo ou mais tarde cuidaria da bagunça da casa. Talvez a hora fosse aquela, agora que ela partira e cedera lugar ao pensamento sobre a relatividade do tempo. Não fora mesmo Einstein que dissera que o tempo ao lado de uma bela mulher não era o mesmo tempo que se passava quando tendo as mãos ao fogo? Segundos que duravam horas, horas que duravam segundos, irrespectivamente. A relatividade do tempo no universo e na mente humana seriam mesmo duas facetas da mesma teoria? Ou teria sido ruim, a metáfora?

O poeta tentava concentrar-se; mas era apenas a imagem física e/ou psicológica da moça que lhe vinha à cabeça. A loucura bateu à porta: toc-toc. Ele não abriu. Pensou, segurou-se. Ela bateu uma vez mais, mais forte. Insistia a loucura em entrar na casa de amplos e espaçosos quartos que era sua psiquê. E, cá entre nós, o poeta teve uma vontade secreta de abrir a porta e deixá-la entrar. Ela sabia que, no instante em que o fizesse, gozaria de um estupendo prazer. Todo ser foi feito para se entregar à própria loucura. Acomodá-la e aceitá-la seria sentir-se total e finalmente livre de todas as amarras, tão livre que então se esqueceria de todo mundo e da sociedade. A loucura é o entregar-se de corpo e alma ao autismo. Pé no chão. Pé no chão. Pé no chão. Concentrou-se. Entregar-se ao autismo, à loucura e sair da sociedade pode ser um caminho sem volta; e talvez seja mesmo um prazer efêmero e covarde, seguido por dor e auto-incompreensão. Ainda procurava se entender, buscava auto-conhecimento, hindu ocidental. Decidiu ouvir ao diabinho que lhe falava ao ouvido esquerdo, aquele que tinha uma auréola e cabelos louros encaracolados: ele lhe dizia para não abrir a porta, deixar do lado de fora a loucura. Ele representava sua consciência moral e social, responsabilidade para com a vida e com os outros seres humanos que o amavam. (Quando se é amado, tem-se uma forte responsabilidade com os outros e não se pode simplesmente chutar o mundo e decepcioná-los todos -- o que caracterizaria o mais completo egoísmo.) Mas havia também uma outra entidade, um anjo que lhe dizia ao ouvido direito, trazia tridente e chifres. Mas esse falava muito baixo e além de tudo era feio, mal-nutrido e asqueroso, sempre deixado de lado. E ali ficava o poeta, influenciado pelo sujeito de auréolas que não tinha umbigo ou sexo, amedrontado no canto da sala a meditar, portas fechadas, até que a loucura percebesse que ele não iria mesmo abrir e fosse embora.

E assim se deu.

Quando enfim as forças voltaram a nutrir suas pernas, saiu de casa para respirar o mundo. E assim percebeu, pasmo, que outras mulheres existiam por ali. Esteve tão só-ela naqueles últimos tempos que até se esquecera da beleza das outras, que abundam e apeitam por todos os lados. Mas para elas não tem vontade de olhar por muito tempo, aprecia-lhes a beleza como quem aprecia um quadro sem vida, pintado por um qualquer. Tem saudades então da obra de arte que teve para si por tão pouco tempo, durante um tempo infinito enquanto durou, e que agora já não dura mais. Ou que estará apenas em modo "Stand by"? Angustia-se com a incerteza de seu retorno. Mas é um otimista e de toda forma está feliz por ter tido o prazer de apreciar assim tão profundamente aquele Miró -- pela estética certamente não se trata de um Picasso ou Van Gogh, mas talvez Dali. Se bem que não. Miró mesmo posto que é feita de formas simples, dispostas de uma maneira interessante, inteligente e um tanto quanto abstrata; não ao exagero. Do fundo de tela, tira o Dali e põe um Miró, lembrar-se-á dela com carinho e afeição. Independente de sua independência. Independente do futuro. Independente de qualquer outra coisa. Independente...

