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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

24.11.08

Alguns minutos na mente de Francisco


Ando com preguiça de mim mesmo. Entro neste sítio às vezes, leio esses textos e me dá uma preguiça interna de ser o que sou e de escrever esses relatos malas sobre a vida cotidiana. Sou um tipo de mala, um nerd metido a intelectual que no fundo é mesmo idiota e faz só merdas, uma seguida da outra, sem parar e continuamente. Ontem apareceram uns caras lá no nosso ensaio de música que eram definitivamente profissionais do ramo e assim eu me senti completamente idiota com a guitarra em punho ao tocar meia-dúzia de acordes cantando mais alto pra disfarçar problemas rítmicos. Os caras matavam a pau! Forjo uma desculpa de que eles não têm doutorado ou que aprenderam desde criança só pra me deixar de bem com minha nula proficiência musical e a pose que as vezes faço de "sei alguma coisa coisa sobre música". Ao menos, nunca falei que sei muito. Na verdade, não sei nada. "Só sei que nada sei", diria nosso antigo amigo grego. Enfim gosto de música e estou sempre aprendendo, mas minha técnica ainda está muito longe daquela dos profissionais, e ainda estarei defasado por muito tempo. Enfim, fico pensando às vezes qual será o dom que tenho pra poder realmente apostar nele minhas fichas profissionais e poder contribuir melhor tanto à sociedade do presente quanto à do porvir. É difícil essa coisa de se pensar qual é que será nosso maior dom... qual será o seu maior dom, meu caro leitor? Diga-me se é fácil encontrar esta resposta: não é!

Bem, acho que tenho ao menos uma certa facilidade em interpretar textos de diversas áreas diferentes, posto que sempre tive uma gama bem variada de leitura em diversos estilos de ficção e não-ficção. Acredito assim ter mapas conceituais bem formados em diversos ramos do conhecimento humano e as pessoas normalmente dizem que sou claro nas minhas descrições. -- Minha irmã inclusive diz que sou claro demais, daí perco um pouco da poesia. -- Verdade é que jamais aceito ler um texto e não compreendê-lo, leio-o novamente e lentamente até que o entenda; ou ao menos até onde ache que tenha me esforçado o suficiente: é claro que há textos que são para mim incompreensíveis. De fato, eles abundam. Mas não há lazer melhor do que a apreensão do conhecimento e venho aqui ainda para vangloriar a divulgação do texto estrito. Estamos no tempo do multimídia mas infelizmente ainda não temos vídeos gratuitos e bem produzidos sobre as melhores idéias que o ser humano já tenha tido. Não temos ainda boas aulas de filosofia na internet, boas aulas de humanismo, ambientalismo, boas aulas sobre o pacifismo ou sobre epistemologia, biologia evolutiva ou qualquer área específica que se deseje pensar. Praticamente não temos vídeos sobre a história do conhecimento em qualquer área. E é a compreensão do avanço de nosso saber que nos faz verdadeiramente entender e poder tentar adicionar mais um grau com relação aquilo que sabemos. O vídeo é uma poderosa arma para levar compreensão e democratizar o conhecimento humano, mas seu problema é que ele demora a ser produzido e exige um esforço considerável de um número grande de seres humanos. Pior do que isso: ele precisa ser de certa forma comercial porque há uma quantidade significativa de dinheiro envolvida na produção de um filme. Ainda hoje, a melhor forma de aprender as mais modernas idéias -- e mesmo as antigas -- continua sendo a leitura de livros. Por isso também, escrevo: para poder de certa forma passar este conhecimento que adquiri. Compro os mais diversos livros e tenho ao menos uma encomenda por mês, de três a quatro livros no amazon. A última remessa chegou ontem: um livro de história do rock, um sobre relação entre mitologia e ciência, um de história e filosofia da biologia evolutiva e, finalmente, um romance literário razoavelmente moderno. Livrei-me do dogma de que as pessoas precisam terminar um livro até que passem a ler outro; ou mesmo terminá-lo só para se sentir satisfeito consigo mesmo e dizer à todos que leu o livro. Não leio o livro para os outros, leio-os para mim. Acredito simplesmente que um livro não tem prazo determinado de término de leitura e não vale a pena se esforçar demais quando da leitura de um livro se esta não se mostra agradável. Assim, tenho dezenas livros que leio ao mesmo tempo. Assento-me e começo a ler um. Se a leitura não engrena, respiro fundo e escolho qual vai descer bem naquele momento. Então pego-o e leio, normalmente funciona. Senão, pego um terceiro ou volto para a guitarra. Assim, só leio os livros quando estou particularmente desejoso e num clima propício para lê-los. Esta técnica diversificada de leitura facilita bastante a disciplina e compreensão, embora torne-se difícil ler algum livro quando realmente se precisa disso para algum objetivo profissional.

