.comment-link {margin-left:.6em;}

Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

24.2.09

Aurora ao meio-dia

Era um dia quente de Abril e eu andava sem motivações pelos campos secos de minha cidade natal quando fui repentinamente abordado por oficiais da ordem que me algemaram e agora me empurravam nalguma direção desconhecida. O que eu dissesse, disseram, poderia ser utilizado a favor do tribunal acusatório, caso eu tivesse direito a ele. Em dúvidas do que então desdizer contra a minha própria pessoa, veio-me à cabeça um poema daquele Pessoa, Álvaro de Campos, que recitei por completo -- talvez trocando uma ou outra palavra, da qual a memória me mancava, por outras quaisquer que me teriam me parecido apropriadas naquele instante: "Se queres matar-te, mata-te!" E assim, tendo-lhes incitado o suicídio, um dos ordeneiros que me fazia de refém pegou sua pistola e apontou à sua própria cabeça, perguntando-me o que deveria fazer. E minha contínua expressão de jogador de poker fê-lo apenas apontar a arma à minha cabeça e, dado o contínuo da nulidez facial, desistiu deste quem vos fala e apontou-a então à cabeça de algum transeunte qualquer que por ali se promenava. Sabendo então das arbitrariedades que ocorriam naqueles tempos sob a insígnia de uma moral e de uma ordem que não eram partilhadas por ele, o sujeito gritou em prantos e rogou por sua vida. E quanto mais falava, mais nos era possível ver seu algoz mascarado inflando-se em gozo -- posto que eram momentos como aqueles que o faziam sentir-se um verdadeiro homem. Era submeter seus próprios concidadãos ao medo e à apreensão que lhe dava o maior de todos os prazeres. E do alto de autíssima estima, gritou então palavras de ordem, afirmando o assassinato e sua autoridade. E quando puxou o gatinho não se ouviu outro barulho que senão o giro em falso do tambor da arma que ia sem projéteis. Sorriu uma risada sinistra e mórbida, empurrando o defecado ao chão. Havia demonstrado seu poder e agora seguia gargalhando a empurrar-me até não-sei-onde.

