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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

30.4.09

Aleatoriedades tunisianas

A sombra do amor volta a refrescar meu coração. Estou num país estrangeiro, em meio a pessoas estrangeiras. Sou um brasileiro na Tunísia, em meio a amigos franceses; estrangeiro ao quadrado. Há um milhão de coisas a prestar atenção e tudo me excita. Há a língua, a arquitetura, a forma como os locais tentam tomar o dinheiro dos turistas oriundos do velho continente e a forma como esses lutam e digladiam em revanche, tentando evitar serem excessivamente "roubados". Quem é o ladrão, afinal? Certamente não sou eu nem meus amigos, porém o enorme mar que é a história das civilizações dentro a qual estamos afogados. São eles os ladrões, civilizatórios, exploratórios. Eles querem apenas mais um trocado, uma gorjeta mínima para tomarem uma cerveja posto que cinco dinares são apenas dois euros, não se deve pedir troco dessas coisas. Tunísia e Brasil são terceiro mundo. Países em desenvolvimento que não estão no mesmo continente, não falam a mesma língua, não foram colonizados na mesma época, não têm o mesmo povo ou a mesma religião. A economia é o que nos aproxima e quando ando pelas ruas da capital do país lembro sim do lugar donde vim, ele está nos prédios mal-pintados, nas pobres pessoas que trabalham sem quaisquer condições na construção civil, nos hotéis e nas ruas; na desigualdade. Pessoas humildes que deveriam ganhar mais do que ganham e cujo trabalho é explorado, eis onde reside a maior similaridade. Onde está o respeito pelo ser humano e por seu suor? Eles são os escravos de nossa época e um salário mínimo justo, além de serviços públicos relativamente eficazes na área da educação e da saúde, para dizer o básico, é algo que sem dúvida as nações desenvolvidas conseguiram e nós ainda não...

O peixe e a carne, a salada, o café da manhã e todas as iguarias do hotel são finas e bem servidas, o preço é baixo quando comparado ao dos países desenvolvidos. E como eles conseguem tal façanha, vem-nos a questão? É simples, tirando o salário das pessoas e isentando de impostos as empresas e seus proprietários, isso sem contar com a corrupção e impunidade dos políticos -- ao menos no caso do Brasil. Aumente o salário das pessoas envolvidas na produção e comércio, aumente os impostos sobre as riquezas, diminua a corrupção; assim terás verdadeiro desenvolvimento com igualdade, diminuirás a violência. É claro, entretanto, que o subdesenvolvimento não é só uma questão econômica. Há uma inércia histórica dos períodos onde éramos ainda mais explorados, sem dó ou piedade. De certa forma, ainda o somos.

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O país é islâmico e na TV há programas com pessoas usando batas e turbantes, toda aquela parafernália vestimental utilizada pelos árabes. Ao contrário do que nos prega a televisão, sob influência dos Estados Unidos, não tenho nenhum medo, porém simpatia e carinho pelo povo árabe. Não direi que concordo com sua religião posto que não concordo com nenhuma e acho todo fundamentalismo medíocre e execrável. Tenho amigos extremamente católicos que fedem mais do que excremento de bode. Tentei aprender a língua árabe de forma a chegar aqui e ter uma noção das coisas. Aprendi sim um pouco, mas ainda me sinto idiota e levo alguns minutos para compreender uma simples palavra dentro as poucas que fui capaz de aprender. Definitivamente não é possível aprender uma língua completamente diferente da sua em uma ou duas semanas, mas tenho mania de tentar fazer tudo ao mesmo tempo e de não me sujeitar às dificuldades intelectuais. (...) De qualquer forma, estou feliz por ter comprado o livro e não me arrependi, olho para as palavras e os caracteres nelas contidos e tenho uma noção do que sejam, não sou um completo analfabeto em árabe, sou um semi-completo, semi-analfabeto. De fato, diz-se que a Tunísia é dos países árabes mais abertos. E quando se diz aberto, pode-se entender em todos os sentidos. Ele é aberto para a cultura ocidental e, no mesmo pacote, vem a economia ocidental. Há empresas americanas por todo o lado. Mas não se engane, não estou dentre aqueles que pensam que ser aberto é aceitar a dominação cultural do ocidente. Ser aberto é entender os valores humanitários de qualquer sociedade, é liberar-se sexual, religiosa e intelectualmente; é fugir dos dogmas. Mas é claro, sem perder uma identidade própria.

