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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

31.8.08

Crença preguiçosa de um trabalhador rural


O caboclo ouviu um barulho. Não o reconheceu. Pensou nos sons dos pássaros, dos sapos e também dos insetos. Não, não era nada disso. Homem é que não fazia esse tipo de barulho; e nem mesmo mulher! O barulho era surdo e forte; o tom: grave. Tivesse uma cor, o som seria de um verde bem escuro, caindo um pouco para os lados de um cinza, quase preto. Fosse uma mulher, o som, seria grande e desengonçada, porém de contornos moldados com certo capricho. Esteticamente, era belo. Trazia porém uma amargura e um sentimento de náusea ou dor que deixaram angustiado o tal do caboclinho. Ele matutou mais um pouco: que som seria aquele? Seria som de bicho grande? Ou seria de bicho pequeno? Vinha da natureza, isso era praticamente certo; praticamente. Naquele lugar ali não havia máquinas ou tecnologias de ponta quaisquer. De ponta-cabeça era o gosto urbanóide pela tecnologia. Estava bem no mato: muito bem! Espreguiçou. Atiçou os ouvidos. Nada... Teria sido um bicho de outro planeta?, pensou. A presença do sentimento místico fazia parte de seu estilo de vida e tendo uma vez chegado à solução de que aquele som proviera de origem mítica, esta não mais questionou. Neste mínimo local memético, deu então uma passeada. Alienígenas era hipótese forte, quase certa. Não cogitou a presença de deus, porém a do Demo rondou por sua mente. É que o barulho estava longe de ter aspectos angelicais, segundo a impressão caboclal. Iara e curupira e saci e mula sem cabeça por sua cabeça não passaram como explicações para fonte-emissora-do-ruído posto que nos dias de hoje nem mesmo os caboclos acreditam nessas coisas. De forma a recriar o kardecismo, nosso herói que jamais ouvira falar no tal francês e na filosofia espírita, pensou que aquilo pudesse vir d'almas doutro mundo. Pensava que almas iam e vinham e não morriam. Jamais associou alma a cérebro, dividia-os como Descartes. Mente era mente, corpo era corpo. Mente habitava corpo, mas mente não era corpo em sua visão de mundo. E assim achava, como o francês Alan, que espíritos -- ou seja: mentes de humanos que uma vez haviam vivido -- podiam se manifestar e modificar e mexer e produzir sons que transpassariam de forma especial o mundo "deles" e alcançaria este nosso. Medo e curiosidade eram os sentimentos daquele que escutou sozinho o estranho ruído em noite de lua nova, nos confins do sertão. A fazenda estava muda e o coro dos grilos tocava a pauta de fundo para a sinfonia natural. Gritos sônicos dos morcegos também se ouviam, por vezes. Cachorros que brincavam, humanos que nalgum lugar, ao longe, ao que parece, bebiam alegremente dentre pequenos ruídos doutros animais que à noite se ouve. Se sua curiosidade era grande, o medo era maior. O barulho tivera vindo detrás do moinho que ficava cerca de quatrocentos metros à frente. Alguém tentaria roubar o moinho? Não havia nada para se roubar por ali. Então o som só poderia mesmo provir dalgum ente mitológico, era o que concluía o caboclo. Entes mitológicos, entretanto, costumavam ter comportamentos perversos mais do que comportamentos de alegria e amizade. Diz-se que desde sempre o homem é assim medroso e bem se sabe que o medo leva ao lado negro. Respirou fundo e resolveu averiguar; venceria seu medo. Não haveria de ser nada, algum bicho poderia estar acidentado, um humano quem sabe. Era corajoso e macho. Cumpria seu papel de olhar a fazenda naquela noite e era responsável para com seu serviço. E assim pegou a peixeira e foi lá averiguar. E eis que aquele que agora há pouco bateu no peito e se disse macho ia parecendo ficar cada vez menos seguro de si a cada passo que dava em direção ao local donde o barulho era proveniente, segundo medida falha de seu ouvido. Dirigia-se o rapaz segundo rota que não era exatamente a verdadeira. E continuaria seguindo para o local incorreto, sem sequer questionar sua própria habilidade na arte de traquejar sons, caso o barulho não tivesse novamente ecoado da fonte direta mais uma vez: alto, longo e forte. E desta vez o caboclo, além de sentir todas as sensações previamente descritas e segundo as quais o som o fazia rememorar, sentiu também um gelo que começou na ponta inferior da espinha e se espalhou rápida e congelantemente por todo seu corpo. Sua cabeça apontara a casa sede e ele já quase começara a correr desembestado quando o sopro racional açoitou novamente sua mente. Não haveria de ser nada. Inclusive, parou e pensou, o som parecia um mugido rouco, conseguira identificar agora: era um mugido rouco de um boi. Sim, era isso. Ou então, gelo outra vez na espinha, seria canto do Satanás para atraí-lo e ludibriá-lo, conseguindo assim ganhar sua alma através de algum jogo injusto e trapaceiro, já de ante-mão armado para sua derrota. Sabia muito bem que o Belzebu não tratava seus negócios com lealdade. Mas tinha que ir, era o trabalho que fazia. Segurou o medo, espremeu-o. Tirou sua coragem para fora e apontou a lanterna para frente. Passo ante-passo. Curiosidade e medo. Medo e curiosidade. Medo e medo. Necessidade de ir lá. Honra a um contrato e a uma profissão. Era um homem de honra e palavra, protegeria a fazenda. Seu alinhamento moral não era como o do Diabo: foi que foi. E então o barulho de novo se deu: verde acinzentado, escuro, grave, contínuo, mugido, lanterna, direção, foco, visão, nitidez, o quê?, um boi?, era mesmo um boi, um boi ali?, um boi parado, quase caído, um boi, algo o prende, seguir para averiguar, passo, passo, lanterna mirando, a pata, do boi, esquerda, traseira, não se mexe, está presa. O boi tem uma cara de tristeza, cara de quem já gritou a noite inteira e não foi ouvido. Não é nem boi, é bezerro. O que faz ali? Terá fugido? Sim, fugido. A pata atolou na areia, escorregou para frente. O animal está preso porque não consegue tirar a pata, presa entre pedras que cobrem a lama. O caboclinho empurra para trás a pata do boi e o liberta. Faz isso de forma delicada porém rápida, habilidoso que era. Assim o boi não pôde nem reclamar da pancada que recebeu pois que quando percebeu, já estava livre. Estava livre. Percebeu, o boi. Pisou no chão, acertou-se. Acertou-se e correu. Correu na direção da plantação de milho. Eita, noss'inhora, agora o caboclo precisará ir lá para prender o boi e levá-lo de novo para o curral. Nada de medo agora, só preguiça. Vontade de ter o capinzinho na boca e ficar escutando o radinho de pilha. E enquanto vai andando em busca do animal, o rapaz pensa: "bem que podia ter sido algum fantasma mesmo".

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19.8.08

Self and self in a locked room


The guy opens his eyes. An excitement feeling fills his body. He jumps from the bed and he almost falls down to the ground. He needs freedom. He looks around for freedom. Where is freedom? Freedom is at the window. He runs into the window and tries to open it without success, it is closed. He forces it. Nothing happens. He hits the glass, it is hard; it won't break. A door, he needs a door. His eyes walk around. In there! A door: finally a door. He runs into it, he puts his hand into the doors' handle but it doesn't turn. It turns, in fact, but the door doesn't open. He is excited, he screams: "Open this fucking shit, you bastards! Open it! I need to get the hell out of here!". The answer: silence. What's going on? He kicks and punches the door, but a deaf noise is the only thing he hears. He keeps kicking it and hitting it until his feet and hands get too much painful. He stops and he thinks.