Entramos num prédio da agência governamental para a ordem e o progresso. Ali dentro tratavam-se uns aos outros com um respeito amedrontador. Não se parecia compreender o significado da palavra amizade e uns olhavam aos outros com um receio pior do que o que tinham de si mesmos. Entramos num elevador velho e caquético que permaneceu descendo por vários minutos antes que a porta se abrisse e desse num átrio isolado, cheirando algum químico que não pude de pronto reconhecer. Fui empurrado sem gentileza por corredores e mais corredores até que não tivesse qualquer idéia de onde estava. Jamais proferi palavra ou demonstrei medo ou coragem. Era não mais do que um zero à esquerda. Colocaram-me então dentro de uma cela que apenas posteriormente me dei conta de quão enorme era e de quantos outros macacos não se encontravam por lá. Era uma verdadeira selva e os indivíduos ali presentes pulavam de árvore em árvore e gritavam uns com os outros. Batiam no peito, mostravam os caninos e faziam demonstrações ininterruptas de suas forças físicas uns para os outros. Compreensão mútua era um conceito faltante naquele lugar e o quando finalmente encontrei um canto escuro e desapercebido à tudo que por ali acontecia, sentei-me e esperei-me enlouquecer. E ali passaram os dias: sol e lua, sol e lua, sol e lua. Mas eu não consegui enlouquecer, logo eu que sempre me pensara assim tão próximo da linha divisória da lucidez. E assim, em minha completa sanidade, eu não poderia mais aguentar um único virar soluário naquela imensidão ineducada de macacos tão brutos. Aproximei-me da beirada da cela e bati com um graveto nas grades sem qualquer esperança de que o som pudesse ser ouvido por qualquer um e que houvesse ainda que uma mínima possibilidade de algum sujeito de compaixão ali chegar para me soltar. Mas eis que fui bem sucedido na empreitada e logo aproximou-se um ordeiro para escutar meus lamentos. Dado que não pôde escutar o que eu dizia através da grade, abriu-a sem utilizar chave e tirou-me lá de dentro. Convenci-lhe de minha educação clássica e disse que não poderia mais aguentar uma jornada que fosse ali dentro. Ele mostrou um ar de compaixão ignorante ou de completa incompreensão, talvez. Fato é que segurou meu braço e encaminhou-me por entre corredores e mais corredores e corredores ainda, até que eu me visse perdido. Soltou-me então e disse-me: vá para onde quiseres. Vaguei então por aquele labirinto perdido sem conseguir encontrar ser humano qualquer. Andei por portas e portas que se abriam e fechavam. Portas que davam em paredes, paredes que se interrompiam em portas. Encontrei então um conjunto desses lugares cercados de grades e entrei num ou noutro, apenas para me certificar que continham o mesmo tipo de animais daquele outro recinto onde houvera estado. Assegurei-me que aqueles sítios não eram pouso para meu ego. Ao menos havia aprendido a agora entrar e sair livremente de tais abismos da alma. Numa feita encontrei um ordeiro ao meio do caminho que pegou-me e ofereceu-me socos e pontapés gratuitos que tive por obrigação de aceitar, dada minha situação calamitosa. Depois de saciar-lhe a vontade de violência, perguntei-lhe se poderia levar-me àlguma biblioteca. Tão agradecido a mim quanto um lutador ao seu saco de pancadas, segurou-me então no braço e encaminhou-me por entre corredores e mais corredores e corredores ainda, até que eu me visse novamente perdido. Por fim, jogou-me numa sala que não era de grades, porém de porta: madeira maciça. Empurrou-me lá dentro e fechou-a atrás de mim, virando a chave. Desta vez eu estaria de fato trancafiado. Lá dentro percebi que era noite e -- dado a ausência de luz artificial -- havia ali apenas certa claridade proveniente da lua e das estrelas, permitindo-me ter uma idéia bastante vaga do que ali se encerrava. Em dúvida se gastaria neurônios formando uma imagem falsa do recinto, naquele momento, decidi interromper meu processamento cerebral e apenas acocorar-me a um canto, esperando que a luz solar me permitisse ter uma visão suficientemente precisa sobre onde eu me encontrava. Não tardou e o levantar do sol, mostrou que qualquer idéia que eu fosse ter sobre o lugar no período noturno, teria sido falsa. A economia neuronal não havia sido em vão. Isso posto que de uma biblioteca esperava-se corredores e mais corredores com prateleiras e mais prateleiras rabiscadas de livros e história e filosofia e literatura; informações sobre o homem que, de tão imensas, jamais seríamos capazes de tocar ou apreender, deglutindo-as com nossa consciência limitada e uma vez dada nossa finitude perante o tempo. Mas eis que eu me encontrava de fato em uma sala pequena, onde haviam duas escrivaninhas grandes. Em uma delas, assentava-se uma senhora que de tão velha talvez fosse nos seus duzentos e treze anos, quiçá ainda mais. Olhei para ela e ela me retornou um sorriso que dizia: ah, finalmente um companheiro intelectual. Atrás de cada uma das escrivaninhas havia simplesmente uma pequena prateleira com cinco ou seis andares que poderiam conter talvez cinquenta livros cada, dispostos em colunas. Eram apenas trezentos livros e a mulher disse, olhando para os seus: "já os li todos", completando: "já os decorei". E então começou a citá-los; e deve ter recitado umas duzentas e dezenove páginas até que interrompesse seu português de antigamente para dizer: "é bom que o senhor esteja aqui". Mas eis que era apenas a prateleira dela que estava repleta de livros, enquanto aquela que seria supostamente a minha se encontrava simplesmente vazia. Ela me disse para que assentasse em meu lugar. Encaminhei-me até a cadeira da outra escrivaninha e quando ainda testava sua confortabilidade, cresceram raízes da cadeira que prenderam nela meus braços. Outras vieram do chão e prenderam também meus pés àquele lugar, de forma que dei-me conta finalmente que permaneceria ali porquanto durasse em mim o sopro vital. E quando virei-me de costas e observei de novo a prateleira, percebi que ia repleta. E ali estava todo o conjunto das obras que formavam como um intelectual. Algo como se meu cérebro e todo meu conhecimento tivesse sido lido e transformado nas obras que mais haviam marcado minha existência cultural e meus estudos desde que começara a transmutar meu cérebro animal num cérebro social e cultural. Entretanto as seis prateleiras transformaram-se em oito e esticaram-se horizontalmente. A velha ficou surpresa e observou-me então com admiração e fascínio. Também eu não entendi o que acontecera. Retruquei à velha o olhar, percebi também que raízes a prendiam ali mas que, não obstante, era-nos possível ter uma certa mobilidade medida em metros. Aproximei-me de sua escrivaninha e reparei nos títulos dos livros de sua biblioteca própria. Percebi que era então filóloga e que talvez todo o conhecimento que se tinha acumulado até sua época sobre as mais diversas línguas e origem das palavras iam em sua biblioteca pessoal. Ela disse perceber-me científico e adorador da dúvida epistemológica. Sempre houvera também interesse sobre este assunto e revelou-me que jamais fora tão feliz desde há muito, posto que já via lido e relido por tantas vezes sua própria biblioteca e agora um novo mundo se abria para o sua ânsia de conhecimento. Minha chegada lhe fazia alcançar um novo limite da intelectualidade e poderia fazer-lhe compreender melhor sobre tudo que acontecia ao mundo e quiçá a si mesma. Talvez um dia, disse com esperança, conseguisse descobrir o segredo de tudo e assim descansar em paz. Argumentei que não havia grande segredo algum e tudo era caos desordenado sob a luz da interpretação cognitiva humana, mas ela continuou. Estava desde há muito presa à vida e àqueles livros, pelo menos agora teria novos horizontes para avançar. Conversamos por todo o dia e à noite também continuamos a trocar idéias sem que nada víssemos. Quando o sol do dia seguinte iluminou a sala, havia uma nova mesa ao lado da minha e da dela, totalmente desocupada, com uma outra estante a lhe acompanhar. E a velha, percebendo minha curiosidade, disse de ímpeto que eu não criasse naquela mesa muita esperança posto que décadas e mais décadas haviam se passado sem que ninguém adentrasse aquele recinto. E que eu não deveria esperar realmente a ocupação daquele lugar tão cedo. De fato, repreendi-a, não esperava nada, apenas me surpreendia posto que aquela mesa e estantes não haviam estado ali antes. No que ela disse citando Hamlet do fundo do coração com a voz que só tem aquele que passa séculos sem nada dizer e como só se pode fazer quem já incorporou as obras literárias em seu âmago através da leitura fiel, contemplativa e repetida de todos os versos, por centenas ou milhares de vezes: "há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia". E tendo dito isto, pegou um Aristóteles em minha prateleira e, com uma ansiedade graciosa e infantil, partiu a devorá-lo.