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Bateram à porta. Mas é que eu estava naquele estado estável onde não queria ver ninguém. Deitado, tranquilo, lia um livro. A porta se abre, escuto palavras sem que as entenda. Levanto-me aborrecido. É a mulher da limpeza que tenta dizer algo que não entendo. Respondo em francês, "Desculpe, mas o que você disse?", Ela repete em árabe. Digo que não entendo seu idioma e ela me olha com uma cara estranha, como se eu devesse compreendê-lo. Peço desculpas e repito em francês que não compreendo o que diz. "Serviette?", parece querer trocar a toalha. Digo que o faça enquanto retorno à cama. Uma outra mulher chega e elas discutem algo, parece que pensam que finjo que não falo seu idioma. De fato, não sei o que falam, talvez discutam sobre a morte da bezerra. Ela fica mais tempo no banheiro do que o necessário para trocar a toalha e logo penso que talvez esteja se insinuando sexualmente. Ah, esses brasileiros; são todos uns pervertidos. Por algum tempo pensei que fosse má esta idéia que liga brasileiro e perversão sexual, hoje em dia fiz as pazes com ela. Talvez os brasileiros sejam os bonobos entre os seres humanos. Por que não fazermos sexo se nos sentimos com tal vontade? Por que negar nossa natureza? Eu grito com o titã: "como é que eu vivo sem sexo?". As mulheres ainda estão lá enquanto divago em reflexões. Espero mais um pouco, quieto. Elas trocam mais algumas palavras e então a porta se bate. Ora, os brasileiros.

Agora estou com meu computador na recepção do hotel. Um sujeito se aproxima e diz "bonjour". Repito a mesma palavra. Ele tem provavelmente cerca de trinta e poucos anos, tem cabelo mais é careca; um cabelo ralo penteado para trás. Depois do cumprimento continua dizendo algo em árabe. Pergunto o que foi, francês novamente. Ele repete a mesma coisa, mais uma vez em seu idioma. Digo que não compreendo. Ora, não falo essa língua. Por que insistem tanto? Há algumas poltronas ao redor. Ele se assenta. Pergunta se não sou do oriente médio. Não, não sou. De alguma forma pareço com este povo e eles pensam que devo falar suas línguas, só pode ser. O sujeito quer me conhecer, conversar, talvez se encontrar mais tarde. Ora, não são só os brasileiros que pensam nessas coisas. Pergunta se incomoda-me. Digo que estou sim um pouco ocupado sem estar exatamente, apenas respondo e-mails pessoais, pessoas queridas. Mas também sem muito empenho em forçar um diálogo com um sujeito esquisito. Diz que é jornalista e queria saber algo a meu respeito. Pelo jeito que me olha penso que é um homossexual em busca de sexo, ou talvez relacionamento. Cogito neuroticamente lá no fundo que talvez o sujeito seja algum tipo de espião: dizem que o governo daqui vigia bem as pessoas, há certa restrição quanto ao que se pode ou não falar, não estamos de fato em uma democracia. Foi o que me disseram, não sei de nada. Enfim, não quero ser chato com o camarada, mas também não quero que ele pense que tem alguma chance. Outra característica dos brasileiros é serem assim restritos à sua opção sexual. Não sou diferente. Na França, por exemplo, homem e homem brincam de uma forma que me causa estranheza. (...) De fato, fiquei um pouco decepcionado ao vir aqui pois esperava conhecer mais pessoas e mais coisas deste país situado na chamada África Árabe. Queria conversar mais com pessoas e não tive oportunidade. E assim, quando a tenho, meu supostamente inexistente preconceito sexual leva-me a cortar a conversação pela raiz. Quão idiota não sou. O rapaz continua ali sentado, cara de interrogação. Dada sua timidez, começo o diálogo. Digo que pode me conhecer sim, sou o Luiz, químico, vim para o casamento de um amigo do laboratório. Ele continua dizendo para que nos encontremos mais tarde, algo assim. Realmente o papo não se desenvolve. E assim digo que estou realmente ocupado e ele se vai. Educado, o rapaz. Estranho, sedento, curioso, um ser humano. Trombei com ele mais uma ou duas vezes no hotel, nos dias que se seguiram. Não lhe disse bonjour.