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7.7.08

Um romper do buda ocidental


No dia em que decidiu deixá-los de vez, estava melancólico. Gostava deles, gostava da companhia de todos, divertia-se quando juntos. Mas não era aquilo que queria para si. Seguia um caminho próprio e único em busca do auto-conhecimento. Era um tipo de budista dos tempos modernos, hindu ocidental. Porém, nessa busca de si mesmo não devemos pensá-lo egoísta, não é por aí; pelo contrário, tinha tentado ficar junto a eles e transformar aquela metáfora de estado em uma união verdadeiramente democrática. Mas agora já estava farto, aquele povo não queria a democracia. Queriam apenas expressar suas próprias opiniões, um falando mais alto que outro para prevalecer em uma auto-ditadura que também só eles mesmos se comandariam: governos de um homem só. E naquele instante entendeu porque a luta pela democracia foi e ainda é ferrenha em todo e qualquer estado de direito. Vislumbrou que a democracia não de fato é natural ao ser humano, temos a tendência a sermos autoritários e pensarmos primeiro em nós, a despeito dos outros. Pobre de espírito é o ser humano. Mas fato é que a sociedade avança em seu humanismo, embora em pequenos passinhos, devagar quase-parando. Naquele dia, olhando para todos aqueles em sua mini-sociedade, viu-os desordenados em si mesmos, deslocados em seus eus e distantes de si mesmos. De fato, não se buscavam. Buscavam um reflexo homérico de si em outros, buscavam a insignificante migalha do pão ao invés do glorioso e agradável banquete entre amigos; e não utilizavam qualquer espelho psicológico. Seus valores eram antitéticos, por vezes pensavam alhos ou bugalhos, a incoerência os unia. Não sabiam atribuir regras lógicas a diferentes situações, eram quadrados e não se livravam dos antolhos que sequer percebiam utilizar. Com eles, o budista do ocidente não dividia nenhum valor e o choque de classes psicológico-intelectuais era eminente, de fato ia acontecendo enquanto a Terra continuava seu caminho ao redor do Sol. Era primavera.

Com esse escarcéu pensamental que ia em seu íntimo, saiu de casa para andar por aí, saiu sem destino, sem lenço ou documento, seguiu para não sabe onde. Os olhos abertos o guiavam apenas para que se desviasse de obstáculos e o nariz apontava para a frente: era para lá que seguia. Distúrbios aleatórios nas ruas o guiavam em direção a nenhum lugar em especial. E no seu andar desligado e despreocupado, eis que se viu justamente no sítio onde haviam pela primeira vez se encontrado, onde toda a história daquela metáfora civilizatória se iniciara. Por ter ali terminado, seu psicólogo diria algo sobre seu inconsciente e sobre as atitudes de camadas inatingíveis de nosso córtex cerebral que o teriam guiado até aquele recinto -- sem que ele próprio tivesse disso se dado conta. Seu professor, entretanto, teria dito que tudo não passara de uma feliz ou infeliz coincidência e que dada a pequeneza da cidade, cedo ou tarde terminaria por ali e aquele lugar o faria refletir mais profundamente sobre tudo o que acontecera nos últimos tempos. E era bem naquela parte do espaço que o tempo, visto em retrocesso, ligara-o aos outros. Sem saber se por providência do inconsciente ou por singular coincidência, pôs-se a avaliar sua vida, a vida deles, o tudo, o nada, o espaço e o tempo; e dali partiu adiante. Foi ao futuro e ao passado, voltou ao presente e de novo foi a outros momentos, lá e cá. Sentou-se e cruzou as pernas, fez a posição do yoga e ficou a meditar até que sentisse aquela sensação mística de maravilhamento que se tem ao contemplar a beleza do mundo. Conhecia-se mais e melhor.

