Thomson
Aquele som, contínuo e estridente, acabei percebendo depois que viera de apenas um único animal, entidade estanque e indivisível. Indivíduo, indivisível. O indivíduo é também um átomo que opera num nível de grandeza apenas razoavelmente maior, comparativamente maior. Apesar de não haver antes meditado sobre o assunto, teria dito que as ondas sonoras que chegavam aos meus ouvidos seriam provenientes de uma grande quantidade de animais; medi-los-ia em dezenas. Mas eis que a sinfonia natural que me invadia o corpo concomitante à música urbana fez-se, de repente, ausente. E o incômodo produzido pela repentina parada daquele som que nostalgicamente lembrava-me os campos e suas calmarias características levou-me ao seguinte questionamento: como seria que dezenas de animais que cantam ou que roçam suas asas entre si poderiam coordenar uma parada simultânea e abrupta, cronometrada, todos ao mesmo tempo, como se houvesse um maestro a controlá-los e acusar o fim da melodia?
Tal parada coordenada era impossível. Assim, meu cérebro negou veementemente a hipótese do maestro grilo ou da maestra cigarra e concluiu apressadamente que aquele som que antes escutara proviera de um único animal que, sabe-se lá por qual razão, resolvera parar de emitir som daquele instante em diante. Uma questão de estados discretos: som e não-som. Mudança de estados que não poderia se operar de maneira orquestrada para as dezenas de indivíduos que dantes eu pensara estarem a emitir tal sinfonia. Portanto, concluí convicto: era um só o instrumentista da melodia natural.
E não pense que parei minha meditação por aí. Explorei ainda além.
A teoria atômica do indivíduo faz-me questionar e pensar sobre outras formas de organização no universo. As células agrupam-se umas às outras baseadas na forma como respondem a estímulos e como tais estímulos as incentivam a produzir determinas substâncias -- principalmente RNAs ou proteínas -- que de outra forma irão remodelar a própria célula e fazê-la responder às mudanças ambientais. A homeostase do indivíduo depende dessa resposta coordenada. Células ligam-se normalmente a células similares e, assim, formam tecidos. Indivíduos humanos fazem o mesmo: conversamos com pessoas e delas temos apreço ou repulsa. Com aquelas que temos apreço, reunimo-nos e celebramos a vida na forma de festas, reuniões, bailes ou o que quer que seja. Com as que temos repulsa, afastamo-nos. Um suposto Físico, ordens de grandeza maior do que nós, olharia para essas pequenas da relação humana a teorizar sobre nosso comportamento buscando uma ordem ali encerrada. Talvez chamasse tal apreço de positivo e à repulsa poderia dar o nome de negativo. Assim Ele criaria uma teoria elétrica-psicológica que seria capaz de prever razoavelmente o comportamento de seres humanos indo para cá e para lá, atraindo-se e repelindo-se dado a similaridades simbológicas, intelectuais e sociais. Talvez criasse uma teoria segundo a qual pudesse prever o comportamento de populações inteiras de seres humanos ao observar as características de uns que preferiam ir para cá ou para lá, juntar-se ou afastar-se de afetos e desafetos. Dividiriam certas características em comum, como o gosto pela música, a ciência ou a literatura. Tomaria-nos como entidades e faria conosco experimentos, colocar-nos-ia junto de pessoas que teorizasse que gostaríamos ou não e assim veriam, confirmariam, anotariam nosso comportamento e preveriam o que faríamos dado este ou aquele fator. Afinidades psicológicas não passavam de outras regras de atração e repulsão do espaço físico, dentro do qual indivíduos humanos seriam entidades atômicas e indivisíveis.
Já vejo entretanto alguns vindo argumentar sobre nosso livre-arbítrio e dizendo que este tal Mega-Físico quiçá divino talvez nada pudesse sobre nós conhecer posto que fazemos o que bem entendemos. Isso não é lá muito bem a verdade, posto que teorias estatísticas nossas mesmo conseguem fazer-nos prever fenômenos que mudam de ano para outro em nossa própria população e, de fato, este é o objetivo de todas as políticas públicas dos governos por todo o mundo. Supõe-se um problema e uma solução, aplica-se dinheiro e espera-se o resultado que, embora frequentemente mais modesto que o esperado, é capaz de modificar a sociedade na direção desejada. E se nós mesmos conseguimos prever-nos, quiçá o suposto mega-físico que talvez seja ordens de grandeza maior do que nós: física e cognitivamente.
De forma contrária e agora dirigindo-nos pelo caminho inverso, não há qualquer tipo de evidência de que o átomo não possa ter ele próprio algum tipo de livre-arbítrio. É fato conhecido que os cientistas não são jamais capazes de predizer o comportamento de um único átomo ou molécula. Predizem o comportamento de populações deles. Eis onde estão as regras da ciência: no comportamento geral de entidades, sejam elas átomos, moléculas, células, tecidos, organismos, populações, ecossistemas, planetas, sistemas, galáxias. Dizer que um átomo não obedece necessariamente as regras que ele deveria obedecer -- dada a afamada e agraciada teoria física que temos -- talvez seja o mesmo que dizer que o átomo, de certa forma, possui livre-arbítrio. Dirão aqui que exagero e que o fato da complexidade do universo ser maior do que a que podemos medir não implica necessariamente em uma suposta vontade-atômica. É claro que não. Mas também, por outro lado, não desimplica. Pode ser que ela exista e, de fato, acredito que sim. Posto que se considerarmos que o átomo tenha um comportamento completamente mecanicista, também nós o teríamos. E isto me parece uma conclusão lógica direta. Se o demônio de Laplace [1] realmente existir, logo nem o átomo nem os indivíduos dele formados, incluindo você e eu, não terão vontades ou desejos quaisquer -- e o universo não passará de um sistema completamente sem-graça e puramente determinístico, basicamente um modelo mecanicista supremo possuindo pequenos bloquinhos regidos por leis estritas e imutáveis que modificam a posição de tais blocos entre instantes ínfimos de tempo. Eis o pensamento careta do deus-mecânico que não possui dados: completa falta de criatividade. De fato, provavelmente jamais saberemos se a incerteza de nossas medidas se dá por um comportamento mais complexo do que o que podemos medir ou por um indeterminismo estatístico intrínseco, seja das propriedades da matéria ou de nossa compreensão cognitiva das mesmas. Prefiro pensar que o universo é criativo, que o átomo tem seu livre-arbítrio de átomo e que também eu tenho meu livre-arbítrio de ser humano, assim como nosso mega-físico que prevê nosso comportamento terá seu livre arbítrio em escala possivelmente aumentada. Supomos normalmente sermos nós a forma maior, mais organizada e consciente de matéria que existe, mas esta pode não ser uma verdade. Gaia talvez seja consciente e saiba do câncer que sofre, saiba da proliferação de agentes infecciosos humanos talvez não a matá-la, mas a transformá-la drasticamente de dentro para fora. Talvez ela saiba e tente conscientemente modificar algo. Talvez não, talvez goste. Eu, por exemplo, fumo e sei que me mata. Nem por isso paro. Serão os humanos um vício de Gaia? E o que será a consciência, de fato? Possuiremos -- gaia, nós ou um átomo -- tal consciência? Quão enviesado será nosso próprio conceito de consciência? Gaia, o super-indivíduo. Atomização, pedaços separados, entidades estanques que têm comportamentos pré-definidos. Talvez tenham livre-arbítrio, talvez não.
O animal volta a cantar e as ondas sonoras que produz alcançam meu receptor sensorial e causa provavelmente liberação de serotonina em meu cérebro. Escuto e, mais um pouco, medito...
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[1] Sobre o demônio de Laplace: Laplace foi um matemático, físico e astrônomo francês da era napoleônica, tendo vivido entre a metade dos séculos XVIII e XIX. Ele é conhecido por formular a existência de um demônio que representa uma visão ultra-determinista sobre o universo. Normalmente quando se fala do paradigma de Laplace ou do demônio de Laplace refere-se a um suposto ser fictício que conheça a posição de todos as partículas fundamentais da matéria num tal momento e todas as regras que regem a mudança de posição de tais partículas de um instante a outro. Tal demônio contendo tais informações teria, de pronto, todo o passado, presente e futuro revelados a seus olhos. O paradigma laplaciano não abre espaço para qualquer incerteza ou aleatoriedade no mundo ou no universo e uma adoção desta perspectiva implica, necessariamente, na completa ausência de livre-arbítrio. Desta forma, todas as nossas atitudes estariam pré-determinadas através de movimentos de moléculas em nosso cérebro que poderiam ser previstas pelo demônio em questão. Tal perspectiva também está relacionada ao fato de que o destino é inexorável e imutável, já estando de certa forma escrito pelas condições iniciais do universo e pelas regras fixas nele presentes.