Marcadores:

15.2.09

O automito


O sujeito que mitificava a si mesmo o fazia de forma assim tão forte e extensiva que, quando se olhava ao espelho, era incapaz de enxergar-se com honestidade. Sapo que se via príncipe. Porém que em seus complexos labirintos psicológicos, sabia que o reflexo não tinha relação direta com seu próprio, auto ou mesmo. O que de fato via e interpretava segundo mecanismos neurológicos ainda desconhecidos, continha apenas uma relação superficial com aquilo que era. De fato sabia disso no fundo de seu âmago, mas jamais admitira conscientemente o fato. Alta-auto auto-alta estima. Em excesso. E quando se observava sob as águas de um rio manso, associava àquela visão de si a um sem-número de fatores diferentes que, quando lidos à luz da rasa razão, eram interpretados sob insignias associadas sempre a virtudes. Tal narcisismo de nosso personagem era entretanto manco, posto que é amplamente sabido por todos seus contatos que ele de fato sente-se extremamente incompleto ou faltoso, pedaçoso e limitado, pequeno ou ingrande, preso a amarras invisíveis e assim tão fortes. Ele também tem certa consciência do fato. Ainda assim, nos comércios do cotidiano, vende de si esta imagem associada às maiores de todas as aptidões: física, romântica, moral, intelectual, sexual, filosófica, criativa e liberal. Atachou a si valores virtuosos que jamais questionou sinceramente, aceitando-os simplesmente como corretos e daí partindo para se preocupar com outras amenidades que vão do dia-a-dia; sempre à procura de chaves ou com o aluguel em atraso. Por vezes lhe assaltava a dúvida sobre o fato de que, se era mesmo o que pensava que era: príncipe e galante, gigante em todos os aspectos pensáveis da natureza humana; porque é que não se sentia uma pessoa completa?, por que não era assim um ser vivo radiante e vivente e amante? Fato: era apenas mais um respirante, como todos os outros zumbis ao seu lado. Não, não era assim -- tentava se convencer. E então ia lavar a pia do banheiro ou assistir mais algum filme hollywoodiano idiota, de forma a não se colocar em questão e apenas tudo esquecer. Dormir, invariavelmente, era também solução. E havia fins de semana inteiros em que mal saia da cama.