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O preço da corrida é quarenta e cinco dinares, mas não temos moedas de cinco. Não há notas que valham cinco ou, se há, não as vi. Cinquenta. Eu e mais um dos franceses pagamos vinte, outro paga dez. Fico sem saber se peço ou não o troco. Odeio essas coisas de dinheiro. Sei que ele cobrou caro pela corrida, mas só depois é que vim realmente a saber que cobrou mais do que o triplo do que seria normal. Enfim, não ligaria de dar a ele um pouco mais, desde que ele fosse gentil e não fizesse essa cara de vingança contra os ocidentais que faz quando nos apresenta o preço. O pior é que entendo tão bem sua revolta... Quando entramos no taxi ele disse que os turistas vêm aqui e jamais voltam. Eu disse que voltaria caso fosse bem tratado e gostasse do lugar. Era verdade. Talvez ainda volte algum dia. O sujeito jogava futebol e tinha um chaveiro no formato do mapa do Brasil pendurado no retrovisor. Era chamado de Romário pelos amigos e disse-lhe que o Romário sempre foi um dos meus jogadores prediletos. Ah, a copa de 94, aquele gol de bate-e-pronto. Que maravilha! Conversamos tranquilamente, mas vejo que é daqueles que querem realmente abusar dos turistas oriundos da Europa. Não que não tenha razão, mas agora cada um defende o que é seu. Ele pergunta se sou casado e acho a pergunta estranha, quereria ele me arranjar alguma garota para relacionamento duradouro? Digo que não e retruco-lhe a pergunta. Responde o mesmo.

No dia seguinte o vimos jantando no hotel com uma mulher de véu que não parecia sua esposa nem irmã, não sei explicar por que. O sujeito tem um sorriso sofrido no rosto e tenho um pouco de pena dele. Morou na França por um ano e sei que sentiu na pele o mesmo preconceito que sinto e senti. Não, certamente sentiu um preconceito muito mais forte. Sou um doutor, afinal, cientista. Daria-lhe com agrado os cinco dinares do troco, com duas condições: primeiro, se fossem meus e, depois, se ele fosse um pouco mais humilde. Sei que não devo culpá-lo, mas a desculpa de que isso não são nem dois euros e a cara que faz dão-me um sentimento estranho. Ok, já voltei demais neste assunto.

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O casamento é na prefeitura. Há cerca de duzentas, trezentas pessoas. A maioria velhos, provavelmente família e amigos dos pais dos noivos. Dá a impressão que o casal não tem muitos amigos. O sujeito mora na França há muito tempo e ajudei-o a fazer sua mudança. Dirigi o carro alugado e fui aqui e ali com ele, carreguei coisas pesadas com minha coluna torta e não reclamei. Ele disse más palavras sobre os vários franceses que ajudou na mudança e que não estavam ali quando ele precisou. São assim: não amigos porém utilitários da amizade. Não discordo de todo. Um mini-ônibus nos leva à recepção, vou com meu terno que tinha pensado ótimo quando comprei mas que agora acho um pouco grande, esquisito. De fato, jamais me senti bem dentro de um terno e odeio qualquer tipo de formalidade. Sou mineiro da gema e penso não há nada de mais confortável no mundo do que a cadeira metálica de um boteco, cerveja gelada no copo lagoinha e tira-gosto boiando na gordura. Há sobras também na camisa, talvez eu tenha emagrecido. Droga de roupa!

