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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

30.4.09

Aleatoriedades tunisianas

A sombra do amor volta a refrescar meu coração. Estou num país estrangeiro, em meio a pessoas estrangeiras. Sou um brasileiro na Tunísia, em meio a amigos franceses; estrangeiro ao quadrado. Há um milhão de coisas a prestar atenção e tudo me excita. Há a língua, a arquitetura, a forma como os locais tentam tomar o dinheiro dos turistas oriundos do velho continente e a forma como esses lutam e digladiam em revanche, tentando evitar serem excessivamente "roubados". Quem é o ladrão, afinal? Certamente não sou eu nem meus amigos, porém o enorme mar que é a história das civilizações dentro a qual estamos afogados. São eles os ladrões, civilizatórios, exploratórios. Eles querem apenas mais um trocado, uma gorjeta mínima para tomarem uma cerveja posto que cinco dinares são apenas dois euros, não se deve pedir troco dessas coisas. Tunísia e Brasil são terceiro mundo. Países em desenvolvimento que não estão no mesmo continente, não falam a mesma língua, não foram colonizados na mesma época, não têm o mesmo povo ou a mesma religião. A economia é o que nos aproxima e quando ando pelas ruas da capital do país lembro sim do lugar donde vim, ele está nos prédios mal-pintados, nas pobres pessoas que trabalham sem quaisquer condições na construção civil, nos hotéis e nas ruas; na desigualdade. Pessoas humildes que deveriam ganhar mais do que ganham e cujo trabalho é explorado, eis onde reside a maior similaridade. Onde está o respeito pelo ser humano e por seu suor? Eles são os escravos de nossa época e um salário mínimo justo, além de serviços públicos relativamente eficazes na área da educação e da saúde, para dizer o básico, é algo que sem dúvida as nações desenvolvidas conseguiram e nós ainda não...

O peixe e a carne, a salada, o café da manhã e todas as iguarias do hotel são finas e bem servidas, o preço é baixo quando comparado ao dos países desenvolvidos. E como eles conseguem tal façanha, vem-nos a questão? É simples, tirando o salário das pessoas e isentando de impostos as empresas e seus proprietários, isso sem contar com a corrupção e impunidade dos políticos -- ao menos no caso do Brasil. Aumente o salário das pessoas envolvidas na produção e comércio, aumente os impostos sobre as riquezas, diminua a corrupção; assim terás verdadeiro desenvolvimento com igualdade, diminuirás a violência. É claro, entretanto, que o subdesenvolvimento não é só uma questão econômica. Há uma inércia histórica dos períodos onde éramos ainda mais explorados, sem dó ou piedade. De certa forma, ainda o somos.

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O país é islâmico e na TV há programas com pessoas usando batas e turbantes, toda aquela parafernália vestimental utilizada pelos árabes. Ao contrário do que nos prega a televisão, sob influência dos Estados Unidos, não tenho nenhum medo, porém simpatia e carinho pelo povo árabe. Não direi que concordo com sua religião posto que não concordo com nenhuma e acho todo fundamentalismo medíocre e execrável. Tenho amigos extremamente católicos que fedem mais do que excremento de bode. Tentei aprender a língua árabe de forma a chegar aqui e ter uma noção das coisas. Aprendi sim um pouco, mas ainda me sinto idiota e levo alguns minutos para compreender uma simples palavra dentro as poucas que fui capaz de aprender. Definitivamente não é possível aprender uma língua completamente diferente da sua em uma ou duas semanas, mas tenho mania de tentar fazer tudo ao mesmo tempo e de não me sujeitar às dificuldades intelectuais. (...) De qualquer forma, estou feliz por ter comprado o livro e não me arrependi, olho para as palavras e os caracteres nelas contidos e tenho uma noção do que sejam, não sou um completo analfabeto em árabe, sou um semi-completo, semi-analfabeto. De fato, diz-se que a Tunísia é dos países árabes mais abertos. E quando se diz aberto, pode-se entender em todos os sentidos. Ele é aberto para a cultura ocidental e, no mesmo pacote, vem a economia ocidental. Há empresas americanas por todo o lado. Mas não se engane, não estou dentre aqueles que pensam que ser aberto é aceitar a dominação cultural do ocidente. Ser aberto é entender os valores humanitários de qualquer sociedade, é liberar-se sexual, religiosa e intelectualmente; é fugir dos dogmas. Mas é claro, sem perder uma identidade própria.

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Bateram à porta. Mas é que eu estava naquele estado estável onde não queria ver ninguém. Deitado, tranquilo, lia um livro. A porta se abre, escuto palavras sem que as entenda. Levanto-me aborrecido. É a mulher da limpeza que tenta dizer algo que não entendo. Respondo em francês, "Desculpe, mas o que você disse?", Ela repete em árabe. Digo que não entendo seu idioma e ela me olha com uma cara estranha, como se eu devesse compreendê-lo. Peço desculpas e repito em francês que não compreendo o que diz. "Serviette?", parece querer trocar a toalha. Digo que o faça enquanto retorno à cama. Uma outra mulher chega e elas discutem algo, parece que pensam que finjo que não falo seu idioma. De fato, não sei o que falam, talvez discutam sobre a morte da bezerra. Ela fica mais tempo no banheiro do que o necessário para trocar a toalha e logo penso que talvez esteja se insinuando sexualmente. Ah, esses brasileiros; são todos uns pervertidos. Por algum tempo pensei que fosse má esta idéia que liga brasileiro e perversão sexual, hoje em dia fiz as pazes com ela. Talvez os brasileiros sejam os bonobos entre os seres humanos. Por que não fazermos sexo se nos sentimos com tal vontade? Por que negar nossa natureza? Eu grito com o titã: "como é que eu vivo sem sexo?". As mulheres ainda estão lá enquanto divago em reflexões. Espero mais um pouco, quieto. Elas trocam mais algumas palavras e então a porta se bate. Ora, os brasileiros.

Agora estou com meu computador na recepção do hotel. Um sujeito se aproxima e diz "bonjour". Repito a mesma palavra. Ele tem provavelmente cerca de trinta e poucos anos, tem cabelo mais é careca; um cabelo ralo penteado para trás. Depois do cumprimento continua dizendo algo em árabe. Pergunto o que foi, francês novamente. Ele repete a mesma coisa, mais uma vez em seu idioma. Digo que não compreendo. Ora, não falo essa língua. Por que insistem tanto? Há algumas poltronas ao redor. Ele se assenta. Pergunta se não sou do oriente médio. Não, não sou. De alguma forma pareço com este povo e eles pensam que devo falar suas línguas, só pode ser. O sujeito quer me conhecer, conversar, talvez se encontrar mais tarde. Ora, não são só os brasileiros que pensam nessas coisas. Pergunta se incomoda-me. Digo que estou sim um pouco ocupado sem estar exatamente, apenas respondo e-mails pessoais, pessoas queridas. Mas também sem muito empenho em forçar um diálogo com um sujeito esquisito. Diz que é jornalista e queria saber algo a meu respeito. Pelo jeito que me olha penso que é um homossexual em busca de sexo, ou talvez relacionamento. Cogito neuroticamente lá no fundo que talvez o sujeito seja algum tipo de espião: dizem que o governo daqui vigia bem as pessoas, há certa restrição quanto ao que se pode ou não falar, não estamos de fato em uma democracia. Foi o que me disseram, não sei de nada. Enfim, não quero ser chato com o camarada, mas também não quero que ele pense que tem alguma chance. Outra característica dos brasileiros é serem assim restritos à sua opção sexual. Não sou diferente. Na França, por exemplo, homem e homem brincam de uma forma que me causa estranheza. (...) De fato, fiquei um pouco decepcionado ao vir aqui pois esperava conhecer mais pessoas e mais coisas deste país situado na chamada África Árabe. Queria conversar mais com pessoas e não tive oportunidade. E assim, quando a tenho, meu supostamente inexistente preconceito sexual leva-me a cortar a conversação pela raiz. Quão idiota não sou. O rapaz continua ali sentado, cara de interrogação. Dada sua timidez, começo o diálogo. Digo que pode me conhecer sim, sou o Luiz, químico, vim para o casamento de um amigo do laboratório. Ele continua dizendo para que nos encontremos mais tarde, algo assim. Realmente o papo não se desenvolve. E assim digo que estou realmente ocupado e ele se vai. Educado, o rapaz. Estranho, sedento, curioso, um ser humano. Trombei com ele mais uma ou duas vezes no hotel, nos dias que se seguiram. Não lhe disse bonjour.

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O preço da corrida é quarenta e cinco dinares, mas não temos moedas de cinco. Não há notas que valham cinco ou, se há, não as vi. Cinquenta. Eu e mais um dos franceses pagamos vinte, outro paga dez. Fico sem saber se peço ou não o troco. Odeio essas coisas de dinheiro. Sei que ele cobrou caro pela corrida, mas só depois é que vim realmente a saber que cobrou mais do que o triplo do que seria normal. Enfim, não ligaria de dar a ele um pouco mais, desde que ele fosse gentil e não fizesse essa cara de vingança contra os ocidentais que faz quando nos apresenta o preço. O pior é que entendo tão bem sua revolta... Quando entramos no taxi ele disse que os turistas vêm aqui e jamais voltam. Eu disse que voltaria caso fosse bem tratado e gostasse do lugar. Era verdade. Talvez ainda volte algum dia. O sujeito jogava futebol e tinha um chaveiro no formato do mapa do Brasil pendurado no retrovisor. Era chamado de Romário pelos amigos e disse-lhe que o Romário sempre foi um dos meus jogadores prediletos. Ah, a copa de 94, aquele gol de bate-e-pronto. Que maravilha! Conversamos tranquilamente, mas vejo que é daqueles que querem realmente abusar dos turistas oriundos da Europa. Não que não tenha razão, mas agora cada um defende o que é seu. Ele pergunta se sou casado e acho a pergunta estranha, quereria ele me arranjar alguma garota para relacionamento duradouro? Digo que não e retruco-lhe a pergunta. Responde o mesmo.