Acordou do transe e ali se recordou mais objetivamente de toda a trajetória do grupo, agora seu pensamento seguia uma linha temporal mais bem definida: passado distante -> passado recente. À sua mente veio o primeiro de seus encontros e então os encontros posteriores. Avaliou ponto a ponto o início daquela relação social, agradável e tranqüila em seu debute; relação que cresceu vigorosa durante meses, interpolada apenas por pequenos tremores de terra em baixos níveis da escala Richter. Mas à época não percebera que tais tremores abalavam a estrutura social que se formava em sua mais profunda base; e que o reparo seria impossível. Outro dos membros da comunhão percebera aquilo tempos antes, soube que não daria certo. Foi ainda mais sensível à desunião de todos para contodos, de todos para consigo, de si para contodos e de si para consigo. Quadrilátera desunião espiritual, intelectual e moral. Aquele era um ocidental de veia ainda mais budista. Esse tal quitou ainda mais prematuramente a sociedade; e nosso herói à época não compreendeu as profundezas de sua motivação. O que largou cedo a pseudo-sociedade era ainda mais sensível a toda aquela imatura algazarra dos adultos que na verdade eram crianças, que sequer seguiam os apelos da razão. Àquela época, aquele do qual falamos desde o início ainda insistiu em ficar, pois que tinha um sonho e uma esperança. Queria acreditar, tinha fé na comunhão e no respeito social. E acreditou ainda por algum tempo no um por todos e todos por um. Mas era o outro, o primeiro a sair, que no fundo parecia ter absorvido o verdadeiro sentido psicológico que por ali circulava: incompreensão. Aquele bando não nascera para bando. Não eram educados o suficiente para se respeitarem em suas individualidades e cada um era cada um. Ninguém era por todos e não pode haver qualquer tentativa objetiva de socialidade dessa forma. E se na metáfora que era aquela mini-sociedade não havia deslealdade, também não havia sincera lealdade ou respeito ou inter-comprometimento àquele estilo mosqueteiro. Pensavam-se todos excessivamente grandes por dentro, enormes. Alguns mal se continham dentro de si e assim explodiam-se e extravasavam toda a merda que tinham encerradas em seus eus para todos os lados, atingindo outros e emporcalhando-os. O tempo foi contado em meses até que o buda do oeste percebesse em si o mau cheiro que agora carregava. Quando então acordou do transe, sacudiu-se e tomou banhos e mais banhos, lavou-se até sentir-se realmente limpo. Respirou então tranqüilo. Havia novamente se encontrado. Custou a recuperar-se, mas agora já estava novo, era uma fênix de si mesmo e precisava recomeçar de alguma forma.

No fundo do túnel, lá adiante, à frente, futuro incerto, brilhava uma luz que ele sabia que era sua, mas não estava muito certo de como alcançá-la. Desistira da ajuda de certos e agora seguiria sozinho, embora guardasse também em si uma incerta convicção de que jamais alcançaria a luz sem a ajuda de justos, leais e verdadeiros companheiros -- a quem também ele ajudaria a alcançar suas luzes. Iriam juntos, um empurrando o outro e o outro a um levando. E talvez chegassem lá e transformassem-se simplesmente em uma única estrela enorme a luzir e levar amor e paz ao coração dos homens. Pé no chão. Estava apenas em seu começo-recomeço e, ainda que ligeiramente desanimado, tirou forças de seu íntimo para seguir ladeira acima. Escalava-se sem o equipamento apropriado. Arriscava cair. Mas quando olhava para baixo, sabia que jamais desistiria de subir ao cume de si mesmo. Esportista de sua psicologia, era disciplinado e capaz, eficiente e inteligente. Sabia que chegaria lá e que atingiria, mais dia, menos dia, seu nirvana interno. Era tudo uma questão de tempo, paciência e perseverança até que empunhasse sua própria luz e brilhasse eternamente, vivo e morto, sozinho e acompanhado de todos aqueles que o influenciaram em maior ou menor grau ao longo de sua solitária caminhada. Sabia que aqueles que passaram por sua vida jamais morreriam enquanto suas cruzes estivessem pregadas em seu contínuo corpo-mente; pregadas tal como inapagáveis tatuagens do que haviam sido durante seus momentos de comunhão e intercâmbio psicológico. Quando alcançasse o nirvana, todos estes também o alcançariam.


EPÍLOGO

Um dia brilhou e, como predito, com ele brilharam também as luzes de todos que foram ele e que ele também havia sido. Mesmo que por insignificativos instantes, todos piscaram em harmonia rítmica e então brilharam numa intensidade colossal, cintilaram como nunca dantes. Ele era. Todos eram e foram e agora são, mais do que sempre. Estava realizado. Chegara ao seu fim ou seria outro recomeço? Agora já não sentia-se um ser físico, mas sua influência sobre o mundo dito real era forte e vigorosa. Ele era o mundo inteiro.

