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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

1.4.09

Sob a neve

Tudo estava combinado: iríamos esquiar na sexta-feira. O problema é que só havia um ônibus que chegava até a estação de esqui e ele saia da Gare às 16hs. Eu era o único que naquele dia estava preso ao trabalho e, portanto, disse aos meus amigos que partissem, eu chegaria por volta das 20hs. Iria com meu carro. Sairia do trabalho por volta das 19hs, pegaria algumas coisinhas em casa e partiria diretamente a encontrá-los. Seriam cerca de duas horas de trajeto e assim eu ainda chegaria a tempo de bebermos e nos divertirmos naquela noite. Combinado!

O que eu não contava, brasileiro ingênuo de conhecimentos invernais europeus, era que aquela noite estaria nevando muito e que o caminho até chegar ao alto da montanha apresentava tantas curvas e tanta neve. Meu carro não era absolutamente preparado para aquelas condições e eu não tinha sequer correntes para colocar nos pneus. O veículo derrapava na neve derretida enquanto eu atravessa sozinho por corredores de estrada estreitos ao longo da montanha. Em boa matemática, um-pouco-para-lá seria igual a lá-em-baixo. Andava a vinte quilômetros por hora e tentava manter a aceleração constante em segunda marcha para que o carro não derrapasse. Apesar da dificuldade, jamais duvidei que cumpriria com êxito minha missão. Seguia com o GPS ligado e não haveria chance de errar a rota. O que eu não contava mesmo era que a nevasca estivesse assim tão forte. O carro já derrapava mais do que o esperado e em certa ocasião não consegui subir um pequeno morro, uma vez que as rodas giravam em falso. Tentei um caminho alternativo apenas para logo depois me ver novamente derrapando em meio a abismos dos dois lados. Ainda faltava cerca de 40 minutos para completar o trajeto e meu otimismo já estava no nível de pensar que estaria tudo bem se eu saísse vivo daquela empreitada. (De fato, até agora não estou certo que não tenha morrido.) Fato é que o mundo inteiro deslizava e logo que encontrei alguma casa parecendo habitada resolvi parar e pedir ajuda. Estacionei o carro e respirei fundo. O que diria?

Liguei para meus amigos do celular e expliquei-lhes a situação. Embora eles dissessem que poderiam buscar-me, neguei a oferta posto que o carro deles também não era preparado para a neve e eu me sentiria extremamente mal por colocar a vida de outras pessoas em risco. Sugeriram-me com razão que batesse à casa e perguntasse ao morador se haveria algum hotel nas redondezas. Neste caso, dormiria confortável e tranquilamente. Continuaria então meu caminho até o alto da montanha pela manhã, posto que haveria um carro especial que passaria pelas estradas logo cedo e removeria a neve acumulada. Asseguraram-me que o caminho estaria livre na manhã seguinte. Portanto eu apenas precisaria apenas esperar o raiar de um novo dia para partir. Talvez pudesse mesmo dormir nesta casa cuja luz saia pelas janelas, sinal da presença de seres humanos. Despedi-me então dos amigos, sai da prisão automotiva e olhei ao redor: senti-me absurdamente sozinho.

(...)

Minha mãe sempre me diz que sou um jacu, no sentido mineirês do termo, o que significa alguém que é meio bobo e que tem acanhamento por fazer certas coisas ou tomar certas atitudes que deveriam ser normais para um ser humano normal. Ninguém é uma bosta de um ser humano normal, de fato. Eu muito menos, faço questão de não ser. As massas. Mas eis que deste fato decorre que -- por um segundo -- sinto-me idiota a bater na porta da casa de alguém que lê um livro à sua lareira e conjugar meu mau francês a pedir ajuda. O que diria? Pensei que não seria de toda má, a idéia de permanecer protegido no carro até o amanhecer. Eu havia trazido uma ou duas bananas, barras de cereais, duas garrafas de vinho e um pouco de cerveja. Tinha um terço do tanque de gasolina e poderia passar a noite ali com o motor ligado a escutar música, talvez lesse um livro e bebesse o vinho, a cerveja e tudo mais. Assim não precisaria incomodar ninguém. Seria desconfortável, sim, mas pedir ajuda era também desconfortável. De fato, considero-me uma ótima companhia para mim mesmo. Dúvida. E eis que então passa pela minha cabeça uma história idiota de alguém que teria morrido dormindo no carro por falta de oxigênio, respirara apenas gás carbônico e morrera sufocado. Não me lembrei muito bem quem, mas fora certamente alguém bem idiota que houvera me contado esta estória. E embora absurda essa idéia de ficar no carro e morrer sufocado, acho que foi ela que me fez decidir -- ímpeto emocional -- a seguir dentre a neve, em direção à porta do misterioso casebre.