Espelho, espelho meu, diria o sujeito. E completaria então a frase tal qual a bruxa dos contos de fadas, exceto pelo fato de que seu espelho era sua psiquê enganadora e defeituosa, que respondia sempre a falsa verdade de que era ele sim o próprio arquétipo da perfeição masculina -- em todos os sentidos que se poderia pensar sobre o assunto. Seu lado gata borralheira, entretanto, por vezes acordava assustado, em altos. Nestes momentos reconhecia em si a angústia existencialista, a falta de sentido, a metade faltante, toda aquela incompletude. Cinderela e madrasta era o sujeito que mitificava a si mesmo. Faltava-lhe virar a cabeça para o leste e seguir em frente, herói em busca do auto-conhecimento. Seu lado conto-de-fadas era porém mais forte e vigoroso que seu lado esfinge e a mitificação própria exercia em sua psiquê uma influência forte e desequilibrada, pensando brutalmente em sua balança emocional. Foi-lhe sugerido fortemente que migrasse para o oriente, de forma que permitisse seu yin penetrar seu yang, ou o yang ao yin, posto que desequilíbrio é tão somente desequilíbrio, falta de homeostasia; e não importa de fato qual lado invade o outro, importa apenas o estado assim tão afastado do nirvana.

Tanto lhe foi falado sobre o auto-conhecimento -- e posto que seu consciente ainda permanecia subjugado pelo auto-engano -- que foi seu inconsciente que se decidiu sobre a ação: luzes e câmeras. E então partiu de suas raízes gregas para tentar ensaiar seu rumo em direção ainda mais a leste. Oniricamente viajou à terra de Sidarta e ouviu conselhos de monges que lhe disseram tudo que precisava saber para desmitificar-se e poder finalmente ser capaz de ver seu verdadeiro eu quando da imagem refletida. Mas eis que a mitificação que fazia de si era assim tão enormemente potente que, quando acordou, rogou à alma de Freud para que guardasse tudo aquilo dentro dalguma parte intocada de sua psiquê. Ele não estava preparado. E assim, o ideal do psicólogo austríaco que ia em si realizou com razoável eficácia tal tarefa, ainda que a contra-gosto. E eis agora vai dentro da psiquê do ser que não é ser porém um personagem de si mesmo, doutor Sigmund, a tentar organizar as coisas e ir aos poucos soltando verdades que atingirão o consciente do paciente de maneira lenta e dolorosa, porém gerando saúde mental ao decorrer dos anos. Seres humanos são fracos e não estão preparados para revoluções, ainda que elas venham para o bem. Em passos de tartaruga move-se a sociedade e a psiquê dos homens que a constituem.

Hoje o auto-mito olhou-se ao espelho e não se reconheceu, viu um moribundo ao invés de um herói e teve um choque. Tremeu da cabeça aos pés ao se constatar como era e houve quem culpasse o pai da psicologia, que ia em sua cabeça, de ter soltado uma parte assim tão grande de toda a verdade-verdadeira sobre seu fracasso na vida profissional e amorosa e pessoal e tudo mais. Narciso não aguentou e colapsou. Foi internado e passou alguns dias sob estreita vigilância médica. Agora passa bem. Teve um susto ao perceber-se o boçal que realmente era -- e que sempre fora -- e agora estava traumatizado. Pegou novamente a fantasia que colocava sobre sua imagem e ali a posicionou, mais certo do que nunca sobre fato de que disso valia sua sanidade mental. Escondeu-se ainda mais, trasvestiu-se, mascarou-se. Mas o doutor Freud que habitava em seus giros mente-cerebrais não deixaria que as coisas corressem desta forma e, assim, ele agora tomava apenas um pouco mais de cuidado ao liberar do inconsciente verdades a atingirem o consciente do homem que se automitifica. Temia a somatização exacerbada do conhecimento verdadeiro sobre a imanente verdade: o sujeito era um bosta. E eis que o pequeno homúnculo freudiano neste instante continua realizando prolongada operação psíquica de rearranjo, onde tenta reequilibrar as forças do herói que assim se pensava contra o imbecil que de fato é.