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2.7.08

O homem que respirava o mundo

Quando chegou, foi e fez. Não pensou muito. Nem queria. Gostava das coisas naturais, sem aquela artificialidade dos que pensam demais e encontram mosca em nariz de cavalo. Sua vida era assim, só o presente importava. Era absoluto e infinito em seu agora. Sempre o centro do mundo era o lugar onde estava. E todas as outras coisas não o importavam. Desligou o cérebro e vagou pela cidade. Entrou no trem e pensou na moça. Viu a velha que trazia o pão e menina de sapatos baixos que se vestia para outrem, não para si. Cruzou com um cachorro de rua e desviou de duas bicicletas antes de pensar, em voz baixa: para onde estou indo? Não sabia, nunca soube ou desejou saber. Apenas seguia e seguia para onde o mundo o levava, rodando e rodando. Coisa louca esse tal de mundo e as oportunidades ganhas e perdidas e que se pode ou não se pode ter. Pensou se queria ser reconhecido e da fama teve nojo, escondeu-se atrás de uma moita enquanto passava aquele que seria o carregador de sua fortuna. Deixou-o passar dali detrás da moita com o coração na mão. A qualquer instante poderia lhe dar-lhe uma átimo de loucura que o fizesse atracar com o senhor Oportunidade. Não foi sem sofrer que o deixou passar. Tempos depois, estava certo, viria a se arrepender da oportunidade perdida e sofreria também por isso. Mas não se sentia preparado e não o abordou. Passado o medo e o susto, levantou-se. Respirou o mundo bem fundo em seus pulmões e quis estar sozinho. Fechou os olhos e nesse fechar de olhos todo o mundo magicamente desapareceu e ele era só ele, estava dentro de si. Abriu os braços e foi apenas seu próprio eu por uns instantes. Quebrara sua conexão com o mundo. Flutuava no vácuo, alheio as forças da física. (...) Então um barulho o urbano o fez sair do transe. Carros e ônibus e pessoas e todas essas coisas que insistem em nos tirar dos nossos mais belos sonhos avançaram sobre seu solipsismo. Bravo com a cidade e bravo com sua própria braveza, tentou ver então poesia no ambiente urbano. Porque era bom, quis perdoar a civilização. Enxergou então um poema, sem métrica ou rimas, falava sobre a cidade. Concluiu que em tudo havia poesia. Estava em paz. Era livre. Era livre? Não era livre. Ou era? Olhou para seus punhos e viu as algemas da sociedade, tentou se livrar delas mas não conseguiu. Era obrigado a se entremear nessas coisas que se precisa fazer para se sobreviver no meio social. O trabalho o chamava. A sociedade e a natureza social do humano como animal. Pois que trabalhava, infelizmente. Queria também disso se libertar e pensou que o senhor que passara mais cedo poderia tê-lo concedido este desejo. Arrependeu-se antes do que esperava. Fechou então os olhos e concentrou-se... E quando mais uma vez chegou, foi e fez. De onde chegara? Retornara? Não pensou muito. Nem queria. Seguiu em frente. Gostava das coisas naturais, sem aquela artificialidade dos que pensam de mais e encontram chifre em orelha de porco. Sua vida era assim, só o presente importava. Ao longe, viu novamente o sujeito vindo. Seria ele mesmo? Esfregou os olhos, talvez estivesse alucinando. Olhos esfregados, ainda parecia ser ele. Não se perde duas vezes a mesma oportunidade. Passava-lhe ao caminho novamente o senhor Oportunidade. Era sim, era ele. Teve um impulso covarde, agora percebia, de se esconder. Ora, como havia sido covarde! Não, desta vez ficou ali. Plantou-se no lugar e fixou suas raízes. Quando o sujeito passou, interpelou-o e disse com clareza e hombridade tudo o que deveria dizer, segundo seu coração. Desabafou. Falou com coragem, explicou-lhe detalhes e não deixou de acreditar um segundo sequer. Uma vez terminado, o homem então observou nosso herói de cima a baixo, curioso e curiado, maravilhado e confuso. Deu-lhe um pequeno sorriso e um tapa nas costas. O homem era menor que ele. Atônito, o senhor Oportunidade desejou-lhe boa sorte, disse-se inábil a acompanhá-lo em sua busca e seguiu então seu caminho. Sequer olhou para trás. Decepção. Não era o homem que ele pensava que fosse. Nenhum dos dois. Saiu então para continuar sua vida, orgulhoso por si e decepcionado pelo homem, mas por si também. Não mais se arrependeria de não ter tentado, agora se arrependeria de ter tentado e falhado. Melhor arrepender-se do que se fez corajosamente do que das covardias diárias. Era meio orgulho e meio frustração. Com tais confusos sentimentos, fechou mais uma vez os olhos e sentiu a força que tinha dentro de si inundar seu corpo de um calor ameno e agradável. Chegou, foi e fez. Não pensou muito. Nem queria. Pensar pra quê? Tinha instintos e sentimentos à flor da pele que o guiavam até no escuro, jedi do coração. E também gostava das coisas naturais, bossas-novas, sem aquela artificialidade dos que pensam demais e encontram até mesmo neurônio em cabeça de chupa-ovo. Sua vida era assim, seu presente era eterno e o centro do mundo era o lugar onde estava.