Cabeça erguida, nariz apontando a porta, passos largos e decididos. Assim sou eu quando tomo uma decisão. Esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, braço direito, dedo indicador, campainha, som, nervosismo. Espera. Ar. Frio. Fazer cara de simpático, fazer cara de simpático. Há a movimentação de uma pessoa provavelmente a se levantar de uma cadeira e dar passos duvidosos ao caminho da porta, ensaio um discurso. A porta se abre e eis que vejo uma mulher indo nos seus quarenta com um cachecol enorme enrolado no pescoço, colares sobrepostos e um sorriso maroto com a boca mais para o lado direito, delicadas e ligeiras rugas. Pareceu-me um sorriso talvez acostumado com estranhos desconhecendo as agruras do inverno, como se dissesse: sempre batem aqui quando a neve cai forte. Ou senão, chegou a passar pela minha cabeça esta estranha idéia: talvez ela de alguma forma me esperasse. Se não era linda de rosto e corpo, tampouco poder-se-ia dizer que os anos lhe houvessem feito mal. Tinha o charme não aristocrático do francês do campo, charme original, de simplicidade e beleza. Bonsoir, madame. Comecei a explicar o problema e dizer sobre o hotel, o chalé e os amigos. Nesse ínterim vi um pastor alemão – o cachorro, não o religioso oriundo da Alemanha – chegar para verificar o que acontecia. Um vulto de um garoto parece também ter subido as escadas que iam logo atrás da mulher, não estou bem certo. Madame Marteïs foi excessivamente simpática para um conterrâneo de Napoleão e ofereceu-se a dirigir meu carro até a parte baixa da cidade, assim ajudar-me-ia também a encontrar um hotel nas redondezas. Deixou a porta aberta enquanto foi buscar um casaco e um gorro. Brinquei com o cão. Saiu de casa sem dizer tchau a ninguém.

Entrei portanto no lado do passageiro e a fêmea tomou a direção. Estava acostumada com este tipo de terreno e convicta de que não haveria problema para tirar o carro de lá. Confiei cento e dez porcento no que dizia. Chave, ignição, motor, farol, freio de mão, acelerador, opa! Realmente escorrega. O carro é grande, há mais gelo do que a madame pensava; é melhor deixá-lo ali. Convida-me a ir ao seu carro pequeno, pneus de neve, correntes. Andamos pelas redondezas à procura de hotel, falamos amenidades, maldizemos o tempo, bendizemos a beleza invernal, a natureza e poesia que se encontra em todas as coisas. Três hotéis fechados, não há turistas nesses tempos frios. Sugere que voltemos à sua casa, ela ligará para certos outros hotéis um pouco mais distantes para verificar se há alguma vaga e, caso não haja, há um sofá em sua casa. Não quero incomodar e posso muito bem dormir no carro. Ela faz questão, tanto melhor.

De volta, ela me convida para entrar. A casa é simples, entramos numa cozinha com copa onde há uma lareira. Ao lado há uma sala com um sofá, provavelmente onde dormiria. No fundo, uma escada que sobe até a escuridão. Chá para esquentar? Bem certo! Ela esquenta a água enquanto pega o catálogo e o telefone sem fio. Conhece meia dúzia de hotéis. De fato, eu já me acostumava à idéia de permanecer ali durante noite e a idéia começava a me açoitar: por que não amá-la também? O canino era simpático e brinquei com ele. Conquiste as mulheres pelos seus cães e filhos, diz o manual do homem sensual, que jamais li. Meu lirismo, hedonismo ou luxuria iam-se esvaindo à medida que Marteïs entretanto ligava para os hotéis, um atrás do outro. Finalmente encontrou algum onde eu pagaria algumas dezenas de euros por uma noite. Bebemos o chá e fumamos um cigarro e depois mais outro, conversávamos. Decoradora, tinha peças exóticas por toda a casa. Um sol de metal que também poderia ser entendido como uma rosa dos ventos ficava ao lado da lareira. Um arco e flechas ornamentado pendurava-se à parede enquanto um tipo de totem indígena, talhado em madeira e medindo cerca de metro e meio, ia no canto da sala. Sua decoração não era chique ou sofisticada, apenas simples e criativa, causando também uma certa estranheza digna daquelas coisas que podemos verdadeiramente chamar de arte.