Tempo.

Até hoje sua vida anda em desequilíbrio e ainda se vê um super-herói quando interroga o espelho. Ao lado do travesseiro, entretanto, chora sua imbecilidade. Precisa amadurecer e crescer, nosso personagem. Precisa reconhecer, admitir e engolir o fato existencialista de que ser humano não é tarefa fácil. Precisa entender que são todos lindos, apesar de seus defeitos. E que o defeito não é que senão um charme. Assim como o charme não é que senão uma particularidade estranha e, alguém diria, defeituosa. Precisa sair desta bolha em que está e aceitar-se plenamente como virtuoso, ainda que imperfeito em um sem número de pontos. Longe da perfeição, não obstante virtuoso. Posto que todos os seres humanos são yin-yang, todos os seres humanos são ovelhas e cordeiros, são lobos de si mesmos e da sociedade. Há de se aceitar esta verdade e tentar buscar ainda mais virtude através da realização de sonhos pessoais. Antes de tudo, deve aprender que é preciso sonhar. É preciso largar mão deste mundo de mentira, deste seu conto-de-fadas que opera nesta sociedade falsa e falida que insiste em nos dizer que devemos acordar todos os dias e trabalhar em alguma merda de emprego para podermos sobreviver e ganharmos cada vez mais desta coisa que não merece sequer ter uma palavra a lhe descrever. É preciso dizer à este horror de sociedade e aos homens que se automitificam que aquilo que nos faz sobreviver é o que nos faz amar, é o que nos faz viver, é o que nos sonhar, é o que nos saborear a vida como guloseima, é o que contaremos com orgulho para nossos netos -- se um dia eles vierem; e eles virão. A vida é uma só e precisa ser bem vivida, não podemos gastá-la inteira ao acreditar nessas idéias e ideais fajutos que eles martelam em nossas cabeças: casa, bens, emprego, bens, esposa, bens. Precisamos muito mais do que isso posto que somos entes, somos seres, somos vida e amor. Transcendamos. Não somos fantoches manipuláveis nas mãos dos poderosos. Não somos a água que vai mover o moinho da sociedade, somos seres. Não temos uma raison d'être, somos um fim em nós mesmos: eis o significado filosófico da palavra ser. Não vivemos "para" nada. Apenas vivemos e somos, ponto final. O presente é o que importa. Deixai-vos de construir o futuro e contruí-vos vosso presente. O pequeno Freud mental trabalha incessantemente trazendo memes daqui para lá, consertando conexões e tentando apresentar lentamente novas frentes de batalha psíquicas.

-- Escolha o leitor, o destino de sua vida. Ou melhor, o destino final deste conto: otimismo ou pessimismo, verdade ou falsidade, máscara ou honestidade psicológica.

