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Crônicas soluárias (?)

Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.

20.8.09

A torradeira

A garota acordou cedo naquele dia. Era do tipo regrada, gente que não tem dessas coisas de dormir tarde ou chegar atrasado no trabalho. Levantou-se da cama e este seu levantar foi daqueles que deixa qualquer narrador sem fôlego. Vestia apenas calcinha e sutiã, e todos os seus movimentos pareciam regados por baldes de charme líquido. Tinha pele branca e olhos de um amarelo claro-e-cinzento como os do gato. Olhos que de tão claros pareciam torná-la de certa forma mística, misteriosa, mágica. Era um ser humano do tipo meio gente, meio gato. A felina ronronou ainda mais um pouco na cama, espreguiçou-se toda enquanto dava um bom bocejo e, assim, deu seu dia como iniciado. Seus movimentos, entretanto, naqueles instantes entre sono e vigília extasiavam o poeta invisível que a observava em toda sua delicadeza e graça. Virou o lençol, trazendo à luz suas pernas nuas e o tal do poeta não conseguiu pensar em mais nada durante o momento em que ela remexia seu corpo atraente e semi-nu até se levantar e, de pé, espreguiçar mais uma vez, terminando o movimento dos braços com um alongamento daqueles do yoga. Tirou-lhe uma foto mental, o poeta que não a observava, e esta foto guardou em seus arquivos mentais. Jamais lhe esqueceria.

Os momentos que se seguiram descrever-se-á sem detalhes, posto que tamanho lirismo não cabe em forma de palavras. Precisar-se-ia estar ali a observar sua graça em se despir e entrar no banho, toda cuidadosa que era com seu próprio e belo corpo. Ao se ensaboar, tocava-se de uma forma doce e charmosa, encantadora. Era mulher de bem com a vida e com seu corpo; era um único ímpeto de charme ligeiramente adocicado, exatamente na medida do gosto do poeta pelo açúcar feminino. Enrolou-se na toalha e assim mesmo dirigiu-se à cozinha de seu pequeno apartamento estudantil a preparar o café. Todos seus movimentos eram de uma tranquilidade e calma que só tem aquele que é oriundo das mais altas castas sociais. Fazia tudo sem nenhuma pressa e aproveitava cada momento e instante que vivia. Sua vida era toda prazer. E este pensamento embebia simplesmente toda a raiz de seu charme como mulher.

Água para ferver, vai agora ao quarto e veste um conjunto limpo de lingerie; conjunto clássico como clássica era a mulher. E então volta à cozinha posto que o café já ferveu. O pão. O pão coloca na torradeira. O pão. E quanto então coloca-o no local apropriado e abaixa o mecanismo de torrar lembra-se dele. Ah, o rapaz. Por um instante o rapaz é a torradeira e ela faz a mais charmosa das poses a apertar o botão: liga. Ela foi apaixonada por ele que agora se foi, que agora vai bem longe, oceanos de distância. Ele despertou-lhe um certo lirismo que ia perdido sem lugar dentro de si. Chegou a pensar em fugir com ele, em largar tudo e todos: estudo, trabalho, família, noivo. Se proposta lhe tivesse feito, proposta teria aceitado. E hoje não estaria mais ali tendo que acordar cedo para ir a um trabalho que, se por um lado não a desgostava, por outro não tinha jamais como lhe dar o prazer assim monstruoso que a presença dele a seu lado a trouxera. A paixão. A paixão é um ser complexo, completo. Um ser espiritual que preenche as pessoas e que entra dentro delas para mostrar-lhes tão claramente o que é o saber aproveitar da vida e do estar vivo. Essa paixão que tinha não era diretamente por ele, ali representado pela torradeira, porém era um sentimento que por ele era catalisado de forma inexplicável. Há seres, diriam talvez os místicos antigos, capazes de canalizar a energia do bem estar do mundo e trazê-la assim à tona, à todo instante, de toda a forma. Tais seres são veículos do amor e do bem estar e o mundo. De fato, le monde deveria ser feito inteiro deste tipo de gente.

Assustou-se quando o pão pulou, torrado. Tinha ido tão longe em sua lembrança daquele que doara para si o eletrodoméstico que foi apenas este susto que a tirou da pose-de-fotografia que ainda fazia ao lembrar-se dele e de sua graça. Comeu e vestiu-se. Com a roupa, era uma outra pessoa. Clássica porém moderna. Adaptada a este mundo do ter-que-fazer e ter-que-ser. Mundo sem liberdade, onde a liberdade é a liberdade que convém para os outros, não a liberdade que convém a si mesmo. Engoliu seco, o mundo. Sentiu um certo desconforto, mas manteve-se de pé. E quando atravessou o portão do lirismo, estava de novo inserida no mundo-cão. Agora era pensar no transporte, no problema, no chefe, no projeto, no mundo e no noivo. Por vezes durante o dia tinha náuseas, ânsia de vômito pela ação de outros, mesquinharia e hipocrisia. Pensava querer viver eternamente no mundo lírico. Mas para isso, precisaria encontrá-lo. Onde estaria? Quereria entrar com ela num mundo só deles? Ah, quereria. Sabia disso porque olhara certa vez em seus olhos e tudo isso lera lá dentro, bem no fundo. Mas seu mundo, sua criação, sua história, as coisas que esperavam dela. Não teria jamais a coragem de abandonar tudo aquilo. Ou teria? Ah, que vontade. Ah, que vontade!

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12.8.09

A verdadeira face do tempo

Não tinha cansaço nem tipo, ódio ou ranço, cegueira ou perfeição. Era um misto de tudo e de todos, cultura encarnada que se faz viver por maneira qualquer de seguir uma linha que lhe havia sido imposta. Linha esta que, de mais a mais, motivos não tinha para a interromper; nem mesmo vontade. A única interrupção possível, de fato, seria esconder-se de tudo e de todos nalgum interior longínquo e desabitado, onde poderia gritar conta tudo e todos e não ser afetado pela reação oriunda de sua ação; na física ideológica do mundo moderno. Para tomar tal atitude, entretanto, seria necessária extrema coragem e bastante desapego; características que lhe faltavam. Seguia porque seguir era o caminho: decisão única possível dadas as atuais conjecturas.

Duvidava antes de tudo. De certas coisas, porém, mais que de outras; e constantes dúvidas ideológicas deixavam-lhe sempre à beira de encruzilhadas. Em certos momentos seguia um caminho convicto, cabeça à frente, olho ao horizonte, pé-ante-pé; direto e preciso. Mas dava sempre de cara com portas cerradas, vigiadas por pontos de interrogação gigantescos que atacavam-lhe a alma com lanças e espadas das mais pontiagudas. Psicologicamente ferido e perdido, retornava até a última encruzilhada através do mais próximo atalho. E quando então dava por si percebia que o número de caminhos a seguir havia se multiplicado ainda mais. A grande interrogação o observava. Via como outros ao seu redor haviam seguido certos caminhos e que agora estavam bem consigo e com o mundo, isso lhe apontava ideais a seguir e assim supostas ideais a abraçar; até que encontrasse novamente com a porta cerrada e a tal da interrogação vestida em trajes de guerra. O caminho de cada um, realizara, era diferente. Continuava em busca do seu, indo e voltando, por vezes andando em círculos e sem jamais ter qualquer convicção. Sejamos precisos, nosso personagem estava perdido. Questionava-se não apenas sobre o mundo e sua essência, questionava-se não apenas sobre as idéias e suas direções, questionava-se não apenas sobre a existência, mistério cartesiano ainda não resolvido. Questionava apenas e as questões eram sua tanto sua arma quanto seu algoz neste mundo tão distante da Atenas pré-cristã. Este herdeiro de Sócrates duvidava mesmo de seu mestre e ao questionar suas questões acabava por ver-se num labirinto sem saída que só trazia ainda mais e mais dúvidas e faltas de sentidos. Em Sartre buscava somente conforto, jamais respostas. Lia os grandes e dividia com eles suas dúvida e pesar, mas sabia que não chegaria jamais em suas alturas. De fato, temia um dia conseguir poder e fama; escondia-se tanto quanto podia e dava tiros no pé ao longo de sua carreira profissional para manter-se escondido. O que queria mesmo era poder brincar e pular, queria era poder ser criança todo dia e toda hora. Era este seu desejo último, e em seu íntimo arrependia-se do dia em que decidira ser adulto. O tiquetaquear do relógio, porém, deste mundo subdesenvolvido; o avançar das horas e a força do capital corre-corre seguiam oprimindo-lhe e matando-lhe, sugavam-lhe alma e sangue, oprimiam sua luta pela vida e sua vontade de viver; aquela sua vontade de seguir e sorrir, sua vontade de amar e ser um só com seu amor. Sentia-se um prisioneiro da sociedade e seu sonho era ser um dia livre, tendo todas as vinte-e-quatro horas de seu dia para si.


À razão, nosso herói venerava tal qual deusa, mas sabia que não era onipotente ou onisciente. Sabia da artificialidade destes conceitos. Via assim suas limitações e falhas, mesmo assim não a abandonava, seguindo com ela pelas beiradas dos montes do saber, tomando sempre cuidado para não cair ou não afundar no excesso da verborragia científica e técnica; instrumentos dotados de enormes antolhos. Sabia que o mundo era mais do que isso que os humanos conseguiam compreender e, embora lhes desse enorme crédito por tudo o que haviam feito, descreditava-lhes sua arrogância dawkiniana em pensar que tudo fosse mesmo assim; e ponto final. Apenas na arte era capaz de explorar-se e explodir-se, embora fosse ainda limitado por todo esse ensinamento careta do mundo, todo esse representar e classificar foucaulniano, tão falso e tão falho, tão útil e tão inútil, tão certo e tão pequeno, simples, ignóbil e assimesmo: belo.

Da humanidade tinha pena e orgulho. Mais pena. Bastante orgulho. Sua herança ocidental e miscigenada era latente e seu sentimento de unidade para com o mundo era contínuo, forte, vigoroso. Via com certa clareza, talvez enganada, os benefícios e malefícios de uma cultura intelectual que se afastava a passos largos da simplicidade assim tão agradável da vida do animal humano. Somos nós os algozes de nossa própria preocupação capitalista, lobos de nós mesmos é o que somos, Mister Hobbes. Do que mais precisa o homem que alimentação e amor? Ainda assim, todo o construto social com suas falsas necessidades erigia um novo modelo de vida tão falso e estranho, superficial, inatural, absurdo e egoísta, fechado, bloqueado, cego, claustrofóbico, vigiado, trabalhófilo, irrecompensável e estúpido, dado que só se vive uma vez.

Seguia porque seguir era um verbo – ação! –; um rumo díspar. Vivia em meio a todas estas encruzilhadas e não estava certo de que seria um... andava em círculos que, se colocados ao longo da variável tempo poderiam ser vistos como espirais. Seguia rodando e rodando, sem rumo claro ou possibilidade de vitória. Via idiotas tornando-se grandes e passava a temê-los. Dê poder ao homem ignorante e sofrerás as conseqüências. Entendia melhor como a suposta "roda da fortuna" girava e, embora fosse plenamente capaz de pular dentro dela a fazê-la rodar com velocidade, preferia afastar-se temeroso e pregar em sua porta a maravilhosa palavra: simplicidade. Sabia o que estava perdendo, mas jamais se venderia. Não seria de todo impossível que um dia fugisse e fosse viver num mosteiro qualquer, em eterna reflexão e paz. Nuvens apareciam e se dissipavam, acreditava na educação ampla e queria ser educador, um verdadeiro e bom educador. Queria mostrar aos novos seres humanos, os únicos que podem ser ainda salvos, a amplitude do pensar e do saber; assim como suas inúmeras limitações. Tudo isso podia, era, ia, vinha e saia de sua mente enquanto divagava pelos montes desconhecidos do conhecimento humano. Não era direto porém metafísico, não era ocidental ou oriental e jamais se encaixou muito bem em qualquer conceito quadrado que o tentassem atachar. Era uma incógnita e um motivo, um poço sem fim, uma unidade conjunta do saber e da ignorância; era apenas mais um ser humano em eterna reflexão.

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9.8.09

Eu que


Eu que já andei por montes congelados, senti o frio em minha espinha, andei também por desertos dos mais quentes e cobri-me de mantas para afastar o calor, passei ainda por florestas temperadas de temperatura agradabilíssimas que se tornavam apavorantes ao cair da chuva tropical, onde o dia se transformava em noite. Eu que já vivi no novo e no velho mundo, convivi com pessoas de todas as raças e estirpes, gente com e sem educação, pessoas com muito amor ou rancor no coração. Eu que já pensei em tanta coisa, que não tive medo de dizer o que pensava, já passei tantas vezes por idiota, por gênio e ingênuo. Eu que já engoli tantas palavras sem necessidade e que ainda outras, muitas outras, numerosas outras, infinitas, cuspi sem precisão. Eu que nunca consegui ver a desigualdade e a injustiça sendo feitas sem reagir contra elas com um fervor e uma voracidade que jamais pensei encontrar em minha doce alma. Eu que por tantas vezes já amei e já fui amado...

Desta vida não espero nada, não tenho objetivos ou ambições; ou grandes vontades ou temores. Faço apenas o que parece certo e vivo um dia depois do outro num carpedinear cheio de constantes e imprevisíveis inconstâncias.

Eu que já errei tantas vezes e que cometi os maiores pecados. Eu que já não soube viver sem que me respeitassem e que já senti tantas vezes falta dos meus, falta de vocês que me lêem e que comigo se unem, transformando-se em parte de mim. Eu que já fui parte de tanta gente e que já ouvi os meus maiores sonhos da boca de outros, desde os gregos até os sambistas, todos virtuosos. Eu que já estou morto e que portanto não tenho porque temer a morte.

Sobrevôo neste instante a amazônia e tenho em minhas mãos este computador. Em casa, ainda não tenho sequer cama, não tenho mesa ou cadeiras. Assento-me no chão. Mudei tantas vezes com tantas coisas: apenas livros e idéias. Agora tenho medo do meu vizinho de assento e dos que passam aqui ao lado a surrupiarem o que escrevo indevidamente. Tenho mais vergonha dos meus textos não terminados do que de minha nudez, carapuça desolada.

Eu que já não soube tanta coisa e que tanta coisa já aprendi. Eu que um dia não soube sequer ler, e não falo de minha infância. Eu que já li tanto sem refletir, sem conseguir ou tentar interpretação. Hoje só leio com extrema atenção, leitura minuciosa sempre tentando encontrar nas entrelinhas o bem maior e o prazer da leitura, delírio interpretativo. Não gasto mais meu tempo com nada que não seja eterno e que não vá arranhar em mim fagulhas que durarão até o tempo do fim. Não existe mais televisão no meu mundo e todo meu entretenimento é educativo, meu ócio, criativo. Perco sempre meu tempo a refletir e a descançar. A meditação ilumina e lança luz sobre os aspectos mais gerais de minha vida pessoal e profissional. Não tenho objetivos porém responsabilidades, sou ferramenta hedonista para mim mesmo e igualitária para esta sociedade decadente, herdeiros de uma tradição cristã moribunda, suja e desigual.

Odeio o capitalismo tanto quanto gosto de coca-cola. Odeio a tecnologia e os avanços impensados do conhecimento técnico que correm apenas para chegarem aos bolsos de alguns, tão poucos. Amo a busca pelo conhecimento, a ciência e o saber altamente desenvolvido e limitado que temos. Mais que da ciência gosto da filosofia posto que ela está mais frequentemente afastada deste fazer e acontecer no qual gira a roda do mundo do capital que tanto me amargura.

Quero crescer moral e intelectualmente. Quero sempre aprender e estar vivo, respirar o mundo e encher meus pulmões com esta benção tóxica que é o ar e o oxigênio. Quero ser saudável pero no mucho. Quero viver cada momento e morrer em qualquer momento com a certeza da vida vivida e do meu despreocupar de todas as irrelevâncias. Não gasto absolutamente nenhum segundo de meu processamento cerebral com irrelevâncias, e tudo no mundo são irrelevâncias, por isso com nada me preocupo. Tento me livrar de todo pensamento moralista que consigo e se observo as coisas é para me satisfazer e conhecê-las, jamais para julgá-las; ou ao menos tento, com empenho, não fazê-lo. Ando com pessoas porque as amo; e amo todas dentre as que não conheço. Das que conheço, são poucas aquelas que me decepcionaram ao ponto do desgosto; essas simplesmente ignoro e passo ao lado. Não as odeio, apenas evito-as; prefiro viver longe delas.

Tenho um impulso criativo que as vezes se aflora e as vezes se enconde, incontrolável que é. Tenho amor e ódio pela humanidade e pela história podre e fedorenta das civilizações, que nos trouxe até onde agora estamos. Nunca gostei de ciência aplicada e não sei se a ciência de fato melhora ou piora a vida do ser humano. Não sou nenhum fã exagerado de novas tecnologias, nem mesmo na área de saúde e não estou certo de que fazer os humanos viverem mais -- eu incluído -- seja uma boa idéia. Sou um cientista já fracassado em ideologia e não sei onde chegarei, se é que chegarei a algum lugar. Talvez um dia faça uma longa viagem filosófica e psicológica, talvez vire um tipo de monge, do tipo do que pratique sexo e, de preferência, com alguma mulher linda e interessante.

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6.8.09

Têvê

Quando disse à vendedora de móveis usados que não gostava de televisões, foi interpretado como louco. Não buscou, porém, explicar-se. Deixou que ela mesma talvez refletisse sobre como era enorme seu vício no decodificador de ondas eletromagnéticas e transmissor dos pensamentos das elites. De fato, para ela, o aparelho seria apenas algum tipo inócuo de amigo a ajudar passar as horas de tédio com um pouco de entretenimento a fazê-la sorrir ou informar-se, a fazê-la crescer. Alguém assim, que não gostasse de hipnotizar-se à frente de tal eletrodoméstico essencial, só poderia ser um bruto, um chato e um ignorante.

Esquecia-se a tal da moça que a liberdade da informação está, de fato, é na internet. Somente ali pode-se encontrar toda a informação que se deseja de forma não absurdamente enviesada, uma vez –- é claro -– que se conheça onde navegar. O que a televisão e os telejornais faziam, de fato, era mostrar ao telespectador -- que consiste em todos os brasileiros da nação --, apenas aquilo que as elites querem que o povo saiba, ou seja, quase nada. Qual a liberdade tem o telespectador em escolher a matéria a ser apresentada nos jornais? Nenhuma.

Não quero dizer aqui que os telejornais mostram notícias falsas ou forjadas e que enganem ou iludam a população ao inventarem ou fantasiarem eventos que de fato jamais ocorreram. A forma de dominação acontece de forma mais inteligente e sutil. Ela acontece, de fato, na escolha das matérias a serem apresentadas, no tempo em que são passadas e na forma parcial como são tratadas. Assim, ao invés de apresentarem os claros lobbies e intimidações que acontecem por trás das políticas governamentais e que defendem os grandes interesses do capital, os noticiários apresentam reportagens inócuas sobre a morte de determinado astro pop, sobre supostas epidemias inventadas e não controladas, sobre curiosidades estúpidas da vida dos cidadãos comuns. Ao invés de relatarem as grandes tramóias que acometem a vida de milhões, apresentam apenas pequenos furtos diários que, relevantes para a vida de meia dúzia de pessoas, tomam proporções desastrosas e desproporcionais nas telas da TV. Enquanto isso, os governantes continuam roubando o dinheiro do povo e Brasília inteira conhece bem o nome dos safados. As redes de televisão também conhecem, mas evitam dizer posto que estes são os mesmos que as financiam, direta ou indiretamente.

Por vezes, entretanto, algum tipo de justiça é feita. É preciso que apareçam corajosos como Protógenes a desmascarar enormes fundações Dantescas que há anos corroboram com a corrupção em nosso país. O que acontece, entretanto, num Brasil de ignorantes manipulados é que a corja então reverte o argumento e assim -- nas telas da TV -- os acusadores passam a parecer culpados. Não se pode, agora, misturar dados da agência de inteligência com a polícia federal, dizem as televisões. Isso é crime. E enquanto nossos fiéis delegados e agentes da inteligência desmascaram grandes fraudes e gastos de dinheiro público em prol do enriquecimento de alguns poucos, a televisão vem nos dizer que não se pode também grampear políticos para descobrir suas faucatruas. É como se dissessem: “deixemo-nos ser enganados”. Não se pode grampear telefones de políticos ou misturar dados da polícia federal com dados da agência de inteligência (ABIN), mesmo que isso seja usado para desmascarar crimes hediondos que utilizam o dinheiro dos contribuintes para aumentar a riqueza de poucos salafrários. Este é o Brasil que passa na televisão. E isso tudo acontece porque são estes ladrões que financiam as redes de TV. E quando aparecem finalmente alguns corajosos para mostrar, expor e desmascarar fraudes, eles são caçados e tidos como vilões pela televisão e pela opinião pública. A distorção dos fatos realizada pelos manipuladores é tal que os heróis vão para a prisão e os vilões andam soltos entre nós. Os juízes que mandam tirar os vilões da cadeia recebem o aval e o reconhecimento por parte dos outros juízes e da população. O juiz que prende novamente o vilão tem suas credenciais postas em dúvida e corre o risco de ser caçado. Eis o Brasil.

Não preciso de televisão nenhuma para me dar informações enviesadas sobre o que acontece no meu país. Sei observar os dados e sei tirar minhas próprias conclusões. A internet é uma ferramenta de recuperação de informações bastante mais democrática e a diversidade de opiniões observadas ali apenas enriquece as discussões e permite que possamos formar uma opinião mais rica e ampla, ao invés de recebermos enlatadas fórmulas de informação corrupta através dos telejornais. Simplesmente o que passa na televisão é apenas a informação que interessa à elite do país, e esta informação aliena o indivíduo que, de fato, não vê qualquer conexão lógica entre os telejornais e sua vida cotidiana.

Lula foi reeleito porque cuidou do povo e porque o povo acreditou na vida real a despeito do que aparecia nos telejornais. Infelizmente não é sempre que esse tipo de comportamento pode ser visto. Lula também foi manipulado e gritou por décadas apenas para chegar lá em cima e fazer o mesmo que faziam aqueles os quais antes criticava. O PT no poder é a repetição, se ligeiramente atenuada, da cultura do capital. O conselho de ética salvou Sarney e o Brasil, ah o Brasil... talvez não tenha mesmo salvação.

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