Li ainda mais não-ficção que ficção, talvez algum tipo de literatura de divulgação científica e também filosofia bruta. Gosto de livros com idéias e argumentos bem apresentados. A leitura da divulgação do conhecimento -- representada pela leitura indireta das fontes, através de um tradutor -- nos ensina também a adquirir esta malícia sobre como interpretar e montar um texto inteligível a um leitor "leigo". Às vezes é preciso voltar e explicar as bases do conhecimento, às vezes é preciso encontrar um exemplo bem pé-no-chão para explicar o conceito. Daí se passamos à leitura dos originais em filosofia torna-se necessário gastar um certo esforço intelectual (de conexão e formação de conceitos) para compreender certas passagens de Nietzsche, Kant, Popper, Darwin, dentre outros. Normalmente tais iniciadores de escolas filosóficas apresentam apenas um esboço conceitual amplo e mal polido das idéias que desejam passar. Outros que montaram em seus ombros nas décadas ou séculos posteriores foram capazes de resumir melhor e interpretar as obras destes primeiros segundo um plano mais direto; uma vez que suas obras já tiveram sido estudadas e melhor compreendidas ao longo dos anos e dentro de contexto social. É claro também que tal estudo mais direcionado não pode ser tão abrangente quanto a obra per se; enfim, perde de um lado, ganha-se de outro: a literatura é como a vida.

Enfim, não sou músico. E fico pensando como este dom que tenho de interpretação pode ser transformado em bem para a sociedade. (Vale notar ainda que talvez eu nem tenha um compreensão tão boa assim das idéias que leio, mas ao menos tenho gosto pelo negócio e me esforço para ler e compreender.) Assim, quando leio uma obra filosófica e a compreendo, ou quando monto um quadro conceitual que liga duas correntes de pensamento separadas em minha mente -- o momento do "eureka"! -- gosto de anotar exatamente o que foi pensado. Meu caderno de notas está cheio eurekas que por vezes transcrevo aqui, ali ou acolá. Entretanto, nenhuma delas certamente terá o alcance do grito de Eureka original de Arquimedes em sua banheira. Não passam estas de explícitas descrições (formalizações) de cruzamentos conceituais em esquinas de meu cérebro. Talvez possamos fazer uma analogia entre nossa percepção espacial e nossa percepção conceitual. Também quando andamos pela cidade, vez por outra descobrimos que dois determinados lugares que pensávamos distantes estão na verdade perto uns dos outros, se pegarmos um determinado atalho adequado. Há um momento de Eureka em nossa percepção espacial quando finalmente -- ao andarmos por um caminho novo -- encontramos algo que nos faz reconhecer determinado local visto pelo outro lado e isso finalmente resulta num novo mapa espacial da região montado em nosso cérebro. Vale notar ainda, que a formação deste mapa espacial não ocorre exatamente no momento de Eureka. O momento Eureka serve para identificar o ponto de interseção entre duas regiões que pareciam antes desconectadas. Dependerá de quanto o sujeito conhece entre uma e outra área até que finalmente possa-se ligar corretamente ambos os mapas conceituais. Ele talvez precise conhecer melhor uma e outra área, antes de formar um mapa satisfatório -- ainda que ele possa operar ad infinitum com um mapa apenas das vias de acesso principais. Assim, acabo por argumentar aqui que a forma de conexão entre espaços conceituais em nosso cérebro opera de maneira similar à forma de conexão entre vias espaciais. Entretanto, não há de se levar esta analogia muito longe. Está claro, por exemplo, que o princípio físico que rege as conexões cerebrais ocorre de uma maneira muito diferente das conexões espaciais em um determinada região, por exemplo. Enquanto as conexões espaciais são apenas posições diferentes no espaço, os mapas conceituais são formados por um conjunto especializado de células presente no cérebro e suas inter-conexões elétricas.