Na entrada, as mulheres usam vestidos à la árabe e -- quando o casal aparece para entrar na igreja -- elas começam a produzir um som estranho com a boca, um tipo de li-li-li-li-li bem agudo: o mais agudo que podem. É a tradição e não importa se isso dói ao ouvido dos estrangeiros. Quanto mais incômodo o som, mais ele lhes parece dar prazer. Percebe-se que há aquelas garotas ou senhoras que são exímias na arte de lililizar e elas lililizam em alto e bom som; seguidas vezes. Ao fim, gargalham orgulhosas de sua potência lililizadora. Ah, a cultura.

O juiz entra pela porta dos fundos dizendo as-salam walekum, um tipo de recepção que literalmente quer dizer algo como "a paz esteja convosco". (Uma das únicas coisas que consigo entender na língua.) O juiz fala por cerca de vinte e poucos minutos, os noivos parecem dizer sim enquanto os fotógrafos se posicionam do lado direito a tirar fotos. Em um certo momento parece haver uma discreta prece. Ao meu redor, os franceses às vezes falam alto e se movem ainda mais do que seria prudente, no meu ponto de vista, dado que estão numa cultura diferente. Não são eles mesmos que criticam os excessos daqueles que vêm de fora à sua? Um deles arrasta cadeiras de forma a chegar lá na frente e move-se a todo instante procurando o melhor ângulo para o retrato. Penso que exagera, mas sem dúvida depois irei pedir-lhe as fotos. Uma vez feito, está feito. Ao leite derramado, não se adianta chorar.

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Mais uma hora de mini-ônibus nos trás de volta ao hotel e os franceses querem beber. Mas estou desconfortável com este terno e quero descansar para estar bem para a noite. Sou o único que retorna ao quarto. Fico lendo e durmo um pouco. Encontro-os para o jantar e fazem piadas das minhas sestas durante o dia, questionam o que faço a noite. Respondo que durmo. Ora, estou de férias. Nesta viagem descobri que não sei me comportar à mesa e que como rápida e apavoradamente, um prato cheio como o de um pedreiro. Não é o educado. Os franceses têm bons modos à mesa e percebo que observam minha selvageria a rabo de olho. É nos pequenos detalhes que se descobre subdesenvolvido.