"Calm down, mate." He looks and now he sees. There is another guy in the same room. The guy looks at him and keeps saying him to be calm. Calm down. What's that? The guy… He realizes the guy’s face. The guy that says that, this guy, it can’t be: the guy is himself. He looks at the guy and he sees himself saying to calm down. What the hell is going on in here? "Who are you?" He asks to the other himself. "What's going on?" The other answers: "Calm down, mate. Just calm down, I’ll explain you everything that I know.”, “Fuck you, asshole! What do you mean by calm down? What do you mean by it? I’m here, I’m crazy, I’m jailed and there is a crazy one that looks exactly like me saying stupid stuff. How can I calm down? What the hell…”, “Alright, mate. I’ve got your point. Don’t calm down, if you don’t want. I’ll tell you what I know and you’ll promptly realize that you know that as well.” The one is still worried, looks like everything is suspicious, strange. The other keeps saying: “Look, we are brothers, we are twins, they’ve locked us up in this room to do some sort of psychological experiment, I guess. I can see no other reason. Don't you remember?” No, he does not remember. He even doesn't remember having any siblings. What's that? “You're a liar! That's not true! That's not true! Freedom! I need freedom! Freeeeeeedom!” He stands up, he runs around, he hits his head in the walls. Hit it! Hit it! Hit it! Ouch! He falls down. He looks to the other himself again. He is himself, he knows that. He is this one. He is not that other one. The other is not any sort of brother, fucking brother. He is a liar, he just make the one angrier. That one is not a person. He hates him. He hates himself. The one touches his skin and arms and nose and head in order to verify if he is actually awake, if he is actually a person, a human being. Maybe this is only a bad dream, stupid nightmare. But nop: he is in there, he is he, he is alive, he is awake. What about the other? Who is the other? He realizes the other. The other himself is laid down into a bed. There is another bed above this one. The other himself is laid down, he has his hands below his pillow, holding his neck. The other looks up, he is just quiet and calm, he says nothing. In the one’s head, there are nothing but questions. Questions and questions. Dozens of them. Hundreds, thousands. What’s the meaning of all that? He stands up. He needs to see if the other is the other or whether the other is somehow a representation of his own self. Could it be true? He doesn't remember any brother or sister, mother or father, uncle or aunt, he just doesn't remember anything at all. What's up? Does he have ever had a life outside this room? There are no memories, no signs, no clues, no insights, no reminiscences.

He walks into the other himself. He stands in front of him. The other simply doesn't move, he doesn't make a sound. He is breathing, sure. But his eyes are closed and he is probably pretending to sleep. "Wake up you!", he screams. The other opens his eyes. The one questions: "Who are you? What are doing to me? What the hell is going on?" The other simply opens his eyes and makes very slow and calm movements until he becomes sited in the bed. He starts talking: "Look, I'll say again. We are brothers, twins, twin-brothers. Some people, I don't know who, they keep us locked in here. It seems they have erased our memories. I don't know the reason. I don't know at all. I wish I knew. I don't know anything and I don't remember anything back to one or two weeks ago when we both first came into here, I guess. Maybe this is some sort of psychological-existentialist experiment, like that Sartre's book about the hell. I really don't know what's going on." The one is now just listening, he is just ears, big focused ears for the words of the other himself. He tries to make some reason over these words. He is dazed and confused. Psychological experiment? Could it be true? There must be another answer. What would it be? The twin keeps saying: "Sometimes they come into our room. There are always three guys. Two of them are very strong bodyguards and the last one is probably some sort of scientist wearing that white stuff. The two big ones they normally just hold us thigh while the scientist applies this fucking needle into our veins, they drug us. And then, when we are high on this fucking poison, we fall asleep for a couple minutes and then we wake up with this sense of euphoria. That's exactly what has been happening to you in the last couple minutes. Maybe it is not any psychological experiment, maybe they are just using us to test weird new drugs. Don't know. We have just been applied with these drugs and kept in this white room. I don't know who they are."

The other keeps talking, but now the one realizes the true. Yeah, that's it. Now he remembers, he's being there for some time with his brother. Yeah, the other is actually his brother. Sure, he has a brother. Less bad, now he remembers something. Nothing comes about childhood or parents, no summer vacations. But a brother, yeah, he has one. The other is the brother. The brother is the other. Anyway, that's absurd! They cannot stay in there and just accept the situation like that! These fucking bastards have been playing with his life, with their lives. That's not fare, absolutely! Fucking bastards! Why does he make to deserve that? He finally wakes up from his thought psychical world to the materialistic room-world again. He interrupts his brother: "What did we make to deserve that?" But the other doesn't know either. Or, he has some ideas on it. They are just some raw speculations. He thinks that they might have been arrested for some crime and this is a public jail. He has heard that people in jails are being used to weird scientific experiments. He never believe these hoaxes, but now the situation asks for a shift in his point of view. Maybe that's what is happening. He and his brother are paying for something they have done wrong to the society and they are now hammering away at them. It would be a reason. The one keeps skeptical. They are black, he now realizes. Maybe they are using black people for experiments, these fucking insane racists. If the two of them don't remember what they have done, there is no reason at all to keep them jailed, locked and confined into this small room without a single breath of fresh air. He needs fresh air. The one needs to breath, he needs to feel the wind and bath himself in running water, lots of running water. He needs purification and he wants to be back into some "state of nature". He is a monkey. He misses wild life, interaction with other animals. He needs to get out of there! They have to be ensemble, think together, they must create some plan to get out of there. They can’t simply be in a room and accept that as a destiny, this would be crazy. They would become insane. Are they already mads? The one is more calm now, he begins to think properly again. Yeah, the other says, they need to go away. They need to leave soon. They won’t work it out. But they know they are being watched and listened, the others will know every single step they would plan. It doesn't matter, they will have a plan. The two of them need one. The plan is simple, it couldn't be any simpler. When the three guys come in there again, they will fight them and run away through the door. That's the plan. They are calm now, they trust they will do it, they will run away. They will be safe at home, sooner or later. In the end, they know: everything is gonna be alright.

Time passes and they rest and accumulate forces for the battle.

And then the door is open again, the three guys are in there. They are the fucking same three ones. They are always the same: two big monkeys and the small frightened scientist. They come in and they close the door behind. The two of them are at their beds. "Don't try anything stupid, guys", the scientist says, "My friends in there, they have guns." Actually, they had them. The two twins didn't remember about these guns stuff. There were never guns before. As long as their memories allow them to go back in time. The two big guys keep away with the guns and the scientist approach the other twin. He says to the other to be calm, it won't hurt. He has a syringe. He inserts the needle into the left arm of the other. He accepts it. Somehow he feels a pleasure in being applied with these drugs. Anyway, maybe it is not time to escape yet. The two of them think the same. It is too early. Anyway, they can't do anything, otherwise they'll die. This is the impression they have, at least. They will need a better change later on. At this moment, the other receives the drug and quickly he falls asleep, smile in face. The one just looks at everything, paying attention in every single detail going around him. The two big ones, their positions, their putative strength, their guns, the possibility to take the scientist as a hostage, he just pay attention. He imagines and he plans. He won't react by now, he is just collecting information to act later in a more well-thought rational situation on which they would have more chance to be succeeded. That's what he is doing now. The big guys are in there and now they have guns, big black guns in their hands pointed to them, one to each: one to the one, other to the other. They didn't had guns before. Is it some kind of reinforcement because they know the two of them would try to escape? But the monkeys: maybe they wouldn't shoot. Would they? Would they actually kill he and his brother if they try to run away? He doesn't know, the monkeys' faces are expressionless, probably they would shoot, they look like machines, no human feeling expressions. But the only thing the one knows is: some time he is going to test their nerves to see what is going to happen. He won't be a prisoner for ever. He haven't done anything. He has a life to live. He is still young and active. A woman might be waiting for him outside: a good-looking woman with a pair of big boobs. At some point, they will react firmly and effectively, he is sure. They will be out of there!