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1.7.08

Eis que o peixe já sabia

Escreveria algo bem argumentativo, seqüência de razões e análises perfeitamente encaminhadas num sentido lógico que seguia ladeira abaixo através do monstruoso e maravilhoso labirinto que é o conhecimento humano. Pôs-se à frente do computador e começou a datilografar. As palavras lhe vinham como se tivessem sido sempre suas, novas palavras, novos conceitos, existentes antes apenas dentro de si e, agora, abertos ao novo mundo. Como bebês, os novos conceitos e palavras brincavam e choravam, perdidas dentre o conjunto de conceitos anteriormente já existentes. Os recém-nascidos ainda tentavam se adaptar ao novo mundo. Àquele que expelia de si esses pensamentos fugazes, o princípio último de toda a racionalidade existente no universo era claro como o céu de verão e ele podia explicá-lo tim-tim por tim-tim -- a quenquer que o demandasse. Naquele instante de iluminação, o filósofo tinha a faca e o queijo em suas mãos e mente. Precisava apenas passar tudo aquilo que ia em sua cabeça para uma tela em branco em um processador de texto, fazer navegar suas idéias para a máquina e daí alcançar outras naus de sobrevivência. A nitidez com que via os maiores problemas filosóficos naquele dia era espantosa, estava eufórico. Parecia ter ao mesmo tempo uma lupa e o um telescópio epistemológicos que o permitiam entender pormenores e pormaiores sobre o universo, a natureza, os homens e a sociedade. Via tudo com extrema clareza. Cuspia aquilo em palavras esparsas que a tudo iluminavam e concluiu extenso dia de escrita com a certeza de ter explicado, aos homens, o mundo.

No dia seguinte, ainda são e consciente de toda sua teoria, decidiu passar os olhos pelo texto e concluiu que ele nada dizia. Não, ele dizia algo sim. Mas quando o filósofo colocava-se na pele de outroguém a tentar compreender os conceitos e a inter-relação dos mesmo ali dispostos, sabia que não o entenderiam, posto que tantos conceitos errôneos carregam as pessoas em si, conceitos que são tão seus. Entenderiam aquelas palavras como ele? Duvidou. Falava de algo abstrato, ia de generalidades a particularidades, abusava de neovocábulos, exigia do leitor um enorme conhecimento de filosofia ocidental. Concluiu também com a mesma clareza de pensamento que lhe era notória: não o entenderiam. Rasgou o primeiro manuscrito e queimou-o até que virasse pó. Mas tudo aquilo era apenas um ritual de desapego, todo o texto estava gravado computador: ah, os tempos modernos. E então o filósofo pegou cada frase de seus prolegômeros e transformou-as em um texto completo; o tamanho dos escritos foi multiplicado por um valor inconstante, a depender do assunto tratado. Mastigou a filosofia para os leitores tanto quanto pôde. Nesse meio tempo encontrou inconsistências que não tinha percebido antes, mas foi capaz de resolvê-las, ainda que com artifícios lógicos esdrúxulos ou observações diretas da natureza. Evitou resolver impasses à luz da autoridade de outros pensadores, não gostava deste tipo de argumentação. Mesmo os melhores haviam dito muita coisa errada. Enfim, ninguém é perfeito. Para realizar tal extensão e mastigação de sua teoria de forma que os (razoavelmente) leigos o entendessem, gastou dias e semanas e talvez meses ou anos. De fato, estava certo, nunca terminaria. Havia criado uma nova linha de pesquisa filosófica e já via pessoas trabalhando com isso no futuro, séculos à frente. Havia muito o que fazer e a fertilidade do conhecimento que criara o fazia orgulhoso. Mas então, quando finalmente terminou a segunda mão de tinta em sua obra, deixou-a de lado por outros tempos. A idéia era esquecê-la por algum tempo para poder lê-la como se não tivesse sido ele mesmo que escrevera, logo a seguir. A estratégia chamava-se: efeito gaveta. E quando mais uma vez pegou-a para ler, colocando-se na pele de um leitor leigo, achou mais uma vez que estava tudo uma porcaria. Conseguiria fazer-se entender algum dia? Não conseguiria, pensou num átimo. Ou será que precisaria apenas de mais uma única boneca russa do re-escrever para achar o presente? A compreensão. Aquilo poderia continuar infinitamente, pensou. Versões e mais versões. Largou mão. Largou pé. Largou. Esqueceu-se de pensar que até hoje ninguém entende os filósofos e que a filosofia é baseada na discussão e em diferentes interpretações dos mesmos autores por diferentes escolásticos. E então, aquilo que talvez tornaria sua filosofia realmente válida não lhe passou pela cabeça. Tinha uma certa convicção de que poderiam os outros não entender o filósofo, um filósofo qualquer, mas ele mesmo precisava se entender. E embora sua visão fosse clara neste sentido, a transmissão de seus pensamentos em conceitos e símbolos lingüísticos causavam-lhe certo desconforto. Não era capaz de expressar simbologicamente aquilo que ia tão claro em sua mente.

