<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><rss xmlns:atom='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' version='2.0'><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-8085739</atom:id><lastBuildDate>Sat, 21 Nov 2009 21:33:50 +0000</lastBuildDate><title>Crônicas soluárias (?)</title><description>Idealismo, lirismo, literatura e filosofia social enclausurados no sentimento de vazio da pós-modernidade.</description><link>http://chicopros.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>133</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-8041573964842666310</guid><pubDate>Tue, 20 Oct 2009 03:58:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-11-10T10:59:54.391-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crônica</category><title>Canto de natal</title><description>Quando encontro meus amigos, sinto-me sempre bem. Dá aquele aconchego psicológico de estar ali em meio de gente que nos entenda e nos ame, conhecedores que são de nossas maiores qualidades e defeitos. Sabe como é, não é? Grandes amizades que já comemoram décadas de existência. Difícil é a hora de partir. Dá um aperto no coração e quem não sabe o que já vivemos juntos com estes amigos pensa que é sentimentalismo barato. Pobres das pessoas que nunca tiveram tais amizades...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom mesmo é voltar à atividade: física, mental, intelectual. Corpomente se acelerando e se retro-ativando. O futuro trás esperanças de mais ciência e trabalho e reconhecimento e diversão. Diversão sim, é solução pra mim. Domenico estava certo: não há criatividade sem lazer, sem apreciação estética. Enfim, acho que estava certo; minha vida poderia ser um de seus experimentos, quiçá. Sou adepto de carteirinha do chamado ócio criativo; confundo minhas horas de diversão, trabalho e lazer. Toda hora é hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes entro no album de fotos dela. Essas coisas que só a internet faz por você. E então fico a procurar alguma nova foto sua que me ligue direta e fielmente ao seu enorme charme. Sinto então seu lirismo e inundo-me dele. Penso nela e penso como eu faria bem a ela; e ela a mim. Penso em como cresceríamos juntos e em quanto não nos amaríamos. Mas, quer saber, nunca tem nada. Zero fotos. Acho que ela se afastou dessas sociedades virtuais; repositórios públicos para a fofoca alheia. Twitter, nem pensar. Fato: ela tem razão de fazê-lo, também eu não dou mais bola pra essas coisas. São apenas espanta-carências. Melhor é ter a vida e conseguir vivê-la no real, dia-a-dia, quenquer que apareça ou desapareça: c'est la vie. A vida é pra ser vivida e é uma só. Certo, Vinícius? Pois é, nem se existisse o tal do sujeito pra fazer a famosa Assinatura, confirmada no cartório do céu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De outra, às vezes vejo fotos. Não se pode acompanhar uma só mulher na vida virtual. Há tantas a nos despertar o lirismo... Esta tem sempre uma cara de felicidade e mostra fotos com sorrisos e biquinis sem qualquer pudor; sempre com o namorado à tira-colo. Ela é linda e seu sorriso passa-me uma boa sensação. E peço desculpas ao amigo poeta, mas sua bunda também me passa sensação agradável. E a cinturinha? Também a cinturinha. Só algo me incomoda: aquele sujeito ali do lado não combina com ela. Não combina de jeito nenhum, sabe? Não combina o cabelo ou o sorriso. Não combina a pose nas fotos. Não combina os símbolos que carrega. Não combina nada. Sinceramente creio que alguém mais ou menos da minha altura ou porte físico, despojamento ou charme, estilo ou convicção política ficaria melhor ao seu lado. É claro, tenho uma visão enviesada da situação e não sei o que acontece ao certo. Mas sempre tenho essa sensação. Um dia contarei tudo isso a ela. E neste dia argumentarei tão bem sobre nossa sintonia e compatibilidade que só poderei ganhar um beijo; ou um tapa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um fantasma me persegue. Vejo-o vir, chuto-o. Mas ele não se cansa, neurótico, jovem, ansioso, louco. Ele quer me consumir e, como um vampiro, retira de mim energias sentimentais que precisa, carente que é do amor alheio. Poderoso, suga minhas energias de uma forma moderna, através da rede de computadores, enviando-me sempre questões existenciais de sua vida pessoal que, sinceramente, não me interessam. Entope minha caixa postal com seus falsos-problemas e tem aquele tipo de amizade, dos piores, que fazem exigir dos amigos posições e atitudes que eles não estejam preparados para tomar. Juventude, ansiedade, loucura, fantasia. Problemas falsos, criados, auto-infligidos. Não sei nem se um psicólogo ajudaria, tão convicto é o fantasma de que faz a coisa certa. E assim minhas energias se esvão. Mas de certa forma tenho sobre controle sobre a situação e ele sabe que não o deixarei acabar comigo neste seu ímpeto de afeto egoísta. No passado, muito já perdi e ganhei por fastasmear. Hoje, perco mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doutra forma, não se termina o que não começou. Não começado ou terminado são palavras sinonímias. Serão mesmo necessárias palavras para se dizer o que está óbvio? Não serão. Palavras vão e vêm. Intimidades se criam ou fazem ou desfazem como a luz do candeeiro. Guardar e respeitar é uma coisa; amar é outra. E sem amor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife bastante me agradou; Porto de Galinhas. Dizem que tem esse nome porque alguns sujeitos fugiram da guerra pra fundar esse vilarejo. Eles que estavam certos: ir pra guerra? É claro que não, pensaram; vamos fazer uma praia aqui onde a gente fique só curtindo a vida. Parabéns a eles, aos galinhas. Também a palestra que dei tão inseguro; sou um poço de insegurança. Mas acabei ficando à vontade no decorrer do tempo; e foram várias, as perguntas. Saiu melhor do que a encomenda. Todos brilhamos e fomos congratulados no congresso recifense, foi um momento de vitória profissional e pessoal. Refrescamos os ânimos em Porto. Ao tentar acompanhar a cachaça do Pablito, dormi para aguentar o tranco da noite e perdi o show do Arnaldo Antunes -- um cara que acha que já fomos chimpanzés e que, ele, é quem deveria ter visto minha palestra. Enfim... Assisti um teatro de bonecos excelente e não tive tempo sequer de passar pela feira do livro, uma pena. E o blues no Recife antigo?, genial! Pablo e eu deliramos. O Dide não animou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vida. Idéias pingadas e textos jogados, no fundo do poço de um ventilador que não roda; ou que, se roda, está sem as pás. Pena que coisas tão meras, mas belas que feras nos deixam iguais. Sempre, iguais. Sempre e diferentes. Tenho pra mim que só faço o que tenho dos outros a aprovação. Mero que espero, sei bem também o que confio em mim. Mas nem tanto. E falo pra todos, e grito "Camponhos!, escutem este bom coração". Com toda lógica e razão, tim-tim por tim-tim, nos mínimos detalhes. Sem falaciar. Sem titubear. Sem dúvida ou sem razão. Uma imagem do inteiro e do todo, o eterno retorno. Sou eu e somos nós; pessoas e mulheres e vida. Sigo sem direção. Alcançarei algo, mas não sei o que ou como ou quando, sempre e nunca. Continuo soluariamente e até volto aqui por vezes para me ver ou reconhecer, gritar e chorar, ler-me como a esfinge de mim mesmo. Gosto e desgosto. Deliro e aprecio, critico. E ando porque não paro. Continuo, aprendo, vivo e sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no início de novembro, dado o capital, cantam já os sinos de natal. Grande é a solidariedade humana no mês de dezembro. Noite feliz de cu é rola.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-8041573964842666310?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/10/canto-de-natal.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-7516975361049998253</guid><pubDate>Thu, 20 Aug 2009 18:34:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-26T15:43:39.696-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crônica</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>lirismo</category><title>A torradeira</title><description>A garota acordou cedo naquele dia. Era do tipo regrada, gente que não tem dessas coisas de dormir tarde ou chegar atrasado no trabalho. Levantou-se da cama e este seu levantar foi daqueles que deixa qualquer narrador sem fôlego. Vestia apenas calcinha e sutiã, e todos os seus movimentos pareciam regados por baldes de charme líquido. Tinha pele branca e olhos de um amarelo claro-e-cinzento como os do gato. Olhos que de tão claros pareciam torná-la de certa forma mística, misteriosa, mágica. Era um ser humano do tipo meio gente, meio gato. A felina ronronou ainda mais um pouco na cama, espreguiçou-se toda enquanto dava um bom bocejo e, assim, deu seu dia como iniciado. Seus movimentos, entretanto, naqueles instantes entre sono e vigília extasiavam o poeta invisível que a observava em toda sua delicadeza e graça. Virou o lençol, trazendo à luz suas pernas nuas e o tal do poeta não conseguiu pensar em mais nada durante o momento em que ela remexia seu corpo atraente e semi-nu até se levantar e, de pé, espreguiçar mais uma vez, terminando o movimento dos braços com um alongamento daqueles do yoga. Tirou-lhe uma foto mental, o poeta que não a observava, e esta foto guardou em seus arquivos mentais. Jamais lhe esqueceria. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Os momentos que se seguiram descrever-se-á sem detalhes, posto que tamanho lirismo não cabe em forma de palavras. Precisar-se-ia estar ali a observar sua graça em se despir e entrar no banho, toda cuidadosa que era com seu próprio e belo corpo. Ao se ensaboar, tocava-se de uma forma doce e charmosa, encantadora. Era mulher de bem com a vida e com seu corpo; era um único ímpeto de charme ligeiramente adocicado, exatamente na medida do gosto do poeta pelo açúcar feminino. Enrolou-se na toalha e assim mesmo dirigiu-se à cozinha de seu pequeno apartamento estudantil a preparar o café. Todos seus movimentos eram de uma tranquilidade e calma que só tem aquele que é oriundo das mais altas castas sociais. Fazia tudo sem nenhuma pressa e aproveitava cada momento e instante que vivia. Sua vida era toda prazer. E este pensamento embebia simplesmente toda a raiz de seu charme como mulher.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Água para ferver, vai agora ao quarto e veste um conjunto limpo de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;lingerie&lt;/span&gt;; conjunto clássico como clássica era a mulher. E então volta à cozinha posto que o café já ferveu. O pão. O pão coloca na torradeira. O pão. E quanto então coloca-o no local apropriado e abaixa o mecanismo de torrar lembra-se dele. Ah, o rapaz. Por um instante o rapaz é a torradeira e ela faz a mais charmosa das poses a apertar o botão: liga. Ela foi apaixonada por ele que agora se foi, que agora vai bem longe, oceanos de distância. Ele despertou-lhe um certo lirismo que ia perdido sem lugar dentro de si. Chegou a pensar em fugir com ele, em largar tudo e todos: estudo, trabalho, família, noivo. Se proposta lhe tivesse feito, proposta teria aceitado. E hoje não estaria mais ali tendo que acordar cedo para ir a um trabalho que, se por um lado não a desgostava, por outro não tinha jamais como lhe dar o prazer assim monstruoso que a presença dele a seu lado a trouxera. A paixão. A paixão é um ser complexo, completo. Um ser espiritual que preenche as pessoas e que entra dentro delas para mostrar-lhes tão claramente o que é o saber aproveitar da vida e do estar vivo. Essa paixão que tinha não era diretamente por ele, ali representado pela torradeira, porém era um sentimento que por ele era catalisado de forma inexplicável. Há seres, diriam talvez os místicos antigos, capazes de canalizar a energia do bem estar do mundo e trazê-la assim à tona, à todo instante, de toda a forma. Tais seres são veículos do amor e do bem estar e o mundo. De fato, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;le monde&lt;/span&gt; deveria ser feito inteiro deste tipo de gente.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Assustou-se quando o pão pulou, torrado. Tinha ido tão longe em sua lembrança daquele que doara para si o eletrodoméstico que foi apenas este susto que a tirou da pose-de-fotografia que ainda fazia ao lembrar-se dele e de sua graça. Comeu e vestiu-se. Com a roupa, era uma outra pessoa. Clássica porém moderna. Adaptada a este mundo do ter-que-fazer e ter-que-ser. Mundo sem liberdade, onde a liberdade é a liberdade que convém para os outros, não a liberdade que convém a si mesmo. Engoliu seco, o mundo. Sentiu um certo desconforto, mas manteve-se de pé. E quando atravessou o portão do lirismo, estava de novo inserida no mundo-cão. Agora era pensar no transporte, no problema, no chefe, no projeto, no mundo e no noivo. Por vezes durante o dia tinha náuseas, ânsia de vômito pela ação de outros, mesquinharia e hipocrisia. Pensava querer viver eternamente no mundo lírico. Mas para isso, precisaria encontrá-lo. Onde estaria? Quereria entrar com ela num mundo só deles? Ah, quereria. Sabia disso porque olhara certa vez em seus olhos e tudo isso lera lá dentro, bem no fundo. Mas seu mundo, sua criação, sua história, as coisas que esperavam dela. Não teria jamais a coragem de abandonar tudo aquilo. Ou teria? Ah, que vontade. Ah, que vontade!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-7516975361049998253?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/08/torradeira.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-5027183111876035902</guid><pubDate>Wed, 12 Aug 2009 21:54:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-25T15:33:39.729-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>filosofia</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crítica social</category><title>A verdadeira face do tempo</title><description>Não tinha cansaço nem tipo, ódio ou ranço, cegueira ou perfeição. Era um misto de tudo e de todos, cultura encarnada que se faz viver por maneira qualquer de seguir uma linha que lhe havia sido imposta. Linha esta que, de mais a mais, motivos não tinha para a interromper; nem mesmo vontade. A única interrupção possível, de fato, seria esconder-se de tudo e de todos nalgum interior longínquo e desabitado, onde poderia gritar conta tudo e todos e não ser afetado pela reação oriunda de sua ação; na física ideológica do mundo moderno. Para tomar tal atitude, entretanto, seria necessária extrema coragem e bastante desapego; características que lhe faltavam. Seguia porque seguir era o caminho: decisão única possível dadas as atuais conjecturas. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Duvidava antes de tudo. De certas coisas, porém, mais que de outras; e constantes dúvidas ideológicas deixavam-lhe sempre à beira de encruzilhadas. Em certos momentos seguia um caminho convicto, cabeça à frente, olho ao horizonte, pé-ante-pé; direto e preciso. Mas dava sempre de cara com portas cerradas, vigiadas por pontos de interrogação gigantescos que atacavam-lhe a alma com lanças e espadas das mais pontiagudas. Psicologicamente ferido e perdido, retornava até a última encruzilhada através do mais próximo atalho. E quando então dava por si percebia que o número de caminhos a seguir havia se multiplicado ainda mais. A grande interrogação o observava. Via como outros ao seu redor haviam seguido certos caminhos e que agora estavam bem consigo e com o mundo, isso lhe apontava ideais a seguir e assim supostas ideais a abraçar; até que encontrasse novamente com a porta cerrada e a tal da interrogação vestida em trajes de guerra. O caminho de cada um, realizara, era diferente. Continuava em busca do seu, indo e voltando, por vezes andando em círculos e sem jamais ter qualquer convicção. Sejamos precisos, nosso personagem estava perdido. Questionava-se não apenas sobre o mundo e sua essência, questionava-se não apenas sobre as idéias e suas direções, questionava-se não apenas sobre a existência, mistério cartesiano ainda não resolvido. Questionava apenas e as questões eram sua tanto sua arma quanto seu algoz neste mundo tão distante da Atenas pré-cristã. Este herdeiro de Sócrates duvidava mesmo de seu mestre e ao questionar suas questões acabava por ver-se num labirinto sem saída que só trazia ainda mais e mais dúvidas e faltas de sentidos. Em Sartre buscava somente conforto, jamais respostas. Lia os grandes e dividia com eles suas dúvida e pesar, mas sabia que não chegaria jamais em suas alturas. De fato, temia um dia conseguir poder e fama; escondia-se tanto quanto podia e dava tiros no pé ao longo de sua carreira profissional para manter-se escondido. O que queria mesmo era poder brincar e pular, queria era poder ser criança todo dia e toda hora. Era este seu desejo último, e em seu íntimo arrependia-se do dia em que decidira ser adulto. O tiquetaquear do relógio, porém, deste mundo subdesenvolvido; o avançar das horas e a força do capital corre-corre seguiam oprimindo-lhe e matando-lhe, sugavam-lhe alma e sangue, oprimiam sua luta pela vida e sua vontade de  viver; aquela sua vontade de seguir e sorrir, sua vontade de amar e ser um só com seu amor. Sentia-se um prisioneiro da sociedade e seu sonho era ser um dia livre, tendo todas as vinte-e-quatro horas de seu dia para si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;À razão, nosso herói venerava tal qual deusa, mas sabia que não era onipotente ou onisciente. Sabia da artificialidade destes conceitos. Via assim suas limitações e falhas, mesmo assim não a abandonava, seguindo com ela pelas beiradas dos montes do saber, tomando sempre cuidado para não cair ou não afundar no excesso da verborragia científica e técnica; instrumentos dotados de enormes antolhos. Sabia que o mundo era mais do que isso que os humanos conseguiam compreender e, embora lhes desse enorme crédito por tudo o que haviam feito, descreditava-lhes sua arrogância dawkiniana em pensar que tudo fosse mesmo assim; e ponto final. Apenas na arte era capaz de explorar-se e explodir-se, embora fosse ainda limitado por todo esse ensinamento careta do mundo, todo esse representar e classificar foucaulniano, tão falso e tão falho, tão útil e tão inútil, tão certo e tão pequeno, simples, ignóbil e assimesmo: belo.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Da humanidade tinha pena e orgulho. Mais pena. Bastante orgulho. Sua herança ocidental e miscigenada era latente e seu sentimento de unidade para com o mundo era contínuo, forte, vigoroso. Via com certa clareza, talvez enganada, os benefícios e malefícios de uma cultura intelectual que se afastava a passos largos da simplicidade assim tão agradável da vida do animal humano. Somos nós os algozes de nossa própria preocupação capitalista, lobos de nós mesmos é o que somos, Mister Hobbes. Do que mais precisa o homem que alimentação e amor? Ainda assim, todo o construto social com suas falsas necessidades erigia um novo modelo de vida tão falso e estranho, superficial, inatural, absurdo e egoísta, fechado, bloqueado, cego, claustrofóbico, vigiado, trabalhófilo, irrecompensável e estúpido, dado que só se vive uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Seguia porque seguir era um verbo – ação! –; um rumo díspar. Vivia em meio a todas estas encruzilhadas e não estava certo de que seria um... andava em círculos que, se colocados ao longo da variável tempo poderiam ser vistos como espirais. Seguia rodando e rodando, sem rumo claro ou possibilidade de vitória. Via idiotas tornando-se grandes e passava a temê-los. Dê poder ao homem ignorante e sofrerás as conseqüências. Entendia melhor como a suposta "roda da fortuna" girava e, embora fosse plenamente capaz de pular dentro dela a fazê-la rodar com velocidade, preferia afastar-se temeroso e pregar em sua porta a maravilhosa palavra: simplicidade. Sabia o que estava perdendo, mas jamais se venderia. Não seria de todo impossível que um dia fugisse e fosse viver num mosteiro qualquer, em eterna reflexão e paz. Nuvens apareciam e se dissipavam, acreditava na educação ampla e queria ser educador, um verdadeiro e bom educador. Queria mostrar aos novos seres humanos, os únicos que podem ser ainda salvos, a amplitude do pensar e do saber; assim como suas inúmeras limitações. Tudo isso podia, era, ia, vinha e saia de sua mente enquanto divagava pelos montes desconhecidos do conhecimento humano. Não era direto porém metafísico, não era ocidental ou oriental e jamais se encaixou muito bem em qualquer conceito quadrado que o tentassem atachar. Era uma incógnita e um motivo, um poço sem fim, uma unidade conjunta do saber e da ignorância; era apenas mais um ser humano em eterna reflexão.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-5027183111876035902?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/08/verdadeira-face-do-tempo.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-3317837600773309642</guid><pubDate>Sun, 09 Aug 2009 13:08:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-25T15:15:20.153-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>dúvida</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crítica social</category><title>Eu que</title><description>&lt;br&gt;Eu que já andei por montes congelados, senti o frio em minha espinha, andei também por desertos dos mais quentes e cobri-me de mantas para afastar o calor, passei ainda por florestas temperadas de temperatura agradabilíssimas que se tornavam apavorantes ao cair da chuva tropical, onde o dia se transformava em noite. Eu que já vivi no novo e no velho mundo, convivi com pessoas de todas as raças e estirpes, gente com e sem educação, pessoas com muito amor ou rancor no coração. Eu que já pensei em tanta coisa, que não tive medo de dizer o que pensava, já passei tantas vezes por idiota, por gênio e ingênuo. Eu que já engoli tantas palavras sem necessidade e que ainda outras, muitas outras, numerosas outras, infinitas, cuspi sem precisão. Eu que nunca consegui ver a desigualdade e a injustiça sendo feitas sem reagir contra elas com um fervor e uma voracidade que jamais pensei encontrar em minha doce alma. Eu que por tantas vezes já amei e já fui amado...&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Desta vida não espero nada, não tenho objetivos ou ambições; ou grandes vontades ou temores. Faço apenas o que parece certo e vivo um dia depois do outro num carpedinear cheio de constantes e imprevisíveis inconstâncias. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Eu que já errei tantas vezes e que cometi os maiores pecados. Eu que já não soube viver sem que me respeitassem e que já senti tantas vezes falta dos meus, falta de vocês que me lêem e que comigo se unem, transformando-se em parte de mim. Eu que já fui parte de tanta gente e que já ouvi os meus maiores sonhos da boca de outros, desde os gregos até os sambistas, todos virtuosos. Eu que já estou morto e que portanto não tenho porque temer a morte.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Sobrevôo neste instante a amazônia e tenho em minhas mãos este computador. Em casa, ainda não tenho sequer cama, não tenho mesa ou cadeiras. Assento-me no chão. Mudei tantas vezes com tantas coisas: apenas livros e idéias. Agora tenho medo do meu vizinho de assento e dos que passam aqui ao lado a surrupiarem o que escrevo indevidamente. Tenho mais vergonha dos meus textos não terminados do que de minha nudez, carapuça desolada. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Eu que já não soube tanta coisa e que tanta coisa já aprendi. Eu que um dia não soube sequer ler, e não falo de minha infância. Eu que já li tanto sem refletir, sem conseguir ou tentar interpretação. Hoje só leio com extrema atenção, leitura minuciosa sempre tentando encontrar nas entrelinhas o bem maior e o prazer da leitura, delírio interpretativo. Não gasto mais meu tempo com nada que não seja eterno e que não vá arranhar em mim fagulhas que durarão até o tempo do fim. Não existe mais televisão no meu mundo e todo meu entretenimento é educativo, meu ócio, criativo. Perco sempre meu tempo a refletir e a descançar. A meditação ilumina e lança luz sobre os aspectos mais gerais de minha vida pessoal e profissional. Não tenho objetivos porém responsabilidades, sou ferramenta hedonista para mim mesmo e igualitária para esta sociedade decadente, herdeiros de uma tradição cristã moribunda, suja e desigual.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Odeio o capitalismo tanto quanto gosto de coca-cola. Odeio a tecnologia e os avanços impensados do conhecimento técnico que correm apenas para chegarem aos bolsos de alguns, tão poucos. Amo a busca pelo conhecimento, a ciência e o saber altamente desenvolvido e limitado que temos. Mais que da ciência gosto da filosofia posto que ela está mais frequentemente afastada deste fazer e acontecer no qual gira a roda do mundo do capital que tanto me amargura.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Quero crescer moral e intelectualmente. Quero sempre aprender e estar vivo, respirar o mundo e encher meus pulmões com esta benção tóxica que é o ar e o oxigênio. Quero ser saudável pero no mucho. Quero viver cada momento e morrer em qualquer momento com a certeza da vida vivida e do meu despreocupar de todas as irrelevâncias. Não gasto absolutamente nenhum segundo de meu processamento cerebral com irrelevâncias, e tudo no mundo são irrelevâncias, por isso com nada me preocupo. Tento me livrar de todo pensamento moralista que consigo e se observo as coisas é para me satisfazer e conhecê-las, jamais para julgá-las; ou ao menos tento, com empenho, não fazê-lo. Ando com pessoas porque as amo; e amo todas dentre as que não conheço. Das que conheço, são poucas aquelas que me decepcionaram ao ponto do desgosto; essas simplesmente ignoro e passo ao lado. Não as odeio, apenas evito-as; prefiro viver longe delas.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Tenho um impulso criativo que as vezes se aflora e as vezes se enconde, incontrolável que é. Tenho amor e ódio pela humanidade e pela história podre e fedorenta das civilizações, que nos trouxe até onde agora estamos. Nunca gostei de ciência aplicada e não sei se a ciência de fato melhora ou piora a vida do ser humano. Não sou nenhum fã exagerado de novas tecnologias, nem mesmo na área de saúde e não estou certo de que fazer os humanos viverem mais -- eu incluído -- seja uma boa idéia. Sou um cientista já fracassado em ideologia e não sei onde chegarei, se é que chegarei a algum lugar. Talvez um dia faça uma longa viagem filosófica e psicológica, talvez vire um tipo de monge, do tipo do que pratique sexo e, de preferência, com alguma mulher linda e interessante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-3317837600773309642?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/08/eu-que.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-5746126047216508859</guid><pubDate>Thu, 06 Aug 2009 21:56:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-25T15:54:13.445-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crítica social</category><title>Têvê</title><description>Quando disse à vendedora de móveis usados que não gostava de televisões, foi interpretado como louco. Não buscou, porém, explicar-se. Deixou que ela mesma talvez refletisse sobre como era enorme seu vício no decodificador de ondas eletromagnéticas e transmissor dos pensamentos das elites. De fato, para ela, o aparelho seria apenas algum tipo inócuo de amigo a ajudar passar as horas de tédio com um pouco de entretenimento a fazê-la sorrir ou informar-se, a fazê-la crescer. Alguém assim, que não gostasse de hipnotizar-se à frente de tal eletrodoméstico essencial, só poderia ser um bruto, um chato e um ignorante.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Esquecia-se a tal da moça que a liberdade da informação está, de fato, é na internet. Somente ali pode-se encontrar toda a informação que se deseja de forma não absurdamente enviesada, uma vez –- é claro -– que se conheça onde navegar. O que a televisão e os telejornais faziam, de fato, era mostrar ao telespectador -- que consiste em todos os brasileiros da nação --, apenas aquilo que as elites querem que o povo saiba, ou seja, quase nada. Qual a liberdade tem o telespectador em escolher a matéria a ser apresentada nos jornais? Nenhuma. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Não quero dizer aqui que os telejornais mostram notícias falsas ou forjadas e que enganem ou iludam a população ao inventarem ou fantasiarem eventos que de fato jamais ocorreram. A forma de dominação acontece de forma mais inteligente e sutil. Ela acontece, de fato, na escolha das matérias a serem apresentadas, no tempo em que são passadas e na forma parcial como são tratadas. Assim, ao invés de apresentarem os claros &lt;span style="font-style:italic;"&gt;lobbies&lt;/span&gt; e intimidações que acontecem por trás das políticas governamentais e que defendem os grandes interesses do capital, os noticiários apresentam reportagens inócuas sobre a morte de determinado astro pop, sobre supostas epidemias inventadas e não controladas, sobre curiosidades estúpidas da vida dos cidadãos comuns. Ao invés de relatarem as grandes tramóias que acometem a vida de milhões, apresentam apenas pequenos furtos diários que, relevantes para a vida de meia dúzia de pessoas, tomam proporções desastrosas e desproporcionais nas telas da TV. Enquanto isso, os governantes continuam roubando o dinheiro do povo e Brasília inteira conhece bem o nome dos safados. As redes de televisão também conhecem, mas evitam dizer posto que estes são os mesmos que as financiam, direta ou indiretamente.