Resumindo: talvez o armazenamento de conceitos em nossos cérebros aconteça também de uma forma espacial, onde diferentes áreas guardem diferentes informações e conceitos. Assim, é possível que os atalhos entre essas áreas não sejam ainda conhecidos pela nossa rede de sinapses. O encontro da sinapse atalho, é o momento onde se percebe a interseção de pontos entre uma rede conceitual e é o instante em que se grita "Eureka".

Finalmente ainda é possível embutir neste ensaio as discussões entre genes e memes, organismos e conceitos. Os seres humanos são formados por partículas que se auto-duplicam e que são chamadas genes -- embora não exista apenas um conceito de gene e um célebre biólogo uma certa vez tenha dito: "se você pergunta o que é um gene, você jamais vai compreender"; uma vez que a compreensão do conceito exige o conhecimento de infinidade de regras e uma ainda maior infinidade de exceções às mesmas. A natureza não precisa se adaptar a nossos falhos conceitos. Enfim, Watson e Crick descobriram a natureza física do gene em 1953, mostrando que ele era feito de hélices duplas de DNA apresentando uma certa diferença química que os permitia identificar quatro tipos básicos de formas. Esses tipos foram chamados de A, C, G e T e hoje em dia, na era genômica, os cientistas dizem ser capazes de descrever a constituição física de um ser humano ao colocarem 3 bilhões dessas letras, uma atrás da outra. Diz-se que também as idéias podem ser comparadas aos genes, pois evoluem através da auto-duplicação. A idéia de meme de fato foi tolhida pelo famoso intelectual e biólogo evolutivo Richard Dawkins (em seu livro "O gene egoísta", de 1973) e representa uma unidade qualquer de uma idéia. Entretanto, os neurobiologistas ainda não sabem e nem parecem estar procurando qualquer tipo de partícula identificável no cérebro que possa representar fisicamente o conceito de idéia. O meme ainda não teve seu Watson-e-Crick. Talvez não possamos achar um análogo físico do meme, como é o do DNA para o gene, talvez seja cedo pra isso. Entretanto, se soubéssemos talvez identificar fisicamente um meme no cérebro, talvez o víssemos percorrer essa rede de labirintos e mapas conceituais espaciais até que pudéssemos direcioná-lo ao atalho que liga as redes conceituais antes desligadas. Poderíamos assim fazer algum tipo de engenharia de aprendizagem ao identificarmos os memes de indivíduo e verificarmos quais memes faltam a ele para fazer a conexão entre determinados memeplexos. Haverá talvez um mapa de grandes idéias com seus principais conceitos mapeados e inter-relacionados. Explicar-se-á talvez como algumas pessoas podem ter pensamentos incoerentes e permitir a identificação de limites em filosofias morais. Enfim, talvez eu exagere na abstração.

O que importa é que não sei mais o que escrever. Vou até o início e releio tudo, trabalho do escritor, mesmo que amador. E aí continua me dando aquela preguiça... vou tocar guitarra!