Conversamos mais um pouco e ela contou-me adorar crianças e também a maternidade, de forma geral. Tinha um filho de dez anos. E quando eu começava a ficar angustiado por incomodá-la e pensava em partir ao tal do hotel, eis que ela acendeu mais um cigarro e estendeu-se calmamente sobre sua cadeira de balanço. Continuava nosso diálogo tranquilamente e não parecia ter aquele receio de minha presença que tem com um desconhecido. Talvez tenha reconhecido minha boa índole através de meu olhar. Quando falava, olhava intermitentemente para mim e então para os lados. Por vezes encarava-me aos olhos e ficávamos olhando um no olho do outro sem desviarmos, até que precisássemos dar mais um trago no cigarro. Fala de forma macia e lenta, refletia um pouco e fazia aqueles hum-hum-hums que os franceses fazem sem nenhum sentido aparente, como que a dizer que está ouvindo e pois é e coisa e tal. Minha anfitriã era sem dúvida uma alma livre e quase cheguei a perguntar se ela não usava algum tipo de droga ou medicamento que a fizesse assim tão aérea e sensível e concentrada e charmosa, tudo ao mesmo tempo. Por um instante porém, duvidei de sua sanidade mental. Afinal, ninguém recebe um completo desconhecido em casa e fica assim tão totalmente à vontade. Faltou-lhe apenas tirar a roupa e andar pelada pela casada e talvez não o tenha feito apenas porque a neve lá de fora também congelava-nos aqui, mesmo com a lareira. Tive inveja do medo que ela não tinha dos seres humanos.

Amenidades: perguntei se nascera ali e assim começou a contar-me um pouco sobre sua vida. Falou que tivera uma infância sofrida naquele lugar, e entendi nas entrelinhas que seus pais tinham algum problema que ela não chegou a detalhar e que não me atrevi a questionar explicitamente. E então começava a entrar noutras confissões quando o telefone toca. Ela fala então numa língua estranha que identifico como sendo o alsaciano, dialeto moribundo, próximo do alemão, e que alguns poucos ainda falam nesta parte do país. Sou capaz de reconhecê-lo pela entonação da raiz germânica e por tê-lo escutado esporadicamente aqui e ali, embora não entenda nem mesmo uma única palavra. A ligação é assaz rápida e quando desliga diz que precisa sair rapidamente pegar alguma coisa na casa de alguém, voltaria bem breve. Apressa-se a pegar sua roupa e tudo, abre a porta. Olho para ela com uma cara de o-que-faço? e ela me diz que fique ali, já voltava. Não sei se foi isso mesmo que disse ou se não entendi muito bem seu francês, nesses momentos sempre bate uma certa dúvida. Saiu pela porta e me trancou dentro. Fiquei paralisado, agora com certeza de sua insanidade, além da gentileza. Trinta segundos e a chave vira. Desculpe-me, ela diz. Deixa a chave do lado de dentro e sai novamente. Outros trinta segundos e mais uma vez ela abre a porta: diz que pode demorar um pouco, mas volta e levar-me-á ao hotel. Eu posso ficar a vontade, o sofá é todo meu. Desculpa-se mais uma vez, precisa sair rapidamente. Merci, merci! -- replico. A porta se fecha. Trinta segundo se passam e ela não mais volta. Escuto o barulho do motor do carro se perder pela noite.

(...)

O que farei? Levanto-me, sirvo-me mais uma chávena de chá enquanto vou reparando melhor a esdrúxula decoração do casebre. Como uma boa casa francesa há cinzeiros por toda a parte, normalmente cheio de cinzas. De alguma forma, entretanto, o lugar não tem aquele cheiro impregnado de cigarro que se poderia esperar. Há roupas jogadas aqui e ali, nenhuma delas íntima. O quarto ao lado tem um sofá em formato de ele, coberto por uma capa surrada, tons de verde sobrepostos. A capa surrada faz parte da decoração e lembra cores selvagens. Reparo melhor no local: há pequenos espelhos pendurados na parede, além de tecidos indianos – ao que me consta – e alguns colares de origem quiçá africana. Na parede ao fundo há um pequeno quadro, um portrait. Pá-pá! Um barulho parecendo se originar do andar de cima desvia minha atenção. O ruído é forte e rápido, uma batida intermitente. Talvez alguma janela que tenha se aberto. Finjo que não é comigo por alguns instantes, mas o barulho se repete: pá-pá! O vento sopra com um pouco de força. Irei enfrentar o desconhecido e fechar a janela lá em cima ou deixa-la-ei assim, batendo? O barulho incomoda-me, mas não o suficiente. Então fico ali. Em pouco tempo, o espaço entre os sons torna-se mais esparso e o ruído passa a incomodar-me cada vez menos, mecanismo cognitivo de habituação fazendo efeito.

A casa é um pouco escura e decido acender a luz para melhor apreciar ainda melhor a decoração especial, quero reparar nos contornos da lareira e, enfim, arrumar o que fazer. Poder-me-ia estender sobre o sofá e ficar ali tranquilamente, quiçá tentaria dormir. Mas estou tão desperto como quem tomou dois litros de café e curioso sobre tudo isto. De fato não é apenas a curiosidade que me aguça porém também um certo medo, uma adrenalina de um problema não resolvido, uma situação incompreendida e de um final ainda a se revelar. Havia uma angústia no ar e tive a impressão de algo de incomum estivesse a ponto de acontecer. E então me invade, com bastante força, a vontade de sair daquele lugar, um medo, um desejo de pegar meu carro e ir para não importa onde, apenas longe dali e daquele casebre amedrontador. Vejo-me, covarde, já a tocar a maçaneta da porta e sou então abençoado pelo sopro bendito da razão: não há o que temer. A mulher foi simpática, ajudou-me. Não é louca, é linda. É boa gente. Afasto pensamentos insanos, louco sou eu, não há nada de errado. Volto à saleta.