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Por vezes, entretanto, algum tipo de justiça é feita. É preciso que apareçam corajosos como Protógenes a desmascarar enormes fundações Dantescas que há anos corroboram com a corrupção em nosso país. O que acontece, entretanto, num Brasil de ignorantes manipulados é que a corja então reverte o argumento e assim -- nas telas da TV -- os acusadores passam a parecer culpados. Não se pode, agora, misturar dados da agência de inteligência com a polícia federal, dizem as televisões. Isso é crime. E enquanto nossos fiéis delegados e agentes da inteligência desmascaram grandes fraudes e gastos de dinheiro público em prol do enriquecimento de alguns poucos, a televisão vem nos dizer que não se pode também grampear políticos para descobrir suas faucatruas. É como se dissessem: “deixemo-nos ser enganados”. Não se pode grampear telefones de políticos ou misturar dados da polícia federal com dados da agência de inteligência (ABIN), mesmo que isso seja usado para desmascarar crimes hediondos que utilizam o dinheiro dos contribuintes para aumentar a riqueza de poucos salafrários. Este é o Brasil que passa na televisão. E isso tudo acontece porque são estes ladrões que financiam as redes de TV. E quando aparecem finalmente alguns corajosos para mostrar, expor e desmascarar fraudes, eles são caçados e tidos como vilões pela televisão e pela opinião pública. A distorção dos fatos realizada pelos manipuladores é tal que os heróis vão para a prisão e os vilões andam soltos entre nós. Os juízes que mandam tirar os vilões da cadeia recebem o aval e o reconhecimento por parte dos outros juízes e da população. O juiz que prende novamente o vilão tem suas credenciais postas em dúvida e corre o risco de ser caçado. Eis o Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Não preciso de televisão nenhuma para me dar informações enviesadas sobre o que acontece no meu país. Sei observar os dados e sei tirar minhas próprias conclusões. A internet é uma ferramenta de recuperação de informações bastante mais democrática e a diversidade de opiniões observadas ali apenas enriquece as discussões e permite que possamos formar uma opinião mais rica e ampla, ao invés de recebermos enlatadas fórmulas de informação corrupta através dos telejornais. Simplesmente o que passa na televisão é apenas a informação que interessa à elite do país, e esta informação aliena o indivíduo que, de fato, não vê qualquer conexão lógica entre os telejornais e sua vida cotidiana.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Lula foi reeleito porque cuidou do povo e porque o povo acreditou na vida real a despeito do que aparecia nos telejornais. Infelizmente não é sempre que esse tipo de comportamento pode ser visto. Lula também foi manipulado e gritou por décadas apenas para chegar lá em cima e fazer o mesmo que faziam aqueles os quais antes criticava. O PT no poder é a repetição, se ligeiramente atenuada, da cultura do capital. O conselho de ética salvou Sarney e o Brasil, ah o Brasil... talvez não tenha mesmo salvação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-5746126047216508859?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/08/teve.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-3184870706371485062</guid><pubDate>Sun, 26 Jul 2009 18:50:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-26T16:31:30.954-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>lirismo</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crítica social</category><title>Não sou fêmea de uma noite só</title><description>Não que eu tenha querido de certa forma magoá-la ou simplesmente deixá-la na posição em que não quisesse estar por efeito de uma maldade, abuso de poder ou vingança com relação ao dano que seus antepassados fizeram em meu povo. Apenas esta frase título que me dizia continuou retumbando em minha cabeça até que eu tivesse chegado finalmente à conclusão extrema de que eu não poderia estar interessado em alguma garota que realmente se importasse assim com tanto zelo em ser ou não ser fêmea de uma só noite. Simplesmente essa preocupação extrema com a preservação de um ideal moribundo de puritanismo tirou de mim qualquer vontade ou desejo que eu tivesse posteriormente em revê-la; incluindo o formato avantajado e maravilhoso de suas ancas. De fato, nossa diferença cultural havia deixado passar batida sua vulgaridade. Micro-saias que não apenas evidenciam sua alma sexual excessivamente reprimida, como mostravam, pelas ocasiões quando utilizava, certo mau-gosto. Tudo isso atiçou em mim um nojo extremo por aquela mulher que, desde então, decidi por melhor evitar. Viajaria em menos de uma semana e planejara que eu a visitasse assim tão longe no fim de semana seguinte. "Mas já?", retruquei. Queria mudar de vida e estava assim tão certa de que eu a acompanharia; tal qual a um cachorrinho domado. Ah, quão errada não esteve. "&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Um brasileiro certamente não negaria a companhia ou um provável relacionamento de longa-duração com uma francesa da minha estirpe&lt;/span&gt;", deveria ter pensado. E não que eu não tivesse inicialmente me apaixonado, de certa forma, por ela. Era linda e parecia interessante, era de certa forma despojada no visual em meio àquele antro de seguidores da moral e dos bons costumes. Só no último de nossos encontros é que de fato pude vê-la como a moralista tradicional que verdadeiramente era.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;De fato, conversas-pré naquele mesmo dia, já haviam evidenciado o quanto um ligeiro pensamento estereotípico que eu pensei que tivesse sobre meu povo mostrara-de de fato enormemente estereotípico, incorreto e -- arrisco-me -- ignorante. Como uma garota viajada e já tendo morado assim em tantos países, pensei que tivesse a mente aberta e um conhecimento antropológico absorvido na pele que fosse suficiente para questionar certos padrões sociais e visões moldadas de determinados sítios do globo. Mas provavelmente vivera numa bolha, onde quer que estivesse. De fato, a noite toda se desenrolou de uma forma em que minha vontade por ela foi diminuindo com o passar das horas e, se chegamos à cama em algum momento e ali tentamos enganar nossos genes egoístas, tal evento se deu apenas em consideração ao tempo já gasto na empreitada e em suas proeminentes, bem delineadas e já comentadas: ancas. Mas a decepção intelectual já estava irremediavelmente instalada.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Pior ainda foi quando descobrimos, evento terminado, que o aparelho emborrachado anti-concepcional havia estourado tal qual a força e a vontade de sua extrema repressão sexual. Revelando ainda que estava em dia fértil, demonstrou total desconforto com a sugestão da utilização da pílula do dia seguinte e chegou mesmo a repetir ideais claramente cristãos com relação ao pecado do aborto. Revelei-lhe então, pisando em ovos, de que não estava certo de que gostaria de ficar com ela em longo-prazo e que nossa relação era por demais incipiente para arriscarmos tanto. Mas foi só quando lhe disse que eu poderia voltar a qualquer momento para meu país -- e assim, abandoná-la -- que começou a mudar de idéia sobre nosso suposta -- e naquele momento tão real -- prole. Primeiro disse que tomaria a pílula do dia seguinte no dia seguinte, quando acordasse e fosse à farmácia, mas não confiei um segundo em suas moles palavras. Só depois de dezenas de minutos de argumentação é que consegui convencê-la a irmos juntos a uma farmácia, às 4 da manhã de um domingo francês, para comprarmos a bendita. Pegamos meu carro e seguimos até uma das únicas farmácias abertas da cidade. Fez questão ainda de ler a bula completa do medicamento antes de ingerí-lo e chegou a argumentar que não a agradaria tomar aquilo, posto que assim encheria seu corpo de hormônios artificialmente produzidos. Dada minha atitude de jogador de pôquer, colocou a pílula então na boca e não duvido que não a tenha engolido. Mas fez que sim, trocou mais duas idéias pedindo que a encontrasse no dia seguinte e então partiu.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Desde então desliguei por completo minha ligação com a garota. Foi-se em viagem e deletei-a das ferramentas de bate-papo. Jamais atendi novamente seus telefonemas e respondi apenas o primeiro e-mail que enviou, dizendo que um relacionamento de longa-duração não era coisa que se decidisse assim de um dia para o outro. Disse-lhe que era preciso amar e que ela, como mulher, deveria saber disso ainda antes de mim. O amor não acontece num simples clique, porém é algo que se constrói com delícia e tempo de convívio. E disse que eu achava que não gostava dela o suficiente para ficarmos juntos. Mas ela já havia dado seu corpo a mim (e vice-versa) e aquilo parecia ter um peso imenso para ela, de maneira que talvez contasse nos dedos de uma só mão os homens a quem houvera assim se dado. Em princípio ainda cogitou fortemente que eu viajasse a encontrá-la. Um mês depois, tentou novamente marcar um encontro que ficava duvidoso se seria a sós ou não; depois disse que o referido &lt;span style="font-style:italic;"&gt;rendez-vous&lt;/span&gt; teria outros amigos e que nos relacionaríamos apenas como bons amigos. "Como poderia ser outra coisa?", repliquei. Dada minha total falta de resposta a quase todas suas tentativas de aproximação, parece ter finalmente cansado da investida e me deixado em paz. Meses passados, relatos de alguns amigos em comum parecem evidenciar que não sou pai de nenhum garoto francês. O que fiz apenas foi utilizar e ser utilizado por uma francesa, com consentimento mútuo, numa noite de sexo. Fêmea de uma só noite... de um sexo que poderia ser sido mágico, se não fosse para ela uma reprimida e libertina realização de um grande pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Ainda não consigo entender o que passa pela cabeça de um indivíduo de cultural ocidental que pensa o casamento como um simples contrato entre pessoas solitárias para dividirem a estupidez de suas vidas. O amor e o carinho que se constrói de tais relacionamentos não me parecem jamais naturais e a indiferença com a qual o casal se trata é digna de pena, para dizer um mínimo. Se há algo que não desejo nem mesmo ao meu pior inimigo é ter um tipo desses casamentos-contratos, onde não se conhece o significado da palavra amor, embora se conheça a palavra confiança ou um tipo de companheirismo individualista. A mulher era simplesmente uma solitária balzaquiana vinda de um contrato malfadado de casamento onde faltava-lhe, notoriamente, o bom sexo; dentre outras sentimentalidades. Só um verdadeiro poeta e amante, doador completo e descompromissado de todo seu tempo-livre ao mundo do lirismo, é que pode amar de forma plena e eterna, uma mulher. O que disso se afasta, encontrará cedo ou tarde a perdição e o simples fim.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Mulher, que no francês é &lt;span style="font-style:italic;"&gt;femme&lt;/span&gt; e que se traduz mais lírica e biologicamente como fêmea. A frase original: "Je ne suis pas une femme d'une seule nuit." Porém foi este seu malfadado destino; assim como o meu, que estou sempre esperançoso, em busca de um algo-mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-3184870706371485062?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/07/nao-sou-femea-de-uma-noite-so.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-6583204269975619173</guid><pubDate>Thu, 25 Jun 2009 14:50:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-06-25T14:44:59.866-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>filosofia</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>destino</category><title>Thomson</title><description>Quando aquele som curvo chegou aos meus ouvidos, não mais cintilei e a estrela que um dia houvera sido agora brilhava suas luzes de maneira diferente, absurda, inovadora. Não se sabe como, mas fato é que as forças psicológicas e físicas juntaram-se de uma maneira jamais vista e acenderam o fogo da luminosidade de uma forma criativa e poderosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele som, contínuo e estridente, acabei percebendo depois que viera de apenas um único animal, entidade estanque e indivisível. Indivíduo, indivisível. O indivíduo é também um átomo que opera num nível de grandeza apenas razoavelmente maior, comparativamente maior. Apesar de não haver antes meditado sobre o assunto, teria dito que as ondas sonoras que chegavam aos meus ouvidos seriam provenientes de uma grande quantidade de animais; medi-los-ia em dezenas. Mas eis que a sinfonia natural que me invadia o corpo concomitante à música urbana fez-se, de repente, ausente. E o incômodo produzido pela repentina parada daquele som que nostalgicamente lembrava-me os campos e suas calmarias características levou-me ao seguinte questionamento: como seria que dezenas de animais que cantam ou que roçam suas asas entre si poderiam coordenar uma parada simultânea e abrupta, cronometrada, todos ao mesmo tempo, como se houvesse um maestro a controlá-los e acusar o fim da melodia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal parada coordenada era impossível. Assim, meu cérebro negou veementemente a hipótese do maestro grilo ou da maestra cigarra e concluiu apressadamente que aquele som que antes escutara proviera de um único animal que, sabe-se lá por qual razão, resolvera parar de emitir som daquele instante em diante. Uma questão de estados discretos: som e não-som. Mudança de estados que não poderia se operar de maneira orquestrada para as dezenas de indivíduos que dantes eu pensara estarem a emitir tal sinfonia. Portanto, concluí convicto: era um só o instrumentista da melodia natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não pense que parei minha meditação por aí. Explorei ainda além.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A teoria atômica do indivíduo faz-me questionar e pensar sobre outras formas de organização no universo. As células agrupam-se umas às outras baseadas na forma como respondem a estímulos e como tais estímulos as incentivam a produzir determinas substâncias -- principalmente RNAs ou proteínas -- que de outra forma irão remodelar a própria célula e fazê-la responder às mudanças ambientais. A homeostase do indivíduo depende dessa resposta coordenada. Células ligam-se normalmente a células similares e, assim, formam tecidos. Indivíduos humanos fazem o mesmo: conversamos com pessoas e delas temos apreço ou repulsa. Com aquelas que temos apreço, reunimo-nos e celebramos a vida na forma de festas, reuniões, bailes ou o que quer que seja. Com as que temos repulsa, afastamo-nos. Um suposto Físico, ordens de grandeza maior do que nós, olharia para essas pequenas da relação humana a teorizar sobre nosso comportamento buscando uma ordem ali encerrada. Talvez chamasse tal apreço de positivo e à repulsa poderia dar o nome de negativo. Assim Ele criaria uma teoria elétrica-psicológica que seria capaz de prever razoavelmente o comportamento de seres humanos indo para cá e para lá, atraindo-se e repelindo-se dado a similaridades simbológicas, intelectuais e sociais. Talvez criasse uma teoria segundo a qual pudesse prever o comportamento de populações inteiras de seres humanos ao observar as características de uns que preferiam ir para cá ou para lá, juntar-se ou afastar-se de afetos e desafetos. Dividiriam certas características em comum, como o gosto pela música, a ciência ou a literatura. Tomaria-nos como entidades e faria conosco experimentos, colocar-nos-ia junto de pessoas que teorizasse que gostaríamos ou não e assim veriam, confirmariam, anotariam nosso comportamento e preveriam o que faríamos dado este ou aquele fator. Afinidades psicológicas não passavam de outras regras de atração e repulsão do espaço físico, dentro do qual indivíduos humanos seriam entidades atômicas e indivisíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já vejo entretanto alguns vindo argumentar sobre nosso livre-arbítrio e dizendo que este tal Mega-Físico quiçá divino talvez nada pudesse sobre nós conhecer posto que fazemos o que bem entendemos. Isso não é lá muito bem a verdade, posto que teorias estatísticas nossas mesmo conseguem fazer-nos prever fenômenos que mudam de ano para outro em nossa própria população e, de fato, este é o objetivo de todas as políticas públicas dos governos por todo o mundo. Supõe-se um problema e uma solução, aplica-se dinheiro e espera-se o resultado que, embora frequentemente mais modesto que o esperado, é capaz de modificar a sociedade na direção desejada. E se nós mesmos conseguimos prever-nos, quiçá o suposto mega-físico que talvez seja ordens de grandeza maior do que nós: física e cognitivamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De forma contrária e agora dirigindo-nos pelo caminho inverso, não há qualquer tipo de evidência de que o átomo não possa ter ele próprio algum tipo de livre-arbítrio. É fato conhecido que os cientistas não são jamais capazes de predizer o comportamento de um único átomo ou molécula. Predizem o comportamento de populações deles. Eis onde estão as regras da ciência: no comportamento geral de entidades, sejam elas átomos, moléculas, células, tecidos, organismos, populações, ecossistemas, planetas, sistemas, galáxias. Dizer que um átomo não obedece necessariamente as regras que ele deveria obedecer -- dada a afamada e agraciada teoria física que temos -- talvez seja o mesmo que dizer que o átomo, de certa forma, possui livre-arbítrio. Dirão aqui que exagero e que o fato da complexidade do universo ser maior do que a que podemos medir não implica necessariamente em uma suposta vontade-atômica. É claro que não. Mas também, por outro lado, não desimplica. Pode ser que ela exista e, de fato, acredito que sim. Posto que &lt;span style="font-style:italic;"&gt;se considerarmos que o átomo tenha um comportamento completamente mecanicista, também nós o teríamos&lt;/span&gt;. E isto me parece uma conclusão lógica direta. Se o demônio de Laplace [1] realmente existir, logo nem o átomo nem os indivíduos dele formados, incluindo você e eu, não terão vontades ou desejos quaisquer -- e o universo não passará de um sistema completamente sem-graça e puramente determinístico, basicamente um modelo mecanicista supremo possuindo pequenos bloquinhos regidos por leis estritas e imutáveis que modificam a posição de tais blocos entre instantes ínfimos de tempo. Eis o pensamento careta do deus-mecânico que não possui dados: completa falta de criatividade. De fato, provavelmente jamais saberemos se a incerteza de nossas medidas se dá por um comportamento mais complexo do que o que podemos medir ou por um indeterminismo estatístico intrínseco, seja das propriedades da matéria ou de nossa compreensão cognitiva das mesmas. Prefiro pensar que o universo é criativo, que o átomo tem seu livre-arbítrio de átomo e que também eu tenho meu livre-arbítrio de ser humano, assim como nosso mega-físico que prevê nosso comportamento terá seu livre arbítrio em escala possivelmente aumentada. Supomos normalmente sermos nós a forma maior, mais organizada e consciente de matéria que existe, mas esta pode não ser uma verdade. Gaia talvez seja consciente e saiba do câncer que sofre, saiba da proliferação de agentes infecciosos humanos talvez não a matá-la, mas a transformá-la drasticamente de dentro para fora. Talvez ela saiba e tente conscientemente modificar algo. Talvez não, talvez goste. Eu, por exemplo, fumo e sei que me mata. Nem por isso paro. Serão os humanos um vício de Gaia? E o que será a consciência, de fato? Possuiremos -- gaia, nós ou um átomo -- tal consciência? Quão enviesado será nosso próprio conceito de consciência? Gaia, o super-indivíduo. Atomização, pedaços separados, entidades estanques que têm comportamentos pré-definidos. Talvez tenham livre-arbítrio, talvez não. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O animal volta a cantar e as ondas sonoras que produz alcançam meu receptor sensorial e causa provavelmente liberação de serotonina em meu cérebro. Escuto e, mais um pouco, medito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;[1] Sobre o demônio de Laplace: Laplace foi um matemático, físico e astrônomo francês da era napoleônica, tendo vivido entre a metade dos séculos XVIII e XIX. Ele é conhecido por formular a existência de um demônio que representa uma visão ultra-determinista sobre o universo. Normalmente quando se fala do paradigma de Laplace ou do demônio de Laplace refere-se a um suposto ser fictício que conheça a posição de todos as partículas fundamentais da matéria num tal momento e todas as regras que regem a mudança de posição de tais partículas de um instante a outro. Tal demônio contendo tais informações teria, de pronto, todo o passado, presente e futuro revelados a seus olhos. O paradigma laplaciano não abre espaço para qualquer incerteza ou aleatoriedade no mundo ou no universo e uma adoção desta perspectiva implica, necessariamente, na completa ausência de livre-arbítrio. Desta forma, todas as nossas atitudes estariam pré-determinadas através de movimentos de moléculas em nosso cérebro que poderiam ser previstas pelo demônio em questão. Tal perspectiva também está relacionada ao fato de que o destino é inexorável e imutável, já estando de certa forma escrito pelas condições iniciais do universo e pelas regras fixas nele presentes.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-6583204269975619173?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/06/thomson.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-4153357795153709748</guid><pubDate>Wed, 24 Jun 2009 14:37:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-06-25T11:50:27.176-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crônica</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>brasil</category><title>Com açucar, com afeto</title><description>Lembro da garota que hoje me atendeu e algo em meu cérebro aponta: eu já a conhecia antes. Não sei mais se posso confiar nesta ferramenta falha que é o cérebro humano e o mecanismo de memória. É claro que já a conhecia antes, coisa de semanas. Da primeira vez que a vi não lembro de ter tido essa impressão de conhecência desde longos idos. Talvez neurologicamente possa-se explicar o caso da seguinte forma: é possível que hoje eu tenha reparado em alguma característica especial da garota que é também compartilhada por alguma amiga de longa data. Esta característica específica misturou-se entre as conexões cerebrais novas e velhas de meu cérebro e fez com que, ao perceber tal idiossincrasia da garota, meu cérebro tenha ativado redes e circuitos neuronais já bastante utilizados (noutra pessoa), fazendo com que pensasse que já a conhecia de longa data. Algum neurobiologista poderia dizer se a hipótese faz sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou impressionado sobre como as pessoas nesse país são doces. Vindo de ano e meio na Europa, onde havia desligado completamente meu senso de brasilidade devido a questões de sobrevivência e adaptação, chego aqui e entro quase num êxtase com relação a esses pequenos relacionamentos interpessoais que temos com desconhecidos ao longo do dia. Elisa me sorri um sorriso assim tão simpático e carinhoso que dá vontade de pegá-la no colo e enchê-la de beijos. Isso porque, a menos que meu cérebro me pregue peças, eu não a conhecia anteriormente. Também a mulher do banco, uma loira linda que iria casar-se no fim da semana passada e que, hora dessas, curte sua lua de mel em algum paraíso natural desses que só Brasil tem. Ela fala comigo assim tão despojada e tranqüilamente, como se fôssemos amigos há anos. Viva o Brasil! Na França existe essa distância -- cá entre nós: ridícula -- entre as pessoas que não se conhecem e que ficam pseudo-respeitando-se ao se tratarem de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;vous&lt;/span&gt; ao invés de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;tu&lt;/span&gt;. Um tipo de pseudo-cortesia que incita à distância e medo entre os indivíduos. As pessoas não se amam na Europa. Elas apenas se suportam. Foi mesmo Sartre que disse que o inferno são os outros. No Brasil, os outros são o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota da Moldávia, de lábios carnudos e deliciosos de se beijar, disse-me que eu era doce. Foi a primeira vez que alguma garota classificou-me com tal adjetivo. Ao fim da minha adolescência, chamavam-me de grosso ou tosco. Diziam isso porque sempre fui mais sincero do que deveria ser ao invés de seguir o caminho padrão da hipocrisia. Mas eles estavam enganados: sinceridade e grosseria não são a mesma coisa. O alemão que o diga. E a bela moldaviana é que realmente conseguiu entender-me, ela que também está entre as pessoas mais delicadas e belas que já encontrei neste meu caminho em direção à morte. O problema dessa garota era seu entrave de viver. Fato comum naqueles que não conheceram jamais os escritos ou canções de Vinícius de Morais. Há muitos assim também por todo o mundo, pessoas com medo de revelarem-se e divertirem-se. Certamente isso é herdado de uma filosofia cristã que tenta nos dizer que tudo é pecado e reprime-nos de fazermos o que bem desejamos. Daí ficamos assim reprimidos de nos soltarmos, liberar-mo-nos, mesmo quando isso é a coisa que mais queremos fazer. Esquecemo-nos que só vivemos uma vez e que nada faz sentido, exceto o prazer. E assim, restou-me apenas uma promessa de amor, no futuro. Além da vontade, de ambos. Ora, queria saber quem foi que inventou a palavra pecado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra garota da recepção é até mais gostosa: tem peitos salientes que saltam à vista no decote de país tropical. Salve o Brasil! Mas não tem aquele charme adocicado que a moreninha esbanja. Qual o quê? Nem por um instante trocaria este bem-moldado par de tetas pelo jeito meigo e o sorriso natural da moça que de alguma forma conheço há tanto tempo, há tão pouco tempo. É o teu qualquer coisa além da beleza, Vinícius. O alguma coisa no jeito que ela se move e que atrai Harrison mais do que às outras. Ah, a música como expressão do lirismo que há no mundo. Definitivamente: não é doce nenhum que faz homem parar em casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-4153357795153709748?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/06/com-acucar-com-afeto.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-9089402602224896478</guid><pubDate>Tue, 23 Jun 2009 14:19:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-06-25T11:22:34.256-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>moral</category><title>Toda certeza será castigada</title><description>Quando aquela idéia fixa dispersou-se de minha mente, senti-me livre. Não mais estava comprometido àquilo; àquela coisa que batia constantemente em meu cérebro e apontava-me um caminho supostamente correto e indubitável a seguir. Só agora me dei conta: seria mesma tão correta assim, a mensagem? Finalmente conseguia olhar para o lado e tentar perceber outras nuances e possibilidades que senão aquela estrita, única e perfeita da qual meu cérebro anteriormente havia levado-me em direção. Havia outras, muitas outras possibilidades das quais eu havia passado assim batido por simplesmente não considerá-las seriamente, uma vez que estive assim enebriado pela ofuscante decisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora liberto do sopro violento da luz fundamentalista que me vinha à mente, pude analisá-la com melhor ponderação. De fato, considero que a idéia parasita-mental não era de todo incorreta ou falsa. Caso a tomasse realmente como Verdade e dela fosse em busca, talvez fosse feliz. A falha em alcançá-la, entretanto, poderia ter me levado ao botom do mais profundo poço. De fato, era bom sentir-me novamente livre e dono de minhas ações. Humanos nem percebem o quanto são parasitados por estes memes tão fortes que nos fazem simplesmente torcer o rumo de nossas vidas a troco da defesa e reprodução deles. É preciso estarmos sereno para sermos capazes de separar nossa vida biológica, a única existente, de uma vida ideológica fantasiosa e falsa -- principalmente quando dirigida a um rumo específico e inquestionado. Naquele instante em que relativizei tal pensamento assim tão direcionado e positivista, vi que as vias a seguir para alcançar um objetivo agora mais amplo poderiam se dar através de atalhos ofuscados pela luz fundamentalista ou mesmo por direções contrárias àquelas que anteriormente pensei corretas; sem mesmo questionar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é de todo impossível que um dia eu venha a retomar esta que foi a mais forte das idéias e tome-a decisivamente de forma a acompanhar-me nesta caminhada rumo à morte, objetivo final de todo que vive. Tal aliança porém jamais se dará novamente de forma assim tão cega como quando eu a jamais houvera questionado. As grandes idéias que são verdadeiramente falsas consistem nestas que nos parasitam a mente sem deixarem espaços para idéias concorrentes a tomarem seus lugares. "Não sejas estrito", deveria ser um dos mandamentos. Nada em excesso, diz-se no Tao. É preciso perceber que quaisquer fundamentalismos simplesmente fecham-nos as portas laterais que por vezes funcionam como atalhos, fazendo-nos seguir apenas para frente e para cima, escala superior e pseudo-direta, em um mundo onde qualquer escala pode ser vista de ponta-cabeça depois de novos momentos e condições. Tema qualquer idéia perfeita, ser humano. As verdadeiras grandes idéias não são absolutamente corretas e precisarão ser sempre melhor podadas aqui e ali; não se confiará nelas em todos os casos. Retas são enganadoras num espaço-tempo ideológico que é ainda mais curvo do que o espaço-tempo material, einsteiniano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ironia deste destino que agora relato veio do fato de que foi exatamente quando pisei no acelerador ideológico que evidenciei o erro daquela visão de mundo. Acelerei e fui pego no posto policial ideológico: paguei a multa de excesso de velocidade sentimental, intelectual. Mas há males que vêm para o bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não confie em idéias claras e perfeitas, posto que elas não existem. Toda paixão é um engano, toda certeza é falsa, toda clareza intelectual é ingênua. Não nos deixemos embriagar pelas falsas idéias que nos parasitam a mente como fim e objetivo final de nossos chegares. Nada é tudo. Não existem respostas enlatadas para nenhum problema real da existência humana. Nada é o fim e a resposta última. Panacéias somente. A complexidade do universo e das relações humanas está além de nossa capacidade de compreensão. Todas as respostas estão fadadas a serem incompletas e temporal, socialmente dependentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E entre as idéias incompletas há certamente algumas que são ainda mais incompletas do que outras. Aceite-se sempre a que lhe parecer menos incompleta, sem deixar de duvidar jamais de sua certeza ou de sua plena adequação a qualquer caso. Matemos toda e qualquer panacéia, os vírus ideológicos. Sejamos livres.