OTIMISMO DO AUTOR, epílogo

E ainda que o pessimismo pudesse vir aviltando a mente dos leitores até o momento, resta saber que houve um dia em que as idéias clarearam em sua mente. Neste instante, o automito sentiu-se livre como um pássaro a voar nos céus, sem direção. O sopro epicurista invadiu sua mente. Conexões foram finalmente formadas com certa força e pensou-se livre dos dogmas e dos seus deveres como cidadão-robô. Não devia mais nada. Mas agora evitava espelhos e reflexos, ainda tinha dificuldades a se enxergar. O que fez foi juntar as trouxas e partir. Está agora no oriente, está na África, no ocidente e nas ilhas, ou sobre as montanhas, não sabe mais onde está. Expandiu-se sobre o espaço e sobre o tempo. O homem que uma vez se automitificou agora vive simplesmente ao redor de pessoas que ama muito, seu tempo passou a ser o agora e seu lugar é sempre onde ele está. Não precisa mais de espelho nenhum, não é gata borralheira ou narciso, madrastra ou cinderela, despejou Freud e seus discípulos com gratidão e os fez livres. Agora não pensa em mais nada. Vive o momento e o vive com o explendor e a certeza de que tudo o que faz permanece marcado na história do infinito. Sabe de suas limitações e tenta superá-las, uma após a outra. Aprende todo o dia, todo instante, aproveita o momento e carpedia alegremente. Age sempre com responsabilidade e compaixão. Não é rico e não dá a mínima para a riqueza, o pão porém nunca lhe falou; nem mesmo o vinho. Não lhe faltou o amor ou a esperança. Expandiu-se. Implodiu-se. Explodiu-se. Está agora em todo lugar. Está em mim e em você. Sinto-o comigo. Ele está livre, ele vive, ele pulsa, ele arde. Ele é o poeta que está preso na alma de todos os humanos. Não prenda o seu poeta, liberte-o! Seja o homúnculo freudiano de sua alma lírica. Rearranje seus valores. Liberte-o! Liberte-se!

PESSIMISMO DO AUTOR, epílogo alternativo

E sinto dar-lhes a má notícia, mas morreu hoje o automito: o obituário está nos jornais. Jamais foi capaz de ver-se como realmente era e aceitar a mágoa em que consiste a verdadeira realidade do mundo e de si mesmo. Morreu velho e deprimido. Reproduziu-se e teve família, achou noutros um pouco do que faltava em si. A saber: os defeitos. A imagem do psicólogo que vivia em sua mente trabalhou até o fim e conseguiu fazer progressos, porém a psiquê do nosso pobre herói havia sido forjada socialmente utilizando fortes martelos, metal duro e resistente a modificações. Jogo trapaceiro e perdido já de início ao seu pequeno Freud mental, que jamais seria capaz de realizar todas as grandiosas mudanças psiconeurológicas necessárias. Havia locais ocupados e conceitos assim tão longínquos que jamais poderiam ser conectados por braços neuronais preguiçosos que recusavam a crescer e fazer novas conexões. Até a ultimíssima vez em que se olhou ao espelho, o automito viu uma pessoa que não era a si próprio porém uma representação virtuosa irreal que lhe fazia um falso bem. Superficial reflexo luminoso, escudo e máscara, fantasia de um fraco. A última imagem que seus neurônios foram capazes de formar antes do colapso consistiu nesta sua falsa visão, à qual olhou com enorme admiração e orgulho. E o burburinho que rondou durante o velório foi o de que a expressão que tinha o cadáver no caixão consistia, de fato, num sorriso desgostoso -- como se tivesse comido a vida, e não gostado.

Marcadores:

3.2.09

Sensação e razão à luz da finitude humana

Abro a porta. É o fim de mais um dia. Na verdade, já há horas, é o começo de um outro. Ininterruptos são os ciclos. O sol ilumina o domingo alsaciano. Vou até a cozinha para poder tomar um ou mais copos d'água. Nenhuma droga é melhor do que a mais pura água na chamada profilaxia da ressaca. Por que a água não é considerada como droga? Abro a torneira da pia e deixo-a escorrer um pouco, a água do cano. Alguns segundos depois, coloco o copo ali debaixo. Tomo um gole. Mas, o que é isso? A água está quente! Verifico se abri mesmo a torneira correta, água fria, e comprovo positivamente tal hipótese. Estamos no inverno europeu e a água-fria simplesmente não pode ser água-quente. Lá fora, o frio vai na escala negativa dos Celsius. Jogo a água fora. Não gosto de beber água quente. Encho mais uma vez o copo, e outra vez me vem água quente. Ora, isso não é possível!