So his brother has been applied and the bastards are gone. Maybe that's the game, he realizes. They keep people confined until the time they make suicidal attempts to go away. He can wonder about this horrendous study. He imagines stupid scientists analyzing results: "Six groups have been more than eight years accepting this non-sense situation. Three guys have revolted in less than a week. A number of old ladies would be there for all their about-to-finish lives. Married couples normally don't do anything else than fucking and having each other, they wouldn't move." And so forth and so on. This cold scientific analysis of human psychology makes him sick, it makes him fucking sick, nauseated. How do they dare to it with human beings? How could these people simply destroy people's life in the name of stupid scientific researches? How could these people sleep at night after all these atrocities? Don't they know that each human life is a reason on itself? People are supposed to be free to do what they want, any old time. But the human being is like shit, the human being is horrendous, we are stupid and we don't even respect ourselves. What's going on with the world? What's going on in people's mind? What's going on at all? What's...

At this point, his brother down there opens his eyes. An excitement feeling comes into his body. He jumps quickly from the bed and he falls down to the ground. He stands, he is crazy, his eyes look crazy, his actions are non-sense, he hits the windows and the walls and the door. He finally seems to feel tired, he seats down. And them the other looks at him and asks: "Are you myself?"

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18.8.08

O ministério da saúde adverte: a ciência acadêmica mata


Ando meio perdido ultimamente. Houve uma época em minha juventude onde sabia muito bem o que queria para mim e para meu futuro profissional. Neste tempo, fiz tudo correndo e trabalhei duro para conseguir o que queria. Alcancei um objetivo doutoral mas isso não me satisfez; e à medida que os anos vão se passando, cada vez sei menos sobre o que quero fazer, sobre o que gosto, sobre minha futura profissão, sobre os caminhos a seguir, sobre o que devo fazer para conseguir o que quero. Não sei muito bem o que quero, mas sei que passa por escrever textos cabeça-aberta em algum momento. Estou jovem e tenho um PhD e quase dois anos de pós-doutorado, mas continuo sem saber o que quero para mim, para este meu eu-futuro cuja face não consigo observar. A ciência acadêmica já não mais me atrai como antes. A academia tem se mostrado muito fechada para mim. Quero algo mais aberto, quero poder escrever e pensar livremente, criar novos modelos e novas regras, usar o conhecimento que tenho para entender mais sobre o que não sei, para estender mais sobre o que o ser humano não sabe. Mas as regras do jogo não me permitem tanto: eu odeio as regras do jogo, odeio pensar que este jogo que é a sociedade tem regras assim tão ultrapassadas. Onde estão os livre-pensadores de verdade? Como me associar a eles?

O mundo anda muito preto-no-branco, pão-pão-queijo-queijo. Os cientistas realmente pensam que os modelos que têm para descrever a natureza são bons e válidos, coisa que estão longe de ser. "O que podemos conhecer?", pergunta-se Kant ao longo de seus escritos metafísicos e epistemológicos. O homem criou uma série de teorias imperfeitas para interpretar e entender as regularidades do mundo e chamou isso de ciência. Isso é muito bonito e interessante. Conhecer para conquistar. O cidadão médio e também o cientista médio não têm a visão mais pura e filosófica do conhecimento-como-valor-intrínseco e não compartilham com o poeta também aquele sentimento de maravilhamento com cada excentricidade deste mundo. O homem quer ser pragmático. Ele pensa: como isso nos levará à alguma coisa? Ou, mais especificamente, como isso nos levará à alguma coisa que nos dê muito dinheiro? É isso o que as pessoas se perguntam: pobres de espírito! Esquecem-se da maravilha de viver e não percebem que já avançamos demais e que Gaia está enferma. Não estão interessados em aumentar a educação do povo, não querem levar mais conhecimento à toda parte, não querem fazer o que precisam fazer; nem sabem o que precisam fazer; nem querem pensar sobre isso. Para eles basta viver e reclamar sem se mover. Palavras sem ação. A indignação deles é uma mosca sem asas, não ultrapassa as janelas de suas casas -- como diriam Samuel Rosa e Chico Amaral. Pois que é justamente o conhecimento e a razão que dão aos líderes o poder de argumentação e permitem evitar conflitos. O conhecimento precisa ser democratizado. Quem sabe discutir e argumentar não faz guerra. Quem faz guerra é o ignorante; é aquele que quer mais poder e dinheiro; quem faz guerra é o americano no Iraque. Se estamos piorando, fazemos por merecer.

Quanto aos cientistas, eles insistem em levar excessivamente à sério a capacidade de seus falsos modelos em representar o mundo. Àquilo que o modelo não explica, coloca-se a placa de "não sei" ou "deus" e continua-se a vida. São poucas as novas tentativas de ir além, inovar, incorporar novos dados, aumentar o conteúdo empírico de teorias. A ciência é 99,9% paradigmática; a ciência normal de Kuhn é o que hoje se tem como império. Onde estão os revolucionários, os gênios com suas revoluções científicas? O homem esquece que seus modelos são representações absurdamente falhas e imperfeitas da realidade. Não sabemos de nada e a máxima socrática impera ainda mais nos tempos modernos do que na Grécia antiga. Quanto mais sabemos, mais percebemos do quanto não sabemos. Estudar é conhecer a vastidão de nossa ignorância. Mas o homem é o Narciso que se vê refletido na água: o homem pensa que faz, que faz muito bem e que sabe perfeitamente o que faz. Ele não sabe: estúpido Narciso! A natureza do universo é muito mais complexa que o mais complexo dos sistemas científicos já criado. As regras que observamos não passam de aleatoridades que se deram estatisticamente em cima de um universo completamente caótico e ininteligível em sua mais profunda natureza. O determinismo está morto. Onde estão os Einsteins deste milênio? Onde estão aqueles que vêm para arar a terra do conhecimento e ali plantar novas árvores de mais belos e suculentos frutos? Onde estão estes homens? Como faço para me encontrar com eles?

Ultimamente tenho perdido o interesse em trabalhar sobre algo que já conheço, em fazer algo que já sei muito bem. Na verdade, nunca tive este interesse em refazer coisas, mas agora este desinteresse brota ainda mais forte em meu ser. Daí talvez minha birra por esta bioinformática catatônica de comparações de seqüências sempre iguais. Toda a bioinformática de análise de seqüências pode ser resumida de acordo com o seguinte algoritmo: (1) obtenha as seqüências de DNA, (2) compare as tais seqüências entre si de diversas formas, (3) gere gráficos, (4) descreva os gráficos gerados, (5) discuta os gráficos segundo a teoria quadrada vigente e (6) escreva um artigo. É tão massante que dá vontade de dormir. Para cada artigo nas revistas de mais alto impacto há apenas um aumento minúsculo do conhecimento humano sobre a biologia das espécies analisadas. Nem se pensa no mundo molecular, o foco é sempre direcionado às espécies. A questão atual gira toda centrada na metodologia utilizada nas comparações e não na tentativa de criar novos modelos dentro da biologia molecular. Trabalha-se ao seguir rotas paradigmáticas e talvez o problema da ciência nos séculos vindouros seja justamente este: como inovar sobre algo que já está tão bem assentado e permite um desenvolvimento contínuo para frente? -- ainda que este conhecimento seja medíocre em sua capacidade de aumentar nossa compreensão sobre o mundo. A questão deste século: inovaremos ou ficaremos na mesmice? Questionaremos a nós mesmos ou aceitaremos que o homem tem este estúpido estatus superior que se pensa? Precisamos de algo novo, precisamos de um novo Galileu para tirar a Terra do centro do universo; precisamos de um novo Darwin, um novo Einstein que derrube com força o homem deste lugar mais alto que ele pensa erroneamente estar. Empurremos o homem sobre o abismo, ele há de se encontrar lá em baixo.

Aquele que inova ao criar uma nova teoria, nos dias de hoje, precisa realizar coisas de caráter totalmente vanguardista e contra-corrente. Se uma das mais simples teorias que tenho sobre a especiação molecular estiver correta, isso significará -- necessariamente -- que todo um grupo de cientistas que estiveram trabalhando sobre este problema nos últimos 50 anos estiveram fazendo a coisa errada. Isso significará que eles estiveram gastando o precioso dinheiro do governo ao estudar problemas que estão longe do verdadeiro foco relevante à questão da "especiação". É claro que seus trabalhos não foram e nem serão jogados fora, mas significa que seus estudos não têm muito a ver com aquilo que eles pensavam que tinham. Atiravam aos ares quando deveriam pescar. Fato é que ninguém vai querer jogar sua própria carreira no lixo ao reconhecer que o que faz há cinqüenta anos não presta; e são estes os que comandam esta área de publicação; e são estes os grandes especialistas da área que revisarão seu trabalho científico no sistema de peer-review de forma a escolherem quais trabalhos serão ou não aceitos para publicação. Será bastante difícil para pesquisadores reconhecidos aceitar uma nova teoria que invalide seus trabalhos -- ainda mais se considerarmos que, por ser uma nova teoria, ela não passa de uma hipótese sensata que precisaria ser melhor testada para confirmação. Os dados jamais fundamentam bem uma nova teoria, posto que a nova teoria usa dados diferentes para provar determinada afirmativa. A nova teoria busca longe algo em que se basear; e os dados que a fundamentam estão formatados para serem utilizados de uma determinada forma que é diferente da forma ideal para se provar a teoria. Isso é claro pois, fosse assim, a teoria não seria nova e já teria sido descoberta muitos anos antes. É preciso revirar o saco de dados para gerar novas teorias e, por vezes, é preciso utilizar esses dados de ponta-cabeça. Porém a ciência é capitalista nos dias de hoje e um cientista que está no topo não irá ser facilmente convencido de que tem trabalhado em assuntos periféricos nos últimos cinqüenta anos. Tal membro de excelência do hall da ciência mundial -- gente de respeito! -- não será convencido de que passou as últimas décadas atirando para os ares ao caçar peixes. O cientista-sênior não quererá conhecer a nova teoria; ele não se esforçará para entendê-la e talvez preferirá morrer antes que ela chegue e se transforme na nova teoria paradigmática. É claro que falo dos cientistas-sênior medíocres que, está claro, correspondem à maioria. Enfim, será preciso uma nova geração para levar uma nova teoria qualquer à cabo. E como a bela medicina tem feito os humanos viverem mais, cada vez mais os velhos pesquisadores influenciam os novos -- ao invés de se aposentarem logo -- e funcionam tamponando o avanço conceitual em diversas áreas da pesquisa científica. O lobo continua sendo o lobo do homem.

A fronteira entre as espécies não é tão rígida como se pensa e não há exatamente um mecanismo de especiação, senão uma compatibilidade genômica que acontece ou não acontece entre dois indivíduos quaisquer, de qualquer espécie -- inclusive da mesma. Falta aos humanos normais entender que o DNA do homem não é apenas idêntico ao DNA de um macaco, o DNA de um homem é o DNA de um macaco. Há um século e meio já se sabia disso, obrigado Darwin, mas até hoje não se consegue admitir. Ah, o homem... Estou cansado dessa gente. Quero expandir para novos horizontes jamais alcançados, quero criar e argumentar, quero inventar teorias loucas, quero ser criticado e rebater as críticas. Tenho teorias loucas, inclusive, outras além da teoria sobre a especiação. Só não tenho quem aposte nelas ou especialistas que as leiam com interesse e queiram submetê-las a críticas reais, sem medo de perderem seus empregos ou de admitir e reconhecer que algo novo é melhor. Ou pior, se for esta a conclusão deles. Para onde foi a nobreza dos homens? Mas os especialistas... ah, eles não precisam disso, não querem se incomodar em seus postos e não vão perder tempo com um garoto latinoamericano: não há a menor chance -- em suas cabeças -- que eu possa saber mais do que eles. E eles não precisam de novas teorias, eles têm seus postos de chefes, seus "alunos" paus-mandados e estão felizes e estáveis; pança cheia e cervejinha no fim do dia. Cheguei a enviar alguns artigos polêmicos e mensagens eletrônicas grandes e bem argumentadas para especialistas da área. A maioria sequer responde. Alguns poucos mostram um interesse inicial e agradecem a interessante mensagem que os enviei, mas depois passam a me ignorar, não querendo mais discussão. Provavelmente pensam que sou algum tipo de louco que entende apenas um pouco da ciência com a qual trabalham. Provavelmente sou ainda mais louco e entendo ainda mais do que pensam.

Inclusive outro dia pensei em escrever um texto bastante bem argumentado sobre um assunto em especial. Tal ensaio estava muito bem fundamentado em minha cabeça. Sabia perfeitamente por onde começar, o que dizer em seu interlúdio e como concluir. Embora não fosse inovador, era um ensaio interessante de ser escrito e, sobretudo, lido. Tudo estava em minha cabeça, tudo perfeitamente ordenado. Mas o que aconteceu então é que perdi o interesse em escrevê-lo. Não parecia fazer mais nenhum sentido. Embora a escrita sirva sim como meio de comunicação e de esclarecimento da massa, tenho tido mais interesse ultimamente em começar algo do zero e me aventurar por terrenos desconhecidos. Quero escrever e aprender ao mesmo tempo em que vou escrevendo. Quero criar-criando. Não quero escrever tolices ou mesmices, nem mesmo quero escrever algo que seja interessante apenas de um ponto de vista do entretenimento. Ora, que bosta é o entretenimento! O entretenimento é o mal da sociedade moderna. Ele mata pessoas socialmente ativas ao deixá-las deitadas em seus sofás assistindo idiotices enquanto poderiam fazer o bem para a sociedade de uma outra forma. Não escreverei entretenimentos! Quero algo que faça o leitor pensar, questionar-se, avançar em seu auto-conhecimento, em seu pensamento ou em seu entendimento sobre o mundo. Quero fazê-los duvidar da qualidade dos padrões pré-definidos, quero novos padrões melhores e mais iguais, humanistas por natureza. Quero fazer alguma coisa diferente mesmo, quero inovar, quero me expor ao ridículo e quero ver quanto os idiotas se farão de sabichões na minha frente.

Enfim, estando farto da ciência acadêmica, tento ver outras perspectivas profissionais para mim mesmo. Eu poderia muito bem começar a escrever um blogue mais profissional falando até mesmo de ciência ou cultura. Sei que argumento bem e sou um bom crítico. Gosto de assistir todas as coisas com um olhar crítico e imaginar em que elas poderiam ter sido melhores. Um diálogo, uma passagem, um truque de câmera, outro argumento que poderia reforçar este, um exemplo que cairia como uma luva, uma notinha a mais dentro de um tempo, outro versinho, uma rima a mais ou a menos. Não consigo sequer assistir filmes de Hollywood porque eles são completamente vazios, intelectualmente falando. Quero algo que incite à discussão e que mostre um ponto de vista sobre o mundo, mesmo que eu discorde deste ponto de vista. Daí então eu argumentaria em meu próprio partido. Tudo é discutível e há bons e maus argumentos para defender quase qualquer ponto, qualquer questão. Quem convencerá mais pessoas? A capacidade de argumentação é a mais potente e pacífica das armas que já emergiu deste poço de caos que o universo. Utilizemos a razão para melhorar nossa sociedade! Sei lá, talvez pudesse criar um blogue que falasse de de música ou cinema, literatura ou artes e discutisse todas essas coisas tendo como pano de fundo esta bagagem intelectual que carrego. Mas talvez isso de fato não interesse a ninguém, a nenhum destes zumbis do entretenimento que só sabem babar e sorrir. E considerando que ninguém me conhece, ninguém aposta em mim, sou apenas mais um rapaz latinoamericano sem dinheiro no banco ou parentes importantes. Até quando precisarei comer meu pão de cada dia nesta ciência acadêmica quadrada?