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-9089402602224896478?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/06/toda-certeza-sera-castigada.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-2176699443395198225</guid><pubDate>Mon, 22 Jun 2009 10:23:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-06-22T10:52:46.282-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>semanticismo</category><title>Fita amarela</title><description>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(um teste inicial para o movimento &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;semanticista&lt;/span&gt;)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia outro, encontrei eu ela com. Festa estávamos, rua na. Linda, linda e no cabelo laço tinha amarelo. Perguntei vinha donde e "Colômbia" respondeu. Pequena era, música cantava. Sexismo esbanjava e grande era brinco dourado seu, pérolas de. Dizia a música coisa alguma sobre quem era ou estava ou vinha ou ia. Tudo entendi quase. Ela falei a sobre palavras, meu problema com. Sei não repetir tudo de acordo com gramaticais regras. Mas creio não em panacéias, eu. Regras coisas são que tentam reunir irreuníveis entidades. Nelas acredito não. Da anarquia linguística parte faço, também das todas anarquias que pensar posso agora. Prova tenho porque muita gente já falei com. Entendeu-me não quantidade pequena as gentes. Dacolá e daqui, de parte a toda. Maioria idéias troco com a normal mais desenvoltura. Idiotices sintáticas respeitar preciso não-é. Sentido e semântica importa é o que. Nada mais, dúvida tenho não. Professor meu recomenda-me ler e ler para tudo aprender e decorar posições de sujeitos e verbos e pronomes e objetos das palavras frases adentro. Tentei já e consigo não, preciso não, ligo não. Importo-me mais nas pessoas com os olhos, eles são os principais da fala órgãos. Olhei já pra muita gente e as entendi mais que escutei quando. Os olhos com é possível saber demais gente sobre. Juro. Símbolos humanos fazem, cultura fazem, penso isso que é. Utilizando-os, pra perceber é possível até aqueles que s'enganam ao não se fielmente representarem ou aos que compreendem-se não. De tudo há neste mundo e muito bem sei que as compreensões assim sempre incompletas se fazem. Nada há que mundo todo a mesma coisa pense, concorde. Nadinha. Visão própria um tem cada sobre. Mosaico sociedade é opiniões de. Cada pensando um diferente. Atento fique você, d'accord? A Colômbia da moça falando me veio em inglês ou francês, respondi eu nas línguas parelhas. Várias falo e tudo acho bastante fácil, palavras decorar, regras entender. Usar não gosto, linguagem própria tenho e nem aí estou para quem problemas isso tem com. Problema decidi que não é isso, peculiaridade até charme. Gente tem muita que gosta, duvide não. Música em inglês cantou a Colombiana, sexy algo sobre, entendi creio na hora. Agora lembrança minha peça me prega. Sexy música, sexy garota. Brasileira amiga tinha e bom foi porque conversamos português também em. Colombiana sexy aprender português queria e sotaque falava com muito, mas tomar no cu mandar sabia. Ensina as grandes palavras antes para as pessoas, as gentes. Poesia sabia evidentemente não. Foderem-se as pessoas também de falar era capaz. Sotaque com falava forte, mas estranhamente percebia eu não o hispânico acento. Nem perceber que não percebia, percebia eu. Espanhol falar comecei com ela brincar para, mudar as coisas, atrás da orelha me tinha pulga também. A perceber começava. Respondia inglês em ela, português sotacado até, também francês, mas espanhol não. Segredo que teria garota esta? Em tempo pouco, convencido fiquei que falava não espanhol e inglês falava que vi bem. Mal nada seu francês também era. Donde reperguntei era ela. Colômbia de novo repetiu. Ela a então contei que ir havia já ao país seu e Bogotá bem conhecia. Donde era? Respondia nada e aleatoriedades então conversava a amiga com. Do assunto completamente saia e dispersa mostrava-se, o álcool quantidade em desculpa era. Segredo escondia algum, saber não pude qual. Saber poderia, ainda? Tentar deveria, encore? Desconfiou ela de mim a perceber algo, o fora deu quando. Só pensei depois portanto como bobo era eu. Vez uma que linda era, de tonto deveria ter-me feito. Não conquistar as mulheres, sei bem muito. Fato de, sei não o me que deu, vontade talvez de capacidade investigativa demonstrar, inteligência sabe quem. Como problema tenho, diferente sou, inteligente mostrar me preciso, senão bem se sabe, montam em cima de nossas cabeças as pessoas. Neste mundo compaixão não há. Fazem o que é apenas foder ao outro, um. Ah, o humano ser, ente. Nos fracos piedade sem nenhuma pisam, pisam. Mundo é este em que vivemos. Triste é isso constatar. Assim sempre mostrar-me tenho inteligente, senão dão-me estupidezes fazer para, ignoram louco a me pensar. Fita moça da vai longe agora. Burro para as mulheres é preciso se mostrar. Amam não inteligência tão assim grande, raiva. Acho eu que assim é, depende cada uma de entretanto, bem certo. Noite termino eu sozinho, crônica também. Haverá dia um que nada mostrar a ninguém precisar vou. Dia este serei ser apenas e comunicar-me-ei jeito qualquer de que entendam os outros. Preciso não é aos outros agradar e a comunicação facilitar. Bom é fazer com que atenção prestem em si quando se fala, senão por ouvido entra e por outro sai o que se diz, processamento feito nenhum é. Cada um falasse de diferente maneira, atenção mais fariam e compreender iriam melhor, errado estar posso também. Ignorante sou que sei. Se param entender-te para porém, assim melhor é. Advirto lêem aos que me: se não por inteligentes passem, vez uma que bela garota na cabeça fita podem perder. Sorte boa todos para. Comunicação dois vivas para, três. Viva, viva, viva, viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;====&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Pequena análise do presente texto&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com este texto pretendo iniciar um movimento literário que batizo de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;semanticismo&lt;/span&gt;. O semanticismo pretende transverter todas as regras gramaticais produzidas para toda e qualquer língua. Ele é focado apenas no sentido. Se um texto pode ser compreendido por um leitor e se ele faz sentido, isso basta. Não se deseja sequer definir um sentido único para um texto e mais rico ele será, inclusive, caso permita a diferentes leitores tirarem diferentes mensagens do texto. É claro que o texto não deve consistir simplesmente de palavras soltas e neste ensaio teste de abertura do movimento fica claro que há uma estória a ser compreendida. Não se deve querer simplesmente transformar a literatura em algo completamente aleatório com palavras sendo colocadas uma após as outras sem qualquer ordem ou sentido maior, como o sentido do texto completo. No que me condiz como escritor, acredito que o semanticismo seja algo a ser visto como estando do lado completamente oposto do classicismo, onde o escritor procurava as mais precisas regras da língua culta e que quanto melhor as utilizava, mais virtouso seria seu texto. Não, o semanticismo é exatamente uma revolta a esse tipo de literatura, que consideramos quadrada e antiquada e presa dentro de padrões estéticos definidos de maneira estrita pelos gramáticos, supostos detentores do saber linguístico. O semanticismo é também uma guerra conta o gramaticismo, contra aqueles que pensam que mudando detalhes mundanos das regras de produção das línguas poder-se-á segurar sua evolução. A nova gramática do português que agora sai e que vem a ser adotada pelos governos lusófonos da Europa, América do Sul e África em livros didáticos é por este movimento questionada e até ridicularizada. As línguas podem ser encaradas como entidades vivas que co-evoluem com o ser humano em qualquer parte que ele esteja. E embora seja necessário que falantes da mesma língua se entendam, não será a produção de regras excessivamente rígidas -- ao limite do ridículo, como deixar de acentuar certos ditongos -- que irá homogeneizar nossa língua ou qualquer outra. A gramática é a prisão onde estão encarcerados todos os poetas e escritores. O sentido é muito mais importante do que qualquer regra e, de fato, mesmo quando se utiliza o mais estrito conjunto de regras possível, um texto tem muito mais interpretações que seu autor pode supor quando da escritura. Vide Barthes, Eco ou Derrida. É claro que concordamos que para quesitos práticos da vida social, é sim necessária a existência de uma língua culta com a qual a maioria dos faltantes concordarão sobre sua adequação a determinado sentido explícito de cunho político, autoritário, regulamentar. A literatura e o literato, entretanto, devem ser livres para produzir o sentido da forma como bem lhes convier. O semanticismo visa também propiciar uma ligação mais forte entre a língua e as culturas regionais, sendo que a expressão da linguagem popular por meio das regras gramaticais limitado em demasiada a expressão cultural. É preciso que abramos o leque e as correias da gramática para que possamos melhor compreender o ser humano em todas as suas expressões. A linguagem deve ser livre para evoluir e o escritor deve ser livre para se expressar de uma forma que melhor lhe convier, da forma que ele sentir mais natural e original. A derrubada das leis gramaticais em prol apenas e somente da produção de sentido -- único ou leitor-depende -- abre a porteira para uma quantidade sem número de possibilidades literárias. Ao misturar em uma frase de maneira medida ou quiçá aleatória sujeitos, pronomes, objetos, verbos, um escritor pode criar uma marca de sua literatura e pode abrir novos e maravilhosos campos de compreensão a serem explorados. Não há outra questão da linguagem que senão a busca da compreensão. E se a compreensão pode ser alcançada sem que respeitemos regras explícitas de gramática, por que então utilizá-las?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pergunta filosófica por trás do semanticismo é: como é gerada a compreensão? Que características deve ter um texto para que alguém o leia e diga que o entendeu ou saiba interpretá-lo de uma forma adequada? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda, com Eco: quais os limites da interpretação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também em linguística creio que o semanticismo ajuda a compressão. Eu, por exemplo, entendo muito bem o inglês e consigo normalmente ser bem compreendido por qualquer pessoa com a qual eu tente dialogar. Ainda que certas palavras ou expressões não me sejam conhecidas, não me lembro de alguma vez na qual eu não tenha conseguido me comunicar na língua de Shakespeare. É claro que um texto semanticista não será um lugar para se aprender as formalidades retrógradas necessárias à descrição de um idioma formal qualquer. As regras formais são importantes para o aprendizado de um novo idioma. Entretanto, creio que textos baseados no semanticismo serão mais fáceis de serem lidos por aqueles que não compreendem determinada língua, uma vez que será necessário apenas ter um bom vocabulário para entender o sentido do que está escrito. No semanticismo, as palavras são dispostas numa frase sem uma regra explícita. A disposição das palavras na frase podem, portanto, (1) seguir a regra formal dada para a língua, (2) subverter propositadamente esta ordem ou, simplesmente, (3) ignorar tanto quanto possível as regras formais e apresentar uma disposição pseudo-aleatória. Fica claro, entretanto, que as regras de pontuação num texto semanticista devem ser aplicadas com zelo e cautela. Sem qualquer regra, é claro. Mas uma vez que a observação de regras para a definição de todo e qualquer elementos sintático das frases tenham sido subvertidos, a pontuação passa a ter um papel ainda mais importante na formação semântica de uma frase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras reflexões haverão de surgir a partir de um contexto semanticista na literatura, linguística e nos estudos culturais.&lt;br /&gt;(18/03/09)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-2176699443395198225?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/06/fita-amarela.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-1176251267046853118</guid><pubDate>Thu, 18 Jun 2009 19:58:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-06-25T14:58:01.365-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crônica</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>lirismo</category><title>Esquenta</title><description>Apenas a intuição vale na literatura. Prosa e verso são leituras do homem, dele próprio. Auto-leituras sinceras. Quando mais sinceras, melhor. A falsidade e a negação da própria alma é o que matam a literatura. Aquele que se escuta, aquele que se escreve, aquele que se abre e se mostra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada foi feito ou deixou de existir, e mesmo assim eu te amo. Eu acho. Não tenho porque saber de coisas como essas que vão e vem ao longo do dia. Olho nos seus olhos e vejo que você me ama. É de manhã. À tarde leio indiferença, preguiça ou dúvida. Por um lado entendo a dúvida sobre o que ainda não aconteceu, mas de outro não posso acreditar que ela exista, posto que nossos olhos assim já se encontraram e já brilharam uns para os outros. Amores serão sempre amáveis. E então à noite, depois de me amar e ignorar, você me odeia. Afasta-se e evita-me. Nega-me olhares, carícias e toques, rejeita minhas maiores idéias e argumenta contra qualquer mosca oriunda de meus ventres amargos. No dia seguinte ama-me à tarde e odeia-me pela manhã, ignorando-me à noite. E assim nosso cotidiano se segue. Tal é o mistério inconstante escondido em tua alma super-feminina e este instinto, esta briga e esta exigência de respostas diferentes de mim-a-ti faz-me amá-la com ainda maior intensidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A festa foi boa, assim como a outra. Nossos momentos no bar, no lar, no altar. Se exagero na construção simbólica e neste futuro que não sei se teremos, acredite: não se trata de desejo profundo qualquer, é apenas questão de rima. Jamais digo uma verdade e é neste paradoxo que te prenderei para que sejas minha e ao mesmo tempo tenhas a liberdade. Posto que se o amor é um labirinto sem saída, ele ao menos é grande e inevitavelmente fará com que Teseu encontre, em algum momento, o minotauro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando a lua deste céu estrelado esteve escondida pela sombra da Terra, o céu gotejou de estrelas e foi neste dia que te vi pela primeira vez. O choque dos teus olhos nos meus foi mesmo lancinante e daquele momento em diante sabíamos que estávamos de certa forma ligados. Pena que ainda não descobrimos como, mas o futuro irá certamente nos dizer, não nos preocupemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei porque me arrefeço, porque faço, porque deixo, porque não te olho nos olhos e dou-te aquele beijo que temo e desejo. Você também não demonstra emoção ou sentimento desses que transbordam pela pele de humanos ou sapos. Repousa numa paz serena de quem já teve o quis ou do que vive apenas para ver o sol e a lua passarem e repassarem sem deles absorver o sentimento do que nos faz viver a plenitude. A maravilha do estar vivo se confunde com a monotonia do estar saudável e apenas somos realmente vivos quando estamos nos recuperando de uma enxaqueca que seja, um braço quebrado, um algo inusitado, ou apenas no amor. Dar-te-á meu amor a emoção que agora te falta e que se percebe neste teu suspirar quase cansado embora jovem? Espero que sim... temo que não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-1176251267046853118?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/06/esquenta.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-5396443709138003557</guid><pubDate>Wed, 03 Jun 2009 00:00:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-06-08T18:16:56.868-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crônica</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>descentralização</category><title>Alhures</title><description>Teletransportei-me de pronto para aquele lugar. O problema destas modernas máquinas de teletransporte que por aí existem é que, além de exigirem um tempo enorme para a preparação, elas não nos permitem ter aquele tempo de reflexão psicológica que é muitas vezes necessário a uma adaptação a mundos e sociedades assim tão distintas dentre as quais pulamos assim tão rapidamente de uma-a-outra; tantas novidades que fica até difícil transpô-las em palavras. E assim, como se num piscar de olhos, eu já estava lá. Toda máquina trás em si uma magia, o mistério e a lógica de seu funcionamento e sua existência. Fisicamente transportado, a máquina de sobrevivência que sou fazia agora olhar para as pessoas e os meios de transporte, as edificações. Urbano, o ambiente. Tudo era mesmo diferente do que eu vira há pouco. Meus olhos assim acostumados a observar locais e maneiras antigos, jeitos e formas esbeltas, monocores e sons límpidos de um lugar longe, imagem de captura social, agora precisava reacostumar-se a entender o agora e o aqui: caos e amor, vida, calor.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maior particularidade deste lugar consiste na artificialidade da adaptação dos seres vivos a ele, principalmente no aspecto que concerne ao animal humano -- aspecto do qual sou especialista pelo simples fato de ser membro da espécie dotado de curiosidade congênita. A adaptação, dizia. É que gente-e-lugar são no fundo uma coisa só. Nada de espaço-tempo, Herr Einstein, falo de espaço-vida. Organismos são adaptados ao meio e modificam-no num tipo de coevolução espécie-ambiente que certa vez chamei de "essente" em um ensaio filosófico destes tantos que tenho e que jamais publicarei. Fato é que aos olhos do naturalista não há distinção: animais e ambientes são uma coisa só, unidade essente. Os tentilhões de Darwin em Galápagos não seriam os próprios caso fossem encontrados no arquipélago malaio ou na mata atlântica. Bichos, lugares, evolução, tempo; filogeografia é o termo técnico. Gaia não é um lugar apenas, inerte e feito de matéria inorgânica. Gaia é uma forte coevolução entre vida e não-vida. Um influenciando o outro e vice-versa. (Por favor, não me peça para conceituar vida.) Vale lembrar que antes da fotossíntese surgir nas cianobactérias nossa atmosfera era formada de gás sulfídrico -- se me lembro bem das aulas de origem da vida -- e a presença daí em diante de oxigênio dento dessa camada de gás que envolve nosso planeta tal qual película fez com que simplesmente tudo mudasse. É possível inclusive supor que as cianobactérias tenham causado um genocídio quiçá maior do que aquele dos europeus quando chegaram à América. Ora, talvez nem tanto... Certamente a mudança da atmosfera foi gradual, ao contrário da conquista da América. Enfim, não quero incorrer em tecnicalidades biológicas ou científicas demais. Continuemos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão que se dá é que nenhuma das pessoas do meu novo lugar parecia assim perfeitamente adaptada a ele, ao mesmo tempo em que todos pareciam medianamente satisfeitos e adaptados. A história daquela região era bem conhecida e conto-lhe agora: houvera sim pessoas nativas e animais, evidentemente, nesta região que descrevo. Em tempos remotos, porém. Mas houve um dia em que um ser humano assaz megalomaníaco juntou-se com outros não menos pirados para decidir que iriam destruir toda aquela infinidade capitalisticamente improdutiva de terra conhecida como cerrado – desconhecedores que eram (e que ainda são) da riqueza escondida na biodiversidade – e, uma vez tudo destruído, fariam ali o Maior-de-todos-os-lugares. Juntaram gentes e gentes, chamaram os melhores que existiam para construir o lugar e, há de se concordar, ficou mesmo uma coisa chique e bonita: Linda! A questão é eles esqueceram que lugar e gente são uma coisa só. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inicialmente portanto havia um lugar perfeitamente adaptado aos seres humanos urbanos onde não havia ninguém. Então se transportou pessoas pra lá. Muitos dos trabalhadores responsáveis pela obra em si acabaram ali ficando também, e outras pessoas de todos os lugares chegaram: todos que compraram a idéia de que ali seria mesmo um lugar bonito e vistoso foram ficando ou chegando, pouco a pouco. Já aqueles que antes viviam em recintos de mesmo estatus estético deste novo, não se importaram em mover-se de seus próprios ambientes e estão hoje sub-representados na artificialidade daquele lugar. Outros não compraram a idéia de esplendor que lhes foi vendida, foram ver e preferiram voltar para onde se entrosavam com a natureza. Verdade é também que muitos dos que foram acabaram ficando por nunca mais conseguirem se transportar de volta; estes sonham ainda com o lugar de onde viveram a maior parte de suas vidas e choram calados nas noites frias ao se lembrarem do tempo quando eram verdadeiros essentes, integrados à natureza e cultura de onde haviam vindo. Quanta saudade e melancolia não guardavam em seus corações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mistura era o nome do lugar. E tinha mesmo gente daqui e de lá, alhures, acolá. Todos em busca de uma vida melhor ali foram morar. Conseguiram vida boa, dizem que amam e gostam, mas percebe-se em seus rostos: eles não são dali. O gostar que sai de suas bocas é um gostar artificial, forjado, malamanhado. O animal do zoológico é apenas uma curiosidade a se analisar muito groso modo... ele não é sequer similar ao bicho que se encontra nas mata e selvas, nos rios. O peixe de aquário também não é o peixe do rio, não é do mar. Não podemos esperar que o homem de Mistura se comporte como em sua casa, onde era um essente adaptado. Mas também nunca se imaginara que tal desadaptação local fosse alcançar os limites da ética para com os próximos. Diz-se que os misturados não eram lá muito éticos e forçavam a barra com relação ao privilégio pessoal em lugar do privilégio social. Aconteceriam assim as coisas se Mistura não fosse tão artificial? Talvez sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fato seja dito: ali também onde estava sendo exercida a função mistura, a coisa estava feia há tempos. Se ficar o bicho pega e se correr o bicho come. Uma atitude, quiçá megalomaníaca, talvez não tenha sido de todo uma má idéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ali cheguei teletransportado e ainda zonzo devido às mudanças proporcionadas pela velocidade de deslocamento da máquina, já iam mais de cinquenta anos desde que aqueles homens haviam mandado tudo desmatar e tudo construir. Inauguração de Mistura. Natureza teria virado pedra e asfalto. E neste meio século, já se percebia que havia sido formada ali uma segunda geração de misturados legítimos. Ah, a adaptação. E os humanos da segunda geração já eram de certa forma mais essentemente adaptados, tendo vivido suas infâncias por ali. O experimento da colônia da Lua de Asimov houvera sido feito, na Terra. Ele tinha razão: basta uma geração. Outras certamente ajudarão a uma melhor adaptação. Enfim, tais misturados-legítimos não compunham uma unidade de fato, nenhum verdadeiro sistema unívoco que caracteriza de forma transcendente e clara qualquer contínuo povo-lugar. Não! Os misturados, mesmo quando legítimos, eram um meio-termo: ciborgues culturais-naturais. Eram gentes filhas de gentes vindas de muito longe umas das outras. E todo mundo é muito de sua mãe e de seu pai. Bastava olhar para as pessoas e assim poder-se-ia identificar de onde haviam vindo seus pais. Misturados legítimos eram misturados diferentes, dependendo da origem de seus pais e de sua enturrage. Notório: eles não estavam assim tão deslocados de seus centros culturais-naturais quanto seus pais. Mesmo porque este conceito de “centro” não existia para eles. Sentiam-se assim um pouco perdidos e deslocados, aculturados ou super-culturados. Eram quase nada e muito ao mesmo tempo, segundo um aspecto cultural. Relativizavam mais, objetivavam menos. Tudo era nada, as vezes. Ou então se metiam em guetos com os que pensavam daquele jeito em particular e assim viviam um tipo de endogamia memética e cultural. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fato é que tais indivíduos F1 não sentiam aquele sopro voraz de identificação que sentimos quando chegamos em nosso gueto cultural e que aqui decido conceituar como Savassenso. O savassenso consiste simplesmente naquele gozo que têm os nômades quando retornam ao lugar onde passaram a maior parte de suas vidas, local onde se regozijam ao verificar o quanto pessoas aleatórias que passam pelos arredores provavelmente se parecem consigo simbológica, cultural e até intelectualmente talvez. Nada de savassenso para esses rapazes e moças da segunda geração que respiravam a atmosfera do lugar enquanto em casa eram educados a rapadura, farinha de mandioca, acarajé, feijão tropeiro, cupuaçu ou até mesmo um bom e forte mate. Eram ilhas culturais assim interligadas, federalizadas. Iguais porém diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ele, fiz pouso aqui. Hoje faz anos que aqui cheguei e mesmo assim sei que jamais savassentir-me-ei em casa neste lugar. Sou como todos, misturei-me, tenho meus pais que são d'alhures. Não sou daqui, este não é o meu chão, meu mar, meu lar, meu bar. É um lugar calmo que tenho para mim. Mas não sou eu, espécie coevoluindo com ambiente neste lugar. Sou artificial, sou forjado, sou falso. Eu não sou eu neste lugar. Não o pertenço. E é por isso que preciso partir mais uma vez. Preparem a máquina, por favor!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-5396443709138003557?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/06/alhures.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-5129986814352103853</guid><pubDate>Thu, 30 Apr 2009 07:35:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-05-05T15:24:39.020-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>viagem</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>cultura</category><title>Aleatoriedades tunisianas</title><description>A sombra do amor volta a refrescar meu coração. Estou num país estrangeiro, em meio a pessoas estrangeiras. Sou um brasileiro na Tunísia, em meio a amigos franceses; estrangeiro ao quadrado. Há um milhão de coisas a prestar atenção e tudo me excita. Há a língua, a arquitetura, a forma como os locais tentam tomar o dinheiro dos turistas oriundos do velho continente e a forma como esses lutam e digladiam em revanche, tentando evitar serem excessivamente "roubados". Quem é o ladrão, afinal? Certamente não sou eu nem meus amigos, porém o enorme mar que é a história das civilizações dentro a qual estamos afogados. São eles os ladrões, civilizatórios, exploratórios. Eles querem apenas mais um trocado, uma gorjeta mínima para tomarem uma cerveja posto que cinco dinares são apenas dois euros, não se deve pedir troco dessas coisas. Tunísia e Brasil são terceiro mundo. Países em desenvolvimento que não estão no mesmo continente, não falam a mesma língua, não foram colonizados na mesma época, não têm o mesmo povo ou a mesma religião. A economia é o que nos aproxima e quando ando pelas ruas da capital do país lembro sim do lugar donde vim, ele está nos prédios mal-pintados, nas pobres pessoas que trabalham sem quaisquer condições na construção civil, nos hotéis e nas ruas; na desigualdade. Pessoas humildes que deveriam ganhar mais do que ganham e cujo trabalho é explorado, eis onde reside a maior similaridade. Onde está o respeito pelo ser humano e por seu suor? Eles são os escravos de nossa época e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;um salário mínimo justo, além de serviços públicos relativamente eficazes na área da educação e da saúde&lt;/span&gt;, para dizer o básico, é algo que sem dúvida as nações desenvolvidas conseguiram e nós ainda não...