Quando clico o botão criar nesta página da internet, meu cerebromente dança. Ainda não encontrei uma boa palavra para expressar esta ligação mente-corpo, corpo-mente que representa nosso ser. No fundo, chamar-me-ão de materialista. Como biólogo e cientista não posso acreditar que a mente seja uma entidade separada do corpo físico e -- embora concorde que esta seja uma idéia psicologicamente atrativa, fazendo-nos acreditar que nossa consciência pode expandir as limitações da matéria e adentrar-se rumo ao eterno -- não coloco nela minhas fichas. Esta minha descrença sobre a separação cartesiana mente-corpo baseia-se em evidências empíricas no ramo da neurologia, assunto pelo qual sempre fui interessado. Oliver Sacks, Antônio Damasio, Daniel Levitin e companhia têm demonstrado que a mente de seres humanos muda radicalmente quando seus cérebros são afetados. De alguma forma, portanto, é a constituição física de nossos cérebros, quando conectados aos nossos órgãos do sentido, que produz isso que chamamos de mente. Defeitos neste arcabouço físico provocarão defeitos operando em bola de neve no funcionamento de nossa psiquê. Para aquele que entende de computação, a analogia dos tempos modernos é clara: cérebro-hardware, mente-software. Pesquisadores em neurologia -- estudando acidentados desde Phineas Gage -- chegam a ser capazes de descobrir até pequenas regiões cerebrais associadas a determinados comportamentos sociais razoavelmente bem definidos. O sujeito que tem um problema numa determinada parte do cérebro perde a capacidade de reconhecer rostos de seres humanos e identificá-los a determinadas pessoas -- e assim, chega-se a confundir sua esposa com um chapéu.


E então são seis horas da manhã, eu estou bêbado voltando de três festas consecutivas e fico neste dilema razão-sensação, posto que a água-fria não pode estar quente, mas está. Por um momento acredito mais na razão e penso que devo estar sentindo errado depois do abuso no álcool. Mas não posso estar sentindo errado, isso não existe. Ou existe?


Descartes que me desculpe, mas mente e cérebro e sistemas sensoriais funcionam todos juntos e de maneira integrada. Da mesma forma, o som que nos chega aos ouvidos não é o som que escutamos. O sensação que temos de escutar o som dá-se a partir de um processamento cerebral das ondas mecânicas sonoras que nos chegam ao ouvido. Ipsis literis, não escutamos com os ouvidos, porém com o cérebro. E assim, se mente e corpo são apenas uma única entidade integrada, poder-se-ia supor que nossa morte física seria o mesmo que nossa morte sensorial, a morte de nossa consciência e de tudo aquilo que fomos. Mas prefiro enxergar o acontecimento sobre uma nova óptica, mais otimista. Aqui modifico, num sentido social, tantos os conceitos de vida-e-morte quanto o conceito de eternidade.


Já sei o que aconteceu, razão e sentimento agora se reúnem num todo coerente. Uma explicação lógica se faz, liga-se sentimento e razão. Tem-se uma hipótese, explicação racional que leva em consideração os dados: a água está quente. O calor, porém, é um conceito relativo. Para quem sai de uma rua fria -- graus Celsius negativos -- e adentra um apartamento quente, encontrará água quente no cano. Veja bem, não sou destes que gastam energia em excesso e sempre que saio de caso, desligo o aquecimento. Entretanto sou um ambientalista que mora no sexto andar, e bem se sabe que o calor sobe na atmosfera, baixo para cima. Por vezes mal preciso ligar o aquecimento, posto que há cinco habitantes abaixo de mim que fazem o favor de esquentar o meu apartamento, obrigado. E então chego num ambiente aquecido. Ambiente aquecido é igual a cano aquecido que é igual a água aquecida. Mesmo que seja a água teoricamente fria, ela foi aquecida pelo calor dos apartamentos abaixo e, voilà, é por isso que ela está quente. Não estou sentindo ou pensando errado, apenas não havia considerado todas as possibilidades.