7.11.08

Autoconsiderações


Ao contrário de certas pessoas que se têm em tão alta consideração e que se pensam como as melhores dentre várias e todas, eu sei muito bem que sou um bosta. Enxergo a todo momento minhas limitações e sei da existência de outras ainda mais graves às quais não consigo ver posto que me olho sempre com uma lente de aumento. Às vezes tento me afastar de mim mesmo para que seja capaz de formar uma visão externa e de amplo espectro do que sou, do que quero ser, do que deveria ser ou do que eu não sou ou sei. Tento ver-me pelos olhos de uns e de outros e sempre chego à conclusão de que só posso mesmo ser algum tipo de esquizofrênico que tem muitas personalidades. Mas não sou. Ou talvez seja. É que quando me coloco na posição de um, vejo-me de uma forma e, na posição de outro, de outra. Mas isso não é esquizofrenia, é evidência. Sendo que são mesmo diferentes pessoas a me enxergar, ainda que dentro de mim mesmo, são sim diferentes visões. Cada um tem sua história e todo um conjunto contingente de acontecimentos que marcaram sua existência e que traçaram sua forma de ver o mundo de uma maneira particular. Eu quando me transvisto das pessoas próximas e tento ver-me através de seus olhos, sei também que não são elas a me ver e que, bem no fundo, estou mesmo preso à minha mente e tudo que vejo passa necessariamente por este filtro sujo que é a minha própria experiência. Então o que faço é estereotipar alguém dentro de um determinado grupo de pessoas que pensem assim ou assado e então analiso-me sobre a óptica deste possível grupo ao qual me refiro e que conheço tão mal. E então, estando eu mesmo atachado a um conjunto unitário do meu self, o que faço consiste basicamente em pensar como me veriam certas pessoas se é que elas pensariam da forma como penso que elas pensam. Claro que esta é uma extrapolação absurda, mas creio que ela me ajuda a andar na trilha de tijolos mal cuidados que chegará um dia, quiçá, à auto-compreensão. Sei que não é fácil de entender todas essas coisas e nem mesmo de fazer todas essas formulações ou de expressar um sentimento assim tão íntimo com estes toscos símbolos. Além do mais, estereotipo-os erroneamente e portanto formo um quadro conceitual deficitário do que seria este caso os outros assim me pensassem, coisa que não fazem. Ou até fazem, mas de uma maneira que será para sempre a mim inalcançável. Se nem mesmo em minha própria mente sou capaz de encontrar ordem, que dirá naquela dos outros. Outros serão sempre outros e eu serei sempre este misto de influências humanas e literárias a vagar pelos corredores estreitos e cercados de abismos por todos os lados. Vou me equilibrando e tentando conversar com todos a saber seus conceitos e preconceitos sociais. Danço sempre a música que toca e sempre me divirto com ela. Ou ao menos tento. Sei muito bem que poderia sair do lugar que toca uma música que não me agrada muito e que poderia tentar sim procurar outros lugares onde a música me fosse mais agradável. Conheço muitos que o fazem e só se dão com aqueles que os colocam num determinado pedestal e que, para isso, por vezes exigem reciprocidade neste trato de endeusamento das inter-relações pessoais. Eu não sou como tais. Estou em meio também aos que me pensam idiotas e eles me fazem crescer, simplesmente porque no fundo estou certo de ser mesmo um estúpido, quiçá apenas louco. E então desta relação que começa ligeiramente complicada e onde a troca de símbolos não se dá de maneira apropriada, uma outra relação se renova. Acontece então o intercâmbio daqueles valores que estão situados ali na interseção entre os dois conjuntos que caracterizam um e outro seres humanos em questão. No diagrama de Venn de duas personalidades há sempre regiões de sobreposição posto que somos todos humanos e que nossa cultura e mitologia social, natural e animal, por toda a parte, apresenta pontos de comunhão ou similaridade. A baixa consideração, ao contrário, pode ser danosa em termos psicológicos e estou sempre à beira de incorrer neste dano. Por outro lado, amedrontam-me mais os que me têm em alta que baixa consideração. O fato de sermos nós mesmos colocados em pedestais dentro de outras