Fazia um lindo dia de sol e o filósofo foi contemplar a floresta. Viu animais e plantas, viu ainda mais plantas. Olhava-as com interesses de botânico e pensava se a clorofila de alguma forma gastava-se com o tempo, ou seja, pensou se as plantas desbotavam. As folhas não eram tão verdes no fim do verão como em seu início. Intrigou-se. Espantou-se com a enorme biodiversidade vegetal daquele lugar. Maravilhou-se. Brilhou. E imerso naquela temperatura amena da floresta, resolveu o problema do aquecimento global. Criaria telhados de plantas para as estradas e os edifícios, assim elas absorveriam a luz e o calor do sol, não o refletindo de volta à atmosfera e criando um ambiente agradável dentro das cidades. Telhados de plantas trepadeiras, era isso: voilà! E então voltou a pensar em sua teoria filosófico com mais empenho. Refletiu por um tempo e depois desistiu dela. Desistiu também dos telhados de plantas, era idiotice. Só podia ser, não seria economicamente viável. Andou mais um pouco e viu um pássaro, um porco, um cão e um veado. Não sabia que existiam aqueles animais por ali, pequena floresta dentro da cidade. Passava por aquele local apressado nos dias de semana, caminho para o estúpido trabalho. Cansara de trabalhar, ainda tão novo. Coitado. De outra forma, também jamais havia pensado em aposentador-se, não era capaz de planejar a vida assim tão longe. Hoje podia andar por ali a pensar e observar e integrar-se também ao meio da floresta, podia sentir-se o verdadeiro animal que era. Hoje ele e a floresta eram apenas um. Andava em meio às árvores sem medo. O medo que tinha era de outros humanos não integrados à natureza, pior das raças existentes. Pisou em barro e pulou um riacho, sentou para meditar e viu esquilos imaginários. Encontrou um peixe que não era peixe, era homem. E o peixe que não era peixe contou-lhe as novidades do mar que era rio. Tudo encaixava em sua teoria. Explicou a teoria ao peixe que não achou muita graça, pois daquilo já sabia há muito tempo. Disse-lhe que não adiantava contar isso aos homens, posto que os homens estavam perdidos. Mas se ele mesmo era um homem e havia entendido aquilo, criado aquilo, formalizado toda a teoria, perguntou ao peixe como é que os outros homens não entenderiam, porque eles estariam perdidos. Mas o que o peixe respondeu foi que ele não era homem: ele era deus.

Sendo o filósofo deus, quis sentir a sensação de o ser e deixou-se por um instante brilhar facamoladamente em si mesmo. E assim sentiu sua forte e inocente energia explodindo dentro de si. Era deus, era um deus, era um humano, era uma consciência e um corpo. Sentia-se pleno. Ele era deus. O peixe havia desaparecido e um barulho agradável de insetos envolvia tanto a si quanto à floresta. Por horas e horas, o tempo não se passou. E quando então ele voltou a passar, passou rapidamente até que chegasse a noite. Voltou para seu lar pensando nas palavras do peixe e, quando adormeceu, sabia que nada daquilo havia realmente acontecido.

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