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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

12.8.09

A verdadeira face do tempo

Não tinha cansaço nem tipo, ódio ou ranço, cegueira ou perfeição. Era um misto de tudo e de todos, cultura encarnada que se faz viver por maneira qualquer de seguir uma linha que lhe havia sido imposta. Linha esta que, de mais a mais, motivos não tinha para a interromper; nem mesmo vontade. A única interrupção possível, de fato, seria esconder-se de tudo e de todos nalgum interior longínquo e desabitado, onde poderia gritar conta tudo e todos e não ser afetado pela reação oriunda de sua ação; na física ideológica do mundo moderno. Para tomar tal atitude, entretanto, seria necessária extrema coragem e bastante desapego; características que lhe faltavam. Seguia porque seguir era o caminho: decisão única possível dadas as atuais conjecturas.

Duvidava antes de tudo. De certas coisas, porém, mais que de outras; e constantes dúvidas ideológicas deixavam-lhe sempre à beira de encruzilhadas. Em certos momentos seguia um caminho convicto, cabeça à frente, olho ao horizonte, pé-ante-pé; direto e preciso. Mas dava sempre de cara com portas cerradas, vigiadas por pontos de interrogação gigantescos que atacavam-lhe a alma com lanças e espadas das mais pontiagudas. Psicologicamente ferido e perdido, retornava até a última encruzilhada através do mais próximo atalho. E quando então dava por si percebia que o número de caminhos a seguir havia se multiplicado ainda mais. A grande interrogação o observava. Via como outros ao seu redor haviam seguido certos caminhos e que agora estavam bem consigo e com o mundo, isso lhe apontava ideais a seguir e assim supostas ideais a abraçar; até que encontrasse novamente com a porta cerrada e a tal da interrogação vestida em trajes de guerra. O caminho de cada um, realizara, era diferente. Continuava em busca do seu, indo e voltando, por vezes andando em círculos e sem jamais ter qualquer convicção. Sejamos precisos, nosso personagem estava perdido. Questionava-se não apenas sobre o mundo e sua essência, questionava-se não apenas sobre as idéias e suas direções, questionava-se não apenas sobre a existência, mistério cartesiano ainda não resolvido. Questionava apenas e as questões eram sua tanto sua arma quanto seu algoz neste mundo tão distante da Atenas pré-cristã. Este herdeiro de Sócrates duvidava mesmo de seu mestre e ao questionar suas questões acabava por ver-se num labirinto sem saída que só trazia ainda mais e mais dúvidas e faltas de sentidos. Em Sartre buscava somente conforto, jamais respostas. Lia os grandes e dividia com eles suas dúvida e pesar, mas sabia que não chegaria jamais em suas alturas. De fato, temia um dia conseguir poder e fama; escondia-se tanto quanto podia e dava tiros no pé ao longo de sua carreira profissional para manter-se escondido. O que queria mesmo era poder brincar e pular, queria era poder ser criança todo dia e toda hora. Era este seu desejo último, e em seu íntimo arrependia-se do dia em que decidira ser adulto. O tiquetaquear do relógio, porém, deste mundo subdesenvolvido; o avançar das horas e a força do capital corre-corre seguiam oprimindo-lhe e matando-lhe, sugavam-lhe alma e sangue, oprimiam sua luta pela vida e sua vontade de viver; aquela sua vontade de seguir e sorrir, sua vontade de amar e ser um só com seu amor. Sentia-se um prisioneiro da sociedade e seu sonho era ser um dia livre, tendo todas as vinte-e-quatro horas de seu dia para si.


À razão, nosso herói venerava tal qual deusa, mas sabia que não era onipotente ou onisciente. Sabia da artificialidade destes conceitos. Via assim suas limitações e falhas, mesmo assim não a abandonava, seguindo com ela pelas beiradas dos montes do saber, tomando sempre cuidado para não cair ou não afundar no excesso da verborragia científica e técnica; instrumentos dotados de enormes antolhos. Sabia que o mundo era mais do que isso que os humanos conseguiam compreender e, embora lhes desse enorme crédito por tudo o que haviam feito, descreditava-lhes sua arrogância dawkiniana em pensar que tudo fosse mesmo assim; e ponto final. Apenas na arte era capaz de explorar-se e explodir-se, embora fosse ainda limitado por todo esse ensinamento careta do mundo, todo esse representar e classificar foucaulniano, tão falso e tão falho, tão útil e tão inútil, tão certo e tão pequeno, simples, ignóbil e assimesmo: belo.

Da humanidade tinha pena e orgulho. Mais pena. Bastante orgulho. Sua herança ocidental e miscigenada era latente e seu sentimento de unidade para com o mundo era contínuo, forte, vigoroso. Via com certa clareza, talvez enganada, os benefícios e malefícios de uma cultura intelectual que se afastava a passos largos da simplicidade assim tão agradável da vida do animal humano. Somos nós os algozes de nossa própria preocupação capitalista, lobos de nós mesmos é o que somos, Mister Hobbes. Do que mais precisa o homem que alimentação e amor? Ainda assim, todo o construto social com suas falsas necessidades erigia um novo modelo de vida tão falso e estranho, superficial, inatural, absurdo e egoísta, fechado, bloqueado, cego, claustrofóbico, vigiado, trabalhófilo, irrecompensável e estúpido, dado que só se vive uma vez.

Seguia porque seguir era um verbo – ação! –; um rumo díspar. Vivia em meio a todas estas encruzilhadas e não estava certo de que seria um... andava em círculos que, se colocados ao longo da variável tempo poderiam ser vistos como espirais. Seguia rodando e rodando, sem rumo claro ou possibilidade de vitória. Via idiotas tornando-se grandes e passava a temê-los. Dê poder ao homem ignorante e sofrerás as conseqüências. Entendia melhor como a suposta "roda da fortuna" girava e, embora fosse plenamente capaz de pular dentro dela a fazê-la rodar com velocidade, preferia afastar-se temeroso e pregar em sua porta a maravilhosa palavra: simplicidade. Sabia o que estava perdendo, mas jamais se venderia. Não seria de todo impossível que um dia fugisse e fosse viver num mosteiro qualquer, em eterna reflexão e paz. Nuvens apareciam e se dissipavam, acreditava na educação ampla e queria ser educador, um verdadeiro e bom educador. Queria mostrar aos novos seres humanos, os únicos que podem ser ainda salvos, a amplitude do pensar e do saber; assim como suas inúmeras limitações. Tudo isso podia, era, ia, vinha e saia de sua mente enquanto divagava pelos montes desconhecidos do conhecimento humano. Não era direto porém metafísico, não era ocidental ou oriental e jamais se encaixou muito bem em qualquer conceito quadrado que o tentassem atachar. Era uma incógnita e um motivo, um poço sem fim, uma unidade conjunta do saber e da ignorância; era apenas mais um ser humano em eterna reflexão.

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