No dia seguinte o vimos jantando no hotel com uma mulher de véu que não parecia sua esposa nem irmã, não sei explicar por que. O sujeito tem um sorriso sofrido no rosto e tenho um pouco de pena dele. Morou na França por um ano e sei que sentiu na pele o mesmo preconceito que sinto e senti. Não, certamente sentiu um preconceito muito mais forte. Sou um doutor, afinal, cientista. Daria-lhe com agrado os cinco dinares do troco, com duas condições: primeiro, se fossem meus e, depois, se ele fosse um pouco mais humilde. Sei que não devo culpá-lo, mas a desculpa de que isso não são nem dois euros e a cara que faz dão-me um sentimento estranho. Ok, já voltei demais neste assunto.

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O casamento é na prefeitura. Há cerca de duzentas, trezentas pessoas. A maioria velhos, provavelmente família e amigos dos pais dos noivos. Dá a impressão que o casal não tem muitos amigos. O sujeito mora na França há muito tempo e ajudei-o a fazer sua mudança. Dirigi o carro alugado e fui aqui e ali com ele, carreguei coisas pesadas com minha coluna torta e não reclamei. Ele disse más palavras sobre os vários franceses que ajudou na mudança e que não estavam ali quando ele precisou. São assim: não amigos porém utilitários da amizade. Não discordo de todo. Um mini-ônibus nos leva à recepção, vou com meu terno que tinha pensado ótimo quando comprei mas que agora acho um pouco grande, esquisito. De fato, jamais me senti bem dentro de um terno e odeio qualquer tipo de formalidade. Sou mineiro da gema e penso não há nada de mais confortável no mundo do que a cadeira metálica de um boteco, cerveja gelada no copo lagoinha e tira-gosto boiando na gordura. Há sobras também na camisa, talvez eu tenha emagrecido. Droga de roupa!

Na entrada, as mulheres usam vestidos à la árabe e -- quando o casal aparece para entrar na igreja -- elas começam a produzir um som estranho com a boca, um tipo de li-li-li-li-li bem agudo: o mais agudo que podem. É a tradição e não importa se isso dói ao ouvido dos estrangeiros. Quanto mais incômodo o som, mais ele lhes parece dar prazer. Percebe-se que há aquelas garotas ou senhoras que são exímias na arte de lililizar e elas lililizam em alto e bom som; seguidas vezes. Ao fim, gargalham orgulhosas de sua potência lililizadora. Ah, a cultura.

O juiz entra pela porta dos fundos dizendo as-salam walekum, um tipo de recepção que literalmente quer dizer algo como "a paz esteja convosco". (Uma das únicas coisas que consigo entender na língua.) O juiz fala por cerca de vinte e poucos minutos, os noivos parecem dizer sim enquanto os fotógrafos se posicionam do lado direito a tirar fotos. Em um certo momento parece haver uma discreta prece. Ao meu redor, os franceses às vezes falam alto e se movem ainda mais do que seria prudente, no meu ponto de vista, dado que estão numa cultura diferente. Não são eles mesmos que criticam os excessos daqueles que vêm de fora à sua? Um deles arrasta cadeiras de forma a chegar lá na frente e move-se a todo instante procurando o melhor ângulo para o retrato. Penso que exagera, mas sem dúvida depois irei pedir-lhe as fotos. Uma vez feito, está feito. Ao leite derramado, não se adianta chorar.

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Mais uma hora de mini-ônibus nos trás de volta ao hotel e os franceses querem beber. Mas estou desconfortável com este terno e quero descansar para estar bem para a noite. Sou o único que retorna ao quarto. Fico lendo e durmo um pouco. Encontro-os para o jantar e fazem piadas das minhas sestas durante o dia, questionam o que faço a noite. Respondo que durmo. Ora, estou de férias. Nesta viagem descobri que não sei me comportar à mesa e que como rápida e apavoradamente, um prato cheio como o de um pedreiro. Não é o educado. Os franceses têm bons modos à mesa e percebo que observam minha selvageria a rabo de olho. É nos pequenos detalhes que se descobre subdesenvolvido.

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A festa acontece no mesmo dia do casamento, alguns pares de horas após. Chegamos e somos direcionados a uma mesa bem à frente. Está claro que reservaram uma das melhores mesas para os franceses -- o brasileiro vai de brinde. Aqui também há mais velhos do que novos. O casamento não é uma festa para os noivos, porém para os seus pais. Os franceses reclamam de tudo: da posição da mesa ao volume do som, passando pela vulgaridade das garotas. É fato que nos colocaram ao lado da banda e que o número de decibéis supera o nível agradável. Chegaram a dizer que diminuíram o som por conta da chatura francesa. Normalmente a intensidade sonora é ainda maior. Surpreende-me o fato de não terem servido ainda cerveja ou qualquer bebida alcoólica. Minha esperança de ver uma garrafa de Skol geladinha passando na bandeja do garçom não se vai até que a festa realmente termine, pouco depois da uma da manhã. "Não era à meia-noite que disseram que terminava?", reclamou o francês. Reclamam até quando a festa dura mais. Verdade é que casamento a água e suco é um pouco triste e dá sim um certo mau-humor. Também eu já estou como os tais. A música árabe é boa e agrada. As garotas dançam de uma forma sexy, meio dança do ventre, meio sabe-se-lá o quê. Há todo o tipo de garotas: bonitas e feias, gordas e magras, safadas e tímidas. Não se pode chegar perto delas, parece haver uma distância regulamentar a se guardar entre machos e fêmeas. Depois de meia-hora a música árabe já começa a irritar, ou serão os franceses que me influenciam mal-humoristicamente? O único rock inglês em todo o casamento: Stand by me. A outra música em inglês tocada é I will survive, mas o cantor não sabia a letra. A banda toca: bateria, dois teclados, derbaque e tambor. Árabe sem parar. O sujeito do microfone canta o uá-uá-uá árabe e, em minha extrema ignorância, todas as músicas parecem iguais. Diz o francês que elas parecem idênticas porque eles usam apenas acordes menores, mas o linque da wikipedia não diz nada disso, de fato diz que os árabes utilizam até notas além da escala padrão ocidental de doze semitons por oitava. Reparo na forma como os sujeitos tocam o teclado e vejo que tocam bem, porém sem nenhuma técnica; uma forma bem despojada. Ainda assim, o resultado final é bom aos ouvidos. O microfone passa de boca em boca e lembro daquele livro que li onde dizem que foi a cultura ocidental que transformou o cantar -- e mesmo o musicar -- em algo que as pessoas devem ser assim "proficientes". Noutras culturas, todos cantam sem vergonha. Os franceses dizem que todos cantam assim porque na família haverão músicos; eles têm desculpas para tudo que se argumente no sentido em que os outros serão melhores que eles. O noivo e a noiva cantam também. Ao fim da festa, dá-se o microfone à avó da noiva que canta com emoção e sentimento. Então pede-se que lhe dêem o derbaque e põe-se o microfone em sua boca. Ela toca e canta sozinha mais um uá-uá-uá árabe. As pessoas vão ao delírio e eu também. Realmente impressionante.

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Queria ter podido sair mais e conhecer mais a cidade, mas agora sou um turista rico e devo ficar preso neste hotel de luxo. Ele não é nada mal. Há uma piscina a 30 graus Celsius que serve para o repouso, além de outra bem fria que serve para o esporte. É assim que as vejo, pelo menos. Fico circulando de uma a outra. O problema de sair do hotel é ter que enfrentar o taxista que vai ficar falando ao ouvido mil horas e o não saber exatamente o que fazer. O hotel é longe de tudo e ao menos é perto de uma praia que, embora não seja das mais bonitas, é praia. Mineiros, você sabe, têm uma atração mágica pelas praias: areia, ondas e água salgada. Dei uma volta por lá hoje. Esta cidade me lembra algumas cidades pequenas do litoral do nordeste, onde passamos férias. A capital do país talvez possa ser comparada a uma Ilhéus, talvez. Eu disse talvez. O trânsito, incrivelmente, consegue ser mais caótico que o brasileiro e fico de certa forma feliz ao pensar que o Brasil não é assim o pior lugar do mundo em termos de desenvolvimento e educação da população. É a primeira vez que me aventuro por lugares de IDH menor que o nosso. Pimenta nos olhos dos outros é refresco; e viva a idiotia do ser humano.

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É ainda difícil entender exatamente o que falam os franceses quando estão todos juntos numa roda, conversam entre si. Pessoa a pessoa, me dou bem. Mas assim no todos-contra-todos fica difícil perguntar do que se trata uma palavra ou conceito. Como se não bastasse estão sempre a falar das Xuxas e Robertos Carlos da França, coisa que não conheço. A outra única estrangeira do grupo é inglesa e já mora na França há mais de dez anos, ela me adverte: "é preciso nascer francês para entender determinadas coisas". Estou longe disso.

Se os franceses não me tratam como um dos seus, é verdade que ao me conhecerem melhor nesta viagem começam a me respeitar mais. Tive a oportunidade de falar praticamente com cada um em separado e foi bom conhecê-los melhor, deixar que me conheçam também. É verdade que quase todos são cultos em um determinado assunto em especial, nem que seja saber sobre a novidade na indústria de jogos. Só não falei com a garota, vinte e poucos anos, porque ela é metida e pensa que quero transar com ela, então me evita. Não vem realmente ao caso se quero ou não transar com ela e fato é que sou um brasileiro e tenho essa brasilidade bonobal, acho que fica nítido. A jovem não faz mesmo questão de ser gentil e agora também eu não estou nem aí. Je m'en fous.

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Os franceses são mesmo céticos. Tudo que se fala, eles duvidam. Se você é brasileiro então, não há certeza que dê que os façam acreditar. Acabara de ler num livro sobre os caracteres árabes e ensinei-os como se escrevia Tunísia em árabe ao mostrá-los caractere por caractere. A tradução literal em árabe da palavra seria como Tuns, onde o 'i' fica sub-entendido. É normal que nas palavras em árabe simplesmente suprima-se as vogais curtas e muitas vezes as palavras contém apenas as consoantes; assim você deve conhecê-las para saber quais vogais estão no meio. Segundo o livro de linguística que leio aqui em meu maiô de banho, ao lado da piscina, é normal que nas línguas existam vogais curtas e longas. Por vezes eles colocam acentos nas consoantes que indicam as vogais curtas a seguir, mas muitas vezes eles simplesmente não o representam. Sabem e pronto. Parece haver certas combinações mais naturais de vogais curtas entre pares de consoantes. Naturais para eles, é claro -- algo como se entre um "b" e "q", fosse mais natural encontrar uma vogal "e" do que "a", daí eles nem se dão ao trabalho de escrevê-la ou representá-la. Enfim, havia também um francês que sabia um pouco de árabe e insistiu que também o "u" do Tunis não estava escrito. Ora, retruquei, acabara de ler no livro que aquela era uma vogal longa, representada por uma letra que em formato parecia um gê. Não, não era nada disso, ele disse. Os outros concordaram com ele, mesmo que eu dissesse que acabara de ler no livro e que estava plenamente correto. Não me deram ouvidos, continuaram em suas ignorâncias e arrogâncias. De fato, também não falo suficientemente bem francês para ser capaz de argumentar fortemente. Simplesmente deixo pra lá. Mas que tem o tal do gê com som de u, ah isso tem.

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Mais uma sobre o ceticismo dos franceses: um deles é meio cego. Jamais saberei o que ele quer dizer com esse "meio". Consegue andar sozinho e sabe quando tem alguém ou alguma coisa em sua frente posto que diz enxergar uma coisa borrada, mas na piscina -- onde se vê apenas a cabeça das pessoas -- chegou a confundir mulher com homem. A mulher do chefe, por sinal: gafe. Se as coisas se movem, ele consegue distingui-las razoavelmente bem, embora esteja sempre a trombar pelos corredores e não foi apenas uma ou duas vezes que o vi tropeçar em qualquer coisa que ia pelo chão. Achei estranho quando ele falou que vinha e pensei como ele poderia se arriscar assim. Pensei também que não fazia muito sentido ir a algum lugar uma vez que não se poderia ver nada. Mas foi puro preconceito, é claro que se pode. Mas, ora, como somos dependentes de nossa visão...

No primeiro dia perguntei a ele o que ele mais atentava quando estava num país estrangeiro e imaginei que ele fosse dizer que fosse o som da cidade. Depois da visão, audição. Certo? Errado. Ele disse que eram as pessoas e que ele gostava de conversar com os nativos para entender o que eles pensavam sobre as coisas. Mas fato é que ele não se esforçava para tanto e quando peguei o mesmo taxi que ele -- como éramos muitos precisávamos nos dividir -- ele foi na frente sem dizer uma palavra ao chofer. Eu mesmo enchia os sujeitos de perguntas. Enfim, o ceticismo. Já comentei que as mulheres faziam aquele li-li-li-li-li bem agudo pra celebrar o casório. E então num certo instante quando elas estavam assim lililizando, ele tentou lililizar também, de forma a imitá-las e participar do cortejo. E, assim, quando alguém lhe disse que parasse, posto que só as mulheres faziam isso, o cego retrucou: "Tem certeza?" São mesmo arrogantes, os franceses. Tem gente que gosta do estilo, provavelmente porque se vê no espelho. Eu não. Prefiro a sinceridade incisiva e sincera dos alemães, por exemplo. Não generalizemos os costumes dos povos, há sempre exceções às regras.

Reclamaram a festa inteirinha e agora na saída dão um sorriso bobo, falso e cínico; dizem que amaram a celebração. Ora, ora, no Brasil não se faria diferente. A sociedade é baseada no cinismo; umas mais que as outras.

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Só um francês no grupo tem um estatus, digamos, pior que o meu. Fico feliz que pelo menos de um, eu ganhe. A pimenta, os olhos dos outros, o refresco. Tudo se liga e volta e se relaciona. O chefe brinca com um e com outro, brinca comigo, mas não com ele. Tenho certa pena dele em meio aos seus -- porque pena mesmo, no sentido absoluto, tenho daqueles indivíduos que, no Brasil, vivem sem ter como viver. É um rapaz sensível e, por isso, pisam nele, desconsideram-no. Na rua, os sujeitos chegam perto dele e ele mal consegue recusar ofertas, pagaria todo seu dinheiro no taxi se o sujeito o pedisse com uma cara de pena que lhe parecesse sincera. O pobre francês sabe que é um privilegiado. Pensei-o no pelourinho assim rodeado de crianças mais do que espertas que não largariam do seu pé mesmo depois de horas. Não sabe dizer não e é bastante educado. Nunca vi alguém comer um peixe com tanta delicadeza e eu, à sua frente, parecia simplesmente o homem das cavernas. Em certos momentos chego a pensar que é homossexual e talvez seja, ou não. Isso não importa, é boa gente. Não se pode ser homem e delicado?

Percebo enfim que o chefe gosta de mim, a chefa também. Discuto com eles mais uma vez porque deixo a França. Respondo que sinto saudades do meu povo e que jamais pensei em morar definitivamente por aqui. O calor é o que falta: do sol e das pessoas. Sei que posso falar inglês e agora arrependo-me de me aventurar tão fortemente pelo francês, às vezes fico sem vocabulário e isso me impede de seguir alguma argumentação. No esforço de falar e compreender o idioma só mais tarde penso que poderia ter explicado isso ou aquilo em inglês. Na hora essa idéia nunca vem, já estou imerso no francês. Embora não entenda tudo, normalmente sei bem sobre o que estão falando e sou capaz de omitir opinião ou idéia sobre alguma coisa. O chefe grande realmente gosta de mim e sempre me coloca na conversa; olha para mim quando está conversando e, quando estamos sós, fala de coisas que me interessam. Ele é sensível e entende qual-é a das pessoas. Acho que ele entendeu qual é a minha. (...) Há algo nele, entretanto, que ainda não consegui definir como defeito ou qualidade. Essa sua extrema sensibilidade permite que identifique rapidamente qual o ponto fraco psicológico de cada pessoa. Eu também às vezes percebo e faço questão de respeitar e não invadir este local de fraqueza sentimental individual de cada um, e assim creio que convivo bem com pessoas tão diferentes. Ele, do contrário, faz questão de enfiar a agulha ali no ponto fraco e ainda espremê-la com força. Assim mostra sua superioridade com relação aos outros. Fala sempre de problemas físicos ou comportamentais claros: careca, gordura, feiúra, aquele que chega tarde, o que trabalha pouco. Ele identifica muito bem o problema de cada um. E depois de meter-lhe a agulha no ponto fraco, ele te dá um abraço e fala que é brincadeira. Ele é mau, mas é do bem. Fiquei feliz um dia quando ele elogiou uma apresentação que fiz, não o faria assim de graça. A outra chefa disse que eu deveria ficar orgulhoso, posto que foram poucas vezes que ela o vira elogiando alguém depois de anos de convivência. Agradeci formalmente.

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20.4.09

And the river bank talks of

Estou aqui fumando este cigarro nesta cadeira florida, varanda onde não faz mais o frio dos meses que já passaram. Tanto melhor. A primavera trás a promessa de vida e esperança ao coração do povo europeu. Respira-se aliviado com o fim de mais um inverno. Noutras varandas, pessoas faxinam alegremente o lugar inutilizado há meia-dúzia de meses. Por aqui, estão agora todos mais abertos para as novidades enquanto as árvores começam a ter novamente folhas e os insetos dão as caras, adentrando por vezes nossas casas e apartamentos, alegres e assustados com o fulgor apavorante de estarem vivos.

Assim, depois de maldizer toda essa gente e cultura e vida dura que levamos como imigrantes nessas terras estrangeiras de gentes desenvolvidas (segundo seus próprios conceitos), estou outra vez com aquele sentimento que deixo uma vida boa. É pau, é pedra e é mais um fim de caminho. Acordo quando quero e tomo calmamente meu banho e café-da-manhã antes de sair. Por vezes pego o violão a jobinear ou buarquear antes de mais um dia de ciência mentalmente estafante e socialmente irreconhecida. Junto minhas experiências sobre o cienciar no estrangeiro e a mesma conclusão dantes me assola: não nos dão o devido valor, pensam-nos mais estúpidos e nem mesmo estão dispostos a argumentar, suas autoridades devemos respeitar. É o tijolo chegando, na cabeça. São todos iguais, aqui e ali, não há diferença. França e Inglaterra e Estados Unidos e Brasil; e alhures ainda. São os velhos pesquisadores a pensarem-se melhores e a não escutarem as críticas já se sabendo corretos antes da discussão começar. A ciência real não é a ciência ideal. Nem mesmo a experiência profissional é assim tão conversa ribeira; é espinho no pé ou corte na mão. É a lama, é a lama.

O sol brilha mas na pele não se sente muito bem. Ainda não é verão e estamos inclinados quanto ao eixo do astro rei, 48 graus de latitude norte. EsTrangeiro, telefone; minha casa é bem mais próxima do Equador e é tão difícil acostumarmo-nos com tais diferenças de temperatura que se espelham diretamente no humor das pessoas; em seus sorrisos e desolhares. É um mistério profundo não haver ainda teoria científica a correlacionar humor e sol, ou temperatura. A correlação é clara, seja no Brasil do ano inteiro ou na Europa da primavera-verão versus outono-inverno. No rosto, o desgosto. Todo mundo percebe mas ninguém prova por a-mais-b, ave no céu, ave no chão. Que ciência é essa? Como é difícil predizer qualquer coisa sobre o comportamento humano! Acredita-se na ciência apenas até o ponto em que ela começa a dizer coisas sobre nós que parecem tirar nosso livre-arbítrio em sermos felizes ou tristes, abertos ou fechados a novas experiências e amizades e corpos-na-cama. A ciência comportamental sempre provará algo para "os outros", não para nós. Fato: estudos comprovarão sempre algo sobre uma população, jamais sobre um indivíduo em especial. Você e eu, estamos fadados à auto-incompreensão, seja pelas vias da razão ou do empirismo. Não nos conheceremos cientificamente, esfinges com interrogações sobre nossas cabeças. Desde a física de partículas, passando pela química de moléculas e a biologia das espécies, até a ciência social. O comportamento é sempre populacional, jamais individual. "C'est un principle valide partout", talvez dissesse o francês. Jamais poder-se-á prever o comportamento desviante de um indivíduo louco, do livre-arbítrio que cremos ter e sermos dele donos. O futuro não está escrito e somos nós que o fazemos, ele é resto de mato na luz da manhã.

O trabalho é preciso terminar, o artigo. Mergulho nos meandros do genoma dos vertebrados utilizando metodologias de inteligência artificial para dizer que sapos e rãs são mais próximos que humanos e Matitas Pereiras, além de concluir que certos cromossomos humanos evoluíram assim, não assado. Nada muito excitante, ou que alguém de bom senso já não pudesse prever. Mas ah, se tudo fosse apenas trabalho... As amizades também é preciso interromper, afastar. Mesmo o caule do amor que nasce é preciso cortar, triste resto de toco deixado para trás. A partida é sempre dura. Não se interrompe a amizade e não se mata o amor, mas os dias se passam e o balde de gelo que sobre eles se derramará fica mais próximo e iminente. Dá medo, ansiedade, preguiça, vontade, tristeza, melancolia, arrependimento, desejo, curiosidade e a febre terçã. O ar. Flutuo nos dias que passam um após o outro, sem pena ou remorso dos que ficaram para trás. Abadabe-daoê, abadab-daoê; abadá, badá. Ré sustenido e sol e ré sustenido e sol, duas vezes ré sustenido, dó sustenido e sol de novo; e mais uma vez. Fujo um minuto de uma compreensão direta para ser apenas o sentir. Ando com mãos vagas, tristes de deixar e partir, e ficar num estado estável, aleatório de palavras, torno-me um gerador de pós-modernismo apto a citar Eco e Derrida, Barthes. Não tenho porque temer o que a vida me reserva e nem mesmo a morte me assusta posto que morto já estou e sempre esteve todo aquele que viveu. Tudo é um contínuo e todos os estados se superpõe quando se alonga a flecha do tempo até o infinito. É mais um passo, outra ponte. Minha alma canta e vejo o meu Belo Horizonte pousar, estou morrendo de saudades. E assim o que chega mata o que foi, o futuro mata o passado assim como dele flui. O agora é tudo que existe. A vida do hoje é a morte do ontem, e a angústia do amanhã é a tensão deste momento que deveria buscar sempre ser só alegria. Mas sabemos que não há vida sem morte, não há pau sem pedra ou pé sem chão, não há bossa sem tom ou fora do Tom. É o fundo do poço, é o fim do caminho. Sou um resto de toco, sou um pouco sozinho.

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10.4.09

Adjuvante, 76231-inverso


Já sei que vão me dizer louco, quando eu revelar-lhes aquilo que tenho medo. Sei que é um medo de característica infundada, um tipo de medo covarde que deve ser vencido e lutado contra a todo instante deste piscar de olhos ao qual chamamos de Vida. Mas é que sou um romântico e tenho um coração que vive em ciclos senóides de pequenez e grandeza, pequenez e grandeza. Este órgão mantém então ali em seus sessenta ou setenta batimentos por minuto. Não está feliz nem triste, está só assim, batendo sem parar. Ainda. E aí quando ele encontra algum desses catalizadores de batimentos cardíacos, enzimas sentimentais de infinito charme e graça, ele tem dúvidas sobre o que fazer: bate descompassado. É claro que o coração quer entrar no ciclo de alta tensão, ele quer bater mais e mais rápido, mais e mais intenso, amar explosivamente. A idéia é aproveitar ao máximo esta passagem pelo mundo que, se sentido tem, ainda não se conseguiu descobrir -- e se, ao contrário, nenhum sentido tem, como pregam Sartre e seus seguidores, então temos mesmo é que torcer pra ele ficar batendo forte, forte e forte. Se só se vive uma vez, nenhum papel passado em cartório e assinado deus nos disse o contrário. Então, que pelo menos seja esta uma vez assim bastante intensa, bem vivida. Certo?

Certo, mas o problema é que parece que o tal do coração de nós, poetas, não consegue encontrar muito bem este meio termo que tem o coração deles, os zumbis. O coração deles fica ali naquele bum-bum-bum monótono e é por isso, talvez, que possam ser realmente considerados mortos-vivos. Quem vive mesmo precisa é correr daqui pra lá, xingar e gritar e errar e depois pedir desculpas e se arrepender e chorar e amar e viver. Quem vive mesmo fala o que pensa e faz o que acha certo. Aos outros, nada disso vale. Fazem o que lhes mandam como bonequinhos bobos, fantoches sociais. Não arriscam seus ideais por nada, muito menos por seus empregos. Se lhes disserem, Aqui não passa gato, matarão elefantes se estes tentarem fazer passar felino. Mesmo que seja por justa causa. Há sempre exceções a quaisquer regras e nenhum paradoxo vai me dizer que estou errado. Simplesmente o universo é caótico e mesmo a lógica se engana sobre mundo. Pode não se enganar dentro de si mesmo, posto que é um conjunto de idéias coerentes, mas engana-se sobre o mundo exterior, este que eu disse não ter regras. Ou, se tem regras, este mundo, não são elas do tipo que podem ser previstas com certeza absoluta por seres humanos. Não há, de fato, qualquer certeza absoluta. Descartes chegou no Penso-logo-existo, mas mesmo isso depende do que se considere pensar e existir e o que não pensa evidentemente existe, afinal. Devemos saber que nada sabemos, ocidentais herdeiros de Sócrates que somos. Talvez eu exagere mas, vamos e venhamos, podemos até ser macacos maravilhosos, mas precisamos compreender que somos excessivamente limitados cognitivamente e em capacidade de processamento. Tudo que sabemos não passa de um minúcia das quatrilhões de coisas que ocorrem ao nosso redor e que simplesmente não damos conta. Há muito mais entre o céu e a terra do que supõe esta nossa vã filosofia, expressou Shakespeare, em Hamlet, já no último ano do século XVI. Nem sempre se pode ser deus, gritou também o Titã na década de 80.

E aí quando meu coração começa a subir na escalinha da onda da curva física senóide da escala sentimental, ele pára e pensa, Deverei mesmo ascender neste eixo? Sabe-se também, segundo leis inabaláveis e sem qualquer tipo de exceções na mais dura das ciências que: para toda ação existe uma reação igual e contrária. E aí o coração já pára ali na subida pra meditar, Será que vale a pena? Ah, o medo de amar. Amar já não é para mim esta coisa inócua e adolescente que os casais prometem ao padre na bosta de púlpito, tendo todas as pessoas elegantemente vestidas ao redor como testemunhas. Esta simbologia da sociedade ocidental, oriental ou o escambal não tem nada a ver com o sentimento que vai no coração dos amantes. E a escada que subimos quando apaixonados é a mesma que descemos quando abandonados ou abandonantes, cansados ou cansantes. A diferença é que normalmente a subida se dá calma, lenta e agradavelmente enquanto a descida precisa ocorrer de forma veloz, voraz, por vezes inesperada e sempre penosa. Tudo que sobe, tem que descer e tudo que desce, tem que subir. Será que vale a pena? Ah, Doralice, como é que nós vamos fazer?

Ah, se ao menos eu pudesse ser um desses seres que amam pouco e que conseguem assim viver em seu individualismo solitário, amando-se ainda mais que aos outros. Talvez fosse uma vidinha mais pacata, assim tranquila e calma. E tediosa. O que sempre procuro é poder me doar e ser um só com meu amor, unidade transcendental, amorosa e sexual. E eu, ainda que não seja nenhum tipo de Vinícius de Morais, tenho essas subidas e descidas que me alegram e depois me matam. "Amor só é bom se doer", disse o poetinha seguindo a mesma linha argumentativa. Sei que a dor me espera e parto em direção a ela, esqueço de Caymmi a Doralice, "amar é tolice, bobagem, ilusão / prefiro viver tão sozinho, ao som do lamento do meu violão" e agora esquecerei de tudo e amarei apenas. Não sofrerei por antecedência. Vá embora, Inevitável Fantasma da Derrota. Não acredito em você a dizer-me que tudo tem um fim, acredito em Perrault e em seus contos de fadas com finais felizes. Deixe-me ao menos viver cada coisa a seu tempo, Ansiedade Fantasma, Falsa Certeza do Fim. Vá! E não mais me importune!

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1.4.09

Sob a neve

Tudo estava combinado: iríamos esquiar na sexta-feira. O problema é que só havia um ônibus que chegava até a estação de esqui e ele saia da Gare às 16hs. Eu era o único que naquele dia estava preso ao trabalho e, portanto, disse aos meus amigos que partissem, eu chegaria por volta das 20hs. Iria com meu carro. Sairia do trabalho por volta das 19hs, pegaria algumas coisinhas em casa e partiria diretamente a encontrá-los. Seriam cerca de duas horas de trajeto e assim eu ainda chegaria a tempo de bebermos e nos divertirmos naquela noite. Combinado!

O que eu não contava, brasileiro ingênuo de conhecimentos invernais europeus, era que aquela noite estaria nevando muito e que o caminho até chegar ao alto da montanha apresentava tantas curvas e tanta neve. Meu carro não era absolutamente preparado para aquelas condições e eu não tinha sequer correntes para colocar nos pneus. O veículo derrapava na neve derretida enquanto eu atravessa sozinho por corredores de estrada estreitos ao longo da montanha. Em boa matemática, um-pouco-para-lá seria igual a lá-em-baixo. Andava a vinte quilômetros por hora e tentava manter a aceleração constante em segunda marcha para que o carro não derrapasse. Apesar da dificuldade, jamais duvidei que cumpriria com êxito minha missão. Seguia com o GPS ligado e não haveria chance de errar a rota. O que eu não contava mesmo era que a nevasca estivesse assim tão forte. O carro já derrapava mais do que o esperado e em certa ocasião não consegui subir um pequeno morro, uma vez que as rodas giravam em falso. Tentei um caminho alternativo apenas para logo depois me ver novamente derrapando em meio a abismos dos dois lados. Ainda faltava cerca de 40 minutos para completar o trajeto e meu otimismo já estava no nível de pensar que estaria tudo bem se eu saísse vivo daquela empreitada. (De fato, até agora não estou certo que não tenha morrido.) Fato é que o mundo inteiro deslizava e logo que encontrei alguma casa parecendo habitada resolvi parar e pedir ajuda. Estacionei o carro e respirei fundo. O que diria?

Liguei para meus amigos do celular e expliquei-lhes a situação. Embora eles dissessem que poderiam buscar-me, neguei a oferta posto que o carro deles também não era preparado para a neve e eu me sentiria extremamente mal por colocar a vida de outras pessoas em risco. Sugeriram-me com razão que batesse à casa e perguntasse ao morador se haveria algum hotel nas redondezas. Neste caso, dormiria confortável e tranquilamente. Continuaria então meu caminho até o alto da montanha pela manhã, posto que haveria um carro especial que passaria pelas estradas logo cedo e removeria a neve acumulada. Asseguraram-me que o caminho estaria livre na manhã seguinte. Portanto eu apenas precisaria apenas esperar o raiar de um novo dia para partir. Talvez pudesse mesmo dormir nesta casa cuja luz saia pelas janelas, sinal da presença de seres humanos. Despedi-me então dos amigos, sai da prisão automotiva e olhei ao redor: senti-me absurdamente sozinho.

(...)

Minha mãe sempre me diz que sou um jacu, no sentido mineirês do termo, o que significa alguém que é meio bobo e que tem acanhamento por fazer certas coisas ou tomar certas atitudes que deveriam ser normais para um ser humano normal. Ninguém é uma bosta de um ser humano normal, de fato. Eu muito menos, faço questão de não ser. As massas. Mas eis que deste fato decorre que -- por um segundo -- sinto-me idiota a bater na porta da casa de alguém que lê um livro à sua lareira e conjugar meu mau francês a pedir ajuda. O que diria? Pensei que não seria de toda má, a idéia de permanecer protegido no carro até o amanhecer. Eu havia trazido uma ou duas bananas, barras de cereais, duas garrafas de vinho e um pouco de cerveja. Tinha um terço do tanque de gasolina e poderia passar a noite ali com o motor ligado a escutar música, talvez lesse um livro e bebesse o vinho, a cerveja e tudo mais. Assim não precisaria incomodar ninguém. Seria desconfortável, sim, mas pedir ajuda era também desconfortável. De fato, considero-me uma ótima companhia para mim mesmo. Dúvida. E eis que então passa pela minha cabeça uma história idiota de alguém que teria morrido dormindo no carro por falta de oxigênio, respirara apenas gás carbônico e morrera sufocado. Não me lembrei muito bem quem, mas fora certamente alguém bem idiota que houvera me contado esta estória. E embora absurda essa idéia de ficar no carro e morrer sufocado, acho que foi ela que me fez decidir -- ímpeto emocional -- a seguir dentre a neve, em direção à porta do misterioso casebre.

Cabeça erguida, nariz apontando a porta, passos largos e decididos. Assim sou eu quando tomo uma decisão. Esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, braço direito, dedo indicador, campainha, som, nervosismo. Espera. Ar. Frio. Fazer cara de simpático, fazer cara de simpático. Há a movimentação de uma pessoa provavelmente a se levantar de uma cadeira e dar passos duvidosos ao caminho da porta, ensaio um discurso. A porta se abre e eis que vejo uma mulher indo nos seus quarenta com um cachecol enorme enrolado no pescoço, colares sobrepostos e um sorriso maroto com a boca mais para o lado direito, delicadas e ligeiras rugas. Pareceu-me um sorriso talvez acostumado com estranhos desconhecendo as agruras do inverno, como se dissesse: sempre batem aqui quando a neve cai forte. Ou senão, chegou a passar pela minha cabeça esta estranha idéia: talvez ela de alguma forma me esperasse. Se não era linda de rosto e corpo, tampouco poder-se-ia dizer que os anos lhe houvessem feito mal. Tinha o charme não aristocrático do francês do campo, charme original, de simplicidade e beleza. Bonsoir, madame. Comecei a explicar o problema e dizer sobre o hotel, o chalé e os amigos. Nesse ínterim vi um pastor alemão – o cachorro, não o religioso oriundo da Alemanha – chegar para verificar o que acontecia. Um vulto de um garoto parece também ter subido as escadas que iam logo atrás da mulher, não estou bem certo. Madame Marteïs foi excessivamente simpática para um conterrâneo de Napoleão e ofereceu-se a dirigir meu carro até a parte baixa da cidade, assim ajudar-me-ia também a encontrar um hotel nas redondezas. Deixou a porta aberta enquanto foi buscar um casaco e um gorro. Brinquei com o cão. Saiu de casa sem dizer tchau a ninguém.

Entrei portanto no lado do passageiro e a fêmea tomou a direção. Estava acostumada com este tipo de terreno e convicta de que não haveria problema para tirar o carro de lá. Confiei cento e dez porcento no que dizia. Chave, ignição, motor, farol, freio de mão, acelerador, opa! Realmente escorrega. O carro é grande, há mais gelo do que a madame pensava; é melhor deixá-lo ali. Convida-me a ir ao seu carro pequeno, pneus de neve, correntes. Andamos pelas redondezas à procura de hotel, falamos amenidades, maldizemos o tempo, bendizemos a beleza invernal, a natureza e poesia que se encontra em todas as coisas. Três hotéis fechados, não há turistas nesses tempos frios. Sugere que voltemos à sua casa, ela ligará para certos outros hotéis um pouco mais distantes para verificar se há alguma vaga e, caso não haja, há um sofá em sua casa. Não quero incomodar e posso muito bem dormir no carro. Ela faz questão, tanto melhor.

De volta, ela me convida para entrar. A casa é simples, entramos numa cozinha com copa onde há uma lareira. Ao lado há uma sala com um sofá, provavelmente onde dormiria. No fundo, uma escada que sobe até a escuridão. Chá para esquentar? Bem certo! Ela esquenta a água enquanto pega o catálogo e o telefone sem fio. Conhece meia dúzia de hotéis. De fato, eu já me acostumava à idéia de permanecer ali durante noite e a idéia começava a me açoitar: por que não amá-la também? O canino era simpático e brinquei com ele. Conquiste as mulheres pelos seus cães e filhos, diz o manual do homem sensual, que jamais li. Meu lirismo, hedonismo ou luxuria iam-se esvaindo à medida que Marteïs entretanto ligava para os hotéis, um atrás do outro. Finalmente encontrou algum onde eu pagaria algumas dezenas de euros por uma noite. Bebemos o chá e fumamos um cigarro e depois mais outro, conversávamos. Decoradora, tinha peças exóticas por toda a casa. Um sol de metal que também poderia ser entendido como uma rosa dos ventos ficava ao lado da lareira. Um arco e flechas ornamentado pendurava-se à parede enquanto um tipo de totem indígena, talhado em madeira e medindo cerca de metro e meio, ia no canto da sala. Sua decoração não era chique ou sofisticada, apenas simples e criativa, causando também uma certa estranheza digna daquelas coisas que podemos verdadeiramente chamar de arte.

Conversamos mais um pouco e ela contou-me adorar crianças e também a maternidade, de forma geral. Tinha um filho de dez anos. E quando eu começava a ficar angustiado por incomodá-la e pensava em partir ao tal do hotel, eis que ela acendeu mais um cigarro e estendeu-se calmamente sobre sua cadeira de balanço. Continuava nosso diálogo tranquilamente e não parecia ter aquele receio de minha presença que tem com um desconhecido. Talvez tenha reconhecido minha boa índole através de meu olhar. Quando falava, olhava intermitentemente para mim e então para os lados. Por vezes encarava-me aos olhos e ficávamos olhando um no olho do outro sem desviarmos, até que precisássemos dar mais um trago no cigarro. Fala de forma macia e lenta, refletia um pouco e fazia aqueles hum-hum-hums que os franceses fazem sem nenhum sentido aparente, como que a dizer que está ouvindo e pois é e coisa e tal. Minha anfitriã era sem dúvida uma alma livre e quase cheguei a perguntar se ela não usava algum tipo de droga ou medicamento que a fizesse assim tão aérea e sensível e concentrada e charmosa, tudo ao mesmo tempo. Por um instante porém, duvidei de sua sanidade mental. Afinal, ninguém recebe um completo desconhecido em casa e fica assim tão totalmente à vontade. Faltou-lhe apenas tirar a roupa e andar pelada pela casada e talvez não o tenha feito apenas porque a neve lá de fora também congelava-nos aqui, mesmo com a lareira. Tive inveja do medo que ela não tinha dos seres humanos.

Amenidades: perguntei se nascera ali e assim começou a contar-me um pouco sobre sua vida. Falou que tivera uma infância sofrida naquele lugar, e entendi nas entrelinhas que seus pais tinham algum problema que ela não chegou a detalhar e que não me atrevi a questionar explicitamente. E então começava a entrar noutras confissões quando o telefone toca. Ela fala então numa língua estranha que identifico como sendo o alsaciano, dialeto moribundo, próximo do alemão, e que alguns poucos ainda falam nesta parte do país. Sou capaz de reconhecê-lo pela entonação da raiz germânica e por tê-lo escutado esporadicamente aqui e ali, embora não entenda nem mesmo uma única palavra. A ligação é assaz rápida e quando desliga diz que precisa sair rapidamente pegar alguma coisa na casa de alguém, voltaria bem breve. Apressa-se a pegar sua roupa e tudo, abre a porta. Olho para ela com uma cara de o-que-faço? e ela me diz que fique ali, já voltava. Não sei se foi isso mesmo que disse ou se não entendi muito bem seu francês, nesses momentos sempre bate uma certa dúvida. Saiu pela porta e me trancou dentro. Fiquei paralisado, agora com certeza de sua insanidade, além da gentileza. Trinta segundos e a chave vira. Desculpe-me, ela diz. Deixa a chave do lado de dentro e sai novamente. Outros trinta segundos e mais uma vez ela abre a porta: diz que pode demorar um pouco, mas volta e levar-me-á ao hotel. Eu posso ficar a vontade, o sofá é todo meu. Desculpa-se mais uma vez, precisa sair rapidamente. Merci, merci! -- replico. A porta se fecha. Trinta segundo se passam e ela não mais volta. Escuto o barulho do motor do carro se perder pela noite.

(...)

O que farei? Levanto-me, sirvo-me mais uma chávena de chá enquanto vou reparando melhor a esdrúxula decoração do casebre. Como uma boa casa francesa há cinzeiros por toda a parte, normalmente cheio de cinzas. De alguma forma, entretanto, o lugar não tem aquele cheiro impregnado de cigarro que se poderia esperar. Há roupas jogadas aqui e ali, nenhuma delas íntima. O quarto ao lado tem um sofá em formato de ele, coberto por uma capa surrada, tons de verde sobrepostos. A capa surrada faz parte da decoração e lembra cores selvagens. Reparo melhor no local: há pequenos espelhos pendurados na parede, além de tecidos indianos – ao que me consta – e alguns colares de origem quiçá africana. Na parede ao fundo há um pequeno quadro, um portrait. Pá-pá! Um barulho parecendo se originar do andar de cima desvia minha atenção. O ruído é forte e rápido, uma batida intermitente. Talvez alguma janela que tenha se aberto. Finjo que não é comigo por alguns instantes, mas o barulho se repete: pá-pá! O vento sopra com um pouco de força. Irei enfrentar o desconhecido e fechar a janela lá em cima ou deixa-la-ei assim, batendo? O barulho incomoda-me, mas não o suficiente. Então fico ali. Em pouco tempo, o espaço entre os sons torna-se mais esparso e o ruído passa a incomodar-me cada vez menos, mecanismo cognitivo de habituação fazendo efeito.

A casa é um pouco escura e decido acender a luz para melhor apreciar ainda melhor a decoração especial, quero reparar nos contornos da lareira e, enfim, arrumar o que fazer. Poder-me-ia estender sobre o sofá e ficar ali tranquilamente, quiçá tentaria dormir. Mas estou tão desperto como quem tomou dois litros de café e curioso sobre tudo isto. De fato não é apenas a curiosidade que me aguça porém também um certo medo, uma adrenalina de um problema não resolvido, uma situação incompreendida e de um final ainda a se revelar. Havia uma angústia no ar e tive a impressão de algo de incomum estivesse a ponto de acontecer. E então me invade, com bastante força, a vontade de sair daquele lugar, um medo, um desejo de pegar meu carro e ir para não importa onde, apenas longe dali e daquele casebre amedrontador. Vejo-me, covarde, já a tocar a maçaneta da porta e sou então abençoado pelo sopro bendito da razão: não há o que temer. A mulher foi simpática, ajudou-me. Não é louca, é linda. É boa gente. Afasto pensamentos insanos, louco sou eu, não há nada de errado. Volto à saleta.

A luz que acendo não ilumina muito bem o ambiente. Os europeus, é bem sabido, não são muito fãs de luz forte e direta. A luzita que se faz atrai então minha atenção, finalmente, para o quadro ao fundo da sala. É um retrato de uma criança, parece-me familiar, talvez seja o filho dela? Seria aquele garoto parecido com o vulto que vi, ou que tive a impressão de ter visto? Era definitivamente parecido! Ou não? Ou terei tido apenas a impressão de tê-lo visto? Déjà vu? Pregará meu cérebro uma peça em mim mesmo? O vulto era definitivamente parecido com a fotografia. Ou teria a fotografia influenciado minha memória e feito com que agora eu visse uma cara no vulto que antes eu nem sequer havia estado certo de ter visto? Ora, acho que enlouqueço. De mais a mais, não parece haver ninguém lá em cima. Só este barulho esporádico: pá!, pá!

Havia me esquecido do totó, não sei por onde esteve. Mas de repente ele aparece correndo, ansioso, pula e parece querer carinho. Passo-lhe a mão na cabeça e afago-lhe o ventre, enquanto ele se deita para que eu possa melhor fazê-lo. Cães são piores que mulheres, assim de tão carentes. Ele está feliz e roça a cabeça em mim. Levanta-se. Agora empurra em mim sua cabeça e, quando eu o afago, ele se esquiva. Parece querer me levar para algum lugar. Vou na direção que ele me guia. De fato, ele me empurra com sua cabeça e fica ansiosamente andando daqui para lá, dando-me voltas e tentando me guiar a algum lugar. E vou seguindo-o até estar aos pés da escada. Ele se posiciona atrás de mim e mete o focinho em minha bunda. Ora, animal abusado! Dou-lhe um tapa ligeiro enquanto penso: deverei subir? Como explicarei tudo se a mulher chegar no instante em que estiver lá em cima a fechar a provável janela que bate? Não posso subir, não tenho este direito e isto seria invadir a privacidade dela. Além disso, de mais a mais ela poderia pensar que estou a tentar assaltá-la, ou coisa do gênero. Ela já confiou por demais em mim. Não vou subir. Olho para o integrante da matilha, penso rapidamente, dou-lhe um drible à la seleção canarinha e chego com agilidade de volta à sala. Assento-me ao sofá a esperar pela reação do canídeo. Fita-me com cara de dó ou pena, talvez apenas surpresa. Mas então vem andando calmamente em minha direção. Senta-se no sofá e coloca a cabeça no meu colo, quer mais carinho. Ah, os cães.

(...)

Fico ali por alguns instantes e deste novo ângulo em que agora me encontro, assentado ao sofá, consigo distinguir um livro que jaz jogado ao chão, num canto -- e que havia me passado completamente desapercebido anteriormente. Ah, esta casa é mesmo cheia de surpresas! O livro parece bastante antigo e tem uma capa preta com detalhes dourados, está aberto próximo à sua metade e tem sua face voltada para o chão. Curioso da literatura e da mente humana que sou, não resisto em me levantar num ímpeto para verificar do que se trata. E em meu caminho até o livro, percebo meu amigo carnívoro a levantar-se e começar a latir exasperadamente. Ignoro-o e porém, quando mais perto do livro caminho, mais o bicho late e late. Tomo então uma atitude direta, premeditada e rápida. Corro em direção ao livro e, quando toco em sua capa, o companheiro simplesmente acalma-se, levanta-se e segue calmamente em direção à escada, subindo-a lentamente até ser devorado pela escuridão do ambiente superior. Estranho este cão. Pego a obra e assento-me calmamente sobre o sofá. O livro está aberto em uma página completamente em branco, amarelo seria melhor descrição para a cor, posto que parece assim tão velho. E então quando passo as páginas em direção ao fim, percebo que não há nada escrito ali. Aquilo não é de fato um livro, porém um caderno. Folheando-o em direção a seu início percebo então do que se trata aquela obra: é um diário da autora! É o diário de minha anfitriã! Uma curiosidade enorme me invade e me dá a vontade de ser capaz de ter algum tipo de leitura dinâmica onde pudesse ler a obra assim rapida-e-totalmente-num-mísero-segundo, para tudo saber. Ah, esse ser humano é mesmo um bicho curioso... Não, não tenho essa vontade. De fato, devorarei este livro como o mais saboroso dos pratos. Fecho-o por um instante. Respiro fundo. Procuro um lugar confortável para me assentar e que não seja muito longe do local onde o livro se encontrava de modo que eu posso colocá-lo lá rapidamente no caso da minha anfitriã voltar de súbido. Pego uma almofada, escoro as costas. Encosto-me com conforto e fecho os olhos por alguns segundos.

(...)

Abro o diário então em uma página próxima ao primeiro quarto e começo a ler do que se trata. Marteïs conta a estória de certa feita em que se banhava nua num dos rios que corria ali pelos Vosges e que, tendo percebido alguém a flagrá-la em sua intimidade, sentiu-se raivosa e não hesitou em enviar seus cães a atacar o sujeito. Não está claro o fim que levara o voyeur. Passo algumas páginas em direção ao futuro e leio que houve ainda uma outra vez em que passeara pela montanha com um de seus amantes, quando faziam uma caminhada de dias -- se é que entendi bem. Houve um momento então em que eles se perderam e passaram dias ou semanas vivendo sem comer ou beber nada, apenas a fazer amor em meio à selva e aos animais que por ali passavam. E o amor que faziam, assim entendia, dava-lhes infindáveis forças para seguir viagem e tentar encontrar um rumo para a casa, sem muita preocupação. Lembro de uma frase de um livro que li recentmente: “Quando não se sabe onde vai não é preciso ter muita pressa.” Por vezes comiam algo que encontravam no caminho e, quando se sentiam cansados, sedentos ou mesmo sem motivo algum, faziam amor. E o amor que faziam preenchia todas as suas necessidades básicas de uma forma que a autora não conseguia explicar muito bem. Ora, interessante a literatura. Seria ficção ou diria realmente verdades sobre o que acontecera? Escreveria um livro, a tal francesa? Misteriosa, esta anfitriã.

(...)

Passo mais algumas páginas e encontro um lugar onde há uma marcação. Interessantemente a caligrafia da autora parece ter se modificado dali para frente, sendo que mesmo o contorno dos símbolos alfabéticos apresentam características diferentes antes ou depois deste trecho. Penso que deve haver algo ainda mais interessante a ser lido naquele trecho. Volto então uma ou duas páginas para me contextualizar sobre o que teria ocorrido e presto atenção ao texto. É noite e ela está sozinha à luz do luar, medita calmamente. A lua está cheia e ela está simplesmente do lado de fora da casa, talvez esta mesma casa, sinto que sim. Ela descreve uma grande árvore da qual teria estado aos pés. E com os olhos atentos e fixo, ela vê que os ramos e galhos do vegetal movem-se de forma a entrarem lentamente para dentro da terra, um após o outro numa sintonia e sincronia que lembrava uma dança. E depois dos galhos e folhas e flores e frutos, também a árvore inteira com seus troncos largos entrara para dentro da terra, glub. E depois da árvore, todas as coisas que iam ao seu redor iam também sendo subterradas naquele ralo de matéria viva e não vida, tudo escorria e parecia derreter para dentro da terra, como num quadro de Dali em movimento. Espaço ao invés do tempo. Ao fim, mesmo toda a terra teria se colapsado num único ponto, logo abaixo do lugar onde ela se encontrava. Em minutos, todo o sistema solar houvera desaparecido dentro do buraco, incluindo sol e lua e Júpiter e Satuno e Plutão, planeta ou não-planeta. Ela agora flutuava na escuridão, nada acima ou abaixo, ao lado ou além ou aquém. Mas a escuridão não era completa, porém luminosa, sob o brilho dos astros que a circundavam vindos doutro sistemas estelares e galáxias distantes. E então neste momento ela teria visto pela primeira vez a abóbada celeste em toda sua dimensão e completude, a circundá-la completamente -- dos pés à cabeça, leste a oeste e norte a sul. Tudo à sua volta era céu e era estrelas e teve a impressão de que sua visão alcançava 360 graus, como se tivesse vários olhos ao longo de sua cabeça e também em todo o seu corpo. Todos seus sentidos haviam transformado-se em visão. E assim ela pôde identificar algumas constelações que sabia de cor e nomeá-las, além de estrelas particulares cintilando. E percebeu também que quando olhava para outros astros era capaz de saber exatamente o nome que os antigos haviam lhe dado e com este nome compreendeu também como a cultura deles baseava-se numa forte ligação humano-cosmos. Era visão e razão, de fato. Os conceitos formados pelos humanos, agora compreendia, haviam vindo sempre da observação galática e estelar. Compreendeu a natureza humana e descobriu que não havia sido o fogo, a roda ou mesmo a pedra polida que haviam tornado o ser humano ser o que era hoje, porém havia sido o céu e a observação atenta das estrelas -- esta era a chave para compreender a base de toda a sociedade hoje existente. Era o céu, o enigma e o segredo, a resposta para a existência humana, os padrões que nossa espécie teve que seguir para ainda estar viva nessa falta de sentido absurda que é a existência. Meditou profundamente.

Voltou à razão e foi capaz de compreender que todas aquelas galáxias representavam estrelas situadas mais próximas ou longínquas de nós e que toda aquela mitologia estelar era simplesmente relativa ao lugar que estávamos no cosmo. Também as distâncias podia identificar e calcular com o olhar mais razão, desvio para o vermelho, matemática-física, Newton e Einstein e além. Concluiu que culturas inteligentes noutras partes do universo também se inspirariam nas estrelas para construir e desenvolver sua sociedade. Porém outras culturas veriam outros ângulos relativos da realidade celeste e, tendo também biologias diferentes, constituições corpóreas alternativas e mesmo sentidos diferentes da visão ou audição, tato, olfato ou paladar – propriosepção teriam? –, construiriam assim sociedades diferentes e não relacionadas àquela do humano terráqueo, limitado cognitiva e transcendentemente. Uns mais que outros. E teria sido neste momento de clareza psicológica que gerara a tal modificação epistêmica de su'alma. Sentira-se iluminada e senciente; sua vida teria se modificado para sempre. Dizia então ter entendido melhor o ser humano e suas agruras, suas práticas, sua constituição social, sua herança animal e cultural. Longe de ter o determinismo de Laplace, parecia poder prever melhor o passado e o presente, explicar melhor o futuro das sociedades, da economia e da natureza. E até nosso futuro evolutivo enquanto espécie. Entendia tudo isso mas, iluminada em estado de êxtase e nirvana, agora não mais se importava com nada. Queria apenas estar bem, estar aberta e leve e livre. Queria apenas flutuar sobre um universo de nuvens e queria sentir-se pessoa e ente, completude na vida. Queria ter um filho e queria ser mais uma vez homem e mulher, ser cultural e biológico, parte do universo natural e social e além.

Estou zonzo e, no momento em que fecho o livro, a porta se abre. Olhamo-nos nos olhos e nada precisa ser dito, ela sequer precisa notar que tenho o livro em minhas mãos. Nossa sintonia se dá por completo, compreendo-a e ela compreende-me. Somos um só naquele instante e também durante toda aquela longa e maravilhosa noite. Parto pela manhã sabendo que estou nela e ela em mim, voltarei um dia para buscar meu filho.

(...)

Abro os olhos. O livro. E então me atinge a curiosidade de saber o que a personagem que encontrei nesta casa tem feito nesses últimos dias, o presente recente. Vejo até onde o livro parece estar escrito, páginas não numeradas, e então retorno meia dúzia de laudas para tentar entender o que vem fazendo, o que anda acontecendo em sua vida nos últimos tempos. O agora, um pouco antes. Cadeia de Markov, apenas os passos acontecidos há pouco interessam. Parece estar melancólica, a anfitriã, segundo seu texto. Passa seus dias andando pelos bosques e pela natureza. Sabe de um lugar onde estão presentes um grupo de cervos e por vezes passa o dia inteiro a observá-los. Não diz nada sobre lojas ou decorações. Talvez tenha mentido, talvez escreva simplesmente algum tipo de literatura do que gostaria de ter vivido. Além da melancolia, parece estar na expectativa de um novo porvir. Diz sentir que algo importante irá acontecer em sua vida e que não pode desperdiçar toda sua energia em assuntos irrelevantes. Precisa preparar-se, posto que sente que mais uma vez o universo estaria a se colapsar em seu ventre sob a insígnia da maternidade. Diz-se sentir sexualmente aberta e delicada, diz estar justamente à espera da semente virtuosa que os astros trarão para ela em pouco tempo, segundo calendário mitológico-estelar do qual bota fé. Passa então seus dias a meditar sobre o fundo glorioso e o término de sua história de vida. Sabe-se iluminada e compreende do porvir, sabe que virá um príncipe a cavalo e que este a abordará sem que se precise tomar alguma atitude. Forças universais de união estão envolvidas. Sabe que seu papel consiste apenas em esperar e preparar-se. Confia nas predições, confia em seu sexto e sétimo sentido. Sabe que está certa e tem a calma da confiança paciente e pacífica. As datas em que escrevera não estão escritas que senão através de um desenho lunar. E começo então a ler talvez o que ela escrevera sobre o dia de hoje ou ontem. É o que penso, dado ao desenho da lua cheia que observo também no céu, lado de fora da janela. Acordara com o coração na boca, já na certeza de que o bendito dia estaria para chegar. Paro um pouco a leitura também com a emoção à flor da pele, será que ela previra de alguma forma minha chegada? Será que por isso teria tido aquela cara de "sabia que você chegaria" quando me recebeu à porta? Será que por isso fora tão simpática? Será que por isso verificamos hotéis fechados? Será que por isso? Será que por isso... Ela tivera a visão de que um homem virtuoso e másculo viria visitá-la e tinha sonhos recorrentes com esta idéia e com a interação assim tão íntima que teria com ele, como se ele fosse seu filho e seu pai, o eterno e verdadeiro amor que nunca dantes tivera. Virtuoso e másculo? Há algo errado nessa estória.
Continuo a leitura, e eis que está escrito que alguém bate à porta e ela se encaminha a abrir. Diz ser um rapaz que tivera o carro derrapando sobre a neve e está sem lugar para dormir, além de não ter onde passar à noite, pede ajuda para encontrar um hotel. Ora, esta claro que esta é minha estória. Como ela poderia ter escrito isso se eu estivera ali desde este momento? Prossigo, curioso. Na estória que conta, ela tenta dirigir o carro do sujeito e não consegue, oferecendo então ajuda em seu próprio carro. Ok, ok, próximo parágrafo... Relata seu sentimento: apesar de saber que está a espera de alguém assim tão importante, tem dúvidas se seria mesmo este o escolhido, seu príncipe e seu encontro completo consigo mesmo. Este rapaz não é um sonhador, logo se vê, ele tem dúvidas e medo, receios; não pode ser o príncipe. Ela esperava alguém decido e conhecido sobre a luz das estrelas e os segredos da alma humana, alguém que transcendesse o estado humano, não um estúpido amedrontado com as relações e desejos da insignificância humana. E assim, ela recebe um telefonema anônimo. Não é ninguém, não se diz quem é. Diz apenas que precisa encontrá-la rapidamente, sob pena do futuro do universo se colapsar em qualquer instante. E assim, finalmente seu coração palpita em alegria e ela larga tudo para viver finalmente seu grande desígnio. Deixara o mortal para trás e agora parte em direção... o livro está incompleto e agora tenho a certeza que não voltará. Deito no sofá e adormeço na absoluta certeza de não ser nenhum tipo de mitologia encarnada.

(...)

E então vou passando outras páginas do livro-diário e lendo-as rapidamente. Percebo que de fato são sempre as mesmas estórias, com pequenas modificações. Mais uma vez está ela a se banhar e o indivíduo a lhe fitar, mais uma vez manda os cães e mais uma vez anda pela montanha-floresta com o amante, sem comer, vivendo de amor. A cada página tudo se repete. A escrita é ligeiramente diferente, o ambiente também. Percebo a loucura de minha anfitriã ou alternativamente percebo como a vida dela opera em ciclos, sempre se banhando e sendo fitada ou amando como fonte de sustento de toda uma existência. Utiliza provavelmente metáforas posto que nada disso pode ser mesmo verdade. Conta a mesma história de maneiras diferentes, diferenças nos detalhes e na forma da narrativa, às vezes utiliza primeira e por vezes terceira pessoas -- narrador onisciente. Conta experiências íntimas e se vê de fora. Folheio mais algumas páginas e vejo que há outra estória ali também. Finalmente algo diferente. É inverno e ela está lendo em sua lareira quando alguém bate à porta pedindo ajuda. Ora, não é possível! Passo páginas e mais páginas e vejo que também nisto há recorrência. Há várias estórias de diferentes gentes de todo o mundo que batem à sua porta a pedem ajuda em tempo invernal, pessoas indo esquiar, pessoas desinteressantes e enfadonhas; sempre as mesmas pessoas, pedaço da massa-burra. Vejo-me como peça de um destino já escrito. Não consigo agora saber do que se trata a verdade ou a falsidade. Ficção e não-ficção. As pessoas que adentram sua humilde casa sempre têm aquele desconforto dos que rogam por ajuda e ela é sempre educada e presta seu serviço humano. Há os que chegam caminhando e os que chegam em carro. Há os que chegam a sós ou acompanhados. Estou curioso pelo fim da história. Passo os parágrafos e ela sempre vai embora e jamais volta a saber o que está acontecendo. Chega um instante em que a relação hóspede e anfitrião se torna para ela insustentável e ela sempre consegue uma desculpa para sair dali e evitar o mal estar sartreano da convivência humana, o inferno que está nos outros. E então ela retorna tempos depois, quando tem certeza que não será mais importunada pela presença alheia. E mais uma vez, no dia seguinte, vai banhar-se a ser observada novamente. E eis que é exatamente o que o futuro lhe reserva. Partirei ao amanhecer.

(...)

Livro, livro. Eis que uma página tem ali impressa uma réplica idêntica do quadro que vai à parede. Reparo na pintura que vai no papel. A criança ali pintada, filha de minha anfitriã, está a me fitar através das páginas do livro. Mexo para cá e para lá, coloco o livro à distância e a criança continua me fitando. Conheço muito bem esta técnica estilística onde não se importa onde se vá, tem-se a impressão de que a figura te observa. Não sei como se faz tecnicamente, mas sei que é possível fazê-lo e, embora saiba que se trate puramente de uma técnica, aquele medo animal que reside nas profundezas da psiquê humana me invade. A figura incomoda-me e agora também o quadro me dá uma sensação de mal estar. Tenho a impressão de que a criança quer apoderar-se do meu corpo, roubar a minha alma. E a mulher não volta. O que estará acontecendo? Terei entrado em algum tipo de portal dimensional e me encontrarei em alguma outra dimensão? Terei morrido? Onde estarei, de fato? Tudo isso não me parece fazer nenhum sentido. Preciso de chão. Levanto-me e vou até a porta. Abro-a. Do lado de fora vejo ao longe meu carro, ele está lá, ele é meu pouso, minha ligação com a realidade, minha vida, um porto seguro. Um objeto ridículo serve-me como conforto. Não sei porque estou assim ansioso, não há de ser nada. Há apenas uma mulher que me ajuda, há uma casa e há um cão, cachorro, canídeo, animal, bicho, carnívoro, melhor amigo do homem. Há também uma foto incômoda e um barulho que vem do andar de cima. A mulher irá me ajudar, mas teve que ir em algum lugar fazer alguma coisa nalgum lugar. Esperarei. O relógio taquetiqueia e os olhos da criança no quadro incomodam-me profundamente, quando observo o livro -- agora fechado -- sei que aquela foto continua a me fitar, tentando roubar o meu corpo. Sinto um incômodo que é rapidamente silenciado quando escuto algo. Fecho os olhos para melhor escutar. Será este um barulho de carro? Motor? Sim, ela voltou. Permaneço assentado no sofá e guardo o livro como estava. Cruzo as pernas como se nada acontecesse e espero a mulher entrar. Mas nada acontece, é a campainha que então toca. O que farei? Hesito por um instante. Então levanto-me e dou passos duvidosos ao caminho da porta. Abro-a. Surpreso vejo que não é minha anfitriã que está ali e sim uma outra mulher. Ela me diz que tem um problema com o carro; estava indo esquiar, mas está nevando muito e seu carro não é adaptado para a neve. Enquanto ela diz isso, o cão acorda de onde estava e chega próximo de mim. E quando olho em seus olhos, algo estranho acontece: vejo na cara do animal, o rosto do menino da pintura. Um vento sopra e me trás um calafrio. Vejo agora toda a cena se desenrolar como uma imagem longínqua, escuto um som abafado. Vejo a mim mesmo falando com a mulher e lhe oferecendo ajuda num francês que jamais seria capaz de pronunciar. Tento me mover e tomar conta de meu corpo, mas percebo que não posso. Estou parado. Estou imóvel. Estou dentro do quadro. É o menino que comanda meu corpo agora. Ele tomou minh'alma. Eles saem, passam um tempo lá fora e voltam. O menino que deveria ser eu pede para a mulher esperar ali e sai da casa. Ele leva meu corpo e agora estou convicto de que o leva para sempre. Jamais serei eu mesmo novamente. A mulher então fica ali, repara em coisa e outra. Chega perto de mim e me observa. Sou eu agora a desejar seu corpo, observo-a com profundidade. Era meu corpo que o garoto desejava, não a alma. A alma ele tem a sua própria. Cobiço o corpo da mulher para poder me ver livre da angústia de ter uma consciência e estar preso num objeto, imóvel, sem movimento, sem dor, sem nada. Eu sou um quadro. Apenas tenho olhos e mente, visão e razão. Meu inferno sou eu mesmo. Preciso sair dali ou ficarei louco em pouco tempo, em muito pouco tempo. Olho para o totó e faço com ele um trato imagético, ele me ajudará a sair dali e entrar num outro corpo, no corpo daquela mulher. Só preciso esperar o momento adequado. Preciso ficar atento quando outroguém bater à porta e, assim, quando a mulher for abri-la, passarei através do cão para o seu corpo. Ele é chave e percebo que consigo de certa forma controlá-lo. Quando olho para ele, ele entende o que falo. Ah, que prisão. Estou ansioso em ter um corpo novamente. O que faz sentido neste mundo? Nada. Qual a razão, a emoção? Significado não procurarei. Serei agora uma mulher e não me importa se ela ficará presa aqui, preciso salvar minha liberdade e minha existência, nada mais me importa. Mesmo na lei dos homens tens o direito de danar o outro se for por sua própria salvação. Não sou que um homem. Tento acalmar-me e espero ansiosamente o próximo que virá bater à porta e que me permitirá tomar-lhe o corpo. Não posso perder o membro da matilha de vista, conto com sua ajuda. Ainda assim, não consigo tirar meus olhos da mulher. Seu corpo cobiço como jamais cobicei nada neste mundo. Preciso dele como preciso de forçar esta sanidade. Sanidade, insanidade. Estou ansioso sobre como tomarei seu corpo e serei eu-ela, e ela o quadro. É só uma questão de tempo.

(...)

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