psiquês exige de nós contratos de responsabilidade com relação aos mais fracos, segundo seus próprios conceitos. Alguém diz que me admira e outra diz que me ama. Uma terceira diz que me odeia e a quarta, por sua vez, ignora-me solenemente. Tomo todos os papéis e não fujo de nenhum deles. Do topo: ensino, aprendo, converso e explicito sinceridades que não se falaria se respeitasse de fato essa bosta desta moral vigente. A moral vigente que se foda! Ela velha, caquética. Está ultrapassada e deve mudar, ainda que aqueles que a defendem tomem todas as atitudes para mantê-la ali estática. Não conseguirão, entretanto, esses coitados. Não conseguirão posto que o inconsciente coletivo modifica-se e moderniza-se automaticamente à medida em que a Terra caminha ao redor do sol e este último vaga pela via láctea de uma forma que estou longe de saber como. A despeito dos legisladores e daqueles que tentam proteger a velha moral sexual ao escandalizar as novidades e fazer com que as pensemos absurdas ao invés de normais, o mundo irá mudar. A mudança vem do fato óbvio de que não há moral absoluta. Do poço: aprendo, ensino, converso e -- um pouco retraído -- esforço-me para explicitar sinceridades que não se falaria segundo a moral vigente. Faço tudo igual, um pouco diferente. Eu sempre me repito. Ando, ando e então me vejo no mesmo lugar. Preciso me mover. Já me considero de outros tempos, mas sou também do agora e serei certamente do amanhã. Não pararei. Seguirei o João Andarilho e beberei seu whisky até me embebedar, sem moderação. Olho para o chão e procuro o caminho feito de tijolos dourados, merda de tijolos! Não há caminho, não há nenhum ponto a seguir e apenas um caos regado de fortes emoções que guia minhas decisões nos dias de hoje. Planos não tenho e planos não farei que não aqueles para um futuro bastante próximo, sempre pensando que eles podem mudar caso algo de inesperado aconteça. Estou sempre esperando o inesperado. E ele sempre vem me tocar. Gosto desta emoção de viver um dia depois do outro e de me renovar a cada instante. Por vezes penso por meses em tomar certa decisão e então num único dia vislumbro que a melhor decisão é a decisão contrária àquela por tanto tempo matutada. E então, guiado por esta emoção, faço o que não deveria e subverto os padrões segundo os quais as pessoas me classificam ou simplesmente classificam umas às outras. Por vezes utilizo a frase: "Não tente me prever, tenho comportamentos aleatórios." Não gosto de acordar todos os dias no mesmo horário e também não gosto de fazer sempre o mesmo caminho para ir de um lugar ao outro. No Brasil, minha desculpa bem-humorada para isso era enganar o sequestador, posto que a violência é tanta lá que não é de se espantar que haja algum ser humano maligno a tentar deixar em cativeiro um sujeito quase sem posses. Aqui na Europa não parece haver a menor possibilidade de que alguém vá me sequestrar posto que sou um pária da sociedade ou, no máximo, passo por um cidadão comum. Então perco a desculpa do sequestro e sigo apenas randomizando. Já me tive um dia em alta consideração e desta época lembro que tinha um sentimento de bem estar interno embora não fosse verdadeiramente adorado pelos outros e não tivesse de fato amigos, porém admiradores submissos. Vejo-me hoje como um retrato borrado desta época, reparo minha idiotia e não quero eu mesmo estar neste pedestal psíquico. Se sou um líder, sou um líder diferente. Senão, não sou líder nenhum. Pouco me importa. Desço do pedestal e, de fato, afundo-me no poço, enquanto deveria de fato permanecer com os pés no chão. O equilíbrio é algo que devemos estar sempre buscando e ainda considero que me situo um pouco abaixo do padrão ideal para a auto-confiança. Enxergo melhor hoje meus erros que os acertos. Não haverá equilíbrio, de fato. O equilíbrio psicológico é um estado efêmero, tanto quanto o completo desequilíbrio para um lado ou para o outro; fale-se de consideração própria ou de qualquer outro assunto. Na corda bamba que é a psiquê, cuidado é preciso apenas para não tombar por terra. E a atenção é necessária ao momento de levantar. De mais a mais, forrageemos e carpedineemos. Não há mais nada a ser dito.