&lt;br /&gt;&lt;br&gt;O peixe e a carne, a salada, o café da manhã e todas as iguarias do hotel são finas e bem servidas, o preço é baixo quando comparado ao dos países desenvolvidos. E como eles conseguem tal façanha, vem-nos a questão? É simples, tirando o salário das pessoas e isentando de impostos as empresas e seus proprietários, isso sem contar com a corrupção e impunidade dos políticos -- ao menos no caso do Brasil. Aumente o salário das pessoas envolvidas na produção e comércio, aumente os impostos sobre as riquezas, diminua a corrupção; assim terás verdadeiro desenvolvimento com igualdade, diminuirás a violência. É claro, entretanto, que o subdesenvolvimento não é só uma questão econômica. Há uma inércia histórica dos períodos onde éramos ainda mais explorados, sem dó ou piedade. De certa forma, ainda o somos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O país é islâmico e na TV há programas com pessoas usando batas e turbantes, toda aquela parafernália vestimental utilizada pelos árabes. Ao contrário do que nos prega a televisão, sob influência dos Estados Unidos, não tenho nenhum medo, porém simpatia e carinho pelo povo árabe. Não direi que concordo com sua religião posto que não concordo com nenhuma e acho todo fundamentalismo medíocre e execrável. Tenho amigos extremamente católicos que fedem mais do que excremento de bode. Tentei aprender a língua árabe de forma a chegar aqui e ter uma noção das coisas. Aprendi sim um pouco, mas ainda me sinto idiota e levo alguns minutos para compreender uma simples palavra dentro as poucas que fui capaz de aprender. Definitivamente não é possível aprender uma língua completamente diferente da sua em uma ou duas semanas, mas tenho mania de tentar fazer tudo ao mesmo tempo e de não me sujeitar às dificuldades intelectuais. (...) De qualquer forma, estou feliz por ter comprado o livro e não me arrependi, olho para as palavras e os caracteres nelas contidos e tenho uma noção do que sejam, não sou um completo analfabeto em árabe, sou um semi-completo, semi-analfabeto. De fato, diz-se que a Tunísia é dos países árabes mais abertos. E quando se diz aberto, pode-se entender em todos os sentidos. Ele é aberto para a cultura ocidental e, no mesmo pacote, vem a economia ocidental. Há empresas americanas por todo o lado. Mas não se engane, não estou dentre aqueles que pensam que ser aberto é aceitar a dominação cultural do ocidente. Ser aberto é entender os valores humanitários de qualquer sociedade, é liberar-se sexual, religiosa e intelectualmente; é fugir dos dogmas. Mas é claro, sem perder uma identidade própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bateram à porta. Mas é que eu estava naquele estado estável onde não queria ver ninguém. Deitado, tranquilo, lia um livro. A porta se abre, escuto palavras sem que as entenda. Levanto-me aborrecido. É a mulher da limpeza que tenta dizer algo que não entendo. Respondo em francês, "Desculpe, mas o que você disse?", Ela repete em árabe. Digo que não entendo seu idioma e ela me olha com uma cara estranha, como se eu devesse compreendê-lo. Peço desculpas e repito em francês que não compreendo o que diz. "Serviette?", parece querer trocar a toalha. Digo que o faça enquanto retorno à cama. Uma outra mulher chega e elas discutem algo, parece que pensam que finjo que não falo seu idioma. De fato, não sei o que falam, talvez discutam sobre a morte da bezerra. Ela fica mais tempo no banheiro do que o necessário para trocar a toalha e logo penso que talvez esteja se insinuando sexualmente. Ah, esses brasileiros; são todos uns pervertidos. Por algum tempo pensei que fosse má esta idéia que liga brasileiro e perversão sexual, hoje em dia fiz as pazes com ela. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Talvez os brasileiros sejam os bonobos entre os seres humanos.&lt;/span&gt; Por que não fazermos sexo se nos sentimos com tal vontade? Por que negar nossa natureza? Eu grito com o titã: "como é que eu vivo sem sexo?". As mulheres ainda estão lá enquanto divago em reflexões. Espero mais um pouco, quieto. Elas trocam mais algumas palavras e então a porta se bate. Ora, os brasileiros. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Agora estou com meu computador na recepção do hotel. Um sujeito se aproxima e diz "bonjour". Repito a mesma palavra. Ele tem provavelmente cerca de trinta e poucos anos, tem cabelo mais é careca; um cabelo ralo penteado para trás. Depois do cumprimento continua dizendo algo em árabe. Pergunto o que foi, francês novamente. Ele repete a mesma coisa, mais uma vez em seu idioma. Digo que não compreendo. Ora, não falo essa língua. Por que insistem tanto? Há algumas poltronas ao redor. Ele se assenta. Pergunta se não sou do oriente médio. Não, não sou. De alguma forma pareço com este povo e eles pensam que devo falar suas línguas, só pode ser. O sujeito quer me conhecer, conversar, talvez se encontrar mais tarde. Ora, não são só os brasileiros que pensam nessas coisas. Pergunta se incomoda-me. Digo que estou sim um pouco ocupado sem estar exatamente, apenas respondo e-mails pessoais, pessoas queridas. Mas também sem muito empenho em forçar um diálogo com um sujeito esquisito. Diz que é jornalista e queria saber algo a meu respeito. Pelo jeito que me olha penso que é um homossexual em busca de sexo, ou talvez relacionamento. Cogito neuroticamente lá no fundo que talvez o sujeito seja algum tipo de espião: dizem que o governo daqui vigia bem as pessoas, há certa restrição quanto ao que se pode ou não falar, não estamos de fato em uma democracia. Foi o que me disseram, não sei de nada. Enfim, não quero ser chato com o camarada, mas também não quero que ele pense que tem alguma chance. Outra característica dos brasileiros é serem assim restritos à sua opção sexual. Não sou diferente. Na França, por exemplo, homem e homem brincam de uma forma que me causa estranheza. (...) De fato, fiquei um pouco decepcionado ao vir aqui pois esperava conhecer mais pessoas e mais coisas deste país situado na chamada África Árabe. Queria conversar mais com pessoas e não tive oportunidade. E assim, quando a tenho, meu supostamente inexistente preconceito sexual leva-me a cortar a conversação pela raiz. Quão idiota não sou. O rapaz continua ali sentado, cara de interrogação. Dada sua timidez, começo o diálogo. Digo que pode me conhecer sim, sou o Luiz, químico, vim para o casamento de um amigo do laboratório. Ele continua dizendo para que nos encontremos mais tarde, algo assim. Realmente o papo não se desenvolve. E assim digo que estou realmente ocupado e ele se vai. Educado, o rapaz. Estranho, sedento, curioso, um ser humano. Trombei com ele mais uma ou duas vezes no hotel, nos dias que se seguiram. Não lhe disse bonjour. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O preço da corrida é quarenta e cinco dinares, mas não temos moedas de cinco. Não há notas que valham cinco ou, se há, não as vi. Cinquenta. Eu e mais um dos franceses pagamos vinte, outro paga dez. Fico sem saber se peço ou não o troco. Odeio essas coisas de dinheiro. Sei que ele cobrou caro pela corrida, mas só depois é que vim realmente a saber que cobrou mais do que o triplo do que seria normal. Enfim, não ligaria de dar a ele um pouco mais, desde que ele fosse gentil e não fizesse essa cara de vingança contra os ocidentais que faz quando nos apresenta o preço. O pior é que entendo tão bem sua revolta... Quando entramos no taxi ele disse que os turistas vêm aqui e jamais voltam. Eu disse que voltaria caso fosse bem tratado e gostasse do lugar. Era verdade. Talvez ainda volte algum dia. O sujeito jogava futebol e tinha um chaveiro no formato do mapa do Brasil pendurado no retrovisor. Era chamado de Romário pelos amigos e disse-lhe que o Romário sempre foi um dos meus jogadores prediletos. Ah, a copa de 94, aquele gol de bate-e-pronto. Que maravilha! Conversamos tranquilamente, mas vejo que é daqueles que querem realmente abusar dos turistas oriundos da Europa. Não que não tenha razão, mas agora cada um defende o que é seu. Ele pergunta se sou casado e acho a pergunta estranha, quereria ele me arranjar alguma garota para relacionamento duradouro? Digo que não e retruco-lhe a pergunta. Responde o mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;No dia seguinte o vimos jantando no hotel com uma mulher de véu que não parecia sua esposa nem irmã, não sei explicar por que. O sujeito tem um sorriso sofrido no rosto e tenho um pouco de pena dele. Morou na França por um ano e sei que sentiu na pele o mesmo preconceito que sinto e senti. Não, certamente sentiu um preconceito muito mais forte. Sou um doutor, afinal, cientista. Daria-lhe com agrado os cinco dinares do troco, com duas condições: primeiro, se fossem meus e, depois, se ele fosse um pouco mais humilde. Sei que não devo culpá-lo, mas a desculpa de que isso não são nem dois euros e a cara que faz dão-me um sentimento estranho. Ok, já voltei demais neste assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casamento é na prefeitura. Há cerca de duzentas, trezentas pessoas. A maioria velhos, provavelmente família e amigos dos pais dos noivos. Dá a impressão que o casal não tem muitos amigos. O sujeito mora na França há muito tempo e ajudei-o a fazer sua mudança. Dirigi o carro alugado e fui aqui e ali com ele, carreguei coisas pesadas com minha coluna torta e não reclamei. Ele disse más palavras sobre os vários franceses que ajudou na mudança e que não estavam ali quando ele precisou. São assim: não amigos porém utilitários da amizade. Não discordo de todo. Um mini-ônibus nos leva à recepção, vou com meu terno que tinha pensado ótimo quando comprei mas que agora acho um pouco grande, esquisito. De fato, jamais me senti bem dentro de um terno e odeio qualquer tipo de formalidade. Sou mineiro da gema e penso não há nada de mais confortável no mundo do que a cadeira metálica de um boteco, cerveja gelada no copo lagoinha e tira-gosto boiando na gordura. Há sobras também na camisa, talvez eu tenha emagrecido. Droga de roupa!&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Na entrada, as mulheres usam vestidos à la árabe e -- quando o casal aparece para entrar na igreja -- elas começam a produzir um som estranho com a boca, um tipo de li-li-li-li-li bem agudo: o mais agudo que podem. É a tradição e não importa se isso dói ao ouvido dos estrangeiros. Quanto mais incômodo o som, mais ele lhes parece dar prazer. Percebe-se que há aquelas garotas ou senhoras que são exímias na arte de lililizar e elas lililizam em alto e bom som; seguidas vezes. Ao fim, gargalham orgulhosas de sua potência lililizadora. Ah, a cultura. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;O juiz entra pela porta dos fundos dizendo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;as-salam walekum&lt;/span&gt;, um tipo de recepção que literalmente quer dizer algo como "a paz esteja convosco". (Uma das únicas coisas que consigo entender na língua.) O juiz fala por cerca de vinte e poucos minutos, os noivos parecem dizer sim enquanto os fotógrafos se posicionam do lado direito a tirar fotos. Em um certo momento parece haver uma discreta prece. Ao meu redor, os franceses às vezes falam alto e se movem ainda mais do que seria prudente, no meu ponto de vista, dado que estão numa cultura diferente. Não são eles mesmos que criticam os excessos daqueles que vêm de fora à sua? Um deles arrasta cadeiras de forma a chegar lá na frente e move-se a todo instante procurando o melhor ângulo para o retrato. Penso que exagera, mas sem dúvida depois irei pedir-lhe as fotos. Uma vez feito, está feito. Ao leite derramado, não se adianta chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma hora de mini-ônibus nos trás de volta ao hotel e os franceses querem beber. Mas estou desconfortável com este terno e quero descansar para estar bem para a noite. Sou o único que retorna ao quarto. Fico lendo e durmo um pouco. Encontro-os para o jantar e fazem piadas das minhas sestas durante o dia, questionam o que faço a noite. Respondo que durmo. Ora, estou de férias. Nesta viagem descobri que não sei me comportar à mesa e que como rápida e apavoradamente, um prato cheio como o de um pedreiro. Não é o educado. Os franceses têm bons modos à mesa e percebo que observam minha selvageria a rabo de olho. É nos pequenos detalhes que se descobre subdesenvolvido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A festa acontece no mesmo dia do casamento, alguns pares de horas após. Chegamos e somos direcionados a uma mesa bem à frente. Está claro que reservaram uma das melhores mesas para os franceses -- o brasileiro vai de brinde. Aqui também há mais velhos do que novos. O casamento não é uma festa para os noivos, porém para os seus pais. Os franceses reclamam de tudo: da posição da mesa ao volume do som, passando pela vulgaridade das garotas. É fato que nos colocaram ao lado da banda e que o número de decibéis supera o nível agradável. Chegaram a dizer que diminuíram o som por conta da chatura francesa. Normalmente a intensidade sonora é ainda maior. Surpreende-me o fato de não terem servido ainda cerveja ou qualquer bebida alcoólica. Minha esperança de ver uma garrafa de Skol geladinha passando na bandeja do garçom não se vai até que a festa realmente termine, pouco depois da uma da manhã. "Não era à meia-noite que disseram que terminava?", reclamou o francês. Reclamam até quando a festa dura mais. Verdade é que casamento a água e suco é um pouco triste e dá sim um certo mau-humor. Também eu já estou como os tais. A música árabe é boa e agrada. As garotas dançam de uma forma sexy, meio dança do ventre, meio sabe-se-lá o quê. Há todo o tipo de garotas: bonitas e feias, gordas e magras, safadas e tímidas. Não se pode chegar perto delas, parece haver uma distância regulamentar a se guardar entre machos e fêmeas. Depois de meia-hora a música árabe já começa a irritar, ou serão os franceses que me influenciam mal-humoristicamente? O único rock inglês em todo o casamento: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Stand by me&lt;/span&gt;. A outra música em inglês tocada é &lt;span style="font-style:italic;"&gt;I will survive&lt;/span&gt;, mas o cantor não sabia a letra. A banda toca: bateria, dois teclados, derbaque e tambor. Árabe sem parar. O sujeito do microfone canta o uá-uá-uá árabe e, em minha extrema ignorância, todas as músicas parecem iguais. Diz o francês que elas parecem idênticas porque eles usam apenas acordes menores, mas o linque da &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Arabic_music"&gt;wikipedia&lt;/a&gt; não diz nada disso, de fato diz que os árabes utilizam até notas além da escala padrão ocidental de doze semitons por oitava. Reparo na forma como os sujeitos tocam o teclado e vejo que tocam bem, porém sem nenhuma técnica; uma forma bem despojada. Ainda assim, o resultado final é bom aos ouvidos. O microfone passa de boca em boca e lembro daquele livro que li onde dizem que foi a cultura ocidental que transformou o cantar -- e mesmo o musicar -- em algo que as pessoas devem ser assim "proficientes". Noutras culturas, todos cantam sem vergonha. Os franceses dizem que todos cantam assim porque na família haverão músicos; eles têm desculpas para tudo que se argumente no sentido em que os outros serão melhores que eles. O noivo e a noiva cantam também. Ao fim da festa, dá-se o microfone à avó da noiva que canta com emoção e sentimento. Então pede-se que lhe dêem o derbaque e põe-se o microfone em sua boca. Ela toca e canta sozinha mais um uá-uá-uá árabe. As pessoas vão ao delírio e eu também. Realmente impressionante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria ter podido sair mais e conhecer mais a cidade, mas agora sou um turista rico e devo ficar preso neste hotel de luxo. Ele não é nada mal. Há uma piscina a 30 graus Celsius que serve para o repouso, além de outra bem fria que serve para o esporte. É assim que as vejo, pelo menos. Fico circulando de uma a outra. O problema de sair do hotel é ter que enfrentar o taxista que vai ficar falando ao ouvido mil horas e o não saber exatamente o que fazer. O hotel é longe de tudo e ao menos é perto de uma praia que, embora não seja das mais bonitas, é praia. Mineiros, você sabe, têm uma atração mágica pelas praias: areia, ondas e água salgada. Dei uma volta por lá hoje. Esta cidade me lembra algumas cidades pequenas do litoral do nordeste, onde passamos férias. A capital do país talvez possa ser comparada a uma Ilhéus, talvez. Eu disse talvez. O trânsito, incrivelmente, consegue ser mais caótico que o brasileiro e fico de certa forma feliz ao pensar que o Brasil não é assim o pior lugar do mundo em termos de desenvolvimento e educação da população. É a primeira vez que me aventuro por lugares de IDH menor que o nosso. Pimenta nos olhos dos outros é refresco; e viva a idiotia do ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É ainda difícil entender exatamente o que falam os franceses quando estão todos juntos numa roda, conversam entre si. Pessoa a pessoa, me dou bem. Mas assim no todos-contra-todos fica difícil perguntar do que se trata uma palavra ou conceito. Como se não bastasse estão sempre a falar das Xuxas e Robertos Carlos da França, coisa que não conheço. A outra única estrangeira do grupo é inglesa e já mora na França há mais de dez anos, ela me adverte: "é preciso nascer francês para entender determinadas coisas". Estou longe disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se os franceses não me tratam como um dos seus, é verdade que ao me conhecerem melhor nesta viagem começam a me respeitar mais. Tive a oportunidade de falar praticamente com cada um em separado e foi bom conhecê-los melhor, deixar que me conheçam também. É verdade que quase todos são cultos em um determinado assunto em especial, nem que seja saber sobre a novidade na indústria de jogos. Só não falei com a garota, vinte e poucos anos, porque ela é metida e pensa que quero transar com ela, então me evita. Não vem realmente ao caso se quero ou não transar com ela e fato é que sou um brasileiro e tenho essa brasilidade bonobal, acho que fica nítido. A jovem não faz mesmo questão de ser gentil e agora também eu não estou nem aí. Je m'en fous.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os franceses são mesmo céticos. Tudo que se fala, eles duvidam. Se você é brasileiro então, não há certeza que dê que os façam acreditar. Acabara de ler num livro sobre os caracteres árabes e ensinei-os como se escrevia Tunísia em árabe ao mostrá-los caractere por caractere. A tradução literal em árabe da palavra seria como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tuns&lt;/span&gt;, onde o 'i' fica sub-entendido. É normal que nas palavras em árabe simplesmente suprima-se as vogais curtas e muitas vezes as palavras contém apenas as consoantes; assim você deve conhecê-las para saber quais vogais estão no meio. Segundo o livro de linguística que leio aqui em meu maiô de banho, ao lado da piscina, é normal que nas línguas existam vogais curtas e longas. Por vezes eles colocam acentos nas consoantes que indicam as vogais curtas a seguir, mas muitas vezes eles simplesmente não o representam. Sabem e pronto. Parece haver certas combinações mais naturais de vogais curtas entre pares de consoantes. Naturais para eles, é claro -- algo como se entre um "b" e "q", fosse mais natural encontrar uma vogal "e" do que "a", daí eles nem se dão ao trabalho de escrevê-la ou representá-la. Enfim, havia também um francês que sabia um pouco de árabe e insistiu que também o "u" do Tunis não estava escrito. Ora, retruquei, acabara de ler no livro que aquela era uma vogal longa, representada por uma letra que em formato parecia um gê. Não, não era nada disso, ele disse. Os outros concordaram com ele, mesmo que eu dissesse que acabara de ler no livro e que estava plenamente correto. Não me deram ouvidos, continuaram em suas ignorâncias e arrogâncias. De fato, também não falo suficientemente bem francês para ser capaz de argumentar fortemente. Simplesmente deixo pra lá. Mas que tem o tal do gê com som de u, ah isso tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma sobre o ceticismo dos franceses: um deles é meio cego. Jamais saberei o que ele quer dizer com esse "meio". Consegue andar sozinho e sabe quando tem alguém ou alguma coisa em sua frente posto que diz enxergar uma coisa borrada, mas na piscina -- onde se vê apenas a cabeça das pessoas -- chegou a confundir mulher com homem. A mulher do chefe, por sinal: gafe. Se as coisas se movem, ele consegue distingui-las razoavelmente bem, embora esteja sempre a trombar pelos corredores e não foi apenas uma ou duas vezes que o vi tropeçar em qualquer coisa que ia pelo chão. Achei estranho quando ele falou que vinha e pensei como ele poderia se arriscar assim. Pensei também que não fazia muito sentido ir a algum lugar uma vez que não se poderia ver nada. Mas foi puro preconceito, é claro que se pode. Mas, ora, como somos dependentes de nossa visão...&lt;br /&gt;&lt;br&gt;No primeiro dia perguntei a ele o que ele mais atentava quando estava num país estrangeiro e imaginei que ele fosse dizer que fosse o som da cidade. Depois da visão, audição. Certo? Errado. Ele disse que eram as pessoas e que ele gostava de conversar com os nativos para entender o que eles pensavam sobre as coisas. Mas fato é que ele não se esforçava para tanto e quando peguei o mesmo taxi que ele -- como éramos muitos precisávamos nos dividir -- ele foi na frente sem dizer uma palavra ao chofer. Eu mesmo enchia os sujeitos de perguntas. Enfim, o ceticismo. Já comentei que as mulheres faziam aquele li-li-li-li-li bem agudo pra celebrar o casório. E então num certo instante quando elas estavam assim lililizando, ele tentou lililizar também, de forma a imitá-las e participar do cortejo. E, assim, quando alguém lhe disse que parasse, posto que só as mulheres faziam isso, o cego retrucou: "Tem certeza?" São mesmo arrogantes, os franceses. Tem gente que gosta do estilo, provavelmente porque se vê no espelho. Eu não. Prefiro a sinceridade incisiva e sincera dos alemães, por exemplo. Não generalizemos os costumes dos povos, há sempre exceções às regras. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Reclamaram a festa inteirinha e agora na saída dão um sorriso bobo, falso e cínico; dizem que amaram a celebração. Ora, ora, no Brasil não se faria diferente. A sociedade é baseada no cinismo; umas mais que as outras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só um francês no grupo tem um estatus, digamos, pior que o meu. Fico feliz que pelo menos de um, eu ganhe. A pimenta, os olhos dos outros, o refresco. Tudo se liga e volta e se relaciona. O chefe brinca com um e com outro, brinca comigo, mas não com ele. Tenho certa pena dele em meio aos seus -- porque pena mesmo, no sentido absoluto, tenho daqueles indivíduos que, no Brasil, vivem sem ter como viver. É um rapaz sensível e, por isso, pisam nele, desconsideram-no. Na rua, os sujeitos chegam perto dele e ele mal consegue recusar ofertas, pagaria todo seu dinheiro no taxi se o sujeito o pedisse com uma cara de pena que lhe parecesse sincera. O pobre francês sabe que é um privilegiado. Pensei-o no pelourinho assim rodeado de crianças mais do que espertas que não largariam do seu pé mesmo depois de horas. Não sabe dizer não e é bastante educado. Nunca vi alguém comer um peixe com tanta delicadeza e eu, à sua frente, parecia simplesmente o homem das cavernas. Em certos momentos chego a pensar que é homossexual e talvez seja, ou não. Isso não importa, é boa gente. Não se pode ser homem e delicado?&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Percebo enfim que o chefe gosta de mim, a chefa também. Discuto com eles mais uma vez porque deixo a França. Respondo que sinto saudades do meu povo e que jamais pensei em morar definitivamente por aqui. O calor é o que falta: do sol e das pessoas. Sei que posso falar inglês e agora arrependo-me de me aventurar tão fortemente pelo francês, às vezes fico sem vocabulário e isso me impede de seguir alguma argumentação. No esforço de falar e compreender o idioma só mais tarde penso que poderia ter explicado isso ou aquilo em inglês. Na hora essa idéia nunca vem, já estou imerso no francês. Embora não entenda tudo, normalmente sei bem sobre o que estão falando e sou capaz de omitir opinião ou idéia sobre alguma coisa. O chefe grande realmente gosta de mim e sempre me coloca na conversa; olha para mim quando está conversando e, quando estamos sós, fala de coisas que me interessam. Ele é sensível e entende qual-é a das pessoas. Acho que ele entendeu qual é a minha. (...) Há algo nele, entretanto, que ainda não consegui definir como defeito ou qualidade. Essa sua extrema sensibilidade permite que identifique rapidamente qual o ponto fraco psicológico de cada pessoa. Eu também às vezes percebo e faço questão de respeitar e não invadir este local de fraqueza sentimental individual de cada um, e assim creio que convivo bem com pessoas tão diferentes. Ele, do contrário, faz questão de enfiar a agulha ali no ponto fraco e ainda espremê-la com força. Assim mostra sua superioridade com relação aos outros. Fala sempre de problemas físicos ou comportamentais claros: careca, gordura, feiúra, aquele que chega tarde, o que trabalha pouco. Ele identifica muito bem o problema de cada um. E depois de meter-lhe a agulha no ponto fraco, ele te dá um abraço e fala que é brincadeira. Ele é mau, mas é do bem. Fiquei feliz um dia quando ele elogiou uma apresentação que fiz, não o faria assim de graça. A outra chefa disse que eu deveria ficar orgulhoso, posto que foram poucas vezes que ela o vira elogiando alguém depois de anos de convivência. Agradeci formalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-5129986814352103853?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/04/aleatoriedades-tunisianas.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-2889373748944450317</guid><pubDate>Mon, 20 Apr 2009 11:59:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-04-27T18:20:24.978-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crônica</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>lirismo</category><title>And the river bank talks of</title><description>Estou aqui fumando este cigarro nesta cadeira florida, varanda onde não faz mais o frio dos meses que já passaram. Tanto melhor. A primavera trás a promessa de vida e esperança ao coração do povo europeu. Respira-se aliviado com o fim de mais um inverno. Noutras varandas, pessoas faxinam alegremente o lugar inutilizado há meia-dúzia de meses. Por aqui, estão agora todos mais abertos para as novidades enquanto as árvores começam a ter novamente folhas e os insetos dão as caras, adentrando por vezes nossas casas e apartamentos, alegres e assustados com o fulgor apavorante de estarem vivos. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Assim, depois de maldizer toda essa gente e cultura e vida dura que levamos como imigrantes nessas terras estrangeiras de gentes desenvolvidas (segundo seus próprios conceitos), estou outra vez com aquele sentimento que deixo uma vida boa. É pau, é pedra e é mais um fim de caminho. Acordo quando quero e tomo calmamente meu banho e café-da-manhã antes de sair. Por vezes pego o violão a jobinear ou buarquear antes de mais um dia de ciência mentalmente estafante e socialmente irreconhecida.  Junto minhas experiências sobre o cienciar no estrangeiro e a mesma conclusão dantes me assola: não nos dão o devido valor, pensam-nos mais estúpidos e nem mesmo estão dispostos a argumentar, suas autoridades devemos respeitar. É o tijolo chegando, na cabeça. São todos iguais, aqui e ali, não há diferença. França e Inglaterra e Estados Unidos e Brasil; e alhures ainda. São os velhos pesquisadores a pensarem-se melhores e a não escutarem as críticas já se sabendo corretos antes da discussão começar. A ciência real não é a ciência ideal. Nem mesmo a experiência profissional é assim tão conversa ribeira; é espinho no pé ou corte na mão. É a lama, é a lama.