Começo da biologia para explicar sobre como nos tornamos eternos: nenhum organismo que se reproduziu e cujos descendentes sobreviveram, já esteve morto. Reproduzir-se é manter-se vivo. É evidente perceber que todos nós, hoje vivos, descendemos de uma enorme trajetória de seres que vieram antes de nós e que se reproduziram com sucesso. Se um único de nossos ancestrais não tivesse se reproduzido com sucesso, não estaríamos aqui hoje respirando este ar que nos mata. A biologia trata da hereditariedade e, em organismos como os seres humanos, qualquer pessoa apresenta um conteúdo genético X que é formado por metade da informação molecular oriunda do pai, e outra metade oriunda da mãe -- com pequenas variações possíveis. Volte mais uma geração e perceber-se-á que os netos possuem 25% do conteúdo genético de cada um dos quatro avós. Temos mesmo 12,5% do genoma de cada um de nossos 8 bisavós. Podemos-se dizer assim que eles estão mortos? Não sei dizer ao certo. Talvez uma boa resposta seja: não completamente. Todos somos o produto da mistura do ser humano com o ser humano e contemos, em nossas células, a informação de todos os seres humanos que viveram antes de nós. Quem dirá que não podemos ser considerados como uma nova versão de nossos pais? Eu assim me considero. E é em nós também que culmina toda uma longa história da vida na terra, vida esta que parece ter sido originada bilhões de anos atrás, moléculas replicantes de alguma coisa como um RNA.


A água portanto está quente posto que foi aquecida pelos apartamentos abaixo. Não há nada que comova mais um cientista do que encontrar finalmente uma explicação para o inexplicável. Como ligar fatos estranhos e anômalos à teorias? Não poderia de fato haver água-quente saindo da torneira de água-fria no inverno. A menos que os vizinhos tenham esquentado sua água com o calor que sobe de seus apartamentos. O trabalho científico é um trabalho de investigação e por vezes esquecemos de levar determinados fatores em consideração. Este esquecimento pode nos levar a olhar os dados com estranheza, questionar os dados, questionar nossa própria sensação ou o sentimento que temos ao observá-los e interpretá-los à luz da razão. Mas é tudo uma questão de compreender as principais variáveis que estão em jogo, encontrar a peça que falta ao quebra-cabeça e lembrar que os vizinhos esquentam nosso próprio apartamento por tabela. Benditos vizinhos, malditos vizinhos. E o método científico...


Toda a informação que guardamos em nossas células vêm de misturas dos nossos antepassados que, de certa forma, ainda estão vivos em nós. E se as células cerebrais de alguma forma levam a padrões comportamentais e sociais, também nossa interação com o mundo e com as outras pessoas estará para sempre marcada na história do universo. Parto agora para o social. Ao viver, influenciamos e somos influenciados por pessoas e idéias. Pessoas influenciam pessoas num ciclo que avança e se espalha por toda a humanidade. Cada um de nós é responsável pela história da humanidade e de alguma forma, todos nós influenciamos o rumo para o qual o mundo avança para o futuro. Buda me influenciou, Hitler me influenciou. Positiva e negativamente. Eles já estão mortos há bastante tempo. Aja com responsabilidade! O que você e todos fazem, influencia o que as pessoas ao ser redor fazem e o que outros farão num futuro próximo. Você, pessoas ao redor, pessoas ao redor dessas pessoas e tem-se o mundo inteiro. Seis bilhões não é um número infinito, é um número limitado, ainda que grande. Influencie de forma positiva, e terás o retorno do mundo da mesma forma. Influencie a humanidade e transforme-a em uma única virtuose. Nossas ações influenciam pessoas e, expandidas, marcam a história da humanidade do nosso tempo. Eu sou a história e você também é. Sejamos responsáveis com a humanidade. Nossa história está aqui e está marcada, humanidade no começo do século XXI. Que as pessoas do porvir nos vejam como virtuosos. Anulemos os efeitos dos que lutam por si e lutemos por todos, pela unidade do ser humano. Passemos esta idéia e estejamos ideologicamente presentes nos livros do futuro. Não desejemos ser representados por nomes nestes livros, mas por pensamentos. Havia àquela época um grupo de pessoas empenhadas em que o homem avançasse em busca da virtuose, do estudo, da paz, da consciência e compaixão. Não interessa meu nome, interessa minha idéia e meu ideal.


Nosso corpo naufragará e continuará apenas em parte, em nossos descendentes.

Nossa mente naufragará e continuará apenas em parte, nas idéias que despejamos ao mundo e em nosso ciclo de influências que se torna cada vez maior.

Ajamos com responsabilidade, posto que somos eternos. Somos parte importante da humanidade do agora, além de desbravadores da humanidade do porvir. Devido à inércia social, será o humano -- em breve -- o que somos hoje. Desejemos a virtuose ao humano.

Marcadores: