.comment-link {margin-left:.6em;}

Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

25.6.09

Thomson

Quando aquele som curvo chegou aos meus ouvidos, não mais cintilei e a estrela que um dia houvera sido agora brilhava suas luzes de maneira diferente, absurda, inovadora. Não se sabe como, mas fato é que as forças psicológicas e físicas juntaram-se de uma maneira jamais vista e acenderam o fogo da luminosidade de uma forma criativa e poderosa.

Aquele som, contínuo e estridente, acabei percebendo depois que viera de apenas um único animal, entidade estanque e indivisível. Indivíduo, indivisível. O indivíduo é também um átomo que opera num nível de grandeza apenas razoavelmente maior, comparativamente maior. Apesar de não haver antes meditado sobre o assunto, teria dito que as ondas sonoras que chegavam aos meus ouvidos seriam provenientes de uma grande quantidade de animais; medi-los-ia em dezenas. Mas eis que a sinfonia natural que me invadia o corpo concomitante à música urbana fez-se, de repente, ausente. E o incômodo produzido pela repentina parada daquele som que nostalgicamente lembrava-me os campos e suas calmarias características levou-me ao seguinte questionamento: como seria que dezenas de animais que cantam ou que roçam suas asas entre si poderiam coordenar uma parada simultânea e abrupta, cronometrada, todos ao mesmo tempo, como se houvesse um maestro a controlá-los e acusar o fim da melodia?

Tal parada coordenada era impossível. Assim, meu cérebro negou veementemente a hipótese do maestro grilo ou da maestra cigarra e concluiu apressadamente que aquele som que antes escutara proviera de um único animal que, sabe-se lá por qual razão, resolvera parar de emitir som daquele instante em diante. Uma questão de estados discretos: som e não-som. Mudança de estados que não poderia se operar de maneira orquestrada para as dezenas de indivíduos que dantes eu pensara estarem a emitir tal sinfonia. Portanto, concluí convicto: era um só o instrumentista da melodia natural.

E não pense que parei minha meditação por aí. Explorei ainda além.

A teoria atômica do indivíduo faz-me questionar e pensar sobre outras formas de organização no universo. As células agrupam-se umas às outras baseadas na forma como respondem a estímulos e como tais estímulos as incentivam a produzir determinas substâncias -- principalmente RNAs ou proteínas -- que de outra forma irão remodelar a própria célula e fazê-la responder às mudanças ambientais. A homeostase do indivíduo depende dessa resposta coordenada. Células ligam-se normalmente a células similares e, assim, formam tecidos. Indivíduos humanos fazem o mesmo: conversamos com pessoas e delas temos apreço ou repulsa. Com aquelas que temos apreço, reunimo-nos e celebramos a vida na forma de festas, reuniões, bailes ou o que quer que seja. Com as que temos repulsa, afastamo-nos. Um suposto Físico, ordens de grandeza maior do que nós, olharia para essas pequenas da relação humana a teorizar sobre nosso comportamento buscando uma ordem ali encerrada. Talvez chamasse tal apreço de positivo e à repulsa poderia dar o nome de negativo. Assim Ele criaria uma teoria elétrica-psicológica que seria capaz de prever razoavelmente o comportamento de seres humanos indo para cá e para lá, atraindo-se e repelindo-se dado a similaridades simbológicas, intelectuais e sociais. Talvez criasse uma teoria segundo a qual pudesse prever o comportamento de populações inteiras de seres humanos ao observar as características de uns que preferiam ir para cá ou para lá, juntar-se ou afastar-se de afetos e desafetos. Dividiriam certas características em comum, como o gosto pela música, a ciência ou a literatura. Tomaria-nos como entidades e faria conosco experimentos, colocar-nos-ia junto de pessoas que teorizasse que gostaríamos ou não e assim veriam, confirmariam, anotariam nosso comportamento e preveriam o que faríamos dado este ou aquele fator. Afinidades psicológicas não passavam de outras regras de atração e repulsão do espaço físico, dentro do qual indivíduos humanos seriam entidades atômicas e indivisíveis.

Já vejo entretanto alguns vindo argumentar sobre nosso livre-arbítrio e dizendo que este tal Mega-Físico quiçá divino talvez nada pudesse sobre nós conhecer posto que fazemos o que bem entendemos. Isso não é lá muito bem a verdade, posto que teorias estatísticas nossas mesmo conseguem fazer-nos prever fenômenos que mudam de ano para outro em nossa própria população e, de fato, este é o objetivo de todas as políticas públicas dos governos por todo o mundo. Supõe-se um problema e uma solução, aplica-se dinheiro e espera-se o resultado que, embora frequentemente mais modesto que o esperado, é capaz de modificar a sociedade na direção desejada. E se nós mesmos conseguimos prever-nos, quiçá o suposto mega-físico que talvez seja ordens de grandeza maior do que nós: física e cognitivamente.