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;O sol brilha mas na pele não se sente muito bem. Ainda não é verão e estamos inclinados quanto ao eixo do astro rei, 48 graus de latitude norte. EsTrangeiro, telefone; minha casa é bem mais próxima do Equador e é tão difícil acostumarmo-nos com tais diferenças de temperatura que se espelham diretamente no humor das pessoas; em seus sorrisos e desolhares. É um mistério profundo não haver ainda teoria científica a correlacionar humor e sol, ou temperatura. A correlação é clara, seja no Brasil do ano inteiro ou na Europa da primavera-verão versus outono-inverno. No rosto, o desgosto. Todo mundo percebe mas ninguém prova por a-mais-b, ave no céu, ave no chão. Que ciência é essa? Como é difícil predizer qualquer coisa sobre o comportamento humano! Acredita-se na ciência apenas até o ponto em que ela começa a dizer coisas sobre nós que parecem tirar nosso livre-arbítrio em sermos felizes ou tristes, abertos ou fechados a novas experiências e amizades e corpos-na-cama. A ciência comportamental sempre provará algo para "os outros", não para nós. Fato: estudos comprovarão sempre algo sobre uma população, jamais sobre um indivíduo em especial. Você e eu, estamos fadados à auto-incompreensão, seja pelas vias da razão ou do empirismo. Não nos conheceremos cientificamente, esfinges com interrogações sobre nossas cabeças. Desde a física de partículas, passando pela química de moléculas e a biologia das espécies, até a ciência social. O comportamento é sempre populacional, jamais individual. "C'est un principle valide partout", talvez dissesse o francês. Jamais poder-se-á prever o comportamento desviante de um indivíduo louco, do livre-arbítrio que cremos ter e sermos dele donos. O futuro não está escrito e somos nós que o fazemos, ele é resto de mato na luz da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;O trabalho é preciso terminar, o artigo. Mergulho nos meandros do genoma dos vertebrados utilizando metodologias de inteligência artificial para dizer que sapos e rãs são mais próximos que humanos e Matitas Pereiras, além de concluir que certos cromossomos humanos evoluíram assim, não assado. Nada muito excitante, ou que alguém de bom senso já não pudesse prever. Mas ah, se tudo fosse apenas trabalho... As amizades também é preciso interromper, afastar. Mesmo o caule do amor que nasce é preciso cortar, triste resto de toco deixado para trás. A partida é sempre dura. Não se interrompe a amizade e não se mata o amor, mas os dias se passam e o balde de gelo que sobre eles se derramará fica mais próximo e iminente. Dá medo, ansiedade, preguiça, vontade, tristeza, melancolia, arrependimento, desejo, curiosidade e a febre terçã. O ar. Flutuo nos dias que passam um após o outro, sem pena ou remorso dos que ficaram para trás. Abadabe-daoê, abadab-daoê; abadá, badá. Ré sustenido e sol e ré sustenido e sol, duas vezes ré sustenido, dó sustenido e sol de novo; e mais uma vez. Fujo um minuto de uma compreensão direta para ser apenas o sentir. Ando com mãos vagas, tristes de deixar e partir, e ficar num estado estável, aleatório de palavras, torno-me um gerador de pós-modernismo apto a citar Eco e Derrida, Barthes. Não tenho porque temer o que a vida me reserva e nem mesmo a morte me assusta posto que morto já estou e sempre esteve todo aquele que viveu. Tudo é um contínuo e todos os estados se superpõe quando se alonga a flecha do tempo até o infinito. É mais um passo, outra ponte. Minha alma canta e vejo o meu Belo Horizonte pousar, estou morrendo de saudades. E assim o que chega mata o que foi, o futuro mata o passado assim como dele flui. O agora é tudo que existe. A vida do hoje é a morte do ontem, e a angústia do amanhã é a tensão deste momento que deveria buscar sempre ser só alegria. Mas sabemos que não há vida sem morte, não há pau sem pedra ou pé sem chão, não há bossa sem tom ou fora do Tom. É o fundo do poço, é o fim do caminho. Sou um resto de toco, sou um pouco sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-2889373748944450317?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/04/and-river-bank-talks-of.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-4007651535065273355</guid><pubDate>Fri, 10 Apr 2009 17:32:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-04-14T06:48:09.549-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>lirismo</category><title>Adjuvante, 76231-inverso</title><description>&lt;br&gt;Já sei que vão me dizer louco, quando eu revelar-lhes aquilo que tenho medo. Sei que é um medo de característica infundada, um tipo de medo covarde que deve ser vencido e lutado contra a todo instante deste piscar de olhos ao qual chamamos de Vida. Mas é que sou um romântico e tenho um coração que vive em ciclos senóides de pequenez e grandeza, pequenez e grandeza. Este órgão mantém então ali em seus sessenta ou setenta batimentos por minuto. Não está feliz nem triste, está só assim, batendo sem parar. Ainda. E aí quando ele encontra algum desses catalizadores de batimentos cardíacos, enzimas sentimentais de infinito charme e graça, ele tem dúvidas sobre o que fazer: bate descompassado. É claro que o coração quer entrar no ciclo de alta tensão, ele quer bater mais e mais rápido, mais e mais intenso, amar explosivamente. A idéia é aproveitar ao máximo esta passagem pelo mundo que, se sentido tem, ainda não se conseguiu descobrir -- e se, ao contrário, nenhum sentido tem, como pregam Sartre e seus seguidores, então temos mesmo é que torcer pra ele ficar batendo forte, forte e forte. Se só se vive uma vez, nenhum papel passado em cartório e assinado deus nos disse o contrário. Então, que pelo menos seja esta uma vez assim bastante intensa, bem vivida. Certo? &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Certo, mas o problema é que parece que o tal do coração de nós, poetas, não consegue encontrar muito bem este meio termo que tem o coração deles, os zumbis. O coração deles fica ali naquele bum-bum-bum monótono e é por isso, talvez, que possam ser realmente considerados mortos-vivos. Quem vive mesmo precisa é correr daqui pra lá, xingar e gritar e errar e depois pedir desculpas e se arrepender e chorar e amar e viver. Quem vive &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;mesmo&lt;/span&gt; fala o que pensa e faz o que acha certo. Aos outros, nada disso vale. Fazem o que lhes mandam como bonequinhos bobos, fantoches sociais. Não arriscam seus ideais por nada, muito menos por seus empregos. Se lhes disserem, Aqui não passa gato, matarão elefantes se estes tentarem fazer passar felino. Mesmo que seja por justa causa. Há sempre exceções a quaisquer regras e nenhum paradoxo vai me dizer que estou errado. Simplesmente o universo é caótico e mesmo a lógica se engana sobre mundo. Pode não se enganar dentro de si mesmo, posto que é um conjunto de idéias coerentes, mas engana-se sobre o mundo exterior, este que eu disse não ter regras. Ou, se tem regras, este mundo, não são elas do tipo que podem ser previstas com &lt;span style="font-style:italic;"&gt;certeza absoluta&lt;/span&gt; por seres humanos. Não há, de fato, qualquer certeza absoluta. Descartes chegou no Penso-logo-existo, mas mesmo isso depende do que se considere pensar e existir e o que não pensa evidentemente existe, afinal. Devemos saber que nada sabemos, ocidentais herdeiros de Sócrates que somos. Talvez eu exagere mas, vamos e venhamos, podemos até ser macacos maravilhosos, mas precisamos compreender que somos excessivamente limitados cognitivamente e em capacidade de processamento. Tudo que sabemos não passa de um minúcia das quatrilhões de coisas que ocorrem ao nosso redor e que simplesmente não damos conta. Há muito mais entre o céu e a terra do que supõe esta nossa vã filosofia, expressou Shakespeare, em Hamlet, já no último ano do século XVI. Nem sempre se pode ser deus, gritou também o Titã na década de 80.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;E aí quando meu coração começa a subir na escalinha da onda da curva física senóide da escala sentimental, ele pára e pensa, Deverei mesmo ascender neste eixo? Sabe-se também, segundo leis inabaláveis e sem qualquer tipo de exceções na mais dura das ciências que: para toda ação existe uma reação igual e contrária. E aí o coração já pára ali na subida pra meditar, Será que vale a pena? Ah, o medo de amar. Amar já não é para mim esta coisa inócua e adolescente que os casais prometem ao padre na bosta de púlpito, tendo todas as pessoas elegantemente vestidas ao redor como testemunhas. Esta simbologia da sociedade ocidental, oriental ou o escambal não tem nada a ver com o sentimento que vai no coração dos amantes. E a escada que subimos quando apaixonados é a mesma que descemos quando abandonados ou abandonantes, cansados ou cansantes. A diferença é que normalmente a subida se dá calma, lenta e agradavelmente enquanto a descida precisa ocorrer de forma veloz, voraz, por vezes inesperada e sempre penosa. Tudo que sobe, tem que descer e tudo que desce, tem que subir. Será que vale a pena? Ah, Doralice, como é que nós vamos fazer?&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Ah, se ao menos eu pudesse ser um desses seres que amam pouco e que conseguem assim viver em seu individualismo solitário, amando-se ainda mais que aos outros. Talvez fosse uma vidinha mais pacata, assim tranquila e calma. E tediosa. O que sempre procuro é poder me doar e ser um só com meu amor, unidade transcendental, amorosa e sexual. E eu, ainda que não seja nenhum tipo de Vinícius de Morais, tenho essas subidas e descidas que me alegram e depois me matam. "Amor só é bom se doer", disse o poetinha seguindo a mesma linha argumentativa. Sei que a dor me espera e parto em direção a ela, esqueço de Caymmi a Doralice, "amar é tolice, bobagem, ilusão / prefiro viver tão sozinho, ao som do lamento do meu violão" e agora esquecerei de tudo e amarei apenas. Não sofrerei por antecedência. Vá embora, Inevitável Fantasma da Derrota. Não acredito em você a dizer-me que tudo tem um fim, acredito em Perrault e em seus contos de fadas com finais felizes. Deixe-me ao menos viver cada coisa a seu tempo, Ansiedade Fantasma, Falsa Certeza do Fim. Vá! E não mais me importune!&lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-4007651535065273355?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/04/adjuvante-76231-inverso.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-169308946433297010</guid><pubDate>Wed, 01 Apr 2009 13:36:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-04-07T10:36:16.112-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>surrealismo</category><title>Sob a neve</title><description>Tudo estava combinado: iríamos esquiar na sexta-feira. O problema é que só havia um ônibus que chegava até a estação de esqui e ele saia da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Gare&lt;/span&gt; às 16hs. Eu era o único que naquele dia estava preso ao trabalho e, portanto, disse aos meus amigos que partissem, eu chegaria por volta das 20hs. Iria com meu carro. Sairia do trabalho por volta das 19hs, pegaria algumas coisinhas em casa e partiria diretamente a encontrá-los. Seriam cerca de duas horas de trajeto e assim eu ainda chegaria a tempo de bebermos e nos divertirmos naquela noite. Combinado!&lt;br /&gt;&lt;br&gt;O que eu não contava, brasileiro ingênuo de conhecimentos invernais europeus, era que aquela noite estaria nevando muito e que o caminho até chegar ao alto da montanha apresentava tantas curvas e tanta neve. Meu carro não era absolutamente preparado para aquelas condições e eu não tinha sequer correntes para colocar nos pneus. O veículo derrapava na neve derretida enquanto eu atravessa sozinho por corredores de estrada estreitos ao longo da montanha. Em boa matemática, um-pouco-para-lá seria igual a lá-em-baixo. Andava a vinte quilômetros por hora e tentava manter a aceleração constante em segunda marcha para que o carro não derrapasse. Apesar da dificuldade, jamais duvidei que cumpriria com êxito minha missão. Seguia com o GPS ligado e não haveria chance de errar a rota. O que eu não contava mesmo era que a nevasca estivesse assim tão forte. O carro já derrapava mais do que o esperado e em certa ocasião não consegui subir um pequeno morro, uma vez que as rodas giravam em falso. Tentei um caminho alternativo  apenas para logo depois me ver novamente derrapando em meio a abismos dos dois lados. Ainda faltava cerca de 40 minutos para completar o trajeto e meu otimismo já estava no nível de pensar que estaria tudo bem se eu saísse vivo daquela empreitada. (De fato, até agora não estou certo que não tenha morrido.) Fato é que o mundo inteiro deslizava e logo que encontrei alguma casa parecendo habitada resolvi parar e pedir ajuda. Estacionei o carro e respirei fundo. O que diria? &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Liguei para meus amigos do celular e expliquei-lhes a situação. Embora eles dissessem que poderiam buscar-me, neguei a oferta posto que o carro deles também não era preparado para a neve e eu me sentiria extremamente mal por colocar a vida de outras pessoas em risco. Sugeriram-me com razão que batesse à casa e perguntasse ao morador se haveria algum hotel nas redondezas. Neste caso, dormiria confortável e tranquilamente. Continuaria então meu caminho até o alto da montanha pela manhã, posto que haveria um carro especial que passaria pelas estradas logo cedo e removeria a neve acumulada. Asseguraram-me que o caminho estaria livre na manhã seguinte. Portanto eu apenas precisaria apenas esperar o raiar de um novo dia para partir. Talvez pudesse mesmo dormir nesta casa cuja luz saia pelas janelas, sinal da presença de seres humanos. Despedi-me então dos amigos, sai da prisão automotiva e olhei ao redor: senti-me absurdamente sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Minha mãe sempre me diz que sou um jacu, no sentido mineirês do termo, o que significa alguém que é meio bobo e que tem acanhamento por fazer certas coisas ou tomar certas atitudes que deveriam ser normais para um ser humano normal. Ninguém é uma bosta de um ser humano normal, de fato. Eu muito menos, faço questão de não ser. As massas. Mas eis que deste fato decorre que -- por um segundo -- sinto-me idiota a bater na porta da casa de alguém que lê um livro à sua lareira e conjugar meu mau francês a pedir ajuda. O que diria? Pensei que não seria de toda má, a idéia de permanecer protegido no carro até o amanhecer. Eu havia trazido uma ou duas bananas, barras de cereais, duas garrafas de vinho e um pouco de cerveja. Tinha um terço do tanque de gasolina e poderia passar a noite ali com o motor ligado a escutar música, talvez lesse um livro e bebesse o vinho, a cerveja e tudo mais. Assim não precisaria incomodar ninguém. Seria desconfortável, sim, mas pedir ajuda era também desconfortável. De fato, considero-me uma ótima companhia para mim mesmo. Dúvida. E eis que então passa pela minha cabeça uma história idiota de alguém que teria morrido dormindo no carro por falta de oxigênio, respirara apenas gás carbônico e morrera sufocado. Não me lembrei muito bem quem, mas fora certamente alguém bem idiota que houvera me contado esta estória. E embora absurda essa idéia de ficar no carro e morrer sufocado, acho que foi ela que me fez decidir -- ímpeto emocional -- a seguir dentre a neve, em direção à porta do misterioso casebre. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Cabeça erguida, nariz apontando a porta, passos largos e decididos. Assim sou eu quando tomo uma decisão. Esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, braço direito, dedo indicador, campainha, som, nervosismo. Espera. Ar. Frio. Fazer cara de simpático, fazer cara de simpático. Há a movimentação de uma pessoa provavelmente a se levantar de uma cadeira e dar passos duvidosos ao caminho da porta, ensaio um discurso. A porta se abre e eis que vejo uma mulher indo nos seus quarenta com um cachecol enorme enrolado no pescoço, colares sobrepostos e um sorriso maroto com a boca mais para o lado direito, delicadas e ligeiras rugas. Pareceu-me um sorriso talvez acostumado com estranhos desconhecendo as agruras do inverno, como se dissesse: sempre batem aqui quando a neve cai forte. Ou senão, chegou a passar pela minha cabeça esta estranha idéia: talvez ela de alguma forma me esperasse. Se não era linda de rosto e corpo, tampouco poder-se-ia dizer que os anos lhe houvessem feito mal. Tinha o charme não aristocrático do francês do campo, charme original, de simplicidade e beleza. Bonsoir, madame. Comecei a explicar o problema e dizer sobre o hotel, o chalé e os amigos. Nesse ínterim vi um pastor alemão – o cachorro, não o religioso oriundo da Alemanha – chegar para verificar o que acontecia. Um vulto de um garoto parece também ter subido as escadas que iam logo atrás da mulher, não estou bem certo. Madame Marteïs foi excessivamente simpática para um conterrâneo de Napoleão e ofereceu-se a dirigir meu carro até a parte baixa da cidade, assim ajudar-me-ia também a encontrar um hotel nas redondezas. Deixou a porta aberta enquanto foi buscar um casaco e um gorro. Brinquei com o cão. Saiu de casa sem dizer tchau a ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Entrei portanto no lado do passageiro e a fêmea tomou a direção. Estava acostumada com este tipo de terreno e convicta de que não haveria problema para tirar o carro de lá. Confiei cento e dez porcento no que dizia. Chave, ignição, motor, farol, freio de mão, acelerador, opa! Realmente escorrega. O carro é grande, há mais gelo do que a madame pensava; é melhor deixá-lo ali. Convida-me a ir ao seu carro pequeno, pneus de neve, correntes. Andamos pelas redondezas à procura de hotel, falamos amenidades, maldizemos o tempo, bendizemos a beleza invernal, a natureza e poesia que se encontra em todas as coisas. Três hotéis fechados, não há turistas nesses tempos frios. Sugere que voltemos à sua casa, ela ligará para certos outros hotéis um pouco mais distantes para verificar se há alguma vaga e, caso não haja, há um sofá em sua casa. Não quero incomodar e posso muito bem dormir no carro. Ela faz questão, tanto melhor. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;De volta, ela me convida para entrar. A casa é simples, entramos numa cozinha com copa onde há uma lareira. Ao lado há uma sala com um sofá, provavelmente onde dormiria. No fundo, uma escada que sobe até a escuridão. Chá para esquentar? Bem certo! Ela esquenta a água enquanto pega o catálogo e o telefone sem fio. Conhece meia dúzia de hotéis. De fato, eu já me acostumava à idéia de permanecer ali durante noite e a idéia começava a me açoitar: por que não amá-la também? O canino era simpático e brinquei com ele. Conquiste as mulheres pelos seus cães e filhos, diz o manual do homem sensual, que jamais li. Meu lirismo, hedonismo ou luxuria iam-se esvaindo à medida que Marteïs entretanto ligava para os hotéis, um atrás do outro. Finalmente encontrou algum onde eu pagaria algumas dezenas de euros por uma noite. Bebemos o chá e fumamos um cigarro e depois mais outro, conversávamos. Decoradora, tinha peças exóticas por toda a casa. Um sol de metal que também poderia ser entendido como uma rosa dos ventos ficava ao lado da lareira. Um arco e flechas ornamentado pendurava-se à parede enquanto um tipo de totem indígena, talhado em madeira e medindo cerca de metro e meio, ia no canto da sala. Sua decoração não era chique ou sofisticada, apenas simples e criativa, causando também uma certa estranheza digna daquelas coisas que podemos verdadeiramente chamar de arte.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Conversamos mais um pouco e ela contou-me adorar crianças e também a maternidade, de forma geral. Tinha um filho de dez anos. E quando eu começava a ficar angustiado por incomodá-la e pensava em partir ao tal do hotel, eis que ela acendeu mais um cigarro e estendeu-se calmamente sobre sua cadeira de balanço. Continuava nosso diálogo tranquilamente e não parecia ter aquele receio de minha presença que tem com um desconhecido. Talvez tenha reconhecido minha boa índole através de meu olhar. Quando falava, olhava intermitentemente para mim e então para os lados. Por vezes encarava-me aos olhos e ficávamos olhando um no olho do outro sem desviarmos, até que precisássemos dar mais um trago no cigarro. Fala de forma macia e lenta, refletia um pouco e fazia aqueles hum-hum-hums que os franceses fazem sem nenhum sentido aparente, como que a dizer que está ouvindo e pois é e coisa e tal. Minha anfitriã era sem dúvida uma alma livre e quase cheguei a perguntar se ela não usava algum tipo de droga ou medicamento que a fizesse assim tão aérea e sensível e concentrada e charmosa, tudo ao mesmo tempo. Por um instante porém, duvidei de sua sanidade mental. Afinal, ninguém recebe um completo desconhecido em casa e fica assim tão totalmente à vontade. Faltou-lhe apenas tirar a roupa e andar pelada pela casada e talvez não o tenha feito apenas porque a neve lá de fora também congelava-nos aqui, mesmo com a lareira. Tive inveja do medo que ela não tinha dos seres humanos. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Amenidades: perguntei se nascera ali e assim começou a contar-me um pouco sobre sua vida. Falou que tivera uma infância sofrida naquele lugar, e entendi nas entrelinhas que seus pais tinham algum problema que ela não chegou a detalhar e que não me atrevi a questionar explicitamente. E então começava a entrar noutras confissões quando o telefone toca. Ela fala então numa língua estranha que identifico como sendo o alsaciano, dialeto moribundo, próximo do alemão, e que alguns poucos ainda falam nesta parte do país. Sou capaz de reconhecê-lo pela entonação da raiz germânica e por tê-lo escutado esporadicamente aqui e ali, embora não entenda nem mesmo uma única palavra. A ligação é assaz rápida e quando desliga diz que precisa sair rapidamente pegar alguma coisa na casa de alguém, voltaria bem breve. Apressa-se a pegar sua roupa e tudo, abre a porta. Olho para ela com uma cara de o-que-faço? e ela me diz que fique ali, já voltava. Não sei se foi isso mesmo que disse ou se não entendi muito bem seu francês, nesses momentos sempre bate uma certa dúvida. Saiu pela porta e me trancou dentro. Fiquei paralisado, agora com certeza de sua insanidade, além da gentileza. Trinta segundos e a chave vira. Desculpe-me, ela diz. Deixa a chave do lado de dentro e sai novamente. Outros trinta segundos e mais uma vez ela abre a porta: diz que pode demorar um pouco, mas volta e levar-me-á ao hotel. Eu posso ficar a vontade, o sofá é todo meu. Desculpa-se mais uma vez, precisa sair rapidamente. Merci, merci! -- replico. A porta se fecha. Trinta segundo se passam e ela não mais volta. Escuto o barulho do motor do carro se perder pela noite. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br&gt;O que farei? Levanto-me, sirvo-me mais uma chávena de chá enquanto vou reparando melhor a esdrúxula decoração do casebre. Como uma boa casa francesa há cinzeiros por toda a parte, normalmente cheio de cinzas. De alguma forma, entretanto, o lugar não tem aquele cheiro impregnado de cigarro que se poderia esperar. Há roupas jogadas aqui e ali, nenhuma delas íntima. O quarto ao lado tem um sofá em formato de ele, coberto por uma capa surrada, tons de verde sobrepostos. A capa surrada faz parte da decoração e lembra cores selvagens. Reparo melhor no local: há pequenos espelhos pendurados na parede, além de tecidos indianos – ao que me consta – e alguns colares de origem quiçá africana. Na parede ao fundo há um pequeno quadro, um portrait. Pá-pá! Um barulho parecendo se originar do andar de cima desvia minha atenção. O ruído é forte e rápido, uma batida intermitente. Talvez alguma janela que tenha se aberto. Finjo que não é comigo por alguns instantes, mas o barulho se repete: pá-pá! O vento sopra com um pouco de força. Irei enfrentar o desconhecido e fechar a janela lá em cima ou deixa-la-ei assim, batendo? O barulho incomoda-me, mas não o suficiente. Então fico ali. Em pouco tempo, o espaço entre os sons torna-se mais esparso e o ruído passa a incomodar-me cada vez menos, mecanismo cognitivo de habituação fazendo efeito.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;A casa é um pouco escura e decido acender a luz para melhor apreciar ainda melhor a decoração especial, quero reparar nos contornos da lareira e, enfim, arrumar o que fazer. Poder-me-ia estender sobre o sofá e ficar ali tranquilamente, quiçá tentaria dormir. Mas estou tão desperto como quem tomou dois litros de café e curioso sobre tudo isto. De fato não é apenas a curiosidade que me aguça porém também um certo medo, uma adrenalina de um problema não resolvido, uma situação incompreendida e de um final ainda a se revelar. Havia uma angústia no ar e tive a impressão de algo de incomum estivesse a ponto de acontecer. E então me invade, com bastante força, a vontade de sair daquele lugar, um medo, um desejo de pegar meu carro e ir para não importa onde, apenas longe dali e daquele casebre amedrontador. Vejo-me, covarde, já a tocar a maçaneta da porta e sou então abençoado pelo sopro bendito da razão: não há o que temer. A mulher foi simpática, ajudou-me. Não é louca, é linda. É boa gente. Afasto pensamentos insanos, louco sou eu, não há nada de errado. Volto à saleta.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;A luz que acendo não ilumina muito bem o ambiente. Os europeus, é bem sabido, não são muito fãs de luz forte e direta. A luzita que se faz atrai então minha atenção, finalmente, para o quadro ao fundo da sala. É um retrato de uma criança, parece-me familiar, talvez seja o filho dela? Seria aquele garoto parecido com o vulto que vi, ou que tive a impressão de ter visto? Era definitivamente parecido! Ou não? Ou terei tido apenas a impressão de tê-lo visto? Déjà vu? Pregará meu cérebro uma peça em mim mesmo? O vulto era definitivamente parecido com a fotografia. Ou teria a fotografia influenciado minha memória e feito com que agora eu visse uma cara no vulto que antes eu nem sequer havia estado certo de ter visto? Ora, acho que enlouqueço. De mais a mais, não parece haver ninguém lá em cima. Só este barulho esporádico: pá!, pá! &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Havia me esquecido do totó, não sei por onde esteve. Mas de repente ele aparece correndo, ansioso, pula e parece querer carinho. Passo-lhe a mão na cabeça e afago-lhe o ventre, enquanto ele se deita para que eu possa melhor fazê-lo. Cães são piores que mulheres, assim de tão carentes. Ele está feliz e roça a cabeça em mim. Levanta-se. Agora empurra em mim sua cabeça e, quando eu o afago, ele se esquiva. Parece querer me levar para algum lugar. Vou na direção que ele me guia. De fato, ele me empurra com sua cabeça e fica ansiosamente andando daqui para lá, dando-me voltas e tentando me guiar a algum lugar. E vou seguindo-o até estar aos pés da escada. Ele se posiciona atrás de mim e mete o focinho em minha bunda. Ora, animal abusado! Dou-lhe um tapa ligeiro enquanto penso: deverei subir? Como explicarei tudo se a mulher chegar no instante em que estiver lá em cima a fechar a provável janela que bate? Não posso subir, não tenho este direito e isto seria invadir a privacidade dela. Além disso, de mais a mais ela poderia pensar que estou a tentar assaltá-la, ou coisa do gênero. Ela já confiou por demais em mim. Não vou subir. Olho para o integrante da matilha, penso rapidamente, dou-lhe um drible à la seleção canarinha e chego com agilidade de volta à sala. Assento-me ao sofá a esperar pela reação do canídeo. Fita-me com cara de dó ou pena, talvez apenas surpresa. Mas então vem andando calmamente em minha direção. Senta-se no sofá e coloca a cabeça no meu colo, quer mais carinho. Ah, os cães. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Fico ali por alguns instantes e deste novo ângulo em que agora me encontro, assentado ao sofá, consigo distinguir um livro que jaz jogado ao chão, num canto -- e que havia me passado completamente desapercebido anteriormente. Ah, esta casa é mesmo cheia de surpresas! O livro parece bastante antigo e tem uma capa preta com detalhes dourados, está aberto próximo à sua metade e tem sua face voltada para o chão. Curioso da literatura e da mente humana que sou, não resisto em me levantar num ímpeto para verificar do que se trata. E em meu caminho até o livro, percebo meu amigo carnívoro a levantar-se e começar a latir exasperadamente. Ignoro-o e porém, quando mais perto do livro caminho, mais o bicho late e late. Tomo então uma atitude direta, premeditada e rápida. Corro em direção ao livro e, quando toco em sua capa, o companheiro simplesmente acalma-se, levanta-se e segue calmamente em direção à escada, subindo-a lentamente até ser devorado pela escuridão do ambiente superior. Estranho este cão. Pego a obra e assento-me calmamente sobre o sofá. O livro está aberto em uma página completamente em branco, amarelo seria melhor descrição para a cor, posto que parece assim tão velho. E então quando passo as páginas em direção ao fim, percebo que não há nada escrito ali. Aquilo não é de fato um livro, porém um caderno. Folheando-o em direção a seu início percebo então do que se trata aquela obra: é um diário da autora! É o diário de minha anfitriã! Uma curiosidade enorme me invade e me dá a vontade de ser capaz de ter algum tipo de leitura dinâmica onde pudesse ler a obra assim rapida-e-totalmente-num-mísero-segundo, para tudo saber. Ah, esse ser humano é mesmo um bicho curioso... Não, não tenho essa vontade. De fato, devorarei este livro como o mais saboroso dos pratos. Fecho-o por um instante. Respiro fundo. Procuro um lugar confortável para me assentar e que não seja muito longe do local onde o livro se encontrava de modo que eu posso colocá-lo lá rapidamente no caso da minha anfitriã voltar de súbido. Pego uma almofada, escoro as costas. Encosto-me com conforto e fecho os olhos por alguns segundos. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Abro o diário então em uma página próxima ao primeiro quarto e começo a ler do que se trata. Marteïs conta a estória de certa feita em que se banhava nua num dos rios que corria ali pelos Vosges e que, tendo percebido alguém a flagrá-la em sua intimidade, sentiu-se raivosa e não hesitou em enviar seus cães a atacar o sujeito. Não está claro o fim que levara o voyeur. Passo algumas páginas em direção ao futuro e leio que houve ainda uma outra vez em que passeara pela montanha com um de seus amantes, quando faziam uma caminhada de dias -- se é que entendi bem. Houve um momento então em que eles se perderam e passaram dias ou semanas vivendo sem comer ou beber nada, apenas a fazer amor em meio à selva e aos animais que por ali passavam. E o amor que faziam, assim entendia, dava-lhes infindáveis forças para seguir viagem e tentar encontrar um rumo para a casa, sem muita preocupação. Lembro de uma frase de um livro que li recentmente: “Quando não se sabe onde vai não é preciso ter muita pressa.” Por vezes comiam algo que encontravam no caminho e, quando se sentiam cansados, sedentos ou mesmo sem motivo algum, faziam amor. E o amor que faziam preenchia todas as suas necessidades básicas de uma forma que a autora não conseguia explicar muito bem. Ora, interessante a literatura. Seria ficção ou diria realmente verdades sobre o que acontecera? Escreveria um livro, a tal francesa? Misteriosa, esta anfitriã. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Passo mais algumas páginas e encontro um lugar onde há uma marcação. Interessantemente a caligrafia da autora parece ter se modificado dali para frente, sendo que mesmo o contorno dos símbolos alfabéticos apresentam características diferentes antes ou depois deste trecho. Penso que deve haver algo ainda mais interessante a ser lido naquele trecho. Volto então uma ou duas páginas para me contextualizar sobre o que teria ocorrido e presto atenção ao texto. É noite e ela está sozinha à luz do luar, medita calmamente. A lua está cheia e ela está simplesmente do lado de fora da casa, talvez esta mesma casa, sinto que sim. Ela descreve uma grande árvore da qual teria estado aos pés. E com os olhos atentos e fixo, ela vê que os ramos e galhos do vegetal movem-se de forma a entrarem lentamente para dentro da terra, um após o outro numa sintonia e sincronia que lembrava uma dança. E depois dos galhos e folhas e flores e frutos, também a árvore inteira com seus troncos largos entrara para dentro da terra, glub. E depois da árvore, todas as coisas que iam ao seu redor iam também sendo subterradas naquele ralo de matéria viva e não vida, tudo escorria e parecia derreter para dentro da terra, como num quadro de Dali em movimento. Espaço ao invés do tempo. Ao fim, mesmo toda a terra teria se colapsado num único ponto, logo abaixo do lugar onde ela se encontrava. Em minutos, todo o sistema solar houvera desaparecido dentro do buraco, incluindo sol e lua e Júpiter e Satuno e Plutão, planeta ou não-planeta. Ela agora flutuava na escuridão, nada acima ou abaixo, ao lado ou além ou aquém. Mas a escuridão não era completa, porém luminosa, sob o brilho dos astros que a circundavam vindos doutro sistemas estelares e galáxias distantes. E então neste momento ela teria visto pela primeira vez a abóbada celeste em toda sua dimensão e completude, a circundá-la completamente -- dos pés à cabeça, leste a oeste e norte a sul. Tudo à sua volta era céu e era estrelas e teve a impressão de que sua visão alcançava 360 graus, como se tivesse vários olhos ao longo de sua cabeça e também em todo o seu corpo. Todos seus sentidos haviam transformado-se em visão. E assim ela pôde identificar algumas constelações que sabia de cor e nomeá-las, além de estrelas particulares cintilando. E percebeu também que quando olhava para outros astros era capaz de saber exatamente o nome que os antigos haviam lhe dado e com este nome compreendeu também como a cultura deles baseava-se numa forte ligação humano-cosmos. Era visão e razão, de fato. Os conceitos formados pelos humanos, agora compreendia, haviam vindo sempre da observação galática e estelar. Compreendeu a natureza humana e descobriu que não havia sido o fogo, a roda ou mesmo a pedra polida que haviam tornado o ser humano ser o que era hoje, porém havia sido o céu e a observação atenta das estrelas -- esta era a chave para compreender a base de toda a sociedade hoje existente. Era o céu, o enigma e o segredo, a resposta para a existência humana, os padrões que nossa espécie teve que seguir para ainda estar viva nessa falta de sentido absurda que é a existência. Meditou profundamente.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Voltou à razão e foi capaz de compreender que todas aquelas galáxias representavam estrelas situadas mais próximas ou longínquas de nós e que toda aquela mitologia estelar era simplesmente relativa ao lugar que estávamos no cosmo. Também as distâncias podia identificar e calcular com o olhar mais razão, desvio para o vermelho, matemática-física, Newton e Einstein e além. Concluiu que culturas inteligentes noutras partes do universo também se inspirariam nas estrelas para construir e desenvolver sua sociedade. Porém outras culturas veriam outros ângulos relativos da realidade celeste e, tendo também biologias diferentes, constituições corpóreas alternativas e mesmo sentidos diferentes da visão ou audição, tato, olfato ou paladar – propriosepção teriam? –, construiriam assim sociedades diferentes e não relacionadas àquela do humano terráqueo, limitado cognitiva e transcendentemente. Uns mais que outros. E teria sido neste momento de clareza psicológica que gerara a tal modificação epistêmica de su'alma. Sentira-se iluminada e senciente; sua vida teria se modificado para sempre. Dizia então ter entendido melhor o ser humano e suas agruras, suas práticas, sua constituição social, sua herança animal e cultural. Longe de ter o determinismo de Laplace, parecia poder prever melhor o passado e o presente, explicar melhor o futuro das sociedades, da economia e da natureza. E até nosso futuro evolutivo enquanto espécie. Entendia tudo isso mas, iluminada em estado de êxtase e nirvana, agora não mais se importava com nada. Queria apenas estar bem, estar aberta e leve e livre. Queria apenas flutuar sobre um universo de nuvens e queria sentir-se pessoa e ente, completude na vida. Queria ter um filho e queria ser mais uma vez homem e mulher, ser cultural e biológico, parte do universo natural e social e além.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Estou zonzo e, no momento em que fecho o livro, a porta se abre. Olhamo-nos nos olhos e nada precisa ser dito, ela sequer precisa notar que tenho o livro em minhas mãos. Nossa sintonia se dá por completo, compreendo-a e ela compreende-me. Somos um só naquele instante e também durante toda aquela longa e maravilhosa noite. Parto pela manhã sabendo que estou nela e ela em mim, voltarei um dia para buscar meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Abro os olhos. O livro. E então me atinge a curiosidade de saber o que a personagem que encontrei nesta casa tem feito nesses últimos dias, o presente recente. Vejo até onde o livro parece estar escrito, páginas não numeradas, e então retorno meia dúzia de laudas para tentar entender o que vem fazendo, o que anda acontecendo em sua vida nos últimos tempos. O agora, um pouco antes. Cadeia de Markov, apenas os passos acontecidos há pouco interessam. Parece estar melancólica, a anfitriã, segundo seu texto. Passa seus dias andando pelos bosques e pela natureza. Sabe de um lugar onde estão presentes um grupo de cervos e por vezes passa o dia inteiro a observá-los. Não diz nada sobre lojas ou decorações. Talvez tenha mentido, talvez escreva simplesmente algum tipo de literatura do que gostaria de ter vivido. Além da melancolia, parece estar na expectativa de um novo porvir. Diz sentir que algo importante irá acontecer em sua vida e que não pode desperdiçar toda sua energia em assuntos irrelevantes. Precisa preparar-se, posto que sente que mais uma vez o universo estaria a se colapsar em seu ventre sob a insígnia da maternidade. Diz-se sentir sexualmente aberta e delicada, diz estar justamente à espera da semente virtuosa que os astros trarão para ela em pouco tempo, segundo calendário mitológico-estelar do qual bota fé. Passa então seus dias a meditar sobre o fundo glorioso e o término de sua história de vida. Sabe-se iluminada e compreende do porvir, sabe que virá um príncipe a cavalo e que este a abordará sem que se precise tomar alguma atitude. Forças universais de união estão envolvidas. Sabe que seu papel consiste apenas em esperar e preparar-se. Confia nas predições, confia em seu sexto e sétimo sentido. Sabe que está certa e tem a calma da confiança paciente e pacífica. As datas em que escrevera não estão escritas que senão através de um desenho lunar. E começo então a ler talvez o que ela escrevera sobre o dia de hoje ou ontem. É o que penso, dado ao desenho da lua cheia que observo também no céu, lado de fora da janela. Acordara com o coração na boca, já na certeza de que o bendito dia estaria para chegar. Paro um pouco a leitura também com a emoção à flor da pele, será que ela previra de alguma forma minha chegada? Será que por isso teria tido aquela cara de "sabia que você chegaria" quando me recebeu à porta? Será que por isso fora tão simpática? Será que por isso verificamos hotéis fechados? Será que por isso? Será que por isso... Ela tivera a visão de que um homem virtuoso e másculo viria visitá-la e tinha sonhos recorrentes com esta idéia e com a interação assim tão íntima que teria com ele, como se ele fosse seu filho e seu pai, o eterno e verdadeiro amor que nunca dantes tivera. Virtuoso e másculo? Há algo errado nessa estória.&lt;br /&gt;Continuo a leitura, e eis que está escrito que alguém bate à porta e ela se encaminha a abrir. Diz ser um rapaz que tivera o carro derrapando sobre a neve e está sem lugar para dormir, além de não ter onde passar à noite, pede ajuda para encontrar um hotel. Ora, esta claro que esta é minha estória. Como ela poderia ter escrito isso se eu estivera ali desde este momento? Prossigo, curioso. Na estória que conta, ela tenta dirigir o carro do sujeito e não consegue, oferecendo então ajuda em seu próprio carro. Ok, ok, próximo parágrafo... Relata seu sentimento: apesar de saber que está a espera de alguém assim tão importante, tem dúvidas se seria mesmo este o escolhido, seu príncipe e seu encontro completo consigo mesmo. Este rapaz não é um sonhador, logo se vê, ele tem dúvidas e medo, receios; não pode ser o príncipe. Ela esperava alguém decido e conhecido sobre a luz das estrelas e os segredos da alma humana, alguém que transcendesse o estado humano, não um estúpido amedrontado com as relações e desejos da insignificância humana. E assim, ela recebe um telefonema anônimo. Não é ninguém, não se diz quem é. Diz apenas que precisa encontrá-la rapidamente, sob pena do futuro do universo se colapsar em qualquer instante. E assim, finalmente seu coração palpita em alegria e ela larga tudo para viver finalmente seu grande desígnio. Deixara o mortal para trás e agora parte em direção... o livro está incompleto e agora tenho a certeza que não voltará. Deito no sofá e adormeço na absoluta certeza de não ser nenhum tipo de mitologia encarnada.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br&gt;E então vou passando outras páginas do livro-diário e lendo-as rapidamente. Percebo que de fato são sempre as mesmas estórias, com pequenas modificações. Mais uma vez está ela a se banhar e o indivíduo a lhe fitar, mais uma vez manda os cães e mais uma vez anda pela montanha-floresta com o amante, sem comer, vivendo de amor. A cada página tudo se repete. A escrita é ligeiramente diferente, o ambiente também. Percebo a loucura de minha anfitriã ou alternativamente percebo como a vida dela opera em ciclos, sempre se banhando e sendo fitada ou amando como fonte de sustento de toda uma existência. Utiliza provavelmente metáforas posto que nada disso pode ser mesmo verdade. Conta a mesma história de maneiras diferentes, diferenças nos detalhes e na forma da narrativa, às vezes utiliza primeira e por vezes terceira pessoas -- narrador onisciente. Conta experiências íntimas e se vê de fora. Folheio mais algumas páginas e vejo que há outra estória ali também. Finalmente algo diferente. É inverno e ela está lendo em sua lareira quando alguém bate à porta pedindo ajuda. Ora, não é possível! Passo páginas e mais páginas e vejo que também nisto há recorrência. Há várias estórias de diferentes gentes de todo o mundo que batem à sua porta a pedem ajuda em tempo invernal, pessoas indo esquiar, pessoas desinteressantes e enfadonhas; sempre as mesmas pessoas, pedaço da massa-burra. Vejo-me como peça de um destino já escrito. Não consigo agora saber do que se trata a verdade ou a falsidade. Ficção e não-ficção. As pessoas que adentram sua humilde casa sempre têm aquele desconforto dos que rogam por ajuda e ela é sempre educada e presta seu serviço humano. Há os que chegam caminhando e os que chegam em carro. Há os que chegam a sós ou acompanhados. Estou curioso pelo fim da história. Passo os parágrafos e ela sempre vai embora e jamais volta a saber o que está acontecendo. Chega um instante em que a relação hóspede e anfitrião se torna para ela insustentável e ela sempre consegue uma desculpa para sair dali e evitar o mal estar sartreano da convivência humana, o inferno que está nos outros. E então ela retorna tempos depois, quando tem certeza que não será mais importunada pela presença alheia. E mais uma vez, no dia seguinte, vai banhar-se a ser observada novamente. E eis que é exatamente o que o futuro lhe reserva. Partirei ao amanhecer.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Livro, livro. Eis que uma página tem ali impressa uma réplica idêntica do quadro que vai à parede. Reparo na pintura que vai no papel. A criança ali pintada, filha de minha anfitriã, está a me fitar através das páginas do livro. Mexo para cá e para lá, coloco o livro à distância e a criança continua me fitando. Conheço muito bem esta técnica estilística onde não se importa onde se vá, tem-se a impressão de que a figura te observa. Não sei como se faz tecnicamente, mas sei que é possível fazê-lo e, embora saiba que se trate puramente de uma técnica, aquele medo animal que reside nas profundezas da psiquê humana me invade. A figura incomoda-me e agora também o quadro me dá uma sensação de mal estar. Tenho a impressão de que a criança quer apoderar-se do meu corpo, roubar a minha alma. E a mulher não volta. O que estará acontecendo? Terei entrado em algum tipo de portal dimensional e me encontrarei em alguma outra dimensão? Terei morrido? Onde estarei, de fato? Tudo isso não me parece fazer nenhum sentido. Preciso de chão. Levanto-me e vou até a porta. Abro-a. Do lado de fora vejo ao longe meu carro, ele está lá, ele é meu pouso, minha ligação com a realidade, minha vida, um porto seguro. Um objeto ridículo serve-me como conforto. Não sei porque estou assim ansioso, não há de ser nada. Há apenas uma mulher que me ajuda, há uma casa e há um cão, cachorro, canídeo, animal, bicho, carnívoro, melhor amigo do homem. Há também uma foto incômoda e um barulho que vem do andar de cima. A mulher irá me ajudar, mas teve que ir em algum lugar fazer alguma coisa nalgum lugar. Esperarei. O relógio taquetiqueia e os olhos da criança no quadro incomodam-me profundamente, quando observo o livro -- agora fechado -- sei que aquela foto continua a me fitar, tentando roubar o meu corpo. Sinto um incômodo que é rapidamente silenciado quando escuto algo. Fecho os olhos para melhor escutar. Será este um barulho de carro? Motor? Sim, ela voltou. Permaneço assentado no sofá e guardo o livro como estava. Cruzo as pernas como se nada acontecesse e espero a mulher entrar. Mas nada acontece, é a  campainha que então toca. O que farei? Hesito por um instante. Então levanto-me e dou passos duvidosos ao caminho da porta. Abro-a. Surpreso vejo que não é minha anfitriã que está ali e sim uma outra mulher. Ela me diz que tem um problema com o carro; estava indo esquiar, mas está nevando muito e seu carro não é adaptado para a neve. Enquanto ela diz isso, o cão acorda de onde estava e chega próximo de mim. E quando olho em seus olhos, algo estranho acontece: vejo na cara do animal, o rosto do menino da pintura. Um vento sopra e me trás um calafrio. Vejo agora toda a cena se desenrolar como uma imagem longínqua, escuto um som abafado. Vejo a mim mesmo falando com a mulher e lhe oferecendo ajuda num francês que jamais seria capaz de pronunciar. Tento me mover e tomar conta de meu corpo, mas percebo que não posso. Estou parado. Estou imóvel. Estou dentro do quadro. É o menino que comanda meu corpo agora. Ele tomou minh'alma. Eles saem, passam um tempo lá fora e voltam. O menino que deveria ser eu pede para a mulher esperar ali e sai da casa. Ele leva meu corpo e agora estou convicto de que o leva para sempre. Jamais serei eu mesmo novamente. A mulher então fica ali, repara em coisa e outra. Chega perto de mim e me observa. Sou eu agora a desejar seu corpo, observo-a com profundidade. Era meu corpo que o garoto desejava, não a alma. A alma ele tem a sua própria. Cobiço o corpo da mulher para poder me ver livre da angústia de ter uma consciência e estar preso num objeto, imóvel, sem movimento, sem dor, sem nada. Eu sou um quadro. Apenas tenho olhos e mente, visão e razão. Meu inferno sou eu mesmo. Preciso sair dali ou ficarei louco em pouco tempo, em muito pouco tempo. Olho para o totó e faço com ele um trato imagético, ele me ajudará a sair dali e entrar num outro corpo, no corpo daquela mulher. Só preciso esperar o momento adequado. Preciso ficar atento quando outroguém bater à porta e, assim, quando a mulher for abri-la, passarei através do cão para o seu corpo. Ele é chave e percebo que consigo de certa forma controlá-lo. Quando olho para ele, ele entende o que falo. Ah, que prisão. Estou ansioso em ter um corpo novamente. O que faz sentido neste mundo? Nada. Qual a razão, a emoção? Significado não procurarei. Serei agora uma mulher e não me importa se ela ficará presa aqui, preciso salvar minha liberdade e minha existência, nada mais me importa. Mesmo na lei dos homens tens o direito de danar o outro se for por sua própria salvação. Não sou que um homem. Tento acalmar-me e espero ansiosamente o próximo que virá bater à porta e que me permitirá tomar-lhe o corpo. Não posso perder o membro da matilha de vista, conto com sua ajuda. Ainda assim, não consigo tirar meus olhos da mulher. Seu corpo cobiço como jamais cobicei nada neste mundo. Preciso dele como preciso de forçar esta sanidade. Sanidade, insanidade. Estou ansioso sobre como tomarei seu corpo e serei eu-ela, e ela o quadro. É só uma questão de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;(...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-169308946433297010?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/04/sob-neve.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-4605777015290261680</guid><pubDate>Sat, 21 Mar 2009 10:56:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-03-24T07:29:04.910-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crítica social</category><title>A lei de Ohm</title><description>Não tinha mais qualquer esperança com relação ao mundo. Via os mesmos dogmas de dois mil anos sendo repetidos e defendidos. Tensão. Levantava-se contra eles com a razão e temperança a seu lado, mas recebia apenas repreensões dos ignóbeis; absoluta e absurdamente numerosos. Resistência. Em casa, à noite, recuperava as forças através da apreensão das palavras dos mais sábios da história, lia-os no original. Não confiava em traduções, em tradutores. Não confiava em ninguém e duvidava de tudo e todos até prova em contrário. Amava os sábios, mas não todos. Dormia forte, revigorado ao perceber que os maiores haviam pensado como ele; e vice-versa. Acordava com o sol, todas as coisas misturadas em sua cabeça, processo biológico de aprendizagem e memória. O bicho humano, a imperfeição. Chacoalhava a cabeça para que tudo se acertasse. Lia duas palavras para dar sentido a tudo aquilo, meditava um pouco. O ar da manhã trazia-lhe vigor e desejo de arquitetar a Mudança.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;E então passava o dia com seres humanos que mal poderiam ser assim chamados, posto que eram apenas repetições uns dos outros. Se não eram vazias, suas cabeças, eram como as daquele crustáceo. Ao invés de defenderam a razão e a busca por ideais de virtude, defendiam a repetição de padrões atrasados, criados por povos longínquos, em tempos passados. Desnível espaço-temporal. Diziam que a tradição era um valor excessivamente importante e não a viam como realmente era, ou seja, instrumento que velhos mal-intencionados utilizavam para sobrepujar as massas. Nos jovens de hoje, o mesmo esquema ainda funcionava. Atingia o espelho deste tempo e, assim, refletia-se tal qual a luz para Newton. E eram os herdeiros dos velhos de outrora aqueles que ainda se valiam dos instrumentos criados por seus tatataravós para dominação, sentando-se sobre pesados tronos dourados e carregados por todos nós; escravos.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;O dia e as pessoas comuns tomavam-lhe as forças e tolhiam-lhe a esperança. À noite restaurava-nas ao dialogar monologamente com seus amigos, mortos há tanto tempo. Alguns recentemente mortos. Outros vivos, mas sem vontade de diálogo. Longes, distantes, inalcançáveis, também de certa forma dominadores -- que questionavam os seus para fazerem-se grandes. Destruíam estes a casa dos vizinhos para tornar a sua própria ainda mais bela; e faziam-no bem. Pensava sempre em contatá-los, os bons, e então dizer-lhes que continuassem, estimulá-los para que falassem com ainda mais vigor, pedir orientações, segui-los ondequer que fossem. Mas quando da tentativa do contato, só tinha como retribuição a indiferença. Os líderes modernos querem apenas sua liberdade de expressão, mas estão imóveis e falam para poucos, aos sussurros. Também os bons-poderosos eram de certo modo apáticos e mais queriam seus sossegos. Nosso herói desejava subir ao topo do mundo e gritar para todos, lá de cima: acordem! Mas não encontrava quem o ajudasse, seu caminho era longo e penoso. Pesado era seu fardo e vã, sua esperança.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Cansado de uns e de outros, juntou alguns daqueles poucos livros que se pode ler e reler até o fim dos tempos e partiu. Não se sabe para onde foi. Está em todo o lugar que se olhe, vive de misérias e tenta convencer as pessoas a se Moverem contra os poderosos, a guerra, o capital; a favor da paz, do entendimento, da fraternidade. Corrente. Do mundo inteiro tem asco e pena; sente muita dor ao coração. Está triste e desanimado, mas não vai parar posto que é esta dor que o move. Incessante. Ela é seu fogo, seu moto-contínuo, energia renovável produzida pela ignorância Dos outros. Imensa, enorme, infinita. Enquanto tiver dor, terá motivação. E enquanto tiver motivação, lutará. Estamos com ele e somos também ele, senão todos, cada vez mais de nós.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-4605777015290261680?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/03/nao-tinha-mais-qualquer-esperanca-com.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-5818682529527030145</guid><pubDate>Mon, 16 Mar 2009 19:17:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-03-17T13:45:15.822-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>literatura tipo-moderna</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>surrealismo</category><title>Astrologia e o sentido</title><description>É fato, é enganação. Mas tem sempre o que diz, veloso, ou não. Consideremo-la à luz da razão. Os que no mesmo dia vêm ao mundo, mesmo mês, digamos, encontram as estrelas na mesma posição. Nem todas, mas muitas. Reza a lenda. O planeta gira em torno do sol e dentro dele é onde estamos. Dentro não, sobre. Sem sob sobre trás, diz a professora do bom brasileiro. Mas preste atenção, se nascemos no mesmo dia ou mês teremos o inverno a seguir ou a primavera, quiçá o verão. O outono também. E assim nosso desenvolvimento inicial se dará, siga o argumento, de uma forma relacionada à estação. Quem no outono nasce, passa seus primeiros meses de adaptação neste lugar de malucos em clima de resfriação e, posteriormente, vai aquecendo-se e ficando mais tranquilo, em pele, tecido-não. Já o que nasce na primavera, passa seus primeiros meses no maior calorão e apenas depois é que vai invernizar e estabilizar seu termômetro interno corporal de bebê, para que funcione em períodos de gelo no exterior. Importa, então, concluiremos, para o comportamento de toda a vida, quando se nasce em certa estação? Sim, sim! Não, não. Posto que também há a latitude, nem tanto a longitude. E aquele que nasce no centro do olho do meio do planeta, sob a linha do equador, não sabe dessas coisas de primavera, primalia, primana. Não importa, é tudo igual. Sempre o bafo úmido nas ventas. E tem também o carnaval, o natal e outras festas culturais de tão grandes que podem influenciar nossa vida para sempre, se participamos delas mais cedo ou mais tarde na vida, questão de meses é o que suponho, é o que supõem, transvisto-me neles por curiosidade experimental. Depois entramos na escola e há os que são mais novos e os que são mais velhos, há os que são menores e maiores, os que têm dois pés ou uma orelha. A beleza também põe a mesa, ao contrário do que diria minha avó: quem não tem colírio, usa óculos escuros. Tudo isso importa tanto ou mais ou menos do que o mês que se nasce, com lua ou sol ou vênus ou júpiter e saturno na casa posterior ou anterior daquele quadradinho que os humanos decidiram colocá-lo. Um viva às estrelas em quadrados. De mais a mais, está claro como a luz do sol quando refletida na lua, que tudo influencia nossa vida e nossas decisões. Ora, se o cachorro do vizinho latiu e me acordou, isso influenciará todo o meu dia, posto que terei mais ou menos ou igual humor quanto às venturas. E se tomo um leite com um pouco mais de proteína do que o normal, também isso me influencia; ou se olho para uma garota e perco o sinal verde: bibifonfom. Vale mais. Chego minutos atrasados no serviço e a borboleta que bateu as asas lá nos cafundós também acabou influenciado o vento que aqui chegou e que agora levanta a saia da menina. Não aquela, porém outra; viva o acaso. Tudo influencia tudo e vice-versa. Só que ninguém sabe exatamente &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;como&lt;/span&gt; -- eis a questão -- e ainda o deus onipotente que tudo entendesse e soubesse, mesmo que existisse, não perderia seu tempo fazendo cálculos de tais inutilidades. Estaria era aproveitando sua vida eterna de alguma maneira que o melhor conviesse. Posto que deveria ser um hedonista, não sádico. Eis a razão de minha descrença, uma. Ai de mim que não sei de nada e nasci neste mês de maio que está para chegar e donde me farão, as circunstâncias, completar esta trigésima volta ao redor do astro que é magnânimo neste reino solar em que calhamos de nascer. Tudo é metáfora. Não escrevo para extraterrestres, telefones, suas casas, porém para mim e para outros interessados ou até desinteressados ou adas que se aventurem por aqui a saber o que penso destas voltas e voltas do sol e da lua, as estrelas e planetas que nos influenciam sem dúvida, de uma forma que jamais saberemos. Já se compreendeu. Nem a estatística ajudaria, malfadados os eventos improváveis que, para o cientista, jamais ocorrerão. Há outras coisas ainda mais interessantes para estudarmos e mesmo que jamais saibamos de nada, continuaremos falando que somos fodas e que nossa espécie é isso e aquilo. Centrismo antropô, retrô. Sacô? Defenderão argumentos dos mais embasados -- sob areia movediça, claro -- e quando menos perceberem estarão sendo sugados ali para dentro, tendo suas vidas passadas defronte a seus olhos sem que se atinassem, enquanto lutavam contra um inimigo invisível também assentado sobre solo não menos maciço. Todos engolidos, para a indigestão da terra. Vivamos apenas e aproveitemos o epicurismo de todo dia. Não esqueçamos não das desigualdades e das políticas e das injustiças que assolam eu e tu e ele e nós e vós e eles, todas as pessoas do indicativo e subjuntivo. Do imperativo também, e principalmente. Mas também saibamos talvez que quando uma mulher sorri e quando olhamo-na bem dentro dos seus olhos e quando estas bolas sensoriais brilham e refletem assim o brilho das nossas. Ah! Saibamos que apenas isso explica a vida, de uma forma inexplicável e que enquanto o planeta roda e roda em torno de si mesmo e este em torno do rei com erre maiúsculo, só nos resta levantar mais um dia em busca deste olhar e de um novo amor. Ah, lugar comum. Ah, chavão do mais precioso. Só o amor, rerepetirei incessantemente, e de novo. O amor, o amor, o amor. Ele apenas é que justifica a vida ou talvez seja ela a ser justificada pelo amor, amor, amor. E vice-versa, antero-posterior, dorso-ventralmente, cima-a-baixo, frente-e-verso, no espelho das palavras e dos sentidos possíveis, na literatura, dentro e fora dela. E ainda além, jamais aquém, a quem, mim e ti.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-5818682529527030145?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/03/astrologia-e-o-sentido.