Alguns minutos na mente de Francisco
Ando com preguiça de mim mesmo. Entro neste sítio às vezes, leio esses textos e me dá uma preguiça interna de ser o que sou e de escrever esses relatos malas sobre a vida cotidiana. Sou um tipo de mala, um nerd metido a intelectual que no fundo é mesmo idiota e faz só merdas, uma seguida da outra, sem parar e continuamente. Ontem apareceram uns caras lá no nosso ensaio de música que eram definitivamente profissionais do ramo e assim eu me senti completamente idiota com a guitarra em punho ao tocar meia-dúzia de acordes cantando mais alto pra disfarçar problemas rítmicos. Os caras matavam a pau! Forjo uma desculpa de que eles não têm doutorado ou que aprenderam desde criança só pra me deixar de bem com minha nula proficiência musical e a pose que as vezes faço de "sei alguma coisa coisa sobre música". Ao menos, nunca falei que sei muito. Na verdade, não sei nada. "Só sei que nada sei", diria nosso antigo amigo grego. Enfim gosto de música e estou sempre aprendendo, mas minha técnica ainda está muito longe daquela dos profissionais, e ainda estarei defasado por muito tempo. Enfim, fico pensando às vezes qual será o dom que tenho pra poder realmente apostar nele minhas fichas profissionais e poder contribuir melhor tanto à sociedade do presente quanto à do porvir. É difícil essa coisa de se pensar qual é que será nosso maior dom... qual será o seu maior dom, meu caro leitor? Diga-me se é fácil encontrar esta resposta: não é!
Bem, acho que tenho ao menos uma certa facilidade em interpretar textos de diversas áreas diferentes, posto que sempre tive uma gama bem variada de leitura em diversos estilos de ficção e não-ficção. Acredito assim ter mapas conceituais bem formados em diversos ramos do conhecimento humano e as pessoas normalmente dizem que sou claro nas minhas descrições. -- Minha irmã inclusive diz que sou claro demais, daí perco um pouco da poesia. -- Verdade é que jamais aceito ler um texto e não compreendê-lo, leio-o novamente e lentamente até que o entenda; ou ao menos até onde ache que tenha me esforçado o suficiente: é claro que há textos que são para mim incompreensíveis. De fato, eles abundam. Mas não há lazer melhor do que a apreensão do conhecimento e venho aqui ainda para vangloriar a divulgação do texto estrito. Estamos no tempo do multimídia mas infelizmente ainda não temos vídeos gratuitos e bem produzidos sobre as melhores idéias que o ser humano já tenha tido. Não temos ainda boas aulas de filosofia na internet, boas aulas de humanismo, ambientalismo, boas aulas sobre o pacifismo ou sobre epistemologia, biologia evolutiva ou qualquer área específica que se deseje pensar. Praticamente não temos vídeos sobre a história do conhecimento em qualquer área. E é a compreensão do avanço de nosso saber que nos faz verdadeiramente entender e poder tentar adicionar mais um grau com relação aquilo que sabemos. O vídeo é uma poderosa arma para levar compreensão e democratizar o conhecimento humano, mas seu problema é que ele demora a ser produzido e exige um esforço considerável de um número grande de seres humanos. Pior do que isso: ele precisa ser de certa forma comercial porque há uma quantidade significativa de dinheiro envolvida na produção de um filme. Ainda hoje, a melhor forma de aprender as mais modernas idéias -- e mesmo as antigas -- continua sendo a leitura de livros. Por isso também, escrevo: para poder de certa forma passar este conhecimento que adquiri. Compro os mais diversos livros e tenho ao menos uma encomenda por mês, de três a quatro livros no amazon. A última remessa chegou ontem: um livro de história do rock, um sobre relação entre mitologia e ciência, um de história e filosofia da biologia evolutiva e, finalmente, um romance literário razoavelmente moderno. Livrei-me do dogma de que as pessoas precisam terminar um livro até que passem a ler outro; ou mesmo terminá-lo só para se sentir satisfeito consigo mesmo e dizer à todos que leu o livro. Não leio o livro para os outros, leio-os para mim. Acredito simplesmente que um livro não tem prazo determinado de término de leitura e não vale a pena se esforçar demais quando da leitura de um livro se esta não se mostra agradável. Assim, tenho dezenas livros que leio ao mesmo tempo. Assento-me e começo a ler um. Se a leitura não engrena, respiro fundo e escolho qual vai descer bem naquele momento. Então pego-o e leio, normalmente funciona. Senão, pego um terceiro ou volto para a guitarra. Assim, só leio os livros quando estou particularmente desejoso e num clima propício para lê-los. Esta técnica diversificada de leitura facilita bastante a disciplina e compreensão, embora torne-se difícil ler algum livro quando realmente se precisa disso para algum objetivo profissional.
Li ainda mais não-ficção que ficção, talvez algum tipo de literatura de divulgação científica e também filosofia bruta. Gosto de livros com idéias e argumentos bem apresentados. A leitura da divulgação do conhecimento -- representada pela leitura indireta das fontes, através de um tradutor -- nos ensina também a adquirir esta malícia sobre como interpretar e montar um texto inteligível a um leitor "leigo". Às vezes é preciso voltar e explicar as bases do conhecimento, às vezes é preciso encontrar um exemplo bem pé-no-chão para explicar o conceito. Daí se passamos à leitura dos originais em filosofia torna-se necessário gastar um certo esforço intelectual (de conexão e formação de conceitos) para compreender certas passagens de Nietzsche, Kant, Popper, Darwin, dentre outros. Normalmente tais iniciadores de escolas filosóficas apresentam apenas um esboço conceitual amplo e mal polido das idéias que desejam passar. Outros que montaram em seus ombros nas décadas ou séculos posteriores foram capazes de resumir melhor e interpretar as obras destes primeiros segundo um plano mais direto; uma vez que suas obras já tiveram sido estudadas e melhor compreendidas ao longo dos anos e dentro de contexto social. É claro também que tal estudo mais direcionado não pode ser tão abrangente quanto a obra per se; enfim, perde de um lado, ganha-se de outro: a literatura é como a vida.
Enfim, não sou músico. E fico pensando como este dom que tenho de interpretação pode ser transformado em bem para a sociedade. (Vale notar ainda que talvez eu nem tenha um compreensão tão boa assim das idéias que leio, mas ao menos tenho gosto pelo negócio e me esforço para ler e compreender.) Assim, quando leio uma obra filosófica e a compreendo, ou quando monto um quadro conceitual que liga duas correntes de pensamento separadas em minha mente -- o momento do "eureka"! -- gosto de anotar exatamente o que foi pensado. Meu caderno de notas está cheio eurekas que por vezes transcrevo aqui, ali ou acolá. Entretanto, nenhuma delas certamente terá o alcance do grito de Eureka original de Arquimedes em sua banheira. Não passam estas de explícitas descrições (formalizações) de cruzamentos conceituais em esquinas de meu cérebro. Talvez possamos fazer uma analogia entre nossa percepção espacial e nossa percepção conceitual. Também quando andamos pela cidade, vez por outra descobrimos que dois determinados lugares que pensávamos distantes estão na verdade perto uns dos outros, se pegarmos um determinado atalho adequado. Há um momento de Eureka em nossa percepção espacial quando finalmente -- ao andarmos por um caminho novo -- encontramos algo que nos faz reconhecer determinado local visto pelo outro lado e isso finalmente resulta num novo mapa espacial da região montado em nosso cérebro. Vale notar ainda, que a formação deste mapa espacial não ocorre exatamente no momento de Eureka. O momento Eureka serve para identificar o ponto de interseção entre duas regiões que pareciam antes desconectadas. Dependerá de quanto o sujeito conhece entre uma e outra área até que finalmente possa-se ligar corretamente ambos os mapas conceituais. Ele talvez precise conhecer melhor uma e outra área, antes de formar um mapa satisfatório -- ainda que ele possa operar ad infinitum com um mapa apenas das vias de acesso principais. Assim, acabo por argumentar aqui que a forma de conexão entre espaços conceituais em nosso cérebro opera de maneira similar à forma de conexão entre vias espaciais. Entretanto, não há de se levar esta analogia muito longe. Está claro, por exemplo, que o princípio físico que rege as conexões cerebrais ocorre de uma maneira muito diferente das conexões espaciais em um determinada região, por exemplo. Enquanto as conexões espaciais são apenas posições diferentes no espaço, os mapas conceituais são formados por um conjunto especializado de células presente no cérebro e suas inter-conexões elétricas.
Resumindo: talvez o armazenamento de conceitos em nossos cérebros aconteça também de uma forma espacial, onde diferentes áreas guardem diferentes informações e conceitos. Assim, é possível que os atalhos entre essas áreas não sejam ainda conhecidos pela nossa rede de sinapses. O encontro da sinapse atalho, é o momento onde se percebe a interseção de pontos entre uma rede conceitual e é o instante em que se grita "Eureka".
Finalmente ainda é possível embutir neste ensaio as discussões entre genes e memes, organismos e conceitos. Os seres humanos são formados por partículas que se auto-duplicam e que são chamadas genes -- embora não exista apenas um conceito de gene e um célebre biólogo uma certa vez tenha dito: "se você pergunta o que é um gene, você jamais vai compreender"; uma vez que a compreensão do conceito exige o conhecimento de infinidade de regras e uma ainda maior infinidade de exceções às mesmas. A natureza não precisa se adaptar a nossos falhos conceitos. Enfim, Watson e Crick descobriram a natureza física do gene em 1953, mostrando que ele era feito de hélices duplas de DNA apresentando uma certa diferença química que os permitia identificar quatro tipos básicos de formas. Esses tipos foram chamados de A, C, G e T e hoje em dia, na era genômica, os cientistas dizem ser capazes de descrever a constituição física de um ser humano ao colocarem 3 bilhões dessas letras, uma atrás da outra. Diz-se que também as idéias podem ser comparadas aos genes, pois evoluem através da auto-duplicação. A idéia de meme de fato foi tolhida pelo famoso intelectual e biólogo evolutivo Richard Dawkins (em seu livro "O gene egoísta", de 1973) e representa uma unidade qualquer de uma idéia. Entretanto, os neurobiologistas ainda não sabem e nem parecem estar procurando qualquer tipo de partícula identificável no cérebro que possa representar fisicamente o conceito de idéia. O meme ainda não teve seu Watson-e-Crick. Talvez não possamos achar um análogo físico do meme, como é o do DNA para o gene, talvez seja cedo pra isso. Entretanto, se soubéssemos talvez identificar fisicamente um meme no cérebro, talvez o víssemos percorrer essa rede de labirintos e mapas conceituais espaciais até que pudéssemos direcioná-lo ao atalho que liga as redes conceituais antes desligadas. Poderíamos assim fazer algum tipo de engenharia de aprendizagem ao identificarmos os memes de indivíduo e verificarmos quais memes faltam a ele para fazer a conexão entre determinados memeplexos. Haverá talvez um mapa de grandes idéias com seus principais conceitos mapeados e inter-relacionados. Explicar-se-á talvez como algumas pessoas podem ter pensamentos incoerentes e permitir a identificação de limites em filosofias morais. Enfim, talvez eu exagere na abstração.
O que importa é que não sei mais o que escrever. Vou até o início e releio tudo, trabalho do escritor, mesmo que amador. E aí continua me dando aquela preguiça... vou tocar guitarra!