De forma contrária e agora dirigindo-nos pelo caminho inverso, não há qualquer tipo de evidência de que o átomo não possa ter ele próprio algum tipo de livre-arbítrio. É fato conhecido que os cientistas não são jamais capazes de predizer o comportamento de um único átomo ou molécula. Predizem o comportamento de populações deles. Eis onde estão as regras da ciência: no comportamento geral de entidades, sejam elas átomos, moléculas, células, tecidos, organismos, populações, ecossistemas, planetas, sistemas, galáxias. Dizer que um átomo não obedece necessariamente as regras que ele deveria obedecer -- dada a afamada e agraciada teoria física que temos -- talvez seja o mesmo que dizer que o átomo, de certa forma, possui livre-arbítrio. Dirão aqui que exagero e que o fato da complexidade do universo ser maior do que a que podemos medir não implica necessariamente em uma suposta vontade-atômica. É claro que não. Mas também, por outro lado, não desimplica. Pode ser que ela exista e, de fato, acredito que sim. Posto que se considerarmos que o átomo tenha um comportamento completamente mecanicista, também nós o teríamos. E isto me parece uma conclusão lógica direta. Se o demônio de Laplace [1] realmente existir, logo nem o átomo nem os indivíduos dele formados, incluindo você e eu, não terão vontades ou desejos quaisquer -- e o universo não passará de um sistema completamente sem-graça e puramente determinístico, basicamente um modelo mecanicista supremo possuindo pequenos bloquinhos regidos por leis estritas e imutáveis que modificam a posição de tais blocos entre instantes ínfimos de tempo. Eis o pensamento careta do deus-mecânico que não possui dados: completa falta de criatividade. De fato, provavelmente jamais saberemos se a incerteza de nossas medidas se dá por um comportamento mais complexo do que o que podemos medir ou por um indeterminismo estatístico intrínseco, seja das propriedades da matéria ou de nossa compreensão cognitiva das mesmas. Prefiro pensar que o universo é criativo, que o átomo tem seu livre-arbítrio de átomo e que também eu tenho meu livre-arbítrio de ser humano, assim como nosso mega-físico que prevê nosso comportamento terá seu livre arbítrio em escala possivelmente aumentada. Supomos normalmente sermos nós a forma maior, mais organizada e consciente de matéria que existe, mas esta pode não ser uma verdade. Gaia talvez seja consciente e saiba do câncer que sofre, saiba da proliferação de agentes infecciosos humanos talvez não a matá-la, mas a transformá-la drasticamente de dentro para fora. Talvez ela saiba e tente conscientemente modificar algo. Talvez não, talvez goste. Eu, por exemplo, fumo e sei que me mata. Nem por isso paro. Serão os humanos um vício de Gaia? E o que será a consciência, de fato? Possuiremos -- gaia, nós ou um átomo -- tal consciência? Quão enviesado será nosso próprio conceito de consciência? Gaia, o super-indivíduo. Atomização, pedaços separados, entidades estanques que têm comportamentos pré-definidos. Talvez tenham livre-arbítrio, talvez não.

O animal volta a cantar e as ondas sonoras que produz alcançam meu receptor sensorial e causa provavelmente liberação de serotonina em meu cérebro. Escuto e, mais um pouco, medito...

--

[1] Sobre o demônio de Laplace: Laplace foi um matemático, físico e astrônomo francês da era napoleônica, tendo vivido entre a metade dos séculos XVIII e XIX. Ele é conhecido por formular a existência de um demônio que representa uma visão ultra-determinista sobre o universo. Normalmente quando se fala do paradigma de Laplace ou do demônio de Laplace refere-se a um suposto ser fictício que conheça a posição de todos as partículas fundamentais da matéria num tal momento e todas as regras que regem a mudança de posição de tais partículas de um instante a outro. Tal demônio contendo tais informações teria, de pronto, todo o passado, presente e futuro revelados a seus olhos. O paradigma laplaciano não abre espaço para qualquer incerteza ou aleatoriedade no mundo ou no universo e uma adoção desta perspectiva implica, necessariamente, na completa ausência de livre-arbítrio. Desta forma, todas as nossas atitudes estariam pré-determinadas através de movimentos de moléculas em nosso cérebro que poderiam ser previstas pelo demônio em questão. Tal perspectiva também está relacionada ao fato de que o destino é inexorável e imutável, já estando de certa forma escrito pelas condições iniciais do universo e pelas regras fixas nele presentes.

Marcadores: ,

24.6.09

Com açucar, com afeto

Lembro da garota que hoje me atendeu e algo em meu cérebro aponta: eu já a conhecia antes. Não sei mais se posso confiar nesta ferramenta falha que é o cérebro humano e o mecanismo de memória. É claro que já a conhecia antes, coisa de semanas. Da primeira vez que a vi não lembro de ter tido essa impressão de conhecência desde longos idos. Talvez neurologicamente possa-se explicar o caso da seguinte forma: é possível que hoje eu tenha reparado em alguma característica especial da garota que é também compartilhada por alguma amiga de longa data. Esta característica específica misturou-se entre as conexões cerebrais novas e velhas de meu cérebro e fez com que, ao perceber tal idiossincrasia da garota, meu cérebro tenha ativado redes e circuitos neuronais já bastante utilizados (noutra pessoa), fazendo com que pensasse que já a conhecia de longa data. Algum neurobiologista poderia dizer se a hipótese faz sentido.

Estou impressionado sobre como as pessoas nesse país são doces. Vindo de ano e meio na Europa, onde havia desligado completamente meu senso de brasilidade devido a questões de sobrevivência e adaptação, chego aqui e entro quase num êxtase com relação a esses pequenos relacionamentos interpessoais que temos com desconhecidos ao longo do dia. Elisa me sorri um sorriso assim tão simpático e carinhoso que dá vontade de pegá-la no colo e enchê-la de beijos. Isso porque, a menos que meu cérebro me pregue peças, eu não a conhecia anteriormente. Também a mulher do banco, uma loira linda que iria casar-se no fim da semana passada e que, hora dessas, curte sua lua de mel em algum paraíso natural desses que só Brasil tem. Ela fala comigo assim tão despojada e tranqüilamente, como se fôssemos amigos há anos. Viva o Brasil! Na França existe essa distância -- cá entre nós: ridícula -- entre as pessoas que não se conhecem e que ficam pseudo-respeitando-se ao se tratarem de vous ao invés de tu. Um tipo de pseudo-cortesia que incita à distância e medo entre os indivíduos. As pessoas não se amam na Europa. Elas apenas se suportam. Foi mesmo Sartre que disse que o inferno são os outros. No Brasil, os outros são o céu.

A garota da Moldávia, de lábios carnudos e deliciosos de se beijar, disse-me que eu era doce. Foi a primeira vez que alguma garota classificou-me com tal adjetivo. Ao fim da minha adolescência, chamavam-me de grosso ou tosco. Diziam isso porque sempre fui mais sincero do que deveria ser ao invés de seguir o caminho padrão da hipocrisia. Mas eles estavam enganados: sinceridade e grosseria não são a mesma coisa. O alemão que o diga. E a bela moldaviana é que realmente conseguiu entender-me, ela que também está entre as pessoas mais delicadas e belas que já encontrei neste meu caminho em direção à morte. O problema dessa garota era seu entrave de viver. Fato comum naqueles que não conheceram jamais os escritos ou canções de Vinícius de Morais. Há muitos assim também por todo o mundo, pessoas com medo de revelarem-se e divertirem-se. Certamente isso é herdado de uma filosofia cristã que tenta nos dizer que tudo é pecado e reprime-nos de fazermos o que bem desejamos. Daí ficamos assim reprimidos de nos soltarmos, liberar-mo-nos, mesmo quando isso é a coisa que mais queremos fazer. Esquecemo-nos que só vivemos uma vez e que nada faz sentido, exceto o prazer. E assim, restou-me apenas uma promessa de amor, no futuro. Além da vontade, de ambos. Ora, queria saber quem foi que inventou a palavra pecado.

A outra garota da recepção é até mais gostosa: tem peitos salientes que saltam à vista no decote de país tropical. Salve o Brasil! Mas não tem aquele charme adocicado que a moreninha esbanja. Qual o quê? Nem por um instante trocaria este bem-moldado par de tetas pelo jeito meigo e o sorriso natural da moça que de alguma forma conheço há tanto tempo, há tão pouco tempo. É o teu qualquer coisa além da beleza, Vinícius. O alguma coisa no jeito que ela se move e que atrai Harrison mais do que às outras. Ah, a música como expressão do lirismo que há no mundo. Definitivamente: não é doce nenhum que faz homem parar em casa.

Marcadores: ,

23.6.09

Toda certeza será castigada

Quando aquela idéia fixa dispersou-se de minha mente, senti-me livre. Não mais estava comprometido àquilo; àquela coisa que batia constantemente em meu cérebro e apontava-me um caminho supostamente correto e indubitável a seguir. Só agora me dei conta: seria mesma tão correta assim, a mensagem? Finalmente conseguia olhar para o lado e tentar perceber outras nuances e possibilidades que senão aquela estrita, única e perfeita da qual meu cérebro anteriormente havia levado-me em direção. Havia outras, muitas outras possibilidades das quais eu havia passado assim batido por simplesmente não considerá-las seriamente, uma vez que estive assim enebriado pela ofuscante decisão.

Agora liberto do sopro violento da luz fundamentalista que me vinha à mente, pude analisá-la com melhor ponderação. De fato, considero que a idéia parasita-mental não era de todo incorreta ou falsa. Caso a tomasse realmente como Verdade e dela fosse em busca, talvez fosse feliz. A falha em alcançá-la, entretanto, poderia ter me levado ao botom do mais profundo poço. De fato, era bom sentir-me novamente livre e dono de minhas ações. Humanos nem percebem o quanto são parasitados por estes memes tão fortes que nos fazem simplesmente torcer o rumo de nossas vidas a troco da defesa e reprodução deles. É preciso estarmos sereno para sermos capazes de separar nossa vida biológica, a única existente, de uma vida ideológica fantasiosa e falsa -- principalmente quando dirigida a um rumo específico e inquestionado. Naquele instante em que relativizei tal pensamento assim tão direcionado e positivista, vi que as vias a seguir para alcançar um objetivo agora mais amplo poderiam se dar através de atalhos ofuscados pela luz fundamentalista ou mesmo por direções contrárias àquelas que anteriormente pensei corretas; sem mesmo questionar.