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6.11.08

Homicídio em primeiro grau


Dizem que a ocasião faz o ladrão. Pode ser. Mas não se diz o mesmo para o assassino. Ela, por exemplo, quanto matou a sangue-frio e à queima-roupa minha poesia, sabia muito o que fazia e atuava de maneira regrada, pensada, meditada, friamente calculada. Até suas palavras e frases, armas do crime, não tinham a espontaneidade de outrora, quando vagávamos a esmo pelas ruas desta capital alsaciana. Em meio a assuntos aleatórios, surgia sempre aquela indicação ambígua de que minha poesia estava sob a mira de potentes armas de combate, prestes a sucumbir. Mas meu lirismo de amante foi bravo e agüentou até a estocada final com a firmeza, a força e a coragem de um verdadeiro combatente daquela infeliz guerra amorosa. Ele não se abalou com nenhum dos vários sinais de ameaça e manteve-se sincero, aberto e verdadeiro até o fim. O sentimento, porém, é como um corpo material. Sua vida depende de um acordar e dormir, depende de alimentação e cuidados. Mal cuidado, meu sentimento pessimamente nutrido já estava às beiras de morrer de inanição, descuido ou doenças infecciosas. Entretanto, ela ainda apresentaria às claras a arma do crime, apontá-la-ia diretamente ao etéreo corpo de meu sentimento e apertaria o gatilho sem qualquer remorso, dó ou piedade -- ato corrupto e que, segundo as leis do coração, deveria ser punido com pena de dezenas de anos na gaiola sentimental. Repara-se que a sociedade do homem não é a sociedade do coração. Quando finalmente ela apertou o gatilho, convicta de sua ação, adiantou-se com a velocidade de um raio aquele projétil guiado diretamente à tal da já-moribunda poesia. Esta bala de prata se partiu em duas -- mesmo durante o curto trajeto queima-roupa -- e acertou-me ao coração e cérebro, corpomente metafórico-sentimental. Ficou por ali mesmo, todo o malamanhado porém esperançoso sentimento. Ficou ali naquele chão de esquina, meia-noite fria de um domingo francês. Voltei ao local no dia seguinte e escrevi com letras invisíveis: aqui jaz mais um pobre-coitado. A cerimônia de velório e enterro deu-se nos dias em que se seguiram.

Sentimento é como uma vida que custa a nascer, e ainda mais a se desenvolver bem e crescer vigorosa e saudável. Com relação a esta poesia que acaba de morrer agonizante, borrando de vermelho o chão destas limpas ruas, as coisas não se deram de forma diferente. Ou melhor, se deram sim. Também não nasceu de um dia para o outro, tal poesia. Lembro de vê-la ali sentada, pela primeira vez, do outro lado da mesa e pensar de onde teria vindo uma garota assim tão estranha. Era de fato vizinha de capital, algo que só fui saber algum tempo depois, posto que a princípio pensei que viesse da África ou doutro lugar assim longínquo e misterioso. E aí começamos a conversar e nos encontramos uma ou outra vez. Nascia, assim, o sentimento: tapinha na bunda para fazê-lo respirar direito. Encontramo-nos uma ou outra vez até que ela disse que, no próximo encontro, tudo rolaria. O que seria tudo? Passei os dias a pensar e isso amadureceu o sentimento e o fez crescer em ambiente dócil. Mas ora, eis que estas mulheres de hoje não guardam mesmo em si qualquer poesia e o mágico e misterioso "tudo" consistia apenas numa rodada de bom sexo. Os jovens deste tempo pensam que sexo é tudo, quanta inocência. Com outras não aconteceu diferente. A mulher moderna desrespeita-se a todo instante no quesito sexual. Ela pensa que se "não der" na primeira ou na segunda ou na terceira noite, rapidamente o rapaz irá se desinteressar e largá-la. Não que ela não queira também fazê-lo, e é óbvio que quer. Mas não deveríamos fazê-lo nem antes nem depois de que a poesia verdadeiramente venha ao mundo. A verdade é que para essas coisas não há nenhum falso número escrito em um tábula de mandamentos ou num suposto inconsciente coletivo; há apenas este sentimento que, recém-nascido, deve crescer até um ponto em que alcance sua puberdade. Neste momento, ele estará preparado, finalmente, para a rodada sexual. O que quero dizer é que sou contra esta pedofilia sentimental: não devemos fazer sexo quando nossos sentimentos ainda são apenas crianças. Não faz sentido e, segundo as tais leis do coração, isso deveria ser considerado crime. Mas não há regras ou falsos números, a maturidade do relacionamento amoroso vai aumentando a cada encontro e sua puberdade pode ser de fato alcançada na primeira, segunda, terceira, décima ou jamésima noite. A sociedade destas mulheres e homens anda muito ansiosa sexualmente e isso vai em direção contrária a um sentimento de apreciação do mundo e do bem-viver carpedineano. O sexo não deve ser marcado ou premeditado, ele deve simplesmente vir de uma relação que se desenvolve naturalmente e que o alcança sem qualquer receio, apenas como a conseqüência evidente e clara do amor que duas (ou mais) pessoas têm entre si. É exatamente este sexo com data marcada, dia e hora onde vai rolar "tudo" que representa o atropelo dos conceitos que geramos com relação à nossa natureza mais íntima. Deveríamos apenas cantar com os Beatles e deixar as coisas se darem naturalmente: let it be!

