Aurora ao meio-dia
Era um dia quente de Abril e eu andava sem motivações pelos campos secos de minha cidade natal quando fui repentinamente abordado por oficiais da ordem que me algemaram e agora me empurravam nalguma direção desconhecida. O que eu dissesse, disseram, poderia ser utilizado a favor do tribunal acusatório, caso eu tivesse direito a ele. Em dúvidas do que então desdizer contra a minha própria pessoa, veio-me à cabeça um poema daquele Pessoa, Álvaro de Campos, que recitei por completo -- talvez trocando uma ou outra palavra, da qual a memória me mancava, por outras quaisquer que me teriam me parecido apropriadas naquele instante: "Se queres matar-te, mata-te!" E assim, tendo-lhes incitado o suicídio, um dos ordeneiros que me fazia de refém pegou sua pistola e apontou à sua própria cabeça, perguntando-me o que deveria fazer. E minha contínua expressão de jogador de poker fê-lo apenas apontar a arma à minha cabeça e, dado o contínuo da nulidez facial, desistiu deste quem vos fala e apontou-a então à cabeça de algum transeunte qualquer que por ali se promenava. Sabendo então das arbitrariedades que ocorriam naqueles tempos sob a insígnia de uma moral e de uma ordem que não eram partilhadas por ele, o sujeito gritou em prantos e rogou por sua vida. E quanto mais falava, mais nos era possível ver seu algoz mascarado inflando-se em gozo -- posto que eram momentos como aqueles que o faziam sentir-se um verdadeiro homem. Era submeter seus próprios concidadãos ao medo e à apreensão que lhe dava o maior de todos os prazeres. E do alto de autíssima estima, gritou então palavras de ordem, afirmando o assassinato e sua autoridade. E quando puxou o gatinho não se ouviu outro barulho que senão o giro em falso do tambor da arma que ia sem projéteis. Sorriu uma risada sinistra e mórbida, empurrando o defecado ao chão. Havia demonstrado seu poder e agora seguia gargalhando a empurrar-me até não-sei-onde.
Entramos num prédio da agência governamental para a ordem e o progresso. Ali dentro tratavam-se uns aos outros com um respeito amedrontador. Não se parecia compreender o significado da palavra amizade e uns olhavam aos outros com um receio pior do que o que tinham de si mesmos. Entramos num elevador velho e caquético que permaneceu descendo por vários minutos antes que a porta se abrisse e desse num átrio isolado, cheirando algum químico que não pude de pronto reconhecer. Fui empurrado sem gentileza por corredores e mais corredores até que não tivesse qualquer idéia de onde estava. Jamais proferi palavra ou demonstrei medo ou coragem. Era não mais do que um zero à esquerda. Colocaram-me então dentro de uma cela que apenas posteriormente me dei conta de quão enorme era e de quantos outros macacos não se encontravam por lá. Era uma verdadeira selva e os indivíduos ali presentes pulavam de árvore em árvore e gritavam uns com os outros. Batiam no peito, mostravam os caninos e faziam demonstrações ininterruptas de suas forças físicas uns para os outros. Compreensão mútua era um conceito faltante naquele lugar e o quando finalmente encontrei um canto escuro e desapercebido à tudo que por ali acontecia, sentei-me e esperei-me enlouquecer. E ali passaram os dias: sol e lua, sol e lua, sol e lua. Mas eu não consegui enlouquecer, logo eu que sempre me pensara assim tão próximo da linha divisória da lucidez. E assim, em minha completa sanidade, eu não poderia mais aguentar um único virar soluário naquela imensidão ineducada de macacos tão brutos. Aproximei-me da beirada da cela e bati com um graveto nas grades sem qualquer esperança de que o som pudesse