Vejo esses meus colegas ricos que vivem na Europa e cujos pais provavelmente donos de empresas corruptas e sonegadoras no Brasil os sustentam com rios de dinheiro para fazerem uma pós-graduação que eles mais malandram do que fazem. Vejo-os não com inveja porém com raiva; raiva porque sei que meus pais foram honestos e que por isso nunca tivemos muito dinheiro em casa. Estes colegas ouriçam-me a querer concluir que a honestidade não compensa, mas não chegarão a tanto. Hei de mostrar-lhes, no futuro, onde chegarei e onde chegarão. O futuro será meu juiz.

Por ora, só me resta continuar caminhando, andando sem parar, para frente e para frente. Deste pós-doutorado, um dia estarei livre. Um dia depois do outro. Continuo minha saga pessoal-intelectual de leituras e filmes e livros e artigos e textos e ciência e jornais. Mas já me vejo cansado de aturar esse horário entre 10 e 19 no qual preciso estar trabalhando em algo que não me dá nenhum tesão. Esta ciência acadêmica é quadrada e brocha, só idiotas se sentem cheios de si por fazê-la. Meu apetite sexual encontra-se mais ligado à arte, à literatura e à filosofia; sinto-me cada vez mais artista, estou mais à flor da pele mas falta-me um tempo para poder me dedicar à escrita de um livro ou ensaio; ou mesmo de novas teorias científicas que nadam perdidas neste mar de memes que é minha cabeça. O pior de tudo mesmo é saber muito bem sabido que ninguém vai apostar em mim e que vou continuar neste tudo-isso todo-dia por mais um bom tempo. Oh, dia. Oh, vida. Oh, azar. É preciso que eu busque novamente o gosto por tudo isso ou largue logo esta vida. Esta academia científica e esta vida profissional estão me matando menos lentamente do que o cigarro que fumo.

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9.8.08

Pourquoi pas aujourd'hui?


Sábado que é hoje, anoto o que preciso fazer: cortar o cabelo, ir ao supermercado, comprar cordas pro violão e o quê mais?, ah sim, preciso carregar o meu celular já que os créditos terminaram. Objetivos definidos e anotados, estou prestes a sair. Há muita luz na rua e esta radiação eletromagnética vinda diretamente do chamado astro rei penetra meus meus olhos dando-me alfinetadas de dor no cérebro; hei de pagar por ter bebido tanto álcool ontem à noite. Primeira parada: cabeleireiro. Chego lá e o horário já está todo preenchido; nada feito, volte outro dia. Ele me marca na terça-feira pela manhã. Anoto como lembrete no celular para não esquecer, minha cabeça anda ruim. Bicicleta estacionada, vou dar uma passada pelo centro, pois daí já fico perto da loja de música e também da loja do celular. Mas a loja de música está fechada, os franceses têm horários estranhos aos sábados. Abrem de manhãzinha, fecham por três horas para almoço e voltam a abrir. Sempre passo na hora que estão fechados. Acho que acordo bem mais tarde que eux. A loja do celular é logo ali...


Vou andando, observando as pessoas e pensando. Acho que mais um destes angustiosos ciclos em que consistem minha vida chega ao fim. Faz pouco tempo, comecei a perceber mais certas coisas. Sinto-me mais literato, mais poeta, mais observador; olho para as pessoas e sinto que posso caracterizá-las melhor através de palavras. A simbologia: talvez tenha aprendido melhor a ler a simbologia dos tempos modernos nos outros. Acho que estou ainda mais distante do cidadão comum agora. Ao mesmo tempo sinto que me tornei mais sensível ao ser humano. Compreendo melhor as pessoas e sei identificar mais nitidamente nelas tanto suas belezas quanto suas loucuras. Todos são loucos! Todos são belos! É na particular loucura de cada um que reside sua beleza. A maior beleza das pessoas não está no que faz delas o melhor ideal estético; a maior beleza das pessoas se encontra naquilo que lhes falta, em suas imperfeições. Presto mais atenção aos gestos e movimentos de todos. Estou mais atento a seus comportamentos, decisões, cacoetes, aos traços que carregam. Às vezes tenho a ilusão de poder prever o que farão. Olho para as pessoas e, de certa forma, entendo-as mais do que entendia antes, mais do que jamais entendi. Talvez consiga agora estereotipá-las em padrões mais finos, em um número maior de grupos. Talvez seja isso e talvez esta sensação estereotípica seja mesmo falsa, não estou bem certo. E para completar este sentimento que me invade, de alguma forma também sinto-me mais humanista do que nunca. Estou mais ligado ao sentimento de que todos os seres humanos sejam manifestações de uma mesma característica universal que nos engloba, partindo de nossa biologia comum até algo inexplicável; algo transcendente: um sentimento de sermos humanos e dividirmos dúvidas existenciais a todo instante.


Chego na loja de celulares e há uma fila. Só há uma moça atendendo e devo esperar. Não haverá de demorar. A moça é a mesma que me atendeu outras vezes: simpática, razoavelmente bonita e agradável de conversar. Espero ansioso por meu momento de ser atendido e de jorrar nela um pouco de minha libido. Estou me afogando, preciso jorrar tudo isso em alguém. Mas eis que aparece um outro funcionário, um rapaz, que frustra meus planos. Não sou capaz de jorrar minha libido em seres do sexo masculino. Enfim, ele é super simpático e atencioso, explica-me que não preciso ir à loja para recarregar e que posso fazer isso em qualquer loja de cigarros -- os tabacs -- ou supermercados. Assim mesmo, ajuda-me como pode e saio de lá com novos créditos no telefone. Na saída, olho ainda para a moça simpática que atende outros e nem me vê. Ela não me reconheceria, de qualquer forma. Ou reconheceria? Para testar se os créditos realmente funcionam, o mais natural seria ligar para a moça do cabelinho, mas algo me segura. Talvez eu a incomode. Não queria ficar tão pouco à vontade com relação à ela. Mas me sinto pouco à vontade; prevejo nosso fim. Não quero estar com alguém que não me sinta à vontade de ligar sem nenhuma desculpa. Seguro a vontade e não ligo; um sentimento amargo vem à minha boca. Meu problema é que não sei amar pouco.


Saio de novo à rua e ando aleatoriamente pela cidade. Vou para o lado que mais me encanta. Há uma música nalgum lugar. Sigo a música. Parece música ao vivo. Estou novamente imerso na magia do carpedinear. Sinto que o dia tem uma poesia qualquer, haveria ainda de encontrá-la. Na praça, quatro músicos tocam um contra-baixo, uma guitarra, sanfona e teclado. Fazem um som agradável, mas não há ninguém assistindo. Fico com vontade de assentar-me por ali e ficar escutando um pouco o som. Mas estou sozinho e então sou acometido por uma vergonha boba -- vejo agora -- de não ter parado para escutá-los. Vou andando devagarinho e olhando para os músicos. De uma certa forma, sou também um músico. Músico vagabundo, de pouco ouvido e pouca criatividade. Mas gosto de tocar e de observar outros tocando; gosto de analisar o que estão tocando e como estão tocando. Olho para o que fazem e como fazem, quero aprender a tirar aquele som dos instrumentos. Reparo no que fazem para poder aprender, mas percebo que eles se incomodam com meu olhar direcionado à suas mãos. Minha impressão é que acham meu olhar crítico e não percebem a humildade de aprendiz com que os vejo. O olhar de um deles me diz sem qualquer palavra que música aprecia-se com os ouvidos, não com os olhos. Talvez eles tenham razão: talver por isso eu seja um músico medíocre. Mas, enfim, eu queria só aprender... Não me sinto culpado por meu olhar, mas sinto que toda ação pode ser mal-interpretada. Não digo que aprendo mais sobre os humanos ultimamente?