Falta às jovens de hoje o sentimento romântico que sempre esteve ligado ao ideal feminino e que hoje se desmantela nesta cultura do entretenimento e na promoção de um sexo falsamente livre, perversão daqueles que não respeitam seus próprios sentimentos. O erro neste pensamento é que o sexo não faz sentido sem um tipo de amor que na verdade pode ser mais bem descrito como um "bem estar" na presença do outro (ou dos outros); e é este amor carpedineano que deve ser livre para assim liberar o sexo das cordas que o amarram -- nesta sociedade cuja moral sempre esteve ligada a uma religião institucionalizada e repressora. O sexo sem este sentimento de bem estar, tranqüilidade e confiança no(s) outro(s) não é senão uma revolta inócua que ao invés de fazer desmantelar a quadrada moral cristã, apenas a reforça no sentido de não conter em si uma base conceitual verdadeira. Ele tem apenas a vontade vazia de ser uma revolta contra o status quo que nos coloca à cabeça em fortes gritos: "sexo é mau". E se a sociedade é estúpida, também o é esta revolta impensada, radical e vazia contra ela. Uma revolução verdadeira deve ter um cunho conceitual, já diria o filósofo Thomas Kuhn. E a revolução conceitual não consiste simplesmente na negação de certos valores vigentes, porém na troca destes por outros mais virtuosos, encadeados numa inter-relação de conceitos e idéias que sejam bem compreendidos e cuja virtude seja claramente maior do que os padrões aceitos. Ao menos segundo o ponto de vista daquele que assim o considera. Mas as pessoas, de fato, não gostam de pensar. Elas apenas seguem sem analisar o que fazem, tratam o mundo como uma brincadeira irresponsável e não têm qualquer respeito pelas outras pessoas, pela sociedade ou pelo sentimento alheio. Alcançar-lhes-á, algum dia, a maturidade sentimental e intelectual?