A luz que acendo não ilumina muito bem o ambiente. Os europeus, é bem sabido, não são muito fãs de luz forte e direta. A luzita que se faz atrai então minha atenção, finalmente, para o quadro ao fundo da sala. É um retrato de uma criança, parece-me familiar, talvez seja o filho dela? Seria aquele garoto parecido com o vulto que vi, ou que tive a impressão de ter visto? Era definitivamente parecido! Ou não? Ou terei tido apenas a impressão de tê-lo visto? Déjà vu? Pregará meu cérebro uma peça em mim mesmo? O vulto era definitivamente parecido com a fotografia. Ou teria a fotografia influenciado minha memória e feito com que agora eu visse uma cara no vulto que antes eu nem sequer havia estado certo de ter visto? Ora, acho que enlouqueço. De mais a mais, não parece haver ninguém lá em cima. Só este barulho esporádico: pá!, pá!

Havia me esquecido do totó, não sei por onde esteve. Mas de repente ele aparece correndo, ansioso, pula e parece querer carinho. Passo-lhe a mão na cabeça e afago-lhe o ventre, enquanto ele se deita para que eu possa melhor fazê-lo. Cães são piores que mulheres, assim de tão carentes. Ele está feliz e roça a cabeça em mim. Levanta-se. Agora empurra em mim sua cabeça e, quando eu o afago, ele se esquiva. Parece querer me levar para algum lugar. Vou na direção que ele me guia. De fato, ele me empurra com sua cabeça e fica ansiosamente andando daqui para lá, dando-me voltas e tentando me guiar a algum lugar. E vou seguindo-o até estar aos pés da escada. Ele se posiciona atrás de mim e mete o focinho em minha bunda. Ora, animal abusado! Dou-lhe um tapa ligeiro enquanto penso: deverei subir? Como explicarei tudo se a mulher chegar no instante em que estiver lá em cima a fechar a provável janela que bate? Não posso subir, não tenho este direito e isto seria invadir a privacidade dela. Além disso, de mais a mais ela poderia pensar que estou a tentar assaltá-la, ou coisa do gênero. Ela já confiou por demais em mim. Não vou subir. Olho para o integrante da matilha, penso rapidamente, dou-lhe um drible à la seleção canarinha e chego com agilidade de volta à sala. Assento-me ao sofá a esperar pela reação do canídeo. Fita-me com cara de dó ou pena, talvez apenas surpresa. Mas então vem andando calmamente em minha direção. Senta-se no sofá e coloca a cabeça no meu colo, quer mais carinho. Ah, os cães.

(...)

Fico ali por alguns instantes e deste novo ângulo em que agora me encontro, assentado ao sofá, consigo distinguir um livro que jaz jogado ao chão, num canto -- e que havia me passado completamente desapercebido anteriormente. Ah, esta casa é mesmo cheia de surpresas! O livro parece bastante antigo e tem uma capa preta com detalhes dourados, está aberto próximo à sua metade e tem sua face voltada para o chão. Curioso da literatura e da mente humana que sou, não resisto em me levantar num ímpeto para verificar do que se trata. E em meu caminho até o livro, percebo meu amigo carnívoro a levantar-se e começar a latir exasperadamente. Ignoro-o e porém, quando mais perto do livro caminho, mais o bicho late e late. Tomo então uma atitude direta, premeditada e rápida. Corro em direção ao livro e, quando toco em sua capa, o companheiro simplesmente acalma-se, levanta-se e segue calmamente em direção à escada, subindo-a lentamente até ser devorado pela escuridão do ambiente superior. Estranho este cão. Pego a obra e assento-me calmamente sobre o sofá. O livro está aberto em uma página completamente em branco, amarelo seria melhor descrição para a cor, posto que parece assim tão velho. E então quando passo as páginas em direção ao fim, percebo que não há nada escrito ali. Aquilo não é de fato um livro, porém um caderno. Folheando-o em direção a seu início percebo então do que se trata aquela obra: é um diário da autora! É o diário de minha anfitriã! Uma curiosidade enorme me invade e me dá a vontade de ser capaz de ter algum tipo de leitura dinâmica onde pudesse ler a obra assim rapida-e-totalmente-num-mísero-segundo, para tudo saber. Ah, esse ser humano é mesmo um bicho curioso... Não, não tenho essa vontade. De fato, devorarei este livro como o mais saboroso dos pratos. Fecho-o por um instante. Respiro fundo. Procuro um lugar confortável para me assentar e que não seja muito longe do local onde o livro se encontrava de modo que eu posso colocá-lo lá rapidamente no caso da minha anfitriã voltar de súbido. Pego uma almofada, escoro as costas. Encosto-me com conforto e fecho os olhos por alguns segundos.