Continuo o caminho e vou passeando. O objetivo agora é pegar a bicicleta e voltar para casa. Mas sem nenhuma pressa, é claro. É sábado, não tenho nenhuma obrigação. Precisarei ir ao supermercado mais tarde, mas ele fica aberto até as oito e ainda é cedo. E então exatamente naquele corredorzinho ali entre a Place Klèber e a Catedral, lugar que gosto de andar e ver as pessoas, há uma garota com um pasta na mão e uma camiseta da cruz vermelha. Ela está no meio das pessoas e me vê aproximando entre três outros sujeitos que andam mais ou menos próximos a mim. Ela me olha nos olhos. Ela pára e pensa. Dirige-se então com firmeza em minha direção e diz "Bonjour!". E então ela começa a falar essas coisas da cruz vermelha e tal, pede uma ajuda. Bem, eu estava na onda de passear e ela veio aqui e quebrou minha onda do passeio. "Olha, é legal o trabalho da cruz vermelha e tal, mas outro dia eu ajudo, tá? Hoje não, hoje não." Faço uma cara simpática, mas demonstro que quero continuar meu caminho. Não estava mesmo disposto a parar o que estava fazendo. Quero continuar passeando e então espero ela se afastar. Mas eis que ela não se fasta. Ela permanece no mesmo lugar, interrompe meu caminho e pergunta: "Pourquoi pas aujourd'hui?", "Por que não hoje?", "Por que não ajudar a cruz vermelha hoje?".


Preciso confessar: a garota me conquistou. Ela não se deu por vencida. Ela acreditava em sua causa, na causa humanitária da cruz vermelha. Ela não se afastou, ela ficou ali, ela me olhou nos olhos e ela me questionou. Por um instante, algo aconteceu em dentro de mim. E por um instante, eterno, eu amei aquela garota. Ela simplesmente me fez uma pergunta que eu não soube responder. Por que hoje não? Por que não ajudar a cruz vermelha, que luta por causas humanitárias em todo o mundo, que tenta melhorar essa desgraça que é a injustiça e a pobreza? Por que não? Por que hoje não? Definitivamente, não há resposta para esta pergunta. Hoje sim! As vezes me sinto um covarde estúpido que prega algo muito bonito, mas que no fundo é um bosta. Ação. A filosofia não é nada sem a ação, sem o fazer. Ações valem mais que palavras. Ações valem mais que sentimentos. O humano é e deve ser medido pelas suas ações. São as ações de cada um que movem o mundo. Precisamos tomar a responsabilidade do mundo para nós. Precisamos ser ativos, precisamos realmente ajudar o mundo através de ações. Muitos de nós não passam de falsos-moralistas. Falamos o que se deve fazer, mas não fazemos nada. Pois eu farei e será hoje! Olho dentro de seus lindos olhos, vejo sua alma doce. "Pourquoi pas aujourd'hui?" explica-me o que fazer: basta fornecer alguns dados bancários e todo dia 15 do mês uma certa quantia será debitada de minha conta para ajudar a cruz vermelha a ajudar. Quem escolhe a quantia sou eu mesmo. Pode ser o quanto eu quiser. Como não ajudar? Quem seria insensível suficiente para tanto? Eu não.


Reparo mais na garota. Ela é linda, é prestativa e simpática. Seus olhos têm um brilho diferente. Ela não tem esse medo dos outros seres humanos. Ela é alguém que vive e que ama. É tão difícil encontrar alguém assim! Estou apaixonado pela garota da cruz vermelha. Ela me cutuca, tirando-me do transe: dados bancários. Não tenho aqui comigo. Ela se oferece para me acompanhar ao banco para que possamos pegar outras informações que faltam para preencher o formulário. Sinto que ela também quer me acompanhar. Ah, e que passeio adorável! Chego quase a pegar em sua mão, tão distraído e confortável que andava. Neste caminho sentia que éramos um só. Andávamos leves e alegres, conversamos amenidades. Pergunto sobre ela, sinto bem ao seu lado. Sinto-me muito bem! Ela diz que é meio inglesa e meio francesa, mas que é casada com um boliviano e acabou de voltar da Bolívia para a França. A palavra "casada" dá um certo aperto no meu coração. Aperto que não deveria sentir porque talvez ela seja adepta de um amor livre. Eu é que sou um careta. Enfim, pergunto a mim mesmo: como se pode apaixonar tão rapidamente por alguém? Foram os olhos, o jeito, o conteúdo, não sei: foi tudo! Tudo ao mesmo tempo agora. Se ela é mesmo inglesa, peço para que falemos inglês, pois assim me expressarei melhor. Ela topa, fala bem o inglês e o francês; nem tanto com relação ao espanhol. Diz que meu francês é bom, mas eu insisto: não me expresso tão bem em francês assim. E então, quando fazemos a tal mudança de idioma de supetão, é que me dou conta que meu francês já não está assim tão mal mesmo e, além disso, ele se parece mais com o português. Esta mudança brusca de idiomas me faz perceber que eu me expresso de uma forma mais próxima de minha expressão natural em francês do que em inglês. Mesmo sem saber tão bem o francês. Concluo o óbvio: o francês é mais próximo do português! Agora sou outra pessoa, pois falo inglês. Como a linguagem nos caracteriza! A linguagem é mesmo uma forma das mais profundas de expressão cultural! E eu estou numa nova era de mim mesmo, estou mais sensível e percebo mais o mundo ao meu redor. Talvez isso tenha também a ver com finalmente sentir que aprendo uma nova linguagem, que posso expressar através de outras formas o que guardo dentro de mim e minha percepção do mundo. Talvez seja isso!


Banco então. E formulário. Sinto-me tão à vontade ao lado desta desconhecida que sequer sei o nome. O que acontece? Que magia é essa? Ela é linda e meiga. Ela me preenche. Ela é casada. Deveria pensar "e daí?", mas não penso. Falta-me ainda engolir o conceito do amor-livre. Também os filmes de Nelson Rodrigues que venho assistindo nestas últimas semanas têm me incitado esta reflexão. São críticas duras à estúpida moral sexual do brasileiro. Na hora de preencher o formulário, esqueço o número de meu celular, talvez a única forma que ela teria de me encontrar depois. Freud explicaria, não quero atrapalhar sua vida. Amo a garota e não quero complicar sua vida. Ela é linda e tem um marido. Ora, o marido. Não me ligaria mesmo, concluo mesmo sentindo que o sentimento de estar "super à vontade" seja compartilhado por ela. Ela também viu algo em meus olhos: sei que viu. Preencho o formulário e a partir de agora dôo mensalmente uma quantia à cruz vermelha. Escolho uma quantia baixa porque não sei exatamente o que a cruz vermelha faz. Ela diz que poderei aumentar posteriormente o valor de minha doação quando quiser e que caso eu queira ajudar de outras maneiras, isso é também possível, basta que eu me informe pelo web-site. Conversamos com total desenvoltura sobre outros assuntos amenos. Eu me sinto bem ao lado dela e ela se sente bem ao meu lado; somos apenas um. Houve uma energia qualquer inexplicável em nossa "trombada". De onde terá vindo esta energia? Tão forte é esta energia!


E então, eis que está terminado o formulário. Quero ficar conversando com ela mais, mas não temos qualquer desculpa para isso. Ela precisa voltar para convencer outras pessoas a doarem dinheiro para causas humanitárias. Não quero atrapalhá-la. Ela pergunta se vou por ali também, mas meu caminho é para o outro lado. Vou-me embora. Sinto um impulso comedido em pedir seu número, seu endereço, uma forma de contactá-la, mas deixo isso de lado. Ainda não engoli a idéia do amor livre. Então sigo então meu caminho para casa feliz de estar contribuindo para uma causa humanitária e feliz de ter encontrado a poesia daquele dia incorporada naquela maravilhosa garota. Estou melhor comigo mesmo.

EPÍLOGO

Passada uma semana, conversei com uns amigos. Eles desconfiaram da garota da cruz vermelha pegando meus dados bancários no meio da rua. Disseram-me inocente por ter dado tão facilmente dados bancários a uma desconhecida. Ora, sou inocente mesmo. Não quero ter esta distância do ser humano que esta sociedade de merda nos diz -- em cínicos sussurros -- para termos. Quero confiar nas pessoas! Quero confiar nos olhares das pessoas. Quero confiar no jeito das pessoas, na vontade delas de fazer o bem humanitário, de ajudarem os que precisam. Sei que ela não me enganou e meu mundo desabaria se isso tivesse acontecido. Aos meus amigos, darei a prova no próximo dia 15, quando o dinheiro for descontado de minha conta. Para mim mesmo; não preciso de provas. Sei reconhecer a caridade, a bondade e a vontade ajudar no olhar dos humanos. Estou mais sensível à poesia do mundo e sei que o futuro apenas confirmará esta certeza que guardo em meu íntimo.



NOTA FINAL

O dinheiro foi, afinal, descontado de minha conta. Não houve qualquer problema. Eu estava certo, eles errados. Eu estava certo, Eles errados. No fundo, eu sempre soube.

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4.8.08

Homem, mulher, selva, modernidade, amor, segurança e o jogo que eu quero perder


Outro dia estava falando com os amigos sobre este tema recorrente que é a mulher. Conversávamos de fato sobre o comportamento sexual do homem e eu escutava as opiniões dos amigos enquanto pensava sobre o assunto. A opinião geral deles era a de que o homem não deve exatamente mostrar o que sente por uma mulher. O homem pode até amar desesperadamente uma mulher, isso não é problema, mas ele deve se conter e guardar essas coisas pra si, ao menos em um momento inicial onde o relacionamento ainda não esteja consolidado. E então ele deve segurar suas juras para quando sentir uma segurança que ele acabará sentindo caso as coisas se desenvolvam positivamente. Faz um certo sentido, posto que mulher não gosta de homem banana. Era esta a conclusão. Mulher gosta de segurança e proteção, força e firmeza, certeza e pé-no-chão. E então o que devemos fazer, segundo o argumento deles, é reforçar nosso lado macho, oferecendo à mulher este bem que podemos lhes proporcionar e que é nossa alma masculina da forma menos lapidada possível.

Sei lá, acho que as coisas não são bem por aí. Digo isso porque já estive dos três lados: já traí, já fui traído e já fui o outro. E não só uma vez, como várias. É claro, isso me dá experiência mas não quer dizer absolutamente que eu saiba do que estou falando. Sempre posso estar errado. Mas esta possibilidade também pode não ser tão grande assim. Enfim, de maneira geral até concordo com o que dizem quando aplico isto às pessoas medianas da sociedade, para um relacionamento mediano entre pessoas normais que andam aí pela sociedade. Meus relacionamentos, entretanto, são um tanto quanto diferentes. Talvez eu seja louco.

Tenho uma competição silenciosa com um primo que é de avaliarmos quem já namorou mais mulheres. É uma competição estúpida principalmente porque nós dois somos excessivamente românticos. Sabemos muito bem que ganhará a tal da competição aquele que conseguir logo encontrar um grande amor para se casar e viver uma história que nos complete, algo de longa duração baseado em confiança e num verdadeiro amor. Neste jogo, quem perder e tiver o menor número de namoradas é que será, na verdade, o vencedor. O prêmio cafajeste de consolação do outro será ter conhecido, ter estado e amado -- ou ao menos tentado amar -- um número maior de mulheres. Mas nenhum de nós dois quer ter de fato estes amores de meses, que vêm e vão, somem e desaparecem sem nos engrandecer por dentro; dificilmente agüentam o tempo que a Terra demora pra dar uma volta ao Sol. O que queremos na verdade é ter uma mulher que gostemos muito ao nosso lado. Queremos viver intensamente nossos amores e jorrarmos toda nossa líbido e nosso romantismo no poço do outro. Mas, por algum motivo, ainda não conseguimos encontrar tais musas para guiarem nossas vidas. A vida é assim, não basta só querer. E assim seguimos, tentando e tentando. E quando nos encontramos nas festas de fim de ano, discutimos nossa pontuação. Dez a oito, no ano de abertura da competição; doze a doze, no ano seguinte; quinze a treze, etc. E por aí as coisas têm ido. Não temos também regras explícitas sobre o que tratar como "um ponto". A gente precisa apenas ter considerado que amou de uma certa forma a mulher que é representada por aquele ponto. Precisamos estar seguros de que sentimos algo forte nalgum momento e que nos sentimos comprometidos. O que basta mesmo é o nosso próprio sentimento: é isso que vale o ponto. E então não discutimos sobre o escore, porque no fundo sabemos que queremos é perder. Usamos escores até conservadores, poderíamos considerar outras que não consideramos. Só consideramos mesmo aquelas que nos marcaram de certa forma e que chegaram a ser eternas, ao menos enquanto duraram. Os anos se passam e assim segue esta melancólica competição em que cada um de nós espera perder ao manter-se num patamar estável do jogo ao longo dos anos. No presente momento, creio que ele está um ponto à minha frente. Temo alcançá-lo em breve.

Não gosto dessas fórmulas quadradas sobre comportamentos masculinos e femininos: temos que fazer isto e aquilo. Não é bem por aí. Cada relacionamento é diferente, cada casal é diferente. Às vezes a gente precisa da força do outro e, outras vezes, é o outro que precisa da nossa força. Deve haver um balanço. Não acredito neste papel de um macho controlador que as pessoas parecem ter para si como reflexo de nossa natureza biológica, inércia comportamental do tempo em vivíamos lá na selva. De maneira geral isso pode até ser verdade, mas não estamos mais na selva. Somos razoavelmente civilizados e urbanos. A vida é outra e a sociedade é outra: não me enquadro mais nesse papel de macho-man. Não sou apenas macho e o verdadeiro sentimento amoroso já se aflorou em mim por diversas vezes; a super-canção de Gilberto Gil sobre o homem diz tudo. Não estou interessado em uma mulher que seja uma serva, uma escrava, alguém que faça todos meus desejos e que lave a louça, varra a casa, faça o almoço e depois pague um boquetinho. Nada contra o boquetinho, evidentemente. Só quero uma relação mais igual, quero uma parceira, não uma doméstica. Quero uma democracia instalada em meu lar, não quero o autoritarismo em nenhum lugar do mundo. No meu coração, então, nem pensar! Quero uma pessoa para dividir comigo as coisas. Deve ser também alguém que eu admire de certa forma e que eu goste de perder meu tempo conversando à toa com ela. Ora, que verbo mal empregado! Isso não será "perder" tempo, será ganhar. Isso me fará maior e mais forte, ensinar-me-á coisas, mostrar-me-á novos pontos de vistas e apontar-me-á detalhes que eu não tinha percebido na vida de todo dia. Perderei sim algumas mulheres por não ter este comportamento machão de ser forte e dar proteção e segurança. Eu sou um tanto inseguro e cansei de esconder isso dos outros. No momento que encontrar a verdadeira segurança num relacionamento, entretanto, aí sim serei completo. Faço o caminho inverso dos outros homens: não começo como um super-seguro que vai se mostrando frágil ao longo do caminho; pois que todos somos frágeis e inseguros. Sou um frágil que tornar-se-á seguro quando se sentir verdadeiramente amado e amante. Inverto a ordem. E sobre as mulheres que eu perder e que com esta inversão não se adaptarem, terei paciência. Essas mulheres nunca foram mulheres para mim, elas ainda estão lá na selva, estão ultrapassadas. Quero uma mulher moderna. Apenas terei me enganado sobre elas nalgum ponto de minha vida e terei ganhado mais uma merda de ponto na bosta do jogo que tenho com meu primo. Mas, é claro: esse ponto terá feito parte de um processo de crescimento e aprendizagem. Vou aprendendo aos poucos o que quero para mim. Não vou me matar para ficar com ninguém, o amor é dar e receber. Eu sou mais eu, estou mais maduro e tenho mais paciência. E isso até dá um toque de segurança à minha insegurança. Normalmente sei me respeitar, embora às vezes erre sim. Sou humano, afinal. Erro, mas não erro mais tanto, não atiro mais para todos os lados. Já errei muito mais e atirei muito mais longe. Agora sei melhor onde mirar e sei que estou cada vez mais perto do alvo. Estou certo que meu escore vai se estabilizar em algum momento, cedo ou tarde. Alguém me completará. E espero que alguém também complete logo o meu primo que na verdade é bróder e que, não importando quem ganhe ou perca, espero que alcancemos logo um platô de escore neste jogo e que fiquemos neste platô, felizes e completos, enquanto este globo que é nosso planeta permanece girando ao redor do astro rei; voltas e voltas e voltas...