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A festa acontece no mesmo dia do casamento, alguns pares de horas após. Chegamos e somos direcionados a uma mesa bem à frente. Está claro que reservaram uma das melhores mesas para os franceses -- o brasileiro vai de brinde. Aqui também há mais velhos do que novos. O casamento não é uma festa para os noivos, porém para os seus pais. Os franceses reclamam de tudo: da posição da mesa ao volume do som, passando pela vulgaridade das garotas. É fato que nos colocaram ao lado da banda e que o número de decibéis supera o nível agradável. Chegaram a dizer que diminuíram o som por conta da chatura francesa. Normalmente a intensidade sonora é ainda maior. Surpreende-me o fato de não terem servido ainda cerveja ou qualquer bebida alcoólica. Minha esperança de ver uma garrafa de Skol geladinha passando na bandeja do garçom não se vai até que a festa realmente termine, pouco depois da uma da manhã. "Não era à meia-noite que disseram que terminava?", reclamou o francês. Reclamam até quando a festa dura mais. Verdade é que casamento a água e suco é um pouco triste e dá sim um certo mau-humor. Também eu já estou como os tais. A música árabe é boa e agrada. As garotas dançam de uma forma sexy, meio dança do ventre, meio sabe-se-lá o quê. Há todo o tipo de garotas: bonitas e feias, gordas e magras, safadas e tímidas. Não se pode chegar perto delas, parece haver uma distância regulamentar a se guardar entre machos e fêmeas. Depois de meia-hora a música árabe já começa a irritar, ou serão os franceses que me influenciam mal-humoristicamente? O único rock inglês em todo o casamento: Stand by me. A outra música em inglês tocada é I will survive, mas o cantor não sabia a letra. A banda toca: bateria, dois teclados, derbaque e tambor. Árabe sem parar. O sujeito do microfone canta o uá-uá-uá árabe e, em minha extrema ignorância, todas as músicas parecem iguais. Diz o francês que elas parecem idênticas porque eles usam apenas acordes menores, mas o linque da wikipedia não diz nada disso, de fato diz que os árabes utilizam até notas além da escala padrão ocidental de doze semitons por oitava. Reparo na forma como os sujeitos tocam o teclado e vejo que tocam bem, porém sem nenhuma técnica; uma forma bem despojada. Ainda assim, o resultado final é bom aos ouvidos. O microfone passa de boca em boca e lembro daquele livro que li onde dizem que foi a cultura ocidental que transformou o cantar -- e mesmo o musicar -- em algo que as pessoas devem ser assim "proficientes". Noutras culturas, todos cantam sem vergonha. Os franceses dizem que todos cantam assim porque na família haverão músicos; eles têm desculpas para tudo que se argumente no sentido em que os outros serão melhores que eles. O noivo e a noiva cantam também. Ao fim da festa, dá-se o microfone à avó da noiva que canta com emoção e sentimento. Então pede-se que lhe dêem o derbaque e põe-se o microfone em sua boca. Ela toca e canta sozinha mais um uá-uá-uá árabe. As pessoas vão ao delírio e eu também. Realmente impressionante.

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Queria ter podido sair mais e conhecer mais a cidade, mas agora sou um turista rico e devo ficar preso neste hotel de luxo. Ele não é nada mal. Há uma piscina a 30 graus Celsius que serve para o repouso, além de outra bem fria que serve para o esporte. É assim que as vejo, pelo menos. Fico circulando de uma a outra. O problema de sair do hotel é ter que enfrentar o taxista que vai ficar falando ao ouvido mil horas e o não saber exatamente o que fazer. O hotel é longe de tudo e ao menos é perto de uma praia que, embora não seja das mais bonitas, é praia. Mineiros, você sabe, têm uma atração mágica pelas praias: areia, ondas e água salgada. Dei uma volta por lá hoje. Esta cidade me lembra algumas cidades pequenas do litoral do nordeste, onde passamos férias. A capital do país talvez possa ser comparada a uma Ilhéus, talvez. Eu disse talvez. O trânsito, incrivelmente, consegue ser mais caótico que o brasileiro e fico de certa forma feliz ao pensar que o Brasil não é assim o pior lugar do mundo em termos de desenvolvimento e educação da população. É a primeira vez que me aventuro por lugares de IDH menor que o nosso. Pimenta nos olhos dos outros é refresco; e viva a idiotia do ser humano.

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É ainda difícil entender exatamente o que falam os franceses quando estão todos juntos numa roda, conversam entre si. Pessoa a pessoa, me dou bem. Mas assim no todos-contra-todos fica difícil perguntar do que se trata uma palavra ou conceito. Como se não bastasse estão sempre a falar das Xuxas e Robertos Carlos da França, coisa que não conheço. A outra única estrangeira do grupo é inglesa e já mora na França há mais de dez anos, ela me adverte: "é preciso nascer francês para entender determinadas coisas". Estou longe disso.

Se os franceses não me tratam como um dos seus, é verdade que ao me conhecerem melhor nesta viagem começam a me respeitar mais. Tive a oportunidade de falar praticamente com cada um em separado e foi bom conhecê-los melhor, deixar que me conheçam também. É verdade que quase todos são cultos em um determinado assunto em especial, nem que seja saber sobre a novidade na indústria de jogos. Só não falei com a garota, vinte e poucos anos, porque ela é metida e pensa que quero transar com ela, então me evita. Não vem realmente ao caso se quero ou não transar com ela e fato é que sou um brasileiro e tenho essa brasilidade bonobal, acho que fica nítido. A jovem não faz mesmo questão de ser gentil e agora também eu não estou nem aí. Je m'en fous.

