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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

9.8.09

Eu que


Eu que já andei por montes congelados, senti o frio em minha espinha, andei também por desertos dos mais quentes e cobri-me de mantas para afastar o calor, passei ainda por florestas temperadas de temperatura agradabilíssimas que se tornavam apavorantes ao cair da chuva tropical, onde o dia se transformava em noite. Eu que já vivi no novo e no velho mundo, convivi com pessoas de todas as raças e estirpes, gente com e sem educação, pessoas com muito amor ou rancor no coração. Eu que já pensei em tanta coisa, que não tive medo de dizer o que pensava, já passei tantas vezes por idiota, por gênio e ingênuo. Eu que já engoli tantas palavras sem necessidade e que ainda outras, muitas outras, numerosas outras, infinitas, cuspi sem precisão. Eu que nunca consegui ver a desigualdade e a injustiça sendo feitas sem reagir contra elas com um fervor e uma voracidade que jamais pensei encontrar em minha doce alma. Eu que por tantas vezes já amei e já fui amado...

Desta vida não espero nada, não tenho objetivos ou ambições; ou grandes vontades ou temores. Faço apenas o que parece certo e vivo um dia depois do outro num carpedinear cheio de constantes e imprevisíveis inconstâncias.

Eu que já errei tantas vezes e que cometi os maiores pecados. Eu que já não soube viver sem que me respeitassem e que já senti tantas vezes falta dos meus, falta de vocês que me lêem e que comigo se unem, transformando-se em parte de mim. Eu que já fui parte de tanta gente e que já ouvi os meus maiores sonhos da boca de outros, desde os gregos até os sambistas, todos virtuosos. Eu que já estou morto e que portanto não tenho porque temer a morte.

Sobrevôo neste instante a amazônia e tenho em minhas mãos este computador. Em casa, ainda não tenho sequer cama, não tenho mesa ou cadeiras. Assento-me no chão. Mudei tantas vezes com tantas coisas: apenas livros e idéias. Agora tenho medo do meu vizinho de assento e dos que passam aqui ao lado a surrupiarem o que escrevo indevidamente. Tenho mais vergonha dos meus textos não terminados do que de minha nudez, carapuça desolada.

Eu que já não soube tanta coisa e que tanta coisa já aprendi. Eu que um dia não soube sequer ler, e não falo de minha infância. Eu que já li tanto sem refletir, sem conseguir ou tentar interpretação. Hoje só leio com extrema atenção, leitura minuciosa sempre tentando encontrar nas entrelinhas o bem maior e o prazer da leitura, delírio interpretativo. Não gasto mais meu tempo com nada que não seja eterno e que não vá arranhar em mim fagulhas que durarão até o tempo do fim. Não existe mais televisão no meu mundo e todo meu entretenimento é educativo, meu ócio, criativo. Perco sempre meu tempo a refletir e a descançar. A meditação ilumina e lança luz sobre os aspectos mais gerais de minha vida pessoal e profissional. Não tenho objetivos porém responsabilidades, sou ferramenta hedonista para mim mesmo e igualitária para esta sociedade decadente, herdeiros de uma tradição cristã moribunda, suja e desigual.

Odeio o capitalismo tanto quanto gosto de coca-cola. Odeio a tecnologia e os avanços impensados do conhecimento técnico que correm apenas para chegarem aos bolsos de alguns, tão poucos. Amo a busca pelo conhecimento, a ciência e o saber altamente desenvolvido e limitado que temos. Mais que da ciência gosto da filosofia posto que ela está mais frequentemente afastada deste fazer e acontecer no qual gira a roda do mundo do capital que tanto me amargura.

Quero crescer moral e intelectualmente. Quero sempre aprender e estar vivo, respirar o mundo e encher meus pulmões com esta benção tóxica que é o ar e o oxigênio. Quero ser saudável pero no mucho. Quero viver cada momento e morrer em qualquer momento com a certeza da vida vivida e do meu despreocupar de todas as irrelevâncias. Não gasto absolutamente nenhum segundo de meu processamento cerebral com irrelevâncias, e tudo no mundo são irrelevâncias, por isso com nada me preocupo. Tento me livrar de todo pensamento moralista que consigo e se observo as coisas é para me satisfazer e conhecê-las, jamais para julgá-las; ou ao menos tento, com empenho, não fazê-lo. Ando com pessoas porque as amo; e amo todas dentre as que não conheço. Das que conheço, são poucas aquelas que me decepcionaram ao ponto do desgosto; essas simplesmente ignoro e passo ao lado. Não as odeio, apenas evito-as; prefiro viver longe delas.

Tenho um impulso criativo que as vezes se aflora e as vezes se enconde, incontrolável que é. Tenho amor e ódio pela humanidade e pela história podre e fedorenta das civilizações, que nos trouxe até onde agora estamos. Nunca gostei de ciência aplicada e não sei se a ciência de fato melhora ou piora a vida do ser humano. Não sou nenhum fã exagerado de novas tecnologias, nem mesmo na área de saúde e não estou certo de que fazer os humanos viverem mais -- eu incluído -- seja uma boa idéia. Sou um cientista já fracassado em ideologia e não sei onde chegarei, se é que chegarei a algum lugar. Talvez um dia faça uma longa viagem filosófica e psicológica, talvez vire um tipo de monge, do tipo do que pratique sexo e, de preferência, com alguma mulher linda e interessante.

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