(...)

Abro o diário então em uma página próxima ao primeiro quarto e começo a ler do que se trata. Marteïs conta a estória de certa feita em que se banhava nua num dos rios que corria ali pelos Vosges e que, tendo percebido alguém a flagrá-la em sua intimidade, sentiu-se raivosa e não hesitou em enviar seus cães a atacar o sujeito. Não está claro o fim que levara o voyeur. Passo algumas páginas em direção ao futuro e leio que houve ainda uma outra vez em que passeara pela montanha com um de seus amantes, quando faziam uma caminhada de dias -- se é que entendi bem. Houve um momento então em que eles se perderam e passaram dias ou semanas vivendo sem comer ou beber nada, apenas a fazer amor em meio à selva e aos animais que por ali passavam. E o amor que faziam, assim entendia, dava-lhes infindáveis forças para seguir viagem e tentar encontrar um rumo para a casa, sem muita preocupação. Lembro de uma frase de um livro que li recentmente: “Quando não se sabe onde vai não é preciso ter muita pressa.” Por vezes comiam algo que encontravam no caminho e, quando se sentiam cansados, sedentos ou mesmo sem motivo algum, faziam amor. E o amor que faziam preenchia todas as suas necessidades básicas de uma forma que a autora não conseguia explicar muito bem. Ora, interessante a literatura. Seria ficção ou diria realmente verdades sobre o que acontecera? Escreveria um livro, a tal francesa? Misteriosa, esta anfitriã.

(...)

Passo mais algumas páginas e encontro um lugar onde há uma marcação. Interessantemente a caligrafia da autora parece ter se modificado dali para frente, sendo que mesmo o contorno dos símbolos alfabéticos apresentam características diferentes antes ou depois deste trecho. Penso que deve haver algo ainda mais interessante a ser lido naquele trecho. Volto então uma ou duas páginas para me contextualizar sobre o que teria ocorrido e presto atenção ao texto. É noite e ela está sozinha à luz do luar, medita calmamente. A lua está cheia e ela está simplesmente do lado de fora da casa, talvez esta mesma casa, sinto que sim. Ela descreve uma grande árvore da qual teria estado aos pés. E com os olhos atentos e fixo, ela vê que os ramos e galhos do vegetal movem-se de forma a entrarem lentamente para dentro da terra, um após o outro numa sintonia e sincronia que lembrava uma dança. E depois dos galhos e folhas e flores e frutos, também a árvore inteira com seus troncos largos entrara para dentro da terra, glub. E depois da árvore, todas as coisas que iam ao seu redor iam também sendo subterradas naquele ralo de matéria viva e não vida, tudo escorria e parecia derreter para dentro da terra, como num quadro de Dali em movimento. Espaço ao invés do tempo. Ao fim, mesmo toda a terra teria se colapsado num único ponto, logo abaixo do lugar onde ela se encontrava. Em minutos, todo o sistema solar houvera desaparecido dentro do buraco, incluindo sol e lua e Júpiter e Satuno e Plutão, planeta ou não-planeta. Ela agora flutuava na escuridão, nada acima ou abaixo, ao lado ou além ou aquém. Mas a escuridão não era completa, porém luminosa, sob o brilho dos astros que a circundavam vindos doutro sistemas estelares e galáxias distantes. E então neste momento ela teria visto pela primeira vez a abóbada celeste em toda sua dimensão e completude, a circundá-la completamente -- dos pés à cabeça, leste a oeste e norte a sul. Tudo à sua volta era céu e era estrelas e teve a impressão de que sua visão alcançava 360 graus, como se tivesse vários olhos ao longo de sua cabeça e também em todo o seu corpo. Todos seus sentidos haviam transformado-se em visão. E assim ela pôde identificar algumas constelações que sabia de cor e nomeá-las, além de estrelas particulares cintilando. E percebeu também que quando olhava para outros astros era capaz de saber exatamente o nome que os antigos haviam lhe dado e com este nome compreendeu também como a cultura deles baseava-se numa forte ligação humano-cosmos. Era visão e razão, de fato. Os conceitos formados pelos humanos, agora compreendia, haviam vindo sempre da observação galática e estelar. Compreendeu a natureza humana e descobriu que não havia sido o fogo, a roda ou mesmo a pedra polida que haviam tornado o ser humano ser o que era hoje, porém havia sido o céu e a observação atenta das estrelas -- esta era a chave para compreender a base de toda a sociedade hoje existente. Era o céu, o enigma e o segredo, a resposta para a existência humana, os padrões que nossa espécie teve que seguir para ainda estar viva nessa falta de sentido absurda que é a existência. Meditou profundamente.