Não é de todo impossível que um dia eu venha a retomar esta que foi a mais forte das idéias e tome-a decisivamente de forma a acompanhar-me nesta caminhada rumo à morte, objetivo final de todo que vive. Tal aliança porém jamais se dará novamente de forma assim tão cega como quando eu a jamais houvera questionado. As grandes idéias que são verdadeiramente falsas consistem nestas que nos parasitam a mente sem deixarem espaços para idéias concorrentes a tomarem seus lugares. "Não sejas estrito", deveria ser um dos mandamentos. Nada em excesso, diz-se no Tao. É preciso perceber que quaisquer fundamentalismos simplesmente fecham-nos as portas laterais que por vezes funcionam como atalhos, fazendo-nos seguir apenas para frente e para cima, escala superior e pseudo-direta, em um mundo onde qualquer escala pode ser vista de ponta-cabeça depois de novos momentos e condições. Tema qualquer idéia perfeita, ser humano. As verdadeiras grandes idéias não são absolutamente corretas e precisarão ser sempre melhor podadas aqui e ali; não se confiará nelas em todos os casos. Retas são enganadoras num espaço-tempo ideológico que é ainda mais curvo do que o espaço-tempo material, einsteiniano.

A ironia deste destino que agora relato veio do fato de que foi exatamente quando pisei no acelerador ideológico que evidenciei o erro daquela visão de mundo. Acelerei e fui pego no posto policial ideológico: paguei a multa de excesso de velocidade sentimental, intelectual. Mas há males que vêm para o bem.

Não confie em idéias claras e perfeitas, posto que elas não existem. Toda paixão é um engano, toda certeza é falsa, toda clareza intelectual é ingênua. Não nos deixemos embriagar pelas falsas idéias que nos parasitam a mente como fim e objetivo final de nossos chegares. Nada é tudo. Não existem respostas enlatadas para nenhum problema real da existência humana. Nada é o fim e a resposta última. Panacéias somente. A complexidade do universo e das relações humanas está além de nossa capacidade de compreensão. Todas as respostas estão fadadas a serem incompletas e temporal, socialmente dependentes.

E entre as idéias incompletas há certamente algumas que são ainda mais incompletas do que outras. Aceite-se sempre a que lhe parecer menos incompleta, sem deixar de duvidar jamais de sua certeza ou de sua plena adequação a qualquer caso. Matemos toda e qualquer panacéia, os vírus ideológicos. Sejamos livres.

Marcadores:

22.6.09

Fita amarela

(um teste inicial para o movimento semanticista)

Dia outro, encontrei eu ela com. Festa estávamos, rua na. Linda, linda e no cabelo laço tinha amarelo. Perguntei vinha donde e "Colômbia" respondeu. Pequena era, música cantava. Sexismo esbanjava e grande era brinco dourado seu, pérolas de. Dizia a música coisa alguma sobre quem era ou estava ou vinha ou ia. Tudo entendi quase. Ela falei a sobre palavras, meu problema com. Sei não repetir tudo de acordo com gramaticais regras. Mas creio não em panacéias, eu. Regras coisas são que tentam reunir irreuníveis entidades. Nelas acredito não. Da anarquia linguística parte faço, também das todas anarquias que pensar posso agora. Prova tenho porque muita gente já falei com. Entendeu-me não quantidade pequena as gentes. Dacolá e daqui, de parte a toda. Maioria idéias troco com a normal mais desenvoltura. Idiotices sintáticas respeitar preciso não-é. Sentido e semântica importa é o que. Nada mais, dúvida tenho não. Professor meu recomenda-me ler e ler para tudo aprender e decorar posições de sujeitos e verbos e pronomes e objetos das palavras frases adentro. Tentei já e consigo não, preciso não, ligo não. Importo-me mais nas pessoas com os olhos, eles são os principais da fala órgãos. Olhei já pra muita gente e as entendi mais que escutei quando. Os olhos com é possível saber demais gente sobre. Juro. Símbolos humanos fazem, cultura fazem, penso isso que é. Utilizando-os, pra perceber é possível até aqueles que s'enganam ao não se fielmente representarem ou aos que compreendem-se não. De tudo há neste mundo e muito bem sei que as compreensões assim sempre incompletas se fazem. Nada há que mundo todo a mesma coisa pense, concorde. Nadinha. Visão própria um tem cada sobre. Mosaico sociedade é opiniões de. Cada pensando um diferente. Atento fique você, d'accord? A Colômbia da moça falando me veio em inglês ou francês, respondi eu nas línguas parelhas. Várias falo e tudo acho bastante fácil, palavras decorar, regras entender. Usar não gosto, linguagem própria tenho e nem aí estou para quem problemas isso tem com. Problema decidi que não é isso, peculiaridade até charme. Gente tem muita que gosta, duvide não. Música em inglês cantou a Colombiana, sexy algo sobre, entendi creio na hora. Agora lembrança minha peça me prega. Sexy música, sexy garota. Brasileira amiga tinha e bom foi porque conversamos português também em. Colombiana sexy aprender português queria e sotaque falava com muito, mas tomar no cu mandar sabia. Ensina as grandes palavras antes para as pessoas, as gentes. Poesia sabia evidentemente não. Foderem-se as pessoas também de falar era capaz. Sotaque com falava forte, mas estranhamente percebia eu não o hispânico acento. Nem perceber que não percebia, percebia eu. Espanhol falar comecei com ela brincar para, mudar as coisas, atrás da orelha me tinha pulga também. A perceber começava. Respondia inglês em ela, português sotacado até, também francês, mas espanhol não. Segredo que teria garota esta? Em tempo pouco, convencido fiquei que falava não espanhol e inglês falava que vi bem. Mal nada seu francês também era. Donde reperguntei era ela. Colômbia de novo repetiu. Ela a então contei que ir havia já ao país seu e Bogotá bem conhecia. Donde era? Respondia nada e aleatoriedades então conversava a amiga com. Do assunto completamente saia e dispersa mostrava-se, o álcool quantidade em desculpa era. Segredo escondia algum, saber não pude qual. Saber poderia, ainda? Tentar deveria, encore? Desconfiou ela de mim a perceber algo, o fora deu quando. Só pensei depois portanto como bobo era eu. Vez uma que linda era, de tonto deveria ter-me feito. Não conquistar as mulheres, sei bem muito. Fato de, sei não o me que deu, vontade talvez de capacidade investigativa demonstrar, inteligência sabe quem. Como problema tenho, diferente sou, inteligente mostrar me preciso, senão bem se sabe, montam em cima de nossas cabeças as pessoas. Neste mundo compaixão não há. Fazem o que é apenas foder ao outro, um. Ah, o humano ser, ente. Nos fracos piedade sem nenhuma pisam, pisam. Mundo é este em que vivemos. Triste é isso constatar. Assim sempre mostrar-me tenho inteligente, senão dão-me estupidezes fazer para, ignoram louco a me pensar. Fita moça da vai longe agora. Burro para as mulheres é preciso se mostrar. Amam não inteligência tão assim grande, raiva. Acho eu que assim é, depende cada uma de entretanto, bem certo. Noite termino eu sozinho, crônica também. Haverá dia um que nada mostrar a ninguém precisar vou. Dia este serei ser apenas e comunicar-me-ei jeito qualquer de que entendam os outros. Preciso não é aos outros agradar e a comunicação facilitar. Bom é fazer com que atenção prestem em si quando se fala, senão por ouvido entra e por outro sai o que se diz, processamento feito nenhum é. Cada um falasse de diferente maneira, atenção mais fariam e compreender iriam melhor, errado estar posso também. Ignorante sou que sei. Se param entender-te para porém, assim melhor é. Advirto lêem aos que me: se não por inteligentes passem, vez uma que bela garota na cabeça fita podem perder. Sorte boa todos para. Comunicação dois vivas para, três. Viva, viva, viva, viva.