ser ouvido por qualquer um e que houvesse ainda que uma mínima possibilidade de algum sujeito de compaixão ali chegar para me soltar. Mas eis que fui bem sucedido na empreitada e logo aproximou-se um ordeiro para escutar meus lamentos. Dado que não pôde escutar o que eu dizia através da grade, abriu-a sem utilizar chave e tirou-me lá de dentro. Convenci-lhe de minha educação clássica e disse que não poderia mais aguentar uma jornada que fosse ali dentro. Ele mostrou um ar de compaixão ignorante ou de completa incompreensão, talvez. Fato é que segurou meu braço e encaminhou-me por entre corredores e mais corredores e corredores ainda, até que eu me visse perdido. Soltou-me então e disse-me: vá para onde quiseres. Vaguei então por aquele labirinto perdido sem conseguir encontrar ser humano qualquer. Andei por portas e portas que se abriam e fechavam. Portas que davam em paredes, paredes que se interrompiam em portas. Encontrei então um conjunto desses lugares cercados de grades e entrei num ou noutro, apenas para me certificar que continham o mesmo tipo de animais daquele outro recinto onde houvera estado. Assegurei-me que aqueles sítios não eram pouso para meu ego. Ao menos havia aprendido a agora entrar e sair livremente de tais abismos da alma. Numa feita encontrei um ordeiro ao meio do caminho que pegou-me e ofereceu-me socos e pontapés gratuitos que tive por obrigação de aceitar, dada minha situação calamitosa. Depois de saciar-lhe a vontade de violência, perguntei-lhe se poderia levar-me àlguma biblioteca. Tão agradecido a mim quanto um lutador ao seu saco de pancadas, segurou-me então no braço e encaminhou-me por entre corredores e mais corredores e corredores ainda, até que eu me visse novamente perdido. Por fim, jogou-me numa sala que não era de grades, porém de porta: madeira maciça. Empurrou-me lá dentro e fechou-a atrás de mim, virando a chave. Desta vez eu estaria de fato trancafiado. Lá dentro percebi que era noite e -- dado a ausência de luz artificial -- havia ali apenas certa claridade proveniente da lua e das estrelas, permitindo-me ter uma idéia bastante vaga do que ali se encerrava. Em dúvida se gastaria neurônios formando uma imagem falsa do recinto, naquele momento, decidi interromper meu processamento cerebral e apenas acocorar-me a um canto, esperando que a luz solar me permitisse ter uma visão suficientemente precisa sobre onde eu me encontrava. Não tardou e o levantar do sol, mostrou que qualquer idéia que eu fosse ter sobre o lugar no período noturno, teria sido falsa. A economia neuronal não havia sido em vão. Isso posto que de uma biblioteca esperava-se corredores e mais corredores com prateleiras e mais prateleiras rabiscadas de livros e história e filosofia e literatura; informações sobre o homem que, de tão imensas, jamais seríamos capazes de tocar ou apreender, deglutindo-as com nossa consciência limitada e uma vez dada nossa finitude perante o tempo. Mas eis que eu me encontrava de fato em uma sala pequena, onde haviam duas escrivaninhas grandes. Em uma delas, assentava-se uma senhora que de tão velha talvez fosse nos seus duzentos e treze anos, quiçá ainda mais. Olhei para ela e ela me retornou um sorriso que dizia: ah, finalmente um companheiro intelectual. Atrás de cada uma das escrivaninhas havia simplesmente uma pequena prateleira com cinco ou seis andares que poderiam conter talvez cinquenta livros cada, dispostos em colunas. Eram apenas trezentos livros e a mulher disse, olhando para os seus: "já os li todos", completando: "já os decorei". E então começou a citá-los; e deve ter recitado umas duzentas