E enquanto minha poesia nascida-tímida crescia lentamente, nenhum sentimento houvera de fato nela nascido. Olhando para o seu umbigo, queria apenas um prazer efêmero que no dia seguinte causava-lhe quiçá desassossego ou até arrependimento. Como alguém pode estar com outroguém sem que se tenha visto ali o embrião de alguma poesia? O mundo está muito errado e esta pressão por sexo que temos no Brasil não é natural ao homem. Costumo dizer, para o horror de alguns europeus que são meus amigos, que por aqui as pessoas não têm uma libido assim tão à flor da pele quanto nós, brasileiros. Nós somos quentes e gostamos do negócio -- ao menos de uma forma mais genérica. Mas neste ponto ouso dizer que são eles que estão mesmo certos, isso se olharmos o mundo de um ponto de vista humanista. Os franceses são muito mais românticos num sentido original e poético do termo. O sexo para eles não é senão a continuação de uma relação agradável que já tenha começado; grande parte deles não tem esta estúpida sede de um sexo ansioso e precocemente ejaculado que ronda eternamente a mente dos solteiros em terras canarinhas. O sexo sem este sentimento de bem estar e conforto com o outro vira de fato apenas uma perversão sem sentido e por vezes até sem graça. Por sinal já ouvi falar de muitas mulheres que têm mais prazer consigo mesmas do que com seus namorados ou maridos ou amantes. Se seu sexo tivesse evoluído de seus sentimentos, isso não deveria ser verdade. E se não há sentimento, porque a relação? Repare: não estou sendo conservador, porém vanguardista. O sexo pode e deve ser feito até na primeira noite, mas apenas no caso em que os amantes tenham se sentido verdadeiramente ligados e em uma certa sintonia indescritível em palavras; sintonia sentimental, física, sexual; bem estar ao lado do outro; confiança, desejo, mundo todo. Na Europa, até os tido-como-duros alemães parecem pensar assim, de certa forma; de fato, foram eles os verdadeiros criadores do romantismo. Já os ingleses me parecem tão introspectivos que preferem resguardar suas individualidades do entregarem-nas a outroguém. Aí dá a impressão de eles se amam mais do que aos outros e de querem continuar assim; não desejam de fato aproveitar o melhor tempo do mundo que é o de estar ao lado da pessoa amada fazendo e recebendo carícias. Enfim, não quero engaiolar nenhum tipo geográfico humano dentro destes falsos e quadrados conceitos que crio. Posso estar completamente enganado. O que de fato importa é que no Brasil o sexo me parece escrito em letras garrafais quando de uma relação entre dois (ou mais) com intenções amorosas-sexuais. De tão enorme e explícito, ele mascara o amor e o sentimento, que ficam escondidos sabe-se lá onde. As brasileiras ainda precisam aprender a encontrá-lo, se realmente quiserem ser felizes.

Depois então do velório e enterro, guardo ainda boas lembranças de quando da vida daquele sentimento lírico, quando ele esteve ali perdido naquela cama onde o tempo parava e o dia ia e vinha sem que nos déssemos conta. De alguma forma, ela chegou também -- em certo ponto -- a amadurecer seu sentimento até a puberdade; ainda que tenha o utilizado pedofilamente em princípio. Mas em seguida ela provavelmente assassinou seu próprio sentimento impiedosamente, da mesma forma que fez com o meu algum tempo depois. Ela é verdadeiramente má, fria e calculista; assassina em primeiro grau.

Não nos lamentemos. Eis que para cada indivíduo sentimental que morre no mundo, muitos outros podem nascer e cada vez mais amo mais pessoas e de uma forma mais efetiva, afetiva e sincera. Neste momento, percebo outros sentimentos começam a nascer ainda tímidos dentro desta caixa complexa de entradas e saídas em que consiste o ser humano que sou. Eles nascem e começam a crescer lentamente, um pouco amedrontados com relação à única coisa que lhes é certa na vida: sua própria morte. Será que precisarão todos os sentimentos morrer mesmo um dia? Morrerão junto com o corpomente do poeta, talvez. Mas não antes. Não devemos matá-los antes disso, podemos amar muita gente e por muito tempo, até o fim. Amemos! Talvez alguns sentimentos morram mesmo assim assassinados pelas maldosas mãos sentimentais de outros, mas eu mesmo jamais matarei o amor que sinto, que senti ou sentirei, por nenhum indivíduo. Não sou um assassino sentimental e jamais teria coragem de fazer isto. Meus sentimentos estão à salvo, eles não devem se amedrontar mais do que nós, cidadãos das grandes cidades brasileiras. Se não não formos assim mortos a sangue-frio por bandidos mascarados e sem coração, poderemos -- pessoas e sentimentos -- viver muito bem, ainda que precisemos estar em constante adaptação ao instável meio ambiente que nos cerca. Vida longa a todos nós, poetas e poesias.

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