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Os franceses são mesmo céticos. Tudo que se fala, eles duvidam. Se você é brasileiro então, não há certeza que dê que os façam acreditar. Acabara de ler num livro sobre os caracteres árabes e ensinei-os como se escrevia Tunísia em árabe ao mostrá-los caractere por caractere. A tradução literal em árabe da palavra seria como Tuns, onde o 'i' fica sub-entendido. É normal que nas palavras em árabe simplesmente suprima-se as vogais curtas e muitas vezes as palavras contém apenas as consoantes; assim você deve conhecê-las para saber quais vogais estão no meio. Segundo o livro de linguística que leio aqui em meu maiô de banho, ao lado da piscina, é normal que nas línguas existam vogais curtas e longas. Por vezes eles colocam acentos nas consoantes que indicam as vogais curtas a seguir, mas muitas vezes eles simplesmente não o representam. Sabem e pronto. Parece haver certas combinações mais naturais de vogais curtas entre pares de consoantes. Naturais para eles, é claro -- algo como se entre um "b" e "q", fosse mais natural encontrar uma vogal "e" do que "a", daí eles nem se dão ao trabalho de escrevê-la ou representá-la. Enfim, havia também um francês que sabia um pouco de árabe e insistiu que também o "u" do Tunis não estava escrito. Ora, retruquei, acabara de ler no livro que aquela era uma vogal longa, representada por uma letra que em formato parecia um gê. Não, não era nada disso, ele disse. Os outros concordaram com ele, mesmo que eu dissesse que acabara de ler no livro e que estava plenamente correto. Não me deram ouvidos, continuaram em suas ignorâncias e arrogâncias. De fato, também não falo suficientemente bem francês para ser capaz de argumentar fortemente. Simplesmente deixo pra lá. Mas que tem o tal do gê com som de u, ah isso tem.

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Mais uma sobre o ceticismo dos franceses: um deles é meio cego. Jamais saberei o que ele quer dizer com esse "meio". Consegue andar sozinho e sabe quando tem alguém ou alguma coisa em sua frente posto que diz enxergar uma coisa borrada, mas na piscina -- onde se vê apenas a cabeça das pessoas -- chegou a confundir mulher com homem. A mulher do chefe, por sinal: gafe. Se as coisas se movem, ele consegue distingui-las razoavelmente bem, embora esteja sempre a trombar pelos corredores e não foi apenas uma ou duas vezes que o vi tropeçar em qualquer coisa que ia pelo chão. Achei estranho quando ele falou que vinha e pensei como ele poderia se arriscar assim. Pensei também que não fazia muito sentido ir a algum lugar uma vez que não se poderia ver nada. Mas foi puro preconceito, é claro que se pode. Mas, ora, como somos dependentes de nossa visão...

No primeiro dia perguntei a ele o que ele mais atentava quando estava num país estrangeiro e imaginei que ele fosse dizer que fosse o som da cidade. Depois da visão, audição. Certo? Errado. Ele disse que eram as pessoas e que ele gostava de conversar com os nativos para entender o que eles pensavam sobre as coisas. Mas fato é que ele não se esforçava para tanto e quando peguei o mesmo taxi que ele -- como éramos muitos precisávamos nos dividir -- ele foi na frente sem dizer uma palavra ao chofer. Eu mesmo enchia os sujeitos de perguntas. Enfim, o ceticismo. Já comentei que as mulheres faziam aquele li-li-li-li-li bem agudo pra celebrar o casório. E então num certo instante quando elas estavam assim lililizando, ele tentou lililizar também, de forma a imitá-las e participar do cortejo. E, assim, quando alguém lhe disse que parasse, posto que só as mulheres faziam isso, o cego retrucou: "Tem certeza?" São mesmo arrogantes, os franceses. Tem gente que gosta do estilo, provavelmente porque se vê no espelho. Eu não. Prefiro a sinceridade incisiva e sincera dos alemães, por exemplo. Não generalizemos os costumes dos povos, há sempre exceções às regras.