e dezenove páginas até que interrompesse seu português de antigamente para dizer: "é bom que o senhor esteja aqui". Mas eis que era apenas a prateleira dela que estava repleta de livros, enquanto aquela que seria supostamente a minha se encontrava simplesmente vazia. Ela me disse para que assentasse em meu lugar. Encaminhei-me até a cadeira da outra escrivaninha e quando ainda testava sua confortabilidade, cresceram raízes da cadeira que prenderam nela meus braços. Outras vieram do chão e prenderam também meus pés àquele lugar, de forma que dei-me conta finalmente que permaneceria ali porquanto durasse em mim o sopro vital. E quando virei-me de costas e observei de novo a prateleira, percebi que ia repleta. E ali estava todo o conjunto das obras que formavam como um intelectual. Algo como se meu cérebro e todo meu conhecimento tivesse sido lido e transformado nas obras que mais haviam marcado minha existência cultural e meus estudos desde que começara a transmutar meu cérebro animal num cérebro social e cultural. Entretanto as seis prateleiras transformaram-se em oito e esticaram-se horizontalmente. A velha ficou surpresa e observou-me então com admiração e fascínio. Também eu não entendi o que acontecera. Retruquei à velha o olhar, percebi também que raízes a prendiam ali mas que, não obstante, era-nos possível ter uma certa mobilidade medida em metros. Aproximei-me de sua escrivaninha e reparei nos títulos dos livros de sua biblioteca própria. Percebi que era então filóloga e que talvez todo o conhecimento que se tinha acumulado até sua época sobre as mais diversas línguas e origem das palavras iam em sua biblioteca pessoal. Ela disse perceber-me científico e adorador da dúvida epistemológica. Sempre houvera também interesse sobre este assunto e revelou-me que jamais fora tão feliz desde há muito, posto que já via lido e relido por tantas vezes sua própria biblioteca e agora um novo mundo se abria para o sua ânsia de conhecimento. Minha chegada lhe fazia alcançar um novo limite da intelectualidade e poderia fazer-lhe compreender melhor sobre tudo que acontecia ao mundo e quiçá a si mesma. Talvez um dia, disse com esperança, conseguisse descobrir o segredo de tudo e assim descansar em paz. Argumentei que não havia grande segredo algum e tudo era caos desordenado sob a luz da interpretação cognitiva humana, mas ela continuou. Estava desde há muito presa à vida e àqueles livros, pelo menos agora teria novos horizontes para avançar. Conversamos por todo o dia e à noite também continuamos a trocar idéias sem que nada víssemos. Quando o sol do dia seguinte iluminou a sala, havia uma nova mesa ao lado da minha e da dela, totalmente desocupada, com uma outra estante a lhe acompanhar. E a velha, percebendo minha curiosidade, disse de ímpeto que eu não criasse naquela mesa muita esperança posto que décadas e mais décadas haviam se passado sem que ninguém adentrasse aquele recinto. E que eu não deveria esperar realmente a ocupação daquele lugar tão cedo. De fato, repreendi-a, não esperava nada, apenas me surpreendia posto que aquela mesa e estantes não haviam estado ali antes. No que ela disse citando Hamlet do fundo do coração com a voz que só tem aquele que passa séculos sem nada dizer e como só se pode fazer quem já incorporou as obras literárias em seu âmago através da leitura fiel, contemplativa e repetida de todos os versos, por centenas ou milhares de vezes: "há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia". E tendo dito isto, pegou um Aristóteles em minha prateleira e, com uma ansiedade graciosa e infantil, partiu a devorá-lo.
