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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

26.7.09

Não sou fêmea de uma noite só

Não que eu tenha querido de certa forma magoá-la ou simplesmente deixá-la na posição em que não quisesse estar por efeito de uma maldade, abuso de poder ou vingança com relação ao dano que seus antepassados fizeram em meu povo. Apenas esta frase título que me dizia continuou retumbando em minha cabeça até que eu tivesse chegado finalmente à conclusão extrema de que eu não poderia estar interessado em alguma garota que realmente se importasse assim com tanto zelo em ser ou não ser fêmea de uma só noite. Simplesmente essa preocupação extrema com a preservação de um ideal moribundo de puritanismo tirou de mim qualquer vontade ou desejo que eu tivesse posteriormente em revê-la; incluindo o formato avantajado e maravilhoso de suas ancas. De fato, nossa diferença cultural havia deixado passar batida sua vulgaridade. Micro-saias que não apenas evidenciam sua alma sexual excessivamente reprimida, como mostravam, pelas ocasiões quando utilizava, certo mau-gosto. Tudo isso atiçou em mim um nojo extremo por aquela mulher que, desde então, decidi por melhor evitar. Viajaria em menos de uma semana e planejara que eu a visitasse assim tão longe no fim de semana seguinte. "Mas já?", retruquei. Queria mudar de vida e estava assim tão certa de que eu a acompanharia; tal qual a um cachorrinho domado. Ah, quão errada não esteve. "Um brasileiro certamente não negaria a companhia ou um provável relacionamento de longa-duração com uma francesa da minha estirpe", deveria ter pensado. E não que eu não tivesse inicialmente me apaixonado, de certa forma, por ela. Era linda e parecia interessante, era de certa forma despojada no visual em meio àquele antro de seguidores da moral e dos bons costumes. Só no último de nossos encontros é que de fato pude vê-la como a moralista tradicional que verdadeiramente era.

De fato, conversas-pré naquele mesmo dia, já haviam evidenciado o quanto um ligeiro pensamento estereotípico que eu pensei que tivesse sobre meu povo mostrara-de de fato enormemente estereotípico, incorreto e -- arrisco-me -- ignorante. Como uma garota viajada e já tendo morado assim em tantos países, pensei que tivesse a mente aberta e um conhecimento antropológico absorvido na pele que fosse suficiente para questionar certos padrões sociais e visões moldadas de determinados sítios do globo. Mas provavelmente vivera numa bolha, onde quer que estivesse. De fato, a noite toda se desenrolou de uma forma em que minha vontade por ela foi diminuindo com o passar das horas e, se chegamos à cama em algum momento e ali tentamos enganar nossos genes egoístas, tal evento se deu apenas em consideração ao tempo já gasto na empreitada e em suas proeminentes, bem delineadas e já comentadas: ancas. Mas a decepção intelectual já estava irremediavelmente instalada.

Pior ainda foi quando descobrimos, evento terminado, que o aparelho emborrachado anti-concepcional havia estourado tal qual a força e a vontade de sua extrema repressão sexual. Revelando ainda que estava em dia fértil, demonstrou total desconforto com a sugestão da utilização da pílula do dia seguinte e chegou mesmo a repetir ideais claramente cristãos com relação ao pecado do aborto. Revelei-lhe então, pisando em ovos, de que não estava certo de que gostaria de ficar com ela em longo-prazo e que nossa relação era por demais incipiente para arriscarmos tanto. Mas foi só quando lhe disse que eu poderia voltar a qualquer momento para meu país -- e assim, abandoná-la -- que começou a mudar de idéia sobre nosso suposta -- e naquele momento tão real -- prole. Primeiro disse que tomaria a pílula do dia seguinte no dia seguinte, quando acordasse e fosse à farmácia, mas não confiei um segundo em suas moles palavras. Só depois de dezenas de minutos de argumentação é que consegui convencê-la a irmos juntos a uma farmácia, às 4 da manhã de um domingo francês, para comprarmos a bendita. Pegamos meu carro e seguimos até uma das únicas farmácias abertas da cidade. Fez questão ainda de ler a bula completa do medicamento antes de ingerí-lo e chegou a argumentar que não a agradaria tomar aquilo, posto que assim encheria seu corpo de hormônios artificialmente produzidos. Dada minha atitude de jogador de pôquer, colocou a pílula então na boca e não duvido que não a tenha engolido. Mas fez que sim, trocou mais duas idéias pedindo que a encontrasse no dia seguinte e então partiu.

Desde então desliguei por completo minha ligação com a garota. Foi-se em viagem e deletei-a das ferramentas de bate-papo. Jamais atendi novamente seus telefonemas e respondi apenas o primeiro e-mail que enviou, dizendo que um relacionamento de longa-duração não era coisa que se decidisse assim de um dia para o outro. Disse-lhe que era preciso amar e que ela, como mulher, deveria saber disso ainda antes de mim. O amor não acontece num simples clique, porém é algo que se constrói com delícia e tempo de convívio. E disse que eu achava que não gostava dela o suficiente para ficarmos juntos. Mas ela já havia dado seu corpo a mim (e vice-versa) e aquilo parecia ter um peso imenso para ela, de maneira que talvez contasse nos dedos de uma só mão os homens a quem houvera assim se dado. Em princípio ainda cogitou fortemente que eu viajasse a encontrá-la. Um mês depois, tentou novamente marcar um encontro que ficava duvidoso se seria a sós ou não; depois disse que o referido rendez-vous teria outros amigos e que nos relacionaríamos apenas como bons amigos. "Como poderia ser outra coisa?", repliquei. Dada minha total falta de resposta a quase todas suas tentativas de aproximação, parece ter finalmente cansado da investida e me deixado em paz. Meses passados, relatos de alguns amigos em comum parecem evidenciar que não sou pai de nenhum garoto francês. O que fiz apenas foi utilizar e ser utilizado por uma francesa, com consentimento mútuo, numa noite de sexo. Fêmea de uma só noite... de um sexo que poderia ser sido mágico, se não fosse para ela uma reprimida e libertina realização de um grande pecado.

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Ainda não consigo entender o que passa pela cabeça de um indivíduo de cultural ocidental que pensa o casamento como um simples contrato entre pessoas solitárias para dividirem a estupidez de suas vidas. O amor e o carinho que se constrói de tais relacionamentos não me parecem jamais naturais e a indiferença com a qual o casal se trata é digna de pena, para dizer um mínimo. Se há algo que não desejo nem mesmo ao meu pior inimigo é ter um tipo desses casamentos-contratos, onde não se conhece o significado da palavra amor, embora se conheça a palavra confiança ou um tipo de companheirismo individualista. A mulher era simplesmente uma solitária balzaquiana vinda de um contrato malfadado de casamento onde faltava-lhe, notoriamente, o bom sexo; dentre outras sentimentalidades. Só um verdadeiro poeta e amante, doador completo e descompromissado de todo seu tempo-livre ao mundo do lirismo, é que pode amar de forma plena e eterna, uma mulher. O que disso se afasta, encontrará cedo ou tarde a perdição e o simples fim.

Mulher, que no francês é femme e que se traduz mais lírica e biologicamente como fêmea. A frase original: "Je ne suis pas une femme d'une seule nuit." Porém foi este seu malfadado destino; assim como o meu, que estou sempre esperançoso, em busca de um algo-mais.

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1 Comments:

Blogger Rafa Pros said...

PUTAQUIUPARIU!!!!
Caramba...das melhores crônicas sentimentais que já li. (De verdade).
Digna do que há de melhor no velho Braga.

Na verdade sente-se no correr do texto, que aliás tem um ritmo muito bem cadenciado, a preguiça dessa relação, o "ensebado" da mulher, enfim, compreende-se o que se passa. Gostei de tudo, mas em especial desse trecho, acho que ele exemplifica o que mais gostei do texto, o ritmo e a preguiça.

"Pior ainda foi quando descobrimos, evento terminado, que o aparelho emborrachado anti-concepcional havia estourado tal qual a força e a vontade de sua extrema repressão sexual. Revelando ainda que estava em dia fértil, demonstrou total desconforto com a sugestão da utilização da pílula do dia seguinte e chegou mesmo a repetir ideais claramente cristãos com relação ao pecado do aborto. Revelei-lhe então, pisando em ovos, de que não estava certo de que gostaria de ficar com ela em longo-prazo e que nossa relação era por demais incipiente para arriscarmos tanto. Mas foi só quando lhe disse que eu poderia voltar a qualquer momento para meu país -- e assim, abandoná-la -- que começou a mudar de idéia sobre nosso suposta -- e naquele momento tão real -- prole."

6:24 PM  

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