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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

24.6.09

Com açucar, com afeto

Lembro da garota que hoje me atendeu e algo em meu cérebro aponta: eu já a conhecia antes. Não sei mais se posso confiar nesta ferramenta falha que é o cérebro humano e o mecanismo de memória. É claro que já a conhecia antes, coisa de semanas. Da primeira vez que a vi não lembro de ter tido essa impressão de conhecência desde longos idos. Talvez neurologicamente possa-se explicar o caso da seguinte forma: é possível que hoje eu tenha reparado em alguma característica especial da garota que é também compartilhada por alguma amiga de longa data. Esta característica específica misturou-se entre as conexões cerebrais novas e velhas de meu cérebro e fez com que, ao perceber tal idiossincrasia da garota, meu cérebro tenha ativado redes e circuitos neuronais já bastante utilizados (noutra pessoa), fazendo com que pensasse que já a conhecia de longa data. Algum neurobiologista poderia dizer se a hipótese faz sentido.

Estou impressionado sobre como as pessoas nesse país são doces. Vindo de ano e meio na Europa, onde havia desligado completamente meu senso de brasilidade devido a questões de sobrevivência e adaptação, chego aqui e entro quase num êxtase com relação a esses pequenos relacionamentos interpessoais que temos com desconhecidos ao longo do dia. Elisa me sorri um sorriso assim tão simpático e carinhoso que dá vontade de pegá-la no colo e enchê-la de beijos. Isso porque, a menos que meu cérebro me pregue peças, eu não a conhecia anteriormente. Também a mulher do banco, uma loira linda que iria casar-se no fim da semana passada e que, hora dessas, curte sua lua de mel em algum paraíso natural desses que só Brasil tem. Ela fala comigo assim tão despojada e tranqüilamente, como se fôssemos amigos há anos. Viva o Brasil! Na França existe essa distância -- cá entre nós: ridícula -- entre as pessoas que não se conhecem e que ficam pseudo-respeitando-se ao se tratarem de vous ao invés de tu. Um tipo de pseudo-cortesia que incita à distância e medo entre os indivíduos. As pessoas não se amam na Europa. Elas apenas se suportam. Foi mesmo Sartre que disse que o inferno são os outros. No Brasil, os outros são o céu.

A garota da Moldávia, de lábios carnudos e deliciosos de se beijar, disse-me que eu era doce. Foi a primeira vez que alguma garota classificou-me com tal adjetivo. Ao fim da minha adolescência, chamavam-me de grosso ou tosco. Diziam isso porque sempre fui mais sincero do que deveria ser ao invés de seguir o caminho padrão da hipocrisia. Mas eles estavam enganados: sinceridade e grosseria não são a mesma coisa. O alemão que o diga. E a bela moldaviana é que realmente conseguiu entender-me, ela que também está entre as pessoas mais delicadas e belas que já encontrei neste meu caminho em direção à morte. O problema dessa garota era seu entrave de viver. Fato comum naqueles que não conheceram jamais os escritos ou canções de Vinícius de Morais. Há muitos assim também por todo o mundo, pessoas com medo de revelarem-se e divertirem-se. Certamente isso é herdado de uma filosofia cristã que tenta nos dizer que tudo é pecado e reprime-nos de fazermos o que bem desejamos. Daí ficamos assim reprimidos de nos soltarmos, liberar-mo-nos, mesmo quando isso é a coisa que mais queremos fazer. Esquecemo-nos que só vivemos uma vez e que nada faz sentido, exceto o prazer. E assim, restou-me apenas uma promessa de amor, no futuro. Além da vontade, de ambos. Ora, queria saber quem foi que inventou a palavra pecado.

A outra garota da recepção é até mais gostosa: tem peitos salientes que saltam à vista no decote de país tropical. Salve o Brasil! Mas não tem aquele charme adocicado que a moreninha esbanja. Qual o quê? Nem por um instante trocaria este bem-moldado par de tetas pelo jeito meigo e o sorriso natural da moça que de alguma forma conheço há tanto tempo, há tão pouco tempo. É o teu qualquer coisa além da beleza, Vinícius. O alguma coisa no jeito que ela se move e que atrai Harrison mais do que às outras. Ah, a música como expressão do lirismo que há no mundo. Definitivamente: não é doce nenhum que faz homem parar em casa.

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2 Comments:

OpenID obarseular said...

Boas vindas então, meu caro.
Simples e maravilhosa sua crônica.
No início voce me lembrou esse livro essencial que é "Abdias" do Ciro dos anjos, escrito especialmente para neuróticos mineiros, como voce e eu. "Que me desculpem os que preferem o estilo sublime. O demônio da análise, que me acompanha, compraz-se em despoetizar as coisas”. O demônio da analise tb te acompanha e vai falando de cerebro e neuronios quando em absoluto não é nada de que se trata.
é isso..abraço!!

8:29 PM  
Blogger Ricardo said...

São 5 da manhã e eu aqui! Texto sensacional!
Abraço

5:06 AM  

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