Entramos num prédio da agência governamental para a ordem e o progresso. Ali dentro tratavam-se uns aos outros com um respeito amedrontador. Não se parecia compreender o significado da palavra amizade e uns olhavam aos outros com um receio pior do que o que tinham de si mesmos. Entramos num elevador velho e caquético que permaneceu descendo por vários minutos antes que a porta se abrisse e desse num átrio isolado, cheirando algum químico que não pude de pronto reconhecer. Fui empurrado sem gentileza por corredores e mais corredores até que não tivesse qualquer idéia de onde estava. Jamais proferi palavra ou demonstrei medo ou coragem. Era não mais do que um zero à esquerda. Colocaram-me então dentro de uma cela que apenas posteriormente me dei conta de quão enorme era e de quantos outros macacos não se encontravam por lá. Era uma verdadeira selva e os indivíduos ali presentes pulavam de árvore em árvore e gritavam uns com os outros. Batiam no peito, mostravam os caninos e faziam demonstrações ininterruptas de suas forças físicas uns para os outros. Compreensão mútua era um conceito faltante naquele lugar e o quando finalmente encontrei um canto escuro e desapercebido à tudo que por ali acontecia, sentei-me e esperei-me enlouquecer. E ali passaram os dias: sol e lua, sol e lua, sol e lua. Mas eu não consegui enlouquecer, logo eu que sempre me pensara assim tão próximo da linha divisória da lucidez. E assim, em minha completa sanidade, eu não poderia mais aguentar um único virar soluário naquela imensidão ineducada de macacos tão brutos. Aproximei-me da beirada da cela e bati com um graveto nas grades sem qualquer esperança de que o som pudesse ser ouvido por qualquer um e que houvesse ainda que uma mínima possibilidade de algum sujeito de compaixão ali chegar para me soltar. Mas eis que fui bem sucedido na empreitada e logo aproximou-se um ordeiro para escutar meus lamentos. Dado que não pôde escutar o que eu dizia através da grade, abriu-a sem utilizar chave e tirou-me lá de dentro. Convenci-lhe de minha educação clássica e disse que não poderia mais aguentar uma jornada que fosse ali dentro. Ele mostrou um ar de compaixão ignorante ou de completa incompreensão, talvez. Fato é que segurou meu braço e encaminhou-me por entre corredores e mais corredores e corredores ainda, até que eu me visse perdido. Soltou-me então e disse-me: vá para onde quiseres. Vaguei então por aquele labirinto perdido sem conseguir encontrar ser humano qualquer. Andei por portas e portas que se abriam e fechavam. Portas que davam em paredes, paredes que se interrompiam em portas. Encontrei então um conjunto desses lugares cercados de grades e entrei num ou noutro, apenas para me certificar que continham o mesmo tipo de animais daquele outro recinto onde houvera estado. Assegurei-me que aqueles sítios não eram pouso para meu ego. Ao menos havia aprendido a agora entrar e sair livremente de tais abismos da alma. Numa feita encontrei um ordeiro ao meio do caminho que pegou-me e ofereceu-me socos e pontapés gratuitos que tive por obrigação de aceitar, dada minha situação calamitosa. Depois de saciar-lhe a vontade de violência, perguntei-lhe se poderia levar-me àlguma biblioteca. Tão agradecido a mim quanto um lutador ao seu saco de pancadas, segurou-me então no braço e encaminhou-me por entre corredores e mais corredores e corredores ainda, até que eu me visse novamente perdido. Por fim, jogou-me numa sala que não era de grades, porém de porta: madeira maciça. Empurrou-me lá dentro e fechou-a atrás de mim, virando a chave. Desta vez eu estaria de fato trancafiado. Lá dentro percebi que era noite e -- dado a ausência de luz artificial -- havia ali apenas certa claridade proveniente da lua e das estrelas, permitindo-me ter uma idéia bastante vaga do que ali se encerrava. Em dúvida se gastaria neurônios formando uma imagem falsa do recinto, naquele momento, decidi interromper meu processamento cerebral e apenas acocorar-me a um canto, esperando que a luz solar me permitisse ter uma visão suficientemente precisa sobre onde eu me encontrava. Não tardou e o levantar do sol, mostrou que qualquer idéia que eu fosse ter sobre o lugar no período noturno, teria sido falsa. A economia neuronal não havia sido em vão. Isso posto que de uma biblioteca esperava-se corredores e mais corredores com prateleiras e mais prateleiras rabiscadas de livros e história e filosofia e literatura; informações sobre o homem que, de tão imensas, jamais seríamos capazes de tocar ou apreender, deglutindo-as com nossa consciência limitada e uma vez dada nossa finitude perante o tempo. Mas eis que eu me encontrava de fato em uma sala pequena, onde haviam duas escrivaninhas grandes. Em uma delas, assentava-se uma senhora que de tão velha talvez fosse nos seus duzentos e treze anos, quiçá ainda mais. Olhei para ela e ela me retornou um sorriso que dizia: ah, finalmente um companheiro intelectual. Atrás de cada uma das escrivaninhas havia simplesmente uma pequena prateleira com cinco ou seis andares que poderiam conter talvez cinquenta livros cada, dispostos em colunas. Eram apenas trezentos livros e a mulher disse, olhando para os seus: "já os li todos", completando: "já os decorei". E então começou a citá-los; e deve ter recitado umas duzentas e dezenove páginas até que interrompesse seu português de antigamente para dizer: "é bom que o senhor esteja aqui". Mas eis que era apenas a prateleira dela que estava repleta de livros, enquanto aquela que seria supostamente a minha se encontrava simplesmente vazia. Ela me disse para que assentasse em meu lugar. Encaminhei-me até a cadeira da outra escrivaninha e quando ainda testava sua confortabilidade, cresceram raízes da cadeira que prenderam nela meus braços. Outras vieram do chão e prenderam também meus pés àquele lugar, de forma que dei-me conta finalmente que permaneceria ali porquanto durasse em mim o sopro vital. E quando virei-me de costas e observei de novo a prateleira, percebi que ia repleta. E ali estava todo o conjunto das obras que formavam como um intelectual. Algo como se meu cérebro e todo meu conhecimento tivesse sido lido e transformado nas obras que mais haviam marcado minha existência cultural e meus estudos desde que começara a transmutar meu cérebro animal num cérebro social e cultural. Entretanto as seis prateleiras transformaram-se em oito e esticaram-se horizontalmente. A velha ficou surpresa e observou-me então com admiração e fascínio. Também eu não entendi o que acontecera. Retruquei à velha o olhar, percebi também que raízes a prendiam ali mas que, não obstante, era-nos possível ter uma certa mobilidade medida em metros. Aproximei-me de sua escrivaninha e reparei nos títulos dos livros de sua biblioteca própria. Percebi que era então filóloga e que talvez todo o conhecimento que se tinha acumulado até sua época sobre as mais diversas línguas e origem das palavras iam em sua biblioteca pessoal. Ela disse perceber-me científico e adorador da dúvida epistemológica. Sempre houvera também interesse sobre este assunto e revelou-me que jamais fora tão feliz desde há muito, posto que já via lido e relido por tantas vezes sua própria biblioteca e agora um novo mundo se abria para o sua ânsia de conhecimento. Minha chegada lhe fazia alcançar um novo limite da intelectualidade e poderia fazer-lhe compreender melhor sobre tudo que acontecia ao mundo e quiçá a si mesma. Talvez um dia, disse com esperança, conseguisse descobrir o segredo de tudo e assim descansar em paz. Argumentei que não havia grande segredo algum e tudo era caos desordenado sob a luz da interpretação cognitiva humana, mas ela continuou. Estava desde há muito presa à vida e àqueles livros, pelo menos agora teria novos horizontes para avançar. Conversamos por todo o dia e à noite também continuamos a trocar idéias sem que nada víssemos. Quando o sol do dia seguinte iluminou a sala, havia uma nova mesa ao lado da minha e da dela, totalmente desocupada, com uma outra estante a lhe acompanhar. E a velha, percebendo minha curiosidade, disse de ímpeto que eu não criasse naquela mesa muita esperança posto que décadas e mais décadas haviam se passado sem que ninguém adentrasse aquele recinto. E que eu não deveria esperar realmente a ocupação daquele lugar tão cedo. De fato, repreendi-a, não esperava nada, apenas me surpreendia posto que aquela mesa e estantes não haviam estado ali antes. No que ela disse citando Hamlet do fundo do coração com a voz que só tem aquele que passa séculos sem nada dizer e como só se pode fazer quem já incorporou as obras literárias em seu âmago através da leitura fiel, contemplativa e repetida de todos os versos, por centenas ou milhares de vezes: "há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia". E tendo dito isto, pegou um Aristóteles em minha prateleira e, com uma ansiedade graciosa e infantil, partiu a devorá-lo.
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