====

-- Pequena análise do presente texto

Com este texto pretendo iniciar um movimento literário que batizo de semanticismo. O semanticismo pretende transverter todas as regras gramaticais produzidas para toda e qualquer língua. Ele é focado apenas no sentido. Se um texto pode ser compreendido por um leitor e se ele faz sentido, isso basta. Não se deseja sequer definir um sentido único para um texto e mais rico ele será, inclusive, caso permita a diferentes leitores tirarem diferentes mensagens do texto. É claro que o texto não deve consistir simplesmente de palavras soltas e neste ensaio teste de abertura do movimento fica claro que há uma estória a ser compreendida. Não se deve querer simplesmente transformar a literatura em algo completamente aleatório com palavras sendo colocadas uma após as outras sem qualquer ordem ou sentido maior, como o sentido do texto completo. No que me condiz como escritor, acredito que o semanticismo seja algo a ser visto como estando do lado completamente oposto do classicismo, onde o escritor procurava as mais precisas regras da língua culta e que quanto melhor as utilizava, mais virtouso seria seu texto. Não, o semanticismo é exatamente uma revolta a esse tipo de literatura, que consideramos quadrada e antiquada e presa dentro de padrões estéticos definidos de maneira estrita pelos gramáticos, supostos detentores do saber linguístico. O semanticismo é também uma guerra conta o gramaticismo, contra aqueles que pensam que mudando detalhes mundanos das regras de produção das línguas poder-se-á segurar sua evolução. A nova gramática do português que agora sai e que vem a ser adotada pelos governos lusófonos da Europa, América do Sul e África em livros didáticos é por este movimento questionada e até ridicularizada. As línguas podem ser encaradas como entidades vivas que co-evoluem com o ser humano em qualquer parte que ele esteja. E embora seja necessário que falantes da mesma língua se entendam, não será a produção de regras excessivamente rígidas -- ao limite do ridículo, como deixar de acentuar certos ditongos -- que irá homogeneizar nossa língua ou qualquer outra. A gramática é a prisão onde estão encarcerados todos os poetas e escritores. O sentido é muito mais importante do que qualquer regra e, de fato, mesmo quando se utiliza o mais estrito conjunto de regras possível, um texto tem muito mais interpretações que seu autor pode supor quando da escritura. Vide Barthes, Eco ou Derrida. É claro que concordamos que para quesitos práticos da vida social, é sim necessária a existência de uma língua culta com a qual a maioria dos faltantes concordarão sobre sua adequação a determinado sentido explícito de cunho político, autoritário, regulamentar. A literatura e o literato, entretanto, devem ser livres para produzir o sentido da forma como bem lhes convier. O semanticismo visa também propiciar uma ligação mais forte entre a língua e as culturas regionais, sendo que a expressão da linguagem popular por meio das regras gramaticais limitado em demasiada a expressão cultural. É preciso que abramos o leque e as correias da gramática para que possamos melhor compreender o ser humano em todas as suas expressões. A linguagem deve ser livre para evoluir e o escritor deve ser livre para se expressar de uma forma que melhor lhe convier, da forma que ele sentir mais natural e original. A derrubada das leis gramaticais em prol apenas e somente da produção de sentido -- único ou leitor-depende -- abre a porteira para uma quantidade sem número de possibilidades literárias. Ao misturar em uma frase de maneira medida ou quiçá aleatória sujeitos, pronomes, objetos, verbos, um escritor pode criar uma marca de sua literatura e pode abrir novos e maravilhosos campos de compreensão a serem explorados. Não há outra questão da linguagem que senão a busca da compreensão. E se a compreensão pode ser alcançada sem que respeitemos regras explícitas de gramática, por que então utilizá-las?

A pergunta filosófica por trás do semanticismo é: como é gerada a compreensão? Que características deve ter um texto para que alguém o leia e diga que o entendeu ou saiba interpretá-lo de uma forma adequada?

E ainda, com Eco: quais os limites da interpretação?

Também em linguística creio que o semanticismo ajuda a compressão. Eu, por exemplo, entendo muito bem o inglês e consigo normalmente ser bem compreendido por qualquer pessoa com a qual eu tente dialogar. Ainda que certas palavras ou expressões não me sejam conhecidas, não me lembro de alguma vez na qual eu não tenha conseguido me comunicar na língua de Shakespeare. É claro que um texto semanticista não será um lugar para se aprender as formalidades retrógradas necessárias à descrição de um idioma formal qualquer. As regras formais são importantes para o aprendizado de um novo idioma. Entretanto, creio que textos baseados no semanticismo serão mais fáceis de serem lidos por aqueles que não compreendem determinada língua, uma vez que será necessário apenas ter um bom vocabulário para entender o sentido do que está escrito. No semanticismo, as palavras são dispostas numa frase sem uma regra explícita. A disposição das palavras na frase podem, portanto, (1) seguir a regra formal dada para a língua, (2) subverter propositadamente esta ordem ou, simplesmente, (3) ignorar tanto quanto possível as regras formais e apresentar uma disposição pseudo-aleatória. Fica claro, entretanto, que as regras de pontuação num texto semanticista devem ser aplicadas com zelo e cautela. Sem qualquer regra, é claro. Mas uma vez que a observação de regras para a definição de todo e qualquer elementos sintático das frases tenham sido subvertidos, a pontuação passa a ter um papel ainda mais importante na formação semântica de uma frase.

Outras reflexões haverão de surgir a partir de um contexto semanticista na literatura, linguística e nos estudos culturais.
(18/03/09)

Marcadores:

18.6.09

Esquenta

Apenas a intuição vale na literatura. Prosa e verso são leituras do homem, dele próprio. Auto-leituras sinceras. Quando mais sinceras, melhor. A falsidade e a negação da própria alma é o que matam a literatura. Aquele que se escuta, aquele que se escreve, aquele que se abre e se mostra.

Nada foi feito ou deixou de existir, e mesmo assim eu te amo. Eu acho. Não tenho porque saber de coisas como essas que vão e vem ao longo do dia. Olho nos seus olhos e vejo que você me ama. É de manhã. À tarde leio indiferença, preguiça ou dúvida. Por um lado entendo a dúvida sobre o que ainda não aconteceu, mas de outro não posso acreditar que ela exista, posto que nossos olhos assim já se encontraram e já brilharam uns para os outros. Amores serão sempre amáveis. E então à noite, depois de me amar e ignorar, você me odeia. Afasta-se e evita-me. Nega-me olhares, carícias e toques, rejeita minhas maiores idéias e argumenta contra qualquer mosca oriunda de meus ventres amargos. No dia seguinte ama-me à tarde e odeia-me pela manhã, ignorando-me à noite. E assim nosso cotidiano se segue. Tal é o mistério inconstante escondido em tua alma super-feminina e este instinto, esta briga e esta exigência de respostas diferentes de mim-a-ti faz-me amá-la com ainda maior intensidade.

A festa foi boa, assim como a outra. Nossos momentos no bar, no lar, no altar. Se exagero na construção simbólica e neste futuro que não sei se teremos, acredite: não se trata de desejo profundo qualquer, é apenas questão de rima. Jamais digo uma verdade e é neste paradoxo que te prenderei para que sejas minha e ao mesmo tempo tenhas a liberdade. Posto que se o amor é um labirinto sem saída, ele ao menos é grande e inevitavelmente fará com que Teseu encontre, em algum momento, o minotauro.

E quando a lua deste céu estrelado esteve escondida pela sombra da Terra, o céu gotejou de estrelas e foi neste dia que te vi pela primeira vez. O choque dos teus olhos nos meus foi mesmo lancinante e daquele momento em diante sabíamos que estávamos de certa forma ligados. Pena que ainda não descobrimos como, mas o futuro irá certamente nos dizer, não nos preocupemos.

Não sei porque me arrefeço, porque faço, porque deixo, porque não te olho nos olhos e dou-te aquele beijo que temo e desejo. Você também não demonstra emoção ou sentimento desses que transbordam pela pele de humanos ou sapos. Repousa numa paz serena de quem já teve o quis ou do que vive apenas para ver o sol e a lua passarem e repassarem sem deles absorver o sentimento do que nos faz viver a plenitude. A maravilha do estar vivo se confunde com a monotonia do estar saudável e apenas somos realmente vivos quando estamos nos recuperando de uma enxaqueca que seja, um braço quebrado, um algo inusitado, ou apenas no amor. Dar-te-á meu amor a emoção que agora te falta e que se percebe neste teu suspirar quase cansado embora jovem? Espero que sim... temo que não.

Marcadores: ,

2.6.09

Alhures

Teletransportei-me de pronto para aquele lugar. O problema destas modernas máquinas de teletransporte que por aí existem é que, além de exigirem um tempo enorme para a preparação, elas não nos permitem ter aquele tempo de reflexão psicológica que é muitas vezes necessário a uma adaptação a mundos e sociedades assim tão distintas dentre as quais pulamos assim tão rapidamente de uma-a-outra; tantas novidades que fica até difícil transpô-las em palavras. E assim, como se num piscar de olhos, eu já estava lá. Toda máquina trás em si uma magia, o mistério e a lógica de seu funcionamento e sua existência. Fisicamente transportado, a máquina de sobrevivência que sou fazia agora olhar para as pessoas e os meios de transporte, as edificações. Urbano, o ambiente. Tudo era mesmo diferente do que eu vira há pouco. Meus olhos assim acostumados a observar locais e maneiras antigos, jeitos e formas esbeltas, monocores e sons límpidos de um lugar longe, imagem de captura social, agora precisava reacostumar-se a entender o agora e o aqui: caos e amor, vida, calor.

A maior particularidade deste lugar consiste na artificialidade da adaptação dos seres vivos a ele, principalmente no aspecto que concerne ao animal humano -- aspecto do qual sou especialista pelo simples fato de ser membro da espécie dotado de curiosidade congênita. A adaptação, dizia. É que gente-e-lugar são no fundo uma coisa só. Nada de espaço-tempo, Herr Einstein, falo de espaço-vida. Organismos são adaptados ao meio e modificam-no num tipo de coevolução espécie-ambiente que certa vez chamei de "essente" em um ensaio filosófico destes tantos que tenho e que jamais publicarei. Fato é que aos olhos do naturalista não há distinção: animais e ambientes são uma coisa só, unidade essente. Os tentilhões de Darwin em Galápagos não seriam os próprios caso fossem encontrados no arquipélago malaio ou na mata atlântica. Bichos, lugares, evolução, tempo; filogeografia é o termo técnico. Gaia não é um lugar apenas, inerte e feito de matéria inorgânica. Gaia é uma forte coevolução entre vida e não-vida. Um influenciando o outro e vice-versa. (Por favor, não me peça para conceituar vida.) Vale lembrar que antes da fotossíntese surgir nas cianobactérias nossa atmosfera era formada de gás sulfídrico -- se me lembro bem das aulas de origem da vida -- e a presença daí em diante de oxigênio dento dessa camada de gás que envolve nosso planeta tal qual película fez com que simplesmente tudo mudasse. É possível inclusive supor que as cianobactérias tenham causado um genocídio quiçá maior do que aquele dos europeus quando chegaram à América. Ora, talvez nem tanto... Certamente a mudança da atmosfera foi gradual, ao contrário da conquista da América. Enfim, não quero incorrer em tecnicalidades biológicas ou científicas demais. Continuemos...

A questão que se dá é que nenhuma das pessoas do meu novo lugar parecia assim perfeitamente adaptada a ele, ao mesmo tempo em que todos pareciam medianamente satisfeitos e adaptados. A história daquela região era bem conhecida e conto-lhe agora: houvera sim pessoas nativas e animais, evidentemente, nesta região que descrevo. Em tempos remotos, porém. Mas houve um dia em que um ser humano assaz megalomaníaco juntou-se com outros não menos pirados para decidir que iriam destruir toda aquela infinidade capitalisticamente improdutiva de terra conhecida como cerrado – desconhecedores que eram (e que ainda são) da riqueza escondida na biodiversidade – e, uma vez tudo destruído, fariam ali o Maior-de-todos-os-lugares. Juntaram gentes e gentes, chamaram os melhores que existiam para construir o lugar e, há de se concordar, ficou mesmo uma coisa chique e bonita: Linda! A questão é eles esqueceram que lugar e gente são uma coisa só.

Inicialmente portanto havia um lugar perfeitamente adaptado aos seres humanos urbanos onde não havia ninguém. Então se transportou pessoas pra lá. Muitos dos trabalhadores responsáveis pela obra em si acabaram ali ficando também, e outras pessoas de todos os lugares chegaram: todos que compraram a idéia de que ali seria mesmo um lugar bonito e vistoso foram ficando ou chegando, pouco a pouco. Já aqueles que antes viviam em recintos de mesmo estatus estético deste novo, não se importaram em mover-se de seus próprios ambientes e estão hoje sub-representados na artificialidade daquele lugar. Outros não compraram a idéia de esplendor que lhes foi vendida, foram ver e preferiram voltar para onde se entrosavam com a natureza. Verdade é também que muitos dos que foram acabaram ficando por nunca mais conseguirem se transportar de volta; estes sonham ainda com o lugar de onde viveram a maior parte de suas vidas e choram calados nas noites frias ao se lembrarem do tempo quando eram verdadeiros essentes, integrados à natureza e cultura de onde haviam vindo. Quanta saudade e melancolia não guardavam em seus corações.


===

Mistura era o nome do lugar. E tinha mesmo gente daqui e de lá, alhures, acolá. Todos em busca de uma vida melhor ali foram morar. Conseguiram vida boa, dizem que amam e gostam, mas percebe-se em seus rostos: eles não são dali. O gostar que sai de suas bocas é um gostar artificial, forjado, malamanhado. O animal do zoológico é apenas uma curiosidade a se analisar muito groso modo... ele não é sequer similar ao bicho que se encontra nas mata e selvas, nos rios. O peixe de aquário também não é o peixe do rio, não é do mar. Não podemos esperar que o homem de Mistura se comporte como em sua casa, onde era um essente adaptado. Mas também nunca se imaginara que tal desadaptação local fosse alcançar os limites da ética para com os próximos. Diz-se que os misturados não eram lá muito éticos e forçavam a barra com relação ao privilégio pessoal em lugar do privilégio social. Aconteceriam assim as coisas se Mistura não fosse tão artificial? Talvez sim.

Fato seja dito: ali também onde estava sendo exercida a função mistura, a coisa estava feia há tempos. Se ficar o bicho pega e se correr o bicho come. Uma atitude, quiçá megalomaníaca, talvez não tenha sido de todo uma má idéia.

===


Quando ali cheguei teletransportado e ainda zonzo devido às mudanças proporcionadas pela velocidade de deslocamento da máquina, já iam mais de cinquenta anos desde que aqueles homens haviam mandado tudo desmatar e tudo construir. Inauguração de Mistura. Natureza teria virado pedra e asfalto. E neste meio século, já se percebia que havia sido formada ali uma segunda geração de misturados legítimos. Ah, a adaptação. E os humanos da segunda geração já eram de certa forma mais essentemente adaptados, tendo vivido suas infâncias por ali. O experimento da colônia da Lua de Asimov houvera sido feito, na Terra. Ele tinha razão: basta uma geração. Outras certamente ajudarão a uma melhor adaptação. Enfim, tais misturados-legítimos não compunham uma unidade de fato, nenhum verdadeiro sistema unívoco que caracteriza de forma transcendente e clara qualquer contínuo povo-lugar. Não! Os misturados, mesmo quando legítimos, eram um meio-termo: ciborgues culturais-naturais. Eram gentes filhas de gentes vindas de muito longe umas das outras. E todo mundo é muito de sua mãe e de seu pai. Bastava olhar para as pessoas e assim poder-se-ia identificar de onde haviam vindo seus pais. Misturados legítimos eram misturados diferentes, dependendo da origem de seus pais e de sua enturrage. Notório: eles não estavam assim tão deslocados de seus centros culturais-naturais quanto seus pais. Mesmo porque este conceito de “centro” não existia para eles. Sentiam-se assim um pouco perdidos e deslocados, aculturados ou super-culturados. Eram quase nada e muito ao mesmo tempo, segundo um aspecto cultural. Relativizavam mais, objetivavam menos. Tudo era nada, as vezes. Ou então se metiam em guetos com os que pensavam daquele jeito em particular e assim viviam um tipo de endogamia memética e cultural.

Fato é que tais indivíduos F1 não sentiam aquele sopro voraz de identificação que sentimos quando chegamos em nosso gueto cultural e que aqui decido conceituar como Savassenso. O savassenso consiste simplesmente naquele gozo que têm os nômades quando retornam ao lugar onde passaram a maior parte de suas vidas, local onde se regozijam ao verificar o quanto pessoas aleatórias que passam pelos arredores provavelmente se parecem consigo simbológica, cultural e até intelectualmente talvez. Nada de savassenso para esses rapazes e moças da segunda geração que respiravam a atmosfera do lugar enquanto em casa eram educados a rapadura, farinha de mandioca, acarajé, feijão tropeiro, cupuaçu ou até mesmo um bom e forte mate. Eram ilhas culturais assim interligadas, federalizadas. Iguais porém diferentes.

===

Como ele, fiz pouso aqui. Hoje faz anos que aqui cheguei e mesmo assim sei que jamais savassentir-me-ei em casa neste lugar. Sou como todos, misturei-me, tenho meus pais que são d'alhures. Não sou daqui, este não é o meu chão, meu mar, meu lar, meu bar. É um lugar calmo que tenho para mim. Mas não sou eu, espécie coevoluindo com ambiente neste lugar. Sou artificial, sou forjado, sou falso. Eu não sou eu neste lugar. Não o pertenço. E é por isso que preciso partir mais uma vez. Preparem a máquina, por favor!

Marcadores: ,