Voltou à razão e foi capaz de compreender que todas aquelas galáxias representavam estrelas situadas mais próximas ou longínquas de nós e que toda aquela mitologia estelar era simplesmente relativa ao lugar que estávamos no cosmo. Também as distâncias podia identificar e calcular com o olhar mais razão, desvio para o vermelho, matemática-física, Newton e Einstein e além. Concluiu que culturas inteligentes noutras partes do universo também se inspirariam nas estrelas para construir e desenvolver sua sociedade. Porém outras culturas veriam outros ângulos relativos da realidade celeste e, tendo também biologias diferentes, constituições corpóreas alternativas e mesmo sentidos diferentes da visão ou audição, tato, olfato ou paladar – propriosepção teriam? –, construiriam assim sociedades diferentes e não relacionadas àquela do humano terráqueo, limitado cognitiva e transcendentemente. Uns mais que outros. E teria sido neste momento de clareza psicológica que gerara a tal modificação epistêmica de su'alma. Sentira-se iluminada e senciente; sua vida teria se modificado para sempre. Dizia então ter entendido melhor o ser humano e suas agruras, suas práticas, sua constituição social, sua herança animal e cultural. Longe de ter o determinismo de Laplace, parecia poder prever melhor o passado e o presente, explicar melhor o futuro das sociedades, da economia e da natureza. E até nosso futuro evolutivo enquanto espécie. Entendia tudo isso mas, iluminada em estado de êxtase e nirvana, agora não mais se importava com nada. Queria apenas estar bem, estar aberta e leve e livre. Queria apenas flutuar sobre um universo de nuvens e queria sentir-se pessoa e ente, completude na vida. Queria ter um filho e queria ser mais uma vez homem e mulher, ser cultural e biológico, parte do universo natural e social e além.

Estou zonzo e, no momento em que fecho o livro, a porta se abre. Olhamo-nos nos olhos e nada precisa ser dito, ela sequer precisa notar que tenho o livro em minhas mãos. Nossa sintonia se dá por completo, compreendo-a e ela compreende-me. Somos um só naquele instante e também durante toda aquela longa e maravilhosa noite. Parto pela manhã sabendo que estou nela e ela em mim, voltarei um dia para buscar meu filho.

(...)

Abro os olhos. O livro. E então me atinge a curiosidade de saber o que a personagem que encontrei nesta casa tem feito nesses últimos dias, o presente recente. Vejo até onde o livro parece estar escrito, páginas não numeradas, e então retorno meia dúzia de laudas para tentar entender o que vem fazendo, o que anda acontecendo em sua vida nos últimos tempos. O agora, um pouco antes. Cadeia de Markov, apenas os passos acontecidos há pouco interessam. Parece estar melancólica, a anfitriã, segundo seu texto. Passa seus dias andando pelos bosques e pela natureza. Sabe de um lugar onde estão presentes um grupo de cervos e por vezes passa o dia inteiro a observá-los. Não diz nada sobre lojas ou decorações. Talvez tenha mentido, talvez escreva simplesmente algum tipo de literatura do que gostaria de ter vivido. Além da melancolia, parece estar na expectativa de um novo porvir. Diz sentir que algo importante irá acontecer em sua vida e que não pode desperdiçar toda sua energia em assuntos irrelevantes. Precisa preparar-se, posto que sente que mais uma vez o universo estaria a se colapsar em seu ventre sob a insígnia da maternidade. Diz-se sentir sexualmente aberta e delicada, diz estar justamente à espera da semente virtuosa que os astros trarão para ela em pouco tempo, segundo calendário mitológico-estelar do qual bota fé. Passa então seus dias a meditar sobre o fundo glorioso e o término de sua história de vida. Sabe-se iluminada e compreende do porvir, sabe que virá um príncipe a cavalo e que este a abordará sem que se precise tomar alguma atitude. Forças universais de união estão envolvidas. Sabe que seu papel consiste apenas em esperar e preparar-se. Confia nas predições, confia em seu sexto e sétimo sentido. Sabe que está certa e tem a calma da confiança paciente e pacífica. As datas em que escrevera não estão escritas que senão através de um desenho lunar. E começo então a ler talvez o que ela escrevera sobre o dia de hoje ou ontem. É o que penso, dado ao desenho da lua cheia que observo também no céu, lado de fora da janela. Acordara com o coração na boca, já na certeza de que o bendito dia estaria para chegar. Paro um pouco a leitura também com a emoção à flor da pele, será que ela previra de alguma forma minha chegada? Será que por isso teria tido aquela cara de "sabia que você chegaria" quando me recebeu à porta? Será que por isso fora tão simpática? Será que por isso verificamos hotéis fechados? Será que por isso? Será que por isso... Ela tivera a visão de que um homem virtuoso e másculo viria visitá-la e tinha sonhos recorrentes com esta idéia e com a interação assim tão íntima que teria com ele, como se ele fosse seu filho e seu pai, o eterno e verdadeiro amor que nunca dantes tivera. Virtuoso e másculo? Há algo errado nessa estória.
Continuo a leitura, e eis que está escrito que alguém bate à porta e ela se encaminha a abrir. Diz ser um rapaz que tivera o carro derrapando sobre a neve e está sem lugar para dormir, além de não ter onde passar à noite, pede ajuda para encontrar um hotel. Ora, esta claro que esta é minha estória. Como ela poderia ter escrito isso se eu estivera ali desde este momento? Prossigo, curioso. Na estória que conta, ela tenta dirigir o carro do sujeito e não consegue, oferecendo então ajuda em seu próprio carro. Ok, ok, próximo parágrafo... Relata seu sentimento: apesar de saber que está a espera de alguém assim tão importante, tem dúvidas se seria mesmo este o escolhido, seu príncipe e seu encontro completo consigo mesmo. Este rapaz não é um sonhador, logo se vê, ele tem dúvidas e medo, receios; não pode ser o príncipe. Ela esperava alguém decido e conhecido sobre a luz das estrelas e os segredos da alma humana, alguém que transcendesse o estado humano, não um estúpido amedrontado com as relações e desejos da insignificância humana. E assim, ela recebe um telefonema anônimo. Não é ninguém, não se diz quem é. Diz apenas que precisa encontrá-la rapidamente, sob pena do futuro do universo se colapsar em qualquer instante. E assim, finalmente seu coração palpita em alegria e ela larga tudo para viver finalmente seu grande desígnio. Deixara o mortal para trás e agora parte em direção... o livro está incompleto e agora tenho a certeza que não voltará. Deito no sofá e adormeço na absoluta certeza de não ser nenhum tipo de mitologia encarnada.

