A lei de Ohm
Não tinha mais qualquer esperança com relação ao mundo. Via os mesmos dogmas de dois mil anos sendo repetidos e defendidos. Tensão. Levantava-se contra eles com a razão e temperança a seu lado, mas recebia apenas repreensões dos ignóbeis; absoluta e absurdamente numerosos. Resistência. Em casa, à noite, recuperava as forças através da apreensão das palavras dos mais sábios da história, lia-os no original. Não confiava em traduções, em tradutores. Não confiava em ninguém e duvidava de tudo e todos até prova em contrário. Amava os sábios, mas não todos. Dormia forte, revigorado ao perceber que os maiores haviam pensado como ele; e vice-versa. Acordava com o sol, todas as coisas misturadas em sua cabeça, processo biológico de aprendizagem e memória. O bicho humano, a imperfeição. Chacoalhava a cabeça para que tudo se acertasse. Lia duas palavras para dar sentido a tudo aquilo, meditava um pouco. O ar da manhã trazia-lhe vigor e desejo de arquitetar a Mudança.
E então passava o dia com seres humanos que mal poderiam ser assim chamados, posto que eram apenas repetições uns dos outros. Se não eram vazias, suas cabeças, eram como as daquele crustáceo. Ao invés de defenderam a razão e a busca por ideais de virtude, defendiam a repetição de padrões atrasados, criados por povos longínquos, em tempos passados. Desnível espaço-temporal. Diziam que a tradição era um valor excessivamente importante e não a viam como realmente era, ou seja, instrumento que velhos mal-intencionados utilizavam para sobrepujar as massas. Nos jovens de hoje, o mesmo esquema ainda funcionava. Atingia o espelho deste tempo e, assim, refletia-se tal qual a luz para Newton. E eram os herdeiros dos velhos de outrora aqueles que ainda se valiam dos instrumentos criados por seus tatataravós para dominação, sentando-se sobre pesados tronos dourados e carregados por todos nós; escravos.
O dia e as pessoas comuns tomavam-lhe as forças e tolhiam-lhe a esperança. À noite restaurava-nas ao dialogar monologamente com seus amigos, mortos há tanto tempo. Alguns recentemente mortos. Outros vivos, mas sem vontade de diálogo. Longes, distantes, inalcançáveis, também de certa forma dominadores -- que questionavam os seus para fazerem-se grandes. Destruíam estes a casa dos vizinhos para tornar a sua própria ainda mais bela; e faziam-no bem. Pensava sempre em contatá-los, os bons, e então dizer-lhes que continuassem, estimulá-los para que falassem com ainda mais vigor, pedir orientações, segui-los ondequer que fossem. Mas quando da tentativa do contato, só tinha como retribuição a indiferença. Os líderes modernos querem apenas sua liberdade de expressão, mas estão imóveis e falam para poucos, aos sussurros. Também os bons-poderosos eram de certo modo apáticos e mais queriam seus sossegos. Nosso herói desejava subir ao topo do mundo e gritar para todos, lá de cima: acordem! Mas não encontrava quem o ajudasse, seu caminho era longo e penoso. Pesado era seu fardo e vã, sua esperança.
Cansado de uns e de outros, juntou alguns daqueles poucos livros que se pode ler e reler até o fim dos tempos e partiu. Não se sabe para onde foi. Está em todo o lugar que se olhe, vive de misérias e tenta convencer as pessoas a se Moverem contra os poderosos, a guerra, o capital; a favor da paz, do entendimento, da fraternidade. Corrente. Do mundo inteiro tem asco e pena; sente muita dor ao coração. Está triste e desanimado, mas não vai parar posto que é esta dor que o move. Incessante. Ela é seu fogo, seu moto-contínuo, energia renovável produzida pela ignorância Dos outros. Imensa, enorme, infinita. Enquanto tiver dor, terá motivação. E enquanto tiver motivação, lutará. Estamos com ele e somos também ele, senão todos, cada vez mais de nós.
E então passava o dia com seres humanos que mal poderiam ser assim chamados, posto que eram apenas repetições uns dos outros. Se não eram vazias, suas cabeças, eram como as daquele crustáceo. Ao invés de defenderam a razão e a busca por ideais de virtude, defendiam a repetição de padrões atrasados, criados por povos longínquos, em tempos passados. Desnível espaço-temporal. Diziam que a tradição era um valor excessivamente importante e não a viam como realmente era, ou seja, instrumento que velhos mal-intencionados utilizavam para sobrepujar as massas. Nos jovens de hoje, o mesmo esquema ainda funcionava. Atingia o espelho deste tempo e, assim, refletia-se tal qual a luz para Newton. E eram os herdeiros dos velhos de outrora aqueles que ainda se valiam dos instrumentos criados por seus tatataravós para dominação, sentando-se sobre pesados tronos dourados e carregados por todos nós; escravos.
O dia e as pessoas comuns tomavam-lhe as forças e tolhiam-lhe a esperança. À noite restaurava-nas ao dialogar monologamente com seus amigos, mortos há tanto tempo. Alguns recentemente mortos. Outros vivos, mas sem vontade de diálogo. Longes, distantes, inalcançáveis, também de certa forma dominadores -- que questionavam os seus para fazerem-se grandes. Destruíam estes a casa dos vizinhos para tornar a sua própria ainda mais bela; e faziam-no bem. Pensava sempre em contatá-los, os bons, e então dizer-lhes que continuassem, estimulá-los para que falassem com ainda mais vigor, pedir orientações, segui-los ondequer que fossem. Mas quando da tentativa do contato, só tinha como retribuição a indiferença. Os líderes modernos querem apenas sua liberdade de expressão, mas estão imóveis e falam para poucos, aos sussurros. Também os bons-poderosos eram de certo modo apáticos e mais queriam seus sossegos. Nosso herói desejava subir ao topo do mundo e gritar para todos, lá de cima: acordem! Mas não encontrava quem o ajudasse, seu caminho era longo e penoso. Pesado era seu fardo e vã, sua esperança.
Cansado de uns e de outros, juntou alguns daqueles poucos livros que se pode ler e reler até o fim dos tempos e partiu. Não se sabe para onde foi. Está em todo o lugar que se olhe, vive de misérias e tenta convencer as pessoas a se Moverem contra os poderosos, a guerra, o capital; a favor da paz, do entendimento, da fraternidade. Corrente. Do mundo inteiro tem asco e pena; sente muita dor ao coração. Está triste e desanimado, mas não vai parar posto que é esta dor que o move. Incessante. Ela é seu fogo, seu moto-contínuo, energia renovável produzida pela ignorância Dos outros. Imensa, enorme, infinita. Enquanto tiver dor, terá motivação. E enquanto tiver motivação, lutará. Estamos com ele e somos também ele, senão todos, cada vez mais de nós.
Marcadores: crítica social

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