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-6906912828988620165</guid><pubDate>Sun, 15 Mar 2009 14:48:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-06-08T18:17:24.828-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crítica social</category><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>descentralização</category><title>Zumbi palmar</title><description>Os zumbis estavam ligados ao aparelho e o observavam com um extremo e inexplicável interesse. Seus olhos nem bem piscavam e até mesmo as necessidades fisiológicas seguravam enquanto sensorialmente conectados. Terminada a seção, estavam finalmente livres para desafogar-se, comer ou fazer sexo. Eram de natureza animal. Logo em seguida ligavam novamente o receptor para uma nova seção de hipnose. Repetiam tais ações até que o sono lhes atingisse, ou novamente a fome ou o grande tê. Mas apenas se tais vontades lhes chegassem em altos níveis. Do contrário, mantinham-se ao sofá imóveis e calados, pseudo-atentos. Engoliam tudo o que lhes chegava aos órgãos do sentido sem se questionarem e sem terem qualquer noção do universo de signos dominatórios que lhes atingiam sem qualquer piedade. Apanhavam ideologicamente sem se darem conta. Ao fim do dia, deitavam suas cabeças em seus travesseiros e -- ora, não se sabe por quê -- percebiam-se cansados, fartos, exaustos; tinham problemas para pegar no sono. Indigestão memética, possivelmente. E então usavam drogas que, por vezes, não faziam efeito ou deixavam-nos ainda mais despertos. Ainda assim, confiavam na ciência da farmacologia e medicina. No mar das idéias filosóficas, nadavam sempre à superfície. Pareciam tranquilos e prósperos, mas estavam angustiados e deprimidos. Mentiam para si mesmo sobre a realidade e sua finitude; e assim se sentiam "bem". Afastavam questões existenciais quando estas afagavam-lhes a luz da consciência, pequenas como grãos de noz. E quando tais questionamentos assaltavam-lhes com força, desviavam-se deles pela utilização de substâncias entorpecentes -- legais, semi-legais ou ilegais-porém-permitidas. Quando por fim conseguiam pegar no sono, o barulho de seus telefones repletos de inutilidades acordavam-nos como de súbito, cedo da manhã, para que fossem funcionar como mão-de-obra escrava para os dominantes. Trabalhavam e trabalhavam de forma a reforçar o ciclo da mais-valia. A maioria deles não conhecia sequer o conceito e, também, jamais haviam se questionado sobre o assunto. Não tinham tempo para pensar, posto que seus tempos livres gastavam-nos hipnotizados pela moral dos dominantes. Os zumbis apenas babavam. Sobre Karl Marx nunca souberam o que pensou ou pregou. Sabiam apenas que era maléfico e comia criancinhas. Não sabiam que lutara para que trabalhassem menos; de fato, jamais saberiam. A sociedade do Capetal dentro da qual viviam era montada justamente de forma a esconder tal fato e privilegiar alguns que não tinham hora para acordar ou, se tinham, não se importavam com o fato, uma vez que suas contas no banco suíço estavam pululando de valores de troca por bens de consumo e sexo. Enquanto isso, o aparelho receptor de ondas eletromagnéticas continuava a transformar em imagens as estupidezes do entretenimento hipnótico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-6906912828988620165?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/03/zumbi-palmar.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-2217144010273480379</guid><pubDate>Tue, 10 Mar 2009 13:00:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-03-10T10:32:44.045-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>lirismo</category><title>Infalibilismo</title><description>Combinei com Ramon de irmos juntos à reunião social naquela noite. Ele agora me ligava  a pedir que passasse previamente em sua casa de forma que pudéssemos tomar um vinho e conversar um pouco de modo a aquecermo-nos para a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;soirée&lt;/span&gt;, que muito prometia. Tínhamos este hábito de encontramo-nos por vezes para trocarmos idéias e tocarmos um leve violino antes que fôssemos aos bailes. Por vezes invitávamos outros amigos e senhoritas para participarem do pré, enquanto noutras feitas preferíamos esticar a madrugada num pós, sempre deveras animado. A vantagem de sair com o companheiro provinha do fato de que ele era um dos maiores -- senão o maior -- galanteador que eu já houvera conhecido. Não importava por onde estivesse, Ramon sempre tivera aquela língua solta, uma lábia e um charme associados à ginga do verdadeiro conquistador. Conhecia perfeitamente suas próprias capacidades de conquista do sexo oposto e frequentemente jogava às claras com as mulheres. Dizia que teria vindo ao mundo para amar e ganhava-as com a astúcia e a precisão de um verdadeiro jogador. Era aquilo a sedução para ele: um jogo, pura diversão. Para aqueles que o acompanhavam e tinham certas pitadas de sorte ou até charme, por vezes sobravam também outras donzelas desacompanhadas e sedentas por lirismo. Eis a minha sorte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela sexta-feira, entretanto, eu me sentia um pouco mal e cheguei a lhe dizer que seria preferível que nos encontrássemos diretamente à casa de nosso anfitrião. Mas por algum motivo sua voz dava sinais de ansiedade incomum. Insistia, assim, para que eu passasse em sua casa para conversarmos. Reiterei que preferiria encontrá-lo diretamente na festa e então ele me disse que por favor fosse visitá-lo e, dada minha contínua negativa sob alegações de mal estar, ele disse que contar-me-ia seu segredo último para a conquista feminina caso eu fosse visitá-lo. Ora, o segredo de Ramon. Agora eu não poderia mais negar o encontro, chegaria em breve. Ciao.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E neste ínterim entre o telefonema e a hora apropriada de nos encontrarmos, fiquei matutando sobre o meu amigo e sobre qual seria seu maravilhoso segredo... talvez eu já o soubesse. Eis as reflexões que me aturdiram entre o telefone e a campainha de sua casa: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em questões femininas, era evidente que Ramon sempre tinha a resposta correta a ser dada no momento exato, assim como a pergunta adequada a ser utilizada como arma de pontaria certeira. De forma contrária, sabia também evitar certos assuntos em situações inapropriadas. Exige-se verdadeira arte e técnica o fato de alguém ser capaz de encontrar assim tão naturalmente um momento propício no qual a conversa deve sair do mundo mundano e passar ao mundo poético da conquista amorosa. De alguma forma a mim inexplicável, meu amigo era um mestre na leitura das expressões faciais e fonéticas oriundas da alma feminina, sabendo identificar o momento adequado de passar da pequena conversa ao anseio galante da sedução; e daí às mais belas filosofias românticas. E assim, quando menos se esperava, soltava aquele elogio à garota exatamente no que ela tinha de mais perfeito. Este dom da surpresa bem apontada sempre mexia com alma da mulher e tocava-lhe o ponto de fraqueza lírico na forma de uma delicada carícia racional. Nosso herói trás consigo um tipo de senso estético que se parece excessivamente com o da própria mulher, o que o faz capaz de elogiar a característica correta, aquela que ela sabe estar exatamente na origem de seu fugor radiante de beleza. Por vezes fala sobre os olhos ou a boca, mesmo a nuca, o cabelo, a forma de se vestir ou certos gestos delicados. Já cheguei a vê-lo elogiar com precisão as orelhas de uma garota que realmente as tinha assim tão bem desenhadas. Equilibrava-se e seguia com tranquilidade e técnica apuradas sobre a corda bamba da psiquê feminina. Ah, como o admiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha ainda a habilidade de evitar os galanteios quando percebia que sua musa do momento já lhe havia notado o interesse. E assim as aquecia em fogo brando, deixando-as naquele estado de excitação que se sabe que as mulheres têm com relação à dúvida mágica do porvir, quando já lhe tenha sido plantado o germe da sedução. Ramon seduzia em todos os seus gestos e comportava-se diferentemente quando estávamos apenas entre homens ou quando existia, em meio ao grupo, uma ou mais delas. Sempre foi um sedutor insaciável. Devo confessar que por vezes penso forçada sua atitude, vejo-o como pedante ou até impertinente. Critico-lhe também como falso noutras situações, posto que ele se mascara de alguém que não é apenas para seduzir toda e qualquer mulher que o interesse, ainda que minimamente. Seu ideal parece ser mesmo o de seduzir todas as humanas que estejam acima de um limite não muito bem definido de beleza e é incontável o número delas que já amou. Escrevesse seus nomes em um caderno, uma por linha, já teria preenchido dezenas deles, ouso dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, como já me referi, especializou-se meu amigo na arte de saber o que fazer e o que não fazer, adquiriu esta esperteza sobre o sincronismo afetivo feminino e sabia reconhecer o tempo de cada mulher, além de ter sempre à manga outras ainda mais sofisticadas artimanhas de sedução. Era incrível, por exemplo, como sua lábia funcionava até mesmo quando da primeira vez em que conhecia uma rapariga. Não se sabe porque, mas fato é que tem um senso bastante desenvolvido em identificar a personalidade geral de certas mancebas que jamais dantes houvera tido-com e de corresponder exatamente da forma exata e direta a seduzi-las. Observava e media, instantaneamente, expressões e ações e reações, fazia cálculos cerebrais rápidos e saía com a resposta moldada à perfeição. Pessoas normais como eu podem apenas almejar tal habilidade magnífica de dizer o que deve ser dito na hora exata. Este péssimo sedutor que agora vos escreve sempre deixa passar o momento certeiro, nunca encontra as palavras adequadas e somente quando deita a cabeça ao travesseiro, tarde da noite, é que lhe vêm à cuca todas as despossibilidades do que poderia ter ocorrido caso a palavra certa tivesse saído no momento apropriado. E então já é tarde demais, as esperanças foram perdidas e o coração dos idiotas transborda litros de frustração sentimental. Sei que a sedução nada mais é do que uma questão retórica: é dizer a coisa certa no momento oportuno. E eis que Ramon não está jamais atrasado no cronômetro da sedução, sabendo sempre a hora correta de transformar o jogo da dialética numa estratégia romântica de que conquista. Meu amigo sempre termina a exaltar o belo e o romântico, posto que não há mulher que não se derreta com um homem ao mesmo tempo viril e sensível. Talvez vejam aí os atributos mais importantes ao pai ideal e, assim, as noites de meu amigo sempre terminavam em lençóis desarrumados, roupas jogadas e suor nos rostos e corpos. Ah, como o invejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contraditoriamente penso-o também um canalha, manipulador. Don Juan é capaz de deixar de lado qualquer compromisso ou tarefa que esteja realizando para se desbaldar em seduzir alguma garota com a qual não tenha ainda se deitado. Ramon parece não conhecer o valor das palavras lealdade ou compromisso quando o que está em jogo passa pelo feminino. Já o vi, inclusive, dar em cima de mulheres de (supostos) grandes amigos. Em rodas de discussões, é capaz de contradizer seus pensamentos um dia depois do outro, de forma a concordar com a maioria ou discordar dela, apenas para se destacar romanticamente em vista de seu alvo. Não tem nenhuma moral ou valores fixos e pode ser tanto o maior dos comunistas num dia quanto o maior dos capitalistas noutro. Inteligente e culto, sabe identificar o ponto forte de cada lado em disputas intelectuais e, assim, defender o ponto de vista que o fará mais virtuoso sob o olhar daquela a quem cobiça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À ausência de mulheres, entretanto, meu amigo via de regra mostrava-se um fraco. Simplesmente parecia deprimido ou sem vontade de viver. Tocava o violino com sentimento porém sem qualquer técnica, normalmente pensando em sua última -– ou próxima -– musa. Afora sua música e à ausência do feminino, apresentava um vazio interior que preenchia ambientes e não tinha opinião alguma formada sobre nenhum assunto. Era um completo relativista cultural, sempre pessimista sobre os destinos da política mundial e da liberalização social e, de fato, não achava qualquer idéia melhor ou pior que nenhuma outra. A boa idéia para ele era simplesmente aquela que seduzia uma ou mais mulheres que estivessem ao seu redor. É verdade também que por vezes podíamos percebê-lo a arrastar suas asas para determinados rapazes e nosso herói jamais negou que os apreciasse -- por vezes em demasia. Entretanto não se tem real conhecimento sobre o fato de já ter se deitado com algum deles, embora fosse bastante conhecido que participava esporadicamente de orgias. E ainda que seu amor talvez transcendesse tais questões de gênero, estava claro para todos que sua força libidinosa se dirigia principalmente aos membros do sexo que lhe era oposto. E à exceção dos casos onde seduzia as mais clássicas das mulheres, Ramon defendia atitudes pansexuais e sexualmente libertárias, onde também se dissera que já houvera feito sexo com animais e plantas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era estranho percebê-lo em rodas com várias mulheres: enquanto certas vezes poder-se-ia percebê-lo a tentar seduzir todas ao mesmo tempo, nem sempre era bem sucedido nessas situações. Era sensível, mas não era mágico. Há simplesmente um limite para a sedução de uma alma feminina -- e o limite, normalmente, é a sedução de outras destas almas. O conteúdo lírico, cultural e intelectual de cada fêmea é diferente, ainda que similar; próximo e diferente; incomensurável em qualquer quesito absoluto. Assim, a estratégia que normalmente adotava nestas feitas era a de eleger a musa da ocasião e despejar nela uma libido bem dirigida, de forma que não a largasse até que alcançasse seu objetivo, que consistia num beijo ou na promessa apaixonada de um –- dentre outras ainda mais quentes. E não era incomum que alcançasse tal meta com astúcia, normalmente mais cedo do que se pensaria alguém que olhasse para seu rosto, suas roupas, seu jeito e seus anos. Era um verdadeiro trovador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi conhecendo-o aos poucos que aquele certo asco que tive dele à primeira vista –- por identificá-lo completamente imoral e amoral –- foi se dissipando e transformando-se nesta admiração e curiosidade analítica que agora relato. O homúnculo do culturalista ou psicólogo -– simplesmente o pequeno amante da condição humana –- que jaz dentro de mim, começou a observá-lo com esta curiosidade característica das análises frias e secas às quais os intelectuais estão acostumados a fazer. Ou análises líricas de falsos poetas invejosos, poetas das palavras mas não da essência; falsos poetas. De fato, jamais consegui acreditar verdadeiramente que aquele sujeito tivesse assim tanto sucesso na conquista. A qualquer um, a qualquer uma, mesmo que à primeira vista, estava óbvio que era um trovador de primeira grandeza, sedutor fajuto que falava simplesmente o que queria ser ouvido. Repetia-se sempre, e dia após dia e reciclava os melhores galanteios de uma a outra. Tudo isso era evidente para aqueles que o conheciam apenas um pouco. Não obstante, mesmo aquelas mulheres mais astutas que isso percebiam como de pronto, não deixavam de render-lhe seus elogios e ósculos, por vezes ainda mais. Tudo isso para mim era incoerente, como poderia uma mulher... ? Ah, como o odeio! De início jamais acreditei em seu potencial sedutor -- que sempre me parecera fajuto e excessivamente clichê, mas sei reconhecer quando sou derrotado pelas evidências empíricas. Dezenas e dezenas delas, quando eu mesmo terminava minhas noites só e desolado; meu amigo seguindo acompanhado à casa, graças à sua fortuna palavrória. Hoje considero sua retórica como fato indubitável e tenho enorme prazer em sair com meu amigo para analisá-lo e tentar aprender a arte casanovística que carrega consigo tal qual membro sobressalente de seu corpo lírico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verdade é que: normalmente quando é questionado sobre o assunto, Ramon diz não saber exatamente as regras que utiliza para a conquista. Relata apenas agir naturalmente, respondendo aos olhos da mulher e então tentando identificar o tipo de homem ela desejaria. Assim, o que de fato faz é travestir-se no extremo romântico deste homem platônico particular desejado e seduzir a fêmea através de todas as técnicas possíveis -– gestos e palavras e toques e idéias e trejeitos -– fazendo-a despejar completamente em si o máximo de seu lirismo e sexualidade. Diz-se que as mulheres que passaram mesmo uma única noite com ele jamais se esqueceram de tal ocasião. Sou prova ainda de como era perseguido, em qualquer lugar que fosse, por tais senhoritas. Haveria ainda algo a mais em seu segredo que senão a fortuna da argumentação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, portanto, cheguei mais cedo em sua casa para tomarmos a taça de vinho combinada antes de partirmos para a festança. Estava extremamente curioso sobre o que me contaria sobre este seu segredo. Vindo de toda esta análise, eu não podia simplesmente acreditar que houvesse qualquer outra combinação de atos ou estratégias específicos que ele poderia vir a me contar como arma de sedução e que eu não tivesse de alguma maneira já notado, deste o início de nossa amizade, anos antes. Mas eis que havia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abriu a porta, tinha uma cara de cansaço e desânimo, convidou-me a assentar e abriu de pronto a garrafa de vinho, servindo-nos. Enquanto brindávamos, disse pensar que a morte o espreitava e que sentia o odor dela atrás das cortinas. Perguntou-se se eu sentia. Neguei. Continuou. Tinha medo de que o marido de alguma em especial, um militar, viesse fazer justiça com a própria pistola. Justiça injusta, argumentava, posto que o amor não deveria ter donos e deveria ser livre como os pássaros. Continuava enquanto colocava os braços sobre meu ombro, levantava a taça de vinho e agora far-me-ia uma confissão. Tinha-me como seu aprendiz e sabia que eu o admirava de certa forma. Eu era um dos únicos que não lhe tinham medo ou extrema inveja, eu era um bom companheiro, talvez o melhor. E assim ele desejava compartilhar comigo a melhor de suas técnicas, posto que debaixo de sete palmos ela não faria nenhum sentido em ser escondida. Esta, ele disse, seria a primeira vez que revelaria seu verdadeiro segredo da conquista a alguém. Confiava em mim tal qual a um irmão mais jovem e por isso confiar-me-lo-ia. Sua única condição era a de que eu prometesse jamais revelá-lo. Fez-me prometê-lo com a mão à bíblia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então começou seu relato, suspirou (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua teoria de sedução remontava a Darwin e àqueles que pensavam os homens como animais. A meu ver, fato consumado, estava completamente &lt;span style="font-style:italic;"&gt;d’accord&lt;/span&gt; e tinha inclusive asco daqueles antropocêntricos que colocavam o homem como superior a qualquer outro bicho que fosse. Esperou que me calasse e continuou. Uma vez que éramos animais, sua tática consistia em conquistar as mulheres através de aspectos odoríferos que nos animais eram conhecidos como feromônios sexuais ou, em palavras mais mundanas, cheiros atrativos que despertavam a vontade sexual. Relatou-me que tal tática era bastante utilizada por machos de inúmeras espécies de mamíferos para atrair fêmeas e que o que fazia, portanto, era apenas adaptar tal tática à realidade social humana. Somos mamíferos e não haveria porque a estratégia não funcionar em nossa espécie. "E qual seria exatamente a tática?", adiantava-me ansioso enquanto ele apenas sinalizava com a mão para que eu me acalmasse, já estava quase lá. E então expôs sua teoria pensando-se gênio: era possível notar o brilho narcisista e quiçá insano da extrema racionalidade oriunda de seus olhos ou cérebro-mente. E assim continuava a exposição, em êxtase. "Veja:", dizia, era certo que moléculas atiçavam nosso olfato -– e principalmente o "delas" que, por viverem em ciclos, estavam ainda mais próximas de nossa natureza animal. Havia sido provado que certos agentes químicos influenciavam, ainda que de maneira inconsciente, o comportamento sexual das fêmeas. Brilhante(?)(!) E assim, montado sobre ombros de Darwin e Freud, além de baseado em experimentos recentemente realizados sobre o comportamento sexual de seres humanos, espalhava por todo seu corpo e roupas, gotas de seu próprio líquido reprodutivo seminal -- que estocava dentro de um repugnante pote -– enquanto se preparava para qualquer evento social. Desta forma, eis o argumento, espalhava moléculas relativas a feromônios sexuais em si e tais químicos podiam ser captados inconscientemente pelo aparato cognitivo sensorial das fêmeas, atiçando-as fortemente no quesito sexual. E era este, portanto, seu mais brilhante segredo de conquista que confessava a seu irmão ao sentir a eminência da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não trocamos, depois disso, uma única palavra. Fomos à sala de estar e tocamos um pouco de violino. À boa hora, pegamos nossos casacos e fomos ao baile. Antes de sairmos, ele disse precisar passar seu "perfume especial". Foi e voltou sem diferença odorífera perceptível. Lá chegamos, dançamos e bebemos. Ao redor delas, seus anseios e medos evaporavam. Ao fim da noite voltava para casa mais uma vez acompanhado e eu, sozinho. Ainda hoje está vivo e eu jamais contei seu segredo a ninguém. De fato, jamais o farei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-2217144010273480379?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/03/infalibilismo.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-5730996703235685235</guid><pubDate>Tue, 03 Mar 2009 13:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-03-06T12:19:05.871-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crítica social</category><title>O último sorriso</title><description>Era uma vez um sujeito muito sério. Não conhecia o significado da palavra diversão e não tolerava absolutamente nenhuma brincadeira com seu nome ou imagem, posto que se considerava o mais sério dos homens. Era como aquele personagem de Eco; e teria queimado pessoalmente todas as cópias da Poética de Aristóteles, caso algum exemplar ainda existisse. Quando foi repentinamente acometido por um rompimento de vasos cerebrais, tal incidente não poderia ser outra coisa que senão muitíssimo-sério. Até mesmo os infortúnios biológicos respeitavam aquele homem de tantas posses. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Morreu.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;O cadáver ao velório, no entanto, tinha um sorriso forçado. Foi o melhor que o pobre funcionário da companhia funerária pôde fazer por ele. Há de se reconhecer seu esforço. Apesar disso, houve quem achasse aquilo um desaforo à Imagem do sujeito. Fato é que, depois de passar décadas a finco ser esboçar um único sorriso, nosso herói foi condenado a descansar por toda a eternidade com um amarelo nos lábios. Com sorte, microorganismos devorá-lo-iam rapidamente. Pobres são os animais com reduzida moral alimentar e/ou elevada moral própria ou/e pretensa capacidade de julgamento social.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-5730996703235685235?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/03/o-ultimo-sorriso.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-4575002982142354962</guid><pubDate>Tue, 24 Feb 2009 05:48:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-02-24T10:49:03.455-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>surrealismo</category><title>Aurora ao meio-dia</title><description>Era um dia quente de Abril e eu andava sem motivações pelos campos secos de minha cidade natal quando fui repentinamente abordado por oficiais da ordem que me algemaram e agora me empurravam nalguma direção desconhecida. O que eu dissesse, disseram, poderia ser utilizado a favor do tribunal acusatório, caso eu tivesse direito a ele. Em dúvidas do que então desdizer contra a minha própria pessoa, veio-me à cabeça um poema daquele Pessoa, Álvaro de Campos, que recitei por completo -- talvez trocando uma ou outra palavra, da qual a memória me mancava, por outras quaisquer que me teriam me parecido apropriadas naquele instante: "Se queres matar-te, mata-te!" E assim, tendo-lhes incitado o suicídio, um dos ordeneiros que me fazia de refém pegou sua pistola e apontou à sua própria cabeça, perguntando-me o que deveria fazer. E minha contínua expressão de jogador de poker fê-lo apenas apontar a arma à minha cabeça e, dado o contínuo da nulidez facial, desistiu deste quem vos fala e apontou-a então à cabeça de algum transeunte qualquer que por ali se promenava. Sabendo então das arbitrariedades que ocorriam naqueles tempos sob a insígnia de uma moral e de uma ordem que não eram partilhadas por ele, o sujeito gritou em prantos e rogou por sua vida. E quanto mais falava, mais nos era possível ver seu algoz mascarado inflando-se em gozo -- posto que eram momentos como aqueles que o faziam sentir-se um verdadeiro homem. Era submeter seus próprios concidadãos ao medo e à apreensão que lhe dava o maior de todos os prazeres. E do alto de autíssima estima, gritou então palavras de ordem, afirmando o assassinato e sua autoridade. E quando puxou o gatinho não se ouviu outro barulho que senão o giro em falso do tambor da arma que ia sem projéteis. Sorriu uma risada sinistra e mórbida, empurrando o defecado ao chão. Havia demonstrado seu poder e agora seguia gargalhando a empurrar-me até não-sei-onde.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Entramos num prédio da agência governamental para a ordem e o progresso. Ali dentro tratavam-se uns aos outros com um respeito amedrontador. Não se parecia compreender o significado da palavra amizade e uns olhavam aos outros com um receio pior do que o que tinham de si mesmos. Entramos num elevador velho e caquético que permaneceu descendo por vários minutos antes que a porta se abrisse e desse num átrio isolado, cheirando algum químico que não pude de pronto reconhecer. Fui empurrado sem gentileza por corredores e mais corredores até que não tivesse qualquer idéia de onde estava. Jamais proferi palavra ou demonstrei medo ou coragem. Era não mais do que um zero à esquerda. Colocaram-me então dentro de uma cela que apenas posteriormente me dei conta de quão enorme era e de quantos outros macacos não se encontravam por lá. Era uma verdadeira selva e os indivíduos ali presentes pulavam de árvore em árvore e gritavam uns com os outros. Batiam no peito, mostravam os caninos e faziam demonstrações ininterruptas de suas forças físicas uns para os outros. Compreensão mútua era um conceito faltante naquele lugar e o quando finalmente encontrei um canto escuro e desapercebido à tudo que por ali acontecia, sentei-me e esperei-me enlouquecer. E ali passaram os dias: sol e lua, sol e lua, sol e lua. Mas eu não consegui enlouquecer, logo eu que sempre me pensara assim tão próximo da linha divisória da lucidez. E assim, em minha completa sanidade, eu não poderia mais aguentar um único virar soluário naquela imensidão ineducada de macacos tão brutos. Aproximei-me da beirada da cela e bati com um graveto nas grades sem qualquer esperança de que o som pudesse ser ouvido por qualquer um e que houvesse ainda que uma mínima possibilidade de algum sujeito de compaixão ali chegar para me soltar. Mas eis que fui bem sucedido na empreitada e logo aproximou-se um ordeiro para escutar meus lamentos. Dado que não pôde escutar o que eu dizia através da grade, abriu-a sem utilizar chave e tirou-me lá de dentro. Convenci-lhe de minha educação clássica e disse que não poderia mais aguentar uma jornada que fosse ali dentro. Ele mostrou um ar de compaixão ignorante ou de completa incompreensão, talvez. Fato é que segurou meu braço e encaminhou-me por entre corredores e mais corredores e corredores ainda, até que eu me visse perdido. Soltou-me então e disse-me: vá para onde quiseres. Vaguei então por aquele labirinto perdido sem conseguir encontrar ser humano qualquer. Andei por portas e portas que se abriam e fechavam. Portas que davam em paredes, paredes que se interrompiam em portas. Encontrei então um conjunto desses lugares cercados de grades e entrei num ou noutro, apenas para me certificar que continham o mesmo tipo de animais daquele outro recinto onde houvera estado. Assegurei-me que aqueles sítios não eram pouso para meu ego. Ao menos havia aprendido a agora entrar e sair livremente de tais abismos da alma. Numa feita encontrei um ordeiro ao meio do caminho que pegou-me e ofereceu-me socos e pontapés gratuitos que tive por obrigação de aceitar, dada minha situação calamitosa. Depois de saciar-lhe a vontade de violência, perguntei-lhe se poderia levar-me àlguma biblioteca. Tão agradecido a mim quanto um lutador ao seu saco de pancadas, segurou-me então no braço e encaminhou-me por entre corredores e mais corredores e corredores ainda, até que eu me visse novamente perdido. Por fim, jogou-me numa sala que não era de grades, porém de porta: madeira maciça. Empurrou-me lá dentro e fechou-a atrás de mim, virando a chave. Desta vez eu estaria de fato trancafiado. Lá dentro percebi que era noite e -- dado a ausência de luz artificial -- havia ali apenas certa claridade proveniente da lua e das estrelas, permitindo-me ter uma idéia bastante vaga do que ali se encerrava. Em dúvida se gastaria neurônios formando uma imagem falsa do recinto, naquele momento, decidi interromper meu processamento cerebral e apenas acocorar-me a um canto, esperando que a luz solar me permitisse ter uma visão suficientemente precisa sobre onde eu me encontrava. Não tardou e o levantar do sol, mostrou que qualquer idéia que eu fosse ter sobre o lugar no período noturno, teria sido falsa. A economia neuronal não havia sido em vão. Isso posto que de uma biblioteca esperava-se corredores e mais corredores com prateleiras e mais prateleiras rabiscadas de livros e história e filosofia e literatura; informações sobre o homem que, de tão imensas, jamais seríamos capazes de tocar ou apreender, deglutindo-as com nossa consciência limitada e uma vez dada nossa finitude perante o tempo. Mas eis que eu me encontrava de fato em uma sala pequena, onde haviam duas escrivaninhas grandes. Em uma delas, assentava-se uma senhora que de tão velha talvez fosse nos seus duzentos e treze anos, quiçá ainda mais. Olhei para ela e ela me retornou um sorriso que dizia: ah, finalmente um companheiro intelectual. Atrás de cada uma das escrivaninhas havia simplesmente uma pequena prateleira com cinco ou seis andares que poderiam conter talvez cinquenta livros cada, dispostos em colunas. Eram apenas trezentos livros e a mulher disse, olhando para os seus: "já os li todos", completando: "já os decorei". E então começou a citá-los; e deve ter recitado umas duzentas e dezenove páginas até que interrompesse seu português de antigamente para dizer: "é bom que o senhor esteja aqui". Mas eis que era apenas a prateleira dela que estava repleta de livros, enquanto aquela que seria supostamente a minha se encontrava simplesmente vazia. Ela me disse para que assentasse em meu lugar. Encaminhei-me até a cadeira da outra escrivaninha e quando ainda testava sua confortabilidade, cresceram raízes da cadeira que prenderam nela meus braços. Outras vieram do chão e prenderam também meus pés àquele lugar, de forma que dei-me conta finalmente que permaneceria ali porquanto durasse em mim o sopro vital. E quando virei-me de costas e observei de novo a prateleira, percebi que ia repleta. E ali estava todo o conjunto das obras que formavam como um intelectual. Algo como se meu cérebro e todo meu conhecimento tivesse sido lido e transformado nas obras que mais haviam marcado minha existência cultural e meus estudos desde que começara a transmutar meu cérebro animal num cérebro social e cultural. Entretanto as seis prateleiras transformaram-se em oito e esticaram-se horizontalmente. A velha ficou surpresa e observou-me então com admiração e fascínio. Também eu não entendi o que acontecera. Retruquei à velha o olhar, percebi também que raízes a prendiam ali mas que, não obstante, era-nos possível ter uma certa mobilidade medida em metros. Aproximei-me de sua escrivaninha e reparei nos títulos dos livros de sua biblioteca própria. Percebi que era então filóloga e que talvez todo o conhecimento que se tinha acumulado até sua época sobre as mais diversas línguas e origem das palavras iam em sua biblioteca pessoal. Ela disse perceber-me científico e adorador da dúvida epistemológica. Sempre houvera também interesse sobre este assunto e revelou-me que jamais fora tão feliz desde há muito, posto que já via lido e relido por tantas vezes sua própria biblioteca e agora um novo mundo se abria para o sua ânsia de conhecimento. Minha chegada lhe fazia alcançar um novo limite da intelectualidade e poderia fazer-lhe compreender melhor sobre tudo que acontecia ao mundo e quiçá a si mesma. Talvez um dia, disse com esperança, conseguisse descobrir o segredo de tudo e assim descansar em paz. Argumentei que não havia grande segredo algum e tudo era caos desordenado sob a luz da interpretação cognitiva humana, mas ela continuou. Estava desde há muito presa à vida e àqueles livros, pelo menos agora teria novos horizontes para avançar. Conversamos por todo o dia e à noite também continuamos a trocar idéias sem que nada víssemos. Quando o sol do dia seguinte iluminou a sala, havia uma nova mesa ao lado da minha e da dela, totalmente desocupada, com uma outra estante a lhe acompanhar. E a velha, percebendo minha curiosidade, disse de ímpeto que eu não criasse naquela mesa muita esperança posto que décadas e mais décadas haviam se passado sem que ninguém adentrasse aquele recinto. E que eu não deveria esperar realmente a ocupação daquele lugar tão cedo. De fato, repreendi-a, não esperava nada, apenas me surpreendia posto que aquela mesa e estantes não haviam estado ali antes. No que ela disse citando Hamlet do fundo do coração com a voz que só tem aquele que passa séculos sem nada dizer e como só se pode fazer quem já incorporou as obras literárias em seu âmago através da leitura fiel, contemplativa e repetida de todos os versos, por centenas ou milhares de vezes: "há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia". E tendo dito isto, pegou um Aristóteles em minha prateleira e, com uma ansiedade graciosa e infantil, partiu a devorá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-4575002982142354962?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/02/aurora-ao-meio-dia.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-3469390570792851085</guid><pubDate>Sun, 15 Feb 2009 13:58:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-02-20T14:19:49.819-03:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>crítica social</category><title>O automito</title><description>&lt;br&gt;O sujeito que mitificava a si mesmo o fazia de forma assim tão forte e extensiva que, quando se olhava ao espelho, era incapaz de enxergar-se com honestidade. Sapo que se via príncipe. Porém que em seus complexos labirintos psicológicos, sabia que o reflexo não tinha relação direta com seu próprio, auto ou mesmo. O que de fato via e interpretava segundo mecanismos neurológicos ainda desconhecidos, continha apenas uma relação superficial com aquilo que era. De fato sabia disso no fundo de seu âmago, mas jamais admitira conscientemente o fato. Alta-auto auto-alta estima. Em excesso. E quando se observava sob as águas de um rio manso, associava àquela visão de si a um sem-número de fatores diferentes que, quando lidos à luz da rasa razão, eram interpretados sob insignias associadas sempre a virtudes. Tal narcisismo de nosso personagem era entretanto manco, posto que é amplamente sabido por todos seus contatos que ele de fato sente-se extremamente incompleto ou faltoso, pedaçoso e limitado, pequeno ou ingrande, preso a amarras invisíveis e assim tão fortes. Ele também tem certa consciência do fato. Ainda assim, nos comércios do cotidiano, vende de si esta imagem associada às maiores de todas as aptidões: física, romântica, moral, intelectual, sexual, filosófica, criativa e liberal. Atachou a si valores virtuosos que jamais questionou sinceramente, aceitando-os simplesmente como corretos e daí partindo para se preocupar com outras amenidades que vão do dia-a-dia; sempre à procura de chaves ou com o aluguel em atraso. Por vezes lhe assaltava a dúvida sobre o fato de que, se era mesmo o que pensava que era: príncipe e galante, gigante em todos os aspectos pensáveis da natureza humana; porque é que não se sentia uma pessoa completa?, por que não era assim um ser vivo radiante e vivente e amante? Fato: era apenas mais um respirante, como todos os outros zumbis ao seu lado. Não, não era assim -- tentava se convencer. E então ia lavar a pia do banheiro ou assistir mais algum filme hollywoodiano idiota, de forma a não se colocar em questão e apenas tudo esquecer. Dormir, invariavelmente, era também solução. E havia fins de semana inteiros em que mal saia da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espelho, espelho meu, diria o sujeito. E completaria então a frase tal qual a bruxa dos contos de fadas, exceto pelo fato de que seu espelho era sua psiquê enganadora e defeituosa, que respondia sempre a falsa verdade de que era ele sim o próprio arquétipo da perfeição masculina -- em todos os sentidos que se poderia pensar sobre o assunto. Seu lado gata borralheira, entretanto, por vezes acordava assustado, em altos. Nestes momentos reconhecia em si a angústia existencialista, a falta de sentido, a metade faltante, toda aquela incompletude. Cinderela e madrasta era o sujeito que mitificava a si mesmo. Faltava-lhe virar a cabeça para o leste e seguir em frente, herói em busca do auto-conhecimento. Seu lado conto-de-fadas era porém mais forte e vigoroso que seu lado esfinge e a mitificação própria exercia em sua psiquê uma influência forte e desequilibrada, pensando brutalmente em sua balança emocional. Foi-lhe sugerido fortemente que migrasse para o oriente, de forma que permitisse seu yin penetrar seu yang, ou o yang ao yin, posto que desequilíbrio é tão somente desequilíbrio, falta de homeostasia; e não importa de fato qual lado invade o outro, importa apenas o estado assim tão afastado do nirvana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto lhe foi falado sobre o auto-conhecimento -- e posto que seu consciente ainda permanecia subjugado pelo auto-engano -- que foi seu inconsciente que se decidiu sobre a ação: luzes e câmeras. E então partiu de suas raízes gregas para tentar ensaiar seu rumo em direção ainda mais a leste. Oniricamente viajou à terra de Sidarta e ouviu conselhos de monges que lhe disseram tudo que precisava saber para desmitificar-se e poder finalmente ser capaz de ver seu verdadeiro eu quando da imagem refletida. Mas eis que a mitificação que fazia de si era assim tão enormemente potente que, quando acordou, rogou à alma de Freud para que guardasse tudo aquilo dentro dalguma parte intocada de sua psiquê. Ele não estava preparado. E assim, o ideal do psicólogo austríaco que ia em si realizou com razoável eficácia tal tarefa, ainda que a contra-gosto. E eis agora vai dentro da psiquê do ser que não é ser porém um personagem de si mesmo, doutor Sigmund, a tentar organizar as coisas e ir aos poucos soltando verdades que atingirão o consciente do paciente de maneira lenta e dolorosa, porém gerando saúde mental ao decorrer dos anos. Seres humanos são fracos e não estão preparados para revoluções, ainda que elas venham para o bem. Em passos de tartaruga move-se a sociedade e a psiquê dos homens que a constituem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje o auto-mito olhou-se ao espelho e não se reconheceu, viu um moribundo ao invés de um herói e teve um choque. Tremeu da cabeça aos pés ao se constatar como era e houve quem culpasse o pai da psicologia, que ia em sua cabeça, de ter soltado uma parte assim tão grande de toda a verdade-verdadeira sobre seu fracasso na vida profissional e amorosa e pessoal e tudo mais. Narciso não aguentou e colapsou. Foi internado e passou alguns dias sob estreita vigilância médica. Agora passa bem. Teve um susto ao perceber-se o boçal que realmente era -- e que sempre fora -- e agora estava traumatizado. Pegou novamente a fantasia que colocava sobre sua imagem e ali a posicionou, mais certo do que nunca sobre fato de que disso valia sua sanidade mental. Escondeu-se ainda mais, trasvestiu-se, mascarou-se. Mas o doutor Freud que habitava em seus giros mente-cerebrais não deixaria que as coisas corressem desta forma e, assim, ele agora tomava apenas um pouco mais de cuidado ao liberar do inconsciente verdades a atingirem o consciente do homem que se automitifica. Temia a somatização exacerbada do conhecimento verdadeiro sobre a imanente verdade: o sujeito era um bosta. E eis que o pequeno homúnculo freudiano neste instante continua realizando prolongada operação psíquica de rearranjo, onde tenta reequilibrar as forças do herói que assim se pensava contra o imbecil que de fato é. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até hoje sua vida anda em desequilíbrio e ainda se vê um super-herói quando interroga o espelho. Ao lado do travesseiro, entretanto, chora sua imbecilidade. Precisa amadurecer e crescer, nosso personagem. Precisa reconhecer, admitir e engolir o fato existencialista de que ser humano não é tarefa fácil. Precisa entender que são todos lindos, apesar de seus defeitos. E que o defeito não é que senão um charme. Assim como o charme não é que senão uma particularidade estranha e, alguém diria, defeituosa. Precisa sair desta bolha em que está e aceitar-se plenamente como virtuoso, ainda que imperfeito em um sem número de pontos. Longe da perfeição, não obstante virtuoso. Posto que todos os seres humanos são yin-yang, todos os seres humanos são ovelhas e cordeiros, são lobos de si mesmos e da sociedade. Há de se aceitar esta verdade e tentar buscar ainda mais virtude através da realização de sonhos pessoais. Antes de tudo, deve aprender que é preciso sonhar. É preciso largar mão deste mundo de mentira, deste seu conto-de-fadas que opera nesta sociedade falsa e falida que insiste em nos dizer que devemos acordar todos os dias e trabalhar em alguma merda de emprego para podermos sobreviver e ganharmos cada vez mais desta coisa que não merece sequer ter uma palavra a lhe descrever. É preciso dizer à este horror de sociedade e aos homens que se automitificam que aquilo que nos faz sobreviver é o que nos faz amar, é o que nos faz viver, é o que nos sonhar, é o que nos saborear a vida como guloseima, é o que contaremos com orgulho para nossos netos -- se um dia eles vierem; e eles virão. A vida é uma só e precisa ser bem vivida, não podemos gastá-la inteira ao acreditar nessas idéias e ideais fajutos que eles martelam em nossas cabeças: casa, bens, emprego, bens, esposa, bens. Precisamos muito mais do que isso posto que somos entes, somos seres, somos vida e amor. Transcendamos. Não somos fantoches manipuláveis nas mãos dos poderosos. Não somos a água que vai mover o moinho da sociedade, somos seres. Não temos uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;raison d'être&lt;/span&gt;, somos um fim em nós mesmos: eis o significado filosófico da palavra ser. Não vivemos "para" nada. Apenas vivemos e somos, ponto final. O presente é o que importa. Deixai-vos de construir o futuro e contruí-vos vosso presente. O pequeno Freud mental trabalha incessantemente trazendo memes daqui para lá, consertando conexões e tentando apresentar lentamente novas frentes de batalha psíquicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;-- Escolha o leitor, o destino de sua vida. Ou melhor, o destino final deste conto: otimismo ou pessimismo, verdade ou falsidade, máscara ou honestidade psicológica.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;OTIMISMO DO AUTOR, epílogo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda que o pessimismo pudesse vir aviltando a mente dos leitores até o momento, resta saber que houve um dia em que as idéias clarearam em sua mente. Neste instante, o automito sentiu-se livre como um pássaro a voar nos céus, sem direção. O sopro epicurista invadiu sua mente. Conexões foram finalmente formadas com certa força e pensou-se livre dos dogmas e dos seus deveres como cidadão-robô. Não devia mais nada. Mas agora evitava espelhos e reflexos, ainda tinha dificuldades a se enxergar. O que fez foi juntar as trouxas e partir. Está agora no oriente, está na África, no ocidente e nas ilhas, ou sobre as montanhas, não sabe mais onde está. Expandiu-se sobre o espaço e sobre o tempo. O homem que uma vez se automitificou agora vive simplesmente ao redor de pessoas que ama muito, seu tempo passou a ser o agora e seu lugar é sempre onde ele está. Não precisa mais de espelho nenhum, não é gata borralheira ou narciso, madrastra ou cinderela, despejou Freud e seus discípulos com gratidão e os fez livres. Agora não pensa em mais nada. Vive o momento e o vive com o explendor e a certeza de que tudo o que faz permanece marcado na história do infinito. Sabe de suas limitações e tenta superá-las, uma após a outra. Aprende todo o dia, todo instante, aproveita o momento e carpedia alegremente. Age sempre com responsabilidade e compaixão. Não é rico e não dá a mínima para a riqueza, o pão porém nunca lhe falou; nem mesmo o vinho. Não lhe faltou o amor ou a esperança. Expandiu-se. Implodiu-se. Explodiu-se. Está agora em todo lugar. Está em mim e em você. Sinto-o comigo. Ele está livre, ele vive, ele pulsa, ele arde. Ele é o poeta que está preso na alma de todos os humanos. Não prenda o seu poeta, liberte-o! Seja o homúnculo freudiano de sua alma lírica. Rearranje seus valores. Liberte-o! Liberte-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;PESSIMISMO DO AUTOR, epílogo alternativo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sinto dar-lhes a má notícia, mas morreu hoje o automito: o obituário está nos jornais. Jamais foi capaz de ver-se como realmente era e aceitar a mágoa em que consiste a verdadeira realidade do mundo e de si mesmo. Morreu velho e deprimido. Reproduziu-se e teve família, achou noutros um pouco do que faltava em si. A saber: os defeitos. A imagem do psicólogo que vivia em sua mente trabalhou até o fim e conseguiu fazer progressos, porém a psiquê do nosso pobre herói havia sido forjada socialmente utilizando fortes martelos, metal duro e resistente a modificações. Jogo trapaceiro e perdido já de início ao seu pequeno Freud mental, que jamais seria capaz de realizar todas as grandiosas mudanças psiconeurológicas necessárias. Havia locais ocupados e conceitos assim tão longínquos que jamais poderiam ser conectados por braços neuronais preguiçosos que recusavam a crescer e fazer novas conexões. Até a ultimíssima vez em que se olhou ao espelho, o automito viu uma pessoa que não era a si próprio porém uma representação virtuosa irreal que lhe fazia um falso bem. Superficial reflexo luminoso, escudo e máscara, fantasia de um fraco. A última imagem que seus neurônios foram capazes de formar antes do colapso consistiu nesta sua falsa visão, à qual olhou com enorme admiração e orgulho. E o burburinho que rondou durante o velório foi o de que a expressão que tinha o cadáver no caixão consistia, de fato, num sorriso desgostoso -- como se tivesse comido a vida, e não gostado.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-3469390570792851085?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/02/o-automito.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-7104786838485834238</guid><pubDate>Tue, 03 Feb 2009 14:20:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-02-09T13:30:13.574-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>humanismo</category><title>Sensação e razão à luz da finitude humana</title><description>Abro a porta. É o fim de mais um dia. Na verdade, já há horas, é o começo de um outro. Ininterruptos são os ciclos. O sol ilumina o domingo alsaciano. Vou até a cozinha para poder tomar um ou mais copos d'água. Nenhuma droga é melhor do que a mais pura água na chamada profilaxia da ressaca. Por que a água não é considerada como droga? Abro a torneira da pia e deixo-a escorrer um pouco, a água do cano. Alguns segundos depois, coloco o copo ali debaixo. Tomo um gole. Mas, o que é isso? A água está quente! Verifico se abri mesmo a torneira correta, água fria, e comprovo positivamente tal hipótese. Estamos no inverno europeu e a água-fria simplesmente não pode ser água-quente. Lá fora, o frio vai na escala negativa dos Celsius. Jogo a água fora. Não gosto de beber água quente. Encho mais uma vez o copo, e outra vez me vem água quente. Ora, isso não é possível! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Quando clico o botão criar nesta página da internet, meu cerebromente dança. Ainda não encontrei uma boa palavra para expressar esta ligação mente-corpo, corpo-mente que representa nosso ser. No fundo, chamar-me-ão de materialista. Como biólogo e cientista não posso acreditar que a mente seja uma entidade separada do corpo físico e -- embora concorde que esta seja uma idéia psicologicamente atrativa, fazendo-nos acreditar que nossa consciência pode expandir as limitações da matéria e adentrar-se rumo ao eterno -- não coloco nela minhas fichas. Esta minha descrença sobre a separação cartesiana mente-corpo baseia-se em evidências empíricas no ramo da neurologia, assunto pelo qual sempre fui interessado. Oliver Sacks, Antônio Damasio, Daniel Levitin e companhia têm demonstrado que a mente de seres humanos muda radicalmente quando seus cérebros são afetados. De alguma forma, portanto, é a constituição física de nossos cérebros, quando conectados aos nossos órgãos do sentido, que produz isso que chamamos de mente. Defeitos neste arcabouço físico provocarão defeitos operando em bola de neve no funcionamento de nossa psiquê. Para aquele que entende de computação, a analogia dos tempos modernos é clara: cérebro-hardware, mente-software. Pesquisadores em neurologia -- estudando acidentados desde Phineas Gage -- chegam a ser capazes de descobrir até pequenas regiões cerebrais associadas a determinados comportamentos sociais razoavelmente bem definidos. O sujeito que tem um problema numa determinada parte do cérebro perde a capacidade de reconhecer rostos de seres humanos e identificá-los a determinadas pessoas -- e assim, chega-se a confundir sua esposa com um chapéu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;E então são seis horas da manhã, eu estou bêbado voltando de três festas consecutivas e fico neste dilema razão-sensação, posto que a água-fria não pode estar quente, mas está. Por um momento acredito mais na razão e penso que devo estar sentindo errado depois do abuso no álcool. Mas não posso estar sentindo errado, isso não existe. Ou existe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Descartes que me desculpe, mas mente e cérebro e sistemas sensoriais funcionam todos juntos e de maneira integrada. Da mesma forma, o som que nos chega aos ouvidos não é o som que escutamos. O sensação que temos de escutar o som dá-se a partir de um processamento cerebral das ondas mecânicas sonoras que nos chegam ao ouvido. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Ipsis literis&lt;/span&gt;, não escutamos com os ouvidos, porém com o cérebro. E assim, se mente e corpo são apenas uma única entidade integrada, poder-se-ia supor que nossa morte física seria o mesmo que nossa morte sensorial, a morte de nossa consciência e de tudo aquilo que fomos. Mas prefiro enxergar o acontecimento sobre uma nova óptica, mais otimista. Aqui modifico, num sentido social, tantos os conceitos de vida-e-morte quanto o conceito de eternidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Já sei o que aconteceu, razão e sentimento agora se reúnem num todo coerente. Uma explicação lógica se faz, liga-se sentimento e razão. Tem-se uma hipótese, explicação racional que leva em consideração os dados: a água está quente. O calor, porém, é um conceito relativo. Para quem sai de uma rua fria -- graus Celsius negativos -- e adentra um apartamento quente, encontrará água quente no cano. Veja bem, não sou destes que gastam energia em excesso e sempre que saio de caso, desligo o aquecimento. Entretanto sou um ambientalista que mora no sexto andar, e bem se sabe que o calor sobe na atmosfera, baixo para cima. Por vezes mal preciso ligar o aquecimento, posto que há cinco habitantes abaixo de mim que fazem o favor de esquentar o meu apartamento, obrigado. E então chego num ambiente aquecido. Ambiente aquecido é igual a cano aquecido que é igual a água aquecida. Mesmo que seja a água teoricamente fria, ela foi aquecida pelo calor dos apartamentos abaixo e, voilà, é por isso que ela está quente. Não estou sentindo ou pensando errado, apenas não havia considerado todas as possibilidades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Começo da biologia para explicar sobre como nos tornamos eternos: nenhum organismo que se reproduziu e cujos descendentes sobreviveram, já esteve morto. Reproduzir-se é manter-se vivo. É evidente perceber que todos nós, hoje vivos, descendemos de uma enorme trajetória de seres que vieram antes de nós e que se reproduziram com sucesso. Se um único de nossos ancestrais não tivesse se reproduzido com sucesso, não estaríamos aqui hoje respirando este ar que nos mata. A biologia trata da hereditariedade e, em organismos como os seres humanos, qualquer pessoa apresenta um conteúdo genético X que é formado por metade da informação molecular oriunda do pai, e outra metade oriunda da mãe -- com pequenas variações possíveis. Volte mais uma geração e perceber-se-á que os netos possuem 25% do conteúdo genético de cada um dos quatro avós. Temos mesmo 12,5% do genoma de cada um de nossos 8 bisavós. Podemos-se dizer assim que eles estão mortos? Não sei dizer ao certo. Talvez uma boa resposta seja: não completamente. Todos somos o produto da mistura do ser humano com o ser humano e contemos, em nossas células, a informação de todos os seres humanos que viveram antes de nós. Quem dirá que não podemos ser considerados como uma nova versão de nossos pais? Eu assim me considero. E é em nós também que culmina toda uma longa história da vida na terra, vida esta que parece ter sido originada bilhões de anos atrás, moléculas replicantes de alguma coisa como um RNA. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;A água portanto está quente posto que foi aquecida pelos apartamentos abaixo. Não há nada que comova mais um cientista do que encontrar finalmente uma explicação para o inexplicável. Como ligar fatos estranhos e anômalos à teorias? Não poderia de fato haver água-quente saindo da torneira de água-fria no inverno. A menos que os vizinhos tenham esquentado sua água com o calor que sobe de seus apartamentos. O trabalho científico é um trabalho de investigação e por vezes esquecemos de levar determinados fatores em consideração. Este esquecimento pode nos levar a olhar os dados com estranheza, questionar os dados, questionar nossa própria sensação ou o sentimento que temos ao observá-los e interpretá-los à luz da razão. Mas é tudo uma questão de compreender as principais variáveis que estão em jogo, encontrar a peça que falta ao quebra-cabeça e lembrar que os vizinhos esquentam nosso próprio apartamento por tabela. Benditos vizinhos, malditos vizinhos. E o método científico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Toda a informação que guardamos em nossas células vêm de misturas dos nossos antepassados que, de certa forma, ainda estão vivos em nós. E se as células cerebrais de alguma forma levam a padrões comportamentais e sociais, também nossa interação com o mundo e com as outras pessoas estará para sempre marcada na história do universo. Parto agora para o social. Ao viver, influenciamos e somos influenciados por pessoas e idéias. Pessoas influenciam pessoas num ciclo que avança e se espalha por toda a humanidade. Cada um de nós é responsável pela história da humanidade e de alguma forma, todos nós influenciamos o rumo para o qual o mundo avança para o futuro. Buda me influenciou, Hitler me influenciou. Positiva e negativamente. Eles já estão mortos há bastante tempo. Aja com responsabilidade! O que você e todos fazem, influencia o que as pessoas ao ser redor fazem e o que outros farão num futuro próximo. Você, pessoas ao redor, pessoas ao redor dessas pessoas e tem-se o mundo inteiro. Seis bilhões não é um número infinito, é um número limitado, ainda que grande. Influencie de forma positiva, e terás o retorno do mundo da mesma forma. Influencie a humanidade e transforme-a em uma única virtuose. Nossas ações influenciam pessoas e, expandidas, marcam a história da humanidade do nosso tempo. Eu sou a história e você também é. &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Sejamos responsáveis com a humanidade.&lt;/span&gt; Nossa história está aqui e está marcada, humanidade no começo do século XXI. Que as pessoas do porvir nos vejam como virtuosos. Anulemos os efeitos dos que lutam por si e lutemos por todos, pela unidade do ser humano. Passemos esta idéia e estejamos ideologicamente presentes nos livros do futuro. Não desejemos ser representados por nomes nestes livros, mas por pensamentos. Havia àquela época um grupo de pessoas empenhadas em que o homem avançasse em busca da virtuose, do estudo, da paz, da consciência e compaixão. Não interessa meu nome, interessa minha idéia e meu ideal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Nosso corpo naufragará e continuará apenas em parte, em nossos descendentes. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;Nossa mente naufragará e continuará apenas em parte, nas idéias que despejamos ao mundo e em nosso ciclo de influências que se torna cada vez maior.&lt;br /&gt;&lt;br&gt;Ajamos com responsabilidade, posto que somos eternos. Somos parte importante da humanidade do agora, além de desbravadores da humanidade do porvir. Devido à inércia social, será o humano -- em breve -- o que somos hoje. Desejemos a virtuose ao humano. &lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-7104786838485834238?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/02/sensacao-e-razao-luz-da-finitude-humana.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-8085739.post-4673956888116528444</guid><pubDate>Thu, 29 Jan 2009 13:39:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-01-29T11:51:56.567-02:00</atom:updated><category domain='http://www.blogger.com/atom/ns#'>publicação</category><title>Panorama da Prosa Brasileira Contemporânea</title><description>Três textos deste blogue -- duas crônicas e um conto -- foram recentemente publicados em uma coletânea feita sobre a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Prosa Brasileira Contemporânea&lt;/span&gt;. Senti-me bastante honrado por ter sido convidado pela poetisa &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Leila Míccolis&lt;/span&gt; para integrar tal antologia hospedada num dos maiores e mais visitados sítios da literatura-eletrônica brasileira -- BLOCOS ON-LINE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clique nos links abaixo para visitar as páginas em questão:&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;br /&gt;&lt;li&gt;Antologia &lt;a href="http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/obrasdigitais/antolog/01/capa.php" target="_blank"&gt;Panorama da Prosa Brasileira Contemporânea&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://www.blocosonline.com.br" target="_blank"&gt;Blocos ON-LINE&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_prosas.php?id_autor=3592&amp;flag=nacional" target="_blank"&gt;Chico Prós&lt;/a&gt; em Blocos On-line&lt;/ul&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Boa leitura!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8085739-4673956888116528444?l=chicopros.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://chicopros.blogspot.com/2009/01/panorama-da-prosa-brasileira.html</link><author>noreply@blogger.com (Chico Prosdócimi)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item></channel></rss>