(...)

E então vou passando outras páginas do livro-diário e lendo-as rapidamente. Percebo que de fato são sempre as mesmas estórias, com pequenas modificações. Mais uma vez está ela a se banhar e o indivíduo a lhe fitar, mais uma vez manda os cães e mais uma vez anda pela montanha-floresta com o amante, sem comer, vivendo de amor. A cada página tudo se repete. A escrita é ligeiramente diferente, o ambiente também. Percebo a loucura de minha anfitriã ou alternativamente percebo como a vida dela opera em ciclos, sempre se banhando e sendo fitada ou amando como fonte de sustento de toda uma existência. Utiliza provavelmente metáforas posto que nada disso pode ser mesmo verdade. Conta a mesma história de maneiras diferentes, diferenças nos detalhes e na forma da narrativa, às vezes utiliza primeira e por vezes terceira pessoas -- narrador onisciente. Conta experiências íntimas e se vê de fora. Folheio mais algumas páginas e vejo que há outra estória ali também. Finalmente algo diferente. É inverno e ela está lendo em sua lareira quando alguém bate à porta pedindo ajuda. Ora, não é possível! Passo páginas e mais páginas e vejo que também nisto há recorrência. Há várias estórias de diferentes gentes de todo o mundo que batem à sua porta a pedem ajuda em tempo invernal, pessoas indo esquiar, pessoas desinteressantes e enfadonhas; sempre as mesmas pessoas, pedaço da massa-burra. Vejo-me como peça de um destino já escrito. Não consigo agora saber do que se trata a verdade ou a falsidade. Ficção e não-ficção. As pessoas que adentram sua humilde casa sempre têm aquele desconforto dos que rogam por ajuda e ela é sempre educada e presta seu serviço humano. Há os que chegam caminhando e os que chegam em carro. Há os que chegam a sós ou acompanhados. Estou curioso pelo fim da história. Passo os parágrafos e ela sempre vai embora e jamais volta a saber o que está acontecendo. Chega um instante em que a relação hóspede e anfitrião se torna para ela insustentável e ela sempre consegue uma desculpa para sair dali e evitar o mal estar sartreano da convivência humana, o inferno que está nos outros. E então ela retorna tempos depois, quando tem certeza que não será mais importunada pela presença alheia. E mais uma vez, no dia seguinte, vai banhar-se a ser observada novamente. E eis que é exatamente o que o futuro lhe reserva. Partirei ao amanhecer.

(...)

Livro, livro. Eis que uma página tem ali impressa uma réplica idêntica do quadro que vai à parede. Reparo na pintura que vai no papel. A criança ali pintada, filha de minha anfitriã, está a me fitar através das páginas do livro. Mexo para cá e para lá, coloco o livro à distância e a criança continua me fitando. Conheço muito bem esta técnica estilística onde não se importa onde se vá, tem-se a impressão de que a figura te observa. Não sei como se faz tecnicamente, mas sei que é possível fazê-lo e, embora saiba que se trate puramente de uma técnica, aquele medo animal que reside nas profundezas da psiquê humana me invade. A figura incomoda-me e agora também o quadro me dá uma sensação de mal estar. Tenho a impressão de que a criança quer apoderar-se do meu corpo, roubar a minha alma. E a mulher não volta. O que estará acontecendo? Terei entrado em algum tipo de portal dimensional e me encontrarei em alguma outra dimensão? Terei morrido? Onde estarei, de fato? Tudo isso não me parece fazer nenhum sentido. Preciso de chão. Levanto-me e vou até a porta. Abro-a. Do lado de fora vejo ao longe meu carro, ele está lá, ele é meu pouso, minha ligação com a realidade, minha vida, um porto seguro. Um objeto ridículo serve-me como conforto. Não sei porque estou assim ansioso, não há de ser nada. Há apenas uma mulher que me ajuda, há uma casa e há um cão, cachorro, canídeo, animal, bicho, carnívoro, melhor amigo do homem. Há também uma foto incômoda e um barulho que vem do andar de cima. A mulher irá me ajudar, mas teve que ir em algum lugar fazer alguma coisa nalgum lugar. Esperarei. O relógio taquetiqueia e os olhos da criança no quadro incomodam-me profundamente, quando observo o livro -- agora fechado -- sei que aquela foto continua a me fitar, tentando roubar o meu corpo. Sinto um incômodo que é rapidamente silenciado quando escuto algo. Fecho os olhos para melhor escutar. Será este um barulho de carro? Motor? Sim, ela voltou. Permaneço assentado no sofá e guardo o livro como estava. Cruzo as pernas como se nada acontecesse e espero a mulher entrar. Mas nada acontece, é a campainha que então toca. O que farei? Hesito por um instante. Então levanto-me e dou passos duvidosos ao caminho da porta. Abro-a. Surpreso vejo que não é minha anfitriã que está ali e sim uma outra mulher. Ela me diz que tem um problema com o carro; estava indo esquiar, mas está nevando muito e seu carro não é adaptado para a neve. Enquanto ela diz isso, o cão acorda de onde estava e chega próximo de mim. E quando olho em seus olhos, algo estranho acontece: vejo na cara do animal, o rosto do menino da pintura. Um vento sopra e me trás um calafrio. Vejo agora toda a cena se desenrolar como uma imagem longínqua, escuto um som abafado. Vejo a mim mesmo falando com a mulher e lhe oferecendo ajuda num francês que jamais seria capaz de pronunciar. Tento me mover e tomar conta de meu corpo, mas percebo que não posso. Estou parado. Estou imóvel. Estou dentro do quadro. É o menino que comanda meu corpo agora. Ele tomou minh'alma. Eles saem, passam um tempo lá fora e voltam. O menino que deveria ser eu pede para a mulher esperar ali e sai da casa. Ele leva meu corpo e agora estou convicto de que o leva para sempre. Jamais serei eu mesmo novamente. A mulher então fica ali, repara em coisa e outra. Chega perto de mim e me observa. Sou eu agora a desejar seu corpo, observo-a com profundidade. Era meu corpo que o garoto desejava, não a alma. A alma ele tem a sua própria. Cobiço o corpo da mulher para poder me ver livre da angústia de ter uma consciência e estar preso num objeto, imóvel, sem movimento, sem dor, sem nada. Eu sou um quadro. Apenas tenho olhos e mente, visão e razão. Meu inferno sou eu mesmo. Preciso sair dali ou ficarei louco em pouco tempo, em muito pouco tempo. Olho para o totó e faço com ele um trato imagético, ele me ajudará a sair dali e entrar num outro corpo, no corpo daquela mulher. Só preciso esperar o momento adequado. Preciso ficar atento quando outroguém bater à porta e, assim, quando a mulher for abri-la, passarei através do cão para o seu corpo. Ele é chave e percebo que consigo de certa forma controlá-lo. Quando olho para ele, ele entende o que falo. Ah, que prisão. Estou ansioso em ter um corpo novamente. O que faz sentido neste mundo? Nada. Qual a razão, a emoção? Significado não procurarei. Serei agora uma mulher e não me importa se ela ficará presa aqui, preciso salvar minha liberdade e minha existência, nada mais me importa. Mesmo na lei dos homens tens o direito de danar o outro se for por sua própria salvação. Não sou que um homem. Tento acalmar-me e espero ansiosamente o próximo que virá bater à porta e que me permitirá tomar-lhe o corpo. Não posso perder o membro da matilha de vista, conto com sua ajuda. Ainda assim, não consigo tirar meus olhos da mulher. Seu corpo cobiço como jamais cobicei nada neste mundo. Preciso dele como preciso de forçar esta sanidade. Sanidade, insanidade. Estou ansioso sobre como tomarei seu corpo e serei eu-ela, e ela o quadro. É só uma questão de tempo.

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