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1.8.08

Hello, English-speaking world! (or The rise of every-day life chronicles in English)


A chronicle, in this sense I'm used to use and write the word, consists in a sort of poetic report of the every-day life. The chronicles I write first come to me as thoughts, exactly when I'm living some situation or, instead, when I'm sit calmly at my house and wondering about the world. They come when I'm just living, being myself, sharing with all of this, all of the world; sharing this wonderful feeling of being alive, and realizing the amazingly beauty of the simplest every-day life things. Surely I'm used to wonder them in Portuguese: it is my mother language. A language is not just called "mother" without a good reason. The expression of any self is much better and richer when it is done using their first formal representation of the world, and that's what language is about. And that’s why language is one of the biggest representations of whole cultures. They intervene in the whole way on how an entire group of people think about the most general and particular subjects. It is trough the language that we become capable of transforming and translating this absurdity non-sense of the world into concepts, words and other forms of meaning. We must make some meaning of this crazy thing that surrounds us. That's some of what being human is about. You may think that as a particular opinion.

So, this is a chronicle. Please to meet you. It is the first one I actually write in English. Yeah, sure, I like the language; it is kind of simple, easy and provides a well-structured representation of the world. No doubt about that. However, I know very well that I’ll never be able to write English such as one having it as a first language. My English will always be a sort of shadow of my Portuguese. Even though I do think in English lots of times when I’m foraging around the world, far away from the place I was born, facing life in all senses. I've begun to learn English when I was a teenager in Brazil. Although in elementary schools we did learn the verb "to be" and stuff like that, I was really introduced to English on its more complex terms when my parents take me to a proper English school. I was about fourteen. I remember to realize some astonishing things about the English language, such as -- simple as it is -- the neutral gender. When I’ve first learned about the neutral gender I’ve fallen immediately and profoundly in love with that concept. You know, in Portuguese, like in French and other latin-derived languages, you just have the concepts of male and female. Even neutral things, such as the sea, the sky and the mountains, they are conjugated with articles that are either masculine or feminine. And this, surely, makes no sense at all. English is sort of better world representation in that point, I guess. It is completely abstract and random for one to call the sea, the tree and the rainbow as "she" or "he", it is actually a matter of choice, historical contingency. Now I remember a discussion I’ve had with a French girl once: she has been arguing that, in Portuguese, it makes no sense to call the sea as "he" since the sea has much more women-characteristics than men's. The sea may get very calm or very angry; it changes its mood so frequently; it has cycles and waves that could be easily compared to the menstrual cycles that women are exposed given their natural biology. It was, in fact, a very nice chat we have had. But, we knew we were discussing unclear points, since the real truth was: it doesn’t make sense at all to call a sea as male or female. A sea is out of that comparison. A sea is something else, it transcends the concept of gender. A gender has nothing to do with the sea, with any sea. A sea has all genders and no gender at the same time. Nevertheless, I can clearly imagine some peace of poetry written in English by a very inspired English-speaking poet. In this poem that goes now over my imagination, the poet would compare some of his/her beloved person particularities with the sea, just as the French girl has done phrases ago. And, in this case, the poet would attribute a gender to the sea. The gender would not be proper of the sea, but it would be proper of its representation into the whole feeling world of sensations brought by that poetry.

Coming back to the chronicle subject... The process of building them works like this: you just think about something and then you let your thoughts go free. You just let them travel away and realize what's going on around them. You let them travel in the graph of concepts you have inbuilt. You shall let them fly among words, and concepts, and ideas, ideologies, and all the other clusters of things that are somehow connected to them in your own brains; the brain of the writer. One though calls another that, in its turn, invokes something else that then urges you to write some words about not-that-related stuff and so forth and so on. But then, sometimes, you need to get your original main thoughts back again. You'll need to fish them back to avoid the risk of being completely non-sense. And you remember: it is the search of meaning that makes us humans. With the main subject in hands again, now you have to arrange them in a very specific and direct formula, a rational one. You need to make sense of them, extract their knowledge, and make them bright somehow. But it is not a very narrow-minded formula. It must not be. Every now and then a chronicle may sounds much more like poetry, something expressing a sense of wonder, present the most natural, sincere and deep feelings of some; emotional representations of whatever the writer felt when writing.

Every day life chronicles, that's what I mean. I hope some will enjoy, I hope some will learn and I hope some ideas will be exchanged from now on with all the English-speaking world -- that's much bigger and influential memetic nation than the Portuguese-speaking one. The Darwinian fight operates also in the field of language. English have been more succeeded than Portuguese and any other languages to represent the modern world. Would it be only a question of global politics? It may be the time of studying the capacity of the languages to represent better the world. I’m sure that some concepts can be better expressed in some languages than others. One goal of the linguist and the philosopher should be trying to concatenate all good concepts of a number of different languages into an universal language, maybe English-based. Why not? Isn't it already the modern day English? Esperanto was a nice try, but it was just too theoretical. Let’s build it in the grounds of English, let us expand English. Let us ask everyone that speaks every language to write in English. Let us feel all the world been expressed in a single idiom, a broader English. (Anyway, that's what seems more reasonable to me, although I am open to listen and possibly agree with others’ better ideas. I just can’t think one by myself. I’m, actually, very stupid.)

Anyway, fishing again the chronicle subject from the bottom of the meme’s sea... the world is an open place, and the writer is (supposed to be) open-minded. The readers, they are yourselves. If you’ve got until here, that’s a good point. We’ll be probably able to keep talking and discussing. I know that sometimes I just wonder and wonder. There is a sort of anarchy in this stuff I write. But come into this every-day life party: be yourself, be alive, enjoy and enjoy. Take care too, keep walking, follow me, guide me; let us go together trough this no-ending pathway that is lives. Let us all be poetry and wonder. Let us all be chronists of our every-day life. Let us all be the world, let’s save the world, let’s dream with something better and let us go towards it. Let's go fast and forward, like in the movies. Or sometimes let's go slowly, very slowly, let’s be in the country side, having a river with trees and apples and animals walking around and surrounding our sense of being. The dark side in the human experience comes exactly when we try to be somebody else but ourselves. And that's the bad feeling of this society we have built. No, not we, not us, we cannot be blamed by the inconsequence of others, of these narrow-minded powerful ones that control the world with iron-hands. They have built it. We would build something much more beautiful than that. We would be ourselves and we would allow everybody to be themselves too. We would write ours and read theirs every-day life chronicles. We would be us and them. We would be kings and servants. Let’s be a truth representation of ourselves and let us dream about a world only populated by people that are truly expressions of their most desired dreams. Let us wonder. Let us imagine. Let us live a dream in life. Let’s chronicle.

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