Reclamaram a festa inteirinha e agora na saída dão um sorriso bobo, falso e cínico; dizem que amaram a celebração. Ora, ora, no Brasil não se faria diferente. A sociedade é baseada no cinismo; umas mais que as outras.

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Só um francês no grupo tem um estatus, digamos, pior que o meu. Fico feliz que pelo menos de um, eu ganhe. A pimenta, os olhos dos outros, o refresco. Tudo se liga e volta e se relaciona. O chefe brinca com um e com outro, brinca comigo, mas não com ele. Tenho certa pena dele em meio aos seus -- porque pena mesmo, no sentido absoluto, tenho daqueles indivíduos que, no Brasil, vivem sem ter como viver. É um rapaz sensível e, por isso, pisam nele, desconsideram-no. Na rua, os sujeitos chegam perto dele e ele mal consegue recusar ofertas, pagaria todo seu dinheiro no taxi se o sujeito o pedisse com uma cara de pena que lhe parecesse sincera. O pobre francês sabe que é um privilegiado. Pensei-o no pelourinho assim rodeado de crianças mais do que espertas que não largariam do seu pé mesmo depois de horas. Não sabe dizer não e é bastante educado. Nunca vi alguém comer um peixe com tanta delicadeza e eu, à sua frente, parecia simplesmente o homem das cavernas. Em certos momentos chego a pensar que é homossexual e talvez seja, ou não. Isso não importa, é boa gente. Não se pode ser homem e delicado?

Percebo enfim que o chefe gosta de mim, a chefa também. Discuto com eles mais uma vez porque deixo a França. Respondo que sinto saudades do meu povo e que jamais pensei em morar definitivamente por aqui. O calor é o que falta: do sol e das pessoas. Sei que posso falar inglês e agora arrependo-me de me aventurar tão fortemente pelo francês, às vezes fico sem vocabulário e isso me impede de seguir alguma argumentação. No esforço de falar e compreender o idioma só mais tarde penso que poderia ter explicado isso ou aquilo em inglês. Na hora essa idéia nunca vem, já estou imerso no francês. Embora não entenda tudo, normalmente sei bem sobre o que estão falando e sou capaz de omitir opinião ou idéia sobre alguma coisa. O chefe grande realmente gosta de mim e sempre me coloca na conversa; olha para mim quando está conversando e, quando estamos sós, fala de coisas que me interessam. Ele é sensível e entende qual-é a das pessoas. Acho que ele entendeu qual é a minha. (...) Há algo nele, entretanto, que ainda não consegui definir como defeito ou qualidade. Essa sua extrema sensibilidade permite que identifique rapidamente qual o ponto fraco psicológico de cada pessoa. Eu também às vezes percebo e faço questão de respeitar e não invadir este local de fraqueza sentimental individual de cada um, e assim creio que convivo bem com pessoas tão diferentes. Ele, do contrário, faz questão de enfiar a agulha ali no ponto fraco e ainda espremê-la com força. Assim mostra sua superioridade com relação aos outros. Fala sempre de problemas físicos ou comportamentais claros: careca, gordura, feiúra, aquele que chega tarde, o que trabalha pouco. Ele identifica muito bem o problema de cada um. E depois de meter-lhe a agulha no ponto fraco, ele te dá um abraço e fala que é brincadeira. Ele é mau, mas é do bem. Fiquei feliz um dia quando ele elogiou uma apresentação que fiz, não o faria assim de graça. A outra chefa disse que eu deveria ficar orgulhoso, posto que foram poucas vezes que ela o vira elogiando alguém depois de